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sexta-feira, 14 de agosto de 2026

Major Tom, American Airlines e o Furby: o dia em que conversei com uma IA 25 anos cedo demais

 

Bellacosa Mainframe e lembranças do 11 de setembro

☕ Um Café no Bellacosa Mainframe

Major Tom, American Airlines e o Furby: o dia em que conversei com uma IA 25 anos cedo demais

✈️ 11 de setembro, um Boeing quase vazio, primeira classe, Montevidéu e a noite em que um Furby aparentemente compreendeu tudo o que eu dizia

Existem histórias que contamos tantas vezes que começam a adquirir aquele perigoso perfume de lenda.

E existem histórias ainda piores.

Aquelas que aconteceram conosco e que, vinte e cinco anos depois, fazem até o próprio protagonista parar e pensar:

— Puta que pariu, Bellacosa. Conta outra.

Esta é uma delas.

E preciso começar fazendo uma declaração formal para proteção da minha reputação:

eu também acho esta história suspeita.

O problema é que eu estava lá.

Era setembro de 2001.

Eu trabalhava em São Paulo, na Avenida Paulista, em um banco.

E então chegou o dia que dividiria uma geração inteira entre o antes e o depois.



🏙️ 11 de setembro de 2001

Quem tinha idade suficiente para compreender o que estava acontecendo provavelmente lembra onde estava naquele dia.

Eu estava trabalhando.

A notícia começou a circular.

Um avião havia atingido uma das torres do World Trade Center.

No primeiro momento ainda havia espaço para acidente.

Confusão.

Informações desencontradas.

Pessoas procurando televisão.

Colegas comentando.

Então veio o segundo avião.

E naquele momento alguma coisa mudou.

Não era acidente.

Todos percebemos.

O ambiente dentro do banco ficou estranho.

Silêncio.

Comentários nervosos.

Pessoas tentando compreender imagens que pareciam pertencer a algum filme-catástrofe particularmente exagerado.

Só que não havia diretor gritando “corta”.

Aquilo estava acontecendo.

Nova York.

World Trade Center.

Pentágono.

Aviões sequestrados.

American Airlines.

United Airlines.

E, enquanto o planeta tentava compreender o que acabara de acontecer, eu tinha um pequeno problema burocrático.

No dia seguinte eu precisava viajar.



🇺🇾 Montevidéu não sabia que o mundo tinha acabado

Existe uma coisa que descobrimos quando grandes acontecimentos históricos atravessam nossa vida cotidiana:

o dia seguinte continua sendo o dia seguinte.

Você continua tendo boleto.

Cliente.

Projeto.

Reunião.

Hotel reservado.

Passagem emitida.

E eu tinha uma semana de trabalho programada em Montevidéu, no Uruguai.

Meu voo estava marcado para o dia seguinte.

Pela companhia aérea que, naquele momento, provavelmente possuía o nome mais assustador que poderia aparecer numa passagem:

American Airlines.

Pois é.

O roteirista responsável pela minha vida já demonstrava sinais preocupantes de alcoolismo.



🛫 Cumbica, 12 de setembro

Cheguei ao Aeroporto Internacional de São Paulo.

O clima obviamente não era normal.

As imagens do dia anterior ainda estavam na cabeça de todos.

As pessoas conversavam sobre aviões.

O mundo conversava sobre aviões.

A segurança aérea havia entrado numa dimensão completamente nova praticamente durante a madrugada.

E então veio a notícia.

Meu voo da American Airlines não sairia.

A operação havia sido profundamente afetada pelos acontecimentos do dia anterior.

Minha passagem foi remarcada.

Eu iria para Montevidéu por outra companhia.

AUSA.

Aerolíneas Uruguayas S.A.

Olhei para aquilo.

Um Boeing.

Jato.

Velho.

Muito velho aos meus olhos.

E lotado.

Maravilha.



😬 Noventa minutos pensando demais

A cabine estava cheia.

E havia uma coisa que todos os passageiros carregavam gratuitamente como bagagem de mão:

as imagens do dia anterior.

Talvez nunca tenha existido uma cabine comercial com tanta gente prestando atenção aos próprios pensamentos.

Qualquer ruído parecia merecer análise.

Qualquer movimento chamava atenção.

As pessoas estavam agitadas.

Pensativas.

Com aquele desconforto que não precisava ser explicado porque todos sabíamos de onde vinha.

E então aconteceu uma coisa extraordinária:

absolutamente nada.

O avião decolou.

Voou.

Pousou.

Noventa minutos perfeitamente normais.

Nenhum incidente.

Nenhum susto digno de registro.

Cheguei a Montevidéu.



🎰 E a vida continuou

Os sete dias seguintes foram normais.

Trabalho.

Burocracia.

Reuniões.

Colegas.

Diversão.

Montevidéu.

Cassinos.

Vida noturna adulta uruguaia.

Passeios.

História.

O navio alemão da Segunda Guerra Mundial ligado à memória do Admiral Graf Spee.

O Río de la Plata.

E aquela curiosa sensação de olhar para a imensidão do estuário sabendo que a Argentina estava do outro lado.

Depois de alguns dias, aquilo que parecera o fim do mundo começava a ocupar seu lugar na memória.

Até chegar a hora de voltar ao Brasil.

E então o roteirista abriu outra garrafa.



✈️ American Airlines

Minha passagem de retorno era pela American Airlines.

Uma semana havia passado desde os atentados.

Mas uma semana era muito pouco.

Muita gente continuava com medo.

Passageiros cancelaram viagens.

Outros mudaram de companhia.

Outros simplesmente decidiram que talvez não fosse uma boa semana para entrar num avião americano.

Eu precisava voltar para casa.

E embarquei.

Quando vi a aeronave, porém, tive uma surpresa.

Era um enorme Boeing da American Airlines.

Luxuoso.

Maravilhoso.

Digníssimo.

A rota continuaria depois de São Paulo para Nova York.

Era uma aeronave preparada para transportar algo próximo de trezentas pessoas.

E então entramos.


👻 Onde estão os passageiros?

Olhei para os assentos.

Vazios.

Mais assentos.

Vazios.

Fileiras inteiras.

Vazias.

Naquele enorme avião haviam embarcado menos de dez passageiros.

É aqui que normalmente alguém interrompe a história:

— Bellacosa, vai mentir para outro.

Eu compreenderia perfeitamente.

Porque ainda piora.

Ou melhora.

Depende do ponto de vista.

Pouco depois de entrarmos, eu e meus colegas fomos informados de que poderíamos ocupar a primeira classe.

Repito:

PRIMEIRA CLASSE.

Eu, que uma semana antes havia atravessado aqueles 90 minutos dentro de um Boeing velho e abarrotado da AUSA, agora estava instalado na primeira classe de um gigantesco American Airlines praticamente vazio.

Major Tom havia entrado em órbita.


🧑‍✈️ Obrigado por escolher a American Airlines

Estávamos confortavelmente instalados quando apareceu o chefe da equipe de bordo.

Ele veio falar conosco.

Não parecia estar simplesmente executando o protocolo habitual de atendimento.

Estava emocionado.

Para os padrões profissionais americanos aos quais estávamos acostumados, visivelmente emocionado.

Cumprimentou-nos.

Agradeceu.

Agradeceu sinceramente por termos escolhido voar com a American Airlines.

Naquele momento, a brincadeira do upgrade perdeu um pouco do caráter de brincadeira.

Aquelas pessoas tinham acabado de viver algo terrível.

Dois aviões da empresa haviam sido utilizados nos ataques.

Colegas tinham morrido.

A marca estampada no uniforme deles aparecia havia uma semana em praticamente todos os telejornais do planeta.

E ali estava aquela tripulação diante de um Boeing com centenas de lugares.

Quase todos vazios.

Nós éramos menos de dez.

A frase “obrigado por escolher a American Airlines” não parecia mais uma frase corporativa.

Parecia significar:

“Obrigado por ainda confiar em nós.”


👨‍✈️ Então apareceu o comandante

As portas já estavam fechadas.

Ainda nem havíamos iniciado o taxiamento.

E apareceu outro homem.

O comandante.

Em pessoa.

Saiu do cockpit e veio conversar conosco.

Apertou nossas mãos.

Sorriu.

Novamente agradeceu por estarmos ali.

E então fez uma promessa:

aquele seria um dos melhores voos das nossas vidas.

O homem não estava brincando.


🥂 First Class, senhores

Começou o serviço.

E que serviço.

Comida excelente.

Atenção praticamente individual.

