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quinta-feira, 15 de fevereiro de 2024

O Mestre Persa Algoritm Entra no CPD — A Noite em que COBOL Descobriu que “Funcionou Aqui” Não Era Plano de Testes

 

Bellacosa Mainframe testando software

☕ Um Café no Bellacosa Mainframe

O Mestre Persa Algoritm Entra no CPD — A Noite em que COBOL Descobriu que “Funcionou Aqui” Não Era Plano de Testes

Ou: como Black Box, White Box, Regression, Selenium, APIs, CI/CD, Db2, CICS, MQ, performance, bugs, usuários furiosos e um velho sábio persa ensinaram a um programador COBOL que qualidade não é provar que o sistema funciona — é descobrir todas as maneiras pelas quais ele pode falhar antes das três da manhã

Há uma velha história, provavelmente inventada por algum operador de mainframe durante um plantão de madrugada, sobre um mestre persa chamado Algoritm.

Alguns dizem que ele veio de Bagdá.

Outros juram que apareceu pela primeira vez em Samarcanda carregando pergaminhos cheios de fórmulas.

Um analista mais desconfiado afirmou que seu verdadeiro nome deveria ser alguma corruptela de Al-Khwarizmi, mas ninguém teve coragem de abrir uma change request para corrigir o cadastro.

O fato é que, numa noite qualquer, o Mestre Persa Algoritm atravessou a porta do CPD.

Olhou para os racks.

Observou as luzes piscando.

Passou pela console do z/OS.

Viu um programador COBOL iniciante comemorando diante da tela.

— Funcionou!

Algoritm parou.

— O que funcionou?

— Meu programa.

— Quantas vezes?

— Uma.

O persa acariciou a barba.

— Então você não sabe se funciona.

— Como assim?

— Você sabe apenas que não falhou daquela maneira específica, naquele instante específico, usando aqueles dados específicos.

O programador ficou em silêncio.

Algoritm puxou uma cadeira.

— Prepare o café. Esta noite falaremos sobre testes.

E é aqui que começa nossa viagem.



1. Testar software não é procurar botão quebrado

Quando alguém está começando em programação, especialmente vindo de uma mentalidade muito orientada ao código, é fácil imaginar teste assim:

executei
↓
não deu abend
↓
está certo

No mainframe existe até uma versão clássica:

JOB ENDED - MAXCC=0000

E imediatamente surge a tentação:

“Pronto. Funcionou.”

Não necessariamente.

MAXCC=0000 significa que aquele job terminou sem retornar uma condição de erro significativa naquele processamento.

Não significa:

dados corretos
regras corretas
performance correta
segurança correta
concorrência correta
integração correta

Pode existir um sistema absolutamente errado terminando com RC=0.

Essa é uma das primeiras lições do Mestre Algoritm:

Software Testing é uma investigação sobre comportamento e risco.

O teste tenta responder:

O que deveria acontecer?
        ↓
O que aconteceu?
        ↓
Existe diferença?
        ↓
Por quê?
        ↓
Qual o impacto?

Portanto, o objetivo do teste não é somente encontrar bugs.

Ele também serve para:

  • aumentar confiança no sistema;

  • reduzir risco;

  • verificar requisitos;

  • ajudar decisões de release;

  • encontrar comportamentos inesperados;

  • descobrir problemas antes que o cliente descubra.

Porque existe algo pior do que um tester descobrir um bug.

É o cliente descobrir.



2. O primeiro paradoxo: testes nunca provam ausência de bugs

Algoritm pega uma xícara.

— Quantos testes você precisa executar para provar que seu programa não possui erros?

O programador pensa.

— Mil?

— Não.

— Um milhão?

— Não.

— Todos?

Algoritm sorri.

— Agora começou a entender.

Um dos princípios fundamentais dos testes diz:

Testing shows the presence of defects, not their absence.

Ou seja:

se encontramos erro, sabemos que existe erro.

Se não encontramos, apenas não encontramos ainda.

Essa distinção parece filosófica, mas é profundamente prática.

Imagine:

IF WS-SALDO >= WS-SAQUE
    SUBTRACT WS-SAQUE FROM WS-SALDO
ELSE
    MOVE 'SALDO INSUFICIENTE'
      TO WS-MENSAGEM
END-IF

Testamos:

saldo = 1000
saque = 100

Resultado perfeito.

