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domingo, 9 de maio de 2021

Walter Mitty Entra no Estúdio — O Dia em que um Programador COBOL Descobriu que Fotografar é Compilar Luz

 

Bellacosa Mainframe e dicas para um fotografo iniciante

☕ Um Café no Bellacosa Mainframe

Walter Mitty Entra no Estúdio — O Dia em que um Programador COBOL Descobriu que Fotografar é Compilar Luz

Ou: como ISO, abertura, obturador, distância focal, perspectiva, softbox, histograma e um sujeito que vive aventuras impossíveis dentro da própria cabeça acabaram ensinando fotografia para alguém acostumado a pensar em WORKING-STORAGE, JCL e abends às três da manhã

Existe um momento estranho na vida de todo programador COBOL.

Você passa anos olhando para coisas como:

01 WS-CLIENTE.
   05 WS-NOME        PIC X(40).
   05 WS-SALDO       PIC S9(09)V99 COMP-3.

e começa a acreditar que o universo inteiro deveria funcionar dessa maneira.

Entrada.

Processamento.

Saída.

Se alguma coisa der errado:

ABEND S0C7

Pronto.

Procure o campo que tinha letra onde deveria existir número e vamos para o café.

Então alguém entrega uma câmera fotográfica na sua mão.

Na parte de cima existem números como:

ISO 100
1/250
f/2.8

Na lente:

24-70mm

No visor aparecem indicadores de exposição, foco, compensação e outras criaturas que parecem ter fugido de um painel do SDSF.

Você olha aquilo e pergunta:

— Mas onde está o F1 Help?

Foi exatamente nesse momento que Walter Mitty atravessou a porta do CPD.

Não o Walter Mitty que está sentado quieto numa cadeira.

Esse está tecnicamente no escritório.

O Walter Mitty que entrou ali naquele momento era correspondente de guerra, fotógrafo da National Geographic, piloto de um hidroavião atravessando uma tempestade na Groenlândia e, por razões que ninguém conseguiu explicar, operador de um IBM z17 instalado clandestinamente dentro de um dirigível.

Ele colocou uma Leica imaginária em cima da mesa.

Olhou para o programador COBOL.

E disse:

— Você não está configurando uma câmera.

— Não?

— Está escrevendo um programa para a luz.

E foi assim que começou nossa aula.



1. Antes de qualquer coisa: fotografia não é “apertar o botão”

Existe uma armadilha comum para quem começa.

A pessoa vê uma fotografia bonita e pensa:

“Que câmera boa.”

É mais ou menos como olhar para um sistema bancário processando milhões de transações e concluir:

“Que teclado bom.”

A câmera é uma ferramenta.

Fotografia é decisão.

Você está decidindo:

  • quanto de luz entra;

  • durante quanto tempo ela entra;

  • quanto amplificaremos o sinal;

  • qual parte da cena será enquadrada;

  • qual elemento estará em foco;

  • qual ficará desfocado;

  • onde a câmera estará;

  • como a luz atingirá o assunto;

  • e, principalmente, o que você quer que o espectador veja.

Walter Mitty apontou para um datacenter imaginário no horizonte.

— Uma câmera é uma máquina que registra luz.

Depois apontou para o programador.

— O fotógrafo decide o que essa luz significa.

Essa diferença separa uma fotografia tecnicamente correta de uma fotografia interessante.



2. O triângulo de exposição: o JOB que todo fotógrafo submete

Na fotografia existe uma espécie de JOB card universal:

//PHOTO JOB
//STEP01 EXEC CAPTURE
//PARM='APERTURE,SHUTTER,ISO'

Os três parâmetros fundamentais são:

abertura

velocidade do obturador

ISO

Eles são conhecidos como triângulo de exposição.

Mas aqui vai uma pequena correção importante.

Abertura e obturador determinam diretamente quanta luz chega ao sensor.

ISO, na fotografia digital, está relacionado principalmente à amplificação e ao processamento do sinal capturado.

Para começar, entretanto, podemos pensar nos três como variáveis que trabalham juntas para determinar o resultado final.

Imagine uma torneira enchendo um recipiente.

A abertura é a largura da torneira.

O obturador é quanto tempo ela fica aberta.

O ISO é quanto você amplifica o resultado depois.

Walter Mitty interrompe:

— Então ISO 6400 é como aumentar o volume de uma gravação ruim?

Mais ou menos.

Você consegue ouvir melhor.

Mas também começa a ouvir o ruído.



3. ISO — o dial que parece simples até deixar de ser

Uma regra básica costuma dizer:

ISO 100-200     Sol
ISO 200-400     Sombra
ISO 400-800     Interior
ISO 800-1600    Interior escuro
ISO 1600-3200   Noite
ISO 3200+       Pouquíssima luz

Como introdução, funciona.

Como religião, é perigoso.

ISO não deveria ser escolhido apenas perguntando:

“Está claro ou escuro?”

A pergunta mais inteligente é:

“Depois de escolher a abertura e a velocidade de que preciso, ainda tenho luz suficiente?”

Imagine uma pessoa sentada tranquilamente num restaurante.

Talvez seja possível fotografar com:

f/2
1/60
ISO 400

Agora imagine um guitarrista pulando no palco.

Com 1/60 ele viraria um borrão artístico involuntário.

Você poderia precisar de:

f/2.8
1/500
ISO 3200

O ISO aumentou porque você precisava de velocidade.

E isso nos leva a uma regra preciosa:

ISO alto não é fracasso. Foto tremida é fracasso quando você queria uma foto nítida.

Walter Mitty sorriu.

— Em outras palavras, melhor um processamento com warning do que um ABEND.

Exatamente.


4. O preço do ISO

Subir ISO pode trazer efeitos indesejáveis:

  • ruído;

  • perda de detalhe;

  • menor faixa dinâmica;

  • sombras menos limpas;

  • menos flexibilidade na edição.

Mas as câmeras modernas lidam muito melhor com ISO elevado que gerações anteriores.

Há muitos anos ISO 1600 já causava arrepios.

Hoje determinadas câmeras trabalham confortavelmente em ISO 3200, 6400 ou mais, dependendo da finalidade.

Não existe número “proibido”.

Existe contexto.


5. Shutter Speed — o parâmetro TIME do programa

Agora Walter Mitty pegou um cronômetro.

— Vamos fotografar o tempo.

O obturador controla por quanto tempo o sensor fica exposto à luz.

Exemplos:

1 segundo
1/30
1/60
1/125
1/250
1/500
1/1000
1/2000

Quanto mais lenta a velocidade, mais tempo entra luz.

Quanto mais rápida, menos tempo.

Mas velocidade não controla somente exposição.

Ela controla movimento.

Uma velocidade lenta pode registrar:

  • rastros;

  • água sedosa;

  • movimento de pessoas;

  • carros transformados em linhas luminosas.

Uma velocidade rápida pode congelar:

  • atletas;

  • pássaros;

  • gotas d'água;

  • veículos;

  • músicos;

  • crianças.

Por isso gosto de pensar assim:

Abertura controla espaço. Obturador controla tempo.

Já parece ficção científica suficiente para Walter Mitty.


6. Um erro interessante nos infográficos

Uma das imagens analisadas tinha um título semelhante a “Shutter Speed” e mostrava:

100
200
400
640
800
1600
3200
4000

Esse conjunto é claramente mais próximo de uma escala de ISO que de shutter speed.

Shutter speed apareceria como:

1/100
1/200
1/400
1/800
1/1600

É um ótimo exemplo de um problema moderno:

Infográfico bonito não significa infográfico correto.

No mundo mainframe isso seria algo como um diagrama apresentando JES2 no título e explicando RACF no conteúdo.

Visualmente maravilhoso.

Tecnicamente suspeito.


7. Stops — a matemática escondida atrás do clique

Fotografia trabalha muito com o conceito de stop.

Um stop representa dobrar ou reduzir pela metade a quantidade de luz.

No obturador:

1/125 → 1/250

metade da luz.

1/250 → 1/125

dobro da luz.

No ISO:

100 → 200 → 400 → 800 → 1600

cada salto completo representa aproximadamente um stop.

Na abertura temos:

f/1.4
f/2
f/2.8
f/4
f/5.6
f/8
f/11
f/16
f/22

Aqui a coisa fica divertida.


