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quinta-feira, 6 de agosto de 2026

O Caso TSB Bank : Como uma migração de mainframe destruiu a reputação de um banco

Bellacosa Mainframe edição especial O Caso TSB Bank

Um café no Bellacosa Mainframe Edição Especial

O Caso TSB Bank

Como uma migração de mainframe destruiu a reputação de um banco

Resumo

Em abril de 2018, o banco britânico TSB Bank realizou uma migração do seu core bancário.

O objetivo era:

  • abandonar a plataforma herdada da Lloyds

  • desligar o ambiente mainframe legado

  • migrar milhões de contas para a plataforma espanhola Proteo4UK, desenvolvida pelo grupo Sabadell.

O resultado foi um desastre.

Durante semanas:

  • clientes ficaram sem acessar contas

  • pagamentos falharam

  • salários não foram creditados

  • pessoas visualizaram contas de terceiros

  • fraudes aumentaram

  • o banco praticamente parou.

Até hoje o episódio é usado em universidades e cursos de gerenciamento de projetos.


Antes da crise

2008

Crise financeira mundial.

O governo britânico salva o Lloyds Banking Group.

Como condição da União Europeia:

Lloyds deveria vender parte de seus ativos.


2013

Nasce o novo TSB.

Entretanto...

O banco não possuía infraestrutura própria.

Continuou utilizando o enorme ambiente tecnológico da Lloyds.

Era praticamente um "inquilino" da infraestrutura do antigo dono.


O problema

Todos os anos o TSB pagava milhões para utilizar:

  • mainframe

  • processamento

  • storage

  • sistemas

  • infraestrutura

Era caro.

Muito caro.


2015

O banco espanhol

Banco Sabadell

compra o TSB por cerca de £1,7 bilhão.

O plano era simples.

"Vamos desligar toda a tecnologia da Lloyds e colocar tudo na plataforma Sabadell."

Nascia o projeto Proteo4UK. (Tsb)


O erro número 1

Uma consultoria estratégica contratada antes da aquisição recomendou justamente o contrário:

permanecer o máximo possível na plataforma Lloyds e, depois, utilizar uma cópia independente ("clone") da plataforma existente, reduzindo riscos de migração. (Tsb)

Mas, após a compra pelo Sabadell, prevaleceu o objetivo de capturar rapidamente as sinergias financeiras da aquisição, acelerando a migração para a plataforma própria. (Tsb)

  • Para saber mais

https://eljefemidnightlunch.blogspot.com/2020/04/o-caso-tsb-bank-como-uma-migracao-de.html


O cronograma

2015

Projeto iniciado


2016

Construção da nova plataforma


2017

Testes

Dress rehearsals

Ensaios

Migrações parciais

Segundo o banco:

  • nove ensaios completos

  • milhares de testes

  • piloto com cerca de 1.600 funcionários

Tudo aparentemente aprovado. (Tsb)


Abril de 2018

Chega o grande fim de semana.

Toda migração foi planejada para ocorrer entre

20 e 22 de abril.


Sexta-feira

20/04/2018

Os sistemas entram em manutenção.

Clientes avisados.


Domingo

22/04

Às 18h

Os serviços deveriam voltar.

Não voltaram normalmente.

Começaram os primeiros relatos:

  • erro de login

  • saldo incorreto

  • aplicativos travando

E o mais assustador...

Algumas pessoas conseguiam visualizar dados bancários de outros clientes. (The Guardian)


Segunda-feira

23 abril

O banco dizia:

"Há apenas problemas de acesso."

Nas redes sociais a situação parecia muito pior.

Milhares de reclamações.

Curiosamente, a própria Sabadell chegou a publicar uma nota comemorando o "sucesso" da migração antes de retirar o comunicado. (The Guardian)


Terça-feira

24 abril

O caos.

Até 1,9 milhão de clientes de internet banking e aplicativo foram afetados. (The Guardian)


O que aconteceu tecnicamente?

Durante muito tempo imaginou-se que:

"os dados foram perdidos."

Na realidade...

Não.

Os dados principais foram migrados corretamente.

Todas as contas chegaram.

O problema estava na infraestrutura.

Segundo as análises posteriores:

  • inconsistências entre os dois data centers

  • diferenças de configuração entre ambientes que deveriam ser idênticos

  • problemas de capacidade

  • defeitos de software

  • gargalos inesperados

  • canais digitais instáveis

  • explosão de acessos dos clientes tentando verificar suas contas, sobrecarregando ainda mais call centers e agências. (Tsb)

Ou seja...

Os registros bancários foram preservados.

A plataforma ao redor deles não conseguiu operar de forma estável.


