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segunda-feira, 6 de julho de 2026

No COBOL e no Futebol : A Distância Entre a Besta e o Bestial é Mínima

 

Bellacosa Mainframe a distancia entre a besta e o bestial é minima

☕ Um Café no Bellacosa Mainframe

A Distância Entre a Besta e o Bestial é Mínima

O Que Todo Programador COBOL Padawan Precisa Saber Sobre Futebol, Carreira, Derrotas, Excelência e Como Não Repetir os Erros da Seleção Brasileira

Existe uma frase que sempre gostei:

A distância entre a besta e o bestial é mínima.

Ela vale para o futebol.

Vale para o mercado financeiro.

Vale para IBM Z.

Vale para COBOL.

Vale para qualquer profissão onde a excelência é construída durante anos e pode desaparecer em apenas alguns minutos.

A derrota da Seleção Brasileira em uma Copa do Mundo costuma gerar um fenômeno curioso. Durante meses ou anos, jogadores são tratados como gênios absolutos. São vendidos por centenas de milhões. Ganham Champions League, Libertadores, Bola de Ouro, títulos nacionais, reconhecimento mundial.

Então chega um único jogo.

Noventa minutos.

Uma eliminação.

E, de repente...

"Não prestam."

"São superestimados."

"Nunca decidiram."

Mas será mesmo?

A resposta é não.

E exatamente aqui existe uma enorme lição para quem trabalha com tecnologia.



Bellacosa Mainframe glorias passadas nao entram em campo

O currículo não entra em campo

Imagine um desenvolvedor COBOL.

Vinte anos de carreira.

Milhares de programas escritos.

Centenas de milhões de transações processadas diariamente.

Zero incidentes graves.

Então...

Em uma madrugada...

Um JOB falha.

Uma alteração gera um ABEND.

O banco fica indisponível.

O cliente vê apenas aquele momento.

Ninguém lembra dos vinte anos anteriores.

O mercado funciona exatamente assim.

Você vale muito...

...até cometer um erro enorme.

Isso parece cruel.

Mas também ensina algo extremamente importante:

Reputação demora décadas para ser construída e segundos para ser questionada.


O futebol não perdoa.

A tecnologia também não.

Grandes craques encerraram a carreira sem conquistar o maior título do futebol.

Zico.

Cruyff.

Puskás.

Di Stéfano.

George Best.

E tantos outros.

Eles deixaram de ser gênios?

Claro que não.

O problema é que o mundo costuma resumir carreiras complexas em um único indicador.

No futebol:

"Copa do Mundo."

Na tecnologia:

"Conhece Cloud?"

"Sabe IA?"

"Tem Kubernetes?"

"Programa em Python?"

Como se décadas de experiência desaparecessem por causa da moda do momento.

Não desaparecem.

Mas também não bastam.


O maior erro da Seleção

Quando analisamos diversas eliminações brasileiras ao longo dos anos, aparece um padrão.

Não foi falta de talento.

Nunca foi.

Talento sempre existiu.

O problema quase sempre esteve em outros fatores.

Planejamento.

Organização.

Adaptação.

Controle emocional.

Leitura do adversário.

Tomada de decisão.

Humildade.

Tudo aquilo que também diferencia um excelente profissional de um profissional apenas talentoso.


COBOL também possui "seleções brasileiras"

Você provavelmente conhece alguém assim.

Sabe tudo de COBOL.

Tudo de JCL.

Tudo de CICS.

Tudo de Db2.

Resolve qualquer dump.

Mas...

Não sabe explicar uma solução.

Não documenta.

Não compartilha conhecimento.

Não conversa com outras equipes.

Não aprende novas tecnologias.

Não entende APIs.

Não conhece Git.

Nunca abriu um VS Code.

Nunca estudou IA.

Nunca aprendeu OpenTelemetry.

Nunca ouviu falar de MCP.

Resultado?

Continua sendo excelente...

...mas apenas dentro de um pequeno espaço.

Enquanto isso, outro profissional talvez saiba menos COBOL.

Muito menos.

Mas entende arquitetura.

Comunicação.

Negócio.

Cloud.

Integração.

Observabilidade.

Automação.

Esse segundo profissional acaba crescendo mais rápido.

Não porque programa melhor.

Mas porque resolve problemas maiores.


O ego derrota muito mais carreiras que a falta de conhecimento

No futebol existe uma frase antiga.

"Time ganha campeonato."

Não estrelas.

No Mainframe isso é ainda mais verdadeiro.

Nenhum sistema bancário sobrevive graças a um único programador.

Existe uma enorme equipe.

Arquitetos.

DBAs.

Operadores.

Analistas.

Segurança.

Infraestrutura.

Storage.

Redes.

Middleware.

Desenvolvimento.

Negócio.

Quando alguém acredita ser indispensável...

Começa sua decadência.


A tecnologia muda o campo

Imagine um craque dos anos 1980 jogando exatamente da mesma maneira hoje.

Provavelmente sofreria.

Não porque ficou ruim.

Mas porque o jogo mudou.

Com COBOL acontece exatamente isso.

Programar COBOL em 2026 não é o mesmo que programar em 1996.

Hoje existe:

  • APIs REST

  • JSON

  • XML

  • Git

  • DevOps

  • CI/CD

  • IA Generativa

  • RAG

  • MCP

  • OpenTelemetry

  • Kafka

  • IBM MQ

  • z/OS Connect

  • Containers

  • VS Code

  • Zowe

  • GitHub Copilot

Quem ignora isso...

Está treinando para um campeonato que já terminou.


O maior adversário nunca foi o concorrente

Sempre fomos nós mesmos.

A seleção brasileira muitas vezes entrou acreditando que venceria apenas pela camisa.

Na tecnologia acontece igual.

"Tenho trinta anos de COBOL."

