sábado, 13 de agosto de 2022

“Vinte anos depois…”

 






“Vinte anos depois…”

Vinte anos depois, a memória coloriu tudo. Já não sei mais o que foi imaginação e o que foi realidade. Só sei que um dia, cansado e entediado com meu trabalho no Banco Real ABN Amro, entre planilhas, protocolos e o barulho das teclas, eu me perdi de mim mesmo.
As longas viagens de fretado até São Paulo me roubavam o brilho dos olhos e o resto da paciência. Era o tempo que escorria entre o asfalto e os fones de ouvido, enquanto eu sonhava em ser qualquer coisa, menos aquilo.

Meu namoro com a Giovana estava morno — e, ainda assim, eu me embriagava nos olhos dela, azuis como promessa de verão. Havia amor, havia encanto, mas também uma névoa. Um lado meu queria fincar raízes, casar, construir. O outro queria vento na cara, estrada, caos, Europa.
Ela estudava sem parar, obcecada, como quem luta contra o destino. Medicina era o sonho; Biologia, a realidade possível. E eu, perdido entre o amor e a inquietude, decidi chutar o pau da barraca.

Foi assim, sem mapa nem certeza, que nasceu a minha aventura.
Entre malas malfeitas e coragem improvisada, parti — não apenas para a Europa, mas para dentro de mim mesmo.

Deixando as deliciosas tarde de sábado, sentados no banco da praça, comendo algodão-doce, caminhando as margens do rio Camanducaia em Amparo, vendo preguiçosas capivaras, trocando deliciosos beijos e me encantando com lindos olhinhos azuis.

Às vezes lembrar sinto um pesar, aquele nó no estômago, imaginando o é se... mas tantas coisas aconteceram, que criaram toda uma nova narrativa emocionante e alucinante.

quinta-feira, 11 de agosto de 2022

Venha fazer parte da Historia

é nosso dever cívico, lutar pela democracia, participe e assine, faça a diferença. #Dionitos em Ação IBM #analistas #mainframe #cobol #liberdade #democracia #eleiçãoLivre
https://www.estadodedireitosempre.com/adesao/BF773B3C-52DC-4D05-B307-B64474E9D65C?t=li

quinta-feira, 4 de agosto de 2022

📺 Sessão Sala Especial – TV Record, anos 1980

 



📺 Sessão Sala Especial – TV Record, anos 1980
(No tom Bellacosa Mainframe, com memória de televisor de tubo, chiado VHF e cheiro de sofá de corino no verão.)


Ah, a década de 1980… quando televisão era compromisso, gravação era fita VHS de 3 cabeças e ninguém “pulava intro” porque ela era parte da experiência. Entre tantas sessões de filmes que marcaram gerações, uma brilha de forma quase mitológica para quem viveu a telinha daquela época: a Sala Especial, exibida pela TV Record.



⭐ O que era?

A Sala Especial era um slot semanal (ou quase isso — grade de TV dos 80 mudava como IPL com PARM mal ajustado) dedicado a filmes adultos – sensuais, eróticos, picantes, mas longe de pornografia explícita. Era o tipo de atração que começava tarde da noite, muitas vezes após o Jornal da Record, fazendo parte do que a gente hoje chamaria de softcore cinema nights.

Não era pornô. Era clima. Era expectativa. Era câmera lenta, música de saxofone e cortina balançando ao vento.
Era o máximo de “ousadia televisiva” que se podia ter sem precisar de codificador pirata.




🧬 Por que existiu?

A TV Record, ainda longe de ser a gigante evangélica que se tornaria nos anos 1990+, investia em programação para competir na guerra noturna com Globo e SBT. A Sala Especial foi parte do movimento das emissoras de buscar audiência no horário adulto, algo que também se via em:

📌 Cinema em Casa (SBT)
📌 Supercine / Sessão de Gala (Globo)
📌 Ciclo de Cinema Erótico (manjado nos 80 e início dos 90)



Mas a Sala Especial tinha um diferencial: trazia muitas produções da BOCA  DO LIXO PAULISTANA, com roteiros nada serio, historias malucas e títulos ainda mais malucos ainda, usando de duplo sentindo, os antepassados diretos do click bait. Às vezes aparecei um casting de primeira linha, mas era normalmente composto por estrelas decadentes. ou iniciantes no cinema artesanal brasileiro. 

