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domingo, 15 de fevereiro de 2026

🔥💀 DO CARTÃO PERFURADO AO COFRE NA MONTANHA

 

Bellacosa Mainframe e o mundo secreto do Storage Mainframe cartridges e o cofre na montanha de ferro

🔥💀 DO CARTÃO PERFURADO AO COFRE NA MONTANHA

“Como seus dados COBOL sobreviveram a guerras, ransomware… e ao tempo”


🧨 Introdução (sem mimimi)

Se você escreve COBOL hoje…
existe uma chance enorme de que o dado que você manipula:

  • já esteve em um cartão perfurado
  • passou por uma fita magnética
  • e talvez hoje esteja guardado em um cofre subterrâneo

Sim… isso não é romantização.
Isso é a linha evolutiva real do mainframe.

E no meio dessa história… existe um nome quase lendário:

👉 Iron Mountain


🧱 Capítulo 1 — Cartão perfurado: o “INSERT INTO” de 1930

Antes de existir dataset…
antes de existir VSAM…

👉 Existia isso:

  • Cartões físicos
  • 80 colunas
  • Cada furo = dado

💀 Tradução Bellacosa:

“Seu SELECT era um buraco no papel”


🧠 Curiosidades

  • Um programa COBOL inteiro = caixa de cartões
  • Derrubar a pilha = ABEND físico real
  • Ordenação = literalmente reorganizar papel

⚠️ Problema

  • Lento
  • Frágil
  • Não escalável

👉 Aí veio a revolução…


📼 Capítulo 2 — Tape: o primeiro “Big Data” do mundo

👉 A fita trouxe:

  • 📦 Volume massivo
  • 🔄 Processamento sequencial
  • ⚡ Muito mais velocidade que cartão

💀 Tradução:

“Sai o papel… entra o fluxo contínuo”


🧠 Como isso impactou o COBOL?

👉 Nasce o modelo que você usa até hoje:

  • Arquivo sequencial
  • Batch
  • Processamento em massa

💡 Insight poderoso

👉 Seu COBOL batch moderno…

💀 ainda pensa como fita


📦 Capítulo 3 — Cartridge: o “pendrive” do mainframe

  • Fita aberta → cartridge fechado
  • Mais proteção
  • Mais densidade
  • Automação

📊 Exemplo real

  • LTO-9 → 18 TB (nativo)
  • Compressão → até 45 TB

💀 Tradução:

“Uma fita hoje guarda mais que um datacenter antigo inteiro”


🏔️ Capítulo 4 — Iron Mountain: o cofre dos dados do mundo

👉 Agora entra o nível lendário…

A Iron Mountain:

  • Guarda dados em minas subterrâneas
  • Protegidas contra:
    • fogo
    • guerra
    • desastre
  • Usada por:
    • bancos
    • governos
    • Fortune 500

💀 Tradução Bellacosa:

“Se tudo der errado… seus dados estão dentro de uma montanha”


🚚 Como funciona

  1. Backup em fita
  2. Fita retirada da library
  3. Transporte seguro
  4. Armazenamento em cofre

🔐 Segurança real

👉 Isso cria o famoso:

AIR GAP físico


🧠 Capítulo 5 — Por que fita ainda manda?


⚔️ Disk vs Tape (sem romantismo)

CritérioDiskTape
Velocidade🐢
Custo💸💰
Durabilidade
Segurança⚠️🔐

💀 Verdade dura:

“Disco é rápido… fita é eterna”


🧨 Capítulo 6 — Ransomware não perdoa (mas fita sim)

👉 Se o backup estiver online:

💀 Ele será criptografado junto


👉 Se estiver em fita offline:

✔️ Intocado
✔️ Recuperável
✔️ Seguro


🧠 Capítulo 7 — O que o dev COBOL precisa entender


💡 Você NÃO está só escrevendo código

Você está:

  • Alimentando sistemas de retenção
  • Gerando dados regulatórios
  • Criando histórico corporativo

🎯 Dicas práticas

👉 Quando pensar em arquivos:

  • Sequencial → fita-friendly
  • Batch → tape-driven
  • Grande volume → tape inevitável

👉 Quando pensar em backup:

  • Disk → rápido
  • Tape → seguro

👉 Quando pensar em DR:

💀 “Se não tem fita… não tem garantia”


🧨 Curiosidades que ninguém te conta

  • CERN usa tape para centenas de PB
  • Cloud providers usam tape no backend
  • LTO roadmap chega a 576 TB por fita (futuro)

💀 Conclusão — A verdade que poucos entendem

👉 O mundo mudou
👉 A tecnologia evoluiu

Mas…


💀 A fita nunca morreu


Ela só:

  • Ficou mais densa
  • Mais segura
  • Mais invisível

🎯 Frase final estilo Bellacosa

“Seu COBOL pode rodar no Z17…
mas a memória da empresa ainda descansa em fita — guardada dentro de uma montanha.”

 

domingo, 19 de maio de 2024

IBM FlashSystem : Quando o ransomware entrou no Data Center, apagou os snapshots e descobriu que o disco também sabia investigar

 

Bellacosa Mainframe apresenta o IBM FlashSystem

☕ Um Café no Bellacosa Mainframe

IBM FlashSystem sem Mistérios para Programadores COBOL

Quando o ransomware entrou no Data Center, apagou os snapshots e descobriu que o disco também sabia investigar

O sol se põe lentamente sobre Miami.

Uma câmera imaginária atravessa o estacionamento de um Data Center cercado por palmeiras, geradores a diesel e placas ameaçadoras dizendo:

ACESSO RESTRITO — AMBIENTE DE PRODUÇÃO

No interior do prédio, dezenas de servidores continuam trabalhando. Luzes verdes piscam. Ventiladores giram. Aplicações Java consomem memória como se não houvesse amanhã. Um CICS atende transações bancárias sem reclamar. Um programa COBOL, compilado quando muita gente ainda usava telefone com fio, calcula prestações, impostos e aposentadorias com a serenidade de um monge digital.

Tudo parece normal.

Até que um analista percebe algo estranho.

Milhares de arquivos estão sendo modificados.

A taxa de escrita disparou.

O nível de entropia dos dados aumentou.

Snapshots começaram a desaparecer.

E alguém, usando uma credencial administrativa legítima, acabou de executar comandos que nenhum administrador legítimo deveria executar às três e dezessete da manhã.

O telefone toca.

— Temos um incidente — diz o operador.

O chefe da equipe coloca lentamente os óculos escuros.

Olha para o rack.

Olha para o painel.

E responde:

— Parece que alguém tentou criptografar o caso inteiro.

Entra a música de abertura.

Bem-vindo ao CSI: Miami Data Center, onde os cadáveres são volumes lógicos, as impressões digitais estão nos blocos de I/O e o assassino quase sempre utiliza uma conta de administrador que “ninguém sabia que ainda existia”.

Neste café especial do Bellacosa Mainframe, vamos investigar o IBM FlashSystem, os FlashCore Modules de quinta geração, a detecção de ransomware no hardware, o Safeguarded Copy, o Cyber Vault, a inteligência artificial operacional e as diferenças entre os modelos FlashSystem 5600, 7600 e 9600.

Tudo explicado para o programador COBOL iniciante que talvez nunca tenha administrado uma storage, mas que certamente já gravou um arquivo, atualizou um registro ou descobriu — tarde demais — que o backup não estava tão atualizado quanto todos imaginavam.

Prepare o café.

Isole a cena.

Não toque nos snapshots.


Bellacosa Mainframe e o FlashSystem

1. A vítima: o dado corporativo

Em uma investigação criminal tradicional, existe uma vítima.

No mundo da infraestrutura, a vítima geralmente é o dado.

Pode ser:

  • uma conta bancária;

  • uma folha de pagamento;

  • uma apólice de seguros;

  • um prontuário médico;

  • um cadastro de clientes;

  • um arquivo VSAM;

  • uma tabela Db2;

  • uma imagem de máquina virtual;

  • um volume de Kubernetes;

  • um conjunto de treinamento de inteligência artificial;

  • ou aquele arquivo chamado CLIENTE-FINAL-AGORA-VAI-VERSAO-23.dat.

Durante muito tempo, a missão do storage era relativamente simples:

  1. armazenar o dado;

  2. devolver o dado quando solicitado;

  3. não perder o dado;

  4. fazer isso rapidamente.

Porém, o crime digital evoluiu.

Hoje, o storage não pode ser apenas um armário eletrônico. Ele precisa participar da segurança.

O motivo é simples: ransomware não está interessado apenas em derrubar servidores.

Ele quer destruir a confiança na informação.

Um ataque moderno pode tentar:

  • criptografar os dados de produção;

  • apagar backups acessíveis;

  • remover snapshots;

  • desabilitar replicações;

  • comprometer contas administrativas;

  • modificar políticas de retenção;

  • contaminar cópias históricas;

  • impedir que a empresa saiba qual versão do dado ainda é confiável.