Ótimo.

E agora?

O mercado pergunta outra coisa.

"O que você aprendeu este ano?"

Essa pergunta separa veteranos relevantes de veteranos nostálgicos.


O verdadeiro craque nunca para de treinar

Cristiano Ronaldo continua treinando.

Messi continua treinando.

LeBron continua treinando.

Djokovic continua treinando.

Nenhum deles diz:

"Já sei tudo."

Então por que um desenvolvedor faria isso?


A derrota também ensina

Existe uma enorme diferença entre fracassar...

...e desperdiçar um fracasso.

Toda derrota entrega dados.

Toda falha produz métricas.

Todo incidente ensina.

Todo ABEND conta uma história.

O problema é quando o profissional apenas procura culpados.

Os melhores fazem outra pergunta.

"O que esse erro está tentando me ensinar?"

Essa pergunta muda completamente uma carreira.


O profissional bestial

Existe um momento em que o conhecimento deixa de ser apenas técnico.

O profissional passa a enxergar padrões.

Antes resolvia problemas.

Agora evita que eles aconteçam.

Antes corrigia JOBs.

Agora melhora processos.

Antes escrevia código.

Agora desenha arquitetura.

Antes respondia chamados.

Agora elimina categorias inteiras de chamados.

Esse é o salto.

Não é escrever mais linhas.

É produzir menos problemas.


A distância entre besta e bestial

Ela realmente é mínima.

A diferença normalmente está em pequenas decisões repetidas durante anos.

Ler um capítulo por dia.

Fazer um laboratório por semana.

Estudar inglês.

Escrever artigos.

Compartilhar conhecimento.

Documentar soluções.

Participar de comunidades.

Ensinar iniciantes.

Aceitar críticas.

Aprender algo novo todos os meses.

Parece pouco.

Mas multiplique isso por dez anos.

Você terá duas pessoas completamente diferentes.


Como não repetir os erros da Seleção

Se eu pudesse deixar alguns conselhos para um COBOL Padawan, seriam estes.

Nunca confie apenas no talento.

Talento sem disciplina desaparece.

Nunca pare de estudar.

Seu maior concorrente talvez ainda esteja na faculdade.

Aprenda negócios.

Programas existem para resolver problemas de empresas.

Quem entende o negócio sempre entrega mais valor.

Aprenda comunicação.

Grandes carreiras raramente são construídas apenas digitando código.

Domine o legado.

Mas converse com o futuro.

COBOL continuará importante.

Mas ele faz parte de um ecossistema muito maior.

Documente tudo.

Sua memória falha.

A documentação permanece.

Automatize tarefas repetitivas.

Tempo economizado vira tempo de aprendizado.

Ensine.

Quem ensina aprende duas vezes.

Aceite feedback.

Orgulho custa caro.

Humildade rende dividendos durante décadas.


O próximo campeonato já começou

Enquanto muitos discutem apenas o último resultado...

Os campeões já estão treinando para o próximo.

No mercado de tecnologia acontece exatamente isso.

Enquanto alguns reclamam da IA...

Outros aprendem a utilizá-la.

Enquanto alguns dizem que COBOL morreu...

Outros integram COBOL com modelos de linguagem.

Enquanto alguns criticam APIs...

Outros conectam sistemas escritos há cinquenta anos com aplicações modernas.

Enquanto alguns vivem do passado...

Outros constroem o futuro.


O verdadeiro título

Talvez você nunca seja o programador mais famoso.

Talvez nunca apareça em uma conferência internacional.

Talvez nunca escreva um livro.

Talvez nunca ganhe um prêmio.

E tudo bem.

Seu verdadeiro título pode ser outro.

Ser aquele profissional em quem todos confiam.

Aquele que mantém milhões de brasileiros utilizando bancos, cartões, seguros, hospitais e serviços públicos sem sequer imaginar que existe um IBM Z trabalhando silenciosamente nos bastidores.

Existe uma enorme beleza nisso.

Porque os melhores sistemas são exatamente aqueles que ninguém percebe que estão funcionando.


Um café antes do apito final

No futebol, um detalhe muda uma Copa.

Na tecnologia, um detalhe muda uma carreira.

A diferença entre a "besta" e o "bestial" raramente está no QI, na faculdade ou no talento nato. Ela está na disciplina silenciosa de quem decide melhorar 1% todos os dias.

Não transforme uma derrota em sentença. Transforme-a em combustível.

Não permita que um sucesso vire acomodação. Faça dele apenas o ponto de partida para o próximo desafio.

A Seleção Brasileira ainda voltará a disputar Copas. Alguns jogadores conquistarão títulos, outros encerrarão a carreira sem levantar a taça mais importante do mundo. Isso faz parte do esporte.

Da mesma forma, você terá projetos brilhantes e projetos difíceis. Terá noites resolvendo ABENDs, incidentes e integrações improváveis. Terá momentos em que será reconhecido e outros em que seu trabalho passará despercebido.

Continue evoluindo.

Continue curioso.

Continue humilde.

Porque, no fim das contas, o mercado não procura apenas quem sabe COBOL.

Procura profissionais capazes de aprender, adaptar-se, colaborar e construir o futuro sem esquecer as lições do passado.

E talvez essa seja a maior definição de excelência.

Não vencer sempre.

Mas nunca parar de evoluir.

Nos encontramos no próximo café.


PS: Não foi de virada a Noruega dominou o tempo todo o jogo, mas com licensa poetica, fica essa errata, somente nos ultimos minutos o Neymar diminuiu o marcador. Vamos ver quantos vão notar e comentar.



segunda-feira, 8 de julho de 2024

⚽ O ABEND 7X1 — Quando o Sistema Brasil Travou

 

Bellacosa Mainframe e o abend 7x1 no final da copa do mundo

O ABEND 7X1 — Quando o Sistema Brasil Travou

Há falhas que nem o tempo corrige.
Outras, ficam gravadas no log da alma — linha por linha, bit por bit — pra lembrar que até o sistema mais robusto pode cair diante de um input inesperado.

