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sexta-feira, 14 de agosto de 2026

Major Tom, American Airlines e o Furby: o dia em que conversei com uma IA 25 anos cedo demais

 

Bellacosa Mainframe e lembranças do 11 de setembro

☕ Um Café no Bellacosa Mainframe

Major Tom, American Airlines e o Furby: o dia em que conversei com uma IA 25 anos cedo demais

✈️ 11 de setembro, um Boeing quase vazio, primeira classe, Montevidéu e a noite em que um Furby aparentemente compreendeu tudo o que eu dizia

Existem histórias que contamos tantas vezes que começam a adquirir aquele perigoso perfume de lenda.

E existem histórias ainda piores.

Aquelas que aconteceram conosco e que, vinte e cinco anos depois, fazem até o próprio protagonista parar e pensar:

— Puta que pariu, Bellacosa. Conta outra.

Esta é uma delas.

E preciso começar fazendo uma declaração formal para proteção da minha reputação:

eu também acho esta história suspeita.

O problema é que eu estava lá.

Era setembro de 2001.

Eu trabalhava em São Paulo, na Avenida Paulista, em um banco.

E então chegou o dia que dividiria uma geração inteira entre o antes e o depois.



🏙️ 11 de setembro de 2001

Quem tinha idade suficiente para compreender o que estava acontecendo provavelmente lembra onde estava naquele dia.

Eu estava trabalhando.

A notícia começou a circular.

Um avião havia atingido uma das torres do World Trade Center.

No primeiro momento ainda havia espaço para acidente.

Confusão.

Informações desencontradas.

Pessoas procurando televisão.

Colegas comentando.

Então veio o segundo avião.

E naquele momento alguma coisa mudou.

Não era acidente.

Todos percebemos.

O ambiente dentro do banco ficou estranho.

Silêncio.

Comentários nervosos.

Pessoas tentando compreender imagens que pareciam pertencer a algum filme-catástrofe particularmente exagerado.

Só que não havia diretor gritando “corta”.

Aquilo estava acontecendo.

Nova York.

World Trade Center.

Pentágono.

Aviões sequestrados.

American Airlines.

United Airlines.

E, enquanto o planeta tentava compreender o que acabara de acontecer, eu tinha um pequeno problema burocrático.

No dia seguinte eu precisava viajar.



🇺🇾 Montevidéu não sabia que o mundo tinha acabado

Existe uma coisa que descobrimos quando grandes acontecimentos históricos atravessam nossa vida cotidiana:

o dia seguinte continua sendo o dia seguinte.

Você continua tendo boleto.

Cliente.

Projeto.

Reunião.

Hotel reservado.

Passagem emitida.

E eu tinha uma semana de trabalho programada em Montevidéu, no Uruguai.

Meu voo estava marcado para o dia seguinte.

Pela companhia aérea que, naquele momento, provavelmente possuía o nome mais assustador que poderia aparecer numa passagem:

American Airlines.

Pois é.

O roteirista responsável pela minha vida já demonstrava sinais preocupantes de alcoolismo.



🛫 Cumbica, 12 de setembro

Cheguei ao Aeroporto Internacional de São Paulo.

O clima obviamente não era normal.

As imagens do dia anterior ainda estavam na cabeça de todos.

As pessoas conversavam sobre aviões.

O mundo conversava sobre aviões.

A segurança aérea havia entrado numa dimensão completamente nova praticamente durante a madrugada.

E então veio a notícia.

Meu voo da American Airlines não sairia.

A operação havia sido profundamente afetada pelos acontecimentos do dia anterior.

Minha passagem foi remarcada.

Eu iria para Montevidéu por outra companhia.

AUSA.

Aerolíneas Uruguayas S.A.

Olhei para aquilo.

Um Boeing.

Jato.

Velho.

Muito velho aos meus olhos.

E lotado.

Maravilha.



😬 Noventa minutos pensando demais

A cabine estava cheia.

E havia uma coisa que todos os passageiros carregavam gratuitamente como bagagem de mão:

as imagens do dia anterior.

Talvez nunca tenha existido uma cabine comercial com tanta gente prestando atenção aos próprios pensamentos.

Qualquer ruído parecia merecer análise.

Qualquer movimento chamava atenção.

As pessoas estavam agitadas.

Pensativas.

Com aquele desconforto que não precisava ser explicado porque todos sabíamos de onde vinha.

E então aconteceu uma coisa extraordinária:

absolutamente nada.

O avião decolou.

Voou.

Pousou.

Noventa minutos perfeitamente normais.

Nenhum incidente.

Nenhum susto digno de registro.

Cheguei a Montevidéu.



🎰 E a vida continuou

Os sete dias seguintes foram normais.

Trabalho.

Burocracia.

Reuniões.

Colegas.

Diversão.

Montevidéu.

Cassinos.

Vida noturna adulta uruguaia.

Passeios.

História.

O navio alemão da Segunda Guerra Mundial ligado à memória do Admiral Graf Spee.

O Río de la Plata.

E aquela curiosa sensação de olhar para a imensidão do estuário sabendo que a Argentina estava do outro lado.

Depois de alguns dias, aquilo que parecera o fim do mundo começava a ocupar seu lugar na memória.

Até chegar a hora de voltar ao Brasil.

E então o roteirista abriu outra garrafa.



✈️ American Airlines

Minha passagem de retorno era pela American Airlines.

Uma semana havia passado desde os atentados.

Mas uma semana era muito pouco.

Muita gente continuava com medo.

Passageiros cancelaram viagens.

Outros mudaram de companhia.

Outros simplesmente decidiram que talvez não fosse uma boa semana para entrar num avião americano.

Eu precisava voltar para casa.

E embarquei.

Quando vi a aeronave, porém, tive uma surpresa.

Era um enorme Boeing da American Airlines.

Luxuoso.

Maravilhoso.

Digníssimo.

A rota continuaria depois de São Paulo para Nova York.

Era uma aeronave preparada para transportar algo próximo de trezentas pessoas.

E então entramos.


👻 Onde estão os passageiros?

Olhei para os assentos.

Vazios.

Mais assentos.

Vazios.

Fileiras inteiras.

Vazias.

Naquele enorme avião haviam embarcado menos de dez passageiros.

É aqui que normalmente alguém interrompe a história:

— Bellacosa, vai mentir para outro.

Eu compreenderia perfeitamente.

Porque ainda piora.

Ou melhora.

Depende do ponto de vista.

Pouco depois de entrarmos, eu e meus colegas fomos informados de que poderíamos ocupar a primeira classe.

Repito:

PRIMEIRA CLASSE.

Eu, que uma semana antes havia atravessado aqueles 90 minutos dentro de um Boeing velho e abarrotado da AUSA, agora estava instalado na primeira classe de um gigantesco American Airlines praticamente vazio.

Major Tom havia entrado em órbita.


🧑‍✈️ Obrigado por escolher a American Airlines

Estávamos confortavelmente instalados quando apareceu o chefe da equipe de bordo.

Ele veio falar conosco.

Não parecia estar simplesmente executando o protocolo habitual de atendimento.

Estava emocionado.

Para os padrões profissionais americanos aos quais estávamos acostumados, visivelmente emocionado.

Cumprimentou-nos.

Agradeceu.

Agradeceu sinceramente por termos escolhido voar com a American Airlines.

Naquele momento, a brincadeira do upgrade perdeu um pouco do caráter de brincadeira.

Aquelas pessoas tinham acabado de viver algo terrível.

Dois aviões da empresa haviam sido utilizados nos ataques.

Colegas tinham morrido.

A marca estampada no uniforme deles aparecia havia uma semana em praticamente todos os telejornais do planeta.

E ali estava aquela tripulação diante de um Boeing com centenas de lugares.

Quase todos vazios.

Nós éramos menos de dez.

A frase “obrigado por escolher a American Airlines” não parecia mais uma frase corporativa.

Parecia significar:

“Obrigado por ainda confiar em nós.”


👨‍✈️ Então apareceu o comandante

As portas já estavam fechadas.

Ainda nem havíamos iniciado o taxiamento.

E apareceu outro homem.

O comandante.

Em pessoa.

Saiu do cockpit e veio conversar conosco.

Apertou nossas mãos.

Sorriu.

Novamente agradeceu por estarmos ali.

E então fez uma promessa:

aquele seria um dos melhores voos das nossas vidas.

O homem não estava brincando.


🥂 First Class, senhores

Começou o serviço.

E que serviço.

Comida excelente.

Atenção praticamente individual.

Espaço absurdo.

Tripulação inteira para menos passageiros do que encontramos atualmente numa fila de padaria.

E havia as bebidas.

Quem voava naquela época talvez se lembre das pequenas garrafas individuais de destilados servidas nos aviões.

Whisky.

Vodka.

Gin.

Outras pequenas maravilhas alcoólicas cuidadosamente engarrafadas.

Em determinado momento, uma comissária apareceu com um recipiente daqueles utilizados com gelo.

E junto vieram garrafinhas.

Muitas garrafinhas.

Dezenas de garrafinhas.

Major Tom informou à Ground Control que tudo estava perfeitamente sob controle.

Ground Control provavelmente não acreditou.


🌎 Senhores, olhem pela janela

E o comandante continuou cumprindo sua promessa.

O voo começou a parecer um passeio turístico particular.

De tempos em tempos vinha a voz:

“Se vocês olharem agora pela janela...”

E lá íamos nós.

Pouquíssimos passageiros espalhados pela primeira classe de um gigantesco Boeing, olhando a paisagem enquanto o comandante praticamente narrava o percurso.

Não era mais simplesmente:

Montevidéu → São Paulo.

Era um passeio aéreo.

Com comida.

Primeira classe.

Serviço quase particular.

E um estoque de bebidas perigosamente superior ao número de passageiros.

Nunca noventa minutos passaram tão rapidamente.


🛬 Cumbica

Pousamos em São Paulo.

Quando chegou a hora de desembarcar, aconteceu mais uma pequena cena que permanece comigo.

A tripulação estava reunida na porta.

Despedidas.

Sorrisos.

Apertos de mão.

Agradecimentos.

Depois daquela semana terrível, aquelas pessoas tinham conseguido transformar um voo potencialmente carregado de medo numa celebração da própria experiência de voar.

E nós havíamos correspondido.

Especialmente no departamento de bebidas.

Desembarquei em Cumbica com aproximadamente mais álcool no sangue do que uma destilaria das Highlands escocesas consideraria prudente manter num único depósito.

