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domingo, 22 de dezembro de 2013

Uma árvore solitaria, o romanzeiro do bisavô Paco

 


Uma árvore solitária, o romanzeiro do bisavô Paco

Ao melhor estilo Bellacosa Mainframe, registro aqui uma memória que roda em batch noturno, daquelas que não dá abend, não precisa de restart e segue ativa no coração desde sempre.

Estou falando do meu bisavô Paco, o espanhol. Homem sisudo, poucas palavras, olhar firme — daqueles que parecem um programa antigo em assembler: econômico, direto, sem comentários no código, mas absolutamente funcional e confiável.

A cena é sempre a mesma quando faço o IPL dessa lembrança. Ele lá fora, na antiga rua de terra, cuidando da horta, das plantas do jardim e principalmente da sarjeta, que insistia em entupir. Trabalho de formiguinha, diário, repetitivo, quase um JOB em loop infinito, mas feito com disciplina de quem sabe que se não limpar hoje, amanhã o problema dobra. Às vezes eu ajudava. Ganhava umas coroas para segurar a pá, puxar o barro, aprender que manutenção preventiva evita desastre — lição que anos depois eu reencontraria no mundo do mainframe, só que com outro tipo de sujeira.


O bisavô Paco tinha a mão esquerda semioperacional, consequência de um AVC provocado por um acidente doméstico. Nada de vitimismo. Ele seguia firme, fazendo exercícios com uma bolinha de tênis, apertando, soltando, insistindo. Era o recovery manual do corpo, numa época em que reabilitação era força de vontade e teimosia. No frio de São Paulo, usava luva para aquecer a mão — imagem gravada em storage protegido da minha memória.

Apesar do jeito fechado, ele tinha seus logs de ternura. Um deles era comigo. Sempre elogiava minhas caricaturas, como ele chamava meus desenhos, incentivava, observava, aprovava com um aceno curto de cabeça. Poucas palavras, mas impacto máximo. Era como um RC=0 silencioso.

Mas o verdadeiro dataset crítico dessa história é outro.

O pé de romã.

Um romanzeiro solitário, ali no quintal, cuidado com um afinco quase ritualístico. Podar, adubar, observar. Nada era feito às pressas. Era um processamento em modo síncrono, respeitando o tempo da planta. E quando surgia um fruto — às vezes um só, às vezes dois — a alegria do meu bisavô era genuína, quase infantil. Um sorriso raro, um brilho no olho. No final do ano, comer romã virava um pequeno evento, desses que não precisam de anúncio nem plateia.

Sempre me perguntei, já adulto, que memória aquela árvore despertava nele. Espanha? Infância? Alguma terra seca deixada para trás? Algum quintal que não pude conhecer? A romã, para ele, parecia ser mais que fruto. Era checkpoint emocional, uma âncora silenciosa entre passado e presente.

Hoje, quando vejo uma romã, faço um link-edit automático com essa imagem: o homem calado, a mão lutando para não desistir, a rua de terra, a sarjeta limpa, o cuidado diário, o fruto raro. Entendo, finalmente, que aquele carinho todo não era só pela planta. Era pela memória que ela mantinha viva.

E algumas memórias, assim como certos sistemas legados, precisam ser preservadas, não porque são antigas, mas porque continuam funcionando perfeitamente.

A tradição de comer romãs na virada do ano

Existe um hábito nos países latinos de comer romãs e guardar suas sementes para dar boa sorte no decorrer do ano, justamente na virada do ano, dando as boas vindas para o Ano Novo.



sábado, 17 de março de 2012

🥃 Paco, o Espanhol de Aço — O Imigrante que Derrotou a Morte Três Vezes

 


🥃 Paco, o Espanhol de Aço — O Imigrante que Derrotou a Morte Três Vezes

Crônica ao estilo Bellacosa Mainframe para o blog El Jefe Midnight Lunch

Alguns homens vêm ao mundo para trabalhar, outros para sobreviver, e uma pequena minoria para desafiar as estatísticas, a lógica e até mesmo a Morte.
Entre esses últimos, estava meu bisavô Francisco — mas para a família, o nome verdadeiro era Paco, espanhol de sangue quente, sotaque carregado, bigode bravo e coração leal.



🚢 Do Mar de Almería à Pauliceia dos Trilhos

Paco não nasceu no Brasil — ele atravessou o Atlântico, ainda pequeno, espremido com a família num navio a vapor que partiu de Almería.
Espanha vivia dias difíceis; o Brasil prometia fartura, café e futuro.

Chegaram em Santos, foram para a célebre Hospedaria dos Imigrantes, e dali seguiram para o interior profundo — o então Novo Mundo, hoje Catanduva. A família cresceu como crescem famílias fortes: espalhando-se em raízes, galhos e histórias por São José do Rio Preto, Barretos e arredores.