Mas faltam:

saldo = 100
saque = 100

saldo = 99
saque = 100

saque = 0

saque negativo

saque enorme

saldo inválido

conta bloqueada

duas requisições simultâneas

Aquele primeiro teste apenas mostrou que:

1000 - 100 = 900

Não mostrou que o sistema bancário está pronto para produção.



3. Teste exaustivo é impossível

Agora Algoritm desenha numa folha:

LOGIN

Temos usuário e senha.

Parece simples.

Mas considere:

usuário correto
usuário errado
senha correta
senha errada
conta bloqueada
conta expirada
senha expirada
campo vazio
espaço
Unicode
caracteres especiais
string gigantesca
tentativas repetidas
sessão existente
rede instável
banco indisponível

E cada uma dessas condições pode combinar-se com outras.

A explosão combinatória acontece rapidamente.

Portanto:

Exhaustive testing is impossible.

É impossível testar cada combinação possível de entrada, estado, ambiente e sequência.

Por isso precisamos de inteligência.

Não testamos tudo.

Testamos aquilo que oferece melhor cobertura de risco.

Esse é o momento em que testes deixam de parecer uma checklist e começam a parecer engenharia.


4. SDLC e STLC — construir e testar não deveriam viver separados

A abordagem tradicional do desenvolvimento frequentemente parecia uma procissão burocrática:

Analista
  ↓
Desenvolvedor
  ↓
Tester
  ↓
Produção

O tester recebia o sistema praticamente pronto.

Encontrava 47 problemas.

O desenvolvedor dizia:

“Mas agora vai atrasar o projeto!”

O tester respondia:

“Eu não criei os 47 bugs.”

E começava uma guerra civil.

O SDLC — Software Development Life Cycle cobre o ciclo do software:

requisitos
↓
análise
↓
design
↓
desenvolvimento
↓
testes
↓
deploy
↓
manutenção

Já o STLC — Software Testing Life Cycle trata especificamente das atividades de teste:

análise de requisitos
↓
planejamento
↓
desenho dos testes
↓
preparação do ambiente
↓
execução
↓
encerramento

Mas numa organização madura esses ciclos se cruzam.

Testing não deveria começar quando a programação termina.

O tester precisa participar antes.

Isso é o famoso Shift Left.


5. Shift Left — encontrar bugs antes que eles virem código

Algoritm pergunta:

— Qual é o bug mais barato?

O programador responde:

— O que é rápido de corrigir?

— Não. O que ainda não virou código.

Considere um requisito:

“O cliente poderá transferir valores entre contas.”

Parece perfeito.

Até alguém perguntar:

qual limite?
pode enviar para a própria conta?
conta bloqueada pode transferir?
o que ocorre no limite exato?
o que ocorre se o débito acontecer e o crédito falhar?
como evitar transferência duplicada?
há timeout?

Essas perguntas podem revelar problemas ainda durante os requisitos.

Nenhuma linha COBOL foi compilada.

Nenhum JCL foi submetido.

Nenhum DBA foi acordado.

Esse é um dos maiores ganhos de testes modernos:

testar ideias antes de testar programas.


6. Os níveis de teste — do parafuso ao avião inteiro

O material apresenta níveis clássicos:

Unit
↓
Integration
↓
System
↓
Acceptance

Podemos pensar numa fábrica de aviões.

Você testa:

parafuso
motor
asa
avião completo
voo

Não basta verificar o parafuso.

Também não faz sentido esperar o avião completo para descobrir que o parafuso estava errado.


7. Unit Testing — teste perto do código

Unit Test testa uma pequena unidade isoladamente.

Imagine:

COMPUTE WS-JUROS =
    WS-SALDO * WS-TAXA

Queremos testar:

saldo positivo
saldo zero
saldo negativo
taxa zero
decimais
arredondamento
overflow

Unit Tests são normalmente:

rápidos
repetíveis
isolados
baratos

Eles ajudam a encontrar o problema perto de onde ele nasceu.

No ecossistema COBOL moderno há inclusive ferramentas e frameworks voltados a unit testing, e isso destrói a velha lenda:

“COBOL não combina com testes modernos.”

Combina perfeitamente.

O código não sabe que nasceu em 1959.


8. Integration Testing — o sistema quebra quando começa a conversar

Aqui temos um fenômeno clássico.