8 de julho de 2014.
Belo Horizonte.
Semifinal da Copa do Mundo no Brasil.
Era pra ser festa.
Era pra ser o código perfeito: alegria, samba, arquibancada pulsando, o povo em modo online full throttle.
Mas, do nada, o sistema caiu.

Alemanha 7, Brasil 1.
O maior abend da história do futebol.

Daquele jogo não sobrou tática, só trauma.
O Maracanazo de 1950 ganhou um irmão digital — o “Mineirazo”.
O primeiro foi dor silenciosa; o segundo foi streaming global de vergonha em HD.

Lembro bem daquele dia.
O país inteiro estava em modo “monitor ativo”: churrascos acesos, bandeiras nas janelas, crianças pintadas de verde e amarelo.
E, em 29 minutos, tudo desmoronou.
Um, dois, três, quatro…
Era como assistir a um job loopando no JES2, gerando erro atrás de erro, e o operador impotente diante do painel piscando em vermelho.

Aquela noite foi um dump de nação.
Não sabíamos se ríamos, chorávamos ou reiniciávamos o servidor.
A seleção, que sempre fora o sistema operacional do orgulho nacional, simplesmente travou.
A Alemanha rodou um script limpo, modular, enxuto — enquanto o Brasil, atolado em processos redundantes, colapsou em deadlock.

Nos dias seguintes, o país viveu uma espécie de IPL emocional.
O futebol virou metáfora de tudo: da economia que falhava, da política fragmentada, do jeitinho que já não compila.
A derrota virou checkpoint histórico.
E, como todo desastre, trouxe também logs preciosos pra análise.

🧩 Curiosidades e Easter Eggs do 7x1:

  • A Alemanha marcou 4 gols em 6 minutos — um loop infinito de desespero que só terminou porque o cronômetro insistiu.

  • O técnico Löw usava dados analíticos em tempo real — algo raro na época — quase um Watson Football rodando em campo.

  • Depois do jogo, o Google registrou o pico de buscas “o que aconteceu com o Brasil?” — um abend reason code coletivo.

  • Em algumas transmissões estrangeiras, o placar ficou congelado por minutos, porque o sistema gráfico não suportava dois dígitos de diferença — um bug literal do século XXI.

Mas o que mais doeu não foi o resultado — foi o desmonte da identidade.
O Brasil sempre foi o país do improviso genial, do assemble que vira arte.
E, de repente, o algoritmo europeu mostrou que frieza, método e linha de código limpa também vencem partidas.
Ali, perdemos o jogo e um pouco do mito.

Dez anos depois, a dor virou cicatriz — mas a lição ficou no SYSLOG:
mesmo o maior dos sistemas precisa de revisão, backup e humildade.
Porque a confiança demais no “jeitinho” é o que faz a máquina travar.

Hoje, quando vejo aquele replay — os gols, o silêncio, o rosto do David Luiz pedindo desculpas ao país — penso que aquele 7x1 foi um abend necessário.
O crash que obrigou o sistema a repensar sua arquitetura.
O abend S0C7 que doeu, mas limpou o buffer da arrogância.

E como bom mainframer, sei:
um sistema só amadurece quando aprende com o erro,
quando para de culpar o operador e começa a revisar o código.

O Brasil ainda está em recovery mode.
Mas, se há algo que aprendi nesses anos de tela verde e alma azul,
é que até o job que falha deixa rastro pra quem sabe ler o log.


terça-feira, 7 de setembro de 2010

Gazeta Esportiva: John Belushi, COBOL e o Jornal que Transformava Segunda-feira em War Room

 

Bellacosa Mainframe e o jornal gazeta esportiva

☕ Um Café no Bellacosa Mainframe

Gazeta Esportiva: John Belushi, COBOL e o Jornal que Transformava Segunda-feira em War Room

⚽ Futebol, rádio, bancas, tabelas, resultados, São Silvestre, Corinthians, Palmeiras, Santos, São Paulo e a extraordinária época em que descobrir o placar de um jogo podia exigir comprar um jornal — enquanto John Belushi berrava que o juiz era ladrão

Se o Notícias Populares era a interface brasileira para descobrir quem havia matado quem, onde apareceu o lobisomem e se o Bebê-Diabo havia sido visto novamente no telhado de alguma residência paulistana...

existia outra máquina de papel rodando em produção.

Só que essa processava uma matéria-prima ainda mais perigosa.

FUTEBOL.

Seu nome:

A GAZETA ESPORTIVA

E antes que algum jovem desenvolvedor COBOL pergunte:

— Bellacosa, mas era apenas um jornal de esportes?

HAHAHAHAHAHAHAHA.

Meu caro...

Dizer que a Gazeta Esportiva era “um jornal de esportes” é como dizer que um IBM Z é “um computador grande”.

Tecnicamente correto.

Culturalmente criminoso.

Durante décadas, a Gazeta Esportiva foi banco de dados, arquivo histórico, placar, agenda, tabela de classificação, serviço estatístico, catálogo de jogadores, calendário esportivo e combustível para discussões capazes de destruir amizades antes mesmo da invenção das redes sociais.

Se Quentin Tarantino foi nosso guia para o Notícias Populares, aqui precisamos de alguém diferente.

Precisamos de um homem capaz de olhar para uma derrota por 1 a 0 e reagir como se o Império Romano tivesse acabado.

Precisamos de:

JOHN BELUSHI.

Camisa parcialmente aberta.

Gravata torta.

Café na mão.

Gazeta Esportiva debaixo do braço.

