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terça-feira, 4 de setembro de 2012

Viagem de Trem de Magenta a Novara


Um Café no Bellacosa Mainframe

🚂 O Trem Era Meu Portal Mágico — Pela Itália Rural entre Magenta e Novara

Pequenas cidades, pequenos campos, pequenas máquinas — e um brasileiro descobrindo pela janela do trem que tamanho não é medida de importância

Este pequeno vídeo da Itália rural faz parte de uma coleção muito maior de fragmentos que fui acumulando durante os anos em que vivi por aquelas terras.

Entre 2011 e 2013, explorei mais de 50 municípios italianos. Alguns eram conhecidos internacionalmente. Outros eram tão pequenos que talvez jamais entrassem no roteiro tradicional de um turista brasileiro.

E justamente aí estava parte do encanto.

Eu olhava para aquelas pequenas cidades com uma curiosidade quase infantil e pensava:

Como um lugar tão pequeno consegue guardar tanta coisa?

Uma igreja com séculos de história. Uma praça. Uma estação ferroviária. Uma construção que aparentemente não significava nada, até descobrir que alguma coisa importante havia acontecido ali séculos antes.

Cada município parecia possuir seu pequeno tesouro.

E o trem era meu portal mágico.




🚉 Uma estação, um bilhete e outro mundo

A facilidade de transporte me fascinava.

Eu podia entrar numa estação, pegar um trem e simplesmente partir para outro lugar.

Magenta.

Novara.

Milano.

Ou alguma pequena cidade cujo nome havia despertado minha curiosidade.

Não precisava existir necessariamente uma grande missão. Às vezes, conhecer o lugar já era motivo suficiente.

O trem transformava o mapa em possibilidades.

E havia ainda uma parte da viagem que hoje percebo que apreciava tanto quanto o próprio destino:

olhar pela janela.

Enquanto os outros passageiros talvez estivessem preocupados com trabalho, horários, compromissos ou simplesmente entediados por repetirem aquele trajeto diariamente, para mim quase tudo era novidade.

Eu observava os campos.

Os rios.

As casas.

As aves.

As máquinas agrícolas.

As estradas secundárias.

As pequenas propriedades.

Às vezes uma imagem aparecia por poucos segundos e desaparecia atrás do trem.

Era quase impossível registrar tudo.

Mas meus olhos tentavam.

🌾 O choque de escala

Uma das coisas que mais me chamavam a atenção era o tamanho das propriedades agrícolas.

Eu vinha do Brasil.

Nossa referência visual de agricultura frequentemente envolve grandes extensões de terra. Sítios, fazendas e, dependendo da região, propriedades que desaparecem no horizonte.

Na Itália rural encontrei outra escala.

Pedaços de terra que, olhando com olhos brasileiros, eu facilmente chamaria de chácaras.

Algumas propriedades pareciam minúsculas.

E estavam produzindo.

Havia gente trabalhando nelas.

Havia cultivo.

Havia máquinas.

Havia alimentos saindo daqueles pequenos pedaços de solo.

Isso me fascinava.

Porque aquela paisagem desmontava silenciosamente uma associação que podemos fazer sem perceber:

terra produtiva não precisa necessariamente ser terra gigantesca.

O pequeno também produz.

O pequeno também alimenta.

O pequeno também pode sustentar uma atividade econômica.



🚜 Máquinas que pareciam feitas para uma pessoa

Outro detalhe que despertava minha curiosidade eram as máquinas agrícolas.

Eu estava acostumado à imagem de grandes tratores e equipamentos associados às dimensões das propriedades brasileiras.

Naqueles pequenos campos italianos apareciam máquinas muito menores.

Algumas quase pareciam equipamentos de uso individual.

Compactas.

Adaptadas à escala da propriedade.

Não havia necessidade de colocar uma máquina gigantesca onde uma pequena resolvia o problema.

Aquilo parecia óbvio depois de observado.

Mas era justamente o tipo de obviedade que eu precisava atravessar um oceano para perceber.

A tecnologia não precisava necessariamente aumentar de tamanho.

Ela precisava estar adequada ao problema.

Décadas trabalhando com computadores talvez tenham contaminado meu modo de observar essas coisas.

Um trator pequeno trabalhando perfeitamente naquele pedaço de terra fazia sentido da mesma maneira que um sistema corretamente dimensionado para determinada carga.