Todos os módulos funcionam.

Juntos, não.

Imagine:

Aplicativo
 ↓
API Gateway
 ↓
z/OS Connect
 ↓
CICS
 ↓
COBOL
 ↓
Db2

Separadamente:

API OK
CICS OK
COBOL OK
Db2 OK

Mas integração pode falhar porque:

JSON ≠ copybook
UTF-8 ≠ EBCDIC
decimal ≠ COMP-3
timestamp ≠ formato esperado
campo obrigatório desapareceu

Integration Testing verifica os contratos entre os componentes.

É aí que aparecem erros que ninguém tinha quando estava sozinho.

Quase como reunião de família.


9. System Testing — teste aquilo que o usuário realmente percebe

O usuário não pensa:

“Estou invocando um microsserviço de estoque.”

Ele pensa:

“Estou comprando um notebook.”

Logo, System Testing examina o fluxo completo.

login
↓
busca
↓
produto
↓
carrinho
↓
checkout
↓
pagamento
↓
estoque
↓
pedido
↓
confirmação

Pode haver vinte componentes internos.

Para o cliente existe apenas uma pergunta:

“Minha compra funcionou?”

Essa diferença é essencial.


10. Functional Testing versus Non-Functional Testing

Aqui está uma das divisões mais elegantes.

Functional Testing pergunta:

O que o sistema faz?

Non-Functional Testing pergunta:

Quão bem ele faz?

Imagine transferência bancária.

Funcionalmente:

debita origem
credita destino
gera comprovante

Perfeito.

Mas leva 45 segundos.

Tecnicamente funciona.

Praticamente é um desastre.

Ou funciona rapidamente, mas:

qualquer cliente consulta a conta de outro cliente

Funcionalmente responde.

Em segurança, falhou monstruosamente.

Por isso software de qualidade precisa dos dois lados.


11. Black Box Testing — teste o sistema sem olhar dentro

Black Box é como testar uma máquina fechada.

Você conhece:

entrada
resultado esperado

Não precisa saber como o programa foi implementado.

Exemplo:

idade aceita: 18 até 65

Não testamos todos os números do universo.

Usamos técnicas.


12. Equivalence Partitioning — dividir o universo

Podemos criar partições:

idade < 18      inválida
18–65           válida
idade > 65      inválida

Selecionamos representantes:

17
30
66

Isso reduz bastante o número de testes mantendo boa cobertura.

Mestre Algoritm comenta:

— Um bom tester não testa muito. Testa inteligentemente.


13. Boundary Value Analysis — o perigo mora na fronteira

Programadores são criaturas especialmente vulneráveis aos limites.

Se a regra é:

1 até 100

testes interessantes:

0
1
2
99
100
101

Porque bugs surgem em diferenças como:

<
<=
>
>=

Em COBOL pense imediatamente em:

PIC
OCCURS
subscripts
COMP-3
tamanho de registro
campo numérico

A fronteira é um habitat natural de bugs.


14. Decision Table — excelente para regra de negócio

Imagine autorização de crédito:

cliente ativo?
saldo suficiente?
limite disponível?
conta regular?

Cada condição possui combinações.

Uma Decision Table deixa explícito:

AtivoSaldoLimiteResultado
SimSimSimAprova
NãoSimSimRejeita
SimNãoSimRejeita
SimSimNãoRejeita

É particularmente valiosa em sistemas financeiros cheios de regras condicionais.

E sistemas COBOL adoram regras condicionais.

Às vezes até demais.


15. State Transition Testing — o passado importa

Alguns comportamentos dependem do estado.

Considere login:

ACTIVE
 ↓ erro
ACTIVE
 ↓ erro
ACTIVE
 ↓ erro
LOCKED

O terceiro erro produz algo diferente do primeiro.

Portanto:

estado atual
+
evento
=
novo estado

Isso aparece em:

login
pagamentos
pedidos
CICS
workflow
mensageria

Testing de estado verifica justamente essas transições.


16. White Box Testing — agora abrimos o programa

No White Box conhecemos a estrutura interna.

Imagine:

IF A > B
    PERFORM ROTINA-A
ELSE
    PERFORM ROTINA-B
END-IF

Precisamos exercitar:

True
False

E podemos medir:

Statement Coverage
Branch Coverage
Condition Coverage
Path Coverage
Loop Coverage

Mas atenção ao Easter Egg escondido no templo persa:

100% coverage não significa 100% correto.