Ele invade a redação:

QUEM ESCALOU ESSE TIME?!

Bem-vindo.

O batch de domingo acabou.

Segunda-feira começou.

E o SYSOUT tem 64 páginas.


CAPÍTULO I — ANTES DO GOOGLE EXISTIA PAPEL

Precisamos novamente transportar o jovem programador para uma época estranha.

Uma época em que você não podia perguntar:

“Quem ganhou o jogo ontem?”

para um retângulo luminoso no bolso.

Não havia Google.

Não havia OneFootball.

Não havia SofaScore.

Não havia ESPN no celular.

Não havia notificações push.

Não havia grupo do WhatsApp.

Não havia X.

Não havia geolocalização do jogador.

Não havia mapa de calor.

Não havia xG.

Não havia VAR.

Aliás...

talvez devêssemos ter parado no “não havia VAR” e apreciado alguns segundos de silêncio.

Você queria informação esportiva?

Havia rádio.

Televisão.

E havia:

JORNAL.

Na manhã seguinte, o torcedor caminhava até a banca.

E lá estava ela.

A Gazeta Esportiva.

O equivalente esportivo de executar:

DISPLAY MATCH-RESULTS
DISPLAY LEAGUE-TABLE
DISPLAY PLAYER-RATINGS
DISPLAY NEXT-ROUND
DISPLAY COMPLETE-DISASTER

Só que impresso.


CAPÍTULO II — TUDO COMEÇOU COM UM QUARTO DE PÁGINA

A origem da Gazeta Esportiva é quase uma aula de escalabilidade.

Em 1918, já sob a administração de Cásper Líbero, o jornal A Gazeta criou uma pequena seção dedicada aos esportes.

Tamanho?

Aproximadamente:

UM QUARTO DE PÁGINA.

Isso mesmo.

O monstro começou como feature pequena.

A popularidade cresceu.

E em 24 de dezembro de 1928, aquela seção evoluiu para um suplemento esportivo, então chamado A Gazeta — Edição Esportiva.

O COBOLzeiro reconhece imediatamente.

V1.0
COLUNA ESPORTIVA

V2.0
SUPLEMENTO

V3.0
JORNAL INDEPENDENTE

V4.0
PORTAL WEB

Nunca subestime aquele programinha de 400 linhas que alguém chama de:

“solução temporária”.


CAPÍTULO III — CÁSPER LÍBERO, O ARQUITETO

Para compreender a Gazeta Esportiva precisamos conhecer Cásper Líbero.

Ele adquiriu A Gazeta em 1918 e iniciou uma série de transformações editoriais. Esporte tornou-se uma das áreas nas quais investiu intensamente.

Mas sua importância vai muito além de simplesmente publicar resultados.

Cásper percebeu algo fundamental:

ESPORTE É CONTEÚDO E EVENTO.

Essa combinação é poderosíssima.

Você não apenas cobre uma competição.

Você pode ajudar a criá-la.

A marca Gazeta ficou ligada a eventos esportivos que atravessariam gerações.

O caso mais extraordinário?

CORRIDA INTERNACIONAL DE SÃO SILVESTRE.

Criada em 1925.

Também surgiu a tradicional Prova Ciclística Nove de Julho, criada em 1933.

Isso significa que o ecossistema não era:

EVENTO
  |
  v
JORNAL COBRE

Era muito mais interessante:

JORNAL
  |
  +----> PROMOVE EVENTO
  |
  +----> COBRE EVENTO
  |
  +----> CRIA AUDIÊNCIA
  |
  +----> FORTALECE MARCA
  |
  +----> AUMENTA INTERESSE

Hoje chamaríamos isso de:

ecossistema de conteúdo.

Em 1925 chamavam de:

trabalhar.


CAPÍTULO IV — A TRAGÉDIA DE CÁSPER

Cásper Líbero não chegou a ver a Gazeta Esportiva transformar-se no grande diário independente que se tornaria.

Ele morreu em 27 de agosto de 1943, em um acidente aéreo na Baía de Guanabara.

Mas deixou algo extraordinário.

Um testamento determinando a criação de uma fundação.

Como não teve filhos, seu patrimônio foi destinado à instituição que preservaria seu projeto de comunicação.

Nasceu a:

FUNDAÇÃO CÁSPER LÍBERO.

Instituída em 1944, ela permanece responsável por um ecossistema que inclui Gazeta Esportiva, TV Gazeta, Rádio Gazeta, Faculdade Cásper Líbero e outras atividades.

Isso diferencia profundamente a história empresarial da Gazeta.

Não estamos falando simplesmente de:

PROPRIETÁRIO
   |
HERDEIROS
   |
VENDA

Existe uma estrutura institucional criada a partir da vontade testamentária de seu fundador.

É quase um:

PERFORM LEGADO
    UNTIL FOREVER
END-PERFORM.

CAPÍTULO V — 10 DE OUTUBRO DE 1947: GO LIVE

Chegamos ao grande deployment.

10 de outubro de 1947.

A Gazeta Esportiva deixa definitivamente sua condição de suplemento e torna-se um jornal diário independente dedicado ao esporte.

O projeto havia sido pensado antes.

A Copa de 1938 parecia uma oportunidade.

Depois veio a Segunda Guerra Mundial.

Houve nova tentativa em 1943.

Então Cásper morreu.

Finalmente:

1947.

GO LIVE.

A primeira edição diária apresentava o jornal como moderno, dinâmico e comprometido com independência e ética jornalística.

E nasceu uma expressão que se tornaria praticamente identidade:

“O MAIS COMPLETO.”

Isso era marketing.

Mas havia uma ambição real por trás.

Não se pretendia falar apenas de futebol.

A proposta era cobrir:

futebol,

atletismo,

basquete,

automobilismo,

ciclismo,

boxe,

natação,

tênis

e muitas outras modalidades.

