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domingo, 4 de abril de 2021

DotCom : Capítulo XVI — A Caixa-Preta da Bolha da Internet: Os 25 Maiores Erros que Destruíram Milhares de Empresas e Como Evitá-los na Era da Inteligência Artificial

Bellacosa Mainframe e o estouro da bolha dotcom capitulo xvi

 

Capítulo XVI — A Caixa-Preta da Bolha da Internet: Os 25 Maiores Erros que Destruíram Milhares de Empresas e Como Evitá-los na Era da Inteligência Artificial

Toda queda deixa destroços. Mas também deixa uma caixa-preta cheia de informações preciosas para quem deseja não repetir os mesmos acidentes.

"Na aviação, cada acidente melhora os aviões. Na engenharia de software, cada grande fracasso melhora toda uma geração de sistemas."

Durante toda esta jornada analisamos empresas que desapareceram.

Investidores que perderam fortunas.

Profissionais que precisaram recomeçar suas carreiras.

Tecnologias que amadureceram.

Mercados que aprenderam.

Mas existe um exercício extremamente útil que engenheiros costumam fazer após grandes incidentes.

Chama-se Post-Mortem.

No universo da aviação existe algo semelhante.

Quando um avião sofre um acidente, investigadores procuram imediatamente a caixa-preta.

Ela registra tudo.

Cada comando.

Cada decisão.

Cada falha.

Cada alerta.

O objetivo não é encontrar culpados.

É aprender.

Na computação deveria acontecer exatamente o mesmo.

Se pudéssemos abrir a caixa-preta da bolha da Internet...

Quais seriam os maiores erros registrados?

E, mais importante...

Quais deles continuam acontecendo hoje na corrida pela Inteligência Artificial?

Vamos abrir essa caixa-preta.


Erro 1 — Confundir Tecnologia com Modelo de Negócio

A Internet era extraordinária.

Isso não significava que qualquer empresa da Internet seria extraordinária.

Hoje acontece algo parecido.

A IA é revolucionária.

Mas isso não transforma automaticamente qualquer startup de IA em um bom investimento.

Lição: tecnologia cria oportunidades; modelo de negócios cria empresas.


Erro 2 — Crescer Antes de Saber para Onde

Muitas Dot-Com contrataram milhares de funcionários antes de descobrir se realmente possuíam mercado.

Escalaram rapidamente.

Na direção errada.

Hoje algumas empresas treinam modelos gigantescos antes mesmo de validar a necessidade do cliente.

Lição: primeiro encontre o caminho. Depois acelere.


Erro 3 — Gastar Como se o Dinheiro Nunca Acabasse

Escritórios luxuosos.

Campanhas milionárias.

Eventos extravagantes.

Contratações exageradas.

Tudo parecia justificável.

Até o dinheiro acabar.

A história mostrou que caixa sempre vence apresentações bonitas.


Erro 4 — Ignorar Custos Operacionais

Durante a bolha poucos prestavam atenção ao custo de manter sistemas funcionando.

Hoje ocorre algo semelhante em alguns projetos de IA.

Treinar modelos.

Executar inferências.

Armazenar vetores.

Consumir energia.

Tudo possui custo.

Lição: inovação precisa caber no orçamento.


Erro 5 — Construir Produtos que Ninguém Pediu

Diversas startups criaram soluções impressionantes.

O problema?

Pouquíssimas pessoas realmente precisavam delas.

Essa continua sendo uma das principais causas de fracasso.


Erro 6 — Confundir Usuários com Clientes

Ter milhões de usuários não significa possuir receita.

Essa diferença destruiu inúmeras empresas.

Até hoje muitas startups descobrem tarde demais que audiência e faturamento não são sinônimos.


Erro 7 — Acreditar que Crescimento Resolve Todos os Problemas

Existe uma frase famosa entre arquitetos de software.

"Escalar um sistema ruim apenas produz um sistema ruim maior."

Empresas seguem exatamente a mesma lógica.


Erro 8 — Subestimar Engenharia

Durante a euforia, marketing frequentemente recebia mais investimentos do que engenharia.

A crise mostrou rapidamente a consequência.

Promessas sobrevivem poucos meses.

Arquiteturas sobrevivem décadas.


Erro 9 — Esquecer Segurança

Muitas empresas cresceram rapidamente sem investir em proteção.

Quando incidentes ocorreram...

A confiança desapareceu.

Hoje, na era da IA, segurança tornou-se ainda mais importante.


Erro 10 — Ignorar Governança

Quem toma decisões?

Quem aprova mudanças?

Quem responde por falhas?

Essas perguntas raramente apareciam durante a bolha.

Hoje são fundamentais.


Erro 11 — Acreditar Demais nas Próprias Projeções

Planilhas suportam praticamente qualquer cenário otimista.

Mercados reais não.

Toda previsão precisa conviver com a possibilidade de estar errada.