Podemos executar todas as linhas de um programa errado.

Coverage mede execução.

Não mede sabedoria.


17. Regression versus Retesting — duas perguntas diferentes

Bug:

senha contendo @ falha

Corrigimos.

Retesting

Pergunta:

A correção funcionou?

Testamos novamente a senha.

Regression

Pergunta:

A correção quebrou outra coisa?

Testamos:

login
logout
reset password
MFA
sessão
bloqueio

Resumo Bellacosa:

RETEST:
"Consertou o vazamento?"

REGRESSION:
"Consertando o vazamento, estourou o encanamento da cozinha?"

Essa é a diferença.


18. Defect Life Cycle — o bug também tem carreira

Um bug costuma viajar:

New
 ↓
Assigned
 ↓
Open
 ↓
In Progress
 ↓
Fixed
 ↓
Retest
 ↓
Verified
 ↓
Closed

Mas no mundo real encontramos parentes:

Reopened
Rejected
Duplicate
Deferred
Cannot Reproduce
Won't Fix
Blocked

O mais famoso é:

Cannot Reproduce.

O tester jura que aconteceu.

O developer jura que não.

Produção entra na reunião e diz:

Aconteceu comigo também.

Silêncio.

Um bom bug report precisa conter:

versão
ambiente
pré-condições
passos
dados
resultado esperado
resultado observado
timestamp
logs
evidências

“Não funciona” não é bug report.

É pedido de ajuda.


19. Severity e Priority — gravidade não é urgência

Severity:

Quanto dói?

Priority:

Quão rápido precisamos tratar?

Imagine erro ortográfico na tela principal durante uma demonstração internacional.

Severity:

Low

Priority:

P1

Agora imagine crash crítico numa função administrativa usada uma vez ao ano.

Severity:

Critical

Priority pode não ser P1.

Portanto:

SEVERITY != PRIORITY

Severity está relacionada ao impacto do defeito.

Priority envolve necessidade de negócio.


20. Manual Testing — humanos ainda são surpreendentemente úteis

Chegamos a uma moda perigosa:

“IA e automação vão eliminar teste manual.”

Não.

Teste manual é particularmente útil em:

exploratory testing
usability
interface
novas features
comportamentos inesperados
investigação

O ser humano percebe coisas que um script não foi instruído a perceber.

Um script pode validar:

botão existe

Um humano percebe:

“Ninguém vai entender para que serve esse botão.”

São problemas diferentes.


21. Test Automation — automatize repetição, não pensamento

Automação faz sentido quando testes são:

repetitivos
estáveis
frequentes
determinísticos
caros manualmente

Regression Testing é candidato clássico.

Mas automatizar tudo gera outra doença:

10.000 scripts
+
interface alterada
=
10.000 problemas de manutenção

Automação tem ROI.

Existe:

custo inicial
infraestrutura
manutenção
dados
execução
investigação

Por isso:

Automatize o teste certo, não simplesmente tudo que possui botão.


22. A pirâmide dos testes

A pirâmide clássica:

        UI
       /--\
      API
     /----\
    UNIT
   /______\

A base contém muitos Unit Tests.

Depois APIs e integração.

No topo poucos E2E/UI.

Por quê?

Unit Tests são rápidos.

UI Tests são relativamente lentos e frágeis.

Se toda regra de negócio for validada por Selenium abrindo browser, clicando em menus e esperando telas, prepare café.

Muito café.


23. Selenium — o mensageiro do navegador

Selenium automatiza navegadores.

Fluxo:

test script
 ↓
WebDriver
 ↓
browser
 ↓
application

Podemos:

abrir URL
localizar elementos
clicar
preencher
capturar texto
validar resultado

O Selenium é poderoso.

Mas não deve testar tudo.

Se uma regra pode ser verificada diretamente na API, normalmente o teste será:

mais rápido
mais estável
mais simples

24. O clássico sleep(5) — a oração do programador cansado

Considere:

Thread.sleep(5000);

Tradução:

“Ó sistema, por favor tenha terminado dentro de cinco segundos.”

Se termina em 100 ms:

perdemos tempo.

Se termina em 5,01 segundos:

falha.

Melhor é esperar uma condição:

botão clicável
elemento visível
resposta concluída

Esses são os Explicit Waits.