8. A abertura: o PIC S9(4)V99 da fotografia

Quem começa olha para f/1.4 e f/16 e pensa:

“f/16 deve ser mais aberto porque 16 é maior.”

Errado.

Quanto menor o número f, maior a abertura.

f/1.4 = muito aberta
f/2.8 = aberta
f/8 = intermediária
f/16 = fechada

Isso acontece porque o número f é uma razão.

Simplificando:

N=fDN = \frac{f}{D}

onde:

  • N é o número f;

  • f é a distância focal;

  • D é o diâmetro efetivo da abertura.

Não precisamos decorar a fórmula para fotografar.

Mas ela explica por que o sistema parece invertido.


9. Profundidade de campo: o que entra no SELECT

Abertura também influencia a profundidade de campo.

Com abertura grande, como:

f/1.4
f/2
f/2.8

é possível ter:

ASSUNTO     = foco
FUNDO       = desfocado

Ótimo para retratos.

Com abertura mais fechada:

f/8
f/11

mais elementos tendem a aparecer com nitidez aceitável.

Por isso paisagens frequentemente utilizam aberturas intermediárias ou fechadas.

Mas cuidado.

Profundidade de campo não depende apenas da abertura.

Depende também de:

  • distância focal;

  • distância até o assunto;

  • distância do assunto ao fundo;

  • tamanho do sensor;

  • critério de nitidez.

Portanto:

“f/1.8 sempre desfoca tudo”

é quase tão correto quanto:

“COBOL só roda em mainframe.”

Há contexto.


10. Distância focal: o endereço lógico da cena

Na lente encontramos números como:

14mm
24mm
35mm
50mm
85mm
135mm
200mm
600mm

Esses números representam a distância focal.

Em termos práticos, ela afeta fortemente o campo de visão.

Em full frame, podemos pensar aproximadamente assim:

14–20 mm
Ultra-wide.

24–35 mm
Grande-angular.

50 mm
Normal.

85–135 mm
Retrato e tele curta.

200–300 mm
Teleobjetiva.

400–600 mm+
Supertele.

Quanto maior a distância focal, mais estreito tende a ser o campo de visão.

Walter Mitty olha para uma montanha imaginária a vinte quilômetros.

Troca para 600 mm.

— Agora consigo ver um alpinista.

— Existe um alpinista ali?

— Na minha versão existe.

Walter Mitty tinha essa vantagem competitiva.


11. Crop factor — quando 50 não parece 50

Uma lente de 50 mm continua sendo fisicamente 50 mm.

Mas sensores diferentes produzem campos de visão diferentes.

Por exemplo, em APS-C com fator 1,5:

50 x 1,5 = 75 mm equivalente

Em Micro Four Thirds:

50 x 2 = 100 mm equivalente

Isso explica por que recomendações de lente precisam considerar a câmera.

Quando alguém diz:

“50 mm é perfeita para retratos.”

A resposta correta seria:

“Em qual formato?”

Walter Mitty anotou isso num caderninho.

Provavelmente mais tarde ele o usaria para pilotar um caça.


12. Anatomia da lente

Uma lente moderna pode conter:

Focus Ring
Anel de foco.

Zoom Ring
Altera distância focal nas lentes zoom.

AF/MF
Autofocus ou manual.

Distance Scale
Distância aproximada de foco.

Maximum Aperture
Maior abertura disponível.

Image Stabilizer
Sistema de estabilização.

Uma lente 24–70 mm, por exemplo, permite variar rapidamente entre grande-angular moderada e tele curta.

É uma espécie de canivete suíço fotográfico.

Ou, em linguagem mainframe:

o utilitário IDCAMS das lentes.

Serve para muita coisa.


13. Estabilização não congela gente correndo

Essa pegadinha derruba muito iniciante.

O estabilizador corrige principalmente o movimento da câmera.

Ele não impede o movimento do assunto.

Suponha:

70mm
1/15
IS ON

Você pode conseguir a câmera relativamente estável.

Mas se a pessoa mover a cabeça durante 1/15 de segundo:

ela ficará borrada.

Portanto:

camera shake  -> estabilização ajuda
subject motion -> shutter rápido ajuda

Duas causas diferentes.

Duas soluções diferentes.


14. Ângulo de câmera: agora entramos no cinema

Até aqui estivemos falando de exposição.

Agora começa a narrativa.

Fotografar de cima, de baixo ou na altura dos olhos muda como percebemos o assunto.

High angle pode sugerir:

  • vulnerabilidade;

  • pequenez;

  • fragilidade.

Low angle pode transmitir:

  • poder;

  • grandeza;

  • autoridade.

Straight-on tende a ser mais neutro.

Top-down é comum em:

  • comida;

  • produtos;

  • composição gráfica.

Isso é particularmente poderoso porque não há nenhum botão chamado:

EMOTIONAL IMPACT = ON

A emoção vem de decisões geométricas.


15. Distância focal não é perspectiva

Essa talvez seja a parte mais importante do artigo.

Existe um mito:

“Grande-angular distorce rostos.”

Ela pode ter distorção óptica.

Mas aquele nariz gigante em retratos feitos muito perto acontece principalmente por causa da distância da câmera ao rosto.

Faça o teste.

Fotografe uma pessoa com 24 mm muito perto.

Depois use 100 mm e afaste-se até obter enquadramento semelhante.

O resultado muda radicalmente.

Não porque a lente de 100 mm “corrige” magicamente a pessoa.

Mas porque sua posição mudou.

A perspectiva depende da posição da câmera.

Esse conceito vale ouro.


16. Barrel distortion e pincushion

Agora sim entramos em distorção óptica.

Barrel distortion

Linhas parecem curvar para fora.

Muito comum em grande-angulares.

Pincushion distortion

Linhas parecem curvar para dentro.

Pode aparecer em determinadas teles ou extremos de zoom.

São características ópticas que muitas câmeras e softwares conseguem corrigir automaticamente.

Mas não confunda isso com perspectiva.

São fenômenos diferentes.


17. A famosa 85 mm

Por que tanta gente gosta de 85 mm para retrato?

Em full frame ela oferece frequentemente:

  • distância confortável;

  • campo de visão agradável;

  • boa separação de fundo;

  • perspectiva facial natural.

Mas isso não significa que 85 mm seja a única lente de retrato.

35 mm cria excelentes retratos ambientais.

50 mm é versátil.

135 mm cria enorme separação e compressão aparente.

Não existe opcode:

PORTRAIT USING 85MM

Fotografia permite escolhas.


18. Agora Walter Mitty acende o softbox

Chegamos à iluminação.

Essa parte é maravilhosa porque fotograficamente você não está apenas registrando luz.

Você pode construí-la.

Temos vários modificadores:

  • umbrella shoot-through;

  • umbrella reflective;

  • softbox;

  • octabox;

  • beauty dish;

  • refletor direto.

Cada um produz características diferentes.

Mas existe uma regra fundamental:

Quanto maior a fonte aparente em relação ao assunto, mais suave tende a ser a luz.

Não basta dizer:

“Softbox gera luz suave.”

Um softbox minúsculo longe do assunto pode produzir luz relativamente dura.

Um softbox enorme muito perto pode criar sombras delicadíssimas.

Distância importa.

Tamanho importa.


19. Guarda-chuva fotográfico

O shoot-through permite que a luz atravesse o material.

Resultado frequente:

  • luz ampla;

  • suave;

  • espalhada.

É excelente para iniciantes.

Mas pode jogar luz em todas as paredes.

Em um cômodo pequeno, essas paredes rebatem luz e reduzem controle.

Já o umbrella reflective recebe a luz internamente e a devolve.

Pode oferecer comportamento um pouco mais controlado.

Simples.

Barato.

E muito eficiente.


20. Softbox: a janela portátil

Softboxes transformam uma fonte relativamente pequena em uma superfície luminosa maior.

Um softbox retangular pode produzir um reflexo semelhante a uma janela.

Octabox gera catchlights arredondados.

Mas cuidado com a obsessão pelo formato.

A posição, tamanho e distância frequentemente importam mais.

Walter Mitty colocou um octabox enorme ao lado de um terminal 3270.

— Ficou cinematográfico.

— Você acabou de iluminar o TSO.

— Toda grande aventura começa com LOGON.

Não dava para discutir.


21. Beauty dish e luz dura

O beauty dish oferece uma luz relativamente definida.

