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segunda-feira, 26 de outubro de 2020

DotCom : Capítulo X — A História se Repete? Das Tulipas à Inteligência Artificial: O Ciclo Eterno das Bolhas Tecnológicas

 

Bellacosa Mainframe e o estouro da bolha dotcom capitulo x

Capítulo X — A História se Repete? Das Tulipas à Inteligência Artificial: O Ciclo Eterno das Bolhas Tecnológicas

Como mais de 400 anos de história mostram que a tecnologia muda, mas o comportamento humano continua praticamente o mesmo

"Os computadores evoluem a cada cinco anos. O cérebro humano continua executando praticamente o mesmo firmware há milhares de anos."

Ao chegar até este ponto da nossa viagem, um Padawan COBOL provavelmente começa a perceber algo curioso.

A bolha da Internet parece um evento único.

Extraordinário.

Irrepetível.

Mas será que realmente foi?

A resposta é...

Não.

Na verdade, o estouro das Dot-Com faz parte de uma longa sequência de episódios em que uma inovação legítima desperta tanto entusiasmo que investidores começam a acreditar que o crescimento nunca terá fim.

Mudam os produtos.

Mudam as tecnologias.

Mudam os protagonistas.

Mas o roteiro permanece surpreendentemente parecido.

É como se a humanidade executasse o mesmo programa repetidamente.

Apenas alterando os dados de entrada.


A Primeira Grande Bolha Documentada

Para entender a bolha da Internet, precisamos voltar quase quatro séculos.

Holanda.

Século XVII.

Um pequeno objeto havia conquistado completamente a sociedade.

A tulipa.

Hoje parece estranho imaginar.

Mas, naquela época, determinadas variedades de tulipas tornaram-se símbolos de riqueza e prestígio.

A procura aumentava continuamente.

Os preços disparavam.

Logo surgiram investidores comprando bulbos apenas para revendê-los posteriormente.

Ninguém estava interessado na flor.

O interesse estava na valorização.

Em determinado momento, alguns bulbos chegaram a valer mais do que casas luxuosas.

Era evidente que algo estava errado.

Mesmo assim...

O mercado continuava comprando.

Até que um dia...

Parou.

Os preços despencaram.

A chamada Tulipomania, ocorrida entre 1636 e 1637, tornou-se um dos primeiros grandes exemplos documentados de bolha especulativa.


A South Sea Bubble

Poucas décadas depois, a Inglaterra viveu situação semelhante.

A South Sea Company prometia oportunidades extraordinárias de comércio internacional.

As expectativas eram enormes.

As ações subiam continuamente.

Investidores acreditavam que a riqueza seria praticamente ilimitada.

Mais uma vez...

As expectativas superaram a realidade.

A bolha estourou.

Fortunas desapareceram.

Entre os investidores estava ninguém menos que Isaac Newton.

O próprio Newton teria dito uma frase famosa:

"Posso calcular o movimento dos corpos celestes, mas não a loucura das pessoas."

Se até um dos maiores cientistas da história foi surpreendido pela psicologia dos mercados...

Talvez devamos ser um pouco mais humildes ao analisar novas tecnologias.


Railway Mania: Quando os Trilhos Pareciam Levar ao Infinito

No século XIX surgiu outra inovação revolucionária.

As ferrovias.

E, desta vez, a tecnologia realmente transformou o mundo.

Cidades cresceram.

Mercadorias viajaram mais rapidamente.

Economias inteiras mudaram.

Entretanto...

Mais uma vez surgiu um problema.

Investidores passaram a financiar praticamente qualquer projeto ferroviário.

Nem todas as linhas faziam sentido.

Nem todas possuíam demanda suficiente.

Mesmo assim...

Recebiam enormes quantidades de capital.

Quando a realidade econômica apareceu...

Diversas empresas quebraram.

Curiosamente, os trilhos permaneceram.

Exatamente como aconteceria com os cabos de fibra óptica após a bolha da Internet.


O Crash de 1929

Talvez o colapso financeiro mais famoso da história.

