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sábado, 13 de agosto de 2022

“Vinte anos depois…”

 






“Vinte anos depois…”

Vinte anos depois, a memória coloriu tudo. Já não sei mais o que foi imaginação e o que foi realidade. Só sei que um dia, cansado e entediado com meu trabalho no Banco Real ABN Amro, entre planilhas, protocolos e o barulho das teclas, eu me perdi de mim mesmo.
As longas viagens de fretado até São Paulo me roubavam o brilho dos olhos e o resto da paciência. Era o tempo que escorria entre o asfalto e os fones de ouvido, enquanto eu sonhava em ser qualquer coisa, menos aquilo.

Meu namoro com a Giovana estava morno — e, ainda assim, eu me embriagava nos olhos dela, azuis como promessa de verão. Havia amor, havia encanto, mas também uma névoa. Um lado meu queria fincar raízes, casar, construir. O outro queria vento na cara, estrada, caos, Europa.
Ela estudava sem parar, obcecada, como quem luta contra o destino. Medicina era o sonho; Biologia, a realidade possível. E eu, perdido entre o amor e a inquietude, decidi chutar o pau da barraca.

Foi assim, sem mapa nem certeza, que nasceu a minha aventura.
Entre malas malfeitas e coragem improvisada, parti — não apenas para a Europa, mas para dentro de mim mesmo.

Deixando as deliciosas tarde de sábado, sentados no banco da praça, comendo algodão-doce, caminhando as margens do rio Camanducaia em Amparo, vendo preguiçosas capivaras, trocando deliciosos beijos e me encantando com lindos olhinhos azuis.

Às vezes lembrar sinto um pesar, aquele nó no estômago, imaginando o é se... mas tantas coisas aconteceram, que criaram toda uma nova narrativa emocionante e alucinante.

domingo, 8 de agosto de 2021

1995 — O Ano em que Queimei Meu Navio

 

Bellacosa Mainframe o ano em que sai da CESP

Um Café no Bellacosa Mainframe

1995 — O Ano em que Queimei Meu Navio

Ou: como um Técnico Nível IV abandonou uma pirâmide de carreira, enfrentou o Big Boss Boleto com uma espada que talvez não fosse de mithril e, sete anos depois, embarcou em Cumbica para descobrir até onde o mapa podia chegar


Prólogo — O velho professor encontra uma folha de papel

O velho Vagner está sentado diante do mainframe.

Barba grisalha.

Uma xícara de café esquecida ao lado do teclado.

Talvez um cachimbo apagado entre os dedos.

Na tela existem coisas que o rapaz de 1995 dificilmente reconheceria: APIs, cloud, inteligência artificial, DevOps, containers, interfaces modernas conversando com programas escritos décadas atrás.

Mas sobre a mesa há algo muito mais antigo.

Uma folha de papel.

Nela, uma pirâmide.

Não era desenho de criança.

Era meu futuro.

Eu havia desenhado os cargos que pretendia alcançar na Fundação CESP, os requisitos necessários, aproximadamente quantos anos levaria para atingir cada nível e aquilo que precisaria estudar e aprender.

Era uma espécie de CAREER PLAN artesanal, numa época em que ninguém ao meu redor chamava aquilo de roadmap profissional.

Eu tinha vinte e poucos anos e tentava desenhar o homem que seria aos quarenta.

O curioso é que o homem que chegou aos cinquenta acabou ficando grande demais para caber naquela folha.

Mas eu ainda não sabia disso.

Em 1995, aquela pirâmide era muito importante para mim.

E eu estava subindo.



1. Eu não estava fugindo de um emprego ruim

Esse detalhe precisa ficar muito claro.

Quando deixei a Fundação CESP, eu não estava fracassando.

Muito pelo contrário.

Eu trabalhava lá havia aproximadamente seis anos.

Tinha começado muito jovem.

Minha vida havia melhorado sensivelmente desde os primeiros anos. Eu havia saído do subúrbio e estava morando no Brás. Estava no terceiro ano da faculdade. Profissionalmente, recebera várias promoções.



Chegara a Técnico Nível IV.

Para mim aquilo quase parecia uma patente militar.

Técnico IV.

Havia orgulho naquele título.

Havia anos de trabalho dentro dele.

Havia conhecimento.

Havia noites estudando.

Havia experiência.

E, principalmente, havia um próximo nível claramente identificado.

Analista I.

Para desbloqueá-lo, faltava um requisito fundamental:

o diploma universitário.

Eu já estava no terceiro ano da faculdade.