A grande pergunta deixou de ser:

“Temos backup?”

Agora é:

“Temos uma cópia limpa, protegida, identificável e recuperável?”

Essa diferença parece pequena, mas separa um incidente controlável de uma catástrofe operacional.


2. O storage não é apenas um monte de discos

Para o iniciante, uma storage pode parecer apenas um grande conjunto de SSDs.

Algo como:

SERVIDORES
    |
    v
STORAGE
    |
    v
MUITOS DISCOS

Na prática, uma storage corporativa possui controladores, cache, memória, processadores, interfaces de rede, software de virtualização, mecanismos de replicação, compressão, criptografia, monitoramento e gerenciamento de falhas.

Uma arquitetura simplificada pode ser imaginada assim:

APLICAÇÃO COBOL, JAVA, SAP OU BANCO DE DADOS
                    |
                    v
           SISTEMA OPERACIONAL
                    |
                    v
          DRIVER / MULTIPATH / SAN
                    |
                    v
          CONTROLADORES DA STORAGE
                    |
                    v
           MÓDULOS FLASH / SSDs
                    |
                    v
                 DADOS

Cada camada pode proteger, acelerar ou transformar a operação.

O IBM FlashSystem acrescenta uma característica importante: parte da inteligência de proteção é levada para muito perto do ponto em que o dado realmente é gravado.

É aí que entra o FlashCore Module.


3. A primeira evidência: o FlashCore Module não é um SSD comum

Chamar um FlashCore Module de simples SSD seria como chamar um mainframe de “computador grande”.

Tecnicamente, não está completamente errado.

Mas também não explica quase nada.

O FlashCore Module, ou FCM, combina memória flash com lógica especializada para executar determinadas funções diretamente no módulo.

Dependendo da geração e da configuração, isso pode incluir:

  • compressão acelerada;

  • criptografia;

  • correção de erros;

  • gerenciamento de desgaste;

  • telemetria;

  • análise de padrões de I/O;

  • detecção de comportamentos anômalos.

O objetivo é aliviar parte do trabalho que normalmente ficaria concentrado nos controladores ou em camadas superiores de software.

Para um programador COBOL, podemos fazer uma analogia.

Imagine que todas as validações de um arquivo só fossem realizadas muito depois da gravação:

WRITE REGISTRO-CLIENTE.

PERFORM VALIDAR-DADOS-MAIS-TARDE.

Isso cria uma janela perigosa.

O dado já foi alterado.

O erro já entrou.

O sistema só perceberá depois.

Agora imagine uma arquitetura em que o próprio caminho da gravação participa da inspeção:

PERFORM ANALISAR-PADRAO-DO-DADO

IF OPERACAO-SUSPEITA
    PERFORM GERAR-ALERTA
END-IF

WRITE REGISTRO-CLIENTE.

Naturalmente, o hardware real não executa COBOL dessa forma. A comparação serve para mostrar o conceito: aproximar a análise do ponto de gravação.

É como colocar um perito na porta da sala de evidências, não apenas na central de monitoramento do outro lado da cidade.


4. FCM5: a quinta geração entra na cena

A quinta geração dos FlashCore Modules é apresentada pela IBM como uma evolução da análise e da proteção inline.

A palavra importante aqui é inline.

Em um modelo de análise posterior, a operação ocorre primeiro e a inspeção acontece depois:

DADO É GRAVADO
      |
      v
LOG É GERADO
      |
      v
SOFTWARE ANALISA
      |
      v
ALERTA APARECE

Em uma abordagem inline, parte da observação acontece durante o fluxo de I/O:

I/O CHEGA
   |
   v
PADRÃO É OBSERVADO
   |
   v
DADO É GRAVADO
   |
   v
ANOMALIA PODE GERAR ALERTA

Isso não significa que cada bloco recebe um carimbo dizendo “ransomware confirmado”.

Seria ótimo se o crime digital fosse tão educado.

O módulo procura alterações estatísticas e padrões anormais que, combinados, podem indicar atividade maliciosa.

Entre esses sinais estão:

  • mudanças abruptas na compressibilidade;

  • aumento da aleatoriedade dos dados;

  • alteração incomum do padrão de escrita;

  • crescimento repentino do volume de blocos modificados;

  • comportamento incompatível com a rotina histórica da carga.

É investigação por comportamento.

O suspeito não precisa deixar um bilhete dizendo:

“Olá, sou um ransomware. Favor não desligar a máquina.”

O sistema percebe que algo mudou.


5. Entropia: a impressão digital da criptografia

A palavra “entropia” parece pertencer a uma aula em que o professor escreve equações no quadro e metade da turma começa a planejar a fuga.

Mas a ideia básica é acessível.

Entropia, neste contexto, representa o grau de imprevisibilidade ou aleatoriedade dos dados.

Considere este conteúdo:

AAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAA

É altamente previsível.

Comprime muito bem.

Agora veja:

7F9A2C81E4B6630D19AF82C7E520

É menos previsível.

Quando um arquivo é criptografado adequadamente, o resultado tende a parecer muito mais aleatório que o conteúdo original.

Um documento, uma planilha ou um banco de dados possuem estruturas reconhecíveis. Depois da criptografia, essas estruturas ficam escondidas.

Portanto, um aumento brusco na entropia de grandes volumes de dados pode ser um indicador de criptografia em massa.

Mas cuidado: alta entropia não prova, sozinha, a existência de ransomware.

Arquivos já comprimidos, vídeos, imagens, arquivos criptografados legitimamente e alguns bancos de dados também podem apresentar alta entropia.

A investigação precisa considerar o conjunto de evidências:

ALTA ENTROPIA
      +
MUITOS BLOCOS ALTERADOS
      +
PADRÃO INCOMUM DE ESCRITA
      +
MUDANÇA ABRUPTA DE COMPORTAMENTO
      =
POSSÍVEL INCIDENTE

Horatio retiraria os óculos e diria:

— Um bloco aleatório pode ser coincidência. Um milhão deles antes do amanhecer… já é um padrão.


6. Por que detectar rapidamente é tão importante?

Ransomware trabalha com velocidade.

Ele não envia um memorando dizendo:

“Informamos que iniciaremos a criptografia na próxima segunda-feira, às 9h, após o café.”

Quando consegue acesso, tenta causar o maior impacto possível antes que alguém perceba.

Imagine uma organização com centenas de terabytes e milhares de máquinas virtuais.

Se a detecção acontecer após muitas horas, o atacante pode ter:

  • criptografado volumes;

  • apagado snapshots;

  • alterado configurações;

  • comprometido contas;

  • desativado agentes;

  • contaminado cópias acessíveis;

  • iniciado movimentação lateral.

Por isso, reduzir o tempo entre a atividade suspeita e o alerta é valioso.

Entretanto, existe uma distinção fundamental:

detecção não é o mesmo que contenção.

Um alerta rápido não paralisa automaticamente todo o ataque.

A organização ainda precisa de:

  • processos de resposta;

  • integração com ferramentas de segurança;

  • isolamento de hosts;

  • bloqueio de contas;

  • segmentação;

  • playbooks;

  • responsáveis treinados;

  • testes de recuperação.

O hardware pode perceber o cheiro de fumaça.

Mas alguém ainda precisa saber onde está o extintor.


7. O erro clássico: acreditar que snapshot é sinônimo de proteção absoluta

Snapshot é uma tecnologia extremamente útil.

Ele registra um estado lógico dos dados em determinado momento, geralmente sem duplicar imediatamente toda a capacidade.

Em termos simples:

10:00 — ESTADO A
11:00 — ESTADO B
12:00 — ESTADO C

Se algo der errado às 12h15, talvez seja possível retornar ao estado das 12h.

Porém, existe um problema.

Snapshots convencionais são gerenciáveis.

Alguém autorizado pode criá-los.

E alguém autorizado pode removê-los.

O atacante moderno sabe disso.

Se ele comprometer uma credencial com privilégios elevados, pode tentar:

1. LOCALIZAR SNAPSHOTS
2. EXCLUIR SNAPSHOTS
3. DESABILITAR REPLICAÇÕES
4. CRIPTOGRAFAR PRODUÇÃO
5. EXIGIR RESGATE

O administrador, ao chegar pela manhã, encontra a produção criptografada e a prateleira de recuperação vazia.

É o equivalente digital ao criminoso que, antes de cometer o delito, desliga as câmeras e leva o gravador.


8. Safeguarded Copy: isolando a cena do crime

O Safeguarded Copy existe para criar cópias protegidas por políticas, com controles que dificultam sua alteração ou exclusão indevida.

A ideia central é separar a cópia protegida da administração operacional cotidiana.

