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terça-feira, 15 de setembro de 2026

🕶️ DIABOLIK NO MAINFRAME — Risk Scoring Humano

 

Bellacosa Mainframe e o risk scoring humano

☕ Um Café no Bellacosa Mainframe

🕶️ DIABOLIK NO MAINFRAME — Risk Scoring Humano

Quando o sistema deixa de perguntar “o que você fez?” e começa a perguntar “por que você deixou de se comportar como você mesmo?”

Há uma coisa que Diabolik entende melhor do que muitos sistemas antifraude.

A melhor maneira de atravessar uma porta protegida não é necessariamente arrombá-la.

É fazer com que a porta acredite que você deveria estar entrando por ela.

Máscara correta.

Documento correto.

Horário plausível.

Comportamento esperado.

Uma história suficientemente coerente.

Separadamente, cada detalhe parece normal.

E justamente aí começa nossa história.

Porque, em algum lugar dentro de uma enorme instituição financeira, existe um IBM Mainframe processando milhões de eventos e tentando responder a uma pergunta aparentemente simples:

este comportamento faz sentido para esta pessoa?

Bem-vindo ao Risk Scoring Humano.

E nosso guia será Diabolik.



🕶️ CAPÍTULO 1 — Diabolik não quer parecer Diabolik

Imagine um sistema antifraude bastante primitivo.

Sua lógica poderia ser parecida com:

IF TRANSACTION-AMOUNT > 10000
    MOVE 'HIGH-RISK' TO RISK-LEVEL
END-IF.

Funciona?

Às vezes.

Mas qualquer pessoa que conheça a regra aprende rapidamente que R$ 10.001 chama atenção e R$ 9.999 talvez não.

Esse é o problema das regras determinísticas isoladas.

Diabolik olha para isso e sorri.

Ele não precisa destruir a regra.

Precisa apenas parecer normal para ela.

Um sistema moderno precisa fazer outra pergunta:

R$ 9.999 é normal para quem está fazendo essa operação?

Para uma grande empresa, talvez seja banal.

Para uma conta que recebe R$ 1.800 por mês e nunca movimentou mais de R$ 3.000, pode ser extraordinário.

Portanto:

RISCO ≠ apenas EVENTO

Uma aproximação muito melhor seria:

RISCO =
    EVENTO
  + PESSOA
  + HISTÓRICO
  + CONTEXTO
  + RELACIONAMENTOS
  + TEMPO

É aqui que nasce o Risk Scoring Humano.



🎭 CAPÍTULO 2 — A melhor máscara é uma identidade verdadeira

Sistemas antigos frequentemente tentavam responder:

“Essa pessoa é criminosa?”

Sistemas modernos precisam responder algo mais sutil:

“Esse comportamento combina com essa identidade?”

Essa diferença é gigantesca.

João pode ser um cliente perfeitamente legítimo há quinze anos.

Recebe salário.

Paga supermercado.

Abastece o carro.

Paga escola.

Compra medicamentos.

Viaja uma vez por ano.

Seu comportamento produz uma espécie de impressão digital financeira.

Não precisamos conhecer João pessoalmente para perceber padrões.

JOÃO
│
├── salário mensal
├── supermercado
├── combustível
├── contas domésticas
├── escola
├── financiamento
└── viagens ocasionais

Nenhuma dessas informações isoladamente define João.

Mas juntas produzem seu baseline comportamental.

Agora imagine que alguma coisa muda.

Em uma semana:

JOÃO
│
├── recebe 8 transferências incomuns
├── acessa de novo dispositivo
├── muda telefone
├── realiza operação internacional
├── adiciona beneficiário
└── transfere praticamente todo o saldo

Talvez cada evento seja legítimo.

O problema é a combinação.

Diabolik conseguiu uma identidade verdadeira.

Mas ainda precisa aprender a ser João.



📸 CAPÍTULO 3 — O velho sistema guardava fotografias

Durante décadas, instituições trabalharam muito bem com fotografias cadastrais.

NOME
CPF
ENDEREÇO
RENDA
PROFISSÃO
IDADE
TELEFONE

É uma fotografia.

Ela responde:

Quem é Vagner?

Mas Risk Scoring moderno quer assistir ao filme.

08:03 login
08:04 consulta saldo
08:06 novo favorecido
08:07 alteração cadastral
08:11 transferência
08:13 segunda transferência
08:17 tentativa internacional

Agora temos comportamento.

E comportamento possui uma propriedade fascinante:

ele possui sequência.

Isso significa que:

A + B + C

pode ter significado completamente diferente de:

C + A + B

Exemplo:

troca telefone
→ cadastra dispositivo
→ transfere dinheiro

é diferente de:

transfere dinheiro
→ meses depois troca telefone

Os eventos são semelhantes.

A narrativa é diferente.



🎬 CAPÍTULO 4 — Risk Scoring transforma fotografia em filme

Vamos imaginar um cliente chamado Marco.

Durante 36 meses:

salário → conta
conta → despesas
conta → cartão
conta → investimento

Tudo relativamente previsível.

Então:

DIA 1
novo dispositivo

DIA 2
novo telefone

DIA 3
novo favorecido

DIA 3 + 4 minutos
transferência

DIA 3 + 7 minutos
segunda transferência

Um sistema baseado exclusivamente em valores pode não encontrar nada.

O Risk Engine comportamental observa:

DEVICE_RISK        +15
PROFILE_CHANGE     +10
NEW_BENEFICIARY    +20
VALUE_DEVIATION    +25
VELOCITY           +20
--------------------------------
RISK SCORE          90

Mas atenção.

Isso é apenas um exemplo didático.

Na vida real, scores podem ser produzidos por regras, modelos estatísticos, machine learning, modelos híbridos e sistemas especializados.

O conceito importante é:

sinais pequenos acumulam contexto.



🧮 CAPÍTULO 5 — O Risk Score entra em cena

Vamos criar nosso fictício:

BELLACOSA HUMAN RISK ENGINE — BHRE

Ele recebe eventos:

LOGIN
TRANSACTION
PROFILE_CHANGE
DEVICE_CHANGE
PASSWORD_RESET
BENEFICIARY_ADD
CARD_PURCHASE
PIX
TED
TRANSFER
ATM

Cada evento entra no motor.

No Mainframe poderíamos imaginar componentes como:

CICS
  ↓
COBOL
  ↓
Db2 / VSAM
  ↓
Risk Engine
  ↓
Decision

Para transações financeiras modernas, também poderíamos integrar APIs, mensageria e plataformas analíticas externas.

O mainframe não precisa fazer sozinho toda a ciência de dados.

Ele pode ser justamente o coração transacional que pergunta:

“Posso autorizar?”

E recebe:

APPROVE
REVIEW
CHALLENGE
DECLINE

💳 CAPÍTULO 6 — 200 OK não significa “é confiável”

Imagine:

CLIENTE
   ↓
APP
   ↓
API
   ↓
BANK
   ↓
MAINFRAME

A autenticação está correta.

Token correto.

Senha correta.

Dispositivo reconhecido.

Isso demonstra que determinadas credenciais foram aceitas.

Não demonstra necessariamente que a intenção seja legítima.

Essa distinção é fundamental:

AUTHENTICATION
      ≠
AUTHORIZATION
      ≠
TRUST

Diabolik adora quando confundimos essas três coisas.

Ele não precisa falsificar necessariamente tudo.

Talvez tenha acesso legítimo a uma credencial comprometida.

O sistema precisa analisar contexto.


🧠 CAPÍTULO 7 — Risk Scoring não deveria perguntar apenas “quem é você?”

Perguntas melhores:

Quem é você?

De onde costuma acessar?

Quando costuma acessar?

Quanto costuma movimentar?

Para quem costuma transferir?

Quais dispositivos utiliza?

Qual é sua velocidade normal de operações?

Que relacionamento possui com o destinatário?

Esse comportamento já aconteceu anteriormente?

Isso produz uma identidade dinâmica.

Chamaremos de:

Behavioral Identity.

Não é simplesmente CPF.

É uma combinação histórica de comportamentos.


🕸️ CAPÍTULO 8 — E então descobrimos o grafo

Diabolik consegue imitar Marco.

Excelente.

Mas existe um problema.

Ele precisa mandar o dinheiro para algum lugar.

Surge Maria.

MARCO → MARIA

Nada necessariamente estranho.

Mas Maria recebe também de:

JOÃO ──┐
PEDRO ─┤
ANA ───┼──→ MARIA
LUÍS ──┤
MARCO ─┘

Interessante.

Maria envia para Empresa X.

MARIA → EMPRESA X

Empresa X está relacionada a outras entidades.

Agora nossa análise deixa de olhar somente para transações.

Estamos construindo um:

GRAPH.


🕷️ CAPÍTULO 9 — O grafo destrói algumas máscaras

Uma pessoa pode alterar:

nome utilizado,

telefone,

conta,

empresa,

dispositivo,

endereço.

Mas relacionamentos podem revelar padrões.

Imagine:

PESSOA A
   │
   ├── telefone → PESSOA B
   │
   ├── endereço → EMPRESA C
   │
   ├── dispositivo → CONTA D
   │
   └── transferência → PESSOA E

Cada aresta adiciona contexto.

Agora descobrimos:

PESSOA E
   ↓
EMPRESA F
   ↓
CONTA G
   ↓
PESSOA B

Fechamos um ciclo.

