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domingo, 9 de maio de 2021

Walter Mitty Entra no Estúdio — O Dia em que um Programador COBOL Descobriu que Fotografar é Compilar Luz

 

Bellacosa Mainframe e dicas para um fotografo iniciante

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Walter Mitty Entra no Estúdio — O Dia em que um Programador COBOL Descobriu que Fotografar é Compilar Luz

Ou: como ISO, abertura, obturador, distância focal, perspectiva, softbox, histograma e um sujeito que vive aventuras impossíveis dentro da própria cabeça acabaram ensinando fotografia para alguém acostumado a pensar em WORKING-STORAGE, JCL e abends às três da manhã

Existe um momento estranho na vida de todo programador COBOL.

Você passa anos olhando para coisas como:

01 WS-CLIENTE.
   05 WS-NOME        PIC X(40).
   05 WS-SALDO       PIC S9(09)V99 COMP-3.

e começa a acreditar que o universo inteiro deveria funcionar dessa maneira.

Entrada.

Processamento.

Saída.

Se alguma coisa der errado:

ABEND S0C7

Pronto.

Procure o campo que tinha letra onde deveria existir número e vamos para o café.

Então alguém entrega uma câmera fotográfica na sua mão.

Na parte de cima existem números como:

ISO 100
1/250
f/2.8

Na lente:

24-70mm

No visor aparecem indicadores de exposição, foco, compensação e outras criaturas que parecem ter fugido de um painel do SDSF.

Você olha aquilo e pergunta:

— Mas onde está o F1 Help?

Foi exatamente nesse momento que Walter Mitty atravessou a porta do CPD.

Não o Walter Mitty que está sentado quieto numa cadeira.

Esse está tecnicamente no escritório.

O Walter Mitty que entrou ali naquele momento era correspondente de guerra, fotógrafo da National Geographic, piloto de um hidroavião atravessando uma tempestade na Groenlândia e, por razões que ninguém conseguiu explicar, operador de um IBM z17 instalado clandestinamente dentro de um dirigível.

Ele colocou uma Leica imaginária em cima da mesa.

Olhou para o programador COBOL.

E disse:

— Você não está configurando uma câmera.

— Não?

— Está escrevendo um programa para a luz.

E foi assim que começou nossa aula.



1. Antes de qualquer coisa: fotografia não é “apertar o botão”

Existe uma armadilha comum para quem começa.

A pessoa vê uma fotografia bonita e pensa:

“Que câmera boa.”

É mais ou menos como olhar para um sistema bancário processando milhões de transações e concluir:

“Que teclado bom.”

A câmera é uma ferramenta.

Fotografia é decisão.

Você está decidindo:

  • quanto de luz entra;

  • durante quanto tempo ela entra;

  • quanto amplificaremos o sinal;

  • qual parte da cena será enquadrada;

  • qual elemento estará em foco;

  • qual ficará desfocado;

  • onde a câmera estará;

  • como a luz atingirá o assunto;

  • e, principalmente, o que você quer que o espectador veja.

Walter Mitty apontou para um datacenter imaginário no horizonte.

— Uma câmera é uma máquina que registra luz.

Depois apontou para o programador.

— O fotógrafo decide o que essa luz significa.

Essa diferença separa uma fotografia tecnicamente correta de uma fotografia interessante.



2. O triângulo de exposição: o JOB que todo fotógrafo submete

Na fotografia existe uma espécie de JOB card universal:

//PHOTO JOB
//STEP01 EXEC CAPTURE
//PARM='APERTURE,SHUTTER,ISO'

Os três parâmetros fundamentais são:

abertura

velocidade do obturador

ISO

Eles são conhecidos como triângulo de exposição.

Mas aqui vai uma pequena correção importante.

Abertura e obturador determinam diretamente quanta luz chega ao sensor.

ISO, na fotografia digital, está relacionado principalmente à amplificação e ao processamento do sinal capturado.

Para começar, entretanto, podemos pensar nos três como variáveis que trabalham juntas para determinar o resultado final.