Não era pequeno demais.

Era do tamanho necessário.

🌱 O campo visto a 100 km/h

Existe também algo especial em observar uma região rural de dentro de um trem.

De carro, parte da atenção pertence inevitavelmente à estrada.

No trem, eu podia simplesmente olhar.

A paisagem chegava pronta diante da janela.

Um campo.

Depois outro.

Uma pequena estrada.

Uma propriedade.

Um galpão.

Uma máquina trabalhando.

Algumas aves.

Uma ponte.

Um rio.

Outro campo.

Tudo entrando e saindo do enquadramento.

O vídeo desta postagem registra apenas alguns minutos.

Mas minha memória daquela época é formada justamente por milhares desses pequenos enquadramentos.

Talvez por isso eu tenha filmado tantas coisas aparentemente banais.

Não estava tentando produzir um documentário sobre agricultura italiana.

Estava simplesmente dizendo ao meu Vagner do futuro:

“Olha isso.”



🌉 O Ticino

No percurso entre Magenta e Novara existe ainda uma fronteira natural importantíssima: o Ticino.

O rio ajuda a marcar a passagem entre Lombardia e Piemonte e durante séculos aquela região assistiu ao movimento de comerciantes, agricultores, exércitos e viajantes.

Eu estava fazendo algo muito mais simples.

Estava atravessando de trem.

Mas gosto dessa sobreposição.

O mesmo território pode carregar inúmeras camadas de história enquanto alguém simplesmente olha pela janela.

Talvez seja justamente essa uma das coisas que mais me encantavam na Itália.

Era difícil encontrar um lugar completamente desprovido de passado.

Debaixo da paisagem contemporânea sempre parecia existir outra.

E outra.

E mais outra.

🏘️ Mais de cinquenta municípios

Quando olho para aquele período entre 2011 e 2013, percebo que aquelas viagens acabaram formando uma espécie de coleção.

Foram mais de 50 municípios italianos explorados.

Não no sentido de riscar nomes de uma lista turística.

Eu queria andar.

Observar.

Fotografar.

Filmar.

Entrar numa igreja.

Olhar uma estação.

Descobrir uma rua.

Encontrar alguma coisa que não estava planejada.

Eu era um turista curioso mesmo quando não estava fazendo turismo.

Talvez principalmente nesses momentos.

As pequenas cidades me fascinavam porque constantemente contrariavam minhas expectativas.

O tamanho do município não determinava o tamanho de sua história.

Assim como o tamanho daquele pequeno campo não determinava sua capacidade de produzir.

🚂 O trem como máquina de curiosidade

Hoje penso que os trens tiveram um papel muito maior nessas explorações do que simplesmente me transportar.

Eles diminuíram psicologicamente as distâncias.

Quando existe uma estação próxima e uma rede ferroviária que permite alcançar dezenas de destinos, o mapa deixa de parecer uma coleção de pontos isolados.

Ele vira uma rede.

Para alguém do mainframe, talvez a analogia fosse inevitável:

cada estação era um node.

A ferrovia era a infraestrutura.

O horário era o protocolo.

O bilhete concedia acesso.

E eu era um pequeno pacote humano sendo roteado pela Itália.

Às vezes com destino conhecido.

Às vezes movido apenas pela curiosidade.



🇧🇷 Um brasileiro olhando a Itália rural

Mas havia uma coisa que eu carregava comigo em todos aqueles trens:

o Brasil.

Nós nunca observamos outro país com olhos completamente neutros.

Comparamos.

Mesmo sem querer.

Quando eu olhava uma pequena propriedade italiana, minha referência eram os sítios e fazendas brasileiros que conhecia.

Quando via uma pequena máquina agrícola, pensava nas máquinas que estava acostumado a imaginar trabalhando no Brasil.

Quando encontrava uma cidade minúscula cheia de patrimônio, comparava com nossa própria relação com cidades pequenas e memória histórica.

Essas comparações não significavam que um modelo fosse necessariamente melhor que o outro.

As geografias são diferentes.

A história da ocupação é diferente.

A estrutura fundiária é diferente.

Os cultivos são diferentes.

As distâncias são diferentes.

Mas o contraste ensinava.