É por isso que Graph Analytics é tão poderoso em fraude e AML.

Ele não pergunta apenas:

Quem recebeu dinheiro?

Pergunta:

Como essas entidades estão relacionadas?


🧩 CAPÍTULO 10 — Risk Scoring humano não significa julgar pessoas

Aqui existe uma distinção ética essencial.

Um sistema não deveria concluir:

“Essa pessoa é criminosa.”

Risk Scoring deve trabalhar com algo muito mais limitado:

“Esta operação apresenta características que justificam controles adicionais.”

Essa diferença protege clientes e instituição.

Score não deveria ser sentença.

Deveria ser sinal.

Por isso podemos ter:

LOW RISK
   ↓
PROCESS

MEDIUM RISK
   ↓
ADDITIONAL AUTHENTICATION

HIGH RISK
   ↓
MANUAL REVIEW

CRITICAL
   ↓
BLOCK / INVESTIGATION

Dependendo da política, legislação e natureza da operação.


🔎 CAPÍTULO 11 — O caso Gritzbach mostra outro tipo de Risk Scoring

Aqui podemos utilizar o caso apenas como analogia analítica, sem transformar acusações ainda controvertidas em fatos.

Segundo a reconstrução jornalística, Antônio Vinícius Lopes Gritzbach teria atravessado simultaneamente diferentes redes de relacionamento envolvendo integrantes do PCC, negócios, dinheiro, criptomoedas, autoridades e policiais. Ele posteriormente tornou-se colaborador do Ministério Público.

A questão interessante para nosso estudo não é tentar reproduzir qualquer “score do PCC”.

É observar algo universal:

pessoas também existem dentro de grafos de confiança.

Imagine abstratamente:

PESSOA
│
├── dinheiro
├── parceiros
├── clientes
├── fornecedores
├── instituições
├── autoridades
└── informações

Quando uma relação muda, outras podem ser afetadas.


⚖️ CAPÍTULO 12 — Trust Score é contextual

Essa é uma descoberta importantíssima.

Uma pessoa não possui universalmente:

TRUST = 72

Ela pode ser simultaneamente:

Banco A       → LOW RISK
Banco B       → UNKNOWN
Empresa C     → TRUSTED
Sistema D     → HIGH RISK

Porque risco depende de contexto.

O mesmo vale para comportamento.

Comprar R$ 8.000 em um restaurante pode ser extraordinário para mim.

Para uma empresa realizando jantar corporativo para 80 pessoas, talvez seja normal.

Portanto:

RISK = EVENT / CONTEXT

e não simplesmente:

RISK = EVENT

🧠 CAPÍTULO 13 — O programador COBOL precisa entender isso

Aqui chegamos ao ponto que frequentemente falta nas formações Mainframe.

O iniciante recebe:

01 WS-RISK-SCORE PIC 9(03).

E pensa:

É um campo numérico de três posições.

Não.

Talvez você esteja olhando para a conclusão de centenas de sinais.

Por trás daqueles três bytes conceituais podem existir:

histórico
perfil
device
geolocalização aproximada
velocity
valor
merchant
beneficiário
produto
canal
horário
relacionamentos
alertas anteriores

O programador Mainframe precisa compreender semântica de negócio, não somente PIC clauses.


💻 CAPÍTULO 14 — Vamos programar um pequeno exemplo

Imagine:

01 WS-RISK-SCORE       PIC 9(03) VALUE ZERO.
01 WS-NEW-DEVICE       PIC X.
01 WS-NEW-BENEFICIARY  PIC X.
01 WS-HIGH-AMOUNT      PIC X.
01 WS-PROFILE-CHANGE   PIC X.

Então:

IF WS-NEW-DEVICE = 'Y'
   ADD 15 TO WS-RISK-SCORE
END-IF

IF WS-NEW-BENEFICIARY = 'Y'
   ADD 20 TO WS-RISK-SCORE
END-IF

IF WS-HIGH-AMOUNT = 'Y'
   ADD 25 TO WS-RISK-SCORE
END-IF

IF WS-PROFILE-CHANGE = 'Y'
   ADD 10 TO WS-RISK-SCORE
END-IF.

Depois:

EVALUATE TRUE
   WHEN WS-RISK-SCORE >= 70
        MOVE 'REVIEW' TO WS-DECISION

   WHEN WS-RISK-SCORE >= 40
        MOVE 'CHALLENGE' TO WS-DECISION

   WHEN OTHER
        MOVE 'APPROVE' TO WS-DECISION
END-EVALUATE.

Didaticamente funciona.

Mas Diabolik imediatamente descobriria um problema.


😈 CAPÍTULO 15 — Diabolik aprende nossas regras

Se:

70 = REVIEW

ele tentará permanecer em:

69

Esse fenômeno é fundamental em sistemas antifraude.

Quando atacantes compreendem controles, adaptam comportamento.

Por isso sistemas precisam evoluir.

Podemos combinar:

RULES
+
STATISTICS
+
BEHAVIOR
+
MACHINE LEARNING
+
GRAPH ANALYTICS
+
HUMAN REVIEW

Nenhum componente precisa ser mágico.

O poder está na combinação.


⏱️ CAPÍTULO 16 — Velocity: Diabolik tem pressa

Um conceito maravilhoso para ensinar ao programador COBOL iniciante é velocity.

Imagine:

09:00 R$ 800
09:03 R$ 900
09:05 R$ 700
09:07 R$ 950
09:09 R$ 850

Nenhuma transação ultrapassa R$ 1.000.

Uma regra:

IF AMOUNT > 10000

não detecta nada.

Mas:

5 TRANSFERS
IN 9 MINUTES

é outro sinal.

Risk Scoring precisa compreender também:

quanto aconteceu em quanto tempo.


🕰️ CAPÍTULO 17 — O tempo transforma o grafo

Agora acrescentamos timestamps:

09:00 A → B
09:02 B → C
09:04 C → D
09:07 D → E

Temos um fluxo.

O grafo agora não mostra apenas:

A — B — C — D — E

Mostra movimento.

Chamamos conceitualmente isso de:

Temporal Graph.

Ele pode revelar mudanças que um grafo estático esconderia.


🏦 CAPÍTULO 18 — E onde entra o IBM Mainframe?

No lugar mais interessante possível.

No coração das operações.

Imagine uma arquitetura:

                 MOBILE
                    │
                 INTERNET
                    │
                    ▼
                 API LAYER
                    │
              z/OS Connect
                    │
                    ▼
┌─────────────────────────────────┐
│            IBM Z                │
│                                 │
│   CICS                          │
│     │                           │
│     ▼                           │
│   COBOL ───────► Db2            │
│     │                           │
│     ▼                           │
│   RISK REQUEST                  │
│     │                           │
└─────┼───────────────────────────┘
      │
      ▼
 ANALYTICS / GRAPH / ML
      │
      ▼
 RISK SCORE
      │
      ▼
 IBM Z
      │
      ▼
DECISION

E isso é importante:

modernização não significa necessariamente retirar o COBOL.

Pode significar permitir que COBOL converse com tecnologias especializadas.


⚡ CAPÍTULO 19 — Porque autorização não pode tomar café

Imagine cartão.

Cliente encosta na máquina.

TAP
 ↓
ACQUIRER
 ↓
NETWORK
 ↓
ISSUER
 ↓
AUTHORIZATION

O cliente está olhando para o terminal.

Não podemos dizer:

“Aguarde vinte minutos enquanto nosso algoritmo termina.”

A decisão precisa ocorrer rapidamente.

É exatamente aí que sistemas transacionais de alta disponibilidade continuam extremamente relevantes.

Risk Scoring precisa entrar no fluxo sem destruir SLA.


🔐 CAPÍTULO 20 — False Positive: quando prendemos o mordomo

Existe outro perigo.

Se o sistema ficar paranoico:

QUALQUER COISA DIFERENTE
        ↓
      BLOCK

teremos milhares de clientes legítimos irritados.

Chamamos isso de:

false positive.

O cliente viajou para Roma.

Compra jantar.

Sistema:

FRAUDE!

Cliente:

Estou com fome!

😄

Risk Scoring precisa equilibrar:

FRAUD LOSS
     ↕
CUSTOMER FRICTION

Bloquear tudo é fácil.

Autorizar corretamente é difícil.


🎯 CAPÍTULO 21 — Risk Score não é prova

Isso merece ficar gravado no monitor do programador:

RISK SCORE ≠ GUILT

Score 92 não significa:

“92% criminoso.”

Pode significar apenas que um modelo específico identificou uma combinação de sinais considerada de alto risco segundo sua própria calibração.

A interpretação depende do modelo.

Esse cuidado torna-se ainda mais importante quando falamos em Risk Scoring Humano.

Algoritmos podem produzir vieses.

Dados podem estar errados.

Cadastros podem estar desatualizados.

Relacionamentos podem ser coincidências.

Por isso decisões de grande impacto precisam de governança adequada.


🧪 CAPÍTULO 22 — Explainability: por que deu 92?

Imagine o analista recebendo:

RISK SCORE = 92

Ele pergunta:

Por quê?

Sistema:

Porque sim.

Inaceitável.

Precisamos de reason codes.

R01 NEW DEVICE
R07 NEW BENEFICIARY
R13 UNUSUAL AMOUNT
R22 HIGH VELOCITY
R31 GRAPH RELATION

Então:

SCORE 92

REASONS:
HIGH VELOCITY
NEW DEVICE
NEW BENEFICIARY
BEHAVIOR DEVIATION

Agora existe explicabilidade operacional.

