☕ Um Café no Bellacosa Mainframe
Gostou do conteúdo? Ajude a manter o café quente, o COBOL compilando e o mainframe acordado. 😄
☕ Pague um café ao Bellacosa

Translate

Mostrar mensagens com a etiqueta Core Banking. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Core Banking. Mostrar todas as mensagens

quinta-feira, 6 de agosto de 2026

O Caso TSB Bank : Como uma migração de mainframe destruiu a reputação de um banco

Bellacosa Mainframe edição especial O Caso TSB Bank

Um café no Bellacosa Mainframe Edição Especial

O Caso TSB Bank

Como uma migração de mainframe destruiu a reputação de um banco

Resumo

Em abril de 2018, o banco britânico TSB Bank realizou uma migração do seu core bancário.

O objetivo era:

  • abandonar a plataforma herdada da Lloyds

  • desligar o ambiente mainframe legado

  • migrar milhões de contas para a plataforma espanhola Proteo4UK, desenvolvida pelo grupo Sabadell.

O resultado foi um desastre.

Durante semanas:

  • clientes ficaram sem acessar contas

  • pagamentos falharam

  • salários não foram creditados

  • pessoas visualizaram contas de terceiros

  • fraudes aumentaram

  • o banco praticamente parou.

Até hoje o episódio é usado em universidades e cursos de gerenciamento de projetos.


Antes da crise

2008

Crise financeira mundial.

O governo britânico salva o Lloyds Banking Group.

Como condição da União Europeia:

Lloyds deveria vender parte de seus ativos.


2013

Nasce o novo TSB.

Entretanto...

O banco não possuía infraestrutura própria.

Continuou utilizando o enorme ambiente tecnológico da Lloyds.

Era praticamente um "inquilino" da infraestrutura do antigo dono.


O problema

Todos os anos o TSB pagava milhões para utilizar:

  • mainframe

  • processamento

  • storage

  • sistemas

  • infraestrutura

Era caro.

Muito caro.


2015

O banco espanhol

Banco Sabadell

compra o TSB por cerca de £1,7 bilhão.

O plano era simples.

"Vamos desligar toda a tecnologia da Lloyds e colocar tudo na plataforma Sabadell."

Nascia o projeto Proteo4UK. (Tsb)


O erro número 1

Uma consultoria estratégica contratada antes da aquisição recomendou justamente o contrário:

permanecer o máximo possível na plataforma Lloyds e, depois, utilizar uma cópia independente ("clone") da plataforma existente, reduzindo riscos de migração. (Tsb)

Mas, após a compra pelo Sabadell, prevaleceu o objetivo de capturar rapidamente as sinergias financeiras da aquisição, acelerando a migração para a plataforma própria. (Tsb)

  • Para saber mais

https://eljefemidnightlunch.blogspot.com/2020/04/o-caso-tsb-bank-como-uma-migracao-de.html

  • House MD investiga quando os dados mentem

https://eljefemidnightlunch.blogspot.com/2021/04/o-paciente-tsb-house-cobol-e-migracao.html


O cronograma

2015

Projeto iniciado


2016

Construção da nova plataforma


2017

Testes

Dress rehearsals

Ensaios

Migrações parciais

Segundo o banco:

  • nove ensaios completos

  • milhares de testes

  • piloto com cerca de 1.600 funcionários

Tudo aparentemente aprovado. (Tsb)


Abril de 2018

Chega o grande fim de semana.

Toda migração foi planejada para ocorrer entre

20 e 22 de abril.


Sexta-feira

20/04/2018

Os sistemas entram em manutenção.

Clientes avisados.


Domingo

22/04

Às 18h

Os serviços deveriam voltar.

Não voltaram normalmente.

Começaram os primeiros relatos:

  • erro de login

  • saldo incorreto

  • aplicativos travando

E o mais assustador...

Algumas pessoas conseguiam visualizar dados bancários de outros clientes. (The Guardian)


Segunda-feira

23 abril

O banco dizia:

"Há apenas problemas de acesso."

Nas redes sociais a situação parecia muito pior.

Milhares de reclamações.

Curiosamente, a própria Sabadell chegou a publicar uma nota comemorando o "sucesso" da migração antes de retirar o comunicado. (The Guardian)


Terça-feira

24 abril

O caos.

Até 1,9 milhão de clientes de internet banking e aplicativo foram afetados. (The Guardian)


O que aconteceu tecnicamente?

Durante muito tempo imaginou-se que:

"os dados foram perdidos."

Na realidade...

Não.

Os dados principais foram migrados corretamente.

Todas as contas chegaram.

O problema estava na infraestrutura.

Segundo as análises posteriores:

  • inconsistências entre os dois data centers

  • diferenças de configuração entre ambientes que deveriam ser idênticos

  • problemas de capacidade

  • defeitos de software

  • gargalos inesperados

  • canais digitais instáveis

  • explosão de acessos dos clientes tentando verificar suas contas, sobrecarregando ainda mais call centers e agências. (Tsb)

Ou seja...

Os registros bancários foram preservados.

A plataforma ao redor deles não conseguiu operar de forma estável.


IBM entra em cena

Dias depois, o CEO Paul Pester anunciou que especialistas da IBM haviam sido chamados para ajudar na estabilização da plataforma. O objetivo era recuperar o ambiente, e não conduzir a migração original. (The Guardian)

É importante destacar:

A IBM não foi responsável pelo projeto de migração.

Ela entrou posteriormente para auxiliar na recuperação.


As consequências

Durante semanas ocorreram:

  • salários atrasados

  • hipotecas afetadas

  • cartões recusados

  • pagamentos perdidos

  • transferências bloqueadas

  • empresas incapazes de pagar funcionários

Houve também aumento nas tentativas de fraude contra clientes durante o período de instabilidade. (Grupo Banc Sabadell)


O Parlamento britânico

O CEO Paul Pester foi convocado diversas vezes para prestar esclarecimentos ao Comitê do Tesouro da Câmara dos Comuns.

As audiências foram bastante críticas e questionaram planejamento, governança, comunicação e avaliação de riscos. (The Guardian)


O relatório independente

Em 2019, o conselho do TSB publicou uma revisão independente conduzida pelo escritório de advocacia Slaughter and May.

Entre as conclusões estavam:

  • cronograma excessivamente agressivo

  • supervisão insuficiente de fornecedores

  • falhas na governança

  • testes que não reproduziram adequadamente o ambiente real

  • excesso de confiança nos indicadores de prontidão antes do "go live". (Tsb)


Quanto custou?

As estimativas variam conforme o critério contábil, mas o impacto financeiro foi enorme.