E viajar, quando realmente prestamos atenção, é uma excelente máquina de produzir perguntas.

📹 Por que filmar aquilo?

Alguém poderia assistir hoje a este pequeno vídeo e perguntar:

“Mas o que existe de especial nisso?”

Campos.

Uma ferrovia.

Algumas máquinas.

Paisagem rural.

Talvez justamente aí esteja a resposta.

Em 2012 aquilo era meu presente.

Em 2026 virou documento.

As máquinas podem ter mudado.

As propriedades podem ter mudado.

A ferrovia pode ter mudado.

Eu certamente mudei.

Até minha maneira de interpretar aquelas imagens mudou.

Quando gravei, estava registrando algo que havia despertado minha curiosidade.

Hoje consigo enxergar naquela gravação também um retrato de como eu observava o mundo naquele momento da minha vida.

E isso talvez seja muito mais precioso.

☕ O arquivo não guarda apenas imagens

Depois de tantos anos trabalhando com tecnologia, aprendemos a pensar em arquivos como conjuntos de bytes.

Nome.

Data.

Tamanho.

Formato.

Checksum.

Backup.

Mas alguns arquivos possuem um campo que nenhum filesystem consegue armazenar:

contexto humano.

Este vídeo possui poucos minutos.

Mas conectado às lembranças daquele período ele aponta para mais de cinquenta municípios, dezenas de viagens ferroviárias, estações, campos, rios, máquinas, pessoas e milhares de quilômetros de paisagem passando diante de uma janela.

O arquivo permaneceu praticamente igual.

Quem mudou fui eu.

🚉 Próxima estação

Talvez seja essa uma das razões pelas quais gosto tanto de revisitar esses vídeos antigos.

Cada pequeno fragmento abre outra porta.

Uma estação conduz a outra.

Uma cidade lembra outra.

Uma imagem recupera uma história que parecia esquecida.

E novamente estou naquele trem.

Sentado junto à janela.

Vendo pequenos campos cultivados.

Observando máquinas agrícolas que pareciam construídas para trabalhar quase individualmente.

Esperando aparecer alguma coisa diferente depois da próxima curva.

Naquela época eu talvez ainda não soubesse, mas estava construindo uma enorme base de dados de memórias.

Sem Db2.

Sem VSAM.

Sem índices.

Sem catálogo.

Apenas fotografias, vídeos, textos e lembranças.

E existe um detalhe maravilhoso nisso tudo.

Depois de tantos anos trabalhando com computadores gigantes, descobri na Itália rural uma lição proporcionada justamente pelas coisas pequenas:

uma pequena cidade pode guardar uma história gigantesca.

Uma pequena propriedade pode produzir alimento.

Uma pequena máquina pode realizar um grande trabalho.

E um pequeno vídeo gravado pela janela de um trem pode, quatorze anos depois, fazer um homem atravessar novamente o Ticino sem sequer sair da cadeira.

Um Café no Bellacosa Mainframe

Porque algumas viagens terminam na estação.

Outras continuam rodando em background durante a vida inteira.

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Apreciando a paisagem pela janela


Para aqueles que gostam de andar de trem, a Itália possui inúmeras linhas Troncos, Ramais e Subramais passando pela mais diversas regiões, exibindo para aqueles que sabem apreciar paisagens bucólicas e memoráveis.


Esta viagem foi feita no trecho entre Magenta (Lombardia) e Novara (Piemonte), aqui temos diversas pequenas propriedades agrícolas e a ponte sobre o Rio Ticino. Para aqueles que gostam de historia essa região foi rica em combates desde tempo imemoriais,


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Vagner Renato Bellacosa, IBM Champion e especialista em IBM Mainframe
IBM Z17 SYSTEM ONLINE
Sobre o autor

Vagner Renato Bellacosa

IBM Champion 2026 • Especialista em IBM Mainframe

Vagner Renato Bellacosa trabalha com IBM Mainframe desde 1988 , é IBM Champion e especialista em COBOL, CICS, Db2, z/OS e IBM Z. Compartilha experiências profissionais, conhecimento técnico, história da computação e práticas do universo mainframe para aproximar novas gerações das tecnologias que sustentam empresas, bancos e governos ao redor do mundo.

IBM Champion IBM Z COBOL CICS Db2 z/OS Mainframe desde 1988
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