Espaço absurdo.

Tripulação inteira para menos passageiros do que encontramos atualmente numa fila de padaria.

E havia as bebidas.

Quem voava naquela época talvez se lembre das pequenas garrafas individuais de destilados servidas nos aviões.

Whisky.

Vodka.

Gin.

Outras pequenas maravilhas alcoólicas cuidadosamente engarrafadas.

Em determinado momento, uma comissária apareceu com um recipiente daqueles utilizados com gelo.

E junto vieram garrafinhas.

Muitas garrafinhas.

Dezenas de garrafinhas.

Major Tom informou à Ground Control que tudo estava perfeitamente sob controle.

Ground Control provavelmente não acreditou.


🌎 Senhores, olhem pela janela

E o comandante continuou cumprindo sua promessa.

O voo começou a parecer um passeio turístico particular.

De tempos em tempos vinha a voz:

“Se vocês olharem agora pela janela...”

E lá íamos nós.

Pouquíssimos passageiros espalhados pela primeira classe de um gigantesco Boeing, olhando a paisagem enquanto o comandante praticamente narrava o percurso.

Não era mais simplesmente:

Montevidéu → São Paulo.

Era um passeio aéreo.

Com comida.

Primeira classe.

Serviço quase particular.

E um estoque de bebidas perigosamente superior ao número de passageiros.

Nunca noventa minutos passaram tão rapidamente.


🛬 Cumbica

Pousamos em São Paulo.

Quando chegou a hora de desembarcar, aconteceu mais uma pequena cena que permanece comigo.

A tripulação estava reunida na porta.

Despedidas.

Sorrisos.

Apertos de mão.

Agradecimentos.

Depois daquela semana terrível, aquelas pessoas tinham conseguido transformar um voo potencialmente carregado de medo numa celebração da própria experiência de voar.

E nós havíamos correspondido.

Especialmente no departamento de bebidas.

Desembarquei em Cumbica com aproximadamente mais álcool no sangue do que uma destilaria das Highlands escocesas consideraria prudente manter num único depósito.

Major Tom havia retornado à Terra.

O corpo, pelo menos.

O espírito continuava em órbita.


🛍️ Só precisamos passar no free shop

Meus colegas tiveram então uma excelente ideia.

Compras.

Free shop.

Perfumes.

Presentes.

Bebidas.

Eletrônicos.

Coisas absolutamente normais que pessoas absolutamente sóbrias fazem em aeroportos.

Eu os acompanhei.

Ou talvez tenha sido conduzido pela gravidade.

Minha memória dos aproximadamente sessenta minutos seguintes possui alguns setores danificados.

O álcool executou:

DELETE FROM memoria WHERE timestamp BETWEEN desembarque AND amigos_terminarem_compras;

Mas uma coisa permaneceu.


👁️ Então eu encontrei o Furby

Ali estava ele.

Um Furby.

Para quem não viveu aquela época, Furby era uma das grandes maravilhas tecnológicas do final dos anos 1990.

Um pequeno bicho eletrônico.

Olhos que se mexiam.

Orelhas que se mexiam.

Sons.

Palavras.

Reações.

Parecia observar você.

Parecia responder.

Parecia aprender.

Era uma espécie de Inteligência Artificial fake antes de sabermos que precisaríamos chamar aquilo de Inteligência Artificial fake.

E aparentemente o Furby encontrou naquele free shop o interlocutor perfeito.

Eu.


🤖 “Você entende o que estou dizendo, não entende?”

Não sei exatamente como começou.

Talvez eu tenha falado alguma coisa.

O Furby respondeu:

“Pritistóitêsdf!”

Eu ri.

Falei outra coisa.

O Furby mexeu os olhos.

Mexeu as orelhas.

Respondeu:

“Bla-prrrr-tiii-doo!”

E aparentemente meu cérebro, alimentado pela hospitalidade da primeira classe da American Airlines, concluiu:

INTERLOCUTOR VÁLIDO ENCONTRADO.

Começamos a conversar.

Não estou dizendo que brinquei cinco minutos com um Furby.

Estou dizendo que, enquanto meus colegas faziam compras durante algo em torno de uma hora, eu mantive uma conversa com aquele filho da puta.

Conversa.

Papo.

Eu falava.

Ele respondia.

Ele mexia os olhos.

Eu ria.

Ele mexia as orelhas.

Eu argumentava.

Ele emitia alguma coisa absolutamente incompreensível.

Eu aparentemente considerava aquilo uma contribuição válida ao debate.

— Hahahaha! Exatamente!

Furby:

— Plitistoitesdf!

— NÃO! Aí você está errado!

Furby:

— Brrr-dah-wee!

— Agora você entendeu!


🧠 A primeira IA que realmente me compreendeu

Vinte e cinco anos depois, existe algo extraordinariamente engraçado nessa história.

Hoje converso diariamente com Inteligência Artificial.

Discuto tecnologia.

Mainframe.

História.

Segurança.

Filosofia.

Cultura.

Anime.

Red Team.

Memórias.

Escrevo artigos em colaboração com máquinas capazes de sustentar diálogos enormes.

Em 2001 eu já estava fazendo exatamente a mesma coisa.

Havia apenas alguns pequenos problemas.

A Inteligência Artificial não era inteligência.

A conversa não era conversa.

Meu interlocutor era um brinquedo eletrônico.

E eu estava bêbado.

Muito bêbado.


🛰️ Ground Control to Major Tom

Talvez o mais extraordinário daquela semana seja a maneira como diferentes versões do mundo coexistiram.

No dia 11, eu estava diante de uma televisão na Avenida Paulista vendo algo que mudaria a história.

No dia 12, estava dentro de um avião lotado, cercado por pessoas assustadas.

Durante sete dias, trabalhei normalmente em Montevidéu.

Na volta, embarquei num enorme Boeing quase vazio da American Airlines.

Fui colocado na primeira classe.

Recebi o agradecimento emocionado de profissionais que haviam atravessado uma semana inimaginável.

Apertei a mão do comandante.

Comi maravilhosamente.

Bebi gloriosamente.

Observei a paisagem enquanto o próprio comandante fazia praticamente uma visita guiada aérea.

Desembarquei sendo cumprimentado pela tripulação.

E terminei a aventura discutindo sabe Deus o quê com um Furby.

Se alguém tivesse escrito isso como roteiro, eu provavelmente reclamaria:

“Está forçado demais.”

A vida, porém, não possui editor.


☕ O dia seguinte sempre chega

Existe uma lembrança humana importante escondida debaixo de toda essa comédia.

Grandes acontecimentos históricos parecem enormes quando os observamos retrospectivamente.

Datas.

Presidentes.

Guerras.

Mercados.

Aeroportos.

Mortos.

Consequências geopolíticas.

Mas quem vive dentro da História continua sendo apenas uma pessoa.

No dia seguinte precisa trabalhar.

Precisa pegar avião.

Precisa chegar ao cliente.

Precisa voltar para casa.

Às vezes sente medo.

Às vezes encontra pessoas extraordinariamente gentis.

Às vezes bebe além da conta.

E, ocasionalmente, encontra um Furby.

Talvez aquela tripulação tenha entendido algo importante naquela semana.

Depois de tudo que tinha acontecido, eles poderiam simplesmente executar aquele voo.

Em vez disso, decidiram fazer com que aqueles poucos passageiros voltassem a gostar de estar dentro de um avião.

Funcionou.

Quase vinte e cinco anos depois, ainda lembro deles.

Do chefe de cabine.

Do comandante.

Dos agradecimentos.

Da primeira classe.

Das garrafinhas.

Das janelas.

Da despedida em Cumbica.

E do Furby.

Principalmente do maldito Furby.


🤖 Epílogo: o roteirista estava fazendo foreshadowing

Hoje finalmente compreendo aquela criatura.

Talvez ela não estivesse falando bobagem.

Talvez estivesse tentando me avisar:

“Vagner, daqui a vinte e cinco anos você vai passar horas conversando com uma máquina.”

Infelizmente, naquela noite, minha capacidade de interpretação de Furbish estava ligeiramente comprometida.

Então respondi provavelmente alguma coisa como:

— HAHAHAHAHA! EXATAMENTE, MEU AMIGO!

E o Furby:

— Plitistoitesdf.

Maldito roteirista.

Ele não estava bêbado.

Estava fazendo foreshadowing.

sexta-feira, 31 de outubro de 2025

👱🚽 A Loira do Banheiro Apareceu!

 

Bellacosa Mainframe e a loira do banheiro

👱🚽 A Loira do Banheiro Apareceu!