E o COBOL pode desempenhar papel importantíssimo na integração desses reason codes ao fluxo transacional.


🗃️ CAPÍTULO 23 — Não jogue fora os dados antigos!

Aqui existe uma vantagem maravilhosa dos ambientes Mainframe.

Histórico.

Décadas de histórico podem existir.

Isso é ouro para análise comportamental — desde que seja utilizado com governança, finalidade legítima, qualidade e respeito às regras de proteção de dados.

Porque comportamento exige comparação:

HOJE
versus
ONTEM
versus
30 DIAS
versus
1 ANO

Um sistema que conhece apenas hoje não conhece comportamento.

Conhece eventos.


🕵️ CAPÍTULO 24 — Diabolik finalmente comete seu erro

Nosso Diabolik conseguiu:

credencial,

identidade,

dispositivo,

horário plausível,

valor plausível.

Ele parece perfeito.

Mas precisa transferir recursos.

O sistema observa:

DIABOLIK-AS-MARCO
        ↓
     CONTA X
        ↓
     CONTA Y
        ↓
     EMPRESA Z

E o Graph Engine percebe:

EMPRESA Z
   ↑
CONTA Q
   ↑
CASO ANTERIOR

A transação não era necessariamente anormal.

O relacionamento era.

E finalmente encontramos aquilo que Diabolik não conseguiu falsificar perfeitamente:

o contexto.


🧠 CAPÍTULO 25 — A verdadeira evolução do antifraude

Primeira geração:

TRANSACTION RULES

Segunda:

TRANSACTION + PROFILE

Terceira:

TRANSACTION + PROFILE + BEHAVIOR

Quarta:

TRANSACTION
+
PROFILE
+
BEHAVIOR
+
DEVICE
+
NETWORK
+
GRAPH
+
TIME

E então entramos no território que chamo aqui de:

HUMAN RISK SCORING

Não porque estejamos julgando o ser humano.

Mas porque estamos tentando compreender o comportamento dentro de seu contexto humano e relacional.


🧑‍💻 CAPÍTULO 26 — O que o COBOLista iniciante deve aprender

Quando encontrar:

IF RISK-SCORE > 80

não continue lendo imediatamente.

Pergunte:

Quem calculou esse score?

Quais eventos participaram?

Qual janela temporal?

O score expira?

É transacional ou cadastral?

Quais reason codes existem?

O que acontece quando o serviço de risco está indisponível?

Essa última pergunta é especialmente Mainframe.

RISK ENGINE DOWN

E agora?

FAIL OPEN?

Autoriza?

FAIL CLOSED?

Recusa?

FALLBACK RULES?

Usa regras locais?

Essa decisão pode valer milhões.


🚨 CAPÍTULO 27 — 03:17

Nosso easter egg Bellacosa aparece.

03:17 da manhã.

O telefone toca.

War Room.

Fraud Decision Service latency: 4.8 seconds
Authorization queue increasing
Timeout rate: 17%

Alguém diz:

“Vamos bypassar o Risk Engine.”

Silêncio.

Porque isso resolveria performance.

Mas poderia abrir a porta.

Outro propõe:

“Vamos bloquear tudo.”

Também resolveria fraude.

E destruiria o negócio.

O verdadeiro engenheiro Mainframe pergunta:

Qual é o fallback aprovado?

Essa frase separa improvisação de engenharia.


☕ CAPÍTULO 28 — A lição de Diabolik

Durante toda a história procurávamos o homem de máscara preta.

Esse era nosso erro.

Diabolik nunca quis que víssemos a máscara.

Queria que víssemos:

CLIENTE NORMAL

Risk Scoring evoluiu justamente porque fraude sofisticada não precisa parecer fraude.

Pode parecer:

uma compra,

uma transferência,

um login,

uma empresa,

uma conta,

um cliente.

Tudo aparentemente legítimo.

Até observarmos:

QUEM
+
O QUÊ
+
QUANDO
+
ONDE
+
COMO
+
COM QUEM
+
QUANTAS VEZES
+
EM QUE SEQUÊNCIA

Então surge uma história.


🕶️ EPÍLOGO — O Mainframe não procura criminosos

Essa talvez seja a mensagem mais importante para o programador iniciante.

O IBM Mainframe não deveria funcionar como juiz.

O Risk Engine também não.

Eles processam sinais.

EVENT
   ↓
CONTEXT
   ↓
HISTORY
   ↓
RELATIONSHIP
   ↓
RISK
   ↓
DECISION
   ↓
EVIDENCE

E boas arquiteturas mantêm algo fundamental:

rastreabilidade.

Precisamos saber:

qual informação entrou,

qual regra executou,

qual modelo respondeu,

qual score retornou,

qual reason code apareceu,

qual decisão foi tomada,

quando aconteceu

e qual versão estava em produção.

Porque um dia alguém perguntará:

“Por que essa transação foi recusada?”

E PORQUE WS-RISK > 80 não será resposta suficiente.

Diabolik talvez consiga enganar uma regra.

Talvez consiga enganar uma câmera.

Talvez consiga uma identidade perfeita.

Talvez consiga inclusive parecer estatisticamente normal durante algum tempo.

Mas quanto mais dimensões independentes um sistema correlaciona — histórico, comportamento, dispositivo, velocidade, relacionamentos e tempo — mais difícil se torna sustentar uma identidade artificial coerente.

Essa é a batalha moderna.

Não é:

COBOL contra inteligência artificial.

É:

COBOL
+
CICS
+
Db2
+
APIs
+
EVENTS
+
RULES
+
ML
+
GRAPH ANALYTICS
+
HUMAN ANALYST

Cada tecnologia fazendo aquilo que sabe fazer melhor.

E no centro de tudo continua existindo aquela pergunta simples que começou nossa investigação:

“Isto é normal?”

Diabolik ajusta a gravata, olha para o terminal e sorri.

O terminal responde:

TRANSACTION........... VALID
IDENTITY.............. VALID
AUTHENTICATION........ VALID
AMOUNT................ NORMAL

BEHAVIOR.............. UNUSUAL
VELOCITY.............. UNUSUAL
GRAPH RELATION........ HIGH RISK

RISK SCORE............ 92
DECISION.............. REVIEW

Pela primeira vez, Diabolik para de sorrir.

O sistema não descobriu necessariamente quem ele é.

Descobriu algo muito mais interessante.

Ele não está se comportando como a pessoa que afirma ser.

Um Café no Bellacosa Mainframe

Onde até Diabolik descobre que enganar um IF é fácil. Difícil é enganar quarenta anos de histórico.



Para ir mais longe

https://eljefemidnightlunch.blogspot.com/2024/10/diabolik-no-mainframe-o-roubo-perfeito.html

quarta-feira, 9 de setembro de 2026

🕵️‍♂️ O Supermosaico — Segurança da Informação sob a Tutela do Dr. Moriarty

 

Bellacosa Mainframe e o mosaico da segurança os riscos ocultos na ia

☕ Um Café no Bellacosa Mainframe

🕵️‍♂️ O Supermosaico — Segurança da Informação sob a Tutela do Dr. Moriarty

Quando nossos prompts começaram a guardar aquilo que nossa memória deveria esquecer

Imagine uma grande empresa.

Na porta existem seguranças.

Nos computadores, EDR.

Na rede, firewalls.

Nos acessos, MFA.

No mainframe, RACF.

Nos datasets, permissões.

Nos repositórios, controles.

Nos notebooks, DLP.

Nos servidores, logs.

No SOC, dezenas de telas piscando.

Tudo parece protegido.

Então o Dr. Moriarty entra em nossa sala, observa silenciosamente durante alguns minutos e faz uma pergunta desagradavelmente simples:

“Muito interessante. Mas onde seus funcionários conversam quando precisam pensar?”

Silêncio.

Bem-vindo à segurança da informação na era da Inteligência Artificial.



☕ Sob a tutela do Dr. Moriarty

Nossa história começou com uma questão aparentemente simples: profissionais utilizando Inteligência Artificial generativa para trabalhar.

Um advogado coloca partes de um processo em um prompt.

Um programador pergunta sobre um erro COBOL.

Um analista cola algumas mensagens de um dump.

Um DBA tenta entender determinada query.

Um especialista CICS pergunta sobre uma transação problemática.

Um consultor solicita ajuda para documentar uma arquitetura.

Nada disso precisa nascer de má-fé.



Pelo contrário.

O objetivo normalmente é trabalhar melhor.

Esse é justamente o ponto inquietante.

O artigo que motivou esta reflexão chama atenção para o fato de que informações de terceiros podem ser transferidas para sistemas externos durante o uso aparentemente cotidiano de IA e utiliza como exemplo conhecido os incidentes de 2023 envolvendo funcionários da Samsung e informações corporativas inseridas no ChatGPT.

A discussão original concentra-se principalmente em advocacia, sigilo profissional, proteção de dados e governança.

Mas vamos colocar nossa xícara de café sobre a mesa e levar o problema para dentro de uma instalação mainframe.

Moriarty está esperando.



🧩 A primeira tessela

Imagine um jovem programador COBOL.

Ele recebe:

ABEND S0C7

Abre sua ferramenta favorita de IA e pergunta:

Tenho um programa COBOL apresentando S0C7.