Pense em três zonas:

[ PRODUÇÃO ]
     |
     v
[ CÓPIA PROTEGIDA ]
     |
     v
[ PROCESSO CONTROLADO DE RECUPERAÇÃO ]

O dado de produção continua atendendo aplicações.

A cópia protegida permanece sob regras específicas de retenção e acesso.

A recuperação não é simplesmente um clique impulsivo executado por qualquer usuário administrativo.

Isso reduz o risco de que uma credencial comprometida destrua simultaneamente a produção e todas as opções de retorno.

Mas precisamos evitar a linguagem mágica.

Nenhuma tecnologia deve ser interpretada como:

“Nem Deus, com senha de administrador, consegue apagar.”

A segurança depende de:

  • configuração correta;

  • políticas de retenção;

  • separação de funções;

  • proteção das credenciais;

  • autenticação forte;

  • controle de acesso;

  • procedimentos documentados;

  • integração com a estratégia de recuperação.

Uma ferramenta poderosa mal configurada pode virar apenas uma tela bonita no console.

No CSI, a evidência só é válida quando a cadeia de custódia foi preservada.

No Data Center, acontece a mesma coisa.


9. Cyber Vault: o laboratório onde os dados são interrogados

Ter uma cópia protegida é excelente.

Mas ainda falta responder:

“Essa cópia está limpa?”

Imagine que o atacante permaneceu silencioso na rede durante semanas.

Ele instalou ferramentas, modificou arquivos e criou persistência.

Depois, a empresa gerou cópias protegidas normalmente.

Agora existem várias cópias.

Algumas podem conter sinais da invasão.

Restaurar uma cópia contaminada pode reintroduzir o problema.

É aqui que entra o conceito de Cyber Vault.

O Cyber Vault é um ambiente controlado para recuperar, montar, examinar e validar dados antes de devolvê-los à produção.

Fluxo conceitual:

CÓPIA PROTEGIDA
       |
       v
AMBIENTE ISOLADO
       |
       v
ANÁLISE TÉCNICA
       |
       v
VALIDAÇÃO
       |
       v
RECUPERAÇÃO CONFIÁVEL

O vault pode participar de testes como:

  • verificação de consistência;

  • análise de malware;

  • inspeção de logs;

  • validação de bancos de dados;

  • teste de inicialização;

  • comparação com padrões históricos;

  • execução de aplicações em ambiente isolado.

É o equivalente ao laboratório forense.

A evidência não volta imediatamente para a rua.

Primeiro, é examinada sob luz fria por alguém usando luvas.


10. Backup, snapshot, cópia protegida e vault não são a mesma coisa

Essa confusão é frequente.

Vamos organizar.

Backup

É uma cópia dos dados criada para recuperação. Pode estar em disco, fita, nuvem ou outro meio.

Snapshot

É um ponto lógico no tempo, normalmente eficiente e rápido, muitas vezes dependente da mesma plataforma de storage.

Cópia protegida

É uma cópia com regras adicionais contra alteração ou exclusão, criada para resistir a ataques e erros administrativos.

Cyber Vault

É um processo ou ambiente isolado para validar e recuperar os dados com segurança.

A arquitetura madura usa camadas:

PRODUÇÃO
   +
SNAPSHOTS OPERACIONAIS
   +
CÓPIAS PROTEGIDAS
   +
BACKUPS EXTERNOS
   +
CÓPIAS OFFLINE OU ISOLADAS
   +
CYBER VAULT
   +
TESTES DE RECUPERAÇÃO

Segurança real raramente depende de uma única solução.

É como um programa COBOL crítico.

Você não confia apenas em um IF.

Você valida entrada, status de arquivo, SQLCODE, retorno de subprograma e condição final.

Ou pelo menos deveria.


11. FlashSystem.ai: o coadministrador que nunca pede férias

Uma storage moderna gera uma quantidade absurda de telemetria.

Ela observa:

  • latência;

  • IOPS;

  • throughput;

  • utilização de cache;

  • ocupação;

  • erros de portas;

  • caminhos;

  • filas;

  • temperatura;

  • compressão;

  • capacidade;

  • saúde dos módulos;

  • desempenho por volume;

  • tendências históricas.

Um administrador humano pode interpretar muitos desses dados.

Mas não consegue observar tudo, o tempo inteiro, em centenas de sistemas.

A proposta do FlashSystem.ai e das funções de IA operacional é transformar telemetria em orientação, recomendação e, em alguns casos, automação.

O fluxo é semelhante a:

COLETAR MÉTRICAS
      |
      v
CORRELACIONAR EVENTOS
      |
      v
IDENTIFICAR ANOMALIAS
      |
      v
SUGERIR OU EXECUTAR AÇÃO
      |
      v
REGISTRAR RESULTADO

Exemplos de valor operacional incluem:

  • identificar tendência de saturação;

  • perceber degradação gradual;

  • correlacionar falhas de caminho;

  • recomendar redistribuição;

  • destacar riscos de capacidade;

  • reduzir tempo gasto em diagnóstico básico.

Mas o termo “Agentic AI” precisa ser lido com maturidade.

Não significa necessariamente que a storage ganhou consciência, escolheu um nome e começou a enviar currículo para vagas de administrador sênior.

Significa que funções de automação podem utilizar contexto, telemetria, recomendações e fluxos orientados por objetivos.

A autonomia real varia conforme o produto, a função, a política e as permissões.

Sempre pergunte:

  • o que o agente apenas recomenda?

  • o que ele pode executar?

  • existe aprovação humana?

  • há auditoria?

  • é possível desfazer?

  • quais credenciais ele utiliza?

  • o que acontece quando o modelo erra?

IA sem governança é apenas um estagiário extremamente rápido com acesso administrativo.


12. Conhecendo os suspeitos: FlashSystem 5600, 7600 e 9600

A imagem apresentada mostra três integrantes da família FlashSystem.

Eles compartilham conceitos e recursos, mas atendem escalas diferentes.

IBM FlashSystem 5600

O FlashSystem 5600 ocupa um espaço compacto e pode ser adequado para:

  • filiais;

  • edge computing;

  • ambientes menores;

  • consolidação departamental;

  • empresas de médio porte;

  • sites secundários;

  • ambientes que precisam de baixa latência em pouco espaço físico.

Seu formato compacto não significa ausência de recursos empresariais.

É como aquele perito silencioso no canto da sala que parece discreto, mas encontra uma fibra de tecido capaz de resolver o caso inteiro.

Ele pode ser usado em projetos nos quais espaço, consumo e densidade importam.

Imagine uma indústria com várias unidades regionais.

Cada unidade executa sistemas locais, máquinas virtuais e coleta de dados de produção.

O 5600 pode cumprir o papel de plataforma compacta, mantendo recursos de proteção e integração corporativa.


IBM FlashSystem 7600

O 7600 ocupa uma posição intermediária, voltada a cargas corporativas amplas.

Pode atender:

  • ambientes VMware;

  • bancos de dados;

  • sistemas ERP;

  • OpenShift;

  • consolidação de servidores;

  • aplicações de missão crítica;

  • cargas mistas;

  • nuvens privadas.

É o investigador veterano.

Não precisa derrubar a porta.

Ele já sabe onde procurar.

Em muitas organizações, o modelo intermediário representa o equilíbrio entre capacidade, desempenho, expansão e custo.

Um banco regional, por exemplo, poderia consolidar:

  • máquinas virtuais;

  • Db2 distribuído;

  • SQL Server;

  • aplicações Java;

  • servidores de arquivos;

  • ambientes de homologação.

Tudo isso mantendo políticas de proteção e recuperação.


IBM FlashSystem 9600

O FlashSystem 9600 é direcionado a grandes ambientes empresariais e cargas intensivas.

Entre os cenários possíveis:

  • grandes bancos;

  • telecomunicações;

  • governo;

  • inteligência artificial;

  • análise de dados;

  • SAP;

  • bancos de dados de grande porte;

  • consolidação massiva;

  • ambientes com altíssimos requisitos de disponibilidade.

É o chefe da unidade.

Entra na sala, observa seis petabytes, milhões de IOPS e uma equipe em pânico.

Depois pergunta:

— Quem alterou a política de retenção?

O 9600 é projetado para ambientes nos quais desempenho, escalabilidade e continuidade são requisitos centrais, não acessórios.

A presença de processadores potentes nos controladores ajuda a sustentar serviços como virtualização, compressão, replicação, gerenciamento e funções avançadas de dados.


13. IOPS: o número que todo vendedor adora e todo arquiteto deve interrogar

IOPS significa Input/Output Operations Per Second.

Ou operações de entrada e saída por segundo.

Quanto maior o número, mais operações o sistema pode realizar em determinada condição.

Mas IOPS isolado não conta a história inteira.