Imagine uma torneira enchendo um recipiente.

A abertura é a largura da torneira.

O obturador é quanto tempo ela fica aberta.

O ISO é quanto você amplifica o resultado depois.

Walter Mitty interrompe:

— Então ISO 6400 é como aumentar o volume de uma gravação ruim?

Mais ou menos.

Você consegue ouvir melhor.

Mas também começa a ouvir o ruído.



3. ISO — o dial que parece simples até deixar de ser

Uma regra básica costuma dizer:

ISO 100-200     Sol
ISO 200-400     Sombra
ISO 400-800     Interior
ISO 800-1600    Interior escuro
ISO 1600-3200   Noite
ISO 3200+       Pouquíssima luz

Como introdução, funciona.

Como religião, é perigoso.

ISO não deveria ser escolhido apenas perguntando:

“Está claro ou escuro?”

A pergunta mais inteligente é:

“Depois de escolher a abertura e a velocidade de que preciso, ainda tenho luz suficiente?”

Imagine uma pessoa sentada tranquilamente num restaurante.

Talvez seja possível fotografar com:

f/2
1/60
ISO 400

Agora imagine um guitarrista pulando no palco.

Com 1/60 ele viraria um borrão artístico involuntário.

Você poderia precisar de:

f/2.8
1/500
ISO 3200

O ISO aumentou porque você precisava de velocidade.

E isso nos leva a uma regra preciosa:

ISO alto não é fracasso. Foto tremida é fracasso quando você queria uma foto nítida.

Walter Mitty sorriu.

— Em outras palavras, melhor um processamento com warning do que um ABEND.

Exatamente.


4. O preço do ISO

Subir ISO pode trazer efeitos indesejáveis:

  • ruído;

  • perda de detalhe;

  • menor faixa dinâmica;

  • sombras menos limpas;

  • menos flexibilidade na edição.

Mas as câmeras modernas lidam muito melhor com ISO elevado que gerações anteriores.

Há muitos anos ISO 1600 já causava arrepios.

Hoje determinadas câmeras trabalham confortavelmente em ISO 3200, 6400 ou mais, dependendo da finalidade.

Não existe número “proibido”.

Existe contexto.


5. Shutter Speed — o parâmetro TIME do programa

Agora Walter Mitty pegou um cronômetro.

— Vamos fotografar o tempo.

O obturador controla por quanto tempo o sensor fica exposto à luz.

Exemplos:

1 segundo
1/30
1/60
1/125
1/250
1/500
1/1000
1/2000

Quanto mais lenta a velocidade, mais tempo entra luz.

Quanto mais rápida, menos tempo.

Mas velocidade não controla somente exposição.

Ela controla movimento.

Uma velocidade lenta pode registrar:

  • rastros;

  • água sedosa;

  • movimento de pessoas;

  • carros transformados em linhas luminosas.

Uma velocidade rápida pode congelar:

  • atletas;

  • pássaros;

  • gotas d'água;

  • veículos;

  • músicos;

  • crianças.

Por isso gosto de pensar assim:

Abertura controla espaço. Obturador controla tempo.

Já parece ficção científica suficiente para Walter Mitty.


6. Um erro interessante nos infográficos

Uma das imagens analisadas tinha um título semelhante a “Shutter Speed” e mostrava:

100
200
400
640
800
1600
3200
4000

Esse conjunto é claramente mais próximo de uma escala de ISO que de shutter speed.

Shutter speed apareceria como:

1/100
1/200
1/400
1/800
1/1600

É um ótimo exemplo de um problema moderno:

Infográfico bonito não significa infográfico correto.

No mundo mainframe isso seria algo como um diagrama apresentando JES2 no título e explicando RACF no conteúdo.

Visualmente maravilhoso.

Tecnicamente suspeito.


7. Stops — a matemática escondida atrás do clique

Fotografia trabalha muito com o conceito de stop.

Um stop representa dobrar ou reduzir pela metade a quantidade de luz.

No obturador:

1/125 → 1/250

metade da luz.

1/250 → 1/125

dobro da luz.