Eles ajudam a reduzir testes flakey.

Flaky Test é aquele teste adorável que:

passa
falha
passa
falha

sem mudança no programa.

O Mestre Algoritm certamente jogaria esse teste no deserto.


25. API Testing — HTTP 200 não é certificado de perfeição

API Testing verifica:

endpoint
method
headers
authentication
request
response
schema
status
performance
security

Imagine:

POST /transfer

Recebemos:

HTTP 200

Excelente?

Talvez.

Precisamos verificar:

o dinheiro saiu?
chegou?
duplicou?
foi persistido?
auditado?

Uma resposta HTTP tecnicamente válida pode carregar comportamento de negócio errado.

Esse é um conceito extremamente importante.


26. Performance Testing — o sistema pode funcionar e ainda assim morrer

Performance Testing não significa apenas medir velocidade.

Temos:

Load Testing

Carga esperada.

Stress Testing

Carga além do esperado.

Spike Testing

Aumento repentino.

Soak Testing

Carga prolongada.

Volume Testing

Grandes volumes de dados.

Scalability Testing

Capacidade de crescer.

Uma aplicação pode sobreviver cinco minutos perfeitamente.

Depois de seis horas:

memory leak
pool esgotado
fila crescente
storage acabando

O Soak Test revela esses monstros.


27. Métricas — média é uma mentirosa educada

Imagine:

Average Response Time = 200 ms

Fantástico.

Mas:

P50 = 100 ms
P95 = 2 s
P99 = 12 s

A maioria está feliz.

Uma parcela está sofrendo profundamente.

Por isso usamos percentis.

Também observamos:

TPS
throughput
latency
error rate
CPU
memory
disk
network

Uma métrica isolada conta metade da história.


28. Agile Testing — testing deixa de ser departamento

Agile Testing traz uma mudança fundamental:

qualidade é responsabilidade do time.

Não:

DEV fez
↓
QA testa

Mas:

PO
↕
Developer
↕
Tester
↕
Operations

Testing acontece continuamente.

O QA deixa de ser “polícia do bug”.

Torna-se parceiro da engenharia.


29. CI/CD — a esteira que não aceita promessa

No CI/CD:

commit
↓
build
↓
unit test
↓
static analysis
↓
integration
↓
API test
↓
security
↓
deploy
↓
monitor

Se um quality gate falha:

STOP

No mainframe isso pode envolver:

Git
↓
DBB
↓
COBOL Compile
↓
Link Edit
↓
Unit Tests
↓
Integration
↓
Deploy

Sim.

COBOL pode viver dentro de pipeline moderno.

Ele não precisa continuar esperando fita magnética e formulário de mudança datilografado.


30. “Works in DEV, fails in PROD”

Existe uma inscrição secreta na parede de todo datacenter:

Funciona no meu ambiente.

Em produção encontramos diferenças:

configuração
dados
versões
RACF
certificados
network
Db2
CICS
feature flags
capacity

Código igual não garante ambiente igual.

Portanto:

ambiente também faz parte do sistema.

Essa ideia é frequentemente esquecida.


31. O cenário assustador: usuário vendo dados de outro usuário

Imagine:

Cliente A
 ↓
consulta conta
 ↓
dados do Cliente B

O sistema pode responder:

HTTP 200
tempo = 70 ms
JSON válido

Performance maravilhosa.

Funcionalidade respondendo.

Segurança devastada.

Aqui entram:

authentication
authorization
session
access control
data isolation

Essa é a prova definitiva de que qualidade é multidimensional.


32. “Dados às vezes não são salvos”

Algoritm fica sério.

— Qual palavra mais perigosa num bug report?

O programador responde:

— Abend?

— Não.

— Corrupção?

— Não.

— Qual?

Às vezes.

“Às vezes não salva.”

Pode indicar:

race condition
lock
timeout
rollback
commit
deadlock
concorrência
network failure

Problemas intermitentes são particularmente difíceis porque dependem de timing e estado.

Exemplo:

DEBIT
↓
serviço externo
↓
timeout
↓
CREDIT?

Esse tipo de teste começa a entrar em resiliência.


33. Observabilidade — a página que deveria existir

Eu acrescentaria ao material:

Testing + Observability

Não basta saber:

FAILED

Precisamos saber:

WHY?

Logs.

Metrics.

Traces.