Major Tom havia retornado à Terra.

O corpo, pelo menos.

O espírito continuava em órbita.


🛍️ Só precisamos passar no free shop

Meus colegas tiveram então uma excelente ideia.

Compras.

Free shop.

Perfumes.

Presentes.

Bebidas.

Eletrônicos.

Coisas absolutamente normais que pessoas absolutamente sóbrias fazem em aeroportos.

Eu os acompanhei.

Ou talvez tenha sido conduzido pela gravidade.

Minha memória dos aproximadamente sessenta minutos seguintes possui alguns setores danificados.

O álcool executou:

DELETE FROM memoria WHERE timestamp BETWEEN desembarque AND amigos_terminarem_compras;

Mas uma coisa permaneceu.


👁️ Então eu encontrei o Furby

Ali estava ele.

Um Furby.

Para quem não viveu aquela época, Furby era uma das grandes maravilhas tecnológicas do final dos anos 1990.

Um pequeno bicho eletrônico.

Olhos que se mexiam.

Orelhas que se mexiam.

Sons.

Palavras.

Reações.

Parecia observar você.

Parecia responder.

Parecia aprender.

Era uma espécie de Inteligência Artificial fake antes de sabermos que precisaríamos chamar aquilo de Inteligência Artificial fake.

E aparentemente o Furby encontrou naquele free shop o interlocutor perfeito.

Eu.


🤖 “Você entende o que estou dizendo, não entende?”

Não sei exatamente como começou.

Talvez eu tenha falado alguma coisa.

O Furby respondeu:

“Pritistóitêsdf!”

Eu ri.

Falei outra coisa.

O Furby mexeu os olhos.

Mexeu as orelhas.

Respondeu:

“Bla-prrrr-tiii-doo!”

E aparentemente meu cérebro, alimentado pela hospitalidade da primeira classe da American Airlines, concluiu:

INTERLOCUTOR VÁLIDO ENCONTRADO.

Começamos a conversar.

Não estou dizendo que brinquei cinco minutos com um Furby.

Estou dizendo que, enquanto meus colegas faziam compras durante algo em torno de uma hora, eu mantive uma conversa com aquele filho da puta.

Conversa.

Papo.

Eu falava.

Ele respondia.

Ele mexia os olhos.

Eu ria.

Ele mexia as orelhas.

Eu argumentava.

Ele emitia alguma coisa absolutamente incompreensível.

Eu aparentemente considerava aquilo uma contribuição válida ao debate.

— Hahahaha! Exatamente!

Furby:

— Plitistoitesdf!

— NÃO! Aí você está errado!

Furby:

— Brrr-dah-wee!

— Agora você entendeu!


🧠 A primeira IA que realmente me compreendeu

Vinte e cinco anos depois, existe algo extraordinariamente engraçado nessa história.

Hoje converso diariamente com Inteligência Artificial.

Discuto tecnologia.

Mainframe.

História.

Segurança.

Filosofia.

Cultura.

Anime.

Red Team.

Memórias.

Escrevo artigos em colaboração com máquinas capazes de sustentar diálogos enormes.

Em 2001 eu já estava fazendo exatamente a mesma coisa.

Havia apenas alguns pequenos problemas.

A Inteligência Artificial não era inteligência.

A conversa não era conversa.

Meu interlocutor era um brinquedo eletrônico.

E eu estava bêbado.

Muito bêbado.


🛰️ Ground Control to Major Tom

Talvez o mais extraordinário daquela semana seja a maneira como diferentes versões do mundo coexistiram.

No dia 11, eu estava diante de uma televisão na Avenida Paulista vendo algo que mudaria a história.

No dia 12, estava dentro de um avião lotado, cercado por pessoas assustadas.

Durante sete dias, trabalhei normalmente em Montevidéu.

Na volta, embarquei num enorme Boeing quase vazio da American Airlines.

Fui colocado na primeira classe.

Recebi o agradecimento emocionado de profissionais que haviam atravessado uma semana inimaginável.

Apertei a mão do comandante.

Comi maravilhosamente.

Bebi gloriosamente.

Observei a paisagem enquanto o próprio comandante fazia praticamente uma visita guiada aérea.

Desembarquei sendo cumprimentado pela tripulação.

E terminei a aventura discutindo sabe Deus o quê com um Furby.

Se alguém tivesse escrito isso como roteiro, eu provavelmente reclamaria:

“Está forçado demais.”

A vida, porém, não possui editor.


☕ O dia seguinte sempre chega

Existe uma lembrança humana importante escondida debaixo de toda essa comédia.

Grandes acontecimentos históricos parecem enormes quando os observamos retrospectivamente.

Datas.

Presidentes.

Guerras.

Mercados.

Aeroportos.

Mortos.

Consequências geopolíticas.

Mas quem vive dentro da História continua sendo apenas uma pessoa.

No dia seguinte precisa trabalhar.

Precisa pegar avião.

Precisa chegar ao cliente.

Precisa voltar para casa.

Às vezes sente medo.

Às vezes encontra pessoas extraordinariamente gentis.

Às vezes bebe além da conta.

E, ocasionalmente, encontra um Furby.

Talvez aquela tripulação tenha entendido algo importante naquela semana.

Depois de tudo que tinha acontecido, eles poderiam simplesmente executar aquele voo.

Em vez disso, decidiram fazer com que aqueles poucos passageiros voltassem a gostar de estar dentro de um avião.

Funcionou.

Quase vinte e cinco anos depois, ainda lembro deles.

Do chefe de cabine.

Do comandante.

Dos agradecimentos.

Da primeira classe.

Das garrafinhas.

Das janelas.

Da despedida em Cumbica.

E do Furby.

Principalmente do maldito Furby.


🤖 Epílogo: o roteirista estava fazendo foreshadowing

Hoje finalmente compreendo aquela criatura.

Talvez ela não estivesse falando bobagem.

Talvez estivesse tentando me avisar:

“Vagner, daqui a vinte e cinco anos você vai passar horas conversando com uma máquina.”

Infelizmente, naquela noite, minha capacidade de interpretação de Furbish estava ligeiramente comprometida.

Então respondi provavelmente alguma coisa como:

— HAHAHAHAHA! EXATAMENTE, MEU AMIGO!

E o Furby:

— Plitistoitesdf.

Maldito roteirista.

Ele não estava bêbado.

Estava fazendo foreshadowing.

sexta-feira, 31 de outubro de 2025

👱🚽 A Loira do Banheiro Apareceu!

 

Bellacosa Mainframe e a loira do banheiro

👱🚽 A Loira do Banheiro Apareceu!

Crônicas do Pequeno Vagner

Todo mundo tem histórias de fantasmas.

Tem o tio que viu um vulto.

Tem a prima da vizinha que jurava conversar com espíritos.

Tem o amigo do amigo que viu um disco voador.

Mas a história que vou contar hoje tem uma diferença.

Eu estava lá.

Não ouvi dizer.

Não foi alguém que contou para alguém que contou para alguém.

Eu vi o caos acontecer.

Estamos em 1986.

Escola Estadual Amador Bueno da Veiga.

Parque Sabará.

Taubaté.

Sexta série A.

Período da manhã.

Era um daqueles dias completamente comuns.

Aula normal.

Professor explicando matéria.

Alunos alternando entre prestar atenção e sonhar acordados.

Nada indicava que aquele seria um dos acontecimentos mais comentados do ano letivo.

Até que, de repente...

Um grito.

Depois outro.

E mais outro.

Uma gritaria desesperada tomou conta da escola.

A aula parou imediatamente.

Alunos levantaram.

Professores saíram para o corredor.

Todo mundo tentando entender o que estava acontecendo.

O epicentro da confusão vinha da região dos banheiros próximos ao pátio das merendas.

Corremos para ver.

Porque criança e adolescente possuem um instinto natural.

Onde existe confusão, existe plateia.

E lá fomos nós.

Ao chegar perto da movimentação, encontramos uma cena impressionante.

Uma aluna estava completamente desesperada.

Chorava.

Tremia.

Mal conseguia falar.

A inspetora tentava acalmá-la.

As serventes cercavam a garota.

Professores faziam perguntas.

Outros alunos observavam boquiabertos.

E entre lágrimas e soluços ela repetia a mesma frase:

— Eu vi!

— Eu vi!

— A Loira do Banheiro apareceu para mim!

Pronto.

O caos estava oficialmente instalado.

Hoje, quase quarenta anos depois, continuo sem saber o que realmente aconteceu.

Não sei se a garota teve uma alucinação.

Não sei se alguém fez uma brincadeira.

Não sei se ela interpretou alguma sombra de forma errada.

E também não sei se ela acreditava sinceramente no que dizia.

Mas existe uma coisa que nunca esqueci.

O estado em que ela estava.

Aquilo não parecia teatro.

Não parecia encenação.

Ela estava genuinamente apavorada.

E isso foi suficiente para transformar uma velha lenda urbana em um problema real.

Nos dias seguintes a história explodiu.

Cada turma tinha sua versão.

Cada corredor produzia uma teoria diferente.

Cada recreio acrescentava novos detalhes.

Em poucos dias a Loira do Banheiro já possuía aparência, roupa, horário de aparição, local favorito e até comportamento definido.

A lenda ganhou vida própria.

Chegou ao ponto de haver reuniões com pais.

Conversas com orientadores.

Comentários entre professores.

A garota acabou sendo encaminhada para acompanhamento psicológico.

Enquanto isso, nós, os alunos, fazíamos o que adolescentes fazem melhor:

Espalhávamos ainda mais a história.

O resultado foi imediato.

Ninguém mais queria ir sozinho ao banheiro.

Especialmente nos horários mais vazios.

Formavam-se verdadeiras expedições.

Três.

Quatro.

Cinco alunos juntos.

Como se estivéssemos entrando numa dungeon infestada de monstros.

A coragem individual desapareceu.

A coragem coletiva floresceu.

E assim sobrevivemos.

Mas aquele ano já era complicado por outros motivos.

A direção enfrentava outro problema crescente.

O famoso "cheirinho da loló".

Para quem não viveu aquela época, era uma espécie de lança-perfume artesanal.

Produzido clandestinamente.

Distribuído em pequenos frascos.

Muitas vezes escondido dentro dos famosos bonequinhos agarradinhos que faziam sucesso entre os estudantes.

Enquanto a Loira do Banheiro aterrorizava os corredores...