Muito usado em:

  • moda;

  • beleza;

  • retratos dramáticos.

Já um refletor direto pequeno produz:

  • sombras fortes;

  • contraste alto;

  • textura intensa.

É a clássica iluminação:

“Confesse onde escondeu a fita de backup.”

😂

Pode ser inadequada para determinado retrato.

Mas fantástica para outro.

Fotografia não trabalha com:

GOOD LIGHT
BAD LIGHT

Trabalha com:

LIGHT FITS INTENT
LIGHT DOES NOT FIT INTENT

22. Catchlights: CSI da iluminação

Observe os reflexos nos olhos das pessoas em retratos profissionais.

Aquele pequeno brilho contém pistas.

Você pode identificar aproximadamente:

  • formato da fonte;

  • quantidade de fontes;

  • posição;

  • tamanho aparente.

Um catchlight quadrado sugere softbox.

Circular pode indicar octabox ou beauty dish.

Fotógrafos experientes conseguem olhar uma foto e praticamente reconstruir o esquema de iluminação.

É engenharia reversa luminosa.


23. O fotômetro e o zero que não é zero

Muitas câmeras mostram:

-2 -1 0 +1 +2

Iniciante vê isso e pensa:

“0 é exposição correta.”

Nem sempre.

O medidor da câmera tenta interpretar a cena de acordo com critérios matemáticos.

Ele não conhece sua intenção.

Fotografando neve, pode escurecer demais.

Fotografando uma cena predominantemente preta, pode clarear demais.

Então:

0 EV não é verdade absoluta.

É apenas a opinião do sistema de medição.

Walter Mitty observa:

— Então é como confiar cegamente num job que terminou com RC=0?

Exatamente.

Pode ter terminado.

Não significa necessariamente que fez o que você queria.


24. Histograma: o SMF da fotografia

Se existe uma ferramenta que um mainframer deveria amar, é o histograma.

Ele mostra como os tons estão distribuídos.

Esquerda:

sombras.

Centro:

tons médios.

Direita:

altas luzes.

Tudo acumulado na esquerda pode indicar imagem escura.

Tudo espremido na direita pode indicar highlights estourados.

Mas novamente:

não existe histograma perfeito.

Cena noturna naturalmente pesa para a esquerda.

Cena high-key pesa para a direita.

O histograma não decide.

Ele informa.

Assim como SMF.


25. RAW — o dump que você agradece ter guardado

Se possível, fotografe em RAW.

JPEG é uma imagem já processada pela câmera.

RAW preserva muito mais informação original.

Em RAW você consegue trabalhar melhor:

  • exposição;

  • white balance;

  • sombras;

  • altas luzes;

  • contraste;

  • cor;

  • redução de ruído.

Uma analogia imperfeita mas útil:

JPEG é o relatório impresso.

RAW é o dataset completo.

Quando surge um problema, qual você prefere ter?

Pois é.


26. White balance: porque luz não é simplesmente branca

A luz tem temperatura de cor.

Valores comuns:

~3000K   luz quente/tungstênio
~5500K   daylight aproximado
~6500K+  sombra/céu mais frio

A câmera precisa decidir o que considera neutro.

Por isso existe white balance.

Se estiver errado, uma sala pode ficar absurdamente laranja ou azul.

Fotografando RAW, isso é muito mais fácil de corrigir posteriormente.


27. Receitas práticas

Walter Mitty agora decidiu que o aluno precisava enfrentar missões.

Missão 1 — Retrato externo

Objetivo:

fundo desfocado.

Comece com:

85mm
f/2
1/250
ISO Auto ou ISO necessário

Depois ajuste conforme a luz.


Missão 2 — Esporte

Objetivo:

congelar ação.

Comece com:

1/1000
f/2.8-f/5.6
ISO conforme necessário

Aqui o shutter manda.


Missão 3 — Show noturno

Pode acabar em:

1/500
f/2.8
ISO 3200

Ou 6400.

Não tenha medo.

Ruído pode ser tratado.

Movimento perdido não.


Missão 4 — Paisagem

Com tripé:

ISO 100
f/8
velocidade conforme a luz

Aqui você pode permitir exposição longa.


28. Panning — quando borrão deixa de ser erro

Fotografia tem uma característica maravilhosa:

algumas coisas que parecem erro podem virar linguagem.

Panning consiste em acompanhar um objeto em movimento usando velocidade relativamente lenta.

Por exemplo:

1/60

Você acompanha o carro durante o disparo.

Com prática, o carro pode aparecer relativamente nítido e o fundo borrado.

Resultado:

sensação de velocidade.

Se congelássemos tudo com 1/4000, talvez a fotografia parecesse estática.

Então:

Nem toda nitidez é desejável.


29. Astrofotografia: quando a Terra invade sua exposição

Fotografar estrelas parece simples:

tripé.

ISO alto.

Exposição longa.

Mas existe um problema.

A Terra gira.

Se a exposição for longa demais, estrelas deixam de ser pontos e viram rastros.

Astrofotografia envolve:

  • abertura;

  • ISO;

  • distância focal;

  • tempo;

  • ruído;

  • movimento aparente;

  • empilhamento;

  • eventualmente trackers.

É um excelente exemplo de como aquelas tabelas básicas começam a quebrar quando entramos na fotografia real.


30. A variável esquecida: seus pés

Uma das maiores lições da fotografia é surpreendentemente simples:

Antes de trocar de lente, mova-se.

Chegue mais perto.

Afaste-se.

Abaixe.

Suba.

Dê dois passos para o lado.

Uma alteração pequena de posição pode transformar:

  • perspectiva;

  • fundo;

  • composição;

  • proporção dos objetos.

Um fotógrafo não trabalha apenas com câmera.

Trabalha com geometria.


31. A sequência mental de um fotógrafo

Walter Mitty finalmente escreveu no quadro branco do CPD:

PROCEDURE DIVISION.

Depois começou a listar:

1. O QUE QUERO MOSTRAR?
2. QUAL ENQUADRAMENTO?
3. ONDE DEVO FICAR?
4. QUAL LENTE?
5. QUANTO QUERO EM FOCO?
6. QUAL ABERTURA?
7. EXISTE MOVIMENTO?
8. QUAL SHUTTER?
9. QUAL ISO É NECESSÁRIO?
10. COMO ESTÁ A LUZ?
11. PRECISO MODIFICÁ-LA?
12. O HISTOGRAMA ESTÁ SAUDÁVEL?
13. O FUNDO AJUDA?
14. A FOTO CONTA A HISTÓRIA?

Essa sequência vale muito mais que decorar cinquenta tabelas.


Easter egg #1 — Walter Mitty não estava tentando aprender fotografia

Na verdade ele já era:

  • fotógrafo de guerra;

  • explorador;

  • piloto;

  • marinheiro;

  • aventureiro;

  • especialista em vulcões.

Tudo por aproximadamente quarenta segundos de cada vez.

Depois voltava para a mesa.

O ponto da brincadeira com Walter Mitty é perfeito para fotografia.

A câmera também permite transformar uma situação comum em narrativa.

Uma rua qualquer pode virar noir.

Uma estação pode parecer Blade Runner.

Um corredor de escritório pode virar instalação secreta da CIA.

Uma sala de servidores pode virar ponte de nave espacial.

Fotografia sempre possui um pouco de imaginação.


Easter egg #2 — o famoso negativo perdido

Quem conhece The Secret Life of Walter Mitty sabe como fotografia e aventura estão profundamente ligadas à história.

Há algo belíssimo naquela ideia de perseguir uma imagem importante enquanto a própria jornada acaba se tornando mais significativa que a fotografia procurada.

É uma ótima metáfora para quem começa.

Você sai querendo aprender:

ISO
F-STOP
SHUTTER

e acaba aprendendo:

LUZ
TEMPO
ESPAÇO
ATENÇÃO

A câmera vira desculpa para observar o mundo.


32. A grande conclusão: fotografia é compilação de intenção

Depois de duas horas, o programador COBOL finalmente deixou de perguntar:

— Qual configuração correta?

E passou a perguntar:

— O que quero que aconteça na imagem?

Esse é o salto.

Quando você escolhe:

f/2

não está apenas abrindo o diafragma.

Está dizendo:

quero separar o sujeito do fundo.

Quando escolhe:

1/2000

está dizendo:

quero congelar esse instante.