O resultado depende de:

  • tamanho do bloco;

  • proporção de leitura e escrita;

  • acesso aleatório ou sequencial;

  • latência;

  • cache;

  • compressibilidade;

  • número de controladores;

  • configuração;

  • protocolo;

  • quantidade de hosts;

  • perfil da aplicação.

Uma storage pode alcançar milhões de IOPS em um teste específico e entregar muito menos em uma carga real com blocos grandes, escrita intensa e replicação síncrona.

É como dizer:

“Este programa COBOL processa dez milhões de registros.”

Ótimo.

Mas em quanto tempo?

Com qual arquivo?

Usando qual índice?

Executando quais cálculos?

Com quantos acessos Db2?

Sob qual concorrência?

A pergunta correta não é:

“Quantos IOPS aparecem no folheto?”

A pergunta correta é:

“Qual desempenho teremos com a nossa carga, nossa latência, nossa proteção e nosso padrão de crescimento?”

CSI não condena alguém apenas porque ele estava no bairro.

Infraestrutura não deveria comprar storage apenas porque o gráfico do fornecedor tinha a barra mais comprida.


14. A provocação contra Pure, Dell, NetApp e VAST

O texto original utiliza uma estratégia comum em marketing competitivo: simplificar o rival e destacar o diferencial próprio.

Pure Storage, Dell, NetApp e VAST não são fabricantes amadores esperando o primeiro ransomware da história.

Todos possuem mecanismos de proteção, snapshots, replicação, análise, integração e recursos de resiliência.

A diferença está na arquitetura, implementação, profundidade, integração e operação.

Pure Storage

A Pure é conhecida por simplicidade operacional, desempenho e experiência de gerenciamento.

Seus mecanismos de proteção não podem ser resumidos como “um software lento que avisa tarde demais”.

Essa caricatura é boa para uma postagem provocativa, mas ruim para uma análise técnica.

A pergunta correta é:

  • onde ocorre a detecção?

  • com qual granularidade?

  • qual o tempo típico?

  • que ações são possíveis?

  • como snapshots são protegidos?

  • como funciona a recuperação?


Dell

A Dell possui uma ampla família de produtos, incluindo arquiteturas voltadas a diferentes níveis empresariais.

Também oferece tecnologias de cyber recovery, snapshots protegidos, replicação e integração com ecossistemas de backup.

Dizer que a Dell depende apenas de “sorte em software” seria injusto.

Porém, a IBM pode destacar como diferencial a inteligência embutida nos módulos FlashCore e a integração com sua plataforma.


NetApp

A NetApp possui longa experiência com snapshots, proteção de dados, replicação e políticas de imutabilidade.

O risco de um administrador comprometido é real em qualquer plataforma.

Por isso, a discussão deve envolver:

  • separação de funções;

  • autenticação multifator;

  • retenção;

  • WORM;

  • contas de emergência;

  • auditoria;

  • proteção de políticas;

  • isolamento.

O problema não é apenas “o snapshot da marca X pode ser apagado”.

O problema é:

“Quem pode apagar, em quais condições, com qual auditoria e com qual possibilidade de recuperação?”


VAST Data

A VAST ganhou espaço em grandes ambientes de dados, inteligência artificial e análise em escala.

A crítica sobre necessidade de administração manual deve ser verificada em cada cenário.

Cargas de IA realmente podem exigir planejamento cuidadoso de desempenho, rede, capacidade e recuperação.

Mas isso vale para praticamente qualquer infraestrutura de grande porte.

Não existe storage mágico.

Existe arquitetura bem dimensionada ou orçamento queimando lentamente diante de uma apresentação em PowerPoint.


15. Passo a passo: como pensar uma estratégia de cyber resilience

Agora vamos sair da cena do crime e montar uma defesa.

Passo 1 — Classifique os dados

Descubra o que é realmente crítico.

Pergunte:

  • quais sistemas não podem parar?

  • quais dados possuem obrigação regulatória?

  • quais aplicações precisam voltar primeiro?

  • qual perda de dados é aceitável?

  • quanto tempo de interrupção é tolerável?

Isso leva aos conceitos de RPO e RTO.

RPO

Quanto dado a empresa aceita perder.

Exemplo:

RPO = 15 minutos

Significa que, em uma recuperação, pode haver perda de até 15 minutos de alterações.

RTO

Quanto tempo a empresa aceita ficar indisponível.

Exemplo:

RTO = 2 horas

O sistema precisa retornar em até duas horas.


Passo 2 — Mapeie todas as cópias

Liste:

  • snapshots;

  • backups;

  • replicações;

  • fitas;

  • nuvem;

  • cópias externas;

  • cópias isoladas;

  • ambientes de vault.

Muitas empresas descobrem durante a crise que “backup” era apenas um snapshot no mesmo equipamento.

Isso não é diversidade.

É colocar a chave reserva dentro do carro trancado.


Passo 3 — Proteja as credenciais

Implemente:

  • autenticação multifator;

  • contas nominativas;

  • menor privilégio;

  • segregação de funções;

  • rotação de senhas;

  • cofres de credenciais;

  • auditoria;

  • contas emergenciais controladas.

A melhor cópia imutável do mundo pode ser enfraquecida por uma política administrativa desastrosa.


Passo 4 — Configure retenção protegida

Defina:

  • frequência;

  • duração;

  • quantidade de pontos;

  • políticas por aplicação;

  • responsáveis;

  • processo de restauração.

Um sistema financeiro pode exigir cópias mais frequentes que um repositório de documentos históricos.


Passo 5 — Crie um ambiente de validação

Não restaure dados desconhecidos diretamente em produção.

Utilize um ambiente isolado para:

  • montar volumes;

  • validar bancos;

  • executar antivírus;

  • inspecionar logs;

  • testar aplicações;

  • verificar integridade.


Passo 6 — Integre os alertas

Um alerta preso no console da storage não ajuda muito se ninguém olha o console.

Integre com:

  • SIEM;

  • central de operações;

  • sistemas de chamados;

  • e-mail corporativo;

  • mensageria;

  • automação de resposta.


Passo 7 — Teste a recuperação

Executar backup não prova capacidade de recuperação.

O único teste real é restaurar.

Crie exercícios periódicos:

SELECIONAR CÓPIA
      |
      v
RESTAURAR
      |
      v
VALIDAR BANCO
      |
      v
SUBIR APLICAÇÃO
      |
      v
MEDIR TEMPO
      |
      v
DOCUMENTAR PROBLEMAS

Backup não testado é fé.

E fé, embora respeitável em muitos contextos, não substitui evidência em uma sala de crise.


16. O que o programador COBOL precisa saber

Você talvez esteja pensando:

“Mas eu programo COBOL. Quem cuida da storage é outra equipe.”

Essa separação é perigosa.

O programador precisa entender pelo menos:

  • onde seus arquivos são armazenados;

  • qual aplicação depende de qual volume;

  • como funciona o backup;

  • se existe consistência transacional;

  • como Db2, CICS ou VSAM serão recuperados;

  • qual é a ordem correta de inicialização;

  • como validar os dados restaurados;

  • quais arquivos temporários não precisam ser protegidos;

  • quais logs são indispensáveis.

Recuperar bytes não é o mesmo que recuperar uma aplicação.

Imagine restaurar:

  • o VSAM das contas às 10h;

  • o log de transações às 11h;

  • a tabela Db2 às 9h;

  • o arquivo de controle às 12h.

Cada componente pode estar íntegro isoladamente.

Mas o sistema completo pode ficar inconsistente.

É como reunir quatro depoimentos verdadeiros sobre horários diferentes e tentar construir um único álibi.

Por isso, a recuperação deve considerar dependência e consistência.


17. Easter eggs forenses do Data Center

Toda investigação Bellacosa merece algumas curiosidades escondidas.

Easter egg 1 — O arquivo que nunca deveria ser apagado

Em muitos ambientes existe um arquivo chamado algo semelhante a:

NAO-APAGAR

Naturalmente, ele é o primeiro a ser apagado.

O nome do arquivo não é um mecanismo de segurança.


Easter egg 2 — A senha do storage

Se a senha administrativa contém o nome da empresa e o ano atual, o criminoso não precisará de inteligência artificial.

Precisará apenas de calendário.


Easter egg 3 — O backup bem-sucedido

Muitos relatórios mostram:

BACKUP COMPLETED SUCCESSFULLY

Isso significa apenas que o processo acredita ter copiado alguma coisa.

Não significa que:

  • a cópia está íntegra;

  • contém todos os dados;

  • pode ser restaurada;

  • a aplicação iniciará;

  • a senha do backup ainda é conhecida.


Easter egg 4 — O volume TEMP

Algum desenvolvedor grava dados críticos em um volume chamado TEMP.

Isso é uma lei não documentada da computação.