Crônicas do Pequeno Vagner

Todo mundo tem histórias de fantasmas.

Tem o tio que viu um vulto.

Tem a prima da vizinha que jurava conversar com espíritos.

Tem o amigo do amigo que viu um disco voador.

Mas a história que vou contar hoje tem uma diferença.

Eu estava lá.

Não ouvi dizer.

Não foi alguém que contou para alguém que contou para alguém.

Eu vi o caos acontecer.

Estamos em 1986.

Escola Estadual Amador Bueno da Veiga.

Parque Sabará.

Taubaté.

Sexta série A.

Período da manhã.

Era um daqueles dias completamente comuns.

Aula normal.

Professor explicando matéria.

Alunos alternando entre prestar atenção e sonhar acordados.

Nada indicava que aquele seria um dos acontecimentos mais comentados do ano letivo.

Até que, de repente...

Um grito.

Depois outro.

E mais outro.

Uma gritaria desesperada tomou conta da escola.

A aula parou imediatamente.

Alunos levantaram.

Professores saíram para o corredor.

Todo mundo tentando entender o que estava acontecendo.

O epicentro da confusão vinha da região dos banheiros próximos ao pátio das merendas.

Corremos para ver.

Porque criança e adolescente possuem um instinto natural.

Onde existe confusão, existe plateia.

E lá fomos nós.

Ao chegar perto da movimentação, encontramos uma cena impressionante.

Uma aluna estava completamente desesperada.

Chorava.

Tremia.

Mal conseguia falar.

A inspetora tentava acalmá-la.

As serventes cercavam a garota.

Professores faziam perguntas.

Outros alunos observavam boquiabertos.

E entre lágrimas e soluços ela repetia a mesma frase:

— Eu vi!

— Eu vi!

— A Loira do Banheiro apareceu para mim!

Pronto.

O caos estava oficialmente instalado.

Hoje, quase quarenta anos depois, continuo sem saber o que realmente aconteceu.

Não sei se a garota teve uma alucinação.

Não sei se alguém fez uma brincadeira.

Não sei se ela interpretou alguma sombra de forma errada.

E também não sei se ela acreditava sinceramente no que dizia.

Mas existe uma coisa que nunca esqueci.

O estado em que ela estava.

Aquilo não parecia teatro.

Não parecia encenação.

Ela estava genuinamente apavorada.

E isso foi suficiente para transformar uma velha lenda urbana em um problema real.

Nos dias seguintes a história explodiu.

Cada turma tinha sua versão.

Cada corredor produzia uma teoria diferente.

Cada recreio acrescentava novos detalhes.

Em poucos dias a Loira do Banheiro já possuía aparência, roupa, horário de aparição, local favorito e até comportamento definido.

A lenda ganhou vida própria.

Chegou ao ponto de haver reuniões com pais.

Conversas com orientadores.

Comentários entre professores.

A garota acabou sendo encaminhada para acompanhamento psicológico.

Enquanto isso, nós, os alunos, fazíamos o que adolescentes fazem melhor:

Espalhávamos ainda mais a história.

O resultado foi imediato.

Ninguém mais queria ir sozinho ao banheiro.

Especialmente nos horários mais vazios.

Formavam-se verdadeiras expedições.

Três.

Quatro.

Cinco alunos juntos.

Como se estivéssemos entrando numa dungeon infestada de monstros.

A coragem individual desapareceu.

A coragem coletiva floresceu.

E assim sobrevivemos.

Mas aquele ano já era complicado por outros motivos.

A direção enfrentava outro problema crescente.

O famoso "cheirinho da loló".

Para quem não viveu aquela época, era uma espécie de lança-perfume artesanal.

Produzido clandestinamente.

Distribuído em pequenos frascos.

Muitas vezes escondido dentro dos famosos bonequinhos agarradinhos que faziam sucesso entre os estudantes.

Enquanto a Loira do Banheiro aterrorizava os corredores...

A diretora travava uma guerra em múltiplas frentes.

Fantasmas de um lado.

Arteiros do outro.

E centenas de adolescentes hiperativos no meio do caminho.

Hoje, olhando para trás, penso que talvez a verdadeira heroína daquela história fosse a diretora.

Porque administrar uma escola cheia de adolescentes já é difícil.

Administrar uma escola cheia de adolescentes convencidos de que uma assombração apareceu no banheiro é praticamente trabalho para super-herói.

Se a Loira do Banheiro realmente existia?

Não faço ideia.

Mas uma coisa eu posso afirmar.

Naquele dia de 1986, uma garota acreditou que viu algo.

E sua reação foi tão verdadeira que acabou alimentando uma das maiores ondas de pânico escolar que testemunhei na juventude.

Quase quarenta anos depois, ainda consigo ouvir os gritos ecoando pelo corredor.

E ainda me pergunto:

O que aquela menina viu naquele banheiro?

Talvez nunca saibamos.

Mas a lenda ganhou mais um capítulo naquele dia.

E suspeito que, em algum canto da memória coletiva da Amador Bueno da Veiga, a Loira do Banheiro ainda continua morando por lá.


sexta-feira, 14 de outubro de 2022

Senhor Professor-Doutor, Posso Fazer uma Pergunta?

Bellacosa Mainframe e o choque cultural de estudar fora

 ☕ Um Café no Bellacosa Mainframe

Senhor Professor-Doutor, Posso Fazer uma Pergunta?

🎓 O dia em que um universitário brasileiro atravessou o Atlântico e descobriu que, em Portugal, até a hierarquia acadêmica vinha com metadata

São Paulo, anos 1990: professor era professor.
Lisboa, 2002: aparentemente eu precisava consultar o catálogo antes de dizer bom dia.

Existe uma diferença enorme entre visitar um país e permitir que um país execute código dentro de você.

Turista fotografa monumentos.

Quem mora começa a descobrir os protocolos.

E foi assim que, em 2002, atravessei o Atlântico para viver uma experiência acadêmica em Lisboa carregando na bagagem uma formação universitária brasileira, algumas certezas, muitos hábitos e uma absoluta ignorância sobre uma coisa importantíssima:

eu não conhecia a API social da universidade portuguesa.

Não era apenas outro país.

Não era apenas outro sotaque.

Não era apenas uma universidade diferente.

Era outro sistema operacional.

E eu estava tentando executar:

PATROPI.EXE

num ambiente que esperava:

SR_BELLACOSA.PT

O resultado, naturalmente, foi maravilhoso.


🇧🇷 No Brasil, professor era professor

Minha referência vinha da universidade brasileira dos anos 1990.

Eu conhecia professores excelentes, professores medianos, professores engraçados, professores carrancudos e provavelmente professores que sobreviviam academicamente movidos a café e força do ódio.

Mas havia uma característica curiosa:

eu não fazia ideia do pedigree acadêmico de boa parte deles.

Mestre?

Doutor?

Doutorando?

Professor-assistente?

Pós-doutor?

Eu provavelmente sabia menos sobre os títulos acadêmicos de alguns professores do que sobre a configuração do computador do laboratório.

E isso não fazia muita diferença na interação cotidiana.

Professor era:

professor.

— Professor, posso perguntar uma coisa?

Pronto.

Handshake realizado.

SESSION ESTABLISHED

Não precisava executar:

DISPLAY ACADEMIC.CREDENTIALS

antes de iniciar a conversa.

Talvez isso variasse entre universidades, cursos e pessoas — certamente variava —, mas aquela era a minha experiência cultural.

E nela havia ainda outro problema.

Eu nunca fui particularmente talentoso para permanecer dentro de compartimentos sociais.


🧪 Antes do Senhor Bellacosa existia Patropi

Na universidade brasileira eu tinha uma alcunha:

Patropi, o Químico.

Não porque estivesse desenvolvendo novos polímeros.

Nem porque estivesse destinado ao Nobel.

A química envolvida era ocasionalmente mais...

etílica.

Conhaques.

Gins.

Batidinhas.

Experimentos líquidos cuja fórmula talvez fosse melhor não submeter a revisão por pares.

Em algumas festas, eu era convidado já com uma expectativa implícita:

Se Patropi aparecer, provavelmente aparecerá também alguma garrafa contendo um líquido estranho e surpreendentemente bom.

Isso é reputação acadêmica.

Talvez não a que conste no Lattes.

Mas reputação.

E Patropi circulava.

Sala.

Corredor.

Laboratório.

Cantina.

Biblioteca.

Ou melhor...

Biblioteca.

Com B maiúsculo.