Os custos incluíram:

  • compensações a clientes

  • recuperação operacional

  • perda de clientes

  • reforço da infraestrutura

  • consultorias

  • suporte emergencial

  • investigações regulatórias

O Grupo Sabadell informou centenas de milhões de libras em impactos relacionados ao incidente ao longo do tempo, considerando custos diretos e indiretos. (Grupo Banc Sabadell)


Houve multa?

Sim.

Em dezembro de 2022, os reguladores britânicos (Financial Conduct Authority – FCA e Prudential Regulation Authority – PRA) anunciaram um acordo com o TSB.

As multas somadas chegaram a aproximadamente £48,65 milhões, relacionadas às deficiências na gestão dos riscos operacionais e da migração tecnológica. (Tsb)


O CEO caiu?

Sim.

Paul Pester renunciou em setembro de 2018.

A pressão política e pública tornou sua permanência praticamente inviável. (The Guardian)


O TSB quebrou?

Curiosamente...

Não.

O banco continuou existindo.

Hoje opera normalmente utilizando a nova plataforma.

Após anos de estabilização, o próprio TSB afirma que os incidentes de TI voltaram a níveis comparáveis aos de outros bancos do mercado e que internalizou parte relevante da gestão de TI. (Tsb)


As principais lições para quem trabalha com mainframe

Este caso costuma ser resumido em algumas lições clássicas:

  1. O problema não era o mainframe. A motivação principal era reduzir dependências e custos do ambiente legado, não substituir uma plataforma que estivesse falhando.

  2. Migrações de core bancário são projetos de transformação organizacional, não apenas de tecnologia.

  3. Testes de laboratório não garantem comportamento em produção. Carga real, usuários simultâneos e cenários extremos podem revelar problemas invisíveis.

  4. Cronogramas definidos por metas de negócio podem aumentar o risco técnico. O relatório independente critica explicitamente o calendário considerado otimista demais. (Tsb)

  5. Planos de rollback e contingência precisam ser extremamente robustos. Em sistemas financeiros, recuperar a operação rapidamente é tão importante quanto migrar.


Links para as principais fontes históricas

Na minha opinião técnica, o caso TSB é um dos melhores estudos para profissionais de mainframe porque desmonta um mito recorrente: a falha não ocorreu porque o banco usava mainframe, mas porque uma transformação extremamente complexa foi conduzida sob um cronograma agressivo e encontrou problemas de arquitetura, implantação, governança e operação. A própria migração preservou os dados dos clientes; o colapso aconteceu na infraestrutura e nos serviços que deveriam disponibilizar esses dados de forma confiável. É por isso que o episódio continua sendo citado em discussões sobre modernização de sistemas críticos, muito mais como uma lição de engenharia e gestão do que como uma crítica à tecnologia de origem.

sexta-feira, 12 de junho de 2026

☕🚀 PADAWAN COBOL, O QUE É O GRAVITY DO SANTANDER?

 

Bellacosa Mainframe e o Gravity do Santander

☕🚀 PADAWAN COBOL, O QUE É O GRAVITY DO SANTANDER?

"Imagine que alguém pegasse décadas de COBOL, CICS, DB2 e Mainframe, colocasse tudo dentro de um foguete espacial e o lançasse rumo à nuvem. Esse foguete atende pelo nome de Gravity."


📖 Sinopse

O Gravity é a plataforma tecnológica criada pelo Banco Santander para modernizar seu núcleo bancário (Core Banking).

Não é apenas um software.

Não é apenas uma migração para nuvem.

É uma estratégia completa para permitir que sistemas bancários gigantescos deixem de depender exclusivamente de ambientes tradicionais de mainframe e passem a operar em arquitetura cloud moderna.

O objetivo é simples:

Fazer um banco de 180 milhões de clientes funcionar com a velocidade de uma fintech sem perder a robustez de um mainframe.


🏛 História

Durante décadas o Santander construiu seus sistemas bancários sobre tecnologias tradicionais:

  • COBOL

  • Mainframe IBM

  • Bancos relacionais

  • Sistemas batch

  • Processamento transacional

Essas plataformas eram extremamente confiáveis.

O problema?

O mercado mudou.

Clientes passaram a exigir:

  • PIX instantâneo

  • Aplicativos móveis

  • APIs

  • Open Finance

  • Integração em tempo real

O modelo tradicional começou a limitar a velocidade de inovação.

Por volta da década de 2010 o Santander iniciou um programa de transformação que culminou no Gravity.

Em 2022 o projeto ganhou notoriedade internacional quando o Google anunciou o uso da tecnologia por trás do Gravity no serviço Dual Run.

Em 2025 o Santander informou que mais de 90% de sua infraestrutura tecnológica já estava em nuvem.


Bellacosa Mainframe visuliza o Gravity

🚀 O que é o Gravity?

Pense nele como um:

Tradutor Universal Bancário

Ele permite que aplicações que antes viviam exclusivamente no mainframe possam operar em ambiente cloud.

Sua função principal é:

  • Modernizar o Core Banking

  • Executar processamento distribuído

  • Operar em nuvem

  • Facilitar migrações

  • Reduzir dependência de hardware especializado


Bellacosa Mainframe uma visao geral do gravity

🏦 O que é Core Banking?

Padawan...

Quando você consulta saldo no aplicativo...

Quando faz um PIX...

Quando recebe salário...

Quando solicita empréstimo...

Tudo isso acaba passando pelo Core Banking.

É o coração do banco.

Sem ele:

💀 nada funciona.


⚙ Como funciona?

O segredo do Gravity é o conceito chamado:

Dual Run

Imagine duas locomotivas andando lado a lado.

Locomotiva 1

Mainframe

  • COBOL

  • CICS

  • DB2

Locomotiva 2

Cloud

  • Microservices

  • Containers

  • APIs

Durante um período ambas executam simultaneamente.

Os resultados são comparados.

Se tudo bater:

✅ a aplicação pode ser movida para nuvem.

Isso reduz enormemente o risco da migração.


🖥 Tecnologias Envolvidas

Embora o Santander não revele todos os detalhes internos, sabe-se que o projeto envolve:

Cloud Computing

  • Google Cloud

  • Kubernetes

  • Containers

APIs

  • REST

  • Open Banking

DevOps

  • CI/CD

  • Deploy automatizado

Data

  • Processamento distribuído

  • Streaming

Engenharia Moderna

  • Observabilidade

  • Telemetria

  • Monitoramento


☕ O que acontece com o COBOL?

A pergunta de um milhão de dólares.

Muitos imaginam:

"Migrar para nuvem significa jogar COBOL fora."

Errado.

O próprio Santander declarou que muitos dos profissionais que criaram os sistemas de mainframe há 20 anos participam do Gravity.

Isso revela algo importante:

O conhecimento de negócio continua valendo ouro.

A linguagem muda.

O negócio permanece.