No ISO:

100 → 200 → 400 → 800 → 1600

cada salto completo representa aproximadamente um stop.

Na abertura temos:

f/1.4
f/2
f/2.8
f/4
f/5.6
f/8
f/11
f/16
f/22

Aqui a coisa fica divertida.


8. A abertura: o PIC S9(4)V99 da fotografia

Quem começa olha para f/1.4 e f/16 e pensa:

“f/16 deve ser mais aberto porque 16 é maior.”

Errado.

Quanto menor o número f, maior a abertura.

f/1.4 = muito aberta
f/2.8 = aberta
f/8 = intermediária
f/16 = fechada

Isso acontece porque o número f é uma razão.

Simplificando:

N=fDN = \frac{f}{D}

onde:

  • N é o número f;

  • f é a distância focal;

  • D é o diâmetro efetivo da abertura.

Não precisamos decorar a fórmula para fotografar.

Mas ela explica por que o sistema parece invertido.


9. Profundidade de campo: o que entra no SELECT

Abertura também influencia a profundidade de campo.

Com abertura grande, como:

f/1.4
f/2
f/2.8

é possível ter:

ASSUNTO     = foco
FUNDO       = desfocado

Ótimo para retratos.

Com abertura mais fechada:

f/8
f/11

mais elementos tendem a aparecer com nitidez aceitável.

Por isso paisagens frequentemente utilizam aberturas intermediárias ou fechadas.

Mas cuidado.

Profundidade de campo não depende apenas da abertura.

Depende também de:

  • distância focal;

  • distância até o assunto;

  • distância do assunto ao fundo;

  • tamanho do sensor;

  • critério de nitidez.

Portanto:

“f/1.8 sempre desfoca tudo”

é quase tão correto quanto:

“COBOL só roda em mainframe.”

Há contexto.


10. Distância focal: o endereço lógico da cena

Na lente encontramos números como:

14mm
24mm
35mm
50mm
85mm
135mm
200mm
600mm

Esses números representam a distância focal.

Em termos práticos, ela afeta fortemente o campo de visão.

Em full frame, podemos pensar aproximadamente assim:

14–20 mm
Ultra-wide.

24–35 mm
Grande-angular.

50 mm
Normal.

85–135 mm
Retrato e tele curta.

200–300 mm
Teleobjetiva.

400–600 mm+
Supertele.

Quanto maior a distância focal, mais estreito tende a ser o campo de visão.

Walter Mitty olha para uma montanha imaginária a vinte quilômetros.

Troca para 600 mm.

— Agora consigo ver um alpinista.

— Existe um alpinista ali?

— Na minha versão existe.

Walter Mitty tinha essa vantagem competitiva.


11. Crop factor — quando 50 não parece 50

Uma lente de 50 mm continua sendo fisicamente 50 mm.

Mas sensores diferentes produzem campos de visão diferentes.

Por exemplo, em APS-C com fator 1,5:

50 x 1,5 = 75 mm equivalente

Em Micro Four Thirds:

50 x 2 = 100 mm equivalente

Isso explica por que recomendações de lente precisam considerar a câmera.

Quando alguém diz:

“50 mm é perfeita para retratos.”

A resposta correta seria:

“Em qual formato?”

Walter Mitty anotou isso num caderninho.

Provavelmente mais tarde ele o usaria para pilotar um caça.


12. Anatomia da lente

Uma lente moderna pode conter:

Focus Ring
Anel de foco.

Zoom Ring
Altera distância focal nas lentes zoom.

AF/MF
Autofocus ou manual.

Distance Scale
Distância aproximada de foco.

Maximum Aperture
Maior abertura disponível.

Image Stabilizer
Sistema de estabilização.

Uma lente 24–70 mm, por exemplo, permite variar rapidamente entre grande-angular moderada e tele curta.

É uma espécie de canivete suíço fotográfico.

Ou, em linguagem mainframe:

o utilitário IDCAMS das lentes.

Serve para muita coisa.