Tipo  O Bom Marido, Como é Boa Nossa Empregada, Nos tempos da Vaselina, As cangaceiras eróticas, Pensionato de Vigaristas, Historias que nossas babas não contavam, Sábado Alucinante. Alguns eram  filmes de qualidade com boas história e elenco, outras eram a perversão pura. Mas sem pornografia.

Em 90 minutos de filmes, talvez uns 2 minutos de peitinho, 3 minutos de bumbum, nada de nudez frontal, simulações de cena sexual embaixo do lençol ou sombras, muito palavrão e ataque velado a ditadura, aos conservadores e a tradicional família brasileira. Nada comparado com os filmes europeus soft-porn que chegaram em 1990 em outros canais e mesmo com a internet e sua pornografia hardcore.




🔥 Como o público via?

Era praticamente um ritual urbano-suburbano-nacional:

  • Pai ligava a TV baixinho

  • Mãe fingia que ia dormir

  • Criança inventava de beber água às 23h45

  • Antena de VHF ajustada com Bombril

  • E lá estava ela: Sala Especial, em cores saturadas e néon imaginário.

Quem viveu… sabe. Quem não se lembra da Wilza Carla?




🎭 Curiosidades, fofocas & "print screen mental"

🥃 Filmes muitas vezes eram reclassificados com sinopses mais “poéticas” para driblar a censura.
📼 Muita gente usou VHS para gravar escondido — e escondia embaixo do guarda-roupa.
🔊 Trilha sonora quase sempre com sax ou sintetizador estilo Giorgio Moroder versão cafona.
📡 Em algumas cidades a transmissão era instável — formando o fetiche da imagem quase invisível.
🎞 Nos anos 90 a sessão sumiu — a TV mudou, a moral mudou, a concorrência ficou adulta demais.



🔐 Easter egg (Bellacosa Mainframe style)

Havia uma mística urbana entre adolescentes:

“Se acertar a sintonia fina no botão do televisor preto-e-branco, dá pra ver mais do que devia”.

Nunca confirmado. Nunca negado. Um mito majestoso dos 80.
Como achar EXIT em COBOL quando só te deram GOTO.


🔚 Em resumo

A Sala Especial da TV Record foi o soft-erotismo elegante do horário nobre tardio,
um pedaço de liberdade televisiva num Brasil pré-internet, pré-streaming, pré-tudo.
Era proibido para menores, liberado para insone e cultuado por quem descobria o mundo.

Um capítulo da televisão brasileira que hoje parece impossível —
mas que existe vivo e elétrico na memória RGB de quem esteve lá.

domingo, 10 de julho de 2022

🎬 Seção Especial – Cinema Contemporâneo: O Ruído da Tela

 


🎬 Seção Especial – Cinema Contemporâneo: O Ruído da Tela

“Por que os filmes de hoje não prendem?”

Você não está sozinho nesse sentimento. Muitos perceberam que o cinema contemporâneo frequentemente não emociona como antes — e há razões concretas para isso:


⚡ 1. O excesso de fórmula e previsibilidade

Estúdios modernos dependem de dados, pesquisas e algoritmos para prever o que gera lucro:

  • Franquias e universos compartilhados (Marvel, DC) dominam a produção.

  • Sequências e reboots são garantias de público.

  • Test screenings e focus groups moldam roteiros até o último detalhe.

Resultado: filmes seguros, previsíveis e sem risco — emoção quase zero, porque a narrativa já é conhecida antes de ser contada.