A diretora travava uma guerra em múltiplas frentes.

Fantasmas de um lado.

Arteiros do outro.

E centenas de adolescentes hiperativos no meio do caminho.

Hoje, olhando para trás, penso que talvez a verdadeira heroína daquela história fosse a diretora.

Porque administrar uma escola cheia de adolescentes já é difícil.

Administrar uma escola cheia de adolescentes convencidos de que uma assombração apareceu no banheiro é praticamente trabalho para super-herói.

Se a Loira do Banheiro realmente existia?

Não faço ideia.

Mas uma coisa eu posso afirmar.

Naquele dia de 1986, uma garota acreditou que viu algo.

E sua reação foi tão verdadeira que acabou alimentando uma das maiores ondas de pânico escolar que testemunhei na juventude.

Quase quarenta anos depois, ainda consigo ouvir os gritos ecoando pelo corredor.

E ainda me pergunto:

O que aquela menina viu naquele banheiro?

Talvez nunca saibamos.

Mas a lenda ganhou mais um capítulo naquele dia.

E suspeito que, em algum canto da memória coletiva da Amador Bueno da Veiga, a Loira do Banheiro ainda continua morando por lá.


sexta-feira, 14 de outubro de 2022

Senhor Professor-Doutor, Posso Fazer uma Pergunta?

Bellacosa Mainframe e o choque cultural de estudar fora

 ☕ Um Café no Bellacosa Mainframe

Senhor Professor-Doutor, Posso Fazer uma Pergunta?

🎓 O dia em que um universitário brasileiro atravessou o Atlântico e descobriu que, em Portugal, até a hierarquia acadêmica vinha com metadata

São Paulo, anos 1990: professor era professor.
Lisboa, 2002: aparentemente eu precisava consultar o catálogo antes de dizer bom dia.

Existe uma diferença enorme entre visitar um país e permitir que um país execute código dentro de você.

Turista fotografa monumentos.

Quem mora começa a descobrir os protocolos.

E foi assim que, em 2002, atravessei o Atlântico para viver uma experiência acadêmica em Lisboa carregando na bagagem uma formação universitária brasileira, algumas certezas, muitos hábitos e uma absoluta ignorância sobre uma coisa importantíssima:

eu não conhecia a API social da universidade portuguesa.

Não era apenas outro país.

Não era apenas outro sotaque.

Não era apenas uma universidade diferente.

Era outro sistema operacional.

E eu estava tentando executar:

PATROPI.EXE

num ambiente que esperava:

SR_BELLACOSA.PT

O resultado, naturalmente, foi maravilhoso.


🇧🇷 No Brasil, professor era professor

Minha referência vinha da universidade brasileira dos anos 1990.

Eu conhecia professores excelentes, professores medianos, professores engraçados, professores carrancudos e provavelmente professores que sobreviviam academicamente movidos a café e força do ódio.

Mas havia uma característica curiosa:

eu não fazia ideia do pedigree acadêmico de boa parte deles.

Mestre?

Doutor?

Doutorando?

Professor-assistente?

Pós-doutor?

Eu provavelmente sabia menos sobre os títulos acadêmicos de alguns professores do que sobre a configuração do computador do laboratório.

E isso não fazia muita diferença na interação cotidiana.

Professor era:

professor.

— Professor, posso perguntar uma coisa?

Pronto.

Handshake realizado.

SESSION ESTABLISHED

Não precisava executar:

DISPLAY ACADEMIC.CREDENTIALS

antes de iniciar a conversa.

Talvez isso variasse entre universidades, cursos e pessoas — certamente variava —, mas aquela era a minha experiência cultural.

E nela havia ainda outro problema.

Eu nunca fui particularmente talentoso para permanecer dentro de compartimentos sociais.


🧪 Antes do Senhor Bellacosa existia Patropi

Na universidade brasileira eu tinha uma alcunha:

Patropi, o Químico.

Não porque estivesse desenvolvendo novos polímeros.

Nem porque estivesse destinado ao Nobel.

A química envolvida era ocasionalmente mais...

etílica.

Conhaques.

Gins.

Batidinhas.

Experimentos líquidos cuja fórmula talvez fosse melhor não submeter a revisão por pares.

Em algumas festas, eu era convidado já com uma expectativa implícita:

Se Patropi aparecer, provavelmente aparecerá também alguma garrafa contendo um líquido estranho e surpreendentemente bom.

Isso é reputação acadêmica.

Talvez não a que conste no Lattes.

Mas reputação.

E Patropi circulava.

Sala.

Corredor.

Laboratório.

Cantina.

Biblioteca.

Ou melhor...

Biblioteca.

Com B maiúsculo.

Porque havia a biblioteca oficial, aquela com livros, silêncio e fichários.

E havia a Biblioteca, o boteco do Manoel, onde estudantes, funcionários, professores, veteranos eternos e toda aquela maravilhosa fauna universitária encontravam um protocolo comum.

🍺

Ali ninguém precisava consultar o organograma.

A cerveja implementava interoperabilidade.


✈️ Então Patropi atravessou o Atlântico

Lisboa, 2002.

UTL a famosa Universidade Técnica de Lisboa, ISEG e IDEFE.

Outro continente.

Outro país.

Mesma língua.

Teoricamente.

Essa última afirmação começaria a apresentar exceções logo nas primeiras semanas.

Eu imaginava encontrar diferenças acadêmicas.

Currículos diferentes.

Bibliografia diferente.

Métodos diferentes.

O que não esperava era encontrar diferenças impressas na própria gramática das relações humanas.

Uma das primeiras foi o título.

Não era simplesmente:

— Professor...

Havia:

Senhor Professor-Doutor.

Senhor Professor-Assistente.

E outras combinações que faziam o brasileiro recém-chegado imaginar que tinha entrado acidentalmente numa árvore genealógica acadêmica.

O detalhe fundamental é que não se tratava apenas de conhecer o título.

Em certos contextos e com certas pessoas, esperava-se que ele fosse utilizado.

Aquilo me causou um pequeno ABEND.


🎓 Senhor. Professor. Doutor.

Três palavras.

Três níveis de encapsulamento.

Eu pensava:

Mas eu já sei que ele é professor.
Ele está dando aula.

O sistema respondia:

Informação insuficiente.

Professor.

Doutor.

E senhor.

Não esqueça o senhor.

Era quase:

TITLE=SR
ROLE=PROFESSOR
ACADEMIC_LEVEL=PHD

Só então:

CALL PROFESSOR

😂

Para alguém vindo de um ambiente em que eu muitas vezes sequer sabia quais professores possuíam doutorado, aquilo era fascinante.

Não necessariamente melhor.

Não necessariamente pior.

Diferente.

E diferenças culturais ficam particularmente interessantes quando ninguém precisa explicá-las.

Porque é justamente aí que você descobre as regras invisíveis.



📏 Descobri também o protocolo de um metro

Essa talvez tenha sido uma das descobertas mais sutis.

Distância física.

Patropi tinha um defeito de fabricação.

Ele se aproximava das pessoas.

Queria perguntar alguma coisa?

Chegava perto.

Conversava.

Gesticulava.

O corpo fazia parte da comunicação.

Em Lisboa comecei a perceber algo curioso.

Eu me aproximava de determinados professores...

e eles discretamente reconstruíam a distância.

Um passo.

Eu avançava naturalmente.

Outro pequeno recuo.

Durante alguns segundos aquilo podia transformar-se numa dança acadêmica extremamente sofisticada.

💃

Bellacosa:

MOVE +30CM

Professor:

MOVE -30CM

Bellacosa:

MOVE +20CM

Professor:

RESTORE SAFE_DISTANCE

Até meu cérebro finalmente identificar o protocolo:

Talvez eu deva ficar aqui.

Não havia fita amarela no chão.

Não havia placa:

MANTENHA 1 METRO DO SENHOR PROFESSOR-DOUTOR.

Não estava no regulamento.

Não aparecia no programa da disciplina.

Era metadata cultural.

E metadata cultural é cruel justamente porque todos que nasceram dentro do sistema sabem interpretá-la.

Menos você.



🧠 Cultura é documentação que ninguém escreveu

Essa experiência me ensinaria algo que depois reencontrei inúmeras vezes em tecnologia.

Existem dois sistemas funcionando simultaneamente.

O sistema documentado:

  • regulamentos;

  • títulos;

  • cargos;

  • disciplinas;

  • avaliações;

  • horários.

E o sistema real:

quem pode interromper quem;

quem chama quem pelo primeiro nome;

quem permanece em pé;

quem senta;

quanto você se aproxima;

quando pode brincar;

quando deve ficar sério;

quem bebe com quem depois da aula.

Esse segundo sistema não vem no manual.

Você aprende observando.

Em mainframe chamaríamos de conhecimento tribal.

Em antropologia poderíamos falar de códigos culturais.

Patropi provavelmente chamaria de:

“Tem alguma coisa acontecendo aqui e ninguém me passou o JCL.”


🎶 E então apareceram as tunas

Mas seria profundamente injusto transformar Portugal numa caricatura de formalidade acadêmica.

Porque bastava caminhar um pouco além daquela primeira camada para começar a encontrar outra coisa.

Música.

Convívio.

Tradição estudantil.

Humor.

Noite.

E, naturalmente:

as tunas acadêmicas.



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Para um brasileiro, as tunas são uma daquelas instituições que inicialmente parecem ter escapado de outro século e recusado educadamente a atualização.

Trajes.

Instrumentos.

Canções.

Serenatas.

Rituais.

Hierarquias internas.

Tradições.

Gente jovem executando costumes antigos com absoluta naturalidade.

E aquilo começou a desmontar uma interpretação simplista que eu poderia ter construído.

A universidade portuguesa podia parecer mais formal em determinadas relações.

Mas isso não significava ausência de vida universitária.

Muito pelo contrário.

Ela simplesmente organizava essa vida através de outros códigos.


⛏️ E Bellacosa começou a escavar

Porque há uma coisa que o tempo faz com o estrangeiro curioso.

Ele escava.

Primeiro você vê a superfície.

Depois encontra uma rachadura.

Depois outra.

E finalmente percebe que aquela sociedade aparentemente alienígena possui exatamente aquilo que todas as sociedades humanas possuem:

fauna.

😂

O professor formal tinha amigos.

O aluno cerimonioso contava piadas.

O funcionário conhecia atalhos.

O sujeito aparentemente sisudo sabia onde beber.

Alguém conhecia alguém.