🔥 Pontos Fortes

Escalabilidade

Pode crescer rapidamente conforme a demanda.


Agilidade

Novas funcionalidades podem ser liberadas em horas.

Antes levavam dias ou semanas.


Menor Dependência de Hardware

Não exige expansão física de datacenters.


Automação

Reduz atividades operacionais repetitivas.


Modernização

Facilita integração com:

  • APIs

  • Open Finance

  • IA

  • Aplicativos móveis


💣 Pontos Fracos

Complexidade

Migrar um banco não é igual migrar um site.

É extremamente complexo.


Custos Elevados

Projetos dessa magnitude custam bilhões.


Dependência da Cloud

O banco passa a depender mais dos provedores de nuvem.


Escassez de Talentos

Encontrar profissionais que entendam:

  • Mainframe

  • Cloud

  • DevOps

  • Negócio bancário

não é simples.


🤔 Curiosidades

Curiosidade 1

O Gravity não foi comprado.

Foi desenvolvido pelo próprio Santander.


Curiosidade 2

O Google aproveitou conceitos da tecnologia para construir o Dual Run.


Curiosidade 3

Poucos bancos do tamanho do Santander tentaram uma transformação tão profunda.


Curiosidade 4

O conhecimento dos especialistas de mainframe foi considerado fundamental.


Curiosidade 5

Mais de 1 trilhão de operações técnicas por ano deverão ser executadas através da plataforma.


🌎 Impacto no Mercado

O Gravity é observado por:

  • BBVA

  • HSBC

  • ING

  • Barclays

  • Deutsche Bank

  • Itaú

  • Bradesco

  • Banco do Brasil

Todos enfrentam o mesmo desafio:

Como modernizar décadas de sistemas sem parar o banco?


👨‍💻 O que muda para o Desenvolvedor COBOL?

Antigamente:

COBOL
 ↓
CICS
 ↓
DB2
 ↓
Produção

Agora:

COBOL
 ↓
API
 ↓
Container
 ↓
Cloud
 ↓
Observabilidade
 ↓
Produção

O desenvolvedor moderno precisa entender:

  • APIs

  • JSON

  • Git

  • DevOps

  • Cloud

  • Segurança


⚠ Riscos para a Carreira

Se o profissional pensar:

"Vou aprender apenas COBOL e parar no tempo."

Existe risco.

O mercado quer cada vez mais:

Profissionais Híbridos

  • COBOL + Cloud

  • COBOL + APIs

  • COBOL + Java

  • COBOL + Python

  • COBOL + DevOps

O especialista puro continua existindo.

Mas o híbrido tende a ser mais valorizado.


🎯 Vantagens para o Profissional Mainframe

O Padawan costuma acreditar que:

"Cloud vai matar o Mainframe."

Na prática acontece o contrário.

Quem entende:

  • Batch

  • Integridade transacional

  • Recuperação

  • Consistência

  • Alta disponibilidade

possui conhecimentos raros que muitos profissionais cloud nunca estudaram.

Por isso diversos arquitetos de transformação digital vieram do mundo mainframe.


☕ Resumo Bellacosa Mainframe

Gravity em uma frase

"É a ponte construída pelo Santander para levar décadas de conhecimento em COBOL e Mainframe para a nuvem sem destruir aquilo que fez o banco funcionar durante gerações."

O Padawan precisa aprender?

✅ Sim.

Precisa abandonar COBOL?

❌ Não.

Precisa aprender cloud?

✅ Sim.

O Mainframe vai acabar amanhã?

❌ Não.

O mercado está mudando?

✅ Muito rápido.

Quem será mais valorizado?

🚀 O profissional que souber conversar tanto com o veterano de JCL quanto com o engenheiro de Kubernetes.

Porque o futuro não é COBOL contra Cloud.

O futuro é COBOL + Cloud, e o Gravity talvez seja um dos maiores exemplos dessa convergência já vistos na indústria bancária mundial. ☕🔥🚀🏦💻

Gravity https://www.santander.com/en/press-room/press-releases/2025/06/santander-completes-the-digitalization-of-its-technology-infrastructure-in-spain-with-the-deployment-of-gravity

Gravity Power https://www.jornalintegracao.com/noticia/40336/revista-britanica-the-banker-elege-o-banco-mais-inovador-do-mundo

Inovação https://jornaleconomico.sapo.pt/noticias/santander-escolhido-como-mais-inovador-por-causa-da-plataforma-gravity/

Gravity - https://sapo.pt/artigo/santander-torna-se-o-primeiro-grande-banco-ocidental-a-operar-100-na-cloud-6865c821bf6e672c9d4acb54

Gravity - https://thedigitalbanker.com/santander-passes-key-milestone-in-its-transformation-after-migrating-its-cib-banking-platform-to-the-cloud/








sábado, 17 de maio de 2025

The IT Crowd encontra o Nubank: o Dia em que o COBOLzeiro Entrou na Nuvem, Viu Kubernetes, Clojure, Datomic e Perguntou Onde Esconderam o CICS

 

Bellacosa Mainframe e a arquitetura do Nubank

☕ Um Café no Bellacosa Mainframe

The IT Crowd encontra o Nubank: o Dia em que o COBOLzeiro Entrou na Nuvem, Viu Kubernetes, Clojure, Datomic e Perguntou Onde Esconderam o CICS

💳 AWS, microserviços, containers, bancos imutáveis, observabilidade, FinOps, IA e o estranho caso de uma instituição com mais de 100 milhões de clientes que resolveu problemas antigos com ferramentas completamente novas — enquanto o veterano do CPD repetia: “Have you tried turning it off and on again?”

Imagine o porão de um departamento de informática.

Luzes fluorescentes.

Cabos.

Monitores.

Uma caneca esquecida ao lado do teclado.

Um cartaz na parede:

HAVE YOU TRIED TURNING IT OFF AND ON AGAIN?

Roy está sentado olhando para um terminal.

Moss aparece carregando uma pilha de livros.

Na porta surge um programador COBOL iniciante.

Ele segura um notebook.

Na tela:

KUBERNETES
CLOJURE
DATOMIC
AWS
MICROSERVICES
CONTAINERS

Roy olha.

— O que é isso?

O novato responde:

— Estou estudando a arquitetura do Nubank.

Moss imediatamente se interessa.

— Nubank? Fascinante. Instituição financeira digital, arquitetura distribuída, alta escalabilidade...

Roy interrompe:

— Quantas agências?

— Nenhuma.

— Nenhum mainframe?

— Pelo menos não como fundamento público da arquitetura original.

— E atende mais de cem milhões de clientes?

— Sim.

Roy fica em silêncio.

Olha para Moss.

Olha novamente para o novato.

— Então onde esconderam o CICS?

Bem-vindo a mais um Um Café no Bellacosa Mainframe.