Easter egg 5 — O administrador aposentado

A conta de um administrador que saiu da empresa em 2019 continua ativa.

Ela possui acesso total.

A senha nunca expirou.

Quando o incidente acontece, todos perguntam:

— Quem é Carlos?

Ninguém sabe.

Carlos, entretanto, ainda pode apagar a produção.


18. A verdade final sobre “segurança no silício”

Colocar inteligência no hardware é uma vantagem arquitetural relevante.

Permite observar operações em um ponto extremamente próximo dos dados.

Pode reduzir latência de detecção.

Pode fornecer telemetria difícil de obter em outras camadas.

Mas não substitui segurança completa.

O ataque pode começar em:

  • phishing;

  • Active Directory;

  • credenciais vazadas;

  • VPN;

  • aplicação;

  • hipervisor;

  • endpoint;

  • fornecedor terceirizado;

  • script administrativo;

  • pipeline DevOps.

O FlashCore Module não impedirá um usuário autorizado de enviar voluntariamente dados sigilosos para um criminoso.

Também não corrigirá:

  • ausência de MFA;

  • rede plana;

  • backup mal configurado;

  • falta de documentação;

  • equipe sem treinamento;

  • sistemas abandonados;

  • patches atrasados;

  • processos inexistentes.

Segurança em camadas continua indispensável:

USUÁRIO
  |
IDENTIDADE
  |
REDE
  |
SERVIDOR
  |
APLICAÇÃO
  |
BANCO DE DADOS
  |
STORAGE
  |
BACKUP
  |
CYBER VAULT

Cada camada ajuda a compensar a falha de outra.


Conclusão: a evidência estava nos blocos

Ao final do episódio, o ransomware foi detectado.

Os hosts comprometidos foram isolados.

As credenciais foram bloqueadas.

Uma cópia protegida foi levada ao Cyber Vault.

Os bancos de dados foram validados.

As aplicações retornaram.

A diretoria convocou uma reunião para descobrir por que uma conta genérica ainda possuía acesso administrativo.

A equipe de segurança apresentou um relatório de cento e oitenta páginas.

A gerência pediu um resumo em um slide.

O programador COBOL tomou o último gole de café e percebeu que o storage moderno deixou de ser apenas o lugar onde os dados dormem.

Ele agora observa.

Compara.

Registra.

Protege.

E, em alguns casos, ajuda a descobrir que o comportamento dos dados mudou antes que o restante da organização perceba a invasão.

O IBM FlashSystem combina controladores, FlashCore Modules, telemetria, recursos de proteção, Safeguarded Copy, Cyber Vault e automação operacional para construir uma estratégia de resiliência.

Os modelos 5600, 7600 e 9600 atendem escalas diferentes, desde ambientes compactos até grandes infraestruturas empresariais.

O diferencial mais interessante não está apenas nos milhões de IOPS, na capacidade ou no número de núcleos.

Está na ideia de colocar parte da investigação perto do próprio dado.

Porque, quando a casa digital pega fogo, não basta saber que existe fumaça.

É preciso descobrir:

  • onde começou;

  • quanto foi atingido;

  • quais evidências sobreviveram;

  • qual cópia ainda é confiável;

  • e quanto tempo a empresa levará para voltar à produção.

O chefe da perícia observa o rack pela última vez.

Coloca os óculos escuros.

E sentencia:

— O criminoso achou que estava apagando o passado…

Pausa dramática.

— Mas o passado estava salvaguardado.

Entra o grito da abertura.

E, em algum lugar do Data Center, um programa COBOL continua processando o fechamento noturno como se absolutamente nada tivesse acontecido.


quarta-feira, 4 de janeiro de 2023

Capítulo I — Vocabulário e Fundamentos da Cibersegurança

 


☕ Um Café no Bellacosa Mainframe

Capítulo I — Vocabulário e Fundamentos da Cibersegurança

Ou: o Agente 86 recebeu a missão de proteger o datacenter, entrou pela porta blindada usando o telefone-sapato — e descobriu que Igor havia publicado a senha do RACF em Base64 porque “agora ninguém consegue ler”



Prólogo — A porta secreta que não era tão secreta

— 86, temos uma emergência — disse o Chefe, fechando cuidadosamente as persianas do escritório.

— A KAOS invadiu o datacenter?

— Pior. Igor fez um curso de quinze páginas sobre cibersegurança e declarou o ambiente completamente protegido.

— Isso parece ótimo, Chefe.

— Ele instalou um firewall, colocou a senha em Base64 e desativou os logs para que os atacantes não soubessem o que estávamos fazendo.

— Ah. Nesse caso, estamos mortos.

Para quem começa em COBOL, cibersegurança às vezes parece um continente descoberto recentemente: cheio de siglas, especialistas vestidos de preto e diagramas onde uma caveira atravessa uma nuvem até alcançar um servidor. Mas o programador mainframe já vive dentro desse assunto há décadas, mesmo quando ninguém usava os nomes atuais.

Quando você protege um dataset com RACF, verifica um return code, impede que um programa atualize uma conta sem autorização, registra uma operação no SMF, faz COMMIT ou ROLLBACK, separa desenvolvimento de produção e limita o acesso de uma transação CICS, você está praticando segurança.

O problema começa quando confundimos ferramentas com segurança. Firewall não é segurança completa. Criptografia não é segurança completa. MFA não é segurança completa. Antivírus, WAF, SIEM, RACF e auditoria são componentes de um sistema maior.

Segurança é a capacidade de conhecer o que precisa ser protegido, reduzir a possibilidade de dano, detectar quando algo saiu do esperado, responder com disciplina e restaurar o serviço sem transformar o incidente num festival de improvisos.

Pegue seu café. O Agente 86 já está descendo para a sala de controle — infelizmente pelo elevador errado.



1. Cibersegurança não é apenas impedir hackers

Uma definição introdutória diz que cibersegurança é a prática de proteger sistemas, redes, programas e dados contra ataques, danos ou acessos não autorizados. Está correta, mas descreve apenas a fachada do prédio.

Na vida real, cibersegurança envolve pessoas, processos, tecnologia e decisões de negócio. Inclui:

  • descobrir quais ativos existem;

  • compreender quais deles são críticos;

  • identificar ameaças e vulnerabilidades;

  • administrar identidades e privilégios;

  • desenvolver software seguro;

  • monitorar o ambiente;

  • responder a incidentes;

  • recuperar dados e serviços;

  • atender leis e contratos;

  • preservar evidências;

  • aprender com cada falha.

O NIST Cybersecurity Framework 2.0 organiza essa jornada em seis funções: Governar, Identificar, Proteger, Detectar, Responder e Recuperar.

Repare no verbo “Governar”. Antes de comprar uma ferramenta, alguém precisa definir responsabilidades, apetite de risco, prioridades, recursos e critérios de decisão. Se um scanner encontra vinte mil vulnerabilidades e ninguém sabe quais sistemas processam folha de pagamento, cartão ou PIX, temos dados, mas não temos governo.

No IBM Z, isso pode ser traduzido assim:

  • Governar: definir proprietários, políticas, segregação de funções e risco aceitável.

  • Identificar: inventariar LPARs, aplicações, started tasks, usuários, datasets, filas MQ, APIs, certificados e dependências.

  • Proteger: usar RACF, criptografia, hardening, MFA, menor privilégio e programação segura.

  • Detectar: coletar SMF, logs de CICS, Db2, z/OSMF, USS, rede e ferramentas de segurança.

  • Responder: bloquear credenciais, conter o incidente, preservar evidências e comunicar responsáveis.

  • Recuperar: restaurar dados confiáveis, validar integridade e retomar os serviços na ordem correta.

As funções não formam uma fila de batch na qual uma só começa quando a anterior termina. Governar, identificar, proteger e detectar são atividades contínuas; resposta e recuperação precisam estar prontas antes do incidente.

Curiosidade de corredor: o melhor plano de resposta não é aquele que está num PDF de 180 páginas. É aquele que a equipe consegue encontrar e executar enquanto o telefone toca, o diretor pergunta quando o sistema volta e o Agente 86 está preso dentro da cabine telefônica.




2. A tríade CIA — o triângulo que sustenta o castelo

O primeiro mapa mental da segurança é a tríade CIA:

  • Confidentiality — Confidencialidade;

  • Integrity — Integridade;

  • Availability — Disponibilidade.

Não confunda CIA com a agência americana. O Agente 86 já confundiu e passou quarenta minutos tentando apresentar credenciais ao triângulo.

2.1 Confidencialidade

Confidencialidade significa que a informação só pode ser acessada por pessoas, sistemas ou processos autorizados.