No mainframe:

SQLCODE
CICS RESP
MQ Reason Code
SMF
return codes
Abend codes

Em sistemas distribuídos, um correlation ID permite acompanhar:

Mobile
↓
API
↓
z/OS Connect
↓
CICS
↓
COBOL
↓
Db2

Sem observabilidade, debugging moderno vira arqueologia.


34. Resilience Testing — provoque o desastre antes que o desastre aconteça

Outra evolução interessante:

E se Db2 cair?
E se MQ parar?
E se a rede ficar lenta?
E se o serviço externo devolver lixo?
E se o certificado expirar?

Resilience Testing não pergunta apenas:

o sistema quebra?

Pergunta:

como o sistema quebra?

Existe enorme diferença entre:

mensagem de indisponibilidade

e:

dados financeiros inconsistentes

Sistemas críticos precisam falhar com segurança.


35. E finalmente: como pensa um tester de verdade?

Voltamos ao Mestre Algoritm.

O iniciante pergunta:

— Mestre, então qual é a principal ferramenta de um tester?

Algoritm aponta para a cabeça.

Não Selenium.

Não Postman.

Não JMeter.

Não Jenkins.

Não alguma ferramenta de IA.

A principal ferramenta é:

curiosidade estruturada.

O desenvolvedor pergunta:

Como faço isso funcionar?

O tester pergunta:

Como faço isso falhar?

O engenheiro de qualidade pergunta:

Qual falha importa mais?

O engenheiro de resiliência pergunta:

Quando isso inevitavelmente falhar,
como impedimos que o desastre se espalhe?

Isso representa uma progressão extremamente interessante:

JÚNIOR
"Funciona?"

↓


PLENO
"Quando falha?"

↓


SÊNIOR
"Onde pode falhar?"

↓


TEST ENGINEER
"Como mensuramos o risco?"

↓


QUALITY ENGINEER
"Como prevenimos e detectamos?"

↓


SRE / RESILIENCE
"Como sobrevivemos à falha?"

☕ Epílogo — o Mestre Persa desliga o terminal

O relógio marcava 03:17.

O café havia acabado.

O programador COBOL olhou novamente para seu job.

Na tela continuava:

MAXCC=0000

Antes ele teria comemorado.

Agora começou a perguntar:

E se o arquivo estiver vazio?

E se chegar duplicado?

E se o Db2 retornar -911?

E se o CICS der timeout?

E se dois usuários fizerem isso juntos?

E se MQ não responder?

E se a regra mudar?

E se o sistema estiver lento?

E se um usuário acessar dados de outro?

E se funcionar hoje e quebrar amanhã?

Algoritm sorriu.

— Agora você está testando.

Pegou seu velho pergaminho.

Saiu pelo corredor.

No verso havia uma última frase escrita em tinta desbotada:

“O bom programador escreve caminhos pelos quais o software pode funcionar. O bom tester procura caminhos pelos quais ele pode falhar. O grande engenheiro entende que ambos estão desenhando o mesmo sistema.”

Na manhã seguinte ninguém encontrou o Mestre Algoritm.

Mas sobre a mesa do programador havia uma pequena folha contendo apenas:

IDENTIFY
    RISK

DESIGN
    TEST

EXECUTE
    EVIDENCE

LEARN
    REPEAT

E, escondido no canto inferior, quase como um Easter Egg:

IF PROGRAM-WORKS
    CONTINUE
ELSE
    CALL 'MESTRE-ALGORITM'
END-IF.

O compilador reclamou que MESTRE-ALGORITM não existia.

Naturalmente.

O primeiro teste da manhã havia acabado de encontrar um bug.

Vagner Renato Bellacosa, IBM Champion e especialista em IBM Mainframe
IBM Z17 SYSTEM ONLINE
Sobre o autor

Vagner Renato Bellacosa

IBM Champion 2026 • Especialista em IBM Mainframe

Vagner Renato Bellacosa trabalha com IBM Mainframe desde 1988 , é IBM Champion e especialista em COBOL, CICS, Db2, z/OS e IBM Z. Compartilha experiências profissionais, conhecimento técnico, história da computação e práticas do universo mainframe para aproximar novas gerações das tecnologias que sustentam empresas, bancos e governos ao redor do mundo.

IBM Champion IBM Z COBOL CICS Db2 z/OS Mainframe desde 1988
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