| Bellacosa Mainframe memorias de uma batalha de peões |
Batalha dos peões.
Semana de ferias na escola tem que ter imaginação para entreter o formiga.
Estamos em Dezembro sem aulas no Catatau, como isso devemos inventar coisas para entreter o formiguinha, filmes e desenhos estão em baixa. Por isso mexendo nos brinquedos encontramos estes peões.
Após estudar um pouco o funcionamento, montamos a arena e começamos as batalhas, foram algumas horas de diversão, com o jiga joga dos peões.
Boa diversão e algumas bagunças.
📝 Nota especial — Quando alguns peões derrotaram a televisão
Relendo este pequeno registro tantos anos depois, percebo que naquele dia aconteceu uma coisa muito simples — e justamente por isso muito bonita.
Era dezembro.
Não havia aula no Catatau.
O Formiga estava de férias e chegamos àquele velho problema conhecido por qualquer pessoa responsável por uma criança cheia de energia:
como entreter esta criatura hoje?
Filmes?
Já não interessavam.
Desenhos?
Também estavam em baixa.
Era necessário recorrer a uma tecnologia extremamente sofisticada, desenvolvida durante milhares de anos pela humanidade:
fuçar nas coisas até encontrar alguma coisa interessante.
E encontramos os peões.
🌀 Mas como funciona esse negócio?
Primeiro veio a investigação.
Pegamos os brinquedos.
Tentamos entender o mecanismo.
Testamos.
Erramos.
Tentamos novamente.
Até que alguém teve a ideia inevitável:
— E se a gente fizer uma batalha?
Pronto.
Acabávamos de transformar alguns brinquedos esquecidos numa competição oficial.
Montamos nossa arena.
Definimos aproximadamente as regras — porque regras domésticas possuem uma extraordinária capacidade de serem modificadas quando o resultado não agrada a um dos competidores — e começaram as batalhas.
Peão contra peão.
Rodada após rodada.
Jiga-joga.
Bate daqui.
Escapa dali.
Um gira mais.
Outro cai.
Tem revanche.
Tem discussão sobre quem ganhou.
Tem nova rodada porque aquela anterior “não valeu”.
E assim algumas horas simplesmente desapareceram.
📺 A televisão perdeu por W.O.
Essa talvez seja minha parte favorita quando releio o texto original.
Naquele dia não foi necessário grande planejamento.
Não compramos uma atração.
Não instalamos aplicativo.
Não havia algoritmo recomendando a próxima atividade.
Encontramos alguns peões.
E usamos imaginação.
Só isso.
Hoje parece quase revolucionário.
Naquele momento era apenas:
“Formiga está de férias. Precisamos inventar alguma coisa.”
🐜 E o Formiga estava devidamente entretido
Naturalmente, diversão com o Formiga nunca significava apenas seguir as instruções existentes na embalagem.
Alguma bagunça precisava acontecer.
Fazia parte do protocolo.
O brinquedo fornecia a infraestrutura.
Nós fornecíamos a imaginação.
E o restante era produzido pelo caos.
FORMIGA.STATUS = ENTRETIDO
PEAO_01 = GIRANDO
PEAO_02 = ATACANDO
ARENA = OPERACIONAL
TELEVISAO = IGNORADA
BAGUNCA = DENTRO_DOS_PARAMETROS
DIVERSAO = ALGUMAS_HORAS
📹 E alguém teve a boa ideia de filmar
Na época parecia apenas mais um vídeo.
Provavelmente liguei a câmera porque a batalha estava divertida.
Hoje vejo outra coisa.
Vejo uma tarde comum.
E tardes comuns são justamente aquilo que quase nunca pensamos em preservar.
Filmamos aniversários.
Filmamos viagens.
Filmamos festas.
Filmamos apresentações.
Mas raramente pensamos:
“Vou registrar esta tarde de dezembro em que estamos sentados brincando de peão.”
Ainda bem que algumas vezes pensamos.
Porque anos depois o brinquedo deixa de ser a parte mais importante da gravação.
O que queremos rever é o pequeno Formiga.
A voz.
As reações.
A expectativa enquanto o peão gira.
A comemoração quando vence.
A indignação absolutamente fundamentada quando perde.
A bagunça.
E aquele mundo pequeno onde algumas horas de felicidade podiam nascer simplesmente porque alguém encontrou uns peões guardados.
Hoje consigo olhar para aquele vídeo e perceber algo que naquele dezembro seria impossível enxergar:
não estávamos apenas procurando uma maneira de passar o tempo.
Estávamos criando uma memória.
Sem saber.
Sem planejar.
Sem perceber que algum dia aquela tarde comum ficaria distante.
E talvez essa seja uma das coisas mais bonitas destes registros.
Não eram grandes acontecimentos.
Eram nossas pequenas aventuras.
A quadrilha.
Os cowboys.
A dança do laço.
A batalha dos peões.
Um pequeno universo em que o Formiga aprontava e seu companheiro de bagunça aparecia com uma câmera.
📼 BACKUP: DEZEMBRO
🐜 FORMIGA: PRESENTE
🌀 PEÕES: GIRANDO
❤️ MEMÓRIA: PRESERVADA
E se alguém perguntar quem venceu aquela batalha de peões tantos anos atrás...
sinceramente, já não importa.
Nós dois ganhamos.