13. Estabilização não congela gente correndo

Essa pegadinha derruba muito iniciante.

O estabilizador corrige principalmente o movimento da câmera.

Ele não impede o movimento do assunto.

Suponha:

70mm
1/15
IS ON

Você pode conseguir a câmera relativamente estável.

Mas se a pessoa mover a cabeça durante 1/15 de segundo:

ela ficará borrada.

Portanto:

camera shake  -> estabilização ajuda
subject motion -> shutter rápido ajuda

Duas causas diferentes.

Duas soluções diferentes.


14. Ângulo de câmera: agora entramos no cinema

Até aqui estivemos falando de exposição.

Agora começa a narrativa.

Fotografar de cima, de baixo ou na altura dos olhos muda como percebemos o assunto.

High angle pode sugerir:

  • vulnerabilidade;

  • pequenez;

  • fragilidade.

Low angle pode transmitir:

  • poder;

  • grandeza;

  • autoridade.

Straight-on tende a ser mais neutro.

Top-down é comum em:

  • comida;

  • produtos;

  • composição gráfica.

Isso é particularmente poderoso porque não há nenhum botão chamado:

EMOTIONAL IMPACT = ON

A emoção vem de decisões geométricas.


15. Distância focal não é perspectiva

Essa talvez seja a parte mais importante do artigo.

Existe um mito:

“Grande-angular distorce rostos.”

Ela pode ter distorção óptica.

Mas aquele nariz gigante em retratos feitos muito perto acontece principalmente por causa da distância da câmera ao rosto.

Faça o teste.

Fotografe uma pessoa com 24 mm muito perto.

Depois use 100 mm e afaste-se até obter enquadramento semelhante.

O resultado muda radicalmente.

Não porque a lente de 100 mm “corrige” magicamente a pessoa.

Mas porque sua posição mudou.

A perspectiva depende da posição da câmera.

Esse conceito vale ouro.


16. Barrel distortion e pincushion

Agora sim entramos em distorção óptica.

Barrel distortion

Linhas parecem curvar para fora.

Muito comum em grande-angulares.

Pincushion distortion

Linhas parecem curvar para dentro.

Pode aparecer em determinadas teles ou extremos de zoom.

São características ópticas que muitas câmeras e softwares conseguem corrigir automaticamente.

Mas não confunda isso com perspectiva.

São fenômenos diferentes.


17. A famosa 85 mm

Por que tanta gente gosta de 85 mm para retrato?

Em full frame ela oferece frequentemente:

  • distância confortável;

  • campo de visão agradável;

  • boa separação de fundo;

  • perspectiva facial natural.

Mas isso não significa que 85 mm seja a única lente de retrato.

35 mm cria excelentes retratos ambientais.

50 mm é versátil.

135 mm cria enorme separação e compressão aparente.

Não existe opcode:

PORTRAIT USING 85MM

Fotografia permite escolhas.


18. Agora Walter Mitty acende o softbox

Chegamos à iluminação.

Essa parte é maravilhosa porque fotograficamente você não está apenas registrando luz.

Você pode construí-la.

Temos vários modificadores:

  • umbrella shoot-through;

  • umbrella reflective;

  • softbox;

  • octabox;

  • beauty dish;

  • refletor direto.

Cada um produz características diferentes.

Mas existe uma regra fundamental:

Quanto maior a fonte aparente em relação ao assunto, mais suave tende a ser a luz.

Não basta dizer:

“Softbox gera luz suave.”

Um softbox minúsculo longe do assunto pode produzir luz relativamente dura.

Um softbox enorme muito perto pode criar sombras delicadíssimas.

Distância importa.

Tamanho importa.


19. Guarda-chuva fotográfico

O shoot-through permite que a luz atravesse o material.

Resultado frequente:

  • luz ampla;

  • suave;

  • espalhada.

É excelente para iniciantes.

Mas pode jogar luz em todas as paredes.

Em um cômodo pequeno, essas paredes rebatem luz e reduzem controle.

Já o umbrella reflective recebe a luz internamente e a devolve.