Alguém tinha uma história.

Alguém conhecia um lugar.

E pouco a pouco o ambiente deixou de parecer uma interface estrangeira.

Eu começava a encontrar as APIs internas.


🎩 Patropi morreu. Nasceu o Sr. Bellacosa

Ou pelo menos oficialmente.

Patropi pertencia à universidade brasileira.

Àquele tempo.

Àquela fauna.

Às festas.

Às garrafas experimentais.

Ao Manoel.

Em Portugal surgiu outro personagem:

Sr. Bellacosa.

O nome já parecia vir acompanhado de casaco.

😂

Mas aconteceu algo ainda mais interessante.

Quando a formalidade diminuía e a intimidade aumentava, surgia outro identificador:

o Brasileiro.

Isso é fantástico.

Porque existe um momento na vida de um estrangeiro em que sua nacionalidade deixa de funcionar apenas como informação geográfica.

Ela vira apelido.

— Chama o Brasileiro.

E todos sabem qual brasileiro.

Nesse momento:

BRASILEIRO

já não é atributo.

É hostname.


🍷 E então Portugal começou a ficar perigoso

Não politicamente.

Gastronomicamente.

Porque depois que você atravessa a camada protocolar de uma cultura, começa a chegar aos lugares realmente interessantes.

E aparecem:

bagaceiras;

vinhos;

Portos;

ginjinhas;

e pastéis de bacalhau cuja análise laboratorial provavelmente encontraria moléculas contemporâneas ao Marquês de Pombal.

O óleo não era utilizado para fritar.

Era patrimônio histórico.

Você olhava para aquilo e pensava:

Isso pode me matar.

Depois comia.

Excelente.


🍷 O choque do vinho do Porto

Uma das pequenas descobertas culturais de que mais gostei foi justamente esta:

em Portugal, vinho do Porto é vinho do Porto.

Parece uma frase idiota.

Mas não é.

No Brasil, o vinho do Porto havia adquirido para mim um peso cerimonial.

Tacinha.

Ocasião.

Produto importado.

Digestivo.

Quase um pequeno ritual.

— Aceita um Porto?

A própria entonação acrescentava solenidade.

Em Portugal:

— Queres um Porto?

— Quero.

Fim.

😂

Nenhum quarteto de cordas entra na sala.

Ninguém reduz a iluminação.

Nenhum embaixador aparece para explicar o Tratado de Methuen.

É Porto.

Beba.

E essa diferença me ensinou outra coisa maravilhosa sobre viver fora:

aquilo que é símbolo para o estrangeiro frequentemente é cotidiano para quem mora ali.

O turista encontra Portugal.

O português encontra uma garrafa.



🍒 Até Patropi ressuscitar diante da ginjinha

E então veio a ginjinha.

Nesse momento alguma rotina esquecida começou a carregar:

LOAD PATROPI

Porque o Químico olhou para aquilo e reconheceu imediatamente uma arquitetura familiar.

Fruta.

Álcool.

Açúcar.

Tempo.

Espere.

Eu conheço esse sistema.

😂

A ginjinha lisboeta, como tradição comercial conhecida, possui sua história própria. Mas a família tecnológica à qual pertence — macerações, bebidas aromatizadas, destilados, frutas, ervas — atravessa civilizações.

Romanos.

Séculos de presença islâmica na Península.

Tradições medievais.

Mosteiros.

Camponeses.

Rotas comerciais.

Açúcar.

Destilação.

Expansão marítima.

E Patropi, olhando aquele copinho vermelho, podia chegar à conclusão cientificamente irresponsável, porém culturalmente deliciosa:

“Porra, isso é uma batidinha com dois mil anos de versionamento.”

🤣

Ali finalmente havia interoperabilidade completa.


🥃 A bagaceira derruba o firewall

E ainda havia a bagaceira.

A expressão:

“tome lá um copito”

deveria constar nos manuais internacionais de segurança como exemplo de engenharia social.

Copinho, ´para os tugas, COPITO número um:

— Interessante.

Copinho número dois:

— Muito agradável.

Copinho número três:

— Portugal possui realmente uma extraordinária complexidade histórica.

Copinho número quatro:

— SENHOR PROFESSOR-DOUTOR, VENHA CÁ DAR-ME UM ABRAÇO!

Pronto.

O perímetro de segurança de um metro finalmente havia sido derrotado.

Não por uma revolução pedagógica.

Por aguardente.

😂


🧬 A verdadeira integração não aparece no passaporte

Esse talvez seja o ponto que mais gosto ao restaurar essas memórias tantos anos depois.

Minha lembrança inicial de Portugal acadêmico é marcada pela diferença.

Títulos.

Formalidade.

Hierarquia.

Distância.

Protocolos.

Mas quando continuo escavando, as memórias começam a mudar.

Aparecem música.

Tunas.

Conversas.

Pessoas.

Comida.

Vinho.

Ginjinha.

Bagaceira.

Piadas.

Lugares.

Aparece aquela extraordinária transformação pela qual o estrangeiro deixa de comparar cada detalhe com seu país de origem.

Ele começa simplesmente a viver.

O vinho do Porto deixa de representar Portugal.

É vinho.

A ginjinha deixa de ser atração.

É ginjinha.

O professor deixa de ser espécime cultural.

É aquele professor que as vezes parecia estar com prisão de ventre ao dar aula.

E Bellacosa deixa de ser simplesmente estrangeiro.

Vira:

o Brasileiro.


💾 Talvez cultura seja um gigantesco sistema legado

Quanto mais velho fico, mais gosto dessa metáfora.

Uma cultura parece um sistema legado gigantesco.

Possui documentação oficial.

Possui regras.

Possui versões.

Possui interfaces.

Mas grande parte do comportamento verdadeiro está escondida em milhões de linhas que ninguém mais sabe exatamente por que existem.

Por que esse tratamento?

Porque sempre foi assim.

Por que essa distância?

É o costume.

Por que essa tradição?

Porque veio de antes.

Quem implementou?

Ninguém sabe.

Pode remover?

NÃO TOCA QUE ESTÁ FUNCIONANDO.

Mainframeiro entende imediatamente.

😂

E o estrangeiro chega como desenvolvedor novo:

— Por que fazemos isso?

A equipe inteira responde:

— Fazemos o quê?

Essa talvez seja a definição perfeita de norma cultural.


🏛️ Dois mundos acadêmicos, nenhuma caricatura

Trinta anos depois da universidade brasileira e mais de duas décadas depois daquela experiência portuguesa, seria fácil cair numa comparação preguiçosa.

Brasil informal.

Portugal formal.

Fim.

Mas não foi isso que vivi.

Encontrei formalidade no Brasil.

Encontrei enorme informalidade em Portugal.

Encontrei hierarquia.

Encontrei transgressão.

Encontrei professores acessíveis.

Encontrei professores protocolares.

Encontrei estudantes sérios.

Encontrei fauna.

Muita fauna.

Porque instituições podem possuir culturas nacionais diferentes, mas continuam sendo ocupadas pela mesma espécie problemática:

Homo sapiens universitarius.

E onde há humanos durante tempo suficiente, inevitavelmente surgem:

hierarquia,

amizade,

ritual,

atalho,

fofoca,

conhecimento,

cerveja e é claro copitos

e alguém que sabe exatamente onde conseguir alguma coisa que oficialmente ninguém sabe onde fica.


🍺 Toda universidade acaba encontrando sua Biblioteca

Talvez essa seja minha conclusão favorita.

Em São Paulo havia a Biblioteca.

O boteco do Manoel.

Não aquela biblioteca.

A outra.

Aquela onde departamentos que oficialmente não conversavam conseguiam interoperabilidade depois da segunda cerveja.

Onde aluno encontrava veterano.

Veterano conhecia funcionário.

Funcionário conhecia professor.

Professor sabia uma história.

E Manoel provavelmente sabia todas.

Portugal possuía outras interfaces.

Outros rituais.

Outros lugares.

Outra arquitetura social.

Mas, escavando suficientemente fundo, encontrei novamente aquilo que procurava sem saber:

gente.

E é engraçado perceber que tudo isso voltou porque, décadas depois, uma notícia sobre inteligência artificial e ensino fez meu cérebro executar um comando que eu não havia solicitado:

RESTORE UNIVERSITY.MEMORIES

Primeiro vieram os ghostwriters.

Depois os senpais eternos.

Depois o antiplágio.

Depois a Biblioteca.

Depois Manoel.

Depois Patropi.

E quando percebi...

eu estava novamente em Lisboa.


☕ Senhor Professor-Doutor, posso fazer uma pergunta?

Hoje eu responderia ao Bellacosa de 2002:

Pode.

Mas primeiro observe.

Toda sociedade possui um protocolo.

Toda instituição possui metadata.

Toda universidade possui um organograma oficial e outro completamente invisível.

Aprenda os dois.

Respeite aquilo que ainda não entende.

Não confunda diferença com defeito.

E depois...

escave.

Porque atrás do Senhor Professor-Doutor existe uma pessoa.

Atrás da formalidade existe uma história.

Atrás da tuna existe uma tradição.

Atrás daquela garrafa existe uma civilização inteira trocando receitas, técnicas e hábitos durante séculos.

E atrás do Sr. Bellacosa ainda estava aquele velho processo adormecido esperando alguma ginjinha executar:

READY
> LOAD PATROPI

PATROPI THE CHEMIST 1.0
COPYRIGHT 1990s
STATUS: LEGACY
COMPATIBILITY: SURPRISINGLY GOOD

> RUN

🍒 SYSTEM READY.

Talvez essa tenha sido a verdadeira aula que Lisboa me deu.

Não estava no currículo.

Não valia créditos.

Não apareceu no diploma.

Mas continua instalada mais de vinte anos depois:

Você não conhece realmente uma cultura quando aprende suas regras.

Começa a conhecê-la quando descobre onde — e com quem — essas regras podem relaxar.

E, se durante essa descoberta alguém colocar diante de você um pastel de bacalhau frito num óleo cuja origem parece anterior ao Iluminismo...

não faça perguntas demais.

Você já perguntou demais ao Senhor Professor-Doutor.

Coma o pastel.

Beba o Porto.

Escute a tuna.

E continue escavando.