Portanto, minha tela imaginária de RPG provavelmente seria parecida com isto:

╔══════════════════════════════════════╗
║         PROMOÇÃO PROFISSIONAL        ║
╠══════════════════════════════════════╣
║ Cargo atual: TÉCNICO NÍVEL IV        ║
║                                      ║
║ Experiência ................. OK     ║
║ Conhecimento ................ OK     ║
║ Tempo de empresa ............ OK     ║
║ Faculdade ................... 3º ano ║
║ Diploma universitário ....... LOCKED ║
║                                      ║
║ PRÓXIMA CLASSE: ANALISTA I           ║
╚══════════════════════════════════════╝

Eu conseguia enxergar o próximo degrau.

E depois dele havia outros.

A pirâmide estava funcionando.

Foi exatamente nessa hora que o diabo piscou o olho.



2. O Brasil mudava debaixo dos nossos pés

Para compreender aquela decisão, precisamos voltar mentalmente ao Brasil daqueles anos.

Quem começou a vida adulta depois da estabilização monetária talvez tenha dificuldade para imaginar o que significava viver numa economia em que preços, salários e expectativas mudavam constantemente.

Planos econômicos.

Inflação.

Indexadores.

Trocas de moeda.

Congelamentos.

Incerteza.

A URV havia sido introduzida em março de 1994 como unidade de conta, e em 1º de julho daquele ano ocorreu a conversão para o real. Portanto, quando tomei minha decisão em 1995, o real já circulava havia pouco mais de um ano. A memória do caos inflacionário anterior, entretanto, continuava muito próxima. O próprio Banco Central registra que a inflação acumulada em doze meses havia chegado a 4.922% em junho de 1994.

Ao mesmo tempo, outra palavra começava a aparecer cada vez mais:

privatização.

Dentro do setor elétrico paulista, aquilo não era uma discussão acadêmica.

Era uma possibilidade que podia modificar nossa vida.

O ambiente começou a mudar.

Havia pressão sobre salários, redução de benefícios e deterioração da sensação de segurança que anteriormente parecia acompanhar aquela carreira.

E havia um problema gigantesco:

gente.

Muita gente.

Empresas enormes não são reorganizadas como quem troca uma lâmpada.

Era possível imaginar redução de quadros, reestruturações, divisões e privatizações.

O que em 1995 ainda possuía boa dose de incerteza se materializaria nos anos seguintes. Em 1996, a imprensa já descrevia a CESP como submetida a uma reestruturação severa e discutia a venda de ativos e empresas do setor elétrico paulista. O processo avançaria depois para divisões e privatizações.

Mas cuidado.

Aqui existe uma armadilha narrativa.

Hoje sabemos o que aconteceu depois.

O Vagner de 1995 não sabia.



3. Não existe spoiler quando estamos vivendo

Quando contamos nossa própria história trinta anos depois, existe uma enorme tentação de transformar decisões acertadas em demonstrações de genialidade.

“Eu percebi tudo.”

“Eu sabia.”

“Eu previ.”

Bobagem.

Eu não possuía o dump do futuro.

Não havia:

//FUTURO JOB ...
//STEP01 EXEC PGM=PREVER1998

Eu tinha indícios.

Tinha preocupações.

Tinha minhas observações.

Tinha responsabilidades.

E tinha medo.

Muito medo.

Essa parte é importante.

Eu não entreguei minha carta de demissão como um herói de filme caminhando em câmera lenta enquanto alguma música épica tocava ao fundo.

Eu estava amedrontado.

Porque havia uma pergunta impossível de responder:

E se eu estiver errado?


4. O PDV aparece na dungeon

Surgiu então um Plano de Demissão Voluntária.

Quem aderisse receberia uma indenização interessante para deixar a empresa.

Era, na prática, a possibilidade de vender aquela posição profissional.

E comecei a pensar.

Pensei.

Pensei novamente.

Fiz contas.

Olhei para minha carreira.

Olhei para a faculdade.

Olhei para minha família.

Olhei para o futuro.

Olhei novamente para a CESP.

Eu tinha apenas 21 anos, mas possuía responsabilidades que não combinavam muito com a imagem despreocupada normalmente associada aos 21.

Minha família dependia de mim.

Não podia simplesmente apertar:

NEW GAME

e esperar que alguém pagasse minhas contas enquanto eu descobria minha vocação.

Foi então que apareceu aquele personagem que acompanha qualquer trabalhador durante toda a campanha.


5. Conheça o Big Boss Boleto

Todo RPG possui um chefe recorrente.

O meu era o boleto.

O boleto é extraordinário porque nunca morre.

Você derrota o boleto de agosto.

Ele reaparece em setembro.