Pode oferecer comportamento um pouco mais controlado.

Simples.

Barato.

E muito eficiente.


20. Softbox: a janela portátil

Softboxes transformam uma fonte relativamente pequena em uma superfície luminosa maior.

Um softbox retangular pode produzir um reflexo semelhante a uma janela.

Octabox gera catchlights arredondados.

Mas cuidado com a obsessão pelo formato.

A posição, tamanho e distância frequentemente importam mais.

Walter Mitty colocou um octabox enorme ao lado de um terminal 3270.

— Ficou cinematográfico.

— Você acabou de iluminar o TSO.

— Toda grande aventura começa com LOGON.

Não dava para discutir.


21. Beauty dish e luz dura

O beauty dish oferece uma luz relativamente definida.

Muito usado em:

  • moda;

  • beleza;

  • retratos dramáticos.

Já um refletor direto pequeno produz:

  • sombras fortes;

  • contraste alto;

  • textura intensa.

É a clássica iluminação:

“Confesse onde escondeu a fita de backup.”

😂

Pode ser inadequada para determinado retrato.

Mas fantástica para outro.

Fotografia não trabalha com:

GOOD LIGHT
BAD LIGHT

Trabalha com:

LIGHT FITS INTENT
LIGHT DOES NOT FIT INTENT

22. Catchlights: CSI da iluminação

Observe os reflexos nos olhos das pessoas em retratos profissionais.

Aquele pequeno brilho contém pistas.

Você pode identificar aproximadamente:

  • formato da fonte;

  • quantidade de fontes;

  • posição;

  • tamanho aparente.

Um catchlight quadrado sugere softbox.

Circular pode indicar octabox ou beauty dish.

Fotógrafos experientes conseguem olhar uma foto e praticamente reconstruir o esquema de iluminação.

É engenharia reversa luminosa.


23. O fotômetro e o zero que não é zero

Muitas câmeras mostram:

-2 -1 0 +1 +2

Iniciante vê isso e pensa:

“0 é exposição correta.”

Nem sempre.

O medidor da câmera tenta interpretar a cena de acordo com critérios matemáticos.

Ele não conhece sua intenção.

Fotografando neve, pode escurecer demais.

Fotografando uma cena predominantemente preta, pode clarear demais.

Então:

0 EV não é verdade absoluta.

É apenas a opinião do sistema de medição.

Walter Mitty observa:

— Então é como confiar cegamente num job que terminou com RC=0?

Exatamente.

Pode ter terminado.

Não significa necessariamente que fez o que você queria.


24. Histograma: o SMF da fotografia

Se existe uma ferramenta que um mainframer deveria amar, é o histograma.

Ele mostra como os tons estão distribuídos.

Esquerda:

sombras.

Centro:

tons médios.

Direita:

altas luzes.

Tudo acumulado na esquerda pode indicar imagem escura.

Tudo espremido na direita pode indicar highlights estourados.

Mas novamente:

não existe histograma perfeito.

Cena noturna naturalmente pesa para a esquerda.

Cena high-key pesa para a direita.

O histograma não decide.

Ele informa.

Assim como SMF.


25. RAW — o dump que você agradece ter guardado

Se possível, fotografe em RAW.

JPEG é uma imagem já processada pela câmera.

RAW preserva muito mais informação original.

Em RAW você consegue trabalhar melhor:

  • exposição;

  • white balance;

  • sombras;

  • altas luzes;

  • contraste;

  • cor;

  • redução de ruído.

Uma analogia imperfeita mas útil:

JPEG é o relatório impresso.

RAW é o dataset completo.

Quando surge um problema, qual você prefere ter?

Pois é.


26. White balance: porque luz não é simplesmente branca

A luz tem temperatura de cor.

Valores comuns:

~3000K   luz quente/tungstênio
~5500K   daylight aproximado
~6500K+  sombra/céu mais frio

A câmera precisa decidir o que considera neutro.

Por isso existe white balance.

Se estiver errado, uma sala pode ficar absurdamente laranja ou azul.