🌀 2. Ruído digital e atenção fragmentada

A atenção do público mudou: notificações, redes sociais e TikTok fragmentam o foco.
Estúdios respondem com filmes de ação rápida, cortes constantes e estímulos visuais exagerados.
O efeito: cansaço mental e sensação de superficialidade, especialmente para quem cresceu com cinema clássico ou histórias mais contemplativas.


💡 3. Cinema antigo: ritmo, imersão e complexidade

Filmes do século XX tinham:

  • Ritmo contemplativo — espaço para sentir e refletir.

  • Desenvolvimento profundo de personagens.

  • Uso magistral de enquadramento, luz, som e silêncio.

Essa combinação criava imersão emocional, algo que muitos blockbusters modernos sacrificam em prol do impacto imediato.


⚖️ 4. Não é nostalgia, é diferença de expectativa

A insatisfação não é falha sua. Você percebe mudanças de linguagem e percepção: o cinema atual é feito para atenção rápida, não para envolvimento profundo.
Seu gosto por narrativa e atmosfera mostra sensibilidade e refinamento, não defeito.


🌹 5. Sobrevivendo ao cinema moderno

  • Busque cineastas independentes ou de autor fora do mainstream.

  • Experimente cinema estrangeiro; eles frequentemente fogem da fórmula.

  • Retorne aos clássicos do século XX sem culpa.

  • Desligue distrações digitais: o cinema pede presença.


☕ Conexão Bellacosa

O cinema moderno, assim como redes sociais e relacionamentos, é muitas vezes ruído para nossos sentidos, projetado para manter atenção, não alma.
O antídoto? Escolher com cuidado o que consome, respeitar seu ritmo interno e manter espaço para experiência emocional genuína.

Porque, no fundo, a arte nunca perdeu valor — apenas mudou o canal de transmissão.

sexta-feira, 8 de julho de 2022

🔥 PARTE 2 — CLOUD PARA MAINFRAMEIROS RAIZ

 


🔥 PARTE 2 — CLOUD PARA MAINFRAMEIROS RAIZ

(Ou: “Explicando cloud pra quem já sobreviveu a VSAM corrompido, JCL sem SYSOUT e abend S0C7 às 17h35.”)

Pegue seu café, abra o SDSF no coração e vem comigo.


☁️ 1️⃣ EC2 — Explicado como se fosse uma LPAR (porque… é quase isso mesmo)

Na visão Bellacosa Mainframe:

👉 EC2 = LPAR com liberdade de adolescente que acabou de ganhar a primeira moto.

Enquanto a LPAR do z/OS é aquela coisa séria, parruda, certificada, com CPU, memória e I/O milimetricamente controlados pelo PR/SM…
EC2 é o “irmão caçula” moderninho, criado para escalar, quebrar e renascer com a facilidade de um RESTART JOB no JES2.

🧠 Tabela mental:

Conceito MainframeEquivalente Cloud
LPAREC2 Instance
CP / IFL / zIIPvCPU
HCD / IOCPFlavor / Instance Type
IPLBoot da VM
Hipervisor PR/SMHypervisor Xen/KVM da AWS
HLASM do sistemaAMI (Amazon Machine Image)

💡 Curiosidade estilo Bellacosa:

Se no mainframe você precisa abrir chamado, pedir mudança, esperar janela…
No EC2 você clica em “Launch Instance” e pronto.
Desprotegido? Sim.
Perigoso? Com certeza.
Divertido? Demais. 😎




☁️ 2️⃣ Kubernetes — explicado como se fosse um Sysplex adolescente

Se o Sysplex fosse um jovem rebelde, cheio de hormônios, tatuagem de “Available 99.999%”, e que adora brigar com todo mundo…
ele seria o Kubernetes.

🧠 Analogia oficial do Bellacosa:

Sysplex / Parallel SysplexKubernetes
Várias LPARs cooperandoVários nós (nodes)
XCF/XES faz o cluster conversarControl Plane/Gossip
WLM distribui workloadScheduler
CICS Regions, DB2 Data SharingPods/Deployments/StatefulSets
IPL, PARMLIBYAML (sim, YAML é o novo PARMLIB gagá)
VTAM / TCPIPkube-proxy / CNI

O Kubernetes faz balancing, reinicia container que cai, escala instâncias e mantém tudo estável — exatamente como um Sysplex faria…
Só que com muito mais drama, logs misteriosos e YAML torto.