Exemplos:

  • um cliente vê apenas suas próprias contas;

  • um operador acessa os comandos necessários, mas não toda a administração do sistema;

  • uma aplicação CICS lê somente os recursos indispensáveis;

  • uma cópia de produção usada em testes tem dados mascarados;

  • backups, dumps e logs recebem proteção equivalente à informação original.

Criptografia ajuda a preservar confidencialidade, mas não resolve tudo. Um banco de dados perfeitamente criptografado pode ser exposto por uma aplicação autenticada que execute SELECT * FROM CLIENTES e entregue o resultado ao usuário errado.

Confidencialidade depende também de autorização, classificação, minimização, mascaramento, segregação, descarte seguro e proteção das chaves.

2.2 Integridade

Integridade significa preservar correção, completude, consistência e origem confiável.

É comum imaginar um invasor alterando saldos, mas a integridade também pode ser perdida por:

  • erro de programação;

  • campo truncado;

  • processamento duplicado;

  • mensagem MQ consumida duas vezes;

  • restauração de backup antigo;

  • atualização parcial;

  • regra de negócio incorreta;

  • falha de sincronização.

Considere este trecho didático:

COMPUTE WS-NOVO-SALDO =
        WS-SALDO-ATUAL - WS-VALOR-TRANSFERENCIA

Se WS-VALOR-TRANSFERENCIA aceitar valor negativo, subtrair -100 adicionará 100 ao saldo. O programa compilou. O RACF autorizou. O banco estava disponível. Mesmo assim, a integridade foi destruída porque a regra de domínio não foi validada.

Integridade não significa apenas “o arquivo não mudou”. Significa que as mudanças foram corretas, completas, autorizadas e rastreáveis.

2.3 Disponibilidade

Disponibilidade é a capacidade de acessar informação e serviços quando a missão exige.

Não basta a tela responder ao PING. Se uma autorização de cartão leva três minutos, o serviço está tecnicamente vivo e operacionalmente morto.

Disponibilidade envolve:

  • redundância;

  • capacidade;

  • proteção contra DDoS;

  • manutenção;

  • monitoração;

  • backup;

  • recuperação de desastre;

  • tolerância a falhas;

  • operação degradada segura.

Duas siglas são fundamentais:

  • RTO: tempo máximo aceitável para restaurar o serviço;

  • RPO: quantidade máxima aceitável de dados perdidos, normalmente expressa em tempo.

Se o RTO é duas horas, não adianta descobrir durante o desastre que restaurar o ambiente exige nove. Se o RPO é zero, a arquitetura precisa tratar replicação e consistência de forma muito diferente daquela que admite perder uma hora.

2.4 O que existe além da CIA?

A tríade é a fundação, não o edifício inteiro. Também precisamos considerar:

  • autenticidade;

  • responsabilização;

  • rastreabilidade;

  • privacidade;

  • não repúdio;

  • resiliência;

  • segurança física;

  • segurança humana.

Uma assinatura digital pode ajudar a demonstrar origem e integridade, mas o não repúdio depende também de identidade verificada, custódia da chave, timestamp, auditoria e processo jurídico. Igor assinar um arquivo com uma chave privada encontrada num diretório público não cria prova celestial de autoria.



3. Ativo, ameaça, vulnerabilidade, exposição e risco

Essas palavras são frequentemente misturadas até virarem uma sopa de siglas. Vamos separá-las.

Ativo

É algo que possui valor: dinheiro, informação, sistema, reputação, credencial, certificado, serviço, conhecimento ou capacidade operacional.

Um job crítico, uma chave criptográfica e a confiança do cliente são ativos, embora não tenham a mesma forma.

Ameaça

É uma circunstância capaz de causar dano.

Pode ser:

  • criminoso;

  • funcionário mal-intencionado;

  • usuário enganado;

  • incêndio;

  • falha elétrica;

  • erro humano;

  • fornecedor comprometido;

  • ransomware;

  • bug destrutivo.

Ameaça não é sinônimo de hacker. Uma enchente não possui endereço IP e ainda assim pode derrubar o datacenter.

Vulnerabilidade

É uma fraqueza que pode ser explorada ou acionada:

  • SQL construído por concatenação;

  • senha reutilizada;

  • software desatualizado;

  • conta órfã;

  • porta administrativa exposta;

  • excesso de privilégios;

  • ausência de segregação de funções;

  • procedimento de recuperação nunca testado.

Exposição

É a condição que coloca o ativo ao alcance da ameaça. Um servidor vulnerável desligado e isolado possui vulnerabilidade, mas exposição pequena. O mesmo servidor publicado na Internet possui outro nível de risco.

Controle

É uma medida que reduz probabilidade ou impacto:

  • MFA;

  • firewall;

  • validação;

  • revisão de código;

  • limite transacional;

  • segmentação;

  • monitoração;

  • backup imutável.

Risco

Uma fórmula didática é:

Risco ≈ Probabilidade × Impacto

Mas risco não é uma multiplicação divina capaz de produzir a verdade com duas casas decimais. Precisamos avaliar valor do ativo, exposição, capacidade do adversário, controles existentes, detectabilidade, impacto operacional, jurídico e reputacional.

Uma vulnerabilidade CVSS 9.8 numa biblioteca não é automaticamente o maior risco da empresa. Pergunte:

  1. O componente vulnerável é realmente utilizado?

  2. Está exposto?

  3. Existe exploração conhecida?

  4. A exploração exige autenticação?

  5. Com qual privilégio o processo roda?

  6. Que dados podem ser alcançados?

  7. Existem controles compensatórios?

  8. Qual seria o impacto para o negócio?

Dica do Agente 86: nunca permita que um número substitua a investigação. O placar mostra onde olhar; não conta sozinho toda a história.



4. Malware — o zoológico dentro do telefone-sapato

Malware é software criado ou utilizado para executar ações maliciosas. As categorias ajudam a estudar, mas uma única amostra pode possuir várias capacidades.

Vírus

Anexa-se a arquivo ou programa e normalmente depende da execução para se espalhar. É o passageiro clandestino.

Worm

Propaga-se automaticamente por redes ou serviços. Se o vírus pede carona, o worm possui pernas e conhece os horários dos trens.

Trojan

Parece legítimo, mas carrega função maliciosa. “Trojan” descreve principalmente o disfarce ou forma de entrada, não todas as ações posteriores.

Ransomware

Bloqueia, criptografa ou destrói acesso e exige pagamento. Operações modernas podem combinar roubo de dados, ameaça de publicação, destruição de backup e pressão sobre clientes.

Restaurar o backup pode recuperar a disponibilidade, mas não devolve a confidencialidade dos dados já roubados.

Spyware e keylogger

Monitoram comportamento e coletam dados. Um keylogger pode capturar senhas, códigos, conversas e dados financeiros.

Rootkit

Oculta presença e ajuda a preservar acesso privilegiado. Atua na persistência e evasão.

Botnet

Botnet não é exatamente uma espécie isolada de malware; é uma rede de dispositivos comprometidos sob comando. Pode ser usada para DDoS, spam, fraude, mineração ou distribuição de novas cargas.

Insider threat

Também não é malware. Pode ser o funcionário malicioso, negligente, coagido, enganado, o ex-funcionário ainda habilitado ou uma conta legítima tomada por criminosos.

No mainframe, o invasor mais perigoso pode não precisar quebrar o RACF. Ele pode utilizar uma identidade autorizada para executar uma finalidade não autorizada.


5. Engenharia social — a vulnerabilidade usa crachá

Phishing não explora apenas ignorância. Explora características humanas normais:

  • autoridade;

  • urgência;

  • medo;

  • curiosidade;

  • escassez;

  • desejo de ajudar;

  • fadiga;

  • hábito.

As principais formas incluem phishing genérico, spear phishing direcionado, whaling contra executivos, smishing por SMS, vishing por voz, pretexting com história falsa, baiting por isca e quid pro quo por troca de favores.

Exemplo:

“Aqui é o suporte antifraude. Recebemos uma tentativa suspeita. Informe o código que acabou de chegar para bloquearmos a operação.”

O código é verdadeiro. O contexto é falso.

Treinamento é necessário, mas não pode ser a única barreira. O sistema deve supor que alguém eventualmente clicará. Use:

  • MFA resistente a phishing;

  • aprovação dupla;

  • limites transacionais;

  • filtragem de mensagens;

  • privilégio mínimo;

  • detecção comportamental;

  • confirmação fora de banda;

  • canal simples para denúncia.

Quando a organização culpa exclusivamente o usuário, ela transforma “defesa em profundidade” em “culpa em profundidade”.


6. O ataque não segue um fluxograma obediente

O modelo introdutório apresenta reconhecimento, varredura, exploração, manutenção de acesso e impacto. É útil, mas ataques reais voltam etapas, mudam de rota e frequentemente usam credenciais legítimas.