O erro acontece nesta rotina.

Pode me ajudar?

Perfeitamente razoável.

A IA pede contexto.

Nosso programador fornece algumas linhas.

Depois mais algumas.

Aparece o nome de um programa.

Depois uma tabela.

Uma transação.

Uma mensagem CICS.

Nada parece particularmente importante.

Temos nossa primeira tessela.

Uma pequena pedra quadrangular daqueles magníficos mosaicos romanos.

Sozinha, ela significa quase nada.



🏛️ O mosaico romano

Na semana seguinte:

TRANID = ABC1

Outra tessela.

Meses depois:

PROGRAM = PAY001

Outra.

Mais tarde:

PAY001 atualiza DB2 antes do MQPUT.

Outra.

Em dezembro:

A fila PAYMENT.REQUEST cresce
durante o fechamento mensal.

Outra.

No ano seguinte:

ABC1 chama PAY001.

Agora coloque as pedras juntas:

ABC1
 │
 ▼
PAY001
 │
 ├────► DB2
 │
 ▼
MQPUT
 │
 ▼
PAYMENT.REQUEST

Curioso.

Nenhum prompt individual descreveu necessariamente toda a arquitetura.

Mas a arquitetura começa a aparecer pela correlação.

Essa é nossa primeira grande lição sob a tutela de Moriarty:

Informações aparentemente insignificantes podem adquirir enorme valor quando possuem relacionamentos.


🧠 O analista começa a documentar a empresa sem perceber

Passemos três anos.

Nosso programador virou analista.

Ele utilizou IA milhares de vezes.

Perguntou sobre:

  • COBOL;

  • JCL;

  • CICS;

  • Db2;

  • MQ;

  • VSAM;

  • RACF;

  • APIs;

  • incidentes;

  • dumps;

  • arquitetura;

  • regras de negócio;

  • migrações;

  • problemas de produção.

Mas existe uma característica interessante.

Normalmente perguntamos à IA justamente sobre aquilo que não entendemos.

Consequentemente, nosso histórico pode acabar concentrando momentos excepcionais:

ERRO
 ↓
DÚVIDA
 ↓
PROMPT

INCIDENTE
 ↓
DÚVIDA
 ↓
PROMPT

ARQUITETURA ESTRANHA
 ↓
DÚVIDA
 ↓
PROMPT

EXCEÇÃO DE NEGÓCIO
 ↓
DÚVIDA
 ↓
PROMPT

O histórico não é necessariamente uma amostra aleatória do ambiente.

Pode ser uma coleção justamente das coisas estranhas, difíceis ou importantes.

Quase um diário operacional involuntário.


📖 “Querido diário, produção caiu novamente...”

Imagine encontrar uma conversa antiga:

“Por que essa rotina precisa executar antes das 22 horas?”

Outra:

“Por que não podemos alterar esse campo?”

Outra:

“Esse programa existe desde a aquisição da empresa XPTO.”

Outra:

“Quando o sistema secundário está indisponível usamos esta contingência.”

Perceba que estamos gradualmente deixando de falar somente de código.

Estamos falando de:

contexto.

E contexto frequentemente vale mais do que código.

Um programa COBOL pode dizer:

IF WS-STATUS = '99'
    PERFORM 9000-CONTINGENCIA
END-IF.

Mas talvez não explique por que 99 existe.

O veterano explica:

“Isso foi criado depois daquele problema de 2008 porque o sistema externo ficava indisponível no fechamento.”

Pronto.

Temos história.

Temos arquitetura.

Temos dependência.

Temos regra operacional.

Temos conhecimento institucional.


🧓 O veterano pode ser mais interessante que o administrador

Aqui Moriarty levanta a sobrancelha.

Tradicionalmente pensamos:

“Quem possui maior privilégio?”

Administrador.

RACF SPECIAL.

DBA.

SYSADM.

ROOT.

Mas existe outra espécie de privilégio:

Knowledge Privilege.

Talvez aquele veterano não possua RACF SPECIAL.

Entretanto ele sabe:

por que X depende de Y;

quem resolve determinado incidente;

qual sistema não pode parar;

qual processo possui contingência;

quais componentes são antigos;

onde existem dependências históricas;

por que determinada decisão foi tomada;

quais problemas aparecem no fechamento.

O usuário privilegiado possui Access Privilege.

O veterano possui Knowledge Privilege.

Em alguns cenários de ameaça, precisamos proteger ambos.


🕰️ Janeiro de 2023

Agora chegamos a uma coisa extraordinária.

O ser humano esquece.

Imagine que nosso especialista tenha resolvido um incidente em janeiro de 2023.

Em setembro de 2026 alguém pergunta:

“Você lembra daquele problema?”

Provavelmente:

“Mais ou menos...”

Depois:

“Não lembro exatamente.”

Isso sempre foi uma espécie de deterioração natural da informação.

Mas imagine que naquele janeiro ele tenha escrito uma longa conversa com uma IA.

Dependendo do serviço, das configurações e das políticas de retenção, aquela conversa poderá ter permanecido armazenada.

Então temos:

MEMÓRIA HUMANA

evento
  ↓
tempo
  ↓
degradação
  ↓
abstração
  ↓
esquecimento

contra:

REGISTRO DIGITAL

evento
  ↓
texto
  ↓
armazenamento
  ↓
pesquisa
  ↓
recuperação

Aquilo que o cérebro deveria esquecer pode permanecer registrado.

Chamemos isso de:

Knowledge Residue

Resíduo de conhecimento.


🚪 O funcionário desligado

Agora Moriarty apresenta outro personagem.

Durante três anos nosso funcionário trabalhou normalmente.

Não roubou nada.

Não planejou fraude.

Não tentou prejudicar ninguém.

Então foi demitido.

Ficou ressentido.

No modelo tradicional de insider threat, talvez esperássemos observar:

download enorme;
cópia para USB;
upload suspeito;
e-mail externo;
ZIP com sources;
impressões anormais.

Mas surge uma possibilidade diferente.

E se informações inadequadamente compartilhadas já estivessem acumuladas em ambientes externos antes de aparecer a intenção maliciosa?

O problema fundamental torna-se:

o momento da aquisição da informação pode estar separado por anos do momento em que aparece a intenção de abusar dela.

No desligamento fazemos:

REVOKE RACF
REMOVE VPN
DISABLE EMAIL
DISABLE GITHUB
RETURN NOTEBOOK
RETURN BADGE
REVOKE CERTIFICATES

Excelente.

Mas Moriarty pergunta:

“E a memória digital externalizada anteriormente?”

É uma pergunta de governança, não uma justificativa para investigar indiscriminadamente contas pessoais de ex-funcionários.

A resposta precisa começar antes, com ferramentas corporativas apropriadas, separação de identidades, classificação, políticas de retenção e regras claras sobre aquilo que pode ser fornecido a sistemas de IA.


🎒 Chega o consultor

Moriarty sorri.

O funcionário conhece uma empresa.

O consultor conhece muitas.

Imagine:

2023 → Banco A
2024 → Seguradora B
2024 → Varejista C
2025 → Governo D
2025 → Montadora E
2026 → Banco F

Em cada organização ele aprende.

Essa transferência de experiência é perfeitamente normal.

Aliás, contratamos consultores justamente porque podem dizer:

“Já encontrei um problema semelhante.”

Existe, entretanto, diferença enorme entre carregar experiência profissional e carregar artefatos detalhados de conhecimento de clientes anteriores.

Historicamente, o cérebro fornecia uma abstração interessante:

experiência específica
       ↓
      tempo
       ↓
   esquecimento
       ↓
   abstração
       ↓
 conhecimento geral

O consultor esquecia nomes, valores, incidentes e detalhes.

Mas permanecia sabendo:

“Esse tipo de arquitetura costuma apresentar este problema.”

Excelente.

Isso é experiência.

Agora imaginemos uma conta pessoal ou ambiente inadequadamente segregado contendo conversas detalhadas provenientes de sucessivos projetos.

Temos potencialmente:

CLIENTE A ─┐
CLIENTE B ─┤
CLIENTE C ─┤
CLIENTE D ─┼──► CORPUS
CLIENTE E ─┤
CLIENTE F ─┘

Nasce nosso:

SUPERMOSAICO.


🌎 O Supermosaico

O mosaico permite reconstruir aspectos de uma empresa.

O Supermosaico acrescenta algo diferente:

comparação.

Cliente A faz X.

Cliente B utiliza X + Y.

Cliente C abandonou X depois de determinado problema.

Cliente D acrescentou Z.

Nenhuma dessas informações isoladamente precisa declarar:

“A possui uma deficiência.”

Mas a comparação pode produzir uma hipótese:

“Por que A aparentemente não possui Y ou Z?”

Nasceu informação que não estava explicitamente escrita.

Temos:

INFORMAÇÃO A
+
INFORMAÇÃO B
+
INFORMAÇÃO C
+
CONTEXTO
+
CORRELAÇÃO
=
INFORMAÇÃO DERIVADA

Esse é um dos pontos mais importantes desta história.

Precisamos proteger não somente informações sensíveis individualmente, mas pensar também em informações correlacionáveis.


🕵️ Moriarty finalmente começa sua aula

Até aqui Moriarty permaneceu sentado.

Agora ele se levanta.

Ele não pergunta:

“Onde está SECRET.DOC?”