Porque havia a biblioteca oficial, aquela com livros, silêncio e fichários.

E havia a Biblioteca, o boteco do Manoel, onde estudantes, funcionários, professores, veteranos eternos e toda aquela maravilhosa fauna universitária encontravam um protocolo comum.

🍺

Ali ninguém precisava consultar o organograma.

A cerveja implementava interoperabilidade.


✈️ Então Patropi atravessou o Atlântico

Lisboa, 2002.

UTL a famosa Universidade Técnica de Lisboa, ISEG e IDEFE.

Outro continente.

Outro país.

Mesma língua.

Teoricamente.

Essa última afirmação começaria a apresentar exceções logo nas primeiras semanas.

Eu imaginava encontrar diferenças acadêmicas.

Currículos diferentes.

Bibliografia diferente.

Métodos diferentes.

O que não esperava era encontrar diferenças impressas na própria gramática das relações humanas.

Uma das primeiras foi o título.

Não era simplesmente:

— Professor...

Havia:

Senhor Professor-Doutor.

Senhor Professor-Assistente.

E outras combinações que faziam o brasileiro recém-chegado imaginar que tinha entrado acidentalmente numa árvore genealógica acadêmica.

O detalhe fundamental é que não se tratava apenas de conhecer o título.

Em certos contextos e com certas pessoas, esperava-se que ele fosse utilizado.

Aquilo me causou um pequeno ABEND.


🎓 Senhor. Professor. Doutor.

Três palavras.

Três níveis de encapsulamento.

Eu pensava:

Mas eu já sei que ele é professor.
Ele está dando aula.

O sistema respondia:

Informação insuficiente.

Professor.

Doutor.

E senhor.

Não esqueça o senhor.

Era quase:

TITLE=SR
ROLE=PROFESSOR
ACADEMIC_LEVEL=PHD

Só então:

CALL PROFESSOR

😂

Para alguém vindo de um ambiente em que eu muitas vezes sequer sabia quais professores possuíam doutorado, aquilo era fascinante.

Não necessariamente melhor.

Não necessariamente pior.

Diferente.

E diferenças culturais ficam particularmente interessantes quando ninguém precisa explicá-las.

Porque é justamente aí que você descobre as regras invisíveis.



📏 Descobri também o protocolo de um metro

Essa talvez tenha sido uma das descobertas mais sutis.

Distância física.

Patropi tinha um defeito de fabricação.

Ele se aproximava das pessoas.

Queria perguntar alguma coisa?

Chegava perto.

Conversava.

Gesticulava.

O corpo fazia parte da comunicação.

Em Lisboa comecei a perceber algo curioso.

Eu me aproximava de determinados professores...

e eles discretamente reconstruíam a distância.

Um passo.

Eu avançava naturalmente.

Outro pequeno recuo.

Durante alguns segundos aquilo podia transformar-se numa dança acadêmica extremamente sofisticada.

💃

Bellacosa:

MOVE +30CM

Professor:

MOVE -30CM

Bellacosa:

MOVE +20CM

Professor:

RESTORE SAFE_DISTANCE

Até meu cérebro finalmente identificar o protocolo:

Talvez eu deva ficar aqui.

Não havia fita amarela no chão.

Não havia placa:

MANTENHA 1 METRO DO SENHOR PROFESSOR-DOUTOR.

Não estava no regulamento.

Não aparecia no programa da disciplina.

Era metadata cultural.

E metadata cultural é cruel justamente porque todos que nasceram dentro do sistema sabem interpretá-la.

Menos você.



🧠 Cultura é documentação que ninguém escreveu

Essa experiência me ensinaria algo que depois reencontrei inúmeras vezes em tecnologia.

Existem dois sistemas funcionando simultaneamente.

O sistema documentado:

  • regulamentos;

  • títulos;

  • cargos;

  • disciplinas;

  • avaliações;

  • horários.

E o sistema real:

quem pode interromper quem;

quem chama quem pelo primeiro nome;

quem permanece em pé;

quem senta;

quanto você se aproxima;

quando pode brincar;

quando deve ficar sério;

quem bebe com quem depois da aula.

Esse segundo sistema não vem no manual.

Você aprende observando.

Em mainframe chamaríamos de conhecimento tribal.

Em antropologia poderíamos falar de códigos culturais.

Patropi provavelmente chamaria de:

“Tem alguma coisa acontecendo aqui e ninguém me passou o JCL.”


🎶 E então apareceram as tunas

Mas seria profundamente injusto transformar Portugal numa caricatura de formalidade acadêmica.

Porque bastava caminhar um pouco além daquela primeira camada para começar a encontrar outra coisa.

Música.

Convívio.

Tradição estudantil.

Humor.

Noite.

E, naturalmente:

as tunas acadêmicas.



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Para um brasileiro, as tunas são uma daquelas instituições que inicialmente parecem ter escapado de outro século e recusado educadamente a atualização.

Trajes.

Instrumentos.

Canções.

Serenatas.

Rituais.

Hierarquias internas.

Tradições.

Gente jovem executando costumes antigos com absoluta naturalidade.

E aquilo começou a desmontar uma interpretação simplista que eu poderia ter construído.

A universidade portuguesa podia parecer mais formal em determinadas relações.

Mas isso não significava ausência de vida universitária.

Muito pelo contrário.

Ela simplesmente organizava essa vida através de outros códigos.


⛏️ E Bellacosa começou a escavar

Porque há uma coisa que o tempo faz com o estrangeiro curioso.

Ele escava.

Primeiro você vê a superfície.

Depois encontra uma rachadura.

Depois outra.

E finalmente percebe que aquela sociedade aparentemente alienígena possui exatamente aquilo que todas as sociedades humanas possuem:

fauna.

😂

O professor formal tinha amigos.

O aluno cerimonioso contava piadas.

O funcionário conhecia atalhos.

O sujeito aparentemente sisudo sabia onde beber.

Alguém conhecia alguém.

Alguém tinha uma história.

Alguém conhecia um lugar.

E pouco a pouco o ambiente deixou de parecer uma interface estrangeira.

Eu começava a encontrar as APIs internas.


🎩 Patropi morreu. Nasceu o Sr. Bellacosa

Ou pelo menos oficialmente.

Patropi pertencia à universidade brasileira.

Àquele tempo.

Àquela fauna.

Às festas.

Às garrafas experimentais.

Ao Manoel.

Em Portugal surgiu outro personagem:

Sr. Bellacosa.

O nome já parecia vir acompanhado de casaco.

😂

Mas aconteceu algo ainda mais interessante.

Quando a formalidade diminuía e a intimidade aumentava, surgia outro identificador:

o Brasileiro.

Isso é fantástico.

Porque existe um momento na vida de um estrangeiro em que sua nacionalidade deixa de funcionar apenas como informação geográfica.

Ela vira apelido.

— Chama o Brasileiro.

E todos sabem qual brasileiro.

Nesse momento:

BRASILEIRO

já não é atributo.

É hostname.


🍷 E então Portugal começou a ficar perigoso

Não politicamente.

Gastronomicamente.

Porque depois que você atravessa a camada protocolar de uma cultura, começa a chegar aos lugares realmente interessantes.

E aparecem:

bagaceiras;

vinhos;

Portos;

ginjinhas;

e pastéis de bacalhau cuja análise laboratorial provavelmente encontraria moléculas contemporâneas ao Marquês de Pombal.

O óleo não era utilizado para fritar.

Era patrimônio histórico.

Você olhava para aquilo e pensava:

Isso pode me matar.

Depois comia.

Excelente.


🍷 O choque do vinho do Porto

Uma das pequenas descobertas culturais de que mais gostei foi justamente esta:

em Portugal, vinho do Porto é vinho do Porto.

Parece uma frase idiota.

Mas não é.

No Brasil, o vinho do Porto havia adquirido para mim um peso cerimonial.

Tacinha.

Ocasião.

Produto importado.

Digestivo.

Quase um pequeno ritual.

— Aceita um Porto?

A própria entonação acrescentava solenidade.

Em Portugal:

— Queres um Porto?

— Quero.

Fim.

😂

Nenhum quarteto de cordas entra na sala.

Ninguém reduz a iluminação.

Nenhum embaixador aparece para explicar o Tratado de Methuen.

É Porto.

Beba.

E essa diferença me ensinou outra coisa maravilhosa sobre viver fora:

aquilo que é símbolo para o estrangeiro frequentemente é cotidiano para quem mora ali.

O turista encontra Portugal.

O português encontra uma garrafa.