☕ Um Café no Bellacosa Mainframe

Porque algumas das melhores aulas da universidade jamais tiveram sala, chamada ou professor — mas quase sempre havia uma mesa por perto.

https://eljefemidnightlunch.blogspot.com/2026/08/antes-do-chatgpt-tinha-biblioteca-nao.html

https://eljefemidnightlunch.blogspot.com/2026/08/o-milhao-de-chimpanzes-gutenberg-e.html

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2022

Parma: fui procurar Verdi e acabei num aniversário italiano

  

Bellacosa Mainframe memorias de Parma

☕ Um Café no Bellacosa Mainframe

🍷 PARMA — O DIA EM QUE FUI PROCURAR VERDI E ACABEI CANTANDO PARABÉNS PARA UM DESCONHECIDO

Ou: como uma pizza no café da manhã, alguns italianos lutando contra uma massa de macarrão, uma lombriga chamada Brigitte e uma jarra de vinho transformaram um almoço qualquer numa das minhas melhores lembranças da Europa

Há viagens que planejamos.

Compramos passagem, estudamos mapas, escolhemos museus, anotamos endereços, calculamos horários de trem e fazemos uma lista quase militar daquilo que precisamos conhecer.

E existem as outras.

As viagens que acontecem enquanto estamos ocupados executando o roteiro.

Minha história em Parma pertence à segunda categoria.

Eu fui até lá por causa de Giuseppe Verdi.

Voltei carregando a lembrança de um velhinho cujo nome provavelmente nem guardei.

E, décadas depois, ainda consigo descer aquelas escadas.



🎼 O MOTIVO ERA VERDI

Minha ida a Parma não começou pela gastronomia.

Não fui caçar restaurante famoso.

Não havia uma lista de estabelecimentos recomendados.

Não estava procurando estrelas Michelin.

Meu interesse era outro.

Eu queria conhecer um pouco mais do universo de Giuseppe Verdi.

E havia ainda uma conexão brasileira que tornava aquilo especialmente interessante para mim: Antônio Carlos Gomes, nosso grande compositor, viveu e trabalhou na Itália e pertenceu àquele extraordinário universo musical italiano do século XIX.

Portanto, naquele dia meu programa era essencialmente cultural.

Verdi.

Carlos Gomes.

Igrejas.

Ruelas.

Arquitetura.

História.

E andar.

Principalmente andar.

Eu sempre conheci cidades dessa maneira.

Coloco os pés na rua e começo a zanzar.



🍕 NOVE DA MANHÃ E O CAFÉ DA MANHÃ DOS CAMPEÕES

Cheguei de trem.

Era cedo, aproximadamente nove horas da manhã.

E eu já havia tomado aquilo que considero um café da manhã perfeitamente defensável:

pizza de trancio.

Nada de cereal integral.

Nada de iogurte cuidadosamente fotografado ao lado de três morangos.

Pizza.

Afinal, estávamos na Itália.

Alimentado e feliz, comecei a andar pelas ruas.

Foi então que passei diante de um restaurante.

Nada particularmente espetacular do lado de fora.

Não me lembro de estrelas.

Não parecia pertencer àquela categoria de estabelecimentos diante dos quais turistas fazem peregrinação.

Estava meio fora de mão.

E estava fechado.

Mas havia uma vitrine.

E atrás daquela vitrine acontecia uma guerra.


🍝 OS BRAVOS ITALIANOS LUTANDO CONTRA O MACARRÃO

Parei.

Lá dentro havia pessoas trabalhando com massa.

Não estavam montando pratos bonitos para Instagram.

O restaurante nem tinha aberto.

Era preparação.

Farinha.

Massa.

Bancada.

Braços trabalhando.

Italianos travando uma batalha corpo a corpo contra aquilo que algumas horas depois seria servido aos clientes.

Fiquei olhando.

Tirei fotografia.

Passei alguns minutos diante daquela vitrine simplesmente acompanhando o trabalho.

Talvez para eles fosse apenas mais uma manhã.

Para mim havia alguma coisa fascinante naquilo.

Era possível ver o back-end da cozinha funcionando antes da abertura do front-end.

O batch gastronômico estava em plena execução.

09:00

RESTAURANT = CLOSED
CUSTOMERS = 0
PASTA_BATCH = RUNNING
BRAZILIAN_OBSERVER = DETECTED

Guardei mentalmente o lugar.

E continuei andando.


⛪ VERDI, IGREJAS E QUILÔMETROS DEPOIS

Fui cumprir minha missão.

Visitei lugares ligados a Verdi.

Entrei em igrejas.

Observei prédios.

Atravessei ruas.

Fotografei.

Andei sem pressa.

Esse sempre foi um dos meus maiores prazeres viajando pela Europa: permitir que a cidade aparecesse entre um destino e outro.

Não apenas chegar.

Percorrer.

O problema é que existe um componente biológico que invariavelmente interfere nos grandes projetos culturais da humanidade.

A fome.

Por volta das treze horas, minha barriga começou a apresentar os primeiros alertas operacionais.

E então acordou uma velha companheira de viagem.

Brigitte.

Minha lombriga de estimação.

Brigitte é responsável por importantes decisões gastronômicas da minha vida.

Naquele momento ela assumiu o controle da navegação.

WARNING: FUEL LEVEL CRITICAL

BRIGITTE:
"Vagner..."

VAGNER:
"Que foi?"

BRIGITTE:
"Lembra daqueles italianos fazendo macarrão?"

VAGNER:
"..."

BRIGITTE:
"VOLTA."

Obedeci.


🪜 DESCENDO PARA OUTRA PARMA

Retornei ao restaurante.

Agora estava aberto.

Entrei.

E imediatamente veio aquele aroma.

Desci as escadas porque a sala onde se comia ficava no porão.

Lá embaixo encontrei exatamente o tipo de lugar que adoro descobrir viajando.

Poucas pessoas.

Nenhuma multidão.

Nenhum grupo turístico.

Nenhuma juventude fazendo fila para fotografar o prato da moda.

Havia principalmente gente de idade.

Rostos de quem parecia morar ali.

Pessoas que não haviam viajado milhares de quilômetros para conhecer Parma.

Elas eram Parma.

Conversei com o garçom.

Expliquei que era brasileiro.

Um andarilho.

E fiz talvez o melhor pedido possível naquele lugar:

— Me surpreenda.

O homem abriu um baita sorriso.

Anotou alguma coisa.

Foi embora.

Naquele instante percebi que havia cometido algo maravilhoso:

eu tinha entregado meu almoço aos italianos.


🍷 O SUMO DOS DEUSES

Pedi vinho da casa.

Veio numa jarra.

Nada de cerimônia.

Nada de uma garrafa acompanhada de uma palestra de quinze minutos sobre notas de carvalho, frutas vermelhas colhidas durante determinada fase da Lua ou o estado emocional das uvas.

Era vinho.

Na jarra.

Sumo dos deuses.

Chegou uma entrada.

Comecei a comer.

E observar.

Os clientes conversavam.

Os garçons circulavam.

O porão tinha vida.

Eu estava sozinho, mas não me sentia isolado.

E então chegou a comida.

Aquela mesma cozinha que eu havia espionado através do vidro às nove da manhã finalmente havia terminado seu processamento batch.

Era hora de consumir a produção.


🏛️ O LEGIONÁRIO VOLTOU DA GÁLIA

Aqui preciso confessar que provavelmente abandonei parte da elegância.

Estava com fome.

Tinha caminhado.

A comida estava maravilhosa.

O vinho estava ajudando.

Em algum momento comecei a comer com as mãos aquilo que permitia ser comido com as mãos.

Eu devia estar com uma expressão parecida com a de um legionário romano depois de marchar 25 quilômetros e finalmente receber comida.

Não estava degustando.

Estava mandando ver.

HUNGER_LEVEL = LEGIONARY
WINE_BUFFER = LOADED
CUTLERY = OPTIONAL
CUSTOMER_HAPPINESS = 100%

E foi aí que percebi uma mesa ao lado.

Havia dois velhinhos.

Pela minha observação rápida, concluí:

casados.

Um casal de idosos almoçando tranquilamente.

Eles começaram a me observar.

E aparentemente estavam se divertindo bastante vendo aquele brasileiro travar sua própria batalha contra a comida.

Vieram os primeiros olhares.

Sorrisos.

Até que puxaram conversa.


🇧🇷🤝🇮🇹 COMEÇA A DIPLOMACIA BRASIL–PARMA

Conversa vai.

Conversa vem.

Descobrem que sou brasileiro.

Explico minha peregrinação.

Falamos sobre coisas que hoje já não consigo reconstruir completamente.

Mas a barreira entre as duas mesas começa a desaparecer.

Até que eles oferecem:

— Quer experimentar isto?

Era o prato deles.

Agora havia um problema diplomático gravíssimo.

Recusar poderia provocar um incidente internacional entre Brasil e Itália.

Como patriota responsável, aceitei.

E descobri mais um sabor de Parma.

Aquilo não havia sido escolhido pelo garçom para o brasileiro.

Era aquilo que eles próprios estavam comendo.

De repente eu já não tinha apenas meu almoço.

Tinha acesso ao almoço da mesa vizinha.

Continuamos conversando.

Então veio outra oferta.

Vinho.

O vinho deles.

Aceitei novamente, desta vez já um pouco sem graça.

Mas integrado.

Comida atravessava a fronteira das mesas.

Vinho atravessava.

Histórias atravessavam.

Eu havia entrado naquele porão como um desconhecido.

Pouco tempo depois estava compartilhando comida com duas pessoas que jamais tinha visto na vida.


🎭 O PRIMEIRO PLOT TWIST

Foi durante a conversa que descobri que minha capacidade de investigação antropológica precisava de manutenção urgente.

Eles não eram casados.

A mulher era filha daquele senhor.

E havia mais.

Ela estava ali porque aquele dia era...

aniversário do pai.

Parei mentalmente por alguns segundos.

Então aquela não era simplesmente uma refeição cotidiana.

Eu havia entrado acidentalmente numa pequena celebração familiar.

A filha tinha levado o pai para almoçar.

E, no meio daquela comemoração, apareceu na mesa vizinha um brasileiro faminto comendo como se tivesse acabado de atravessar os Alpes com Aníbal.

Por alguma razão, eles resolveram conversar comigo.

Depois dividir a comida.

Depois dividir o vinho.

Eu estava sendo progressivamente absorvido por uma festa para a qual jamais havia sido convidado.

E ainda não tinha acontecido a melhor parte.


🎂 ENTÃO O GARÇOM APARECEU COM UMA TORTA

A refeição estava chegando ao fim.