Pergunta:

“O que posso inferir?”

Essa é uma mudança monumental.

O invasor caricatural procura:

PASSWORD.TXT

Moriarty procura:

relações;
padrões;
cronologia;
contradições;
dependências;
mudanças;
exceções;
incertezas.

Porque informação de inteligência não precisa estar escrita diretamente.

Ela pode surgir da combinação.


📧 Gmail, Drive, GitHub, WhatsApp, Telegram, celular...

Nossa identidade digital moderna está espalhada.

Temos:

e-mail pessoal
e-mail corporativo
GitHub
Google Drive
OneDrive
celular
notebook
micro pessoal
WhatsApp
Telegram
calendário
redes sociais
conta de IA

Antigamente imaginávamos segurança como uma muralha:

        FIREWALL
████████████████████████
       EMPRESA

Hoje precisamos imaginá-la como um grafo:

          PESSOA
        /   |    \
       /    |     \
   Gmail  GitHub  IA
     |      |      |
   Drive   código contexto
     \      |      /
       \    |     /
         CELULAR
            |
        IDENTIDADE
            |
         EMPRESA

Moriarty não precisa necessariamente perguntar:

“Como atravesso a muralha?”

Ele pode perguntar:

“Quais relações chegam até ela?”

Essa é uma excelente maneira defensiva de fazer threat modeling.


🏰 Primeiro o sentinela

Imagine um castelo.

Atacar diretamente o rei é difícil.

Então nosso Moriarty hipotético observa:

SENTINELA
    ↓
CAPITÃO
    ↓
OFICIAL
    ↓
CONSELHEIRO
    ↓
CASTELO

No mundo corporativo:

JÚNIOR
  ↓
N2
  ↓
N3
  ↓
SME
  ↓
ARQUITETO

Isso não significa que essa sequência permita comprometimento automático.

Não permite.

Mas mostra algo importante:

confiança também possui topologia.

Um funcionário confia em outro.

Uma identidade possui recuperação ligada a outra.

Um dispositivo possui sessões.

Um serviço contém referências a outros serviços.

Um calendário revela relacionamentos.

Um repositório revela tecnologias.

Precisamos analisar o blast radius de identidades, não somente permissões técnicas.


🔐 RACF emocional

Aqui nosso jovem COBOL finalmente entende Moriarty.

No RACF temos algo parecido com:

USER
 ↓
GROUP
 ↓
CONNECT
 ↓
PERMIT
 ↓
RESOURCE

Uma identidade isolada diz pouco.

Os relacionamentos dizem muito.

Agora aplique a mesma ideia à pessoa:

PESSOA
 ↓
IDENTIDADES
 ↓
DISPOSITIVOS
 ↓
SERVIÇOS
 ↓
SESSÕES
 ↓
DADOS
 ↓
RELACIONAMENTOS
 ↓
CONFIANÇA

Voilà!

Temos uma espécie de:

RACF da vida digital.

Só que muito menos organizado.


📦 Contrabando de conhecimento

Agora chegamos a outro conceito surgido durante nossa investigação.

Empresas procuram eventos grandes:

40 MB enviados por e-mail → ALERTA

ZIP com sources → ALERTA

USB → ALERTA

FTP → ALERTA

GitHub público → ALERTA

Enquanto isso:

prompt 001 → 2 KB
prompt 002 → 4 KB
prompt 003 → 1 KB
...
prompt 847 → 6 KB

Tudo pequeno.

Tudo aparentemente cotidiano.

Mas estamos confundindo:

volume físico

com

volume semântico.

Um especialista pode condensar vinte anos de experiência em três parágrafos.

Talvez sejam apenas 5 KB.

Semanticamente podem valer muito.

Por isso “contrabando de conhecimento” é uma excelente metáfora, embora em governança eu preferisse termos como:

transferência de conhecimento não governada

ou

canal cumulativo de exposição de conhecimento.

Porque nem todo prompt constitui exfiltração e nem todo usuário possui intenção indevida.


🛡️ DLP talvez não seja suficiente

Data Loss Prevention tradicionalmente pergunta:

“Que dado está saindo?”

Nosso problema exige outra pergunta:

“Que conhecimento está sendo construído pela soma daquilo que está saindo?”

Daí surge:

KLP — Knowledge Loss Prevention

Não estou propondo aqui um padrão formal universal chamado KLP.

Estou usando o termo como conceito para ampliar nossa maneira de pensar.

DLP:

PROTEJA O DADO

KLP:

PROTEJA:
dados
+
contexto
+
relações
+
acumulação
+
tempo
+
conhecimento derivável

Porque:

PROMPT 1 = VERDE
PROMPT 2 = VERDE
PROMPT 3 = VERDE

...

Σ PROMPTS = VERMELHO

O risco pode emergir da soma.


🐒 Um milhão de chimpanzés bebedores de saquê

É claro que nenhum tratado Bellacosa Mainframe estaria completo sem nossos agentes especiais.

Imagine um corpus contendo:

"Meu CICS conversa telepaticamente com Saturno."

"Verificar MQ amanhã."

"O gato assumiu RACF SPECIAL."

"Por que PAY001 apresenta S0C7?"

"Napoleão teria usado VSAM."

"Não esquecer daquele JOB."

"Um milhão de chimpanzés bebendo saquê
administram produção."

Um investigador humano provavelmente pediria transferência de departamento.

Mas não devemos considerar volume e ruído controles de segurança confiáveis.

Sistemas automatizados conseguem classificar conteúdo, encontrar recorrências e separar grandes quantidades de informação muito mais rapidamente que uma pessoa.

Além disso, existe uma vítima colateral.

Você.

Três anos depois abre a conversa e pergunta:

“Que porra eu quis dizer com isso?”

😂

A contrainteligência funcionou tão bem que derrotou o próprio autor.


🧠 Facebook, dados comportamentais e Moriarty

Agora ampliemos novamente a escala.

Redes sociais mostraram ao mundo o valor da correlação de enormes quantidades de dados comportamentais.

IA conversacional introduz uma diferença conceitualmente importante.

Nas redes sociais frequentemente observamos:

curtiu
clicou
assistiu
compartilhou
seguiu
comprou

e tentamos inferir alguma coisa.

Em conversas com IA o próprio usuário frequentemente fornece:

"meu problema é..."

"não entendo..."

"estou considerando..."

"tenho duas alternativas..."

"minha arquitetura funciona assim..."

"por que isso aconteceu?"

"qual opção você escolheria?"

Isso pode representar contexto cognitivo muito mais explícito.

Não devemos concluir daí que provedores estejam oferecendo conversas privadas para terceiros. Estamos construindo um modelo hipotético de ameaça.

Mas defensivamente precisamos perguntar:

Qual seria o impacto se determinado corpus conversacional fosse indevidamente exposto?

Essa pergunta basta.


🎭 Moriarty não quer apenas saber o que aconteceu

Nosso professor do crime imaginário está interessado também em:

incerteza.

Considere:

“Não sei se devemos migrar X para Y.”

Essa frase revela mais do que parece.

Ela sugere:

X existe.

Y é considerado.

há uma decisão pendente.

o autor participa da discussão.

existe incerteza.

Isso é extraordinariamente interessante para inteligência.

Não estamos observando somente uma decisão passada.

Estamos observando o espaço de possibilidades anterior à decisão.


⚖️ O advogado entra novamente na sala

Voltemos ao artigo original.

Ele argumenta que informações identificáveis de clientes merecem atenção especial e recomenda práticas como anonimização e ambientes apropriados para informações sensíveis.

Nosso Supermosaico acrescenta outra preocupação.

Um advogado pode registrar:

processo;
estratégia;
dúvidas;
hipóteses;
limites de negociação;
fragilidades percebidas;
possíveis argumentos.

Novamente, isso não significa que a contraparte consiga simplesmente acessar essas conversas.

Não consegue.

Seria necessário algum evento adicional de exposição, comprometimento ou falha de governança.

Mas o impacto potencial do corpus merece entrar no threat model.


⚔️ A assimetria computacional

Imagine:

ZÉ DA SILVA
     │
advogado pequeno
notebook
tempo limitado
     │
     VS
     │
MEGACORP S/A
     │
equipe jurídica
especialistas
bases jurídicas
engenharia
automação
análise documental
IA

IA pode democratizar recursos antes inacessíveis ao pequeno advogado.

Isso é excelente.

Mas também pode industrializar capacidades de grandes organizações.

Temos duas forças simultâneas:

IA → DEMOCRATIZAÇÃO

IA → CONCENTRAÇÃO

Qual vencerá?

Provavelmente dependerá de acesso, custo, regulação, educação e governança.


🛡️ Como derrotar Moriarty sem abandonar IA

A resposta não é:

“Proibam tudo!”

Isso desperdiçaria uma tecnologia extraordinariamente útil.

O próprio artigo que iniciou nossa reflexão defende uma abordagem de governança em vez da simples interrupção do uso da IA.

Precisamos tornar Moriarty caro.

1. Separar identidades

PESSOAL ≠ PROFISSIONAL

2. Separar clientes

CLIENTE A ≠ CLIENTE B

3. Separar projetos

Não criar desnecessariamente um Supermosaico.

4. Minimizar

Pergunte:

“A IA realmente precisa saber isso?”

5. Sanitizar

Troque:

BANCO-REAL-XYZ

por:

CLIENTE-A

quando o detalhe real não for necessário.