Hoje vamos entrar numa das comparações mais interessantes para quem está começando COBOL e quer entender por que o mundo moderno fala tanto de cloud-native, microserviços, containers, Kubernetes e bancos de dados diferentes.

Nosso laboratório será o Nubank.

Não para declarar que cloud venceu mainframe.

Nem para dizer que mainframe é superior à cloud.

Essas guerras religiosas normalmente produzem mais calor do que conhecimento.

A pergunta realmente interessante é:

Como uma instituição financeira que nasceu na nuvem conseguiu crescer até uma escala gigantesca resolvendo problemas que bancos tradicionais enfrentam há décadas?

E mais importante:

Quantos desses problemas são realmente novos?

Spoiler:

Pouquíssimos.

As tecnologias mudaram.

Os problemas fundamentais continuam terrivelmente familiares.

Pegue o café.

Vamos descer ao porão.


1. Primeiro: esqueça o aplicativo roxo

Quando alguém olha para o Nubank, normalmente vê:

APP
CARTÃO ROXO
PIX
CONTA
EMPRÉSTIMO

O profissional de infraestrutura deveria enxergar outra coisa.

Por trás daquele botão bonito existe algo mais parecido com:

CLIENTE
   |
   v
APLICATIVO
   |
   v
APIs
   |
   v
SERVIÇOS
   |
   v
CORE FINANCEIRO
   |
   v
DADOS
   |
   v
EVENTOS
   |
   v
AUDITORIA
   |
   v
SEGURANÇA

E ainda:

ANTIFRAUDE
CRÉDITO
KYC
COMPLIANCE
OBSERVABILIDADE
LOGS
BACKUP
DR
CAPACITY
IA

Então guarde uma regra.

Interface simples não significa sistema simples.

O cliente toca em:

PAGAR

e espera:

PAGO

Entre uma coisa e outra pode existir uma pequena guerra civil distribuída.

É justamente aí que Nubank e mainframe começam a ficar curiosamente parecidos.


2. O banco tradicional construiu uma fortaleza

Grandes bancos cresceram durante décadas.

Muitos construíram arquiteturas centradas em:

IBM Z
COBOL
CICS
DB2
IMS
VSAM
MQ
JCL
RACF

Essas tecnologias não apareceram por acaso.

Elas resolvem problemas reais.

Consistência.

Volume.

Disponibilidade.

Segurança.

Recuperação.

Processamento transacional.

Auditoria.

Controle de carga.

Imagine algo conceitualmente parecido:

CLIENTE
   |
   v
CANAL
   |
   v
CICS
   |
   v
PROGRAMA COBOL
   |
   v
DB2 / VSAM / IMS
   |
   v
MQ / BATCH / CONTABILIDADE

Agora multiplique isso por:

décadas
milhares de programas
milhões de clientes
centenas de integrações

Pronto.

Você tem um banco.

Ou um monstro mitológico.

Depende do horário do incidente.


3. Nubank começou pelo outro lado

O Nubank nasceu já pensando em cloud.

Esse detalhe muda tudo.

Um banco tradicional frequentemente precisa modernizar sistemas existentes.

O Nubank pôde construir de maneira greenfield.

Greenfield significa basicamente:

“Ainda não temos quarenta anos de decisões para carregar.”

Isso é uma vantagem brutal.

Imagine duas equipes.

A primeira recebe:

SISTEMA X
CRIADO EM 1989
ALTERADO 12.417 VEZES
AUTOR ORIGINAL APOSENTADO
DOCUMENTAÇÃO: TALVEZ

A segunda recebe:

README.md

É outro planeta.

Mas não se engane.

O segundo sistema eventualmente também vira o primeiro.

Só precisa sobreviver tempo suficiente.


4. AWS: o CPD terceirizado

Uma maneira divertida de explicar cloud para um veterano seria:

Você não eliminou o datacenter.

Você terceirizou uma enorme parte dele.

No modelo tradicional:

BANCO
 |
 +-- DATACENTER
     |
     +-- SERVIDORES
     +-- STORAGE
     +-- REDE
     +-- ENERGIA
     +-- DR

No modelo cloud:

BANCO
 |
 +-- AWS
     |
     +-- COMPUTE
     +-- STORAGE
     +-- NETWORK
     +-- DATABASE
     +-- SECURITY

Fisicamente continuam existindo máquinas.

CPUs.

Memória.

SSD.

Switches.

Cabos.

Energia elétrica.

O que mudou foi o modelo operacional.

Você pede recursos por software.

Escala.

Cria ambientes.

Destrói ambientes.

Automatiza infraestrutura.

Isso reduz dramaticamente o tempo entre:

PRECISO DE SERVIDOR

e:

SERVIDOR EXISTE

Quem viveu compras corporativas tradicionais entenderá imediatamente a importância disso.


5. A nuvem não é infinita

Aqui aparece um dos maiores mitos.

Muita gente imagina:

CLOUD = INFINITO

Não.

Cloud continua limitada por física.

Em algum ponto existem:

CPU
RAM
SSD
REDE
ENERGIA
DATACENTER

Uma empresa suficientemente grande pode encontrar limites que empresas pequenas jamais verão.

É quase como alguém perguntando:

— A internet aguenta?

Roy responde:

— Depende.

Moss:

— Tecnicamente a internet está naquela pequena caixa preta ali.

Se você entendeu essa referência, parabéns.

Você ganhou o primeiro Easter egg.


6. Clojure: porque Java seria normal demais

Uma das escolhas técnicas mais interessantes do Nubank foi Clojure.

Clojure é uma linguagem funcional da família Lisp executada sobre JVM.

Para quem vem de COBOL, isso parece inicialmente uma linguagem alienígena.

COBOL:

IF SALDO > LIMITE
    DISPLAY 'OPERACAO RECUSADA'
END-IF

Lisp-like:

(parênteses
    (dentro
        (de
            (parênteses))))

O COBOLzeiro olha.

Moss aparece.

— É extremamente elegante.

Roy responde:

— Parece que alguém derrubou a caixa de parênteses.

Mas existe racionalidade por trás da escolha.

Linguagens funcionais favorecem conceitos como:

imutabilidade
funções puras
composição
transformação de dados

Isso pode ser interessante em sistemas distribuídos.

Porque estado compartilhado é uma fonte clássica de sofrimento.

E sofrimento distribuído escala muito bem.


7. Datomic: o banco que gosta do passado

Agora chegamos a uma ideia deliciosa.

Em muitos bancos relacionais tradicionais pensamos no estado atual.

Exemplo:

SALDO = 1000

Depois:

SALDO = 800

Atualizamos o registro.

Mas no mundo financeiro o passado importa muito.

Quem alterou?

Quando?

Qual era o estado anterior?