Era uma espécie de:

SPORTS.*

CAPÍTULO VI — MAS VAMOS PARAR DE FINGIR: FUTEBOL ERA O MONSTRO

Sim.

Havia outras modalidades.

Mas estamos no Brasil.

Portanto chega John Belushi chutando a porta:

E O CORINTHIANS?!

HAHAHAHAHAHA.

Futebol era inevitavelmente o grande motor de atenção.

Corinthians.

Palmeiras.

São Paulo.

Santos.

Portuguesa.

Clubes do interior.

Seleção Brasileira.

Campeonatos estaduais.

Nacionais.

Mundiais.

Transferências.

Escalações.

Crises.

Cartolas.

Técnicos.

Juízes.

E aquela instituição brasileira que existe desde antes de a humanidade dominar o fogo:

A CORNETA.


CAPÍTULO VII — A BANCA ERA O SOFASCORE

Voltemos à banca.

Segunda-feira de manhã.

São Paulo.

Um trabalhador chega.

Vê a Gazeta.

A manchete anuncia a rodada.

Ele não precisa comprar imediatamente.

Olha.

Outro sujeito para.

Mais um.

— Você viu o jogo?

— Vi.

— Aquilo não foi pênalti.

Pronto.

THREAD CRIADA.

Outro responde:

— Foi pênalti sim.

ENGAGEMENT +100%.

Chega um palmeirense.

CONFLITO DETECTADO.

Chega um corintiano.

CPU 97%.

Chega um santista lembrando do Pelé.

HISTORICAL QUERY STARTED.

Chega o dono da banca:

— Vocês vão comprar o jornal ou vão ficar discutindo aí?

A rede social brasileira já funcionava perfeitamente.

Sem Internet.


CAPÍTULO VIII — A SEGUNDA-FEIRA ERA O WAR ROOM

O domingo terminava.

Mas o futebol não.

Na segunda-feira começava:

A AUTÓPSIA.

Quem jogou bem?

Quem jogou mal?

O juiz errou?

O técnico enlouqueceu?

O atacante perdeu gol?

Quem foi expulso?

Como ficou a classificação?

Quem joga na próxima rodada?

Era praticamente uma reunião pós-incidente.

INCIDENT:
DERROTA POR 3 X 0

SEVERITY:
SEV-1

ROOT CAUSE:
EM INVESTIGAÇÃO

POSSIBLE CAUSES:
- técnico
- goleiro
- zagueiro
- gramado
- juiz
- diretoria
- Mercúrio retrógrado

John Belushi sobe na mesa:

— NÃO FOI DERROTA!

Todos olham.

— FOI SABOTAGEM!


CAPÍTULO IX — A GAZETA ERA BANCO DE DADOS

Aqui entra o COBOL.

Para gerações inteiras, jornal esportivo era também:

DATASET.

Resultados.

Classificações.

Artilharia.

Escalações.

Calendários.

Estatísticas.

Histórico.

Você queria saber como estava o campeonato?

Não executava API.

Consultava tabela.

01 CAMPEONATO.
   05 TIME.
   05 PONTOS.
   05 JOGOS.
   05 VITORIAS.
   05 EMPATES.
   05 DERROTAS.
   05 GOLS-PRO.
   05 GOLS-CONTRA.

A tabela classificatória era praticamente um arquivo sequencial que todo brasileiro sabia interpretar.

Curiosamente, milhões de pessoas que jamais ouviram falar em banco relacional entendiam perfeitamente:

ordenação, agregação, chave, ranking e atualização incremental.


CAPÍTULO X — 1958: BRASIL CAMPEÃO

Então acontece 1958.

Brasil campeão mundial.

Pelé.

Garrincha.

Didi.

Nilton Santos.

Bellini.

Suécia.

O futebol brasileiro explode simbolicamente.

Segundo registros históricos, a Gazeta alcançou cerca de 400 mil exemplares nas grandes tiragens associadas à Copa de 1958.

Imagine imprimir centenas de milhares de jornais.

Não é pageview.

Não é request HTTP.

Cada cópia exige:

papel,

tinta,

máquina,

energia,

operários,

caminhão,

distribuição,

banca.

É infraestrutura física.


CAPÍTULO XI — 1970: O MAINFRAME ENTRA EM OVERLOAD

E então chegamos ao México.

Pelé.

Jairzinho.

Tostão.

Rivelino.

Carlos Alberto Torres.

Brasil tricampeão.

A Seleção que virou mitologia.

Em 23 de junho de 1970, a Gazeta Esportiva registrou seu recorde histórico:

534.530 EXEMPLARES.

Em um único dia.

MEIO MILHÃO.

John Belushi olha para a rotativa.

— MAIS PAPEL!

— Não cabe!

— MAIS TINTA!

— Estamos no limite!

— ENTÃO OVERCLOCKA A ROTATIVA!

Isso é escala.


CAPÍTULO XII — A COR DO JORNAL ERA A PAIXÃO

A experiência do jornal esportivo não era apenas informacional.

Era ritual.

Comprar.

Dobrar.

Carregar debaixo do braço.

Ler no ônibus.

Ler no bar.

Ler no trabalho escondido.

Deixar sobre a mesa.

Recortar.

Guardar.

Um resultado esportivo deixava de ser efêmero porque adquiria suporte físico.

A vitória do seu time existia em papel.

A derrota também.

Infelizmente.

E aquela página podia sobreviver décadas.


CAPÍTULO XIII — “ME DÁ A GAZETA”

Essa frase fazia sentido por si só.

O jornaleiro sabia.

A marca havia conquistado aquilo que toda empresa deseja:

atalho mental.

Gazeta = esporte.

Assim como determinados produtos tornam-se quase sinônimos de categoria, a Gazeta ocupava um lugar particular no imaginário esportivo paulista.