Derrota setembro.

Outubro está esperando atrás da porta.

E o Big Boss ainda possui mini-bosses:

╔══════════ THE LEGEND OF BOLETO ══════════╗
║                                          ║
║ Aluguel ......................... LVL 99 ║
║ Faculdade ....................... LVL 80 ║
║ Alimentação ..................... LVL 70 ║
║ Transporte ...................... LVL 55 ║
║ Energia ......................... LVL 45 ║
║ Imprevisto ..................... LVL ??? ║
║                                          ║
║ FINAL BOSS: PRÓXIMO MÊS                  ║
╚══════════════════════════════════════════╝

O boleto possui uma característica maravilhosa:

ele não se sensibiliza com sonhos.

Você pode dizer:

— Estou me reinventando profissionalmente.

Ele responde:

— Vencimento dia 10.

— Estou buscando meu verdadeiro potencial.

— Multa de 2%.

— Estou numa jornada de autoconhecimento.

— Juros após o vencimento.

Por isso, abandonar a estabilidade não era uma aventura romântica.

Existiam consequências.


6. Dr. Adelmo pede que eu fique

Meu mentor, Dr. Adelmo, ficou chateado com minha decisão.

Disse para eu esperar.

Ficar mais um pouco.

As coisas poderiam melhorar.

Isso tornou tudo muito mais difícil.

Contrariar alguém que você considera idiota é fácil.

Contrariar alguém que respeita é outra história.

E ele possuía bons argumentos.

Eu era Técnico IV.

Estava cursando faculdade.

Faltava o diploma para que Analista I entrasse efetivamente no horizonte.

Tinha seis anos de empresa.

Uma carreira construída.

Uma pirâmide planejada.

Por que abandonar tudo justamente agora?

Talvez ele estivesse certo.

Talvez minha família estivesse certa.

Talvez eu estivesse prestes a cometer a maior besteira da minha vida.


7. “Você não tem juízo”

O pai da minha antiga namorada Cris também foi duro.

Onde já se viu fazer uma coisa dessas?

Funcionário de uma empresa daquela importância, com carreira, perspectivas, faculdade andando, simplesmente pedir para sair?

Não tinha juízo.

Minha própria família também me julgou.

Disseram que eu era insano.

Que talvez tivesse herdado a loucura de meu pai.

Para aquela geração, havia uma lógica muito poderosa:

conseguiu um bom emprego, segure.

E não posso sequer dizer que estavam sendo irracionais.

Eles estavam olhando para os dados disponíveis e chegando a uma conclusão.

Eu estava olhando para praticamente os mesmos dados e chegando a outra.

Só que havia uma resposta que eu ainda não sabia formular direito.

Décadas depois consigo:

Eu sou um Bellacosa.


8. Os Bellacosa não acreditam muito no fim do mapa

Minha família possui aventureiros.

Possui imigrantes.

Gente que saiu de algum lugar e começou novamente em outro.

E, se uma velha lenda familiar tiver algum fundo histórico, talvez existam até uns normandos perdidos nessa árvore genealógica.

Até comprovação genealógica, deixemos os normandos devidamente classificados como:

STATUS: FAMILY LEGEND
CONFIDENCE LEVEL: ?
COOLNESS FACTOR: 100

Mas a ideia me diverte.

Talvez exista uma certa dificuldade hereditária em acreditar que o mundo termina exatamente onde acaba o mapa conhecido.

O imigrante precisa pensar assim.

O aventureiro também.

Ele não sabe exatamente o que encontrará.

Vai mesmo assim.


9. Agosto de 1995 — COMMIT

Finalmente chegou o momento.

Entreguei a carta.

Agosto de 1995.

A decisão estava tomada.

Se isso fosse COBOL com SQL embutido, talvez fosse:

IF MEDO = TRUE
   AND RESPONSABILIDADE = TRUE
   AND FUTURO-CESP = INCERTO
   AND CONFIANCA-EM-MIM = TRUE

      MOVE 'S' TO PEDIDO-DEMISSIONARIO

      EXEC SQL
           COMMIT
      END-EXEC

END-IF.

O detalhe importante é o último comando.

COMMIT.

Depois dele não havia ROLLBACK.

Recebi a indenização.

E comecei outra vida.


10. Minha espada não era de mithril

Eu não tinha medo da luta.

Isso eu sabia fazer.

Trabalhar nunca havia sido o problema.

O medo era outro:

será que minha espada aguenta?

Eu acreditava em mim.

Mas acreditar não significa possuir certeza.

Será que meu conhecimento era suficiente?

Será que minha experiência tinha valor fora daquele ambiente?