Erro 12 — Não Ouvir Clientes

Diversas empresas ouviam apenas investidores.

Os clientes permaneciam em segundo plano.

Esse erro continua surpreendentemente comum.


Erro 13 — Esquecer a Concorrência

Durante períodos de euforia muitos acreditam ser únicos.

Raramente são.

Sempre existe alguém tentando resolver o mesmo problema.


Erro 14 — Subestimar Infraestrutura

A infraestrutura costuma parecer cara.

Até o dia em que ela falha.

Foi exatamente isso que levou muitas empresas a investir posteriormente em cloud, observabilidade e automação.


Erro 15 — Acreditar que a Tecnologia Elimina Administração

Software não substitui gestão.

Inteligência Artificial também não.

Empresas continuam precisando de estratégia.

Planejamento.

Liderança.

Execução.


Erro 16 — Ignorar Pessoas

Nenhuma revolução tecnológica acontece sem profissionais preparados.

Treinamento sempre produz retorno.


Erro 17 — Pensar Apenas no Curto Prazo

Empresas sobreviventes quase sempre possuíam visão de longo prazo.

As demais estavam preocupadas apenas com a próxima rodada de investimentos.


Erro 18 — Não Medir

Aquilo que não é medido dificilmente pode ser melhorado.

Esse princípio vale para software.

Vale para negócios.

Vale para Inteligência Artificial.


Erro 19 — Não Preparar Planos de Contingência

Toda empresa acredita que continuará crescendo.

Poucas planejam crises.

As sobreviventes normalmente fazem ambos.


Erro 20 — Esquecer a Ética

Quando dinheiro entra rapidamente, decisões apressadas tornam-se tentadoras.

A história mostra que ética nunca deve ser tratada como acessório.

Principalmente quando lidamos com IA.


Erro 21 — Não Aprender com a História

Talvez o erro mais curioso.

Cada geração acredita estar vivendo algo completamente novo.

Raramente está.

Conhecer a história reduz enormemente a probabilidade de repetir erros antigos.


Erro 22 — Desprezar Sistemas Legados

Muitas startups acreditavam que poderiam reconstruir completamente tudo do zero.

Décadas depois descobriram que integrar costuma ser muito mais inteligente do que substituir.


Erro 23 — Subestimar Complexidade

Soluções simples frequentemente escondem enorme complexidade operacional.

Quem trabalha com mainframe conhece essa realidade muito bem.


Erro 24 — Confundir Velocidade com Direção

É possível correr muito rapidamente...

Na direção errada.

Esse talvez seja um dos maiores ensinamentos da bolha.


Erro 25 — Esquecer que Toda Revolução se Torna Infraestrutura

Poucas pessoas falam hoje sobre TCP/IP.

DNS.

HTTP.

Cloud.

Porque deixaram de ser novidades.

Passaram a ser infraestrutura.

O mesmo provavelmente acontecerá com a Inteligência Artificial.

Quando uma tecnologia realmente vence...

Ela deixa de chamar atenção.

Passa simplesmente a fazer parte do cotidiano.


O Que Todas Essas Falhas Possuem em Comum?

Observe cuidadosamente esses vinte e cinco erros.

Quase nenhum deles é tecnológico.

A maioria envolve:

expectativas;

gestão;

liderança;

planejamento;

engenharia;

psicologia;

economia.

Isso explica por que tantas revoluções tecnológicas apresentam padrões semelhantes.

Os computadores mudam.

As pessoas mudam muito menos.


Enquanto Isso... O Mainframe Continuava Ensinando

Existe um motivo pelo qual ambientes IBM Z valorizam tanto:

controle de mudanças;

gestão de configuração;

auditoria;

backup;

planejamento;

recuperação;

capacidade;

documentação;

testes.

Esses processos não existem para burocratizar.

Existem porque alguém já pagou muito caro pela ausência deles.

A história da computação é, em grande parte, uma história de lições aprendidas.


O Maior Aprendizado

Depois de abrir a caixa-preta da bolha percebemos algo surpreendente.

As empresas não fracassaram porque utilizavam Internet.

Fracassaram porque ignoraram princípios fundamentais de administração e engenharia.

Isso muda completamente a interpretação da história.

Não devemos temer novas tecnologias.

Devemos apenas evitar antigos erros.


Lições para o Padawan COBOL

Imagine que a USS Enterprise sofreu uma pane durante uma missão.

Os motores de dobra desligaram.

Os escudos falharam.

A tripulação conseguiu sobreviver.

Dias depois, engenheiros analisam cuidadosamente todos os registros da nave.

Ninguém pergunta:

"Quem devemos culpar?"

Todos perguntam:

"O que podemos aprender para que isso nunca mais aconteça?"

Esse é o verdadeiro espírito da engenharia.

A bolha da Internet foi uma gigantesca caixa-preta da história da tecnologia.

Ela registrou erros extremamente caros.