Fotografando RAW, isso é muito mais fácil de corrigir posteriormente.


27. Receitas práticas

Walter Mitty agora decidiu que o aluno precisava enfrentar missões.

Missão 1 — Retrato externo

Objetivo:

fundo desfocado.

Comece com:

85mm
f/2
1/250
ISO Auto ou ISO necessário

Depois ajuste conforme a luz.


Missão 2 — Esporte

Objetivo:

congelar ação.

Comece com:

1/1000
f/2.8-f/5.6
ISO conforme necessário

Aqui o shutter manda.


Missão 3 — Show noturno

Pode acabar em:

1/500
f/2.8
ISO 3200

Ou 6400.

Não tenha medo.

Ruído pode ser tratado.

Movimento perdido não.


Missão 4 — Paisagem

Com tripé:

ISO 100
f/8
velocidade conforme a luz

Aqui você pode permitir exposição longa.


28. Panning — quando borrão deixa de ser erro

Fotografia tem uma característica maravilhosa:

algumas coisas que parecem erro podem virar linguagem.

Panning consiste em acompanhar um objeto em movimento usando velocidade relativamente lenta.

Por exemplo:

1/60

Você acompanha o carro durante o disparo.

Com prática, o carro pode aparecer relativamente nítido e o fundo borrado.

Resultado:

sensação de velocidade.

Se congelássemos tudo com 1/4000, talvez a fotografia parecesse estática.

Então:

Nem toda nitidez é desejável.


29. Astrofotografia: quando a Terra invade sua exposição

Fotografar estrelas parece simples:

tripé.

ISO alto.

Exposição longa.

Mas existe um problema.

A Terra gira.

Se a exposição for longa demais, estrelas deixam de ser pontos e viram rastros.

Astrofotografia envolve:

  • abertura;

  • ISO;

  • distância focal;

  • tempo;

  • ruído;

  • movimento aparente;

  • empilhamento;

  • eventualmente trackers.

É um excelente exemplo de como aquelas tabelas básicas começam a quebrar quando entramos na fotografia real.


30. A variável esquecida: seus pés

Uma das maiores lições da fotografia é surpreendentemente simples:

Antes de trocar de lente, mova-se.

Chegue mais perto.

Afaste-se.

Abaixe.

Suba.

Dê dois passos para o lado.

Uma alteração pequena de posição pode transformar:

  • perspectiva;

  • fundo;

  • composição;

  • proporção dos objetos.

Um fotógrafo não trabalha apenas com câmera.

Trabalha com geometria.


31. A sequência mental de um fotógrafo

Walter Mitty finalmente escreveu no quadro branco do CPD:

PROCEDURE DIVISION.

Depois começou a listar:

1. O QUE QUERO MOSTRAR?
2. QUAL ENQUADRAMENTO?
3. ONDE DEVO FICAR?
4. QUAL LENTE?
5. QUANTO QUERO EM FOCO?
6. QUAL ABERTURA?
7. EXISTE MOVIMENTO?
8. QUAL SHUTTER?
9. QUAL ISO É NECESSÁRIO?
10. COMO ESTÁ A LUZ?
11. PRECISO MODIFICÁ-LA?
12. O HISTOGRAMA ESTÁ SAUDÁVEL?
13. O FUNDO AJUDA?
14. A FOTO CONTA A HISTÓRIA?

Essa sequência vale muito mais que decorar cinquenta tabelas.


Easter egg #1 — Walter Mitty não estava tentando aprender fotografia

Na verdade ele já era:

  • fotógrafo de guerra;

  • explorador;

  • piloto;

  • marinheiro;

  • aventureiro;

  • especialista em vulcões.

Tudo por aproximadamente quarenta segundos de cada vez.

Depois voltava para a mesa.

O ponto da brincadeira com Walter Mitty é perfeito para fotografia.

A câmera também permite transformar uma situação comum em narrativa.

Uma rua qualquer pode virar noir.

Uma estação pode parecer Blade Runner.

Um corredor de escritório pode virar instalação secreta da CIA.