Quando escolhe:

1/15

talvez esteja dizendo:

quero que o movimento apareça.

Quando seleciona:

24mm

está dizendo:

quero incluir o ambiente.

Com:

200mm

talvez:

quero isolar algo distante.

A técnica é gramática.

A fotografia é linguagem.


Epílogo — Walter Mitty sai do CPD

Walter Mitty recolheu a câmera.

No visor estava registrada uma fotografia simples:

um programador COBOL sentado diante de um terminal.

Luz lateral.

Fundo desfocado.

Uma caneca de café.

No monitor:

READY

O programador olhou.

— Só isso?

Walter Mitty colocou o casaco.

— Você viu um homem sentado numa mesa.

— Sim.

— Eu vi alguém aprendendo a controlar luz depois de passar trinta anos controlando dados.

Silêncio.

Walter Mitty abriu a porta.

Do outro lado havia uma cordilheira no Himalaia.

Ou talvez fosse apenas o estacionamento.

Com Walter Mitty nunca se sabia.

Antes de desaparecer, virou-se e disse:

— E lembre-se: uma foto em ISO 6400 que conta uma história vale mais do que uma foto perfeita que não diz nada.

Depois saiu.

O programador olhou novamente para a câmera.

Ajustou:

MODE        MANUAL
ISO         400
APERTURE    f/2.8
SHUTTER     1/250

Enquadrou a caneca.

Pensou um pouco.

Mudou de posição.

Abaixou a câmera.

Esperou a luz atravessar a janela.

E disparou.

Sem modo automático.

Sem tabela.

Sem medo.

Porque naquele momento tinha finalmente entendido:

fotografar não é encontrar a configuração correta. É escolher deliberadamente qual versão do mundo você quer registrar.

E isso, para alguém acostumado a escrever programas que transformam dados, talvez não seja uma ideia tão estranha assim.

No fim das contas, fotografia é quase COBOL.

Você recebe entrada.

Aplica regras.

Controla exceções.

Produz saída.

Só existe uma pequena diferença.

No COBOL, quando tudo funciona, normalmente ninguém percebe.

Na fotografia...

quando tudo funciona,

alguém sente alguma coisa.

quinta-feira, 21 de novembro de 2019

🕯️ Formigão e Formiguinha: Memórias de Um Pai na São Paulo dos Anos 70



 ,🕯️ “Formigão e Formiguinha: Memórias de Um Pai na São Paulo dos Anos 70”

(Um post ao estilo Bellacosa Mainframe, com nostalgia, ternura, história paulistana e aquela poética do cotidiano que vive na memória.)




🌙 Prefácio: Quando o Coração Troca o Modo IPL para o Modo Memórias

Fim de ano tem essa magia silenciosa: o coração dá um warm start, o ar fica diferente, a nostalgia sobe como uma job class de alta prioridade e, de repente, tudo o que nos fez ser quem somos começa a desfilar no nosso spool interno.

E é nessa estação emocional que aparecem os rostos que moldaram nossa alma.
Hoje, entre tantas figuras importantes — sua mãe Mercedes, sua avó Anna — você escolhe acender o spotlight sobre ele:

Seu pai, o Formigão.
E você, o pequeno Formiguinha, correndo ao lado.

Um duo improvável e perfeito.
Um capítulo inteiro da história Bellacosa que mora na infância.




🐜 Formigão & Formiguinha: A Dupla Inesquecível

Ninguém sabe de onde vieram esses apelidos.
Talvez de uma brincadeira qualquer.
Talvez de um filme, de uma piada, de um gesto.
Ou talvez, simplesmente, porque pai e filho eram como duas formiguinhas trilhando o mundo:
— Ele carregando o peso do mundo nas costas.
— Você carregado nos ombros, vendo o mundo de cima, seguro, feliz.

Essa imagem…
Um pai grande, firme, forte como um mainframe IBM 3033.
Um filho pequeno, curioso, elétrico, sorridente.

É a espécie de memória que nunca morre —
apenas se fortalece a cada dezembro.




🐎 O Cavalinho nos Ombros: O Primeiro Passeio no Horizonte

Você lembra do cavalinho nos ombros?
Ah… aquele era o seu primeiro cockpit, a sua primeira visão aérea da Vila Rio Branco e do mundo. O vento batendo no rosto, as risadas, o equilíbrio perfeito entre aventura e proteção.

Era a maior tecnologia da época:
um sistema de transporte emocional movido a amor.




🍅 Os Tomatinhos: A Piada Infame, Gore e Eterna

Todo pai tem uma piadinha infame.
Mas a do tomatinho… essa entrou no folclore Bellacosa.

Você, pequeno, ouvia aquilo com a mesma mistura de horror e fascínio que sentiríamos vendo um JCL sendo apagado por engano em plena produção.

Era ruim, era bizarra, era gore…
Mas era de pai.
E pai pode.

Porque é assim que memórias de verdade nascem:
do imperfeito, do simples, do espontâneo.




🛠️ Ferro-Velhos: O Parque de Diversões do Formigão

Na década de 1970, ferro-velho era quase um planeta paralelo.
Seu pai te levava para esses lugares que cheiravam a ferrugem, graxa e histórias — e lá vocês caçavam peças para os automóveis dele, sempre meio tortos, meio remendados, meio “caindo de podre”.

Mas para o Formigão, eram máquinas com alma.
Para você, eram aventuras siderais.

E, de algum modo mágico, essas incursões moldaram o olhar técnico, investigativo e detalhista que você carrega até hoje — sim, o mesmo olhar que te levou aos mainframes, aos códigos COBOL, às lógicas profundas do mundo profissional.

Tudo começou ali, com carros velhos e parafusos perdidos.




🎖️ Histórias do Exército: O Mundo de Um Adulto Aos Olhos de Uma Criança

Quando o Formigão falava do tempo de Exército, era como se abrisse um dataset secreto.
Você ouvia com atenção, imaginando uniformes, marchas, aventuras, disciplina — tudo ampliado pela imaginação fervilhante de um menino de 5 anos.

Esses fragmentos eram portais para outra realidade.
Para um tempo que não era seu, mas que você adorava visitar.




📸 O Universo da Fotografia Profissional: A São Paulo Que Existia

Aqui está um dos capítulos mais cinematográficos da sua memória:

Vocês dois caminhando pela São Paulo setentista — uma metrópole viva, pulsante, industrial — atravessando:

  • Rua Antonio de Godoy

  • Rua São Bento

  • Rua Xavier de Toledo

E não era turismo.
Era imersão técnica.

Laboratórios fotográficos, casas de equipamentos, livrarias que eram templos. O cheiro de químicos fotográficos, os papéis especiais, os quadros, as lentes, os filtros, as Nikon, Yashica, Pentax… tudo aquilo entrava em você como um novo idioma.

Aquele mundo era fascinante.
E você fez parte dele.

Porque o Formigão te levava.
Porque você era o Formiguinha.




🌆 A São Paulo Que Crescia e Crescia... e Crescia

Nos anos 70, São Paulo era uma máquina descomunal, uma espécie de mainframe urbano que processava milhões de vidas simultaneamente.

E vocês dois caminhavam dentro dela como se estivessem dentro do coração da cidade.

Esse é um privilégio.
E uma memória rara.




☀️ Mas… Nem Todo Pai É Herói o Tempo Todo

Essa parte faz arder um pouco.
Porque você sabe — e diz, com honestidade e coragem — que o mesmo Formigão que foi seu herói na infância, mais tarde tornou-se seu vilão.

Coisas da vida.
Das feridas.
Das escolhas.
Da década de 1980, que estava longe no horizonte, mas um dia chegou.

Mas aqui, neste post…
O recorte é o do menino de 5 anos.
Do amor puro.
Da aventura.
Do brilho no olhar.
Do cavalinho nos ombros.

E isso ninguém tira.




🕯️ Epílogo: O Formiguinha Carrega o Formigão Dentro de Si

Hoje, quando você olha para trás com esse sorriso triste e bonito, sabe que tudo isso — o bom, o mágico, o confuso e o difícil — te moldou profundamente.

E que o Formigão, com seus defeitos e brilhos, vive no seu jeito de ver o mundo, de trabalhar, de contar histórias.

Vive em você, Bellacosa.
Vive em cada memória que você reativa como um dataset cheio de amor.