Qual evento produziu o estado atual?

Datomic trabalha com uma filosofia fortemente temporal e imutável.

Conceitualmente:

T0 SALDO = 1000
T1 COMPRA = -200
T2 SALDO = 800

O histórico não desaparece simplesmente.

Para um COBOLzeiro isso desperta uma sensação familiar.

Ele pensa:

— Então vocês guardam histórico?

Sim.

— E querem reconstruir estado?

Sim.

— E auditoria?

Sim.

— E temporalidade?

Sim.

O veterano dá um gole no café.

— Conheço esse filme.


8. A imutabilidade é uma obsessão financeira antiga

Sistemas financeiros gostam de histórico porque dinheiro deixa rastros.

Em muitos casos não queremos:

DELETE

Queremos:

REVERSAO

Por quê?

Porque apagar o passado é péssimo para auditoria.

Imagine:

TRANSAÇÃO 100
TRANSAÇÃO -100

É muito diferente de:

NUNCA EXISTIU

Essa diferença conceitual é crítica.

Sistemas modernos chamam isso de:

event sourcing
immutable data
audit history

O veterano do mainframe talvez diga:

— Interessante.

Depois acrescenta:

— Em 1987 nós chamávamos de “não apague esse registro porque a auditoria vai perguntar”.


9. Microserviços: cada problema ganha sua casinha

Arquiteturas modernas frequentemente dividem sistemas em serviços menores.

Algo como:

CARTÃO
   |
   +-- limite-service
   +-- transaction-service
   +-- fraud-service
   +-- notification-service
   +-- customer-service

Cada serviço pode ter:

código
deployment
dados
observabilidade
equipe

Isso oferece vantagens.

Escalabilidade independente.

Implantação independente.

Domínios separados.

Equipes autônomas.

Mas também cria problemas.

Muitos problemas.

Agora você precisa administrar:

rede
latência
timeout
retry
idempotência
consistência
service discovery
tracing
versionamento
contratos

O sistema que antes tinha chamadas internas agora possui rede entre pedaços.

E existe uma máxima importante:

A rede sempre encontra maneiras criativas de lembrar que existe.


10. O COBOLzeiro conhece microserviços melhor do que pensa

Imagine um banco tradicional com:

CICS REGION A
CICS REGION B
MQ
DB2
BATCH
IMS

Você já possui componentes distribuídos.

Já possui fronteiras.

Já possui mensageria.

Já possui sistemas independentes.

A diferença é que arquiteturas cloud-native tornam essas divisões muito mais granulares.

Então quando alguém disser:

“Microservices revolucionaram tudo.”

Você pode responder:

— Sim, revolucionaram muita coisa.

Mas alguns problemas são velhos.

Por exemplo:

COMO GARANTIR QUE A MESMA OPERAÇÃO NÃO SEJA EXECUTADA DUAS VEZES?

Isso se chama:

IDEMPOTÊNCIA

No mainframe talvez você não usasse esse termo diariamente.

Mas o problema já existia.


11. Kubernetes: o gerente dos containers

Agora surge Kubernetes.

Imagine milhares de pequenos serviços.

Cada um rodando em containers.

Você precisa controlar:

onde roda
quantas cópias
quando reiniciar
como atualizar
como escalar
como descobrir

Kubernetes tenta resolver essa orquestração.

Conceitualmente:

KUBERNETES
   |
   +-- POD A
   +-- POD B
   +-- POD C
   +-- POD D

Se um morre:

RESTART

Se precisa de mais capacidade:

SCALE

Se uma versão nova chega:

ROLLING UPDATE

Um veterano do mainframe olha para isso e pensa:

“Então vocês construíram um sistema que administra workload, disponibilidade e recursos?”

Sim.

O veterano:

— Interessante.

WLM tossindo discretamente no canto.


12. WLM encontra Kubernetes no corredor

Essa comparação é deliciosa.

Não são tecnologias equivalentes.

Mas ambas convivem com perguntas semelhantes.

QUEM PRECISA DE RECURSO?
QUANTO?
COM QUAL PRIORIDADE?
ONDE EXECUTAR?
COMO REAGIR A CARGA?

No mainframe:

WLM
service classes
importance
goals

No cloud-native:

requests
limits
autoscaling
scheduling
pods
nodes

Mudou o vocabulário.

O problema continua sendo:

recursos são finitos.

Moss explica Kubernetes durante vinte minutos.

Roy resume:

— Basicamente você tem um monte de computadores e precisa impedir que eles façam besteira.

Moss:

— Tecnicamente incorreto.

Roy:

— Mas funcionalmente preciso.


13. Containers não são máquinas virtuais pequeninas

Essa é uma boa dica para o iniciante.

Container não é simplesmente:

VM PEQUENA

Ele compartilha o kernel do host e empacota aplicação e dependências de maneira isolada.

Isso torna deployment mais previsível.

A clássica frase:

NA MINHA MÁQUINA FUNCIONA

vira:

ENTÃO EMPACOTE SUA MÁQUINA

Não literalmente.

Mas quase.

Essa é uma das grandes contribuições dos containers:

reduzir diferenças entre ambientes.

Dev.

Teste.

Produção.

Todos executam artefatos semelhantes.

O sysprog antigo entende imediatamente o valor disso.

Ambiente diferente é combustível para incidente.


14. Observabilidade: porque agora ninguém sabe onde o erro aconteceu

Em um sistema distribuído, uma transação pode atravessar:

APP
 ↓
API
 ↓
SERVICE A
 ↓
SERVICE B
 ↓
DATABASE
 ↓
EVENT BUS
 ↓
SERVICE C

Quando algo falha, surge a pergunta:

ONDE?

Observabilidade tenta responder usando:

logs
metrics
traces
events

Tracing distribuído é especialmente importante.

Você pode acompanhar uma transação atravessando vários serviços.

Para o mundo mainframe isso lembra a necessidade histórica de:

SMF
RMF
CICS statistics
DB2 traces
logs
dumps

Novamente:

tecnologia nova.

Problema velho.


15. SMF provavelmente olharia para observability e diria “fofo”

Brincadeiras à parte, SMF é uma das grandes fontes históricas de telemetria de z/OS.

O mainframe registra uma quantidade extraordinária de informação operacional.

CPU.

Jobs.

I/O.

Segurança.

Subsistemas.

Performance.

Cloud-native descobriu sua própria versão desse universo.

Prometheus.

OpenTelemetry.

Grafana.

Tracing.

Logs centralizados.

A filosofia é semelhante:

se não consigo medir, não consigo administrar.

Esse é um princípio universal.


16. O custo da nuvem: a pergunta que ninguém responde com um número simples

Quanto custa atender 100 milhões de clientes?

Não existe resposta direta.