Uma campanha pode incluir:

  1. pesquisa sobre funcionários e fornecedores;

  2. criação de domínio parecido;

  3. phishing direcionado;

  4. roubo de sessão;

  5. acesso inicial;

  6. descoberta do ambiente;

  7. roubo de credenciais;

  8. escalada de privilégio;

  9. persistência;

  10. movimento lateral;

  11. coleta;

  12. exfiltração;

  13. impacto.

O ransomware que aparece no final pode ser apenas a sirene. O roubo silencioso aconteceu semanas antes.

Easter egg para os antigos: no Agente 86, as portas automáticas fechavam atrás do herói criando a ilusão de segurança perfeita. Na cibersegurança, isso se chama perímetro. O problema é descobrir quem já estava dentro antes de a última porta fechar.


7. Segurança de rede — a DMZ não é uma zona mágica

O desenho clássico é:

Internet → firewall → DMZ → firewall interno → aplicação → banco

É uma boa introdução à defesa em profundidade, mas uma arquitetura moderna pode conter CDN, proteção DDoS, WAF, API gateway, balanceador, serviços, filas, identidade, armazenamento, SIEM e serviços em nuvem.

Firewall

Controla fluxos conforme regras, mas não entende necessariamente fraude ou regra de negócio. Uma porta 443 permitida pode transportar um ataque perfeitamente protegido por TLS.

O cadeado garante que a conversa foi criptografada; não garante que um dos participantes seja honesto.

IDS e IPS

  • IDS detecta e alerta.

  • IPS pode intervir e bloquear.

Na prática, ferramentas podem combinar funções. Mais importante: alerta sem investigação é apenas uma mensagem de socorro guardada para auditoria.

Proxy, reverse proxy, WAF e gateway

“Proxy” é uma família:

  • forward proxy representa clientes;

  • reverse proxy representa servidores;

  • WAF analisa tráfego de aplicação web;

  • API gateway autentica, limita e roteia chamadas.

Nenhum deles corrige automaticamente código inseguro.

VPN

VPN protege o canal, não purifica o endpoint. Um notebook comprometido pode transformar a VPN numa ponte criptografada para o invasor.

Segmentação

Segmentação reduz movimento lateral e raio de explosão. VLAN sem política aplicada e monitorada é apenas organização de rede.

Pergunte a cada fluxo:

  • quem chama?

  • usando qual identidade?

  • por qual protocolo?

  • para qual finalidade?

  • com qual privilégio?

  • como será auditado?

  • o que acontece quando falha?


8. Identificação, autenticação, autorização e auditoria

Essas quatro etapas precisam ser separadas.

Identificação

“Sou o usuário MAXWELL86.”

Autenticação

“Consigo provar que sou MAXWELL86.”

Autorização

“MAXWELL86 pode executar esta ação neste recurso?”

Accountability

“Conseguimos reconstruir quem fez o quê, quando, de onde e com qual resultado?”

No RACF:

  • o USERID declara a identidade;

  • senha, certificado, PassTicket ou MFA ajudam a autenticar;

  • perfis, grupos e níveis de acesso determinam autorização;

  • SMF e outros registros fornecem evidências.

MFA

Os fatores clássicos são:

  • algo que você sabe;

  • algo que você possui;

  • algo que você é.

Senha mais PIN não é MFA verdadeiro: ambos são conhecimento. Senha mais pergunta secreta também não.

Códigos digitáveis acrescentam proteção, mas podem ser capturados por phishing. Para acessos sensíveis, mecanismos criptográficos resistentes a phishing são preferíveis.

Senhas

A velha receita “oito caracteres, maiúscula, número, símbolo e troca a cada 30 dias” produziu monstruosidades previsíveis como Agosto@2026!.

As diretrizes modernas favorecem:

  • comprimento;

  • blocklist de senhas comuns ou vazadas;

  • gerenciador de senhas;

  • ausência de trocas periódicas sem suspeita de comprometimento;

  • MFA;

  • proteção contra tentativas automatizadas.

Senhas não devem ser armazenadas em texto puro nem em SHA-256 simples. Aplicações usam funções próprias para derivação de senha, como Argon2id, com salt e parâmetros adequados.

Menor privilégio

Cada identidade recebe somente o necessário, durante o período necessário.

“Funciona com SPECIAL” não é solução; é confissão.


9. Criptografia, hashing e encoding — três ferramentas diferentes

Igor colocou a senha em Base64 e declarou:

— Pronto. Está criptografada.

O Chefe olhou para o Agente 86.

— Você quer contar ou eu conto?

Encoding

Encoding muda a representação para armazenamento ou transmissão. Base64, ASCII e UTF-8 não oferecem sigilo.

senha123 → c2VuaGExMjM=

Qualquer pessoa pode reverter essa representação.

Hashing

Hash transforma uma entrada em saída de tamanho definido e não utiliza chave. Serve para verificações de integridade, identificação de conteúdo e construções criptográficas.

Não existe operação de “descriptografar o hash”, mas entradas fracas podem ser descobertas por tentativa e comparação. Por isso, senha não deve ser guardada com hash rápido simples.

MD5 e SHA-1 não são escolhas adequadas para novas proteções criptográficas. SHA-256 e SHA-3 pertencem a famílias modernas, mas o algoritmo correto depende do uso.

Criptografia simétrica

Usa segredo compartilhado e é eficiente para grandes volumes. AES é a referência moderna, normalmente dentro de um modo autenticado adequado.

Criptografia assimétrica

Usa par de chaves pública e privada. É aplicada em assinatura, autenticação e estabelecimento de chaves.

Sistemas reais geralmente são híbridos:

  1. mecanismo assimétrico estabelece um segredo de sessão;

  2. mecanismo simétrico protege o volume de dados.

DES, 3DES e Blowfish aparecem em materiais antigos ao lado de AES, como se fossem opções equivalentes. Não são. DES está quebrado, 3DES é legado e Blowfish possui limitações para novos projetos.

Gestão de chaves

A criptografia é tão forte quanto a administração das chaves:

  • geração;

  • armazenamento;

  • distribuição;

  • rotação;

  • segregação;

  • revogação;

  • destruição;

  • recuperação controlada.

Uma chave AES gravada no fonte COBOL é apenas uma senha com autoestima elevada.

Assinatura digital

Ajuda a verificar origem e integridade, mas não fornece confidencialidade automaticamente. E não deve ser reduzida à frase “criptografar com a chave privada”; esquemas de assinatura possuem construções específicas.

Curiosidade: a migração pós-quântica já começou. Padrões como ML-KEM, ML-DSA e SLH-DSA existem para enfrentar futuros adversários com capacidade quântica. O trabalho atual não é apertar um botão, mas inventariar algoritmos, certificados, protocolos e dependências para construir agilidade criptográfica.


10. Segurança web — o navegador também executa o inimigo

Uma aplicação web pode ser atacada em qualquer camada: navegador, web server, aplicação, API, identidade, dependência, banco, pipeline ou configuração.

SQL Injection

O erro clássico é misturar código e dados:

String sql = "SELECT * FROM USERS WHERE USERNAME = '" + user + "'";

Uma entrada maliciosa altera a estrutura do comando. A defesa principal é consulta parametrizada.

Em COBOL com Db2, SQL estático com host variables separa naturalmente valores do comando:

EXEC SQL
   SELECT NOME
     INTO :WS-NOME
     FROM CLIENTES
    WHERE CPF = :WS-CPF
END-EXEC

Ainda precisamos validar tamanho, formato, domínio, autorização e tratamento de erro. E SQL dinâmico concatenado pode recriar a vulnerabilidade.

XSS

Cross-Site Scripting ocorre quando dados do atacante são interpretados como código no navegador.

A proteção principal é encoding contextual da saída. O tratamento muda conforme o destino: HTML, atributo, JavaScript, CSS ou URL. Content Security Policy é uma segunda camada, não cura universal.

CSRF

Cross-Site Request Forgery força o navegador de um usuário autenticado a enviar uma ação não desejada.

Defesas incluem:

  • token anti-CSRF;

  • cookies SameSite;

  • verificação de origem;

  • reautenticação em operações críticas;

  • não usar GET para alterar estado.

Controle de acesso quebrado

Se o cliente altera /conta/12345 para /conta/12346 e vê a conta alheia, a autenticação funcionou. A autorização falhou.

Esconder o botão na tela não protege o endpoint. O servidor precisa autorizar cada operação e cada objeto.


11. OWASP — mapa de conscientização, não certificado de invencibilidade

Materiais baseados em 2021 já estão historicamente úteis, mas a lista vigente do OWASP Top 10 é a de 2025:

  1. Controle de acesso quebrado;

  2. Configuração insegura;

  3. Falhas na cadeia de suprimentos de software;

  4. Falhas criptográficas;

  5. Injeção;

  6. Design inseguro;

  7. Falhas de autenticação;

  8. Falhas de integridade de software ou dados;

  9. Falhas de logging e alertas;

  10. Tratamento incorreto de condições excepcionais.

As mudanças contam uma história. Configuração subiu de importância. Supply chain ganhou destaque. Logging passou a enfatizar alertas. Tratamento incorreto de condições excepcionais entrou na lista.