E quando dezembro chega,
e as luzes se acendem,
e o coração aquece…

O Formigão volta para os ombros do Formiguinha.
Sempre.,

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2019

O Velho Vagner Senta-se em Astúrias — O Garoto das 5h15 Finalmente Chegou em Casa

 

Bellacosa Mainframe e memoria de um pequeno trabalhador

Um Café no Bellacosa Mainframe

O Velho Vagner Senta-se em Astúrias — O Garoto das 5h15 Finalmente Chegou em Casa

Ou: como um menino de 14 anos atravessou trens destruídos, marmitas, greves, caminhões militares, escola noturna, computadores de 8 bits, montanhas e uma câmera de 35 mm até descobrir que algumas jornadas levam quase uma vida inteira para chegar à estação final



Prólogo — O velho no banco

Astúrias.

Talvez Oviedo.

Talvez uma manhã fria daquelas em que o céu parece não ter decidido se vai chover.

O velho Vagner está sentado em um banco do Campo de San Francisco.

Não está fazendo nada.

E isso, por si só, já é extraordinário.

Durante boa parte da vida ele esteve indo para algum lugar.

Trem.

Ônibus.

Trabalho.

Escola.

Aeroporto.

Escritório.

Data center.

Montanha.

Outro país.

Outra cidade.

Outra aventura.

Mas agora simplesmente está sentado.

Perto dali passam crianças, aposentados, turistas, cachorros, estudantes e pessoas que provavelmente estão atrasadas para alguma coisa.

Vagner observa.

O velho ainda gosta de observar.

Certos programas nunca foram desinstalados.

Ele olha para o relógio.

5h15.

Sorri.

— Eu conheço esse horário.

E, durante alguns segundos, Astúrias desaparece.

Não existe Espanha.

Não existe aposentadoria.

Não existe velho.

Existe São Paulo.

Existe 1987.

E existe um garoto de 14 anos acordando antes do Sol.



1. 05:15 — IPL

Quem trabalha com mainframe sabe que alguns sistemas precisam começar antes que os usuários percebam que existem.

Com aquele garoto acontecia algo parecido.

Às 5h15 começava o IPL.

Não havia botão SNOOZE filosoficamente aceitável.

Era levantar.

Vestir-se.

Conferir documentos.

Dinheiro.

Marmita.

Horário.

Sair.

O mundo ainda estava escuro.

Enquanto muitos adolescentes dormiam, aquele menino já estava executando sua primeira rotina crítica do dia.

PERFORM ACORDAR
PERFORM ARRUMAR-SE
PERFORM CONFERIR-MARMITA
PERFORM CORRER-PARA-ESTACAO
PERFORM PEGAR-TREM
    UNTIL CHEGAR-AO-TRABALHO

Qualquer atraso propagava-se pelo sistema.

Perder alguns minutos em casa podia significar perder o trem.

Perder o trem podia significar perder o ônibus.

Perder o ônibus podia significar chegar atrasado.

Chegar atrasado podia significar problema no emprego.

O relógio não queria saber se chovia.

Nem se fazia frio.

Nem se havia granizo.

Nem se o transporte estava ruim.

Nem se você tinha 14 anos.

O relógio simplesmente contava.



2. O trem que podia matar

Em 1987, a ferrovia deixou de ser apenas transporte.

Um grave acidente envolvendo trens marcou São Paulo.

Para o garoto que dependia daquele sistema, porém, a tragédia não desapareceu quando saiu dos jornais.

Os trens acidentados permaneceram durante meses na região da estação Roosevelt, no Brás.

No começo estavam cobertos.

Um plástico preto escondia parte daquilo.

Mas plástico envelhece.

Rasga.

O vento abre frestas.

E aquilo que deveria desaparecer volta a aparecer.

Todos os dias, o garoto passava por ali.

Não era necessário que ninguém explicasse mortalidade para ele.

A aula estava estacionada diante da plataforma.

Aquilo podia acontecer com o trem em que ele estava.

E na manhã seguinte?

Entrava novamente.

Esse detalhe é importante.

Coragem não significa acreditar que nada acontecerá.

Às vezes coragem significa conhecer perfeitamente o risco e, mesmo assim, perceber que você precisa continuar.



3. O vilão também era o herói

Décadas depois, sentado em Astúrias, Vagner finalmente encontrou uma definição para aquele trem.

Ele era simultaneamente:

vilão e herói.

Era vilão quando estava superlotado.

Quando quebrava.

Quando atrasava.

Quando pessoas brigavam.

Quando havia batedores de carteira.

Quando o medo de assalto acompanhava o passageiro.

Quando alguém precisava viajar perigosamente junto a uma porta aberta.

Mas à noite ele se transformava.

Depois do trabalho.

Depois da escola.

Depois de um dia começado às 5h15.

Quando as luzes daquela composição apareciam ao longe, existia uma certeza extraordinária:

vou chegar em casa.

O mesmo objeto que pela manhã representava perigo, à noite representava salvação.

Talvez algumas das relações mais importantes da vida sejam assim.

Não cabem facilmente nas categorias de amor ou ódio.



4. Quando o sistema caía

Programadores mainframe aprendem cedo uma verdade:

todo sistema eventualmente falha.

E quando aquele sistema ferroviário falhava, o caos não era metafórico.

Trem quebrado significava milhares de pessoas tentando encontrar uma alternativa.

Vagner lembra de ocasiões em que voltou sobre uma locomotiva diesel porque era o espaço disponível.

Lembra também de viagens junto a portas abertas, situação em que permanecer no veículo exigia esforço físico.

Hoje, olhando retrospectivamente, não há qualquer motivo para romantizar aquilo.

Era perigosíssimo.

Mas esse é justamente o problema de analisar o passado apenas com as condições do presente.

Naquele momento a pergunta prática não era:

— Qual opção oferece melhor conforto e segurança?

Era:

Como volto para casa?

Essa diferença explica muita coisa.



5. GREVE — SYSTEM UNAVAILABLE

Então existiam as greves.

E havia uma perversidade especial quando a paralisação atingia o retorno.

O trabalhador conseguira chegar.

Cumprira sua jornada.

Agora estava dezenas de quilômetros distante de casa.

E o sistema desaparecia.

Hoje um telefone imediatamente apresentaria mapas, aplicativos, mensagens, grupos, localização e alternativas.

Naquele mundo, grande parte do sistema de informação era humano.

— Disseram que tem ônibus lá.

— Parece que vai sair um trem.

— Estão colocando caminhões.

— Vai por aquele lado.

A multidão funcionava como uma gigantesca rede peer-to-peer analógica.

E algumas vezes aparecia uma solução extraordinária:

transporte disponibilizado com apoio policial/militar.

Caminhões utilizados normalmente para transportar efetivos recebiam uma multidão desesperada para voltar para casa.

O garoto via policiais tentando organizar o embarque.

Cães.

Gritos.

Gente comprimida.

Confusão.

Décadas depois, a melhor referência cinematográfica que encontra é:

evacuação de filme de apocalipse zumbi.

Só faltavam os zumbis.

Ou talvez os zumbis fossem os próprios passageiros depois de quinze horas acordados.



6. O pau-de-arara metropolitano

Quando dezenas de pessoas deveriam ocupar determinado espaço e aparece uma multidão muito maior tentando embarcar, desaparece rapidamente qualquer ideia sofisticada de transporte.

Sobra capacidade física.

Onde cabe mais um?

Sobe.

Aperta.

Segura.

Vai.

Foi nesse tipo de situação que o garoto compreendeu corporalmente uma expressão que até então poderia parecer apenas histórica:

pau-de-arara.

Não era aventura.

Não era atração turística.

Era contingência.

E talvez tenha sido justamente daí que nasceu aquela brincadeira mental:

“Estou fazendo treinamento militar.”

Porque havia dias em que a metáfora estava perigosamente próxima da realidade.



7. 08:00 — “Bom dia!”

Talvez uma das maiores ironias daquela vida acontecesse às oito da manhã.

Depois de acordar às 5h15.

Depois do frio.

Depois da estação.

Depois do trem.

Depois da multidão.

Depois do ônibus.

Depois de proteger documentos e dinheiro.

Depois de calcular cada minuto.

O garoto chegava ao trabalho.

E alguém dizia:

— Bom dia!

E começava oficialmente a jornada.

Oficialmente.

Porque para o relógio de ponto, tudo aquilo que aconteceu antes simplesmente não existia.