6. Remover segredos

Tokens, credenciais, dados pessoais, dumps completos e informações confidenciais não devem passear livremente por prompts.

7. Governar retenção

A organização precisa saber onde conversas corporativas ficam e qual é seu ciclo de vida.

8. Governar consultores

A política precisa alcançar terceiros adequadamente, não somente empregados.

9. Pensar cumulativamente

Pergunte não apenas:

“Este prompt é perigoso?”

mas:

“O que cem prompts como este revelariam?”

10. Modelar Knowledge Privilege

Identifique não apenas quem possui grandes permissões.

Identifique funções que possuem enorme contexto institucional.


🔬 Um Red Team diferente

Podemos testar tudo isso sem atacar ninguém.

Crie uma empresa fictícia.

Um banco chamado:

BANCO MORIARTY S/A

Crie:

Carlos — N3 CICS
Maria — DBA
João — arquiteto
Ana — consultora
Watson — segurança

Produza informações sintéticas.

Simule um ano de prompts permitidos.

Depois entregue somente esse corpus para outro time autorizado e pergunte:

“O que vocês conseguem reconstruir sobre nossa empresa fictícia?”

Arquitetura?

Dependências?

Pessoas?

Sistemas críticos?

Cronologia?

Regras de negócio?

Tecnologias?

Incidentes?

Se o resultado for surpreendentemente detalhado, encontramos uma deficiência de governança sem comprometer uma única empresa real.

Esse seria um belíssimo exercício de Red Team de conhecimento.


🕒 03:17 — O incidente

Às 03:17 da madrugada, o telefone toca.

Produção está normal.

Nenhum dataset foi copiado.

Nenhum usuário RACF utilizou SPECIAL.

Nenhum arquivo de 40 GB saiu pela rede.

Nenhum pendrive apareceu.

Nenhum source foi publicado.

Nenhum alarme tradicional disparou.

Watson olha para Moriarty:

“Então não houve incidente?”

Moriarty toma tranquilamente seu café.

“Meu caro Watson... você ainda está procurando o arquivo.”

Sobre a mesa existem 12.847 pequenas tesselas.

Uma transação aqui.

Uma regra ali.

Um incidente acolá.

Uma decisão arquitetural.

Uma dependência.

Um fornecedor.

Uma exceção.

Uma dúvida.

Uma história de vinte anos resumida por alguém em cinco linhas.

Watson começa a juntar as pedras.

A figura aparece.

Não existe MEGACORP-SECRETS.ZIP.

Nunca existiu.

Existe algo potencialmente muito mais interessante:

conhecimento.


☕ A última lição do Dr. Moriarty

Durante décadas construímos excelentes mecanismos para responder:

Quem pode acessar este dado?

RACF responde isso maravilhosamente no mainframe.

IAM responde.

PAM responde.

ACL responde.

MFA ajuda.

Zero Trust ajuda.

DLP ajuda.

Mas IA nos obriga a acrescentar novas perguntas:

Quem pode externalizar esse conhecimento?

Quanto contexto pode ser acumulado ao longo do tempo?

Que informação aparentemente inocente se torna sensível quando correlacionada?

Onde termina experiência profissional e começa memória corporativa portátil?

O que acontece com o corpus depois que o funcionário ou consultor deixa a organização?

Qual é o blast radius do comprometimento de uma identidade que possui anos de conversas profissionais?

E principalmente:

Estamos protegendo somente aquilo que nossos funcionários acessam ou também os lugares onde eles passaram a registrar aquilo que sabem?

Essa talvez seja uma das grandes discussões de segurança da era da Inteligência Artificial.

Não significa abandonar IA.

Significa amadurecer sua utilização.

O profissional que pergunta corretamente para uma IA pode produzir em minutos algo que anteriormente consumiria horas.

Isso é fantástico.

Mas justamente por querermos respostas melhores somos incentivados a fornecer mais contexto.

E contexto é conhecimento.

Conhecimento acumulado cria mosaicos.

Mosaicos correlacionados criam Supermosaicos.

Portanto, sob a tutela do Dr. Moriarty, terminamos com uma regra simples:

O maior segredo talvez não esteja em nenhuma tessela. O segredo pode ser a imagem que aparece quando alguém consegue juntar tesselas suficientes.

E Sherlock Holmes provavelmente acrescentaria:

“Proteja as pedras, Watson.”

Moriarty sorriria.

“Não. Proteja as relações entre elas.”

Bellacosa Mainframe — onde até um simples prompt pode acabar virando uma tessela no mosaico.

terça-feira, 1 de setembro de 2026

🚨 Você ainda acha que COBOL é só MOVE, PERFORM e uma tela verde? Agosto provou que o mainframe continua muito mais vivo — e perigoso — do que muita gente imagina.

 

Bellacosa Mainframe e o resumo da atividade em Agosto de 2026

🚨 Você ainda acha que COBOL é só MOVE, PERFORM e uma tela verde? Agosto provou que o mainframe continua muito mais vivo — e perigoso — do que muita gente imagina.



Um desenvolvedor COBOL não precisa virar especialista em tudo de uma noite para a outra. Mas precisa entender o cenário onde seu programa trabalha: dados no Db2, transações no CICS, operações no z/OS, integrações modernas, segurança, nuvem, containers e, agora, Inteligência Artificial.

Durante agosto, o El Jefe Midnight Lunch publicou artigos para quem quer sair do modo “apenas mantenho programa legado” e enxergar o ecossistema completo do IBM Z.

Temos conversas sobre:

  • IA sem perfume de PowerPoint: limites, riscos, alucinações, automação e pensamento crítico;

  • COBOL, CICS e Db2 explicados com exemplos, incidentes e histórias que ajudam a fixar o conceito;

  • Kubernetes e arquitetura moderna traduzidos para quem conhece batch, JCL, transação e produção de verdade;

  • Red Team, golpes digitais, segurança e contas fantasmas;

  • casos reais de falhas, migrações e decisões técnicas que custaram caro;

  • curiosidades, cultura pop, humor e aquelas perguntas que normalmente não aparecem no treinamento oficial.

Porque aprender mainframe não é decorar comandos. É entender por que um S0C7, um -805, um ABEND, uma regra mal escrita ou uma mudança aparentemente pequena podem parar um processo inteiro.

Passe pelos artigos de agosto, escolha um tema que provoque sua curiosidade e venha tomar esse café. O mainframe continua processando o mundo — e ainda tem muito segredo escondido no spool.

🔗 https://eljefemidnightlunch.blogspot.com/2026/08/



Resumo de Agosto de 2026


https://dio.me/articles/voce-ainda-acha-que-cobol-e-so-legado-move-perform-e-uma-tela-verde-f6320bc08379


domingo, 23 de agosto de 2026

O Coelho Branco da Censura

 

Bellacosa Mainframe em historias da epoca da censura

☕ Um Café no Bellacosa Mainframe

O Coelho Branco da Censura

Ou: enquanto a Rainha de Copas procurava grandes inimigos, talvez a informação simplesmente pegasse o ônibus


Existem histórias sobre censura que começam com generais.

Outras começam com jornalistas.

Algumas começam com compositores, escritores, cineastas, estudantes, sindicalistas, intelectuais ou políticos.

Esta começa com um sujeito olhando desesperadamente para o relógio.

Ele tem uma pasta debaixo do braço.

Alguns envelopes.

Talvez uma guia que precisa ser carimbada.

Uma assinatura que precisa buscar.

Um documento que deveria ter chegado ao outro lado da cidade quinze minutos atrás.

O ônibus não vem.

Ele olha novamente para o relógio.

Está atrasado.

Muito atrasado.

E, em algum escritório distante, existe uma Rainha de Copas corporativa pronta para berrar:

CORTEM-LHE A CABEÇA!

Ou, traduzindo para o português empresarial:

— Se você não entregar isso hoje, está na rua!

Nosso personagem não é jornalista.

Não é líder estudantil.

Não é guerrilheiro.

Não é agente secreto.

Não usa sobretudo.

Não possui câmera escondida dentro de uma caneta.

Não sabe artes marciais.

Provavelmente não dirige um Aston Martin.

Ele é apenas...

o office-boy.

O coadjuvante do coadjuvante.

E justamente por isso talvez seja uma das figuras mais interessantes para pensarmos quando falamos sobre circulação de informação num mundo anterior à Internet.



🐇 O Coelho Branco da burocracia

Quem viveu o escritório brasileiro antes da digitalização conhece aquele personagem.

— Leva isso ao banco.

— Passa no cartório.

— Entrega esse envelope.

— Busca assinatura no doutor Fulano.

— Depois vai à gráfica.

— Aproveita e deixa isto no prédio da Rua Boa Vista.

— Volta antes das quatro.

O garoto pega a pasta.

Olha para o relógio.

E começa a correr.

🐇💨

É difícil imaginar metáfora melhor que o Coelho Branco de Alice no País das Maravilhas.

Sempre atrasado.

Sempre atravessando portas.

Sempre desaparecendo por corredores.

Só que nosso Coelho Branco pega ônibus.

Entra numa repartição.

— É aqui que entrega?

— Terceiro andar.

Terceiro andar:

— Não, mudou para o prédio ao lado.

Prédio ao lado:

— Falta o carimbo.

— Onde carimba?

— No primeiro prédio.

CARALHO.

Volta correndo.