Eu já havia comido maravilhosamente.

Bebido.

Conversado.

Rido.

Conhecido sabores que nem estavam no meu pedido.

Foi então que o garçom apareceu.

Carregava uma torta de aniversário.

Era para o velhinho.

E aconteceu uma dessas pequenas coisas que parecem insignificantes quando descritas rapidamente, mas que ficam armazenadas em algum lugar estranho da memória durante décadas.

Nós cantamos parabéns para ele.

A filha.

As pessoas do restaurante.

E aquele brasileiro que algumas horas antes estava do lado de fora fotografando homens fazendo macarrão através de uma vitrine.

Eu também cantei.

Para um homem cujo nome talvez eu nem tenha guardado.

Num porão em Parma.


❤️ NÃO ESTAVA NO SCRIPT

É aqui que a história deixa de ser sobre comida.

Eu tinha ido a Parma para procurar Verdi.

Queria história.

Música.

Carlos Gomes.

Igrejas.

Arquitetura.

E encontrei tudo isso.

Mas nenhuma dessas coisas estava naquele momento diante de mim.

Diante de mim havia apenas um senhor comemorando mais um ano de vida ao lado da filha.

E eu, um completo desconhecido, havia sido incorporado por alguns minutos àquela memória familiar.

Não estava no roteiro.

Não estava no bilhete do trem.

Não estava num guia turístico.

Não havia reservado aquela experiência pela internet.

Ninguém me vendeu um pacote chamado:

“Authentic Parma Experience — Lunch With Locals.”

Aconteceu.

Só isso.

Aconteceu.


🍝 A MELHOR COMIDA DA EUROPA?

Durante muitos anos, quando penso nas melhores refeições que tive na Europa, Parma aparece imediatamente.

Faço apenas uma exceção.

A comida caseira da Dona Gui, minha sogra.

Essa joga em outra categoria.

Mas, fora dela, Parma permanece em algum lugar muito especial da memória.

E hoje percebo que talvez eu tenha cometido um erro durante anos dizendo:

“Foi uma das melhores comidas que comi na Europa.”

Porque não consigo mais separar o sabor daquilo que aconteceu ao redor.

Quanto daquele macarrão era realmente macarrão?

Quanto daquele vinho era realmente vinho?

Quanto do sabor vinha do porão?

Dos velhinhos?

Da conversa?

Do prato que atravessou de uma mesa para outra?

Da jarra?

Da caminhada?

Da fome?

Da surpresa?

Do aniversário?

Da torta?

Não sei.

Talvez memória gastronômica seja justamente isso.

Comemos também o momento.


🧠 O BANCO DE DADOS QUE NÃO GUARDA APENAS SABORES

Décadas depois, algumas coisas desapareceram.

Não lembro cada palavra.

Não lembro necessariamente o nome de todos os pratos.

Talvez não consiga reconstruir perfeitamente o restaurante.

Mas consigo lembrar da sensação.

Curiosamente, enquanto escrevia esta história tantos anos depois, meus olhos ficaram marejados.

E isso talvez seja a melhor avaliação gastronômica que aquele restaurante jamais receberá de mim.

Não cinco estrelas.

Não dez pontos.

Não uma fotografia bonita.

Uma lembrança que ainda consegue provocar lágrimas décadas depois.


🚶 VIAJAR NÃO É APENAS CHEGAR

Talvez seja por isso que sempre gostei tanto de zanzar.

Quando seguimos apenas o roteiro, encontramos aquilo que fomos procurar.

Quando caminhamos sem tanta pressa, às vezes encontramos aquilo que não sabíamos que existia.

Se eu tivesse escolhido outro caminho naquela manhã, não teria visto a vitrine.

Se não tivesse parado, talvez não tivesse guardado o restaurante.

Se Brigitte não tivesse começado a reclamar às treze horas, talvez tivesse almoçado em outro lugar.

Se tivesse pedido apenas aquilo que conhecia, talvez o garçom não tivesse aberto aquele sorriso.

Se estivesse olhando para o telefone enquanto comia, talvez os dois nunca tivessem puxado conversa.

Se tivesse recusado o prato por educação, perderia um sabor.

Se tivesse recusado o vinho por vergonha, perderia outro pedaço da conversa.

Uma sequência absurda de pequenos IFs.

IF passeio = curioso
AND fome = verdadeira
AND restaurante = aquele
AND garcom = inspirado
AND mesas_vizinhas = abertas
AND viajante = disposto
THEN
    memoria = inesquecivel
END-IF

Nenhum deles isoladamente significa muita coisa.

Juntos produziram uma tarde que atravessou décadas.


🍷 EPÍLOGO — O VELHINHO DE PARMA

Não sei o que aconteceu depois com aquele senhor.

Não sei quantos outros aniversários ele comemorou.

Não sei se a filha alguma vez se lembrou daquele brasileiro estranho que apareceu no almoço do pai.

Provavelmente fui apenas uma pequena curiosidade daquele dia.

Talvez tenham voltado para casa e comentado:

— Aquele brasileiro estava com fome, hein?

E dado risada.

Mas existe algo bonito nisso.

Porque eles provavelmente nunca souberam que, muitos anos depois, do outro lado do Atlântico, aquele brasileiro ainda contaria a história.

Ainda lembraria do vinho.

Ainda lembraria da comida passando de uma mesa para outra.

Ainda lembraria da torta chegando.

Ainda lembraria de cantar parabéns.

Eu fui até Parma procurar a memória de homens famosos.

Giuseppe Verdi.

Antônio Carlos Gomes.

E acabei trazendo comigo a memória de um homem anônimo.

Talvez essa seja a maior ironia daquela viagem.

Verdi entrou para a História.

Carlos Gomes entrou para a História.

Mas aquele velhinho...

entrou na minha.

E talvez seja exatamente por isso que Parma continua tendo um sabor que nenhum restaurante conseguiu reproduzir.

Porque certas receitas precisam de ingredientes que não existem numa cozinha:

fome, acaso, curiosidade, generosidade, duas mesas, uma filha, um pai, uma torta e um brasileiro que simplesmente estava passando por ali.

🍷

Buon compleanno, signore.

Onde quer que o tempo tenha levado você.

Eu ainda me lembro daquele almoço.


☕ Um Café no Bellacosa Mainframe

Porque algumas das melhores histórias da vida nunca passaram pelo ambiente de homologação.


segunda-feira, 10 de agosto de 2020

O Crachá que Eu Nunca Tive Em 1990 eu sonhava trabalhar na Xerox.

 
Bellacosa Mainframe e o dia que sonhei trabalhar na Xerox do Brasil

☕ Um Café no Bellacosa Mainframe

O Crachá que Eu Nunca Tive

Em 1990 eu sonhava trabalhar na Xerox. Trinta e seis anos depois descobri que não queria realmente a Xerox — queria descobrir o mundo que existia depois daquela porta.

O professor barbudo acendeu o cachimbo.

Não porque precisasse dele.

Algumas lembranças simplesmente exigem cenário.

A fumaça subiu devagar pelo escritório enquanto eu olhava para uma tela onde conviviam COBOL, APIs, inteligência artificial e documentos que provavelmente jamais conheceriam uma folha de papel.

Curioso.

Passei boa parte da vida trabalhando com sistemas que processam milhões de informações e, naquela manhã, aquilo que voltou à memória não foi um programa, um banco de dados ou um mainframe.

Foi um cheiro.

Um cheiro químico.

Forte.

Desagradável.

Algo que minha memória insiste em comparar com amoníaco.

E imediatamente voltei para uma época em que copiar uma folha de papel era tecnologia.

Voltei para 1990.

Ou talvez um pouco antes.

Voltei para o garoto que eu era.

E, principalmente, para o crachá que eu nunca tive.



1. Quando o futuro tinha cheiro

Quem nasceu na era do smartphone talvez tenha dificuldade para compreender isso.

Houve uma época em que fazer uma cópia de um documento não significava apontar a câmera do telefone e tocar na tela.

Também não significava colocar uma folha num multifuncional doméstico de alguns quilos.

Copiar documentos podia envolver máquinas grandes, caras, mecânicas, eletrostáticas e, dependendo da tecnologia e da época, processos químicos.

Eu comecei a trabalhar quando ainda era possível encontrar equipamentos de reprodução que não pertenciam completamente ao universo do toner seco que depois se tornaria tão familiar.

Alguns processos de reprodução utilizavam reveladores líquidos; outros, como determinados sistemas diazo usados especialmente para plantas e desenhos técnicos, ficaram famosos pelo cheiro forte associado à amônia.

Talvez os detalhes químicos tenham se perdido em mais de três décadas.

O cheiro, não.

Memória é um banco de dados muito estranho.

Você pode esquecer um nome, uma data e até o modelo exato de uma máquina.

Mas alguém abre uma garrafa, passa um produto de limpeza ou aquece alguma coisa e, de repente:

SELECT *
  FROM MEMORIA
 WHERE CHEIRO = '1990';

SQLCODE = 0.

Registro encontrado.

O professor barbudo dá uma tragada no cachimbo.

E o garoto aparece novamente.



2. Xerox não era uma copiadora

Hoje olhamos para Xerox e imediatamente pensamos:

— Fotocópia.

Para mim, naquela época, significava muito mais.

Xerox era tecnologia.

Era multinacional.

Era treinamento.

Era uma empresa que parecia estar na fronteira entre aquilo que o mundo era e aquilo que o mundo seria.

E havia algo ainda mais importante para um garoto que não vinha daquele universo:

era uma boa empresa para trabalhar.

Eu ouvia falar dos benefícios.

Do salário.

De treinamento.

De possibilidades profissionais.

Até carro da empresa fazia parte daquele imaginário.

O salário podia chegar a várias vezes aquilo que eu recebia.

Cinco vezes mais parecia fortuna.

Mas dinheiro era apenas uma parte.

Eu queria pertencer àquele ambiente.

Em determinada ocasião fui fazer treinamento de operação de copiadoras Xerox — máquinas como as 1035, 1045 e 1060 fazem parte das minhas lembranças daquela época.

Eu não devia ter muito mais que 16 anos.

E fiquei maravilhado.

Não apenas pelas máquinas.

Pelo lugar.

Pelo ambiente.

Pelo treinamento.

Pelo refeitório.

Pelas pessoas.

Pela organização.

Pela sensação de que existia ali uma espécie de civilização profissional diferente daquela que eu conhecia.

Hoje isso pode parecer banal.