🍒 Até Patropi ressuscitar diante da ginjinha

E então veio a ginjinha.

Nesse momento alguma rotina esquecida começou a carregar:

LOAD PATROPI

Porque o Químico olhou para aquilo e reconheceu imediatamente uma arquitetura familiar.

Fruta.

Álcool.

Açúcar.

Tempo.

Espere.

Eu conheço esse sistema.

😂

A ginjinha lisboeta, como tradição comercial conhecida, possui sua história própria. Mas a família tecnológica à qual pertence — macerações, bebidas aromatizadas, destilados, frutas, ervas — atravessa civilizações.

Romanos.

Séculos de presença islâmica na Península.

Tradições medievais.

Mosteiros.

Camponeses.

Rotas comerciais.

Açúcar.

Destilação.

Expansão marítima.

E Patropi, olhando aquele copinho vermelho, podia chegar à conclusão cientificamente irresponsável, porém culturalmente deliciosa:

“Porra, isso é uma batidinha com dois mil anos de versionamento.”

🤣

Ali finalmente havia interoperabilidade completa.


🥃 A bagaceira derruba o firewall

E ainda havia a bagaceira.

A expressão:

“tome lá um copito”

deveria constar nos manuais internacionais de segurança como exemplo de engenharia social.

Copinho, ´para os tugas, COPITO número um:

— Interessante.

Copinho número dois:

— Muito agradável.

Copinho número três:

— Portugal possui realmente uma extraordinária complexidade histórica.

Copinho número quatro:

SENHOR PROFESSOR-DOUTOR, VENHA CÁ DAR-ME UM ABRAÇO!

Pronto.

O perímetro de segurança de um metro finalmente havia sido derrotado.

Não por uma revolução pedagógica.

Por aguardente.

😂


🧬 A verdadeira integração não aparece no passaporte

Esse talvez seja o ponto que mais gosto ao restaurar essas memórias tantos anos depois.

Minha lembrança inicial de Portugal acadêmico é marcada pela diferença.

Títulos.

Formalidade.

Hierarquia.

Distância.

Protocolos.

Mas quando continuo escavando, as memórias começam a mudar.

Aparecem música.

Tunas.

Conversas.

Pessoas.

Comida.

Vinho.

Ginjinha.

Bagaceira.

Piadas.

Lugares.

Aparece aquela extraordinária transformação pela qual o estrangeiro deixa de comparar cada detalhe com seu país de origem.

Ele começa simplesmente a viver.

O vinho do Porto deixa de representar Portugal.

É vinho.

A ginjinha deixa de ser atração.

É ginjinha.

O professor deixa de ser espécime cultural.

É aquele professor que as vezes parecia estar com prisão de ventre ao dar aula.

E Bellacosa deixa de ser simplesmente estrangeiro.

Vira:

o Brasileiro.


💾 Talvez cultura seja um gigantesco sistema legado

Quanto mais velho fico, mais gosto dessa metáfora.

Uma cultura parece um sistema legado gigantesco.

Possui documentação oficial.

Possui regras.

Possui versões.

Possui interfaces.

Mas grande parte do comportamento verdadeiro está escondida em milhões de linhas que ninguém mais sabe exatamente por que existem.

Por que esse tratamento?

Porque sempre foi assim.

Por que essa distância?

É o costume.

Por que essa tradição?

Porque veio de antes.

Quem implementou?

Ninguém sabe.

Pode remover?

NÃO TOCA QUE ESTÁ FUNCIONANDO.

Mainframeiro entende imediatamente.

😂

E o estrangeiro chega como desenvolvedor novo:

— Por que fazemos isso?

A equipe inteira responde:

— Fazemos o quê?

Essa talvez seja a definição perfeita de norma cultural.


🏛️ Dois mundos acadêmicos, nenhuma caricatura

Trinta anos depois da universidade brasileira e mais de duas décadas depois daquela experiência portuguesa, seria fácil cair numa comparação preguiçosa.

Brasil informal.

Portugal formal.

Fim.

Mas não foi isso que vivi.

Encontrei formalidade no Brasil.

Encontrei enorme informalidade em Portugal.

Encontrei hierarquia.

Encontrei transgressão.

Encontrei professores acessíveis.

Encontrei professores protocolares.

Encontrei estudantes sérios.

Encontrei fauna.

Muita fauna.

Porque instituições podem possuir culturas nacionais diferentes, mas continuam sendo ocupadas pela mesma espécie problemática:

Homo sapiens universitarius.

E onde há humanos durante tempo suficiente, inevitavelmente surgem:

hierarquia,

amizade,

ritual,

atalho,

fofoca,

conhecimento,

cerveja e é claro copitos

e alguém que sabe exatamente onde conseguir alguma coisa que oficialmente ninguém sabe onde fica.


🍺 Toda universidade acaba encontrando sua Biblioteca

Talvez essa seja minha conclusão favorita.

Em São Paulo havia a Biblioteca.

O boteco do Manoel.

Não aquela biblioteca.

A outra.

Aquela onde departamentos que oficialmente não conversavam conseguiam interoperabilidade depois da segunda cerveja.

Onde aluno encontrava veterano.

Veterano conhecia funcionário.

Funcionário conhecia professor.

Professor sabia uma história.

E Manoel provavelmente sabia todas.

Portugal possuía outras interfaces.

Outros rituais.

Outros lugares.

Outra arquitetura social.

Mas, escavando suficientemente fundo, encontrei novamente aquilo que procurava sem saber:

gente.

E é engraçado perceber que tudo isso voltou porque, décadas depois, uma notícia sobre inteligência artificial e ensino fez meu cérebro executar um comando que eu não havia solicitado:

RESTORE UNIVERSITY.MEMORIES

Primeiro vieram os ghostwriters.

Depois os senpais eternos.

Depois o antiplágio.

Depois a Biblioteca.

Depois Manoel.

Depois Patropi.

E quando percebi...

eu estava novamente em Lisboa.


☕ Senhor Professor-Doutor, posso fazer uma pergunta?

Hoje eu responderia ao Bellacosa de 2002:

Pode.

Mas primeiro observe.

Toda sociedade possui um protocolo.

Toda instituição possui metadata.

Toda universidade possui um organograma oficial e outro completamente invisível.

Aprenda os dois.

Respeite aquilo que ainda não entende.

Não confunda diferença com defeito.

E depois...

escave.

Porque atrás do Senhor Professor-Doutor existe uma pessoa.

Atrás da formalidade existe uma história.

Atrás da tuna existe uma tradição.

Atrás daquela garrafa existe uma civilização inteira trocando receitas, técnicas e hábitos durante séculos.

E atrás do Sr. Bellacosa ainda estava aquele velho processo adormecido esperando alguma ginjinha executar:

READY
> LOAD PATROPI

PATROPI THE CHEMIST 1.0
COPYRIGHT 1990s
STATUS: LEGACY
COMPATIBILITY: SURPRISINGLY GOOD

> RUN

🍒 SYSTEM READY.

Talvez essa tenha sido a verdadeira aula que Lisboa me deu.

Não estava no currículo.

Não valia créditos.

Não apareceu no diploma.

Mas continua instalada mais de vinte anos depois:

Você não conhece realmente uma cultura quando aprende suas regras.

Começa a conhecê-la quando descobre onde — e com quem — essas regras podem relaxar.

E, se durante essa descoberta alguém colocar diante de você um pastel de bacalhau frito num óleo cuja origem parece anterior ao Iluminismo...

não faça perguntas demais.

Você já perguntou demais ao Senhor Professor-Doutor.

Coma o pastel.

Beba o Porto.

Escute a tuna.

E continue escavando.

Um Café no Bellacosa Mainframe

Porque algumas das melhores aulas da universidade jamais tiveram sala, chamada ou professor — mas quase sempre havia uma mesa por perto.

https://eljefemidnightlunch.blogspot.com/2026/08/antes-do-chatgpt-tinha-biblioteca-nao.html

https://eljefemidnightlunch.blogspot.com/2026/08/o-milhao-de-chimpanzes-gutenberg-e.html

terça-feira, 23 de outubro de 2018

1998 Amparo SP, Giovanna, ICQ e o Amor Antes do Algoritmo

Bellacosa Mainframe em memorias com a doce Giovanna

☕ Um Café no Bellacosa Mainframe

1998: Amparo SP, Giovanna, ICQ e o Amor Antes do Algoritmo

Uma homenagem aos pioneiros dos encontros virtuais, quando procurar alguém fazia parte da história — e uma viagem até Amparo podia começar com uma fotografia de papel

Houve uma época em que conhecer alguém pela Internet era uma coisa ligeiramente suspeita.