E Lewis Carroll provavelmente teria reconhecido imediatamente aquele universo.

Porque poucas coisas são tão próximas do País das Maravilhas quanto uma burocracia que exige um documento para fornecer o documento necessário para solicitar o documento anterior.



👑 A Rainha de Copas

Agora mudemos a câmera.

Estamos durante a ditadura militar brasileira.

Existe censura.

Textos são examinados.

Músicas são vetadas.

Filmes enfrentam cortes ou proibições.

Peças encontram obstáculos.

Reportagens podem desaparecer.

Há documentos, pareceres, processos, cópias, formulários e decisões circulando por estruturas administrativas.

E a imagem tradicional que construímos desse sistema costuma olhar para cima.

Quem mandava?

Quem censurava?

Quem foi censurado?

Quem resistiu?

Quem assinou?

Quem foi preso?

Quem publicou?

Perguntas fundamentais.

Mas existe outra pergunta muito menos glamourosa:

quem carregava os papéis?



📂 Para censurar uma informação, alguém precisa conhecê-la

Existe um pequeno paradoxo operacional em qualquer sistema de censura.

Para decidir que alguma coisa não deve circular, alguém precisa primeiro ter acesso àquilo.

A música precisa ser ouvida.

O texto precisa ser lido.

O filme precisa ser assistido.

O roteiro precisa ser analisado.

O jornal precisa ser examinado.

Isso gera registros.

Cópias.

Pareceres.

Anotações.

Protocolos.

Pessoas.

Em linguagem de mainframe:

CONTENT_STATUS = BLOCKED
REASON_CODE    = CENSURA
PAYLOAD        = RESTRICTED

O censor tenta eliminar o payload público.

Mas cria metadados.

E às vezes o metadado mais poderoso de todos é simplesmente:

CENSURADO

Porque essa palavra comunica duas coisas simultaneamente.

A primeira:

Você não pode ver isto.

A segunda:

Existe aqui alguma coisa que alguém não quer que você veja.

Adivinhe qual das duas interessa mais ao chimpanzé.

🐒

— Onde?



📰 O ancestral analógico do “não olhe”

Muito antes de Google, Twitter, Facebook, Reddit, TikTok ou qualquer algoritmo de recomendação, já existia um fenômeno profundamente humano:

proibir pode aumentar a curiosidade.

Isso não significa que censura seja ineficiente.

Seria historicamente absurdo afirmar isso.

Censura destruiu carreiras, impediu circulação de obras, dificultou acesso à informação e foi acompanhada por repressão muito mais séria que simplesmente riscar algumas linhas de jornal.

Mas existe uma diferença enorme entre:

informação invisivelmente eliminada

e

informação visivelmente proibida.

Quando o público percebe a intervenção, nasce uma pergunta:

O que havia ali?

E perguntas são criaturas perigosas.

Porque viajam sem precisar de papel.



📻 A informação aprende a procurar outra estrada

Uma música é proibida.

Mas alguém conhece a letra.

Outro ouviu num show.

Outro possui uma gravação.

Outro conta para um amigo.

Um texto desaparece.

Mas existe uma cópia.

Um mimeógrafo.

Uma universidade.

Uma redação.

Uma mala vindo do exterior.

Um filme não pode circular oficialmente.

Mas alguém encontra uma fita.

Outra pessoa copia.

Uma terceira leva para outra cidade.

Um quarto sujeito assiste.

Depois conta para vinte.

A arquitetura oficial funciona assim:

CENTRALIZAR → INSPECIONAR → AUTORIZAR

A cultura responde:

COPIAR → DISTRIBUIR → RECONTAR

De repente temos algo muito parecido com uma rede peer-to-peer.

Só que os peers usam sapatos.



🚌 Napster de ônibus

Hoje é fácil esquecer o custo físico da informação.

Copiar um arquivo:

Ctrl+C

Copiar uma fita cassete exigia outra fita.

Copiar VHS exigia equipamento e tempo.

Mimeografar exigia papel, matriz e tinta.

Fotocopiar custava dinheiro.

Transportar informação exigia pernas.

Carro.

Trem.

Ônibus.

Correio.

Mala.

E gente.

Muita gente.

A rede social existia antes da rede social.

Só não tinha botão Compartilhar.

Tinha:

— Passa isso para o Carlos.



🕵️ Todo mundo procura James Bond

Quando pensamos em vazamento de informação, nossa imaginação procura imediatamente alguém importante.

Um agente infiltrado.

Um funcionário graduado.

Um jornalista famoso.

Um intelectual.

Um opositor conhecido.

Alguém que mereça relatório, fotografia e vigilância.

Porque histórias gostam de protagonistas.

E instituições também.

Se chega à mesa de um chefe:

“Possível jornalista ligado à oposição.”

Interessante.

Investigue.

Agora chega:

“Office-boy de dezenove anos levou alguns envelopes para outro prédio.”

— E daí?

Aí mora uma vulnerabilidade organizacional maravilhosa.

Não porque office-boys fossem automaticamente agentes clandestinos.

Não eram.

Não devemos transformar uma possibilidade estrutural numa afirmação histórica sem documentação.

Mas porque sistemas frequentemente confundem:

baixo status

com

baixa relevância informacional.

E essas coisas não são iguais.



🔐 LOW PRIVILEGE, HIGH MOBILITY

O diretor possui poder.

Mas passa boa parte do dia dentro de determinada estrutura.

O office-boy possui quase nenhum poder.

Mas atravessa estruturas.

Diretoria.

Financeiro.

Banco.

Correio.

Cartório.

Gráfica.

Fornecedor.

Outro escritório.

Outra repartição.

Outra portaria.

Outro office-boy.

Ele pode possuir:

LOW FORMAL PRIVILEGE

mas simultaneamente:

HIGH PHYSICAL MOBILITY

HIGH CONTACT SURFACE

INCIDENTAL INFORMATION ACCESS

Para um profissional moderno de segurança, isso deveria soar familiar.

Porque aprendemos dolorosamente que uma conta aparentemente insignificante pode representar um caminho excelente até alguma coisa importante.



👻 A invisibilidade social

Existe ainda uma propriedade mais interessante.

Algumas pessoas tornam-se invisíveis não porque ninguém literalmente as veja, mas porque são percebidas como parte do ambiente.

O motorista está dirigindo.

A copeira está servindo café.

O faxineiro está limpando.

O porteiro está na porta.

O técnico está consertando alguma coisa.

O office-boy está esperando o envelope.

E pessoas conversam.

Às vezes conversam como se ninguém estivesse ali.

Deixam papéis sobre mesas.

Comentam nomes.

Discutem decisões.

Entregam envelopes.

Porque aquele sujeito não pertence ao círculo de poder.

Ele é cenário.

Só que cenário também possui olhos.

E ouvidos.

Daí nasce uma frase que merece ficar:

Invisibilidade social pode produzir visibilidade informacional.



🕸️ O organograma mentia

Pegue um organograma antigo.

Presidente.

Diretor.

Gerente.

Supervisor.

Funcionário.

Tudo perfeitamente hierárquico.

Agora desenhe outra rede por cima:

office-boy ↔ recepcionista ↔ motorista ↔ gráfica ↔ banco ↔ outro office-boy ↔ estudante ↔ jornalista ↔ músico

Essa rede não aparece no organograma.

Mas existe.

São relações construídas esperando elevador.

Tomando café.

Entregando documento.

Encontrando sempre o mesmo funcionário no protocolo.

Pegando ônibus.

Fazendo favor.

— Quando passar lá, entrega isso para mim?

Pronto.

Criamos outra aresta.

O organograma descreve autoridade.

Não necessariamente descreve circulação.



📼 A cópia que misteriosamente não morreu

E então chegamos às histórias deliciosamente nebulosas daquele período.

Uma obra desaparece oficialmente.

Mas reaparece.

Uma música proibida continua sendo conhecida.

Um texto circula.

Um panfleto aparece.

Uma gravação atravessa fronteiras.

Um filme encontra algum caminho alternativo.

Às vezes sabemos como.

Outras vezes a cadeia de transmissão se perde.

Décadas depois sobra apenas:

“Alguém conseguiu uma cópia.”

Quem?

Não sabemos.

E talvez justamente aí esteja uma das partes mais fascinantes da história da informação.

Nós lembramos de quem escreveu.

Lembramos de quem cantou.

Lembramos de quem dirigiu.

Lembramos de quem proibiu.

Mas frequentemente esquecemos de quem:

carregou.



🐇 O coadjuvante do coadjuvante

Imagine nosso personagem novamente.

Ele não está tentando derrubar governo nenhum.

Talvez nem saiba exatamente o que existe dentro da pasta.

Está preocupado com uma coisa muito mais urgente:

o ônibus está atrasado.

Olha o relógio.

Corre.

Entra no prédio.

Sobe.

Desce.

Pega assinatura.

Recebe outro envelope.

Alguém diz:

— Leva isso também.

Ele coloca na pasta.

E continua.

Enquanto a Rainha de Copas procura inimigos importantes...

🐇💨

...o Coelho Branco atravessa outra porta.

Essa é a imagem que me interessa.

Não porque possamos afirmar que todo office-boy era mensageiro clandestino.

Mas porque ela revela uma verdade organizacional muito maior:

Informação importante não precisa ser transportada por pessoas importantes.


💾 O office-boy desapareceu. A vulnerabilidade não.

Avancemos quarenta anos.