E isso era especialmente poderoso numa cidade onde futebol não era passatempo.

Era:

IDENTITY MANAGEMENT SYSTEM.

CAPÍTULO XIV — E O INTERIOR?

Aqui há outro ponto importante.

A Gazeta não se limitava ao eixo dos quatro grandes clubes paulistas.

A imprensa esportiva impressa possuía espaço para acompanhar campeonatos, clubes e modalidades que hoje podem desaparecer rapidamente da homepage porque não geram cliques suficientes.

Guarani.

Ponte Preta.

XV de Piracicaba.

Ferroviária.

Botafogo de Ribeirão Preto.

Comercial.

Noroeste.

Portuguesa Santista.

São Bento.

Juventus.

América.

E tantos outros.

O papel tinha limite físico.

Mas o jornal esportivo precisava construir uma visão relativamente ampla do ecossistema.

Isso ajudou a preservar uma quantidade monumental de memória esportiva.


CAPÍTULO XV — E A SÃO SILVESTRE?

Aqui o legado sai da página e invade a rua.

A Corrida Internacional de São Silvestre permanece uma das marcas esportivas mais reconhecíveis associadas ao legado de Cásper Líbero.

Criada em 1925, atravessou décadas e continua sendo realizada.

Pense nisso.

Um veículo de comunicação ajudou a criar um evento.

O evento virou tradição.

A tradição sobreviveu ao jornal impresso.

Isso é branding com RETENTION PERIOD = CENTURY.


CAPÍTULO XVI — O TROFÉU INVISÍVEL DA MEMÓRIA

A Gazeta também esteve ligada à criação e distribuição de premiações esportivas, entre elas a tradicional Taça dos Invictos, associada a equipes que mantinham longas sequências sem derrota.

Isso revela outra função da imprensa esportiva:

ela não apenas relata o esporte.

Ela ajuda a construir:

mitologia.

Recordes precisam ser lembrados.

Sequências precisam ser comparadas.

Heróis precisam de narrativas.

Rivalidades precisam de arquivo.

O jornal funciona como memória externa do torcedor.


CAPÍTULO XVII — O TORCEDOR ERA O ALGORITMO DE RECOMENDAÇÃO

Hoje:

IF USER = CORINTHIANS
   RECOMMEND CORINTHIANS-CONTENT
END-IF

Na banca?

O torcedor olhava a primeira página.

Se o clube estivesse em destaque:

CLICK = BUY

Se o rival tivesse perdido vergonhosamente:

CLICK = BUY
SHARE = BUY-AND-SHOW-FRIENDS

HAHAHAHA.

Esse segundo caso provavelmente possuía CTR extraordinário.


CAPÍTULO XVIII — O HUMOR DO FUTEBOL

Aqui John Belushi assume definitivamente a redação.

Porque futebol brasileiro nunca foi apenas análise.

É absurdo.

Um sujeito passa a semana inteira dizendo:

— Futebol é só entretenimento.

Domingo, 17h43:

EU NÃO ACREDITO NESSE DESGRAÇADO!

Cinco minutos depois:

— Nunca mais assisto futebol.

Quarta-feira:

— Que horas é o jogo?

Essa é uma máquina de estados fantástica:

STATE 01 = ESPERANÇA
STATE 02 = ANSIEDADE
STATE 03 = EUFORIA
STATE 04 = ÓDIO
STATE 05 = DEPRESSÃO
STATE 06 = NUNCA-MAIS
STATE 07 = PRÓXIMA-RODADA

GO TO STATE-01.

Loop infinito.


CAPÍTULO XIX — RÁDIO, TV, JORNAL: UM ECOSSISTEMA

Outra diferença fundamental da Gazeta está no ecossistema construído pela Fundação.

Jornal.

Rádio.

Televisão.

Faculdade.

Agência.

Eventos.

Hoje falaríamos em:

OMNICHANNEL.

A Fundação Cásper Líbero mantém até hoje esse complexo de comunicação no edifício da Avenida Paulista, incluindo TV Gazeta, Rádio Gazeta, Faculdade Cásper Líbero e Gazeta Esportiva digital.

A Gazeta não era apenas uma publicação isolada.

Era parte de uma arquitetura.


CAPÍTULO XX — ENTÃO CHEGA A INTERNET

E novamente nosso velho conhecido aparece.

TCP/IP.

Em 1997, segundo a própria Fundação, a Gazeta Esportiva começou sua entrada na Internet, inicialmente reproduzindo conteúdo do impresso. Outra retrospectiva oficial situa o lançamento do portal independente em 1998. As duas datas refletem etapas diferentes da migração digital.

Isso é interessante porque mostra a transição acontecendo em tempo real.

Primeiro:

PAPER → HTML

Depois:

DIGITAL-FIRST

E finalmente:

REAL-TIME

CAPÍTULO XXI — O INIMIGO DO JORNAL ESPORTIVO CHAMAVA-SE LATÊNCIA

Pense no problema.

Um jogo termina às 22h.

O jornal precisa:

fechar texto,

editar,

diagramar,

imprimir,

distribuir.

A Internet diz:

— Gol.

Agora.

Cartão vermelho.

Agora.

Fim do jogo.

Agora.

Classificação atualizada.

Agora.

Para informação esportiva, a diferença entre:

amanhã

e

agora

é brutal.

O produto possuía um problema arquitetural que nenhuma manchete conseguiria eliminar:

LATENCY = HOURS

contra:

LATENCY = SECONDS

CAPÍTULO XXII — 2001: ABEND

No início do século XXI, a situação financeira do jornal havia se tornado crítica.

Em outubro de 2001, a Fundação anunciou a decisão de encerrar a edição impressa e transferir seu conteúdo para a Internet. A Folha registrou naquele momento uma tiragem média inferior a 14 mil exemplares.