Não perigosa no sentido moderno da palavra.

Suspeita mesmo.

Você dizia:

— Conheci uma garota pela Internet.

E imediatamente alguém levantava uma sobrancelha.

Pela Internet?

Como assim?

Ela existe?

Você já viu?

Tem certeza de que é mulher?

Eram perguntas perfeitamente razoáveis para o final dos anos 1990, quando a Internet ainda fazia aquele maravilhoso barulho de modem sendo estrangulado por um fax:

Piiiiii... tchrrrrrr... krrrrrr... piiii...

E então:

CONECTADO — 33.600 bps.

Pronto.


O mundo acabara de entrar dentro de casa.

Não havia Tinder.

Não havia Happn.

Não havia Badoo.

Não havia smartphone vibrando no bolso avisando que alguém a 327 metros gostou da sua fotografia.

Não havia uma inteligência matemática escondida num datacenter decidindo que você deveria conhecer a pessoa A, jamais ver a pessoa B e talvez receber a pessoa C depois que o sistema descobrisse que você estava ficando entediado.

O algoritmo ainda não era o cupido.

Nós éramos.

E essa diferença, que parece pequena, muda completamente a história.

Foi nesse mundo que apareceu Giovanna.

E esta não é apenas uma história sobre Giovanna.

É uma homenagem a uma geração inteira de pioneiros sentimentais que descobriu, quase por acidente, que computadores também podiam carregar saudade.



🔎 Antes do match existia uma coisa chamada procurar

Hoje abrimos um aplicativo.

O aplicativo observa nossa idade, localização, comportamento, fotografias, cliques, rejeições, permanência na tela e sabe-se lá mais o quê.

Então começa a distribuição das cartas.

Você desliza.

Direita.

Esquerda.

Direita.

Esquerda.

A sensação é de escolha.

Mas existe um intermediário invisível escolhendo previamente quem poderá ser escolhido.


No final dos anos 1990 havia outra filosofia.

Nos sites de relacionamento e amizade daquela Internet primitiva — lugares como Amigos Virtuais, Almas Gêmeas, portais como UOL e Terra, salas de bate-papo e diretórios de usuários — procurar alguém podia ser quase uma consulta SQL sentimental.

Você escolhia os atributos.

Idade.

Cidade.

Estado.

Interesses.

Às vezes aparência.

Às vezes signo.

Às vezes uma descrição pessoal deliciosamente constrangedora.

E apertava:

PESQUISAR.

Então apareciam pessoas.

Não necessariamente as melhores.

Não necessariamente as mais compatíveis.

Muito menos aquelas que uma máquina considerava estatisticamente adequadas.

E justamente por isso era maravilhoso.

Você podia bisbilhotar.

Abrir um perfil.

Voltar.

Abrir outro.

Pensar:

"Essa parece interessante."

Ler alguma coisa completamente banal e, por algum motivo inexplicável, ficar curioso.

Era você contra o banco de dados.

Nenhum algoritmo cochichava:

"Vagner, analisamos 14.782 sinais comportamentais e concluímos que Giovanna possui 87,4% de compatibilidade."

Nada disso.

O sistema dizia apenas:

Aqui estão os registros encontrados.

Boa sorte, cidadão.

O resto era problema seu.

Talvez por isso houvesse algo profundamente humano naquela Internet tecnicamente desumana.

A máquina fazia a busca.

A curiosidade fazia o match.



💬 E então começava a conversa

Hoje existe uma ansiedade estranha em tirar rapidamente uma conversa do aplicativo.

Naquela época, a conversa era o acontecimento.

Você entrava.

Esperava.

Mandava mensagem.

Recebia resposta.

Respondia novamente.

E quando percebia haviam passado duas horas.

Três.

Quatro.

Não existia a abundância audiovisual que temos hoje.




Consequentemente, havia espaço para uma tecnologia que caiu brutalmente em desuso:

a imaginação.

Uma frase precisava carregar aquilo que hoje tentamos resolver com vinte fotografias, três vídeos, localização em tempo real, stories e uma chamada em alta definição.

Você conhecia alguém pelas palavras.

Pelo jeito de escrever.

Pelas pausas.

Pelas piadas.

Pela velocidade da resposta.

Pela maneira como a pessoa descrevia o próprio dia.

A intimidade podia nascer de uma pergunta absolutamente idiota às onze da noite.

— O que você está fazendo?

— Nada.

E o nada rendia três horas de conversa.

Esse talvez seja um dos elementos mais difíceis de explicar para quem nasceu depois.

Nós não estávamos necessariamente tentando otimizar o encontro.

Nós gostávamos de conversar.

A conversa não era apenas o corredor que levava ao encontro físico.

Ela própria fazia parte do romance.



🌼 Giovanna de Amparo

Em algum momento daquela arqueologia digital apareceu uma garota de Amparo.

Giovanna.

Hoje uma distância entre São Paulo e Amparo parece quase uma informação irrelevante e no futuro acabei comprando a casa de Itatiba para ficar mais proximo.

Abre-se o mapa.

GPS.

Rota.

Tempo estimado.

Fotografias da rua.

Street View.

Avaliação do restaurante.

Previsão meteorológica.

Trânsito em tempo real.

Em 1998, entretanto, conhecer uma garota em outra cidade pela Internet tinha algo de expedição.

Primeiro existia a pessoa digital.

Depois surgia lentamente a pessoa imaginada.

E somente muito depois viria a pessoa real.

Entre essas três versões havia um espaço enorme onde morava o desejo.



📷 "Manda uma foto"

Hoje essa frase seria ridícula.

Uma pessoa manda quarenta em vinte segundos.


Em 1998 ela podia significar literalmente:

mande uma fotografia pelo correio.

Fotografia.

Papel.

Envelope.

Selo.

Correios.

Esperar.

Pense na brutal diferença psicológica.

Hoje alguém manda uma foto e você responde quinze segundos depois:

— Linda.

Naquela época alguém escolhia uma fotografia física.

Talvez tivesse apenas algumas cópias.

Colocava uma delas dentro de um envelope.

Escrevia o endereço.

Postava.

E aquela imagem atravessava fisicamente cidades.

Durante alguns dias existia uma fotografia viajando em sua direção.

Isso criava uma expectativa que nenhuma barra de progresso consegue reproduzir.

O carteiro, sem saber, participava do romance.

Imagino quantos funcionários dos Correios transportaram declarações, fotografias, cartas e pequenos segredos entre pessoas que haviam se conhecido em frente a monitores CRT.

Eles foram os roteadores sentimentais da primeira Internet brasileira.



🌼 A fotografia de Giovanna

E então havia aquela fotografia.

Giovanna.

Papel fotográfico.

Uma imagem que podia ficar sobre a mesa.

Ser observada novamente.

Guardada.

Carregada.

Não havia álbum infinito.

Não existiam 3.000 fotografias no perfil.

Havia aquela.

E quando existe apenas uma imagem, nossa cabeça faz uma coisa extraordinária:

completa o resto.

Como será a voz?

Como ela anda?

Como será vê-la sorrindo ao vivo?

Será mais alta do que imaginei?

Como será encontrá-la?

A falta de informação não diminuía o desejo.

Aumentava.

Hoje tentamos eliminar todas as incertezas antes de conhecer alguém.

Naquela época, a incerteza fazia parte do encanto.



🌐 Uh-oh!

Então surgiu outro personagem indispensável.

O ICQ.

Quem viveu aquela época provavelmente ouviu mentalmente o som antes mesmo de terminar esta frase.

Uh-oh!

Aquilo não era uma notificação.

Era uma descarga elétrica.

Você podia estar fazendo qualquer coisa.

Então:

Uh-oh!

Olhar imediatamente para o monitor.

Era ela?

Às vezes sim.

E pronto.

A noite estava comprometida.

Não havia webcam funcionando em alta definição.

Câmera digital era luxo.

Celular com câmera pertencia à ficção científica.

O que existia era teclado.

Portanto:

escreva.

Talvez tenhamos sido uma das últimas gerações a experimentar um namoro digital profundamente textual.

Precisávamos construir presença com palavras.

Era quase literatura involuntária.



🚗 Até que o virtual exigiu estrada

Existe um momento inevitável em todo relacionamento virtual.

O computador já não basta.

Você quer saber se aquela pessoa que ocupou tantas horas da sua cabeça existe do outro lado do monitor da maneira que você imagina.