Não era.



3. O refeitório era parte do sonho

Esta talvez seja uma das coisas que somente alguém que começou a trabalhar muito cedo consegue compreender completamente.

Quando você cresce cercado por determinadas condições, certos benefícios empresariais parecem normais.

Refeitório.

Treinamento.

Plano de carreira.

Benefícios.

Instalações agradáveis.

Equipamentos modernos.

Para quem está olhando aquilo de fora, porém, a mensagem é completamente diferente:

Então é possível trabalhar assim?

O refeitório não era apenas um lugar para comer.

Era uma evidência.

Aquele prédio inteiro dizia silenciosamente para mim:

existe outro mundo profissional.

E eu queria entrar nele.

Não havia terminado sequer o colegial.

Morava no subúrbio.

Ir e voltar para casa fazia parte da batalha cotidiana.

Trabalhar e estudar ao mesmo tempo não era frase bonita para colocar no LinkedIn.

Era terça-feira.

Era quarta-feira.

Era quinta-feira.

E os boletos não eram uma metáfora sobre responsabilidade.

Eram dolorosamente reais.

Mesmo assim, eu sonhava.


4. Eu queria aquele crachá

Às vezes me imaginava trabalhando na Xerox.

É engraçado admitir isso depois de tantos anos.

Eu conseguia praticamente enxergar o crachá no peito.

VAGNER.

Funcionário da Xerox do Brasil.

Pronto.

Eu tinha vencido.

Era mais ou menos esse o tamanho do horizonte que eu conseguia enxergar.

E existe uma lição importante aqui para quem está começando uma carreira.

Não despreze sonhos pequenos vistos do futuro.

Eles podem ter sido gigantes quando foram sonhados.

O jovem de 1990 não possuía todas as informações que o homem de 2026 possui.

Ele não poderia planejar aquilo que sequer sabia que existia.

Eu não imaginava o que aconteceria depois.

Não imaginava trabalhar com mainframes.

Não imaginava passar por instalações da IBM na região de Milão.

Não imaginava trabalhar em aeroportos.

Não imaginava mergulhar no sistema financeiro brasileiro.

Não imaginava morar na Europa.

Não imaginava voltar ao Brasil carregando experiências de mundos completamente diferentes.

Muito menos imaginava que, décadas depois, estaria ensinando tecnologia.

Se alguém tivesse contado tudo isso para aquele garoto, talvez ele respondesse:

— Legal. Agora preciso ir embora porque amanhã acordo cedo.

A sobrevivência vinha antes da autobiografia.


5. Enquanto isso, havia um velho chamado COBOL

Aqui nossa história começa a ficar especialmente divertida.

Porque, enquanto eu olhava para aquelas máquinas modernas e imaginava o futuro, havia uma tecnologia que já era considerada velha.

COBOL.

O COBOL surgiu em 1959.

Quando chegamos a 1990, portanto, ele já carregava aproximadamente três décadas de história.

Trinta anos!

Para um adolescente, trinta anos é praticamente arqueologia.

A Xerox parecia moderna.

As copiadoras pareciam modernas.

Os computadores pessoais pareciam o futuro.

COBOL?

O velho já estava lá.

       IDENTIFICATION DIVISION.
       PROGRAM-ID. VELHO-SENHOR.

       PROCEDURE DIVISION.
           DISPLAY 'AINDA NAO TERMINEI'.
           STOP RUN.

O professor barbudo ri.

Porque sabe o final dessa história.

O garoto não sabia.


6. A civilização da fotocópia

Para entender a transformação tecnológica que viria depois, precisamos lembrar que fotocópias não eram simplesmente conveniência.

Elas faziam parte da infraestrutura social.

Havia lojas especializadas em cópias.

Algumas enormes.

Conheci várias.

Algumas possuíam uma quantidade impressionante de máquinas.

Dez.

Quinze.

Vinte copiadoras.

E havia fila.

Fila de gente querendo transformar papel em mais papel.

Hoje isso parece quase absurdo.

Na época era perfeitamente racional.

Universidades precisavam de cópias.

Escritórios precisavam de cópias.

Empresas precisavam de cópias.

Advogados precisavam de cópias.

Estudantes precisavam de cópias.

Órgãos públicos precisavam de cópias.

Bancos precisavam de cópias.

E a burocracia brasileira possuía uma fome particularmente insaciável por papel.


7. ORIGINAL + 3 VIAS

Quem viveu aquela época conhece a expressão.

Em três vias.

Uma para você.

Uma para o departamento.

Uma para outro departamento.

E talvez uma quarta porque ninguém sabia exatamente onde as outras três terminariam.

Mas não bastava possuir papel.

Era necessário possuir o artefato mágico:

O protocolo.

Carimbo.

Data.

Rubrica.

Pronto.

Sua folha havia adquirido existência administrativa.

O programador COBOL iniciante pode imaginar algo assim:

       IF DOCUMENTO-ENTREGUE = 'S'
           MOVE FUNCTION CURRENT-DATE
             TO DATA-PROTOCOLO
           MOVE 'CARIMBADO'
             TO STATUS-DOCUMENTO
       ELSE
           MOVE 'VOCE NAO ENTREGOU'
             TO STATUS-DOCUMENTO
       END-IF.

Sem protocolo?

Boa sorte.


8. O checksum humano do cartório

E havia outra instituição maravilhosa:

a cópia autenticada.

Você possuía o documento original.

Fazia uma cópia.

Levava original e cópia ao cartório.

Alguém comparava os dois.

E certificava que aquela reprodução correspondia ao original.

Pensando como programador:

DOCUMENTO ORIGINAL
       |
       V
    FOTOCÓPIA
       |
       V
  CÓPIA GERADA
       |
       V
    CARTÓRIO
       |
       V
COMPARE ORIGINAL WITH COPY
       |
       +---- DIFERENTE ---> REJECT
       |
       +---- IGUAL -------> AUTENTICADA

Era um CHECKSUM humano.

Com carimbo.

E fé pública.

O mundo funcionava assim porque a informação ainda estava profundamente associada ao objeto físico que a carregava.

Isso é fundamental para entender o que aconteceu depois.


9. A primeira grande transformação: o documento separou-se do papel

Durante séculos, informação administrativa e papel praticamente caminharam juntos.

Então o computador começou a romper essa relação.

Primeiro criávamos documentos digitalmente e os imprimíamos.

Depois imprimíamos cada vez menos.

Vieram impressoras matriciais.

Impressoras laser.

Jato de tinta.

Scanners.

E-mail.

PDF.

Internet.

Sistemas de gestão documental.

Certificados digitais.

Assinaturas eletrônicas.

Cloud.

Smartphones.

Finalmente aconteceu algo conceitualmente revolucionário:

A cópia deixou de precisar existir fisicamente.

Em 1990:

INFORMAÇÃO
    |
    V
  PAPEL
    |
    V
COPIADORA
    |
    V
OUTRO PAPEL

Décadas depois:

INFORMAÇÃO
    |
    V
ARQUIVO DIGITAL
    |
    +----> EMAIL
    +----> CLOUD
    +----> APP
    +----> API
    +----> SMARTPHONE

A transformação não matou simplesmente a copiadora.

Ela atacou a razão pela qual precisávamos dela.


10. E então o celular terminou o serviço

Imagine entregar um smartphone moderno para aquele garoto de 1990.

Explique:

— Isto é telefone.

Tudo bem.

— Também é câmera.

Interessante.

— Calculadora.

Legal.

— Agenda.

Ótimo.

— Terminal bancário.

Como?

— Biblioteca.

Como?

— Máquina fotográfica.

Você já falou.

— Filmadora.

Espera.

— Correio.

— Televisão.

— Rádio.

— Mapa.

— GPS.

— Scanner.

E então coloque um documento sobre a mesa.

Aponte o telefone.

Click.

Pronto.

O garoto provavelmente olharia para aquela Xerox enorme e depois para o pequeno retângulo em sua mão.

Algo deu terrivelmente errado com a escala das coisas.


11. As lojas desapareceram

Esse é um dos aspectos mais fascinantes da transformação tecnológica.

Não desaparecem somente máquinas.

Desaparecem ecossistemas.

Em torno das copiadoras existiam:

  • fabricantes;

  • vendedores;

  • técnicos;

  • operadores;

  • fornecedores;

  • lojas;

  • papelarias;

  • toner;

  • peças;

  • cilindros;

  • papel;

  • contratos;

  • treinamento;

  • logística;

  • aluguel de equipamentos.

Quando uma tecnologia é substituída, todos esses elementos precisam se transformar ou desaparecem junto com ela.

As grandes lojas com vinte máquinas e filas de clientes tornaram-se raridades.

Algumas sobreviveram transformadas em gráficas rápidas e centros de serviços.

Outras simplesmente fecharam.

O futuro chegou.

Só não chegou da maneira que imaginávamos.


12. E o COBOL?

Ah.

O velho.

Enquanto isso...

       PROCEDURE DIVISION.

           DISPLAY 'VOCES TERMINARAM?'.

           PERFORM PROCESSA-FOLHA.
           PERFORM CALCULA-JUROS.
           PERFORM ATUALIZA-CONTA.
           PERFORM LIQUIDA-PAGAMENTO.

           DISPLAY 'TENHO BATCH PARA RODAR.'.

           STOP RUN.

Aqui existe uma das grandes lições sobre legado.

Idade não determina obsolescência.

Utilidade determina muito mais.

A copiadora solucionava um problema:

reproduzir fisicamente informação.

Quando a necessidade de reprodução física diminuiu drasticamente, sua importância também diminuiu.

COBOL solucionava outro conjunto de problemas:

processar negócios.

Folha de pagamento continua existindo.

Conta bancária continua existindo.

Seguro continua existindo.

Cobrança continua existindo.

Tributação continua existindo.

Estoque continua existindo.

Liquidação financeira continua existindo.

O formulário mudou.

O negócio permaneceu.


13. O segredo da sobrevivência

Isso também não significa que o COBOL de 2026 seja simplesmente uma peça congelada de 1959.

Esse é outro erro frequente.

Compiladores evoluíram.

Plataformas evoluíram.

Integrações evoluíram.

O COBOL moderno pode participar de arquiteturas envolvendo APIs, JSON, XML, mensageria, bancos relacionais, CICS, IMS, Db2, VSAM e inúmeros componentes contemporâneos.