Porque:

100 MILHÕES DE CLIENTES

não significa:

100 MILHÕES DE CLIENTES ATIVOS AO MESMO TEMPO

Você precisa conhecer:

transações por segundo
storage
network
database I/O
logs
backups
replicação
ML
fraude
analytics
DR

Uma fórmula simplificada seria:

CLOUD COST =
COMPUTE
+ STORAGE
+ DATABASE
+ NETWORK
+ OBSERVABILITY
+ SECURITY
+ BACKUP
+ ANALYTICS
+ ML

Depois vem:

- otimização
- contratos
- reservas
- descontos

E aparece uma nova profissão:

FinOps

17. FinOps: o capacity planner voltou usando tênis

FinOps é a disciplina de administrar financeiramente consumo de cloud.

Porque existe uma armadilha.

Cloud facilita criar recursos.

Muito fácil.

Talvez fácil demais.

Alguém faz:

CREATE INSTANCE

Depois esquece.

Ela continua ligada.

Por semanas.

Meses.

Até alguém encontrar a conta.

No mainframe sempre existiu obsessão com:

CPU
MSU
MIPS
SOFTWARE COST

Cloud reintroduziu a mesma disciplina com nomes diferentes:

vCPU
instance hours
storage
egress
reserved instances
savings plans

O gestor antigo olha.

— Então consumo computacional continua custando dinheiro?

Sim.

— Fascinante.


18. AWS Graviton e os 14%

Uma das otimizações interessantes atribuídas publicamente ao Nubank foi adoção de processadores AWS Graviton.

A motivação é simples:

melhor relação custo/performance em determinados workloads.

Quando uma organização desse tamanho reduz uma fatia percentual relevante do custo de computação, isso pode representar muito dinheiro.

E aqui surge uma lição importante.

Em escala:

1% = DINHEIRO

Muito dinheiro.

No sistema pequeno, otimizar 3% é luxo.

No sistema gigante, pode financiar uma equipe inteira.

Isso é algo que mainframe conhece há décadas.


19. Performance engineering não morreu

Às vezes existe uma ideia ingênua:

cloud elimina preocupação com performance.

Não.

Ela pode tornar performance comprável.

Mas ainda custa.

Se um serviço usa o dobro de CPU porque o código é ruim:

CONTA = DOBRO

aproximadamente, dependendo da carga.

Então aquele velho programador obcecado por eficiência não estava completamente errado.

Talvez estivesse apenas trinta anos adiantado para a reunião de FinOps.


20. Sharding: quando um banco de dados começa a ficar apertado

Quando um banco cresce, existe outro problema.

Dados.

Muito dado.

Em algum momento você pode dividir os dados entre várias unidades.

Isso é sharding.

Imagine:

CLIENTES A-F -> SHARD 1
CLIENTES G-M -> SHARD 2
CLIENTES N-S -> SHARD 3
CLIENTES T-Z -> SHARD 4

É apenas um exemplo.

Na prática estratégias podem ser muito mais sofisticadas.

Sharding resolve alguns problemas.

E cria outros.

Sempre existe essa regra da arquitetura:

Toda solução resolve um problema e ganha três novos de bônus.

Agora surgem questões:

rebalanceamento
hotspots
consistência
roteamento
falhas
migração

Roy olha.

— Parece complicado.

Moss:

— É porque é.


21. Banco distribuído é um casamento entre física e filosofia

Quando dados estão distribuídos, surgem perguntas como:

SE DOIS NÓS DISCORDAM, QUEM ESTÁ CERTO?

Ou:

O QUE ACONTECE SE A REDE CAIR?

Ou:

QUANDO UMA TRANSAÇÃO ESTÁ REALMENTE CONFIRMADA?

Isso nos leva a consistência distribuída.

CAP theorem.

Quórum.

Replicação.

Consensus.

Eventual consistency.

Termos modernos.

Mas bancos sempre tiveram obsessão por:

ACID
COMMIT
ROLLBACK
LOCK
LOG
RECOVERY

Porque dinheiro não aceita filosofia muito abstrata.

O saldo precisa fechar.


22. Cloud-native não elimina contabilidade

Esse ponto parece óbvio.

Mas é importante.

Você pode usar:

Kubernetes
Clojure
Kafka
Datomic
AI

No fim do dia:

DÉBITO = CRÉDITO

A contabilidade continua lá.

Pode mudar a arquitetura.

Pode mudar o deployment.

Pode mudar o banco de dados.

Não muda a matemática.

Esse é o tipo de realidade que une mainframe e fintech.


23. IA agora entra no salão

Com escala gigantesca, atendimento também vira tecnologia.

Imagine milhões de perguntas:

onde está meu cartão?
por que meu limite caiu?
qual minha fatura?
como bloquear?
como negociar dívida?

Atender tudo apenas com humanos custa muito.

Então IA começa a entrar.

Chatbots.

Modelos.

Agentes.

Classificação.

Automação.

Mas agora o problema muda.

Uma IA pode responder errado.

Em banco, resposta errada pode virar:

reclamação
fraude
prejuízo
risco regulatório

Então surge outro desafio:

automação precisa ser auditável.

O mundo tecnológico moderno eventualmente descobre o mesmo princípio do mainframe:

TRUST, BUT LOG EVERYTHING.

24. Segurança: zero confiança, muitos logs

Banco digital é um alvo gigantesco.

Então precisa de:

IAM
MFA
secrets
encryption
network controls
fraud detection
monitoring
audit

No mainframe temos:

RACF
ACF2
Top Secret
SAF
profiles
permissions
logs

Novamente:

novo vocabulário.

Mesmo problema fundamental:

WHO ARE YOU?
WHAT CAN YOU DO?
WHAT DID YOU DO?

Essas três perguntas praticamente resumem segurança corporativa.


25. O curioso caso do “legado cloud”

Agora uma provocação.

Nubank nasceu moderno.

Mas qualquer plataforma suficientemente antiga cria legado.

Se um microsserviço criado em 2015 ainda existe em 2035, ele será legado.

Legado não é:

COBOL

Legado é:

software importante que sobreviveu.

Essa definição é muito mais útil.

Java vira legado.

Python vira legado.

Kubernetes vira legado.

Seu framework JavaScript favorito provavelmente já nasceu legado enquanto você lia esta frase.


26. O mainframe possui uma vantagem obscena

Existe algo que cloud-native frequentemente tenta reconstruir:

simplicidade operacional centralizada.

No mainframe você pode ter enorme quantidade de workloads dentro de uma plataforma extremamente integrada.

No mundo distribuído você ganha flexibilidade.

Mas paga em complexidade.

Milhares de containers.

Centenas de serviços.

Networking.

Observabilidade.

CI/CD.

Secrets.

Deployments.

Dependencies.

Service mesh.

Moss começa a explicar service mesh.