Isso é música para ouvidos COBOL. Mainframeiro sabe que exceção ignorada, return code não verificado e transação parcialmente atualizada podem produzir desastres sem uma única linha de malware.

OWASP Top 10 serve para conscientização. Não é uma lista completa de requisitos. Para verificação estruturada, o OWASP ASVS é mais apropriado.


12. Programação segura — não cole segurança depois do compilador

Programação segura inclui:

  • validação de entrada;

  • consultas parametrizadas;

  • encoding de saída;

  • autenticação forte;

  • autorização em cada operação;

  • menor privilégio;

  • tratamento seguro de erro;

  • logging útil;

  • proteção de segredos;

  • atualização de dependências;

  • revisão de código;

  • testes de segurança.

Validação de domínio

Não pergunte apenas se o dado é numérico. Pergunte se faz sentido.

Uma idade de -900 pode caber num PIC S9(4), mas não cabe na realidade. Uma transferência pode possuir sintaxe perfeita e violar limite, estado da conta ou segregação de funções.

Falhar de forma segura

Quando o serviço de autorização não responde, a aplicação libera ou nega? Quando ocorre timeout após débito, a repetição duplica a transferência? Quando o log falha, a operação privilegiada continua?

Falhar de forma segura exige:

  • estado consistente;

  • rollback;

  • idempotência;

  • mensagens externas discretas;

  • evidência interna suficiente;

  • negação por padrão quando apropriada.

Logs

Registre quem, o quê, quando, onde, resultado e identificador de correlação. Não registre senha, chave, token completo ou dado pessoal sem necessidade.

Log sem alerta é arqueologia. Alerta sem responsável é decoração natalina do SOC.

Cadeia de suprimentos

Atualizar biblioteca é só o início. Precisamos saber:

  • quais componentes existem;

  • de onde vieram;

  • quem alterou o pipeline;

  • quais artefatos foram assinados;

  • onde estão os segredos;

  • como revogar uma versão comprometida;

  • como reconstruir o software de forma confiável.

Segurança entra no desenho, no código, no build, no teste, na implantação e na operação.


13. Passo a passo — uma transferência bancária atravessa o castelo

Vamos acompanhar uma transferência.

Passo 1 — O cliente se conecta

TLS protege o canal. Mas o cadeado não garante que a aplicação esteja livre de fraude ou falha lógica.

Passo 2 — O cliente se identifica e autentica

O sistema verifica senha, passkey, dispositivo ou MFA, aplica rate limiting e detecta credential stuffing.

Passo 3 — O sistema autoriza

Verifica se o cliente possui a conta, se pode usar aquele canal, se o valor está dentro do limite e se a sessão possui nível suficiente.

Passo 4 — A regra de negócio valida

Confere valor positivo, moeda, saldo, favorecido, bloqueios, limite, horário, duplicidade e estado da conta.

Passo 5 — A transação é executada

Débito e crédito precisam formar uma unidade atômica. Em caso de falha, ROLLBACK; no sucesso, COMMIT.

Passo 6 — A operação é registrada

Logs e trilhas registram identidade, conta, canal, horário, resultado e correlação, sem expor segredos desnecessários.

Passo 7 — A fraude é analisada

O sistema considera novo dispositivo, valor atípico, velocidade, localização e histórico.

Passo 8 — O ambiente monitora

SIEM, regras, analistas e automações observam sinais técnicos e de negócio.

Passo 9 — Se algo der errado

A organização contém, investiga, preserva evidências, comunica, recupera e aprende.

Perceba: firewall, criptografia e MFA são três parafusos. A transferência segura depende da máquina inteira.


14. Checklist do programador COBOL que começou ontem — e quer chegar vivo à produção

Antes de entregar um programa, pergunte:

  1. Todos os campos externos têm tamanho, tipo e domínio validados?

  2. Valores negativos, zeros, limites e overflow foram tratados?

  3. Cada operação verifica autorização, não apenas autenticação?

  4. O programa usa apenas os privilégios necessários?

  5. SQL dinâmico e comandos externos separam código de dados?

  6. Return codes e condições excepcionais são tratados?

  7. Atualizações relacionadas usam unidade transacional adequada?

  8. Reprocessamento é idempotente ou pode duplicar operações?

  9. Logs possuem correlação e não vazam segredos?

  10. Mensagens ao usuário evitam detalhes internos?

  11. Senhas, tokens e chaves estão fora do fonte e do JCL?

  12. Há testes de sucesso, negação, limite, falha e recuperação?

  13. Alguém revisou o código com olhar de abuso, não só de funcionalidade?

  14. Existe plano para detectar e corrigir o comportamento em produção?

Se alguma resposta for “não sei”, você encontrou trabalho útil antes que a KAOS encontre trabalho divertido.


Epílogo — Desculpe por isso, Chefe

O Agente 86 voltou à sala de controle carregando um relatório.

— Chefe, tenho boas e más notícias.

— Comece pelas boas.

— O firewall está funcionando, o RACF está ativo e a senha não está mais em Base64.

— E as más?

— Igor substituiu a senha por AGOSTO@2026!, concedeu ALTER para todos e desligou o SIEM porque as luzes vermelhas estavam deixando o laboratório nervoso.

— 86...

— Eu sei, Chefe. Errei por isso aqui.

Esta é a grande lição do Capítulo I: segurança não é um produto instalado, um cadeado no navegador ou uma certificação pendurada na parede. É uma disciplina contínua de conhecimento, prevenção, observação, reação e aprendizado.

A tríade CIA ensina o que preservar. A análise de risco ensina onde concentrar esforço. A defesa em profundidade assume que algum controle falhará. A programação segura reduz fraquezas antes da produção. O monitoramento reconhece o que escapou. A resposta limita o dano. A recuperação devolve a missão ao ar.

O iniciante não precisa decorar todas as siglas de uma vez. Precisa aprender a fazer as perguntas certas:

  • O que estou protegendo?

  • De quem ou de quê?

  • Como isso pode falhar?

  • Quem realmente precisa de acesso?

  • Como saberei que algo aconteceu?

  • O que farei quando acontecer?

  • Como provarei o que ocorreu?

  • Como voltarei a operar com segurança?

Quando essas perguntas entram no código, no JCL, no RACF, no CICS, no Db2, na arquitetura e na reunião de mudança, o programador deixa de enxergar segurança como uma equipe que diz “não” no final do projeto. Ele passa a enxergá-la como parte da qualidade do sistema.

E qualidade, no Bellacosa Mainframe, significa algo muito simples: o programa faz o que deve, somente para quem pode, preserva o que importa, conta o que aconteceu e sabe voltar para casa depois que o telefone-sapato explode.


Referências para continuar a missão

☕ Um Café no Bellacosa Mainframe

Cibersegurança: dos fundamentos à recuperação

Uma jornada em dois capítulos para entender a linguagem da segurança, reconhecer riscos e organizar a operação antes, durante e depois de um incidente.

Vocabulário e Fundamentos da Cibersegurança

Tríade CIA, ativos, ameaças, vulnerabilidades, risco, malware, autenticação, criptografia, redes, aplicações web e codificação segura.

Ler o Capítulo I no artigo original →

Operação, Detecção, Resposta e Recuperação

Inventário, vulnerabilidades, eventos, alertas, incidentes, crise, monitoramento, contenção, evidências, continuidade e recuperação.

Ler o Capítulo II no artigo original →

Mapa da missão: o primeiro capítulo explica o que precisa ser protegido e por quê; o segundo mostra como observar, decidir, responder e restaurar a operação quando a prevenção não for suficiente.

Capítulo I — Vocabulário e Fundamentos da Cibersegurança

Abrir fora do quadro ↗

Capítulo II — Operação, Detecção, Resposta e Recuperação

Abrir fora do quadro ↗
Vagner Renato Bellacosa, IBM Champion e especialista em IBM Mainframe
IBM Z17 SYSTEM ONLINE
Sobre o autor

Vagner Renato Bellacosa

IBM Champion 2026 • Especialista em IBM Mainframe

Vagner Renato Bellacosa trabalha com IBM Mainframe desde 1988 , é IBM Champion e especialista em COBOL, CICS, Db2, z/OS e IBM Z. Compartilha experiências profissionais, conhecimento técnico, história da computação e práticas do universo mainframe para aproximar novas gerações das tecnologias que sustentam empresas, bancos e governos ao redor do mundo.

IBM Champion IBM Z COBOL CICS Db2 z/OS Mainframe desde 1988
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