Uma sala de servidores pode virar ponte de nave espacial.

Fotografia sempre possui um pouco de imaginação.


Easter egg #2 — o famoso negativo perdido

Quem conhece The Secret Life of Walter Mitty sabe como fotografia e aventura estão profundamente ligadas à história.

Há algo belíssimo naquela ideia de perseguir uma imagem importante enquanto a própria jornada acaba se tornando mais significativa que a fotografia procurada.

É uma ótima metáfora para quem começa.

Você sai querendo aprender:

ISO
F-STOP
SHUTTER

e acaba aprendendo:

LUZ
TEMPO
ESPAÇO
ATENÇÃO

A câmera vira desculpa para observar o mundo.


32. A grande conclusão: fotografia é compilação de intenção

Depois de duas horas, o programador COBOL finalmente deixou de perguntar:

— Qual configuração correta?

E passou a perguntar:

— O que quero que aconteça na imagem?

Esse é o salto.

Quando você escolhe:

f/2

não está apenas abrindo o diafragma.

Está dizendo:

quero separar o sujeito do fundo.

Quando escolhe:

1/2000

está dizendo:

quero congelar esse instante.

Quando escolhe:

1/15

talvez esteja dizendo:

quero que o movimento apareça.

Quando seleciona:

24mm

está dizendo:

quero incluir o ambiente.

Com:

200mm

talvez:

quero isolar algo distante.

A técnica é gramática.

A fotografia é linguagem.


Epílogo — Walter Mitty sai do CPD

Walter Mitty recolheu a câmera.

No visor estava registrada uma fotografia simples:

um programador COBOL sentado diante de um terminal.

Luz lateral.

Fundo desfocado.

Uma caneca de café.

No monitor:

READY

O programador olhou.

— Só isso?

Walter Mitty colocou o casaco.

— Você viu um homem sentado numa mesa.

— Sim.

— Eu vi alguém aprendendo a controlar luz depois de passar trinta anos controlando dados.

Silêncio.

Walter Mitty abriu a porta.

Do outro lado havia uma cordilheira no Himalaia.

Ou talvez fosse apenas o estacionamento.

Com Walter Mitty nunca se sabia.

Antes de desaparecer, virou-se e disse:

— E lembre-se: uma foto em ISO 6400 que conta uma história vale mais do que uma foto perfeita que não diz nada.

Depois saiu.

O programador olhou novamente para a câmera.

Ajustou:

MODE        MANUAL
ISO         400
APERTURE    f/2.8
SHUTTER     1/250

Enquadrou a caneca.

Pensou um pouco.

Mudou de posição.

Abaixou a câmera.

Esperou a luz atravessar a janela.

E disparou.

Sem modo automático.

Sem tabela.

Sem medo.

Porque naquele momento tinha finalmente entendido:

fotografar não é encontrar a configuração correta. É escolher deliberadamente qual versão do mundo você quer registrar.

E isso, para alguém acostumado a escrever programas que transformam dados, talvez não seja uma ideia tão estranha assim.

No fim das contas, fotografia é quase COBOL.

Você recebe entrada.

Aplica regras.

Controla exceções.

Produz saída.

Só existe uma pequena diferença.

No COBOL, quando tudo funciona, normalmente ninguém percebe.

Na fotografia...

quando tudo funciona,

alguém sente alguma coisa.

Vagner Renato Bellacosa, IBM Champion e especialista em IBM Mainframe
IBM Z17 SYSTEM ONLINE
Sobre o autor

Vagner Renato Bellacosa

IBM Champion 2026 • Especialista em IBM Mainframe

Vagner Renato Bellacosa trabalha com IBM Mainframe desde 1988 , é IBM Champion e especialista em COBOL, CICS, Db2, z/OS e IBM Z. Compartilha experiências profissionais, conhecimento técnico, história da computação e práticas do universo mainframe para aproximar novas gerações das tecnologias que sustentam empresas, bancos e governos ao redor do mundo.

IBM Champion IBM Z COBOL CICS Db2 z/OS Mainframe desde 1988
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