Será que conseguiria outro trabalho?

Será que seria capaz de aprender aquilo que o mercado exigisse?

Será que sustentaria minha família?

Será que havia confundido coragem com imprudência?

Minha espada ainda não era de mithril.

Ou pelo menos eu não sabia se era.

Então comecei a lutar.


11. A primeira descoberta: derrota também dá XP

Os anos seguintes me ensinaram uma coisa que os videogames nem sempre reproduzem corretamente.

Na vida, perder uma batalha também pode gerar experiência.

Você perde dinheiro.

Perde tempo.

Perde uma oportunidade.

Machuca o orgulho.

Às vezes sai da dungeon quase sem HP.

Mas pode carregar conhecimento.

╔══════════ BATALHA PERDIDA ══════════╗
║                                     ║
║ Gold ....................... -500   ║
║ HP .......................... 11%    ║
║ Orgulho ..................... -35   ║
║ Equipamento .......... DANIFICADO   ║
║                                     ║
║ Experiência ............... +800    ║
║ Prudência ................. +25     ║
║ Conhecimento .............. +30     ║
║                                     ║
║ SKILL DESBLOQUEADA:                 ║
║ "NÃO FAÇA ESSA MERDA DE NOVO"       ║
╚═════════════════════════════════════╝

Essa skill é extremamente poderosa.

Algumas das minhas maiores forças profissionais nasceram de coisas que deram errado.

Uma vitória ensina:

funcionou.

Uma derrota obriga a perguntar:

por quê?

E essa pergunta pode valer muito XP.


12. Cada empresa era uma nova dungeon

Então comecei a descobrir um mundo que minha pirâmide de papel jamais conseguiria representar.

Novos lugares.

Novas pessoas.

Novas tecnologias.

Novos problemas.

Novas culturas empresariais.

Chefes excelentes.

Chefes nem tanto.

Colegas brilhantes.

Situações absurdas.

Cada novo ambiente acrescentava alguma coisa ao inventário.

E descobri outra coisa importante:

quando você muda de fase, não perde o XP das fases anteriores.

Eu podia ser iniciante numa nova tecnologia.

Mas não era mais iniciante em aprender.

Podia não conhecer determinado ambiente.

Mas já sabia observar.

Podia enfrentar um problema que nunca tinha visto.

Mas carregava comigo todos os problemas anteriores.

Progressivamente minha confiança deixou de ser:

“Eu sei fazer isso.”

E passou a ser:

“Eu ainda não sei fazer isso, mas provavelmente consigo aprender.”

Esse ainda vale uma fortuna.


13. A fabricação do conjunto de mithril

Ninguém apareceu oferecendo:

PARABÉNS! VOCÊ RECEBEU ARMADURA DE MITHRIL +10.

Ela foi sendo construída.

Uma peça de cada vez.

EXPERIÊNCIA PROFISSIONAL ......... +5
FACULDADE ........................ +5
NOVA TECNOLOGIA .................. +3
NOVO EMPREGO ..................... +4
PROBLEMA RESOLVIDO ............... +7
ERRO COMETIDO .................... +6
ERRO COMPREENDIDO ................ +12
CHEFE DIFÍCIL .................... +4
MENTOR EXCELENTE ................. +15
PROJETO COMPLICADO ............... +10
MADRUGADA EM PRODUÇÃO ............ +20
SOC7 ÀS TRÊS DA MANHÃ ............ ITEM RARO

Até que um dia você olha para trás e percebe:

caramba, estou usando mithril.

Mas existe uma surpresa.

O conjunto nunca fica realmente pronto.

Sempre aparece um monstro novo capaz de fazer você olhar para sua espada e pensar:

— Será que aguenta?

A diferença é que agora você possui cicatrizes suficientes para responder:

— Não sei. Mas já enfrentei coisa pior.


14. A pirâmide virou mapa

Na CESP, minha carreira era vertical.

             [ FUTURO ]
                ▲
            [ CARGO ]
                ▲
          [ ANALISTA I ]
                ▲
      [ TÉCNICO NÍVEL IV ]

Era uma excelente estrutura.

Depois de 1995, aquilo deixou de representar minha vida.

A pirâmide virou mapa.

E mapa é muito mais bagunçado.

Existem atalhos.

Montanhas.

Pântanos.

Pontes quebradas.

Cidades inesperadas.

Lugares aos quais você nunca deveria ter ido.

Outros dos quais jamais deveria ter saído.

E enormes áreas marcadas:

HERE BE DRAGONS.

O mais interessante é que cada nova conquista aumentava minha disposição para explorar.