O office-boy praticamente desapareceu de muitos escritórios.

Documentos viraram arquivos.

Assinaturas viraram certificados.

Correspondência virou e-mail.

Memorandos viraram mensagens.

Pastas viraram diretórios.

O Coelho Branco ganhou login.

E então descobrimos:

conta de serviço esquecida;

usuário terceirizado;

credencial antiga;

fornecedor;

estagiário;

API mal configurada;

permissão herdada;

servidor legado.

O princípio permanece.

Todo mundo protege o CEO.

O atacante olha para a lavanderia.

Porque ninguém precisa invadir o portão principal do castelo quando existe uma janela lateral aberta.



🧠 Zero Trust encontrou o Coelho Branco

A segurança moderna criou expressões sofisticadas:

Least Privilege.

Need to Know.

Insider Threat.

Data Loss Prevention.

Zero Trust.

Por trás de todas existe uma descoberta pouco glamourosa:

não importa quanto poder alguém possui no organograma.

Importa:

o que consegue acessar, para onde consegue ir e o que consegue transportar.

O office-boy de ontem carregava envelopes.

A identidade digital de hoje carrega tokens.

Mudou o veículo.

Não mudou completamente o problema.



👑 A Rainha continua procurando protagonistas

Existe ainda uma lição para além da segurança.

Instituições adoram olhar para cima.

A imprensa olha para celebridades.

Empresas olham para executivos.

Governos olham para lideranças.

Historiadores olham para personagens conhecidos.

Algoritmos olham para aquilo que já possui atenção.

Enquanto isso, uma quantidade enorme de história acontece nas mãos de pessoas cujos nomes jamais chegam ao índice remissivo.

Alguém guardou aquele papel.

Alguém fez aquela cópia.

Alguém levou aquela fita.

Alguém entregou aquele envelope.

Alguém contou aquela história.

E provavelmente estava atrasado.



🐒 Os chimpanzés aparecem novamente

Evidentemente eles apareceriam.

Começamos falando sobre sonhos.

Fomos parar numa estação impossível da CPTM.

Depois loteria.

Depois Lost.

Depois números malditos.

Probabilidade.

Lei dos Grandes Números.

Um milhão de chimpanzés.

Imprensa.

Efeito VEJA.

Censura.

Vazamentos.

Office-boys.

Até que um sujeito atrasado olhando para o relógio resolveu atravessar correndo a história de Lewis Carroll.

Quando percebemos, havia outro artigo sobre a mesa.

Os chimpanzés são assim.

Você entrega uma máquina de escrever.

Eles devolvem uma banana.

Você pergunta sobre a banana.

Eles devolvem um artigo.



☕ Epílogo — A informação simplesmente pegou o ônibus

Talvez nunca saibamos quantas histórias sobreviveram porque alguém aparentemente irrelevante resolveu guardar alguma coisa.

Talvez nunca saibamos quantas informações atravessaram sistemas rígidos porque seus criadores observaram cuidadosamente os protagonistas...

e esqueceram dos figurantes.

Não devemos romantizar.

Havia risco.

Havia repressão.

Havia consequências reais.

E não devemos inventar heróis onde os documentos históricos não permitem encontrá-los.

Mas podemos aprender alguma coisa observando a arquitetura.

Sistemas de controle enxergam hierarquias.

Informação enxerga caminhos.

E caminhos podem passar pelos lugares mais improváveis.

Uma pasta.

Uma gráfica.

Um mimeógrafo.

Uma fita cassete.

Uma mala.

Um amigo.

Um office-boy.

Um ônibus.

Enquanto a Rainha de Copas procurava grandes inimigos, talvez alguma informação proibida estivesse simplesmente atravessando São Paulo no colo de um garoto desesperado porque precisava voltar ao escritório antes das cinco.

Ele olha para o relógio.

🐇

— Estou atrasado!

Corre.

A porta fecha.

O ônibus parte.

E dentro da pasta...

a história continua viajando.

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P.S. — O que meu pai nunca me contou

Depois de terminar este causo, fiquei diante de uma pergunta muito menos divertida que o Coelho Branco, a Rainha de Copas e o office-boy correndo atrás do ônibus:

eu teria coragem de escrever tudo isso naquela época?

Não sei.

É fácil imaginar coragem retrospectiva.

Hoje posso sentar diante de um computador, escrever sobre censura, questionar autoridades, fazer piada, publicar, pesquisar documentos e transformar até os mecanismos de repressão em personagens de uma história de boteco.

Naquele tempo, a conta era outra.

E talvez eu saiba disso não apenas pelos livros.

Meu pai foi militar da Polícia do Exército entre 1969 e 1970.

Décadas depois, quando passávamos pela região da Estação da Luz, eu percebia nele uma reação particular diante do lugar que eu associaria mais tarde ao antigo DOPS.

Eu era apenas o filho.

Não conhecia organogramas da repressão.

Não sabia distinguir DOPS, DOI-CODI, Polícia do Exército ou qualquer uma das engrenagens daquele sistema.

Mas criança não precisa conhecer organograma para perceber medo.

Basta conhecer o rosto do próprio pai.

Hoje conheço muito mais sobre aquele período do que conhecia então.

Mas existe uma coisa que continuo não sabendo.

O que exatamente meu pai sabia?

O que ouviu?

O que viu?

O que lhe contaram?

Por que aquele lugar provocava aquela reação?

Não sei.

E não vou completar a história por ele.

Seria fácil juntar as datas, seu serviço militar, aquele prédio e minha lembrança e construir uma narrativa perfeita.

Perfeita demais.

Seria pintar o alvo depois do tiro.

Seria colocar o nosso famoso sexto dedo.

Há histórias em que aquilo que não sabemos precisa permanecer escrito exatamente assim:

não sei.

Talvez ele simplesmente conhecesse a reputação daquele lugar.

Talvez tivesse ouvido histórias durante o serviço militar.

Talvez existisse alguma experiência que nunca compartilhou comigo.

Talvez a explicação fosse outra.

A resposta pertencia a ele.

E foi embora com ele.

Foi então que percebi que havia esquecido um personagem neste artigo inteiro.

Falamos sobre o censor.

Sobre o censurado.

Sobre o jornalista.

Sobre o músico.

Sobre a fita clandestina.

Sobre o panfleto.

Sobre o documento que escapava.

Sobre o office-boy que atravessava a cidade carregando envelopes.

Mas existe uma forma de informação muito mais difícil de encontrar nos arquivos:

aquilo que alguém decidiu nunca contar.

A reportagem censurada pode deixar um espaço em branco.

A música proibida pode deixar um processo.

O filme cortado pode sobreviver numa cópia.

O panfleto clandestino pode reaparecer quarenta anos depois dentro de uma caixa.

Mas uma história que alguém resolveu guardar consigo talvez não deixe documento algum.

Nenhuma assinatura.

Nenhum protocolo.

Nenhum carimbo.

Nenhum arquivo.

Apenas pequenos sinais.

Uma mudança de expressão.

Um silêncio inesperado.

Um olhar para determinado prédio.

Talvez uma frase interrompida.

E um filho que percebe que alguma coisa aconteceu ali, embora não saiba exatamente o quê.

Foi assim que compreendi outra dimensão da censura.

A mais eficiente talvez não seja aquela que coloca um carimbo vermelho sobre uma página.

É aquela que consegue fazer alguém pensar:

“É melhor não falar sobre isso.”

Nesse momento o censor já nem precisa estar presente.

O medo executa o programa sozinho.

E talvez seja por isso que não consigo responder heroicamente à pergunta que abriu este P.S.

Eu teria escrito este artigo naquela época?

Gostaria de dizer que sim.

Seria uma bela história.

Eu, enfrentando a Rainha de Copas, escondendo textos na pasta do Coelho Branco e mandando a censura para /dev/null.

Mas não sei.

Eu vi, muitos anos depois, algo daquele período ainda existir no rosto do meu pai.

Isso basta para desconfiar de qualquer coragem que eu invente retrospectivamente para mim mesmo.

Hoje posso escrever.

Posso perguntar.

Posso discordar.

Posso pesquisar.

Posso publicar.

Posso olhar para um documento marcado CENSURADO e perguntar o que havia embaixo.

E posso contar que meu pai serviu na Polícia do Exército entre 1969 e 1970 e que havia coisas sobre aquele tempo que ele nunca me contou.

Sem acusá-lo.

Sem absolvê-lo.

Sem completar os espaços vazios.

Apenas preservando aquilo que realmente sei.

Porque talvez os arquivos mais difíceis de recuperar sejam justamente aqueles que nunca chegaram a ser gravados.

Meu pai carregou alguma coisa daquele período.

Não sei o quê.

Mas lembro do seu rosto.

E há memórias que o tempo não consegue censurar.






Vagner Renato Bellacosa, IBM Champion e especialista em IBM Mainframe
IBM Z17 SYSTEM ONLINE
Sobre o autor

Vagner Renato Bellacosa

IBM Champion 2026 • Especialista em IBM Mainframe

Vagner Renato Bellacosa trabalha com IBM Mainframe desde 1988 , é IBM Champion e especialista em COBOL, CICS, Db2, z/OS e IBM Z. Compartilha experiências profissionais, conhecimento técnico, história da computação e práticas do universo mainframe para aproximar novas gerações das tecnologias que sustentam empresas, bancos e governos ao redor do mundo.

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