Os anos anteriores haviam sido marcados por enorme otimismo.

A indústria crescia.

O consumo aumentava.

O crédito expandia-se.

As bolsas atingiam recordes.

Então veio outubro de 1929.

Milhões de investidores correram para vender ações.

O mercado entrou em colapso.

A crise espalhou-se pelo mundo inteiro.

Nascia a Grande Depressão.

Mais uma vez encontramos elementos familiares.

Euforia.

Alavancagem.

Excesso de confiança.

Pânico.


A Bolha Imobiliária Japonesa

Durante os anos 1980, o Japão parecia destinado a dominar completamente a economia mundial.

O mercado imobiliário valorizava-se continuamente.

As bolsas batiam recordes.

Empresas japonesas compravam ativos em diversos países.

Chegou-se a afirmar que o terreno do Palácio Imperial de Tóquio valia mais do que todo o estado da Califórnia.

Hoje sabemos que isso era completamente irreal.

Quando a bolha estourou, iniciou-se um longo período de baixo crescimento conhecido como "Décadas Perdidas".

Mais uma vez...

Não foi a tecnologia que falhou.

Foi a expectativa.


A Bolha das Dot-Com

Agora tudo começa a parecer familiar.

Tecnologia revolucionária?

Sim.

Investimentos gigantescos?

Também.

Empresas avaliadas acima de qualquer lógica financeira?

Novamente.

Expectativas irreais?

Sem dúvida.

A Internet realmente mudou o planeta.

Mas não justificava qualquer preço.

Essa diferença é fundamental.

Uma inovação pode ser extraordinária.

Mesmo assim...

Suas ações podem estar caras demais.


A Crise Financeira de 2008

Embora tenha origem diferente, a crise do subprime também apresenta padrões semelhantes.

Durante anos acreditou-se que imóveis jamais perderiam valor.

Bancos concediam financiamentos cada vez mais arriscados.

Mercados ignoravam sinais de alerta.

Até que...

Os pagamentos começaram a falhar.

A confiança desapareceu.

O sistema entrou em colapso.

Novamente vemos o mesmo comportamento.

O problema nunca foi o imóvel.

Nem o crédito.

Foi o excesso de confiança.


Bitcoin e o Sonho das Criptomoedas

Quando o Bitcoin surgiu em 2009, poucos prestaram atenção.

Anos depois seus preços começaram a subir rapidamente.

Logo apareceram milhares de novas criptomoedas.

Algumas extremamente sérias.

Outras completamente sem propósito.

Durante determinados períodos bastava lançar um novo token para atrair investidores.

Muitos projetos desapareceram poucos meses depois.

Entretanto...

A tecnologia blockchain permaneceu.

Mais uma vez...

O padrão repete-se.

Tecnologia legítima.

Especulação exagerada.

Correção.

Amadurecimento.


NFTs: Quando Até Imagens Viraram Ativos Financeiros

Entre 2020 e 2022 ocorreu outro fenômeno curioso.

Arquivos digitais passaram a ser vendidos por milhões de dólares.

Coleções inteiras surgiam diariamente.

Algumas possuíam enorme valor artístico.

Outras existiam apenas porque o mercado parecia disposto a comprar qualquer coisa.

Quando o entusiasmo diminuiu...

Grande parte desses ativos perdeu praticamente todo o valor.

A tecnologia de certificação digital continua existindo.

A especulação não.


O Metaverso

Em 2021 outra palavra dominou praticamente todas as conferências de tecnologia.

Metaverso.

Empresas mudaram de nome.

Investiram bilhões.

Prometeram transformar completamente a forma como trabalhamos.

A ideia continua interessante.

Mas o ritmo de adoção foi muito menor do que o imaginado inicialmente.

Mais uma vez...

A tecnologia talvez estivesse certa.

O momento histórico talvez não.

Exatamente como ocorreu com muitas empresas da primeira geração da Internet.


A Inteligência Artificial

Chegamos finalmente ao tema mais atual.

Será que a Inteligência Artificial representa outra bolha?