Compare.

1970:

534.530

2001:

menos de 14.000 em média

Isso não é queda.

Isso é:

IEC030I B37

O dataset ficou sem espaço para continuar fingindo que estava tudo bem.


CAPÍTULO XXIII — A ÚLTIMA CAPA

Em 19 de novembro de 2001, circulou a edição número:

27.162

A última edição impressa diária.

A manchete?

“O Futuro é Hoje!”

Poucas manchetes poderiam ser mais apropriadas.

No dia seguinte, a operação esportiva passava definitivamente para o ambiente digital.

O jornal morreu?

O suporte morreu.

A marca continuou.

E isso é muito diferente.


CAPÍTULO XXIV — MODERNIZAÇÃO SEM REWRITE

Agora o programador COBOL começa a sorrir.

Porque reconheceu tudo.

BUSINESS LOGIC:
COBRIR ESPORTES

OLD INTERFACE:
PAPEL

NEW INTERFACE:
WEB

Não foi necessário executar:

DELETE FROM BRAND;

Executou-se:

ALTER ACCESS METHOD.

Essa é uma aula maravilhosa de modernização.

A função continua.

A tecnologia muda.


CAPÍTULO XXV — O QUE MORREU?

Morreu o ritual diário específico.

O jornal debaixo do braço.

A banca como endpoint.

A tabela impressa.

O resultado congelado no papel.

A fotografia que você recortava.

A edição guardada porque seu clube foi campeão.

O sujeito lendo por cima do seu ombro no ônibus.

O jornal aberto sobre a mesa do boteco.

E talvez uma das experiências mais deliciosamente analógicas:

virar a página procurando seu time.


CAPÍTULO XXVI — O QUE NÃO MUDOU ABSOLUTAMENTE NADA?

Agora prepare-se.

1958:

— O juiz roubou.

2026:

— O juiz roubou.

1970:

— O técnico escalou errado.

2026:

— O técnico escalou errado.

1985:

— Esse presidente está destruindo o clube.

2026:

— Esse presidente está destruindo o clube.

1994:

— Esse jogador não vale tudo isso.

2026:

— Esse jogador não vale tudo isso.

O suporte tecnológico evoluiu.

O torcedor recebeu:

Internet,

smartphone,

streaming,

4K,

VAR,

GPS,

estatística avançada,

inteligência artificial,

tracking,

big data.

E usa tudo isso para concluir:

“O JUIZ É CEGO.”

Magnífico.


CAPÍTULO XXVII — A GAZETA ERA O REDDIT DO BOTECO

O jornal sozinho não era a comunidade.

Ele era o gatilho da comunidade.

A pessoa lia.

Comentava.

Discutia.

Levava ao trabalho.

Mostrava ao colega.

Discordava.

Guardava.

Recortava.

A informação saía do papel e entrava na conversa.

Hoje chamamos isso de:

engagement.

Na época chamava:

— Você viu a Gazeta?


CAPÍTULO XXVIII — JOHN BELUSHI DESCOBRE O VAR

Nosso guia finalmente chega ao futebol moderno.

Belushi observa uma sala com 37 monitores.

Linhas.

Replay.

Zoom.

Câmeras.

Computadores.

Comunicação eletrônica.

Ele pergunta:

— Tudo isso serve para decidir se foi pênalti?

— Sim.

— E funciona?

Silêncio.

Belushi pega uma Gazeta Esportiva de 1970.

— Na minha época bastava xingar o juiz!

O COBOLzeiro responde:

— Tecnicamente ainda basta.


CAPÍTULO XXIX — O ARQUIVO É UMA MÁQUINA DO TEMPO

Existe algo que frequentemente esquecemos quando falamos sobre jornais antigos.

Eles são bancos de memória.

Uma edição da Gazeta Esportiva não guarda apenas resultados.

Guarda:

ortografia,

publicidade,

preços,

nomes,

clubes desaparecidos,

estádios modificados,

patrocinadores,

uniformes,

jogadores esquecidos,

modalidades,

expectativas,

frustrações.

Você abre uma edição de 1958 e não está simplesmente lendo sobre futebol.

Está executando:

RESTORE BRASIL
FROM BACKUP
DATE '1958';

Isso é patrimônio histórico.


CAPÍTULO XXX — O GRANDE EASTER EGG: O ESPORTE SEMPRE FOI DATA-DRIVEN

Hoje adoramos falar:

data analytics no futebol.

Mas esporte sempre foi uma gigantesca fábrica de dados.

Gols.

Pontos.

Vitórias.

Derrotas.

Tempo.

Distância.

Recordes.

Classificação.

Artilharia.

Aproveitamento.

Média.

O jornal esportivo era uma camada de apresentação desse banco de dados.

Hoje temos dashboards.

Antes tínhamos tabelas.

Hoje temos APIs.

Antes tínhamos repórteres telefonando.

Hoje temos feeds em tempo real.

Antes tínhamos fechamento.

A arquitetura mudou.

O domínio continua assustadoramente parecido.


CAPÍTULO XXXI — NOTÍCIAS POPULARES X GAZETA ESPORTIVA

Agora coloque os dois jornais lado a lado numa banca imaginária.

À esquerda:

NOTÍCIAS POPULARES

NASCEU O DIABO!

À direita:

GAZETA ESPORTIVA

CORINTHIANS PERDE CLÁSSICO!

Um corintiano olha para ambos.

Compra o Notícias Populares.

Porque naquele momento:

o Bebê-Diabo parece uma notícia menos traumática.

HAHAHAHAHAHA.

Mas há uma conexão séria.

Os dois compreendiam a força da banca.

Da manchete.

Da identidade do público.

Da leitura compartilhada.

Da informação como ritual.

E principalmente:

da emoção.