🍜 Easter egg para Otakus da Infra:

“Pod” lembra aquelas cápsulas de dormir de anime cyberpunk?
Pois é, funciona parecido: cada pod é um mini-contâiner pronto para morrer no próximo deploy.
Kubernetes é puro shonen: luta, dor, respawn infinito.


☁️ 3️⃣ S3 — explicado como datasets SEM limite de extents (o sonho proibido)

Sim, meus caros…
O S3 é o dataset que o VSAM gostaria de ser quando crescer.

🤯 No S3:

  • Não tem EXTENT

  • Não tem SPACE=TRK

  • Não tem DSORG=PS

  • Não tem REPRO corrompendo dados

  • Você guarda TUDO e ele não reclama

🧠 Comparação:

MainframeS3
DatasetObjeto
Catálogo / VVDSBucket Index
SMS ClassStorage Class
HSM MIGRATE/RECALLLifecycle Policy
RACF DATASET ProfilesIAM Policies

O S3 é basicamente um GDG infinito que nunca dá “limit exceeded”.
Imagina um STORAGE que nunca vira “primary/secondary insufficient”.
É o paraíso dos operadores e o inferno de quem paga a conta.


☁️ 4️⃣ MAPA MÁGICO — Cloud explicado com equivalências Mainframe

🧵 CICS (transações)

→ Lambda, API Gateway, Fargate
(Pedacinhos rápidos de lógica servidos sob demanda.)

🔐 RACF (segurança, profiles, permissões)

→ IAM (políticas, usuários, roles, MFA, keys)

IAM é praticamente um RACF com interface bonitinha (mas tão complicado quanto RACF se você usar errado).

📄 JCL (orquestração de jobs)

→ CloudWatch Events, Step Functions, Terraform, CI/CD YAML
(Jobs em YAML… a vida é cruel.)

📬 JES2 (fila e roteamento de jobs)

→ SQS, SNS, EventBridge
(Filas, roteamento e distribuição — sem o charme do $HASP.)

🌐 VTAM (rede e sessões)

→ VPC, Subnets, Security Groups
(VTAM era o pai do networking, a VPC é o filho hipster dele.)

🤖 OPS/MVS, REXX, Automação

→ Lambda + EventBridge + API + Scripts
(O equivalente moderno ao operador ninja das madrugadas.)


🧙‍♂️ Bellacosa Dica Ninja

Se você entende bem mainframe, a cloud fica MUITO mais fácil, porque:

z/OS já fazia tudo antes da cloud existir.
Cloud = um Sysplex gigante e improvisado, distribuído pelo planeta.


quinta-feira, 7 de julho de 2022

🌠 「短冊」– Tanzaku: os papéis dos desejos que dançam com o vento

 


🌠 El Jefe | Bellacosa Mainframe apresenta:

「短冊」– Tanzaku: os papéis dos desejos que dançam com o vento

☕ Uma história onde o mainframe encontra o céu estrelado


Se você já viu uma árvore enfeitada com tiras coloridas de papel balançando sob o céu noturno de julho, parabéns — você testemunhou um dos rituais mais poéticos do Japão: o Tanzaku (短冊), os papelzinhos dos desejos do festival Tanabata (七夕).

Mas por trás daqueles papéis balançando graciosamente ao vento, há séculos de poesia, astronomia, amor e superstição — e, claro, umas boas fofoquices cósmicas.


🌌 A origem: amor, estrelas e caligrafia

O Tanzaku nasceu junto com o Tanabata Matsuri, o Festival das Estrelas, celebrado em 7 de julho.
A lenda fala de Orihime (a princesa tecelã) e Hikoboshi (o pastor de estrelas) — amantes separados pela Via Láctea, que só podem se encontrar uma vez por ano.