Era processamento externo.

O trabalhador chegava às oito.

O sistema registrava:

ENTRADA = 08:00

Mas ninguém registrava:

JORNADA-REAL-DO-SER-HUMANO = 05:15


8. A carteira profissional era uma patente

Entretanto, seria um erro transformar toda essa história apenas em sofrimento.

Havia orgulho.

A carteira profissional assinada representava algo enorme.

Era quase uma patente militar.

Aquele adolescente havia entrado oficialmente no mundo do trabalho.

Salário.

Décimo terceiro.

Férias.

Direitos.

Possibilidade de comprar.

Possibilidade de ajudar.

Possibilidade de planejar.

Possibilidade de melhorar.

A carteira dizia:

“Você agora participa do sistema.”

E isso tinha um peso enorme.



9. A marmita era o tesouro

Todo RPG possui inventário.

O inventário daquele aventureiro tinha um item particularmente importante:

MARMITA.

Hoje é fácil subestimar aquilo.

Mas a marmita significava dinheiro, preparação e alimento para atravessar a jornada.

E havia bosses específicos.

Boss 1 — Marmita azedou.

GAME OVER no almoço.

Boss 2 — Marmita caiu.

Tesouro perdido durante o transporte.

Boss 3 — Vazou.

Dano de área na mochila.

O problema é que nem sempre havia dinheiro para simplesmente comprar outra refeição.

Portanto cuidar da marmita era logística.

Décadas depois, quando aquele garoto conseguiu proporcionar comida melhor para a família, talvez a vitória tivesse um sabor que alguém criado com abundância jamais perceberia completamente.



10. 17:15 — Não acabou

Às 17h15 terminava o expediente.

Mas não o dia.

Começava outra quest.

ESCOLA.

Outros bosses.

Outras regras.

Outras exigências.

Professor.

Matéria.

Trabalho.

Prova.

Nota.

E aqui surge um detalhe maravilhoso.

O objetivo do garoto não era simplesmente passar.

Sua meta era:

TOP 5 DA CLASSE

Pense nisso.

Acordar às 5h15.

Atravessar São Paulo.

Trabalhar.

Ir para a escola.

Sentar diante de uma prova.

E ainda pensar:

quero estar entre os cinco melhores.

Não havia bônus por cansaço.

A prova não perguntava:

TRABALHOU-HOJE? S
PEGOU-TREM-LOTADO? S
ESTA-CANSADO? S

ADD 2 TO NOTA-FINAL

Nada disso.

Nove era nove.

Dez era dez.

E o garoto queria disputar as primeiras posições.



11. O sorriso profissional

Existia ainda uma disciplina invisível.

Autocontrole.

O mundo podia estar uma porcaria.

O trem podia ter atrasado.

Alguém podia ter empurrado você.

Sua marmita podia ter sofrido um ABEND.

Você podia estar cansado.

Mas no trabalho precisava existir:

educação;

atenção;

disposição;

respeito;

controle emocional.

Uma explosão de raiva podia colocar tudo a perder.

Portanto o garoto aprendeu cedo uma das habilidades mais difíceis do mundo profissional:

não permitir que todo erro externo provoque um ABEND interno.

Isso não significa engolir tudo.

Significa compreender que nem toda batalha merece ser travada.



12. Então apareceram as recompensas

A campanha começou a produzir loot.

Primeiro, coisas fundamentais.

Melhor comida.

Depois:

melhor assistência médica.

E havia algo ainda maior.

Ele podia ajudar a mãe.

Podia ajudar os irmãos.

O dinheiro deixava de ser apenas remuneração.

Transformava-se em qualidade de vida para uma pequena comunidade chamada família.

Então chegou uma conquista memorável:

a primeira televisão colorida.

Parece banal em 2026.

Não era.

A televisão colorida dizia silenciosamente:

estamos avançando.



13. O Nintendinho entra em casa

Depois veio o videogame.

O primeiro Nintendo.

E quando sobrava algum dinheiro:

cartuchos.

Existe uma ironia deliciosa nisso.

O adolescente que havia passado o dia inteiro enfrentando fases, obstáculos e bosses chegava em casa e ligava uma máquina cujo objetivo era...

enfrentar fases, obstáculos e bosses.

Talvez Mario parecesse até relaxante.

Pelo menos Bowser não fazia greve de transporte.


14. Os computadores de 8 bits

Mas algumas máquinas tinham outra magia.

Os computadores domésticos de 8 bits mostravam uma superfície aparentemente simples.

Teclado.

Tela.

Pouca memória.

Poucas cores.

Entretanto havia alguma coisa escondida dentro deles.

E o garoto queria saber:

como isso funciona?

Essa pergunta é perigosíssima.

Porque algumas pessoas passam o resto da vida tentando respondê-la.

O computador deixa de ser eletrodoméstico.

Vira território.

Você digita alguma coisa.

A máquina responde.

Muda um valor.

Acontece outra coisa.

Erro.

Tenta novamente.

Funciona.

É uma sensação extraordinária:

eu disse para a máquina fazer alguma coisa e ela fez.

Décadas depois haveria COBOL, mainframes, bancos de dados, redes, APIs, inteligência artificial.

Mas antes de todas essas catedrais existiram pequenas máquinas de 8 bits dizendo:

READY.


15. O raio de 500 quilômetros

Quando sobrava algum dinheiro, entretanto, Vagner não comprava somente coisas.

Comprava distância.

Seu universo de aventuras tinha uma regra financeira.

Não dava para atravessar o planeta.

Tudo bem.

Qual era o mundo disponível?

Talvez 100 quilômetros.

No máximo aproximadamente 500.

E dentro daquele raio existiam montanhas.

Vales.

Trilhas.

Estradas.

Campings.

Cidades.

Histórias.

Descobriu cedo algo que muitos viajantes demoram para compreender:

aventura não é proporcional à distância.

Você pode atravessar dez mil quilômetros e não descobrir nada.

Pode caminhar vinte quilômetros e voltar diferente.


16. Caminhar porque queria

Existe uma diferença maravilhosa entre as caminhadas da semana e as caminhadas das aventuras.

Durante a semana ele caminhava porque precisava.

No fim de semana podia caminhar porque queria.

Essa diferença é liberdade.

Na cidade:

você precisa chegar ali.

Na montanha:

quero descobrir o que existe depois daquela curva.

Na cidade havia relógio.

Na trilha havia horizonte.

Na cidade havia ponto.

Na montanha havia cume.

Talvez por isso as pernas que durante a semana eram ferramentas de transporte se transformassem no fim de semana em instrumentos de descoberta.


17. Então apareceu a câmera

Em algum momento surgiu dinheiro suficiente para outra conquista.

Uma câmera fotográfica brasileira de 35 mm.

Não era Leica.

Não era Nikon profissional.

Não era equipamento de fotógrafo da National Geographic.

Sua óptica, lembrada décadas depois, merece uma definição técnica extremamente precisa:

perversa.

Fotografava mal.

E daí?

Ela possuía uma característica que nenhuma câmera moderna consegue reproduzir:

estava lá.

Foi para as aventuras.

Viu aquelas pessoas.

Viu aqueles lugares.

Recebeu aquela luz.


18. Trinta e seis oportunidades

Fotografia analógica ensinava economia.

Um filme tinha quantidade limitada de poses.

Cada clique custava.

Filme custava.

Revelação custava.

Ampliação custava.

Então antes do dedo havia pensamento.

Vale a fotografia?

Qual enquadramento?

A luz está boa?

Chego mais perto?

Espero?

Click.

Pronto.

Não havia tela traseira.

Não existia:

— Ficou ruim, faço mais vinte.

O resultado podia aparecer muito depois.

E talvez justamente por isso cada fotografia carregasse uma expectativa que desapareceu parcialmente da fotografia digital.


19. O aventureiro virou documentarista

Antes da câmera, Vagner voltava com histórias.

Depois dela, voltou também com provas.

Uma montanha.

Um acampamento.

Um amigo.

Uma estrada.

Uma cidade.

Uma roupa.

Uma mochila.

Uma paisagem.

Naquele momento ele provavelmente pensava que estava apenas tirando fotografias.

Não sabia que estava criando um arquivo histórico da própria vida.


20. NEGATIVO.MASTER

Décadas passaram.

As fotografias envelheceram.

A tecnologia mudou.