Eu comecei a sonhar mais alto.


15. Dobrar a aposta

Primeiro, a pergunta era:

Consigo sobreviver fora da CESP?

Depois:

Consigo trabalhar em outro lugar?

Depois:

Consigo aprender outra tecnologia?

Depois:

Consigo entrar em outro setor?

Depois:

Consigo recomeçar?

E cada resposta positiva aumentava o tamanho da próxima pergunta.

As derrotas também ajudavam.

Porque depois de cair algumas vezes você aprende uma habilidade que não aparece em currículo:

levantar.

Então comecei a dobrar a aposta.

Outra aventura.

Outra.

Mais uma.

Até que, sete anos depois daquela carta, apareceu uma pergunta muito maior:

E se eu atravessar o Atlântico?


16. 2002 — Cumbica

Há momentos que dividem uma vida em duas partes.

Para mim, um deles aconteceu em 1995.

Outro aconteceu em 2002.

Aeroporto Internacional de São Paulo.

Cumbica.

Bagagem.

Passaporte.

Painel de partidas.

Europa.

Se em 1995 eu havia abandonado um navio, em 2002 estava literalmente embarcando para outro mundo.

Minha próxima dungeon ficava do outro lado do Atlântico.

E gosto de imaginar que, naquele instante, dentro da minha bagagem existia uma coisa invisível.

Aquela velha pirâmide da CESP.

Não necessariamente a folha física.

Mas tudo que ela representava.

Disciplina.

Planejamento.

Ambição.

Estudo.

Vontade de crescer.

O erro seria imaginar que abandonar a pirâmide significou abandonar essas características.

Foi justamente o contrário.

Eu levei tudo comigo.


17. Easter egg — a folha era pequena demais

Existe um pequeno easter egg nessa história.

Quando jovem, tentei desenhar meu futuro numa folha de papel.

E fiz corretamente.

Coloquei cargos.

Anos.

Conhecimentos.

Requisitos.

Estudos.

O problema não estava no planejamento.

O problema era outro.

A folha era pequena demais.

A Europa não cabia nela.

As futuras empresas não cabiam.

As tecnologias que ainda nem existiam não cabiam.

As pessoas que conheceria não cabiam.

As batalhas perdidas não cabiam.

As vitórias improváveis não cabiam.

O velho professor barbudo também não cabia.

E talvez essa seja uma das coisas mais importantes que um jovem programador pode aprender.


18. Planeje sua carreira — mas não adore o plano

Faça sua pirâmide.

Eu faria novamente.

Defina onde deseja chegar.

Descubra os requisitos.

Estude.

Construa experiência.

Calcule aproximadamente o tempo.

Procure mentores.

Conquiste seus níveis.

Mas periodicamente faça uma pergunta:

As premissas que usei para construir este plano continuam verdadeiras?

Programadores conhecem isso perfeitamente.

Um algoritmo pode estar correto e mesmo assim produzir uma solução inútil se os requisitos mudaram.

Carreira também sofre mudança de requisito.

Não confunda persistência com obrigação de continuar executando um plano cuja realidade mudou.

Ao mesmo tempo, não transforme minha história numa recomendação irresponsável para pedir demissão amanhã.

Eu tinha contexto.

Havia um PDV.

Havia indenização.

Eu estudava.

Tinha experiência.

Pensei bastante.

Tinha medo.

E possuía responsabilidades.

Coragem não é apertar DELETE em produção sem backup.

Isso se chama outra coisa.


19. E aqueles que ficaram?

Anos depois, parte das incertezas daquele período realmente se materializou.

O setor elétrico paulista passou por profunda reorganização. O processo de privatização avançou, empresas e ativos foram separados e vendidos; em 1997 ocorreu a privatização da CPFL, e em 1998 a reorganização do setor paulista avançou ainda mais. Estudos históricos do BNDES situam 1998 como um ano particularmente importante para as privatizações das concessionárias paulistas.

Alguns colegas que haviam criticado minha escolha acabaram enfrentando posteriormente desligamentos sem uma oportunidade equivalente àquela que eu havia aceitado.

Isso significa que eu era um gênio?

Não.

Significa que risco existe dos dois lados.

Essa talvez tenha sido uma das minhas primeiras grandes lições profissionais.

Ficar também é uma decisão.

Segurança absoluta frequentemente é apenas risco que aprendemos a não enxergar.


20. O verdadeiro conjunto de mithril

Trinta e um anos depois, finalmente consigo explicar ao garoto de 1995 uma coisa.

Ele estava fazendo a pergunta errada.

Ele perguntava:

“Minha espada é de mithril?”