Então o cursor encontra o asfalto.

Amparo.

Não mais um nome escrito no perfil.

Uma cidade.

Uma estrada.

Um destino.

Aquela viagem carregava uma pergunta gigantesca:

Como será encontrá-la?

Não havia acompanhamento pelo WhatsApp.

"Estou saindo."

"Estou chegando."

"Estou a cinco minutos."

"Estou aqui na esquina."

Localização compartilhada.

Nada.

Existia uma combinação prévia.

Um lugar.

Um horário.

E fé na engenharia logística.

O mesmo sistema que colocava astronautas na Lua agora precisava resolver um problema muito mais delicado:

fazer dois jovens que se conheceram pela Internet encontrarem o mesmo banco de praça em Amparo.



🌳 O banco da praça

E então aconteceu uma coisa revolucionária.

Nada.

Absolutamente nada.

Dois jovens sentados num banco de praça.

Conversando.

É justamente aí que mora a beleza.

Porque nossas memórias mais importantes raramente anunciam que serão importantes.

Não toca trilha sonora.

Nenhuma câmera faz travelling.

Não aparece legenda:

AMAPARO — 1998 — MOMENTO QUE SERÁ LEMBRADO DÉCADAS DEPOIS.

Você simplesmente senta.

Olha para a garota que até pouco tempo atrás era texto num monitor.

Ela está ali.

Tem três dimensões.

Tem voz.

Tem cheiro.

Tem pequenos gestos que nenhuma fotografia conseguiu antecipar.

De repente o cérebro precisa reconciliar duas pessoas.

A Giovanna imaginada.

E a Giovanna sentada ao lado.

E surge uma terceira.

A Giovanna real.



🍭 A máquina centenária de algodão-doce

Toda boa história precisa de um objeto completamente desnecessário que, décadas depois, se transforma numa cápsula do tempo.

No meu caso, havia uma máquina de algodão-doce.

Velha.

Antiga.

Quase centenária.

Uma geringonça sobrevivente de outra época produzindo aquela nuvem açucarada no meio de uma cidade que parecia igualmente resistente à passagem do tempo.

Aquilo é tão absurdamente perfeito que, se estivesse num roteiro, alguém provavelmente diria:

— Está romântico demais. Corte.

Mas aconteceu.

Giovanna.

Amparo.

Fim de semana.

Praça.

Algodão-doce feito numa máquina que provavelmente já havia produzido felicidade para crianças muito antes de nós nascermos.

E talvez aí esteja o detalhe que transforma lembrança em slice of life.

Não foi Paris.

Não havia Torre Eiffel.

Não era Veneza.

Não havia gôndola.

Não era uma praia paradisíaca.

Era Amparo.

Uma praça.

Um banco.

Uma garota.

Algodão-doce.

E tempo.

Muito tempo.

Tempo para não fazer nada.

Tempo para conversar.

Tempo para olhar.

Tempo para caminhar.

Tempo para descobrir.


🏘️ Uma cidade parada no tempo

Amparo tinha o cenário perfeito para aquela história porque parecia funcionar numa frequência diferente.

Fim de semana.

Ruas tranquilas.

Casarões.

Praças.

Uma lentidão que hoje talvez provocasse ansiedade em muita gente.

Naquele momento era exatamente o necessário.

O relacionamento nascera numa tecnologia que prometia velocidade.

Mas seus melhores momentos aconteciam devagar.

Que ironia maravilhosa.

A Internet dizia:

conecte-se instantaneamente.

Amparo respondia:

agora sente nesse banco e fique duas horas sem fazer absolutamente nada.

E nós obedecíamos.


❤️ O desejo atravessava paredes

Essa talvez seja a lembrança mais bonita daquela Internet.

Ela fazia desaparecer a distância sem conseguir eliminá-la completamente.

E isso era importante.

Giovanna estava próxima.

Mas estava longe.

Podíamos conversar.

Mas não tocar.

Podíamos escrever.

Mas não caminhar juntos.

Podíamos imaginar.

Mas ainda precisávamos esperar o próximo encontro.

Essa pequena resistência física dava peso às coisas.

O desejo precisava atravessar paredes.

Cabos telefônicos.

Centrais.

Modems.

Servidores.

Estradas.

Cidades.

Horários.

Até finalmente encontrar novamente aquele banco de praça.

Hoje eliminamos quase todas essas barreiras.

Talvez tenhamos ganhado conveniência.

Mas alguma coisa ficou pelo caminho.


🤖 O cupido ganhou um algoritmo

Não quero romantizar completamente aquela Internet.

Ela era lenta.

Caía.

Custava caro.

Fotografia demorava.

Perfis podiam mentir.

Encontrar desconhecidos tinha riscos.

Mas havia uma liberdade curiosa no ato de procurar.

Você podia entrar num sistema e dizer:

quero procurar.

Não:

mostre quem você decidiu que devo conhecer.

Essa mudança parece técnica.

Não é.

É filosófica.

Antes o banco de dados estava diante de você.

Hoje existe uma caixa-preta entre você e o banco de dados.

Ela classifica.

Prioriza.

Oculta.

Testa.

Recomenda.

Decide quem aparecerá primeiro.

O match tornou-se produto de uma arquitetura invisível.

Naquela época, procurar alguém era parte da aventura.

Você podia encontrar a pessoa errada.

E isso era excelente.

Porque às vezes a pessoa estatisticamente errada produzia a conversa certa.


🔍 A deliciosa arte de bisbilhotar

Talvez seja isso que eu mais sinta falta.

Bisbilhotar sem objetivo.

Pesquisar.

Abrir perfil.

Ler.

Voltar.

Modificar parâmetros.

Pesquisar novamente.

Não procurando necessariamente a "alma gêmea".

Apenas vendo quem estava lá.

Era como caminhar por uma biblioteca.

Você podia procurar exatamente um livro.

Ou simplesmente passar o dedo pelas lombadas até alguma coisa chamar sua atenção.

Os aplicativos modernos transformaram isso numa esteira.

Uma pessoa.

Decida.

Próxima.

Decida.

Próxima.

Decida.

A velha Internet permitia vagar.

E quem vaga encontra coisas que não estava procurando.

Às vezes encontra até Giovanna.


🎞️ Slice of life

Se eu transformasse aquela história em anime, provavelmente não haveria demônios.

Nenhum protagonista seria transportado para outro mundo.

Não haveria espada lendária.

Nem poder secreto.

O episódio inteiro poderia ser:

"Vagner vai a Amparo encontrar Giovanna."

Vinte e quatro minutos.

Tremendo sucesso.

O protagonista chega.

Caminha pela cidade.

Encontra a garota.

Os dois conversam.

Compram algodão-doce.

Sentam numa praça.

Anoitece.

Ending.

E o público diria:

— Mas não aconteceu nada!

Aconteceu tudo.

Porque slice of life é justamente perceber que uma vida é construída principalmente nesses espaços onde aparentemente nada extraordinário acontece.

Décadas depois, você dificilmente lembra o conteúdo exato de uma conversa de quatro horas no ICQ.

Mas lembra que queria que ela não terminasse.

Não lembra todas as palavras trocadas no banco.

Mas lembra do banco.

Talvez não lembre quanto custou o algodão-doce.

Mas lembra da máquina.

A memória elimina os logs.

E preserva o significado.


💾 SELECT * FROM MEMORIA WHERE NOME = 'GIOVANNA';

Se meu cérebro fosse um mainframe, em algum volume esquecido haveria um dataset.

Talvez:

BELLACOSA.MEMORIA.GIOVANNA

RECFM=VB.

LRECL imprevisível.

Retenção:

PERMANENTE.

Dentro dele não estariam apenas grandes acontecimentos.

Estariam pequenas coisas.

Uma busca na Internet.

Um perfil.

Uma mensagem.

Uma fotografia chegando pelo correio.

O som do ICQ.

Uma estrada.

Amparo.

Um banco.

Uma máquina velha.

Algodão-doce.

Uma tarde preguiçosa.

Uma garota.

E aquela extraordinária sensação de estar vivendo algo novo sem saber que estávamos inaugurando uma maneira de conhecer pessoas que décadas depois seria absolutamente normal.

Nós éramos, sem perceber, pioneiros do namoro virtual.

Só que nosso metaverso precisava de ônibus, carro, praça e algodão-doce para completar a experiência.


☕ Epílogo — Giovanna antes do algoritmo

Giovanna entrou na minha vida em uma época estranha e maravilhosa.

Quando dizer "conheci alguém pela Internet" ainda exigia explicações.