Durante essa época, o povo japonês começou a escrever poemas e desejos em pequenos papéis coloridos — os tanzaku — e pendurá-los em bambus, acreditando que o vento levaria os pedidos ao céu.

Os primeiros registros datam do período Heian (794–1185), quando a aristocracia japonesa já amava transformar tudo em arte, inclusive os sonhos.


🪶 O formato do sonho

O Tanzaku é uma pequena tira retangular de papel, tradicionalmente de washi (papel japonês feito à mão), e cada cor tem um significado simbólico — como se fosse o JCL dos desejos:

CorSignificado“Parâmetro espiritual”
🟦 AzulAprendizado, sabedoria//TANZAKU EXEC PGM=ESTUDO
🟥 VermelhoAmor, paixão, coragem//HEART DD DISP=SHR
🟩 VerdeSaúde, vitalidade//LIFE DD SYSOUT=*
🟨 AmareloAmizade, prosperidade//SOCIAL DD DISP=KEEP
⚪ BrancoPureza, introspecção//SOUL DD DCB=(RECFM=F)

As pessoas escrevem frases curtas — desejos, metas, orações ou até confissões românticas — e penduram nos ramos de bambu, símbolo de força e flexibilidade.


💫 Curiosidades que o El Jefe adoraria

  • 🎋 Depois do festival, os bambus com tanzaku costumam ser queimados ou lançados em rios, para que os desejos subam aos céus com a fumaça — um upload celestial.

  • 🖌️ Antigamente, estudantes escreviam pedidos para melhorar sua caligrafia, em homenagem à deusa tecelã Orihime.

  • 🌠 A prática foi inspirada na tradição chinesa do Qixi, que também celebra o encontro das estrelas Vega e Altair.

  • 📜 Monges zen veem no tanzaku um exercício de impermanência — o vento leva o desejo, o tempo leva o papel.


💕 Fofoquices do universo

Reza a lenda que, se chove no Tanabata, Orihime e Hikoboshi não conseguem se encontrar, e o choro dos amantes forma os rios da Terra.
Mesmo assim, há quem acredite que, quando o vento balança um tanzaku, é Hikoboshi sussurrando “vou te ver de novo”.

E no Japão moderno?
Os tanzaku viraram até memes!
Muita gente escreve desejos engraçados como “Quero férias pagas” ou “Tomara que meu chefe nunca descubra o bug de produção” 😂


📺 Tanzaku nos animes

Ah, o espírito dos desejos está em todo lugar no universo otaku:

🌌 “Your Name (君の名は)” — a ligação entre os protagonistas ecoa o mesmo fio invisível do Tanabata e seus desejos.
🎋 “Clannad” — há uma cena com tanzaku que representa esperanças e reconciliação familiar.
🌠 “Kimi ni Todoke” — os desejos românticos dos estudantes sob o bambuzal são puro Tanabata moderno.
“Cardcaptor Sakura” — um episódio inteiro mostra os tanzaku e a crença na magia dos pedidos inocentes.

E claro:
em muitos slice-of-life, o tanzaku é aquele toque final — o detalhe que transforma uma cena cotidiana num momento de poesia.


🌿 Dica Bellacosa Mainframe

Escreva o seu próprio tanzaku digital.
Abra seu terminal e digite:

DISPLAY "願い事: Que eu nunca perca a curiosidade pelos mistérios da vida."

Depois...
feche os olhos e imagine seu desejo sendo compilado no universo,
com retorno code 0000.


☕ Conclusão

O Tanzaku é mais do que papel e tinta — é um lembrete de que todo sonho precisa ser escrito, mesmo que o vento o leve embora.
Porque, no fim das contas, a esperança também precisa de um JOB agendado.