Não era.

O mithril não estava na espada.

Estava sendo produzido nele.

Cada lugar.

Cada pessoa.

Cada professor.

Cada mentor.

Cada tecnologia.

Cada erro.

Cada acerto.

Cada viagem.

Cada medo vencido.

Cada boleto pago.

Cada situação em que tudo parecia perdido e, de alguma maneira, apareceu uma saída.

Isso formou a armadura.

A habilidade mais importante nunca foi conhecer uma determinada linguagem, sistema operacional ou tecnologia.

Foi descobrir:

eu consigo aprender novamente.

Porque tecnologias envelhecem.

Empresas desaparecem.

Produtos são descontinuados.

Mercados mudam.

Cargos mudam de nome.

O programador que constrói sua identidade exclusivamente sobre aquilo que conhece hoje corre um risco enorme.

O verdadeiro mithril é a capacidade de reconstruir o personagem.


Epílogo — Eu sou um Bellacosa

Voltemos a agosto de 1995.

Um garoto de 21 anos segura uma carta.

Atrás dele estão seis anos de Fundação CESP.

Técnico Nível IV.

Terceiro ano da faculdade.

Analista I esperando pelo diploma.

Uma pirâmide de cargos cuidadosamente desenhada.

Um mentor dizendo para ficar.

Uma família dizendo que aquilo era loucura.

O pai da Cris dizendo que aquele rapaz não tinha juízo.

Na frente existe neblina.

Nenhuma garantia.

Nenhum walkthrough.

Nenhum savegame.

Nenhum spoiler.

Apenas uma espada cuja resistência ele desconhece.

E o Big Boss Boleto esperando pacientemente pelo próximo mês.

O garoto assina.

COMMIT.

Agora imagine o velho professor barbudo aparecendo discretamente naquela sala.

Ele não pode revelar o futuro.

Seria trapaça.

Portanto não diz:

“Vai dar certo.”

Também não diz:

“Você chegará à Europa.”

Não conta sobre as empresas.

Não conta sobre as viagens.

Não conta sobre os computadores.

Não conta sobre os alunos.

Não conta sobre as histórias que um dia aquele garoto escreverá.

Apenas olha para a espada.

Dá uma tragada no cachimbo.

E diz:

— Ela ainda não é de mithril.

O garoto empalidece.

— Então estou ferrado?

O velho sorri.

— Não. Você entendeu errado.

Aponta para a estrada.

O mithril está lá.

E desaparece.

O garoto continua sem saber se tomou a decisão correta.

Mas segue.

Em cada aventura aprende alguma coisa.

Vence batalhas.

Perde outras.

Ganha XP.

Adquire equipamentos.

Troca de classe algumas vezes.

Descobre novos mapas.

E cada conquista lhe dá força para sonhar um pouco mais alto.

Até que chega 2002.

Cumbica.

Painel de partidas.

Europa.

O garoto que um dia desenhou uma pirâmide percebe que agora possui um planeta inteiro diante dele.

Pega a bagagem.

Caminha em direção ao portão.

Talvez aqueles supostos normandos da árvore genealógica tenham dado uma risadinha em algum lugar.

Talvez os antigos imigrantes Bellacosa tenham reconhecido a cena.

Porque algumas famílias deixam propriedades.

Outras deixam dinheiro.

Outras deixam títulos.

Talvez a minha tenha deixado outra coisa:

a curiosidade de descobrir o que existe depois da borda do mapa.

Em 1995 eu queimei meu navio.

Passei os anos seguintes construindo outro enquanto enfrentava o Big Boss Boleto e perguntava se minha espada aguentaria.

Em 2002, dobrei novamente a aposta e atravessei o Atlântico.

Hoje percebo que nunca encontrei o navio definitivo.

Ainda bem.

Porque talvez a maior conquista daquela decisão não tenha sido descobrir um porto seguro.

Foi descobrir que, se for necessário, sei construir outro barco.

E quando alguém perguntar por que um rapaz com seis anos de empresa, Técnico Nível IV, faculdade em andamento e Analista I quase desbloqueado resolveu abandonar uma carreira que estava funcionando, talvez eu finalmente tenha uma resposta.

Não é particularmente racional.

Também não cabe numa planilha.

Mas cabe perfeitamente nesta história:

Eu sou um Bellacosa.

Nós temos uma certa dificuldade histórica em acreditar que o mundo termina onde acaba o mapa.



sábado, 13 de julho de 2013

🍒 A Cereja e os Sabores da Memória

 

Bellacosa Mainframe e as memorias cerejianas

🍒 A Cereja e os Sabores da Memória

Existem frutas que gostamos.