Quando uma fotografia podia levar dias para chegar.

Quando Uh-oh! fazia o coração acelerar.

Quando conversar durante horas não era perda de tempo.

Quando descobrir alguém significava preencher enormes espaços em branco com imaginação.

E quando uma cidade como Amparo podia se transformar no centro do universo durante uma tarde de fim de semana.

Muita coisa aconteceu depois.

A vida continuou.

Vieram outros anos, outras histórias, outras pessoas, outras cidades e outros capítulos.

Mas esta homenagem não é sobre aquilo que veio depois.

É sobre aquele instante.

Sobre dois jovens experimentando uma tecnologia nova e fazendo com ela a coisa mais antiga do mundo:

tentando encontrar alguém.

Talvez seja por isso que, olhando para trás, aquela Internet pareça tão romântica.

Não porque fosse melhor.

Mas porque ainda não sabíamos exatamente o que fazer com ela.

E nesse período de inocência tecnológica havia espaço para experimentar.

Pesquisar.

Errar.

Bisbilhotar.

Conversar.

Imaginar.

Esperar.

Viajar.

Encontrar.

Sentar.

E simplesmente ficar.

Hoje um algoritmo talvez analisasse Giovanna e eu e decidisse que existiam opções melhores.

Talvez nunca mostrasse nossos perfis um ao outro.

Talvez calculasse uma incompatibilidade qualquer.

Distância.

Hábitos.

Comportamento.

Engajamento previsto.

Quem sabe.

Felizmente, naquela época, o pobre computador não tinha opinião.

Ele apenas armazenava registros.

Nós fazíamos o resto.

E gosto dessa ideia.

Em algum servidor desligado há décadas, em algum backup apagado, em algum banco de dados que virou pó digital, talvez tenha existido uma linha associando temporariamente dois usuários.

Os servidores desapareceram.

Os sites mudaram.

O ICQ morreu.

Os modems silenciaram.

As fotografias tornaram-se digitais.

Os algoritmos assumiram o papel de cupido.

Mas uma coisa curiosa aconteceu.

A memória sobreviveu à infraestrutura.

E décadas depois ainda consigo executar aquela consulta:

SELECT *
FROM MEMORIA
WHERE CIDADE = 'AMPARO'
AND NOME = 'GIOVANNA';

RETURN CODE 0000.

Registro encontrado.

Uma praça.

Um banco.

Uma tarde.

Uma máquina quase centenária girando açúcar.

Giovanna ao lado.

E por alguns minutos, enquanto a memória executa seu velho programa COBOL, Amparo volta a ficar parada no tempo.

O algodão-doce ainda está sendo feito.

O ICQ ainda vai tocar quando eu voltar para casa.

A fotografia ainda está sobre a mesa.

E a Internet ainda é aquele território enorme, estranho e inocente onde ninguém decidiu por nós quem deveríamos encontrar.

Nós mesmos procurávamos.

E, de vez em quando, entre milhões de registros absolutamente banais...

encontrávamos alguém que valia a viagem.

Bellacosa Mainframe — onde alguns datasets jamais deveriam receber DELETE. 


P.S. — Naturalmente, havia capivaras

E como todo bom slice of life precisa obrigatoriamente de um bichinho fofo que não tem absolutamente nada a ver com o arco principal, não podemos encerrar esta história sem registrar as verdadeiras coadjuvantes de luxo de Amparo:

as capivaras do rio Camanducaia.

Porque enquanto dois jovens atravessavam aquela fronteira estranha entre o virtual e o real, enquanto o ICQ fazia seu Uh-oh!, fotografias viajavam pelos Correios e o algodão-doce girava naquela máquina quase arqueológica, as capivaras estavam lá.

Indiferentes.

Plácidas.

Provavelmente mastigando alguma coisa.

Sem qualquer interesse pelo drama humano.

Imagino perfeitamente a cena em versão anime.

Giovanna e eu caminhando próximos ao Camanducaia.

Conversa importante.

Música delicada ao fundo.

Plano fechado.

Talvez aquele silêncio constrangedor e maravilhoso em que ninguém sabe exatamente o que dizer.

Corta a câmera.

Uma capivara.

Mastiga.

Volta para os protagonistas.

Mais cinco minutos de desenvolvimento emocional.

Corta novamente.

Outra capivara entra lentamente na água.

Nenhuma explicação.

Nenhuma importância narrativa.

Nenhuma participação posterior.

Perfeito.

Porque a capivara é exatamente o personagem que um slice of life precisa: ela não resolve conflitos, não entrega mensagens secretas, não conhece o passado da heroína e definitivamente não possui um poder oculto que será revelado no episódio 12.

Ela simplesmente existe.

E talvez seja justamente por isso que funciona tão bem na memória.

Décadas depois, quando penso naquela Amparo de finais de semana tranquilos, não aparecem apenas Giovanna, a praça, o banco, as conversas e o algodão-doce.

Aparece também o Camanducaia.

E em algum canto do cenário, como se o diretor tivesse colocado ali apenas para tornar a composição perfeita:

uma capivara absolutamente alheia ao romance.

Talvez duas.

Talvez uma família inteira.

Porque Amparo tinha dessas coisas.

Você podia estar vivendo um dos capítulos mais delicados da sua juventude e, poucos metros adiante, um roedor de cinquenta quilos estava apenas preocupado em encontrar um pedaço particularmente interessante de capim.

Há uma sabedoria nisso.

O ser humano pensa:

"Será que ela gosta de mim?"

A capivara pensa:

"capim."

O ser humano:

"Será que isso vai virar alguma coisa?"

Capivara:

"água."

O ser humano:

"Que diabos eu digo agora?"

Capivara:

mastiga intensamente.

Talvez por isso elas combinem tão bem com aquela lembrança.

Elas pertenciam ao cenário sem exigir protagonismo.

Como o rio.

Como a praça.

Como os casarões.

Como aquela máquina antiga de algodão-doce.

Pequenos elementos aparentemente irrelevantes que, somados, transformam uma lembrança comum numa coisa que nenhuma reconstrução perfeita consegue reproduzir.

Então fica registrado para evitar qualquer falha grave de continuidade:

Giovanna tinha Amparo.
Amparo tinha o Camanducaia.
E o Camanducaia tinha capivaras.

Logo, por transitividade romântica perfeitamente válida segundo os rigorosos padrões científicos do Bellacosa Mainframe:

Giovanna também tinha capivaras no cenário.

E agora sim o episódio pode terminar.

Último plano.

Fim de tarde.

Rio Camanducaia.

Uma capivara entra lentamente na água.

Ao fundo, Amparo continua parada no tempo.

Fade out.

ENDING THEME

UH-OH!

Continua em alguma memória que jamais recebeu DELETE.













☕ Arquivo Bellacosa — Amparo, Memória, Café e Estrada

Uma viagem por Amparo, interior de São Paulo, através de memórias, antigas fazendas de café, ferrovias, fauna, flora, estradas, fotografias e histórias pessoais preservadas no arquivo El Jefe Midnight Lunch / Bellacosa Mainframe.

🌿 Amparo entre memória, café, ferrovia e vida cotidiana

Esta coleção reúne registros históricos e pessoais sobre Amparo, São Paulo, incluindo antigas fazendas de café, patrimônio ferroviário, a estrada SP-360, fauna e flora regional, paisagens urbanas e memórias de diferentes décadas.

Os textos formam uma linha do tempo que conecta história local, turismo cultural, memória afetiva, ferrovias paulistas, cafeicultura e vida no interior de São Paulo. Cada artigo pode ser acessado diretamente pelos links acima ou visualizado dentro deste arquivo.

O objetivo é preservar uma pequena arqueologia digital de Amparo: suas ruas, fazendas, estações ferroviárias, natureza, estradas e personagens — incluindo aquelas famosas capivaras do rio Camanducaia que aparecem silenciosamente no cenário das memórias.

Vagner Renato Bellacosa, IBM Champion e especialista em IBM Mainframe
IBM Z17 SYSTEM ONLINE
Sobre o autor

Vagner Renato Bellacosa

IBM Champion 2026 • Especialista em IBM Mainframe

Vagner Renato Bellacosa trabalha com IBM Mainframe desde 1988 , é IBM Champion e especialista em COBOL, CICS, Db2, z/OS e IBM Z. Compartilha experiências profissionais, conhecimento técnico, história da computação e práticas do universo mainframe para aproximar novas gerações das tecnologias que sustentam empresas, bancos e governos ao redor do mundo.

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