🎋 Bellacosa Mainframe – onde até os desejos têm um SYSOUT no céu.
Post do blog El Jefe, edição especial Tanabata Night.


segunda-feira, 4 de julho de 2022

Quando a inocência encontra o desejo — o desconforto de Usagi Drop



Quando a inocência encontra o desejo — o desconforto de Usagi Drop

(Um ensaio Bellacosa sobre limites, afeto e o que nos assusta na ficção)


🌸 O anime que começou com ternura

“Usagi Drop” é, à primeira vista, uma das histórias mais doces que o Japão já produziu.
Um homem adulto, Daikichi Kawachi, assume a criação de Rin — uma menina silenciosa e gentil, filha ilegítima de seu falecido avô.
A narrativa acompanha o florescimento de um vínculo puro, quase sagrado: o amor cotidiano, feito de cuidado, paciência e doçura.

Mas quem prestava atenção notava algo nas entrelinhas: uma ligação emocional profunda, complexa, e não totalmente inocente.
Um amor que, embora paternal, carregava um tipo de intimidade emocional intensa demais para ser simples.


🕊️ O salto que dividiu corações

Quando o mangá avançou no tempo e revelou Rin adulta, confessando seu amor por Daikichi, o público explodiu em raiva.
O que antes era terno tornou-se, de repente, incômodo.
Como aceitar que aquele vínculo — que representava a pureza — se transformasse em algo romântico?

Mas o choque revela algo sobre nós, não apenas sobre a autora.
Afinal, por que esse final parece tão errado, se no fundo muitos já o sentiram possível?


🧩 A psicologia do desconforto

O que Usagi Drop faz é tocar em um ponto raríssimo na ficção moderna:
a ambiguidade emocional.
O amor, quando vivido intensamente, nem sempre se encaixa em rótulos.
Entre o cuidado paternal e a admiração, há uma linha tênue — e é nela que o mangá dança, sem pedir desculpas.

O desconforto vem porque a autora expôs o que o leitor pressentia, mas não queria reconhecer.
Ela quebrou o pacto tácito de “pureza eterna”, e forçou o público a encarar uma emoção que não cabe na moral convencional.


🔥 A coragem (ou imprudência) de Yumi Unita

Yumi Unita não escreveu sobre romance proibido — escreveu sobre o tempo.
Sobre como duas pessoas podem crescer juntas e, ao amadurecer, ver seus papéis se dissolverem.
Ela quis mostrar que o amor muda de forma, e às vezes isso é bonito, às vezes é desconcertante.

Mas o público queria conforto, não reflexão.
Queria um final de laços familiares, não um espelho psicológico.
E quando a arte reflete o que a moral não quer ver, o autor vira vilão.


🧠 Entre o certo e o verdadeiro

Usagi Drop nos coloca diante de uma verdade incômoda:
as emoções humanas não obedecem fronteiras éticas com a mesma rigidez que os códigos sociais.
E a ficção, quando é honesta, nos obriga a olhar para isso.

Não é sobre justificar o final — é sobre entender o que ele revela.
Rin não é símbolo de incesto ou tabus.
Ela é metáfora da passagem do tempo, do afeto que cresce e se transforma, e da fragilidade com que o ser humano redefine seus vínculos.


💬 Comentário Bellacosa

O ódio ao final de Usagi Drop não nasceu de um erro da autora — nasceu do nosso desejo de que o amor fique no formato que nos conforta.
Mas o amor, na vida real, raramente respeita moldes.
Ele muda, confunde, às vezes dói.

Yumi Unita apenas ousou mostrar o que quase ninguém tem coragem:
que até a pureza pode amadurecer e que o amor, quando cresce demais, perde o rótulo e ganha humanidade.


Para pensar

Talvez Usagi Drop nunca tenha sido uma história sobre paternidade.
Talvez sempre tenha sido sobre como o tempo desfaz os papéis e deixa apenas o sentimento nu.

E talvez o desconforto que sentimos não seja sobre eles —
mas sobre o medo de que, dentro de nós, também haja afetos que não cabem nas definições que o mundo aceita.


Porque no fim, o que mais assusta em Usagi Drop não é o que a autora escreveu — é o que ela fez a gente sentir.