Foi ali que Paco conheceu Bel, moça firme, descendente também de espanhóis, com quem construiu um lar. Mas o destino, esse maquinista incansável, os chamava de volta aos trilhos — e embarcaram rumo a São Paulo pela Companhia Paulista, a ferrovia que costurava sonhos e cidades.

Foram morar em São Caetano, depois Parque São Lucas, depois onde a vida pedisse. Família sempre crescendo, sempre trabalhando, sempre lutando.


🔥 Paco: pouca fala, muito jornal

Meu bisavô era de poucas palavras e muitas opiniões. O português dele vinha carregado de Espanha, de poeira, de trabalho.
Bravo, mas justo.
Sério, mas com um sorriso meio torto que valia mais que discurso.

E havia uma liturgia diária:

  • A Gazeta Esportiva — porque todo espanhol de respeito é corinthiano sofredor por vocação.

  • O infame Notícias Populares — porque ninguém resiste a uma manchete absurda antes do almoço.

  • O Estado de São Paulo aos domingos — porque até os bravos têm seu dia de calmaria.

Eu gostava de ouvi-lo. Às vezes achava que ele exagerava nas histórias. Depois percebi que não. Ele era realmente aquilo tudo.


💀 Primeiro Superpoder: vencer a Morte por desabamento

Um dia, enquanto trabalhava como encarregado no restauro de um alto-forno, aconteceu o impensável: a chaminé inteira desabou.
Gente morreu.
Houve gritos, poeira, caos.

Do meio dos escombros, levantou-se Paco — machucado, sangrando, mas vivo.
E, segundo ele, xingando em espanhol quem tivesse culpa.

A Morte errou a mão.
E Paco devolveu a encarada.


🚗 Segundo Superpoder: atropelamento? Só um incômodo

Anos depois, atravessando a famigerada estrada Mogi das Cruzes — a querida Avenida Imperador da Vila Rio Branco — um motorista covarde o atropelou e fugiu.

Ambulância. Hospital.
E alguns dias depois ele já estava em casa, rindo da situação, como quem toma chuva sem guarda-chuva.

A Morte tentou de novo.
Paco 2 x 0.



🍽️ Terceiro Superpoder: AVC com banho de sangue teatral

Mas a cena mais absurda foi durante um almoço de domingo.
A família toda reunida.
De repente Paco convulsiona — um AVC súbito.

Na queda, bate o pulso num prato de colorex.
Corta o braço.
Jorra sangue.
Parece filme de samurai.

E no fim?
Saiu ileso do AVC.
Só perdeu movimento da mão.

Paco 3 x 0.

A Morte, coitada, pediu música no Fantástico.

🪙 O Guardião do Troco e o Imperador da Sarjeta

Meu bisavô tinha regras.
Firmes.
E sagradas.

Ele me dava moedas para doces, pipas, piões — mas ao voltar da padaria ou do jornaleiro, pedia o troco.
Se estivesse certo, era meu prêmio.
Se estivesse errado, eu tinha que voltar para pegar o troco correto.

Aprendi duas lições:

  1. Honestidade não é opção — é procedimento operacional.

  2. Corinthiano até no troco é rígido.

Outra mania: limpar a guia da sarjeta em frente à casa.
Adorava uma calçada impecável.
Eu, claro, era o estagiário oficial.
Ganhava algumas coroas pela auditoria.

🍺 A guerra com seu genro — e o acordo entre as famílias

Paco era teimoso.
Bravo.
Um rolo compressor de Espanha e turrice.

Quando sua filha apaixonou-se por meu avô Pedro — um italiano — o mundo quase acabou.
Espanhol e italiano na mesma mesa?
Que ousadia!

Foi preciso meu outro bisavô, Luigi, subdelegado meio rufião, intervir para negociar a paz.
Um tratado quase diplomático.

No fim, o casamento durou décadas, só terminando quando meu avô Pedro faleceu.

A paz latina, selada na base do amor e do tranco.

🥘 Epílogo: o homem que virou lenda

Paco não foi herói de cinema.
Não saiu no jornal (pelo menos não nas manchetes sérias).
Mas foi um daqueles homens raros:

  • que chegam com pouco e constroem muito

  • que criam filhos, netos e bisnetos com dureza e ternura

  • que batalham pela vida até o último round

  • que deixam marcas invisíveis, mas permanentes

Quando penso no meu bisavô, vejo um sobrevivente, um mestre rude, um espanhol corinthiano que encarava a vida com coragem, humor e jornal na mão.

E no grande Mainframe da memória, o registro do velho Paco permanece em STATUS ACTIVE, com retenção infinita e proibição permanente de purge.

Porque certos homens não viram lembrança.
Eles viram fundação.

E o Paco?
Ah… esse foi puro aço forjado no calor da Pauliceia.