IBM entra em cena

Dias depois, o CEO Paul Pester anunciou que especialistas da IBM haviam sido chamados para ajudar na estabilização da plataforma. O objetivo era recuperar o ambiente, e não conduzir a migração original. (The Guardian)

É importante destacar:

A IBM não foi responsável pelo projeto de migração.

Ela entrou posteriormente para auxiliar na recuperação.


As consequências

Durante semanas ocorreram:

  • salários atrasados

  • hipotecas afetadas

  • cartões recusados

  • pagamentos perdidos

  • transferências bloqueadas

  • empresas incapazes de pagar funcionários

Houve também aumento nas tentativas de fraude contra clientes durante o período de instabilidade. (Grupo Banc Sabadell)


O Parlamento britânico

O CEO Paul Pester foi convocado diversas vezes para prestar esclarecimentos ao Comitê do Tesouro da Câmara dos Comuns.

As audiências foram bastante críticas e questionaram planejamento, governança, comunicação e avaliação de riscos. (The Guardian)


O relatório independente

Em 2019, o conselho do TSB publicou uma revisão independente conduzida pelo escritório de advocacia Slaughter and May.

Entre as conclusões estavam:

  • cronograma excessivamente agressivo

  • supervisão insuficiente de fornecedores

  • falhas na governança

  • testes que não reproduziram adequadamente o ambiente real

  • excesso de confiança nos indicadores de prontidão antes do "go live". (Tsb)


Quanto custou?

As estimativas variam conforme o critério contábil, mas o impacto financeiro foi enorme.

Os custos incluíram:

  • compensações a clientes

  • recuperação operacional

  • perda de clientes

  • reforço da infraestrutura

  • consultorias

  • suporte emergencial

  • investigações regulatórias

O Grupo Sabadell informou centenas de milhões de libras em impactos relacionados ao incidente ao longo do tempo, considerando custos diretos e indiretos. (Grupo Banc Sabadell)


Houve multa?

Sim.

Em dezembro de 2022, os reguladores britânicos (Financial Conduct Authority – FCA e Prudential Regulation Authority – PRA) anunciaram um acordo com o TSB.

As multas somadas chegaram a aproximadamente £48,65 milhões, relacionadas às deficiências na gestão dos riscos operacionais e da migração tecnológica. (Tsb)


O CEO caiu?

Sim.

Paul Pester renunciou em setembro de 2018.

A pressão política e pública tornou sua permanência praticamente inviável. (The Guardian)


O TSB quebrou?

Curiosamente...

Não.

O banco continuou existindo.

Hoje opera normalmente utilizando a nova plataforma.

Após anos de estabilização, o próprio TSB afirma que os incidentes de TI voltaram a níveis comparáveis aos de outros bancos do mercado e que internalizou parte relevante da gestão de TI. (Tsb)


As principais lições para quem trabalha com mainframe

Este caso costuma ser resumido em algumas lições clássicas:

  1. O problema não era o mainframe. A motivação principal era reduzir dependências e custos do ambiente legado, não substituir uma plataforma que estivesse falhando.

  2. Migrações de core bancário são projetos de transformação organizacional, não apenas de tecnologia.

  3. Testes de laboratório não garantem comportamento em produção. Carga real, usuários simultâneos e cenários extremos podem revelar problemas invisíveis.

  4. Cronogramas definidos por metas de negócio podem aumentar o risco técnico. O relatório independente critica explicitamente o calendário considerado otimista demais. (Tsb)

  5. Planos de rollback e contingência precisam ser extremamente robustos. Em sistemas financeiros, recuperar a operação rapidamente é tão importante quanto migrar.


Links para as principais fontes históricas

Na minha opinião técnica, o caso TSB é um dos melhores estudos para profissionais de mainframe porque desmonta um mito recorrente: a falha não ocorreu porque o banco usava mainframe, mas porque uma transformação extremamente complexa foi conduzida sob um cronograma agressivo e encontrou problemas de arquitetura, implantação, governança e operação. A própria migração preservou os dados dos clientes; o colapso aconteceu na infraestrutura e nos serviços que deveriam disponibilizar esses dados de forma confiável. É por isso que o episódio continua sendo citado em discussões sobre modernização de sistemas críticos, muito mais como uma lição de engenharia e gestão do que como uma crítica à tecnologia de origem.

Vagner Renato Bellacosa, IBM Champion e especialista em IBM Mainframe
IBM Z17 SYSTEM ONLINE
Sobre o autor

Vagner Renato Bellacosa

IBM Champion 2026 • Especialista em IBM Mainframe

Vagner Renato Bellacosa trabalha com IBM Mainframe desde 1988 , é IBM Champion e especialista em COBOL, CICS, Db2, z/OS e IBM Z. Compartilha experiências profissionais, conhecimento técnico, história da computação e práticas do universo mainframe para aproximar novas gerações das tecnologias que sustentam empresas, bancos e governos ao redor do mundo.

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