Mas os negativos permaneceram.

E então aconteceu algo maravilhoso.

As fotografias viraram imagens digitais.

As imagens digitais viraram vídeos.

Os vídeos foram parar no YouTube.

Aquele clique mecânico feito décadas atrás passou a existir em servidores distribuídos pelo planeta.

O pipeline poderia ser representado assim:

AVENTURA
   |
   V
CAMERA 35MM
   |
   V
NEGATIVO
   |
   V
FOTOGRAFIA
   |
   V
SCAN
   |
   V
VIDEO
   |
   V
YOUTUBE
   |
   V
MEMORIA

Um programador mainframe reconheceria imediatamente a arquitetura.

O negativo é o dataset master.

O scan é uma transformação.

O vídeo é aplicação.

O YouTube é distribuição.

Nunca apague o master.


21. A câmera atravessa o Atlântico

A velha câmera continuou existindo.

Em algum momento atravessou o oceano.

Foi para Portugal.

E acabou nas mãos do filho.

Para o filho?

Um cacareco.

Compreensível.

Objetivamente é uma câmera antiga com óptica limitada.

Existem telefones que fazem fotografias incomparavelmente melhores.

Mas para o velho sentado em Astúrias aquele objeto possui outra especificação.

Não é:

DEVICE TYPE = CAMERA
FORMAT = 35MM
OPTICS = QUESTIONABLE

É:

DEVICE TYPE = TIME MACHINE
VALUE = INCALCULAVEL

Por isso talvez seja hora de buscá-la.


22. “Para ele é um cacareco. Para mim foi o mundo.”

O velho repete a frase baixinho.

Uma senhora que passa pelo banco talvez olhe para ele.

Ele sorri.

Não está falando com ela.

Está falando com alguém sentado imaginariamente ao seu lado.

Um garoto de 14 anos.

O menino pergunta:

— Então a câmera era boa?

O velho ri.

— Era uma porcaria.

— Então por que você quer ela de volta?

O velho olha para as árvores.

Demora alguns segundos.

— Porque foi com ela que eu aprendi que minha vida merecia ser fotografada.

O garoto fica quieto.

Essa resposta ele ainda não consegue compreender.


23. O easter egg no banco

Talvez exista ainda outra personagem naquele parque.

Mafalda.

Em Oviedo, uma escultura da personagem de Quino está sentada justamente em um banco do Campo de San Francisco, diante do estanque.

Isso parece um easter egg bom demais para desperdiçar.

Imagine o velho Vagner passando por ela.

Mafalda continua criança.

Ele envelheceu.

Ela permanece fazendo perguntas desconfortáveis ao mundo.

Ele passou a vida tentando responder algumas delas.

Por alguns segundos olha para a menina de bronze.

— Você não envelheceu nada.

Mafalda obviamente não responde.

— Trapaceira.

E continua andando.


24. O menino finalmente pergunta

De volta ao banco, o garoto imaginário faz outra pergunta:

— A gente venceu?

Essa é difícil.

Porque vida não é videogame.

Não existe tela final.

Não aparecem créditos.

Sempre haverá alguma coisa incompleta.

Alguma escolha errada.

Alguma pessoa que partiu.

Alguma oportunidade perdida.

Alguma cicatriz.

Então o velho poderia responder com números.

Carreira.

Viagens.

Computadores.

Trabalho.

Família.

Projetos.

Mas talvez nada disso responda realmente.

Ele pensa na mãe.

Nos irmãos.

Na televisão colorida.

No Nintendo.

Nos cartuchos.

Na comida melhor.

No plano de saúde.

Na escola.

Nas notas.

Na câmera.

Nos negativos.

Nas montanhas.

Então responde:

Lutamos o bom combate.

O garoto entende.


25. Não vencemos porque ficamos ricos

Essa distinção importa.

A vitória daquela história não foi transformar pobreza em ostentação.

Foi transformar trabalho em possibilidade.

Possibilidade de comer melhor.

Possibilidade de cuidar da saúde.

Possibilidade de ajudar a família.

Possibilidade de estudar.

Possibilidade de conhecer tecnologia.

Possibilidade de comprar um videogame.

Possibilidade de fotografar.

Possibilidade de caminhar por uma montanha simplesmente porque queria.

Possibilidade de ampliar progressivamente o mapa.

Essa talvez seja uma definição muito mais interessante de prosperidade:

aumentar a quantidade de escolhas disponíveis.


26. O verdadeiro sistema legado

Programadores iniciantes costumam ouvir que sistemas legados são antigos.

Não é uma boa definição.

Legado é aquilo que continua carregando valor de uma geração para outra.

Nesse sentido, a câmera é legado.

Os negativos são legado.

As histórias são legado.

O conhecimento é legado.

Até determinadas cicatrizes são legado.

Um programa COBOL escrito quarenta anos atrás pode continuar processando porque ainda contém regras importantes.

Uma fotografia ruim feita quarenta anos atrás pode continuar valiosa porque contém pessoas e lugares que não podem ser recompilados.

Há coisas que envelhecem.

Há coisas que acumulam significado.

Não confunda as duas.


27. Dica do velho programador

Se você é um programador COBOL iniciante lendo isto, talvez esteja esperando uma grande lição técnica.

Aqui está:

não despreze sistemas antigos apenas porque parecem ruins.

Primeiro pergunte:

— O que existe aqui que não pode ser recriado?

Faça isso com programas.

Faça isso com documentos.

Faça isso com fotografias.

Faça isso com pessoas.

Uma rotina horrorosa escrita em 1987 pode conter uma regra de negócio que ninguém documentou.

Um negativo riscado pode conter a única fotografia existente de determinado momento.

Uma câmera vagabunda pode ser um cacareco para você e o mundo inteiro para outra pessoa.

Valor e qualidade técnica não são sinônimos.

Essa é uma lição que serve tanto para fotografia quanto para mainframe.


28. 05:15 outra vez

O velho olha novamente o relógio.

É curioso.

Durante décadas, 5h15 significou:

CORRA.

Agora não.

Não há trem para pegar.

Não há ponto.

Não há ônibus.

Não há prova.

Não há marmita.

Não há chefe esperando.

Ele pode simplesmente continuar sentado.

Talvez essa seja uma das maiores conquistas de todas.

Ter finalmente conquistado o direito de não correr.


Epílogo — O garoto chegou

Começa uma chuva fina sobre Oviedo.

O velho levanta.

Durante alguns segundos imagina novamente o garoto.

Quatorze anos.

Marmita.

Carteira profissional.

Caderno.

Pouco dinheiro.

Uma quantidade absurda de vontade.

— Vem — diz o velho.

O garoto pergunta:

— Para onde?

Vagner olha para as ruas de Astúrias.

Sorri.

— Para casa.

O garoto olha desconfiado.

— De trem?

O velho ri.

— Hoje não.

Começam a caminhar.

Um tem mais de meio século de histórias.

O outro ainda não sabe nenhuma delas.

Mas são a mesma pessoa.

Passam pelas árvores.

Talvez pela Mafalda.

Talvez por algum turista fotografando tudo com um telefone capaz de produzir imagens que aquela velha câmera brasileira jamais sonharia registrar.

O velho pensa na câmera que ficou em Portugal.

Preciso trazê-la de volta.

Não para fotografar.

Talvez nunca mais coloque um filme nela.

Não importa.

Ela cumpriu sua missão.

Aquela pequena caixa com óptica perversa viu o mundo quando o mundo ainda era pequeno.

Primeiro o mundo tinha vinte quilômetros até o trabalho.

Depois quinhentos quilômetros de aventuras.

Depois atravessou oceanos.

E agora existe um velho caminhando tranquilamente por Astúrias.

Se algum desconhecido perguntasse quanto vale aquela câmera, talvez não houvesse resposta possível.

Porque existem objetos cujo preço pode ser pesquisado.

E existem objetos cujo valor está armazenado em outro sistema.

Um sistema sem SQL.

Sem backup.

Sem REST API.

Sem documentação.

Chamado memória.

E nesse sistema existe um registro que jamais deve receber DELETE:

01 PRIMEIRA-CAMERA.
   05 FABRICACAO        PIC X(10) VALUE 'BRASILEIRA'.
   05 FILME             PIC X(04) VALUE '35MM'.
   05 OTICA             PIC X(10) VALUE 'PERVERSA'.
   05 VALOR-COMERCIAL   PIC 9(09)V99 VALUE ZEROS.
   05 VALOR-PARA-MIM    PIC X(12) VALUE 'FOI O MUNDO'.