Roy levanta a mão.

— Não.

Moss:

— Mas é fascinante.

— Não.


27. Cloud possui outra vantagem obscena

Agora o outro lado.

Provisionamento.

Automação.

Experimentação.

Escalabilidade.

Velocidade de desenvolvimento.

Um time pode criar infraestrutura via código.

terraform apply

E ambientes aparecem.

Compare com processos históricos:

FORMULÁRIO
APROVAÇÃO
COMPRA
ENTREGA
INSTALAÇÃO
CONFIGURAÇÃO

Cloud mudou radicalmente o ciclo.

Isso foi crucial para empresas que cresceram rápido.


28. Arquitetura segue organização

Conforme a empresa cresce, aparece um problema humano.

Imagine:

10 engenheiros

Todo mundo conversa.

Agora:

100

Complica.

Agora:

1000

Você criou uma cidade.

Precisará de:

equipes
domínios
ownership
standards
platform engineering
governança

A Lei de Conway basicamente diz que sistemas tendem a refletir estruturas de comunicação das organizações.

Ou seja:

organograma também produz arquitetura.

Essa é uma verdade subestimada.


29. O programa COBOL também é arquitetura organizacional fossilizada

Pegue um programa antigo.

Ele talvez tenha:

PARA-CALCULA-TARIFA
PARA-AUTORIZA-LIMITE
PARA-GERA-HISTORICO

Por que esses módulos existem?

Talvez porque em 1994 existiam departamentos diferentes.

Arquitetura captura decisões humanas.

Software é arqueologia organizacional.

Isso vale igualmente para microservices.

Daqui a vinte anos alguém perguntará:

— Por que existem 417 serviços para processar uma fatura?

Resposta:

— Era assim que os squads estavam organizados em 2026.

😂


30. Passo a passo para um COBOLzeiro estudar arquitetura Nubank

Agora uma rota prática.

Passo 1 — Domine transações

Entenda:

COMMIT
ROLLBACK
ACID
LOCK
RECOVERY

Sem isso, arquitetura financeira vira decoração PowerPoint.

Passo 2 — Estude CICS

Entenda:

transaction manager
task
region
program
resource

Depois compare com serviços modernos.

Passo 3 — Estude Db2

Aprenda:

index
transaction
isolation
logging
recovery

Depois veja bancos distribuídos.

Passo 4 — Estude MQ

Mensageria é ponte perfeita entre os mundos.

Entenda:

queue
producer
consumer
delivery
retry

Depois Kafka e event-driven ficam muito mais fáceis.

Passo 5 — Estude containers

Docker primeiro.

Kubernetes depois.

Não comece tentando decorar YAML de 300 linhas.

Entenda o problema antes da ferramenta.

Passo 6 — Estude observabilidade

Compare:

SMF/RMF

com:

metrics/logs/traces

Passo 7 — Estude cloud economics

Aprenda:

compute
storage
network
database
egress

Depois FinOps.

Passo 8 — Estude arquitetura distribuída

Especialmente:

latency
timeout
retry
idempotency
consistency
partition

Passo 9 — Estude segurança

Compare:

RACF

com:

IAM

Passo 10 — Nunca aceite desenho de arquitetura sem perguntar:

WHAT HAPPENS WHEN THIS FAILS?

Essa pergunta vale mais que cem certificações.


31. Easter egg final: desligar e ligar não resolve tudo

Roy provavelmente tentaria:

— Have you tried turning Kubernetes off and on again?

Moss entraria em pânico.

— Não se desliga Kubernetes dessa maneira!

Roy:

— Então por que chamam de cluster?

Jen pisaria num cabo.

Produção cairia.

Alguém abriria um Sev1.

O COBOLzeiro no canto ficaria olhando.

Depois perguntaria:

— Existe rollback?

Silêncio.

— Existe backup?

Mais silêncio.

— Existe DR?

Moss:

— Naturalmente.

O veterano sorri.

Agora eles finalmente falam a mesma língua.


32. A grande conclusão

Nubank e mainframe representam épocas diferentes da engenharia.

Um nasceu em um mundo de:

cloud
smartphone
APIs
containers
distributed systems

Outro consolidou-se num mundo de:

centralized computing
transaction processing
batch
terminals

Mas ambos enfrentam:

dinheiro
estado
risco
falha
segurança
volume
auditoria
performance

E esses problemas não respeitam moda tecnológica.

É por isso que comparar Nubank com mainframe é tão interessante.

Você descobre que muitas vezes não estamos reinventando o problema.

Estamos reinventando a solução.

Às vezes melhor.

Às vezes apenas diferente.

Às vezes mais barata.

Às vezes mais rápida.

Às vezes mais complicada.

Às vezes todas essas coisas ao mesmo tempo.


Epílogo — O chamado do incidente

São 02:47 da manhã.

O celular toca.

Produção.

Roy atende.

— IT.

Do outro lado:

— Os pagamentos estão lentos.

Roy:

— Have you tried turning it off and on again?

Moss arranca o telefone.

— NÃO!

O programador COBOL olha para o dashboard.

CPU normal.

Banco normal.

Rede estranha.

Um serviço está repetindo requisições após timeout.

Retry.

Retry.

Retry.

Milhares.

Ele pergunta:

— As operações são idempotentes?

Moss congela.

Roy pergunta:

— Isso é alguma religião?

O COBOLzeiro dá um gole no café.

— Não.

Aponta para a tela.

— É a diferença entre cobrar uma vez e cobrar três.

Silêncio.

Finalmente todos entendem.

Porque por trás de:

AWS
CLOJURE
DATOMIC
KUBERNETES
MICROSERVICES
AI

continua existindo a pergunta mais antiga do sistema bancário:

O dinheiro chegou ao lugar certo, uma única vez, e conseguimos provar isso?

Se a resposta for sim, o sistema está funcionando.

Se a resposta for não...

bem...

ligue para o CPD.

terça-feira, 27 de agosto de 2024

☕ O Holocron do Projeto Altamira: Quando as Caixas Espanholas Migraram do Unisys para IBM Z Sem IA, Sem Assessment Infinito e Sem Arqueologia COBOL

 

Bellacosa Mainframe relembra o projeto Altamira no mundo mainframe

☕ O Holocron do Projeto Altamira: Quando as Caixas Espanholas Migraram do Unisys para IBM Z Sem IA, Sem Assessment Infinito e Sem Arqueologia COBOL



O que era o Altamira?

Altamira era um Core Banking System.

Em termos simples:

Um grande conjunto integrado de aplicações capaz de suportar praticamente toda a operação bancária.