CAPÍTULO XXXII — A BANCA COMO HOMEPAGE DA CIDADE

Imagine novamente São Paulo.

Década de 1970.

Ônibus.

Fumaça.

Buzinas.

Padaria.

Café.

Cigarro.

Banca.

Jornais pendurados.

Você passa.

Em alguns segundos recebe:

política,

economia,

crime,

esporte,

celebridade,

emprego,

classificados.

A banca era:

PORTAL.

Só que fisicamente instalado na calçada.

Cada jornal era um aplicativo.

Cada manchete era uma notificação.

Cada capa disputava atenção.

Cada comprador era conversão.

E a Gazeta tinha uma vantagem extraordinária:

o torcedor já chegava emocionalmente autenticado.


CAPÍTULO XXXIII — O LEGADO

O legado da Gazeta Esportiva é maior que seu período impresso.

Ele inclui a contribuição histórica para o jornalismo esportivo brasileiro, sua ligação com eventos como São Silvestre e Nove de Julho, o arquivo acumulado durante décadas e a continuidade da marca no ambiente digital.

Mas existe um legado menos tangível.

Ela pertence a uma época em que a relação com informação possuía:

peso.

Literalmente.

Você carregava informação.

Dobrava informação.

Emprestava informação.

Guardava informação.

Jogava informação fora.

A notícia tinha cheiro de tinta.


EPÍLOGO — BELUSHI, O COBOLZEIRO E A ÚLTIMA SEGUNDA-FEIRA

São Paulo.

Segunda-feira.

Sete horas da manhã.

Um bar perto de uma estação.

Café.

Pão na chapa.

Um homem entra carregando a Gazeta Esportiva.

Abre sobre o balcão.

Outro olha.

— Quanto foi?

— Dois a zero.

— Quem fez?

Ele aponta para a página.

Chega outro.

— Esse time não tem meio-campo.

Outro responde:

— Você não entende nada de futebol.

Pronto.

A rede entrou em produção.

Não existe Wi-Fi.

Não existe smartphone.

Não existe login.

Não existe perfil.

Não existe algoritmo.

Mas existe:

USER-A
USER-B
USER-C
CONTENT
ENGAGEMENT
COMMUNITY

John Belushi entra.

Olha o jornal.

Olha o placar.

Derruba o café.

DOIS A ZERO?!

O bar inteiro olha.

Belushi sobe numa cadeira.

— Acabou! Este clube morreu! Nunca mais assisto futebol! Nunca mais compro jornal! Nunca mais discuto escalação!

Silêncio.

O balconista pergunta:

— Quarta tem jogo, não tem?

Belushi desce lentamente.

Pega a Gazeta.

Folheia.

— Oito e meia.

Senta.

Pede outro café.

E talvez essa seja a melhor definição possível da Gazeta Esportiva.

Ela não vendia apenas resultados.

Vendia o próximo capítulo.

A derrota de domingo não encerrava nada.

Produzia a segunda-feira.

A segunda-feira produzia discussão.

A discussão produzia expectativa.

A expectativa produzia quarta-feira.

Quarta produzia outro jogo.

Outro resultado.

Outra manchete.

Outra Gazeta.

       IDENTIFICATION DIVISION.
       PROGRAM-ID. TORCEDOR-BRASILEIRO.

       PROCEDURE DIVISION.

       JOGA.
           PERFORM ESPERAR-JOGO.
           PERFORM ASSISTIR-JOGO.
           PERFORM RECLAMAR-DO-JUIZ.
           PERFORM DISCUTIR-ESCALACAO.
           PERFORM LER-GAZETA.
           PERFORM PROMETER-NUNCA-MAIS.

           GO TO JOGA.

Um programador junior observa horrorizado:

— Bellacosa! Isso é um GO TO infinito!

Exatamente.

Está em produção há mais de cem anos.

Não mexa.

Ninguém sabe todas as dependências.

A Gazeta Esportiva impressa executou sua última edição em 2001.

Mas o programa continua.

A banca virou portal.

A tabela virou widget.

O rádio virou streaming.

A fotografia virou vídeo.

A coluna virou feed.

O fechamento virou atualização contínua.

O leitor virou usuário.

O assinante virou audiência.

A discussão do bar virou comentário.

O arquivo virou database.

O jornal virou URL.

Mas domingo à tarde, quando a bola bate na mão de alguém dentro da área...

todo o avanço tecnológico da humanidade é descartado.

Milhões de brasileiros executam simultaneamente:

IF PENALTI-CONTRA-MEU-TIME
    DISPLAY 'FOI SEM QUERER'
ELSE
    DISPLAY 'PENALTI CLARISSIMO'
END-IF.

Esse código jamais passou por revisão.

Jamais passará.

John Belushi pega o jornal.

O COBOLzeiro pega o café.

A rotativa começa a girar.

CLAC. CLAC. CLAC. CLAC.

534.530 exemplares.

Uma cidade acordando.

Uma banca abrindo.

Um torcedor procurando a manchete.

E um programa centenário chamado:

PAIXÃO PELO ESPORTE

continua executando.

RC=0000.

Vagner Renato Bellacosa, IBM Champion e especialista em IBM Mainframe
IBM Z17 SYSTEM ONLINE
Sobre o autor

Vagner Renato Bellacosa

IBM Champion 2026 • Especialista em IBM Mainframe

Vagner Renato Bellacosa trabalha com IBM Mainframe desde 1988 , é IBM Champion e especialista em COBOL, CICS, Db2, z/OS e IBM Z. Compartilha experiências profissionais, conhecimento técnico, história da computação e práticas do universo mainframe para aproximar novas gerações das tecnologias que sustentam empresas, bancos e governos ao redor do mundo.

IBM Champion IBM Z COBOL CICS Db2 z/OS Mainframe desde 1988
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