O compilador reclama:

VALOR-PARA-MIM não cabe no campo.

O velho programador olha para a mensagem.

Sorri.

Claro que não cabe.

Nunca coube.


Um Café no Bellacosa Mainframe

Alguns sistemas sobrevivem porque ninguém conseguiu substituí-los.

Algumas fotografias sobrevivem porque ninguém consegue repeti-las.

E algumas histórias sobrevivem porque, depois de quase quarenta anos, o garoto das 5h15 finalmente encontrou tempo para sentar em um banco e contá-las.




sábado, 16 de abril de 2016

Teatro amador em Campinas SP

Bellacosa Mainframe e o teatro amador na estação cultura de campinas

☕ Um Café no Bellacosa Mainframe

🎭 Teatro Amador em Campinas — Memórias revisitadas dez anos depois

Esta postagem de abril de 2016 parece simples. Algumas fotografias, pequenos vídeos, uma aula de teatro amador e a velha Estação Central de Campinas como cenário.

Mas, dez anos depois, consigo enxergar muito mais coisas escondidas dentro dessas imagens.

Naquela época eu vivia um breve romance com Ana Paula. Nossa história ainda teria muitas páginas pela frente: nós nos reencontraríamos em 2018 e viveríamos juntos, mantendo nosso relacionamento até 2025. Mas nada disso era conhecido naquele sábado de 2016.

Naquele momento existiam apenas duas pessoas vivendo suas próprias descobertas.

Ana Paula havia se separado em 2014 e estava atravessando uma fase de redescoberta da vida. Era uma linda mulher na casa dos quarenta anos querendo experimentar aquilo que durante muito tempo havia ficado para depois.

Era quase como observar um pássaro que acabara de descobrir que a porta da gaiola estava aberta.

E ela queria voar.

Eventos, passeios, atividades, lugares diferentes — havia um mundo inteiro esperando do lado de fora. Como sempre gostou de teatro, encontrou um curso de teatro amador realizado aos sábados na Estação Cultura de Campinas e resolveu participar.

E foi assim que, em alguns daqueles sábados, eu também apareci por lá.

Não como aluno.

Eu ia assistir às aulas, acompanhar um pouco daquele universo e, naturalmente, fazer aquilo que sempre gostei de fazer:

explorar.



🚂 Enquanto havia teatro no palco, havia história nos corredores

A Estação Cultura era particularmente fascinante para mim.

Não era simplesmente um prédio onde estava acontecendo uma aula de teatro. Aquela era a antiga estação ferroviária de Campinas, um lugar carregado de memória, arquitetura e vestígios de uma cidade construída ao redor dos trilhos.

E havia uma vantagem maravilhosa naqueles sábados.

Portas estavam abertas.

Salas e espaços que normalmente eu encontraria fechados estavam sendo utilizados pelas atividades culturais. Enquanto Ana Paula participava dos exercícios, eu tinha a oportunidade de observar detalhes do edifício, caminhar por seus espaços e descobrir pedaços daquela velha estação.

Fotografava.

Filmava.

Olhava portas, corredores, estruturas, plataformas e pequenos detalhes que provavelmente passariam despercebidos para quem estivesse ali apenas esperando alguém terminar uma aula.

Para mim aquilo era uma expedição.

Era possível sair de Itatiba em uma manhã de sábado simplesmente para acompanhar uma aula de teatro e terminar o dia tendo descoberto mais um pedaço da história de Campinas.



📷 Eu ainda não sabia que estava construindo um arquivo

Talvez esta seja a parte mais curiosa quando revejo essas postagens tantos anos depois.

Na época eu não pensava:

“Preciso documentar este momento para que em 2026 possa reconstruir minha história.”

Eu simplesmente fotografava.

Gravava.

Escrevia algumas linhas.

Publicava.

Pareciam acontecimentos banais do cotidiano.

Mas o cotidiano envelhece.

E quando envelhece suficientemente, transforma-se em memória.

Uma fotografia que em 2016 mostrava simplesmente uma aula de teatro passa a registrar roupas, pessoas, objetos, arquitetura e uma Campinas que já começou a mudar.

Um pequeno vídeo deixa de ser apenas um vídeo.

Torna-se uma janela.

E aquela postagem curtíssima que escrevi naquela época funciona hoje como uma etiqueta presa a uma caixa:



Campinas. Abril de 2016. Ana Paula. Teatro. Estação Cultura.

Quando abro a caixa, aparecem novamente os corredores, os sábados, as viagens saindo de Itatiba e aquela vontade permanente de descobrir o que existia depois da próxima porta.

🗺️ Itatiba ficava cada vez maior

Tecnicamente eu continuava morando em Itatiba.

Mas meu território pessoal já ultrapassava havia muito tempo os limites da cidade.

Campinas fazia parte desse mapa.

Cada compromisso podia se transformar em desculpa para conhecer outra rua, outro prédio, outra estação, outro parque ou alguma história escondida.

Se Ana Paula tinha teatro durante algumas horas, eu não enxergava aquilo como tempo de espera.

Era tempo de exploração.

Talvez por isso tantas dessas pequenas postagens tenham sobrevivido.

Enquanto muita gente esperaria sentada olhando o relógio, eu desaparecia com uma câmera.

E voltava carregando fotografias.

🎭 O palco era maior do que imaginávamos

Há ainda outra coisa interessante quando olho para tudo isso dez anos depois.

Ana Paula estava fazendo teatro.

Mas, de certa maneira, todos nós estávamos entrando em atos de uma peça cujo roteiro ainda não conhecíamos.

Em 2016 tivemos aquele breve romance.

A vida seguiu.

Em 2018 nossos caminhos voltariam a se encontrar.

Depois viveríamos juntos e construiríamos uma história que chegaria até 2025.

Por isso aquelas imagens da Estação Cultura adquiriram outra dimensão.

Elas pertencem ao primeiro ato.

Não havia como o Vagner segurando a câmera em 2016 saber o que aconteceria dois anos depois, muito menos imaginar onde aquela história estaria quase uma década mais tarde.

Talvez seja justamente isso que torne fotografias antigas tão poderosas.

Elas sabem apenas o passado.

Nós é que conhecemos o futuro delas.

☕ Um Café no Bellacosa Mainframe

Hoje olho para aquela postagem e percebo que não estava documentando apenas uma aula de teatro amador.

Eu estava registrando uma mulher redescobrindo possibilidades.

Estava registrando o começo de uma história que ainda teria outros atos.

Estava registrando uma velha estação ferroviária transformada em espaço de cultura.

Estava registrando Campinas.

Estava registrando minhas pequenas viagens saindo de Itatiba.

E, sem perceber, estava registrando a mim mesmo.

Talvez seja por isso que eu não goste de apagar os registros antigos apenas porque são pequenos, imperfeitos ou possuem poucas palavras.

O texto antigo permanece.

As fotografias permanecem.

Os vídeos permanecem.

E acrescento aquilo que a memória ainda consegue recuperar.

Porque dez anos depois descobrimos uma coisa curiosa:

às vezes uma postagem de cinco linhas carregava uma história que precisava de dez anos para conseguir ser contada.

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Aula de teatro na estação cultural.


Tarde bem animada na antiga estação da Fepasa em Campinas, onde todo o espaço foi devolvido ao publico como área de cultura.



Aulas de dança, sapateado, teatro e artes circenses... para todas as idades, tudo gratuito e incentivado para atrair todas as classes.

Então ja sabe se esta em casa sem fazer nada, vista uma roupa de ginástica e um ténis confortável e corra para cá. Diversão garantida.
Vagner Renato Bellacosa, IBM Champion e especialista em IBM Mainframe
IBM Z17 SYSTEM ONLINE
Sobre o autor

Vagner Renato Bellacosa

IBM Champion 2026 • Especialista em IBM Mainframe

Vagner Renato Bellacosa trabalha com IBM Mainframe desde 1988 , é IBM Champion e especialista em COBOL, CICS, Db2, z/OS e IBM Z. Compartilha experiências profissionais, conhecimento técnico, história da computação e práticas do universo mainframe para aproximar novas gerações das tecnologias que sustentam empresas, bancos e governos ao redor do mundo.

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