| Bellacosa Mainframe e as aventuras nas Termas Romanas em São Pedro do Sul |
Um andarilho por Portugal
São Pedro do Sul e suas Termas Romanas
Talvez seja isso que mais me emocione quando visito lugares muito antigos.
Não são apenas as ruínas, os monumentos, os reis ou as grandes datas escritas nos livros. É imaginar as pessoas anônimas que passaram por ali.
Olho para um velho banco de pedra, gasto pelo tempo, e penso que talvez alguém tenha se sentado exatamente naquele lugar há dois mil anos.
Um romano.
Depois dele, quem sabe um suevo, um visigodo, um mouro, um judeu, um cristão medieval, um camponês, um mercador, um soldado. Reis e rainhas atravessaram essas terras, mas incontáveis pessoas sem nome também deixaram ali pequenas marcas de sua existência.
Impérios nasceram e desapareceram.
Fronteiras mudaram.
Línguas morreram e outras nasceram.
Religiões chegaram, partiram, conviveram e entraram em conflito.
Mas a nascente continuou brotando.
O rio continuou correndo.
A terra continuou produzindo alimento.
E então, dois mil anos depois, aparece um brasileiro perdido.
Eu.
Caminho pelas mesmas pedras. Observo aquelas águas. Como alimentos produzidos naquela região e provo receitas cuja verdadeira origem talvez ninguém consiga mais determinar. Alguma preparação que uma avó aprendeu com outra avó, que aprendeu com outra, até que a memória se dissolve e sobra apenas a receita.
Existe algo de quase sagrado nisso.
Por isso tiro uma fotografia.
Não apenas para provar que estive ali.
Fotografo porque, durante uma fração de segundo, também passei a fazer parte daquela sucessão.
O romano não sabia quem se sentaria naquele banco depois dele.
O viajante medieval não imaginava que um brasileiro apareceria ali séculos mais tarde carregando uma pequena máquina capaz de aprisionar luz.
E eu também não sei quem encontrará minha fotografia.
Talvez ela sobreviva apenas alguns anos.
Talvez fique esquecida dentro de algum disco rígido, servidor, blog ou catálogo digital.
Talvez os formatos mudem, os computadores desapareçam e ninguém mais consiga abri-la.
Mas gosto de imaginar outra possibilidade.
Daqui a cinquenta anos, alguém poderá encontrar essa fotografia perdida em algum catálogo de memórias.
Talvez não saiba direito quem fui.
Verá um homem diante de pedras muito mais antigas do que ele e muito mais antigas do que eu.
E por alguns segundos haverá uma ligação estranha entre nós.
O romano que passou por ali há dois mil anos.
Eu, que visitei São Pedro do Sul em 2003.
E alguém que ainda nem nasceu, olhando minha fotografia em 2076.
Nenhum de nós se conheceu.
Mas todos estivemos, de alguma maneira, no mesmo lugar.
Talvez seja isso que chamamos de História.
Não apenas aquilo que os reis fizeram.
Mas a interminável passagem de pessoas comuns pelas mesmas pedras.
E naquele dia, por alguns instantes, eu também fui uma delas.
Relíquias arqueológicas romanas.
São Pedro do Sul tem fonte termais que propiciaram o assentamento humano desde a pré-historia, porem os romanos foram os primeiros a usa-lo em larga escala. Tanto que desde aquela época, salvo raras excessos, as termas continuam sendo exploradas.
Prova da grandeza deste pólo são as varias construções existentes: igreja românica, ponte romana e as termas.