A resposta exige cuidado.

Primeiro precisamos separar duas coisas completamente diferentes.

A tecnologia.

E sua valorização financeira.

A tecnologia é absolutamente real.

Modelos de linguagem.

Visão computacional.

Agentes inteligentes.

Robótica.

Descoberta científica.

Automação.

Tudo isso já produz impacto concreto.

Entretanto...

Assim como ocorreu com a Internet, isso não significa que todas as empresas relacionadas à IA sobreviverão.

Nem que todas as avaliações atuais permanecerão justificadas.

A história recomenda prudência.

Não pessimismo.


O Algoritmo Invisível da História

Ao observar todos esses episódios percebemos um padrão quase matemático.

Primeiro surge uma inovação.

Depois aparecem pioneiros.

Em seguida chegam investidores.

Os preços aumentam.

A mídia amplia o entusiasmo.

Mais investidores entram.

As expectativas tornam-se irreais.

O mercado ignora riscos.

Então surge a realidade.

O entusiasmo desaparece.

As empresas sólidas sobrevivem.

A tecnologia continua evoluindo.

Esse ciclo repetiu-se inúmeras vezes.

Talvez volte a repetir-se.


Enquanto Isso... O Mainframe Continua Processando

Existe algo quase poético nessa comparação.

Durante todas essas bolhas ocorreram mudanças profundas.

Computadores pessoais.

Internet.

Cloud.

Smartphones.

Blockchain.

Inteligência Artificial.

Enquanto isso...

Programas COBOL continuaram processando contas bancárias.

Mainframes continuaram liquidando bolsas de valores.

Sistemas críticos permaneceram executando exatamente aquilo para que foram projetados.

Isso não significa que ficaram parados.

Muito pelo contrário.

Eles evoluíram constantemente.

Mas sempre respeitando princípios fundamentais de engenharia.

Talvez seja exatamente essa disciplina que explique sua longevidade.


O Maior Inimigo Não é a Tecnologia

Depois de quatro séculos observando bolhas financeiras, uma conclusão torna-se praticamente inevitável.

O problema nunca foi:

a tulipa;

a ferrovia;

a Internet;

o blockchain;

o metaverso;

a Inteligência Artificial.

O verdadeiro problema sempre foi o comportamento humano.

Ganância.

Medo.

Excesso de confiança.

Comportamento de manada.

FOMO.

Esses elementos aparecem repetidamente.

As tecnologias apenas mudam o cenário onde a história acontece.


Lições para o Padawan COBOL

Todo programa COBOL possui uma característica interessante.

Independentemente da linguagem utilizada na interface, dos servidores modernos ou da Inteligência Artificial integrada ao sistema, operações fundamentais como débito, crédito, consistência de dados e integridade transacional continuam obedecendo às mesmas regras.

A economia funciona de maneira semelhante.

Ferramentas evoluem.

Mercados mudam.

Empresas nascem.

Empresas desaparecem.

Mas princípios permanecem.

No universo da Frota Estelar existe um ensinamento transmitido aos novos oficiais:

"Não confunda uma nova tecnologia com uma nova lei da física."

Motores de dobra evoluem.

Escudos tornam-se mais eficientes.

Sensores ficam mais precisos.

Mas gravidade continua sendo gravidade.

Na economia ocorre exatamente o mesmo.

A Inteligência Artificial pode transformar praticamente todos os setores da sociedade.

Mas continuará existindo receita.

Continuará existindo despesa.

Continuará existindo fluxo de caixa.

Continuará existindo risco.

E continuará existindo a necessidade de construir sistemas confiáveis.

Talvez essa seja a maior lição de toda a bolha da Internet.

A inovação muda o mundo.

Os fundamentos sustentam esse mundo.

No próximo capítulo veremos como essas lições influenciaram diretamente o nascimento das startups modernas, da cultura Lean, do movimento Agile e da filosofia "falhe rápido, mas aprenda mais rápido ainda", moldando a forma como empresas de tecnologia são construídas até os dias atuais.


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