Imagine:

SMARTPHONE
    |
    V
 INTERNET
    |
    V
   API
    |
    V
z/OS Connect
    |
    V
  CICS
    |
    V
  COBOL
    |
    V
Db2 / VSAM

O usuário toca numa interface criada há seis meses.

Uma API recebe a chamada.

Alguma infraestrutura moderna encaminha a transação.

E lá embaixo pode existir uma regra de negócio cuja genealogia atravessa décadas.

O usuário pensa:

— Que aplicativo moderno!

Lá no porão, o COBOL olha para cima:

— Crianças...


14. Não confunda interface com essência

Esta talvez seja uma das maiores lições que aquela velha copiadora pode ensinar ao programador iniciante.

Tecnologias visíveis parecem dominar nossa percepção.

A copiadora era visível.

Grande.

Barulhenta.

Impressionante.

Um mainframe frequentemente não é percebido pelo consumidor.

Mas aquilo que vemos não é necessariamente aquilo que sustenta o processo.

Uma interface pode mudar dez vezes enquanto determinada regra de negócio permanece.

Imagine um cálculo bancário.

Em determinado momento ele foi solicitado por formulário.

Depois:

TERMINAL

Depois:

ATM

Depois:

HOME BANKING

Depois:

WEB

Depois:

SMARTPHONE

Amanhã talvez:

AGENTE DE IA

Mas a pergunta central continuará:

O CLIENTE TEM SALDO?
QUAL A TAXA?
QUAL O LIMITE?
A TRANSAÇÃO É PERMITIDA?
COMO CONTABILIZAR?

A interface muda.

O negócio permanece.


15. O erro de rir do legado

Programadores iniciantes frequentemente encontram algo antigo e imediatamente perguntam:

— Por que ainda usamos isso?

É uma excelente pergunta.

Mas existe uma pergunta melhor:

Por que isso conseguiu sobreviver até aqui?

Essa mudança de perspectiva é poderosa.

Se determinado programa atravessou 20, 30 ou 40 anos de produção, talvez exista uma razão.

Talvez carregue milhares de regras.

Talvez esteja profundamente integrado.

Talvez possua comportamento conhecido.

Talvez tenha sido corrigido centenas de vezes.

Talvez substituir aquilo custe muito mais que mantê-lo.

Talvez ninguém tenha conseguido demonstrar economicamente que a substituição produziria benefício proporcional ao risco.

Legado não significa automaticamente ruim.

Legado significa:

algo que recebemos de quem veio antes.

Pode ser maravilhoso.

Pode ser horroroso.

Normalmente é um pouco dos dois.


16. Curiosidade — o programa também possui arqueologia

Quando você abre um programa COBOL antigo, procure os comentários.

Talvez encontre:

* 1992 - JOSE - ALTERACAO DE JUROS
* 1997 - MARIA - NOVA REGRA
* 2004 - CARLOS - AJUSTE CONTABIL
* 2011 - ANA - PROJETO XYZ
* 2018 - ROBERTO - ADEQUACAO
* 2026 - VAGNER - API

Isso não é apenas documentação.

É estratigrafia.

Cada alteração representa uma camada histórica.

Como uma cidade construída sobre outra cidade.

Ou como aquela loja que primeiro teve uma copiadora, depois dez, depois vinte, depois scanners e finalmente virou outra coisa.

Programas também carregam fósseis.


17. Dica ao programador COBOL iniciante

Quando receber um programa antigo, não comece alterando.

Primeiro investigue.

Passo 1 — descubra quem chama o programa

Batch?

CICS?

Outro programa?

Scheduler?

API?

Passo 2 — descubra os dados

Ele lê VSAM?

Db2?

Arquivo sequencial?

MQ?

Passo 3 — procure as regras

Não fique olhando apenas IF, MOVE e PERFORM.

Pergunte:

que regra de negócio isso representa?

Passo 4 — procure história

Comentários.

Datas.

Alterações.

Chamadas.

Copybooks.

JCL.

Dependências.

Passo 5 — só então modifique

Porque talvez aquele IF aparentemente idiota exista desde 1994 justamente porque alguma sexta-feira terrível ensinou alguém que ele precisava estar ali.


18. Easter egg — o programador de 1990

Imagine que eu consiga entrar novamente naquele centro de treinamento.

O garoto está diante da Xerox.

Chego perto.

Barbudo.

Mais velho.

Cachimbo na mão.

Ele provavelmente ficaria desconfiado.

— Quem é você?

— Longa história.

— Você trabalha aqui?

Olho para meu peito.

Nenhum crachá da Xerox.

— Não.

Talvez ele fique decepcionado.

Então pergunto:

— Você realmente quer trabalhar aqui?

— Claro!

— Por quê?

Ele começa a falar.

Tecnologia.

Salário.

Benefícios.

Carro.

Treinamento.

Ambiente.

Futuro.

Eu sorrio.

Agora compreendo.

Ele não quer aquela empresa especificamente.

Ele quer atravessar aquela porta.

Então digo:

— Continue andando.

— Vou conseguir trabalhar aqui?

Dou outra tragada no cachimbo.

— Não.

Ele me olha indignado.

— Então por que continuar?

Porque agora eu sei algo que ele não sabe.

— Porque existe muito mais depois dessa porta do que você consegue enxergar daqui.


19. Trinta e seis anos depois

A fumaça desaparece lentamente no escritório.

Volto para 2026.

Na minha frente existe um computador infinitamente mais poderoso do que quase qualquer coisa que aquele garoto poderia imaginar.

Posso conversar com inteligência artificial.

Posso acessar sistemas do outro lado do planeta.

Posso ensinar pessoas sem estar na mesma sala.

Posso escrever uma história e publicá-la para milhares de pessoas sem gráfica, fotolito, papel ou copiadora.

A velha Xerox desapareceu da minha frente.

O crachá nunca chegou.

Curiosamente, isso deixou de importar há muito tempo.

Porque vieram outras portas.

Mainframe.

Aeroporto.

Sistema financeiro.

IBM.

Milão.

Europa.

Tecnologia.

Ensino.

Alunos.

Histórias.

E o COBOL?

Bem...

O COBOL estava aqui antes de boa parte dessa história começar.

E continua aqui.


20. A máquina morreu; o sonho não

Talvez seja esse o verdadeiro significado daquela lembrança.

Quando somos jovens, confundimos frequentemente o símbolo com o objetivo.

Eu achava que queria um crachá.

Queria oportunidade.

Achava que queria Xerox.

Queria tecnologia.

Achava que queria aquele prédio.

Queria descobrir até onde poderia chegar.

Achava que queria cinco vezes meu salário.

Também queria isso.

Não vamos romantizar demais.

Os boletos continuavam chegando.

O professor barbudo sabe perfeitamente disso.

Mas havia algo além.

Aquela empresa me mostrou que existia um mundo maior.

E isso foi suficiente.


Epílogo — IDENTIFICATION DIVISION

O cachimbo está quase apagado.

Antes de levantar, olho novamente para a tela.

Talvez toda carreira possua sua própria IDENTIFICATION DIVISION.

       IDENTIFICATION DIVISION.

       PROGRAM-ID. CRACHA-QUE-EU-NUNCA-TIVE.

       AUTHOR. VAGNER-BELLACOSA.

       DATE-WRITTEN. 1990.

      *------------------------------------------------*
      * NA VERDADE O PROGRAMA AINDA ESTAVA SENDO      *
      * ESCRITO. O PROGRAMADOR APENAS NAO SABIA.      *
      *------------------------------------------------*

       PROCEDURE DIVISION.

           PERFORM TRABALHAR.
           PERFORM ESTUDAR.
           PERFORM ERRAR.
           PERFORM APRENDER.
           PERFORM VIAJAR.
           PERFORM ENSINAR.
           PERFORM CONTAR-HISTORIAS.

           DISPLAY
             'O CRACHA NUNCA CHEGOU.'.

           DISPLAY
             'MAS EU ATRAVESSEI A PORTA.'.

           STOP RUN.

Talvez o detalhe mais bonito seja justamente este:

em 1990 eu olhava para a Xerox e acreditava estar olhando para o futuro.

Eu estava.

Só havia cometido um pequeno erro de interpretação.

O futuro não era a copiadora.

Não era o toner.

Não era o prédio.

Nem sequer era o crachá.

O futuro era o garoto olhando para tudo aquilo e descobrindo que queria ir mais longe.

A Xerox que ele admirava mudou.

As copiadoras gigantes envelheceram.

As lojas cheias de máquinas desapareceram.

O papel perdeu parte do império.

O mundo digital engoliu toneladas de documentos.

Até o telefone virou scanner.

E aquele COBOL que já parecia velho em 1990?

Continua executando.

Talvez esteja tentando nos ensinar alguma coisa.

Máquinas passam.

Empresas mudam.

Tecnologias envelhecem.

Crachás expiram.

Mas conhecimento acumulado, curiosidade e vontade de atravessar a próxima porta possuem uma estranha capacidade de sobreviver.

O professor apaga o cachimbo.

O garoto pega suas coisas e vai embora.

Ainda há um trem para pegar.

Ainda há escola.

Ainda há trabalho amanhã.

Ainda há boletos.

Ele não sabe nada sobre Milão.

Não sabe nada sobre bancos.

Não sabe nada sobre mainframes.

Não sabe que um dia será professor.

Não sabe que, trinta e seis anos depois, ainda se lembrará daquele refeitório.

Melhor assim.

Se soubesse tudo, talvez deixasse de ser sonho e virasse cronograma.

Ele apenas segue andando.

Sem o crachá.

Mas na direção da porta.

☕ Um Café no Bellacosa Mainframe

Onde até uma velha copiadora pode ensinar alguma coisa sobre COBOL, legado, carreira — e sobre os programas que levamos uma vida inteira para compilar.



Vagner Renato Bellacosa, IBM Champion e especialista em IBM Mainframe
IBM Z17 SYSTEM ONLINE
Sobre o autor

Vagner Renato Bellacosa

IBM Champion 2026 • Especialista em IBM Mainframe

Vagner Renato Bellacosa trabalha com IBM Mainframe desde 1988 , é IBM Champion e especialista em COBOL, CICS, Db2, z/OS e IBM Z. Compartilha experiências profissionais, conhecimento técnico, história da computação e práticas do universo mainframe para aproximar novas gerações das tecnologias que sustentam empresas, bancos e governos ao redor do mundo.

IBM Champion IBM Z COBOL CICS Db2 z/OS Mainframe desde 1988
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