Existem frutas que apreciamos.

E existem aquelas raras frutas que conquistam um lugar permanente no coração.

Para mim, essa fruta é a cereja.

Curiosamente, durante boa parte da infância eu acreditava conhecer cerejas.

Afinal, elas apareciam em bolos.

Enfeitavam tortas.

Descansavam sobre taças de sorvete.

E reinavam absolutas nas confeitarias dos anos 1980.

Mas havia um detalhe.

Aquilo não eram cerejas de verdade.

Ou melhor, eram cerejas que haviam sido transformadas em outra coisa.

Mergulhadas em caldas açucaradas.

Processadas.

Conservadas.

Doces demais.

Tão doces que pareciam uma caricatura da fruta original.

Foi apenas no final dos anos 1990 que experimentei uma cereja fresca pela primeira vez.

E foi amor à primeira mordida.

Lembro da surpresa.

Da textura firme.

Da polpa carnuda.

Daquele equilíbrio quase perfeito entre acidez e doçura.

Do caroço escondido no interior.

Dos cabinhos verdes que pareciam ter saído diretamente de uma ilustração de livro infantil.

Aquilo não se parecia com nada que eu havia provado antes.

Era uma experiência completamente diferente.

Uma fruta elegante.

Sofisticada.

Mas ao mesmo tempo simples.

Natural.

Perfeita.

Meu coração foi conquistado imediatamente.

Anos depois, quando a vida me levou para Portugal, descobri algo ainda mais maravilhoso.

A cereja não era apenas uma fruta apreciada.

Era praticamente uma instituição nacional do verão.

Foi lá que minha relação com ela atingiu outro nível.

Os mercados.

As feiras.

As quitandas.

As estradas do interior.

Tudo parecia repleto de cerejas.

Cerejas pequenas.

Grandes.

Mais doces.

Mais ácidas.

Mais escuras.

Mais claras.

Cada região possuía suas variedades.

Cada produtor defendia as suas como as melhores do mundo.

E eu, feliz da vida, fazia questão de experimentar todas.

Portugal me ensinou que a cereja não era uma única fruta.

Era um universo inteiro.

Vieram então os verões portugueses.

Os passeios.

As viagens.

Os almoços demorados.

As tardes quentes.

E aquele hábito delicioso de comprar um saco de cerejas e passar horas beliscando uma após a outra.

Uma felicidade simples.

Mas profundamente marcante.

A Espanha ampliou essa paixão.

A Itália reforçou a devoção.

E cada nova viagem parecia acrescentar mais um capítulo à minha história com essa pequena joia vermelha.

Mas seria impossível falar de cerejas sem lembrar da sua versão líquida.

A lendária ginjinha.

Aguardente.

Licor.

Patrimônio cultural.

Experiência obrigatória para qualquer visitante de Lisboa.

Quem já caminhou pelas ruas da Baixa sabe do que estou falando.

A pequena taça.

O aroma característico.

O sabor intenso.

A tradição centenária.

E, claro, as ginjinhas servidas com o fruto dentro do copinho.

Uma pequena obra-prima da gastronomia portuguesa.

E se existe um lugar onde a ginjinha parece ganhar uma dimensão quase mágica, esse lugar é Óbidos.

A antiga cidade medieval cercada por muralhas.

Ruas de pedra.

Casas brancas.

Flores nas janelas.

E visitantes do mundo inteiro caminhando por um cenário que parece congelado no tempo.

Ali, beber uma ginjinha é quase um ritual.

Uma celebração da história.

Da cultura.

E dos sabores que atravessam gerações.

Hoje percebo que minha paixão pela cereja vai muito além da fruta.

Ela se tornou uma cápsula de memória.

Uma ponte entre continentes.

Entre épocas.

Entre pessoas.

Cada cereja que provo me lembra uma viagem.

Uma conversa.

Um verão.

Uma descoberta.

Talvez seja por isso que ela continua sendo minha fruta favorita.

Porque alguns sabores alimentam o corpo.

Mas outros alimentam a alma.

E poucas frutas conseguiram fazer isso comigo tão bem quanto a humilde e extraordinária cereja.


sábado, 29 de dezembro de 2012

Itália 2012: quando o sistema entrou em degraded mode

 

Bellacosa Mainframe e uma visao do ano 2012 a vida na Italia

Itália 2012: quando o sistema entrou em degraded mode

2012 foi o ano em que a Itália começou a piscar no painel. Nada explodiu de vez, mas o operador atento sabia: o sistema estava em degraded mode. A crise de 2008, que parecia um incident distante no início, seguia rodando como job fantasma, consumindo recursos, corroendo margens, destruindo planos silenciosamente.