Incluindo:

  • Contas correntes

  • Poupança

  • Empréstimos

  • Hipotecas

  • Transferências

  • Compensação bancária

  • Cartões

  • Tesouraria

  • Clientes

  • Agências

  • Contabilidade

  • Batch noturno

  • Produtos financeiros

Podemos compará-lo a soluções atuais como:

  • Temenos Transact

  • Finacle

  • Mambu

  • TCS BaNCS

  • Hogan

  • SAP Banking

Mas com uma característica importante:

Era concebido para rodar nativamente em Mainframe IBM.


O contexto tecnológico espanhol dos anos 90

Na década de 90 existia uma grande diversidade tecnológica.

Unisys

Muitas Caixas utilizavam sistemas Unisys.

Equipamentos A-Series.

MCP.

COBOL Unisys.

DMSII.

IBM

Outras utilizavam:

IBM 9672

S/390

DB2

CICS

COBOL IBM

Bull

GCOS

NCR

Sistemas proprietários

Era comum cada instituição possuir décadas de customizações.


O desafio de uma Caixa de Poupança

Uma Caixa típica possuía:

Pessoas

Cadastro de clientes

KYC

Relacionamentos


Empréstimos

Hipotecários

Pessoais

Consignados

Leasing


Passivo

Contas

Depósitos

Fundos


Meios de pagamento

Transferências

SEPA

SICA

SWIFT


Contabilidade

Plano contábil

Fechamentos

Provisões


O que significava migrar para Altamira?

Basicamente:

Substituir tudo.

Sistema antigo

Altamira IBM

Mas sem alterar o comportamento do banco.

O cliente não podia perceber.

A agência não podia parar.

Os extratos deveriam continuar corretos.

As prestações deveriam continuar corretas.


A filosofia adotada

Aqui está talvez o aspecto mais interessante.

Não se estudava milhões de linhas COBOL.

Perguntava-se:

O que este produto faz?

Exemplo.

Hipoteca.

Capital:

100.000 euros

Prazo:

20 anos

Taxa:

4%

Sistema francês.

Prestação:

530 euros

(Exemplo simplificado)

O sistema antigo produz:

530

Altamira produz:

530

Está correto.

Próximo item.


Gap Analysis

Ferramenta essencial.

Situação atual

Sistema Unisys

Campo X

Formato 12 bytes


Altamira

Campo X

15 bytes


Decisão:

Adaptar

Expandir

Converter


Exemplo.

Produto antigo

Código 031

Altamira

HIP001

Tabela de conversão.


Pessoas valiam mais que documentação

Algo extremamente comum nos anos 90.

Pergunta:

Como funciona SICA?

Resposta:

Pergunta para o Juan.

Juan trabalhou 15 anos nisso.

Fim do problema.


Hoje muitas empresas perderam esse conhecimento.

Juan aposentou-se.

Pedro foi para fintech.

Maria mudou de área.

Sobra:

500 milhões de linhas COBOL.


Batch era o verdadeiro monstro

O texto menciona algo importante.

Batch.

Batch bancário é frequentemente mais complexo que online.

Exemplo.

22h00

Fechamento

23h00

Juros

00h00

Hipotecas

01h00

Transferências

02h00

Contabilidade

03h00

Backup

04h00

Extratos

05h00

Abertura


Migrar Batch significava:

Reescrever JCL

Reorganizar dependências

Alterar calendários

Ajustar tempos


Transferências e SICA

SICA é um dos componentes menos conhecidos fora da Espanha.

Relaciona-se historicamente com compensação interbancária.

Transferências nacionais.

Liquidação.

Validação.

Regras regulatórias.


Aprender isso dentro do projeto era comum.

Ninguém chegava especialista.

Aprendia.

Fazia.

Testava.

Implantava.


Por que hoje demora tanto?

1) Regulação

Basileia.

DORA.

GDPR.

Auditoria.

SOX.

PCI.

PSD2.


2) Ecossistema

Mobile.

Internet Banking.

PIX equivalente.

Open Banking.

APIs.

Kafka.

IA.


3) Consultorias industrializaram processos

Assessment.

Discovery.

Knowledge Mining.

Digital Twins.

Dependency Graphs.


4) Falta de especialistas bancários

Hoje há muitos especialistas em tecnologia.

Poucos especialistas em negócio bancário.

E isso muda tudo.


O que a IA realmente pode ajudar?

A IA atual ajuda muito.

Ela consegue:

Explicar COBOL.

Documentar COPYBOOK.

Mapear DB2.

Gerar fluxogramas.

Encontrar dependências.

Explicar JCL.

Comparar layouts.

Mas ainda possui dificuldade em responder:

Por que este produto foi criado em 1987?

Qual acordo comercial originou esta exceção?

Por que uma determinada Caixa cobrava a prestação em data aniversário?

Essas respostas normalmente estão em outro lugar.

Na memória das pessoas.

Nas atas esquecidas.

Nas normas internas.

Nos analistas veteranos.

Nos gerentes aposentados.


Considerações Finais

O relato sobre o Projeto Altamira desmonta uma narrativa bastante difundida atualmente: a de que não é possível modernizar um Core Banking sem primeiro compreender perfeitamente cada linha do sistema legado.

A experiência dos anos 90 mostra outra abordagem:

Não migrávamos programas.

Migrávamos regras de negócio.

Migrávamos produtos financeiros.

Migrávamos a capacidade operacional do banco.

O código COBOL, o CICS, o DB2, o Unisys ou o IBM eram apenas os veículos tecnológicos.

O verdadeiro ativo sempre foi o conhecimento bancário.

Talvez a maior lição deixada por projetos como Altamira seja justamente esta:

Um banco não é um conjunto de milhões de linhas COBOL.

Um banco é um conjunto de decisões de negócio acumuladas durante décadas, e o sucesso de qualquer transformação depende muito mais de compreender essas decisões do que de realizar arqueologia em código-fonte.

E, curiosamente, essa continua sendo uma das maiores limitações da IA generativa em 2026: ela pode ler o código legado em segundos, mas ainda precisa de um veterano do negócio para explicar por que aquela regra aparentemente absurda continua existindo após trinta anos de produção.


Vagner Renato Bellacosa, IBM Champion e especialista em IBM Mainframe
IBM Z17 SYSTEM ONLINE
Sobre o autor

Vagner Renato Bellacosa

IBM Champion 2026 • Especialista em IBM Mainframe

Vagner Renato Bellacosa trabalha com IBM Mainframe desde 1988 , é IBM Champion e especialista em COBOL, CICS, Db2, z/OS e IBM Z. Compartilha experiências profissionais, conhecimento técnico, história da computação e práticas do universo mainframe para aproximar novas gerações das tecnologias que sustentam empresas, bancos e governos ao redor do mundo.

IBM Champion IBM Z COBOL CICS Db2 z/OS Mainframe desde 1988
GitHub LinkedIn
Inicializando conteúdo...