Para quem vivia ali, não era estatística. Era cotidiano.

A Itália pós-crise: beleza com rachaduras

A Itália de 2012 continuava linda. A arquitetura intacta, o café impecável, o pôr do sol cinematográfico. Mas por trás da estética, a máquina rangia. O custo de vida subia como process runaway, enquanto os salários encolhiam sem aviso prévio. Contratos mais frágeis, menos estabilidade, mais improviso.

O país parecia viver de herança cultural enquanto vendia o futuro a prazo.

Para um imigrante, isso pesa dobrado. Sem rede de proteção real, qualquer oscilação vira ameaça existencial.

O grande giro que virou plano de contingência

Havia um plano. Sempre há. Um grande giro pelo sul da Itália — Napoles e Puglia — seguido de uma travessia simbólica para a Grécia indo até Atenas. Um fechamento de ciclo, quase ritualístico. Um graceful shutdown antes da próxima fase da vida.

Mas planos, como sistemas, dependem de orçamento, previsibilidade e energia emocional. E em 2012, tudo isso começou a faltar.

O giro virou planilha. A viagem virou simulação. O sonho entrou em standby.

A tristeza técnica de ver um projeto ruir

Não foi uma tristeza dramática. Foi pior: uma tristeza técnica. Aquela sensação de ver um projeto bem desenhado ser desmontado não por erro conceitual, mas por falta de recursos. Não falhou porque era ruim. Falhou porque o ambiente mudou.

Quem trabalha com sistemas entende: há falhas que não se corrigem com talento.

A Itália de 2012 ensinou isso com elegância cruel.

Inglaterra como next possible node

Foi nesse contexto que a Inglaterra entrou no radar. Não como paixão, mas como viabilidade. Mercado maior, idioma global, promessa de salários menos comprimidos. Londres aparecia como um novo nó possível no cluster europeu.

Vieram os estudos: custo de vida, aluguel, transporte, impostos, visto, empregabilidade. Tudo frio, calculado, quase clínico. Quando o sonho quebra, a sobrevivência assume o comando.

Mas até ali já se percebia: a Europa inteira estava mais cara e menos generosa.

Salários caindo, vida encarecendo

Em 2012, ficou claro que algo estrutural havia mudado. A equação clássica europeia — custo alto compensado por estabilidade e salário — começou a falhar. Os salários estagnaram ou caíram. O custo de vida seguiu subindo. A promessa implícita do projeto europeu começou a se desgastar.

A crise de 2008 não era mais evento. Era estado permanente.

E estados permanentes redefinem destinos.

O retorno ao Brasil entra no roadmap

Foi assim que o Brasil voltou ao roadmap. Não como derrota, mas como alternativa lógica. Um sistema conhecido, com falhas crônicas, mas onde ainda havia espaço para reconfiguração. Onde o custo de vida, apesar de tudo, parecia mais proporcional às possibilidades reais.

Retornar deixou de ser tabu. Virou cenário plausível.

O operador começa a aceitar que talvez seja hora de encerrar a sessão.

Epílogo: quando sonhos viram logs

2012 não foi o fim imediato. Foi o ano da aceitação. O ano em que se entende que a crise de 2008 não destruiu apenas bancos — destruiu trajetórias pessoais. Lentamente, educadamente, sem pedir desculpas.

A Itália continuava linda.
A Grécia ainda chamava no horizonte.
A Inglaterra piscava como opção racional.
O Brasil reaparecia como retorno possível.

Mas algo essencial havia mudado:
o sonho europeu deixara de ser infinito.

E todo operador veterano sabe:
quando um sistema começa a consumir mais do que entrega,
não é questão de paixão —
é questão de viabilidade.

2012 foi o ano em que o projeto começou a ruir.
Não com estrondo.
Mas com silêncio, planilhas e decisões adiadas.

E às vezes,
é assim que os grandes ciclos terminam.

Vagner Renato Bellacosa, IBM Champion e especialista em IBM Mainframe
IBM Z17 SYSTEM ONLINE
Sobre o autor

Vagner Renato Bellacosa

IBM Champion 2026 • Especialista em IBM Mainframe

Vagner Renato Bellacosa trabalha com IBM Mainframe desde 1988 , é IBM Champion e especialista em COBOL, CICS, Db2, z/OS e IBM Z. Compartilha experiências profissionais, conhecimento técnico, história da computação e práticas do universo mainframe para aproximar novas gerações das tecnologias que sustentam empresas, bancos e governos ao redor do mundo.

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