Mas também produziu conhecimento que hoje protege toda uma nova geração de empresas.

Talvez essa seja a maior vantagem do Programador COBOL Padawan.

Ele inicia sua carreira não apenas estudando linguagens modernas ou Inteligência Artificial.

Ele começa carregando consigo décadas de experiências acumuladas por milhares de engenheiros que vieram antes.

E isso representa uma vantagem competitiva impossível de comprar.

No próximo capítulo encerraremos nossa jornada reunindo as cinquenta maiores lições que atravessam toda esta história, formando uma espécie de Holocron do Programador COBOL Padawan: princípios atemporais capazes de orientar qualquer profissional, independentemente da próxima revolução tecnológica que venha a surgir.


sábado, 13 de março de 2021

DotCom : Capítulo XV — Vinte Anos Depois: O Veredito da História Sobre a Bolha da Internet

 

Bellacosa Mainframe e o estouro da bolha dotcom capitulo xv

Capítulo XV — Vinte Anos Depois: O Veredito da História Sobre a Bolha da Internet

O que realmente aconteceu com as previsões feitas em 2000 e por que a História absolveu a Internet, mas condenou a especulação

"O tempo é o melhor arquiteto de software e o juiz mais imparcial da economia. Ele remove o código desnecessário, elimina as ilusões e preserva apenas aquilo que realmente cria valor."

Chegamos ao último capítulo desta jornada.

Foram mais de quatrocentos anos de história.

Da Tulipomania às criptomoedas.

Das ferrovias à Inteligência Artificial.

Dos cartões perfurados aos agentes autônomos.

Da bolha das Dot-Com ao renascimento da economia digital.

Mas ainda falta responder uma pergunta.

Afinal... quem estava certo?

Os otimistas?

Ou os pessimistas?

A Internet foi realmente uma bolha?

Ou foi a maior revolução tecnológica da história?

A resposta, como quase tudo na engenharia, não é um simples "sim" ou "não".

Ela é muito mais interessante.


A Internet Nunca Foi a Bolha

Este talvez seja o maior equívoco histórico.

Quando alguém diz:

"A bolha da Internet estourou."

A frase está incompleta.

O que estourou nunca foi a Internet.

O que explodiu foi a expectativa financeira construída ao redor dela.

A Internet continuou funcionando.

Os protocolos TCP/IP continuaram evoluindo.

Os servidores continuaram processando requisições.

Os cabos continuaram transmitindo dados.

Os engenheiros continuaram desenvolvendo software.

As universidades continuaram pesquisando.

A tecnologia permaneceu.

Quem desapareceu foi a especulação.

Essa diferença muda completamente a interpretação da história.


Os Pessimistas Erraram

Após o colapso de 2000 surgiram inúmeras manchetes.

"O fim da Nova Economia."

"A Internet fracassou."

"As empresas digitais foram uma moda."

Hoje sabemos que essas previsões estavam profundamente equivocadas.

A Internet tornou-se a infraestrutura mais importante da economia mundial.

Ela conecta bilhões de pessoas.

Movimenta trilhões de dólares.

Transformou praticamente todos os setores da sociedade.

O problema nunca foi a tecnologia.

Foi o exagero.


Os Otimistas Também Erraram

Curiosamente...

Os maiores entusiastas também cometeram erros.

Eles acreditavam que qualquer empresa ligada à Internet se tornaria automaticamente bem-sucedida.

Isso jamais aconteceu.

A maioria desapareceu.

Não porque a Internet fosse ruim.

Mas porque administrar uma empresa continua sendo extremamente difícil.

Tecnologia reduz barreiras.

Não elimina os desafios fundamentais dos negócios.


A História Escolheu os Construtores

Quando observamos os sobreviventes percebemos um padrão muito claro.

Google.

Amazon.

PayPal.

Salesforce.

Netflix.

Eles não venceram porque eram os mais barulhentos.

Nem porque possuíam os maiores escritórios.

Nem porque faziam mais propaganda.

Venceram porque construíram.

Infraestrutura.

Engenharia.

Processos.

Pessoas.

Conhecimento.

Enquanto outros vendiam sonhos...

Eles construíam fundações.


O Tempo Elimina o Ruído

Existe algo fascinante quando analisamos tecnologia sob uma perspectiva de vinte anos.

O marketing desaparece.

As manchetes desaparecem.

As apresentações desaparecem.

As promessas desaparecem.

O que permanece?

Produtos úteis.

Clientes satisfeitos.

Infraestrutura funcionando.

Empresas sustentáveis.

É como observar um grande sistema legado.

Após décadas, apenas o código realmente importante continua sendo executado.

Todo o restante foi removido.


A Engenharia Sempre Vence

Ao longo deste livro encontramos uma conclusão repetidas vezes.

Marketing chama atenção.

Engenharia sustenta negócios.

A história da Internet comprova isso.

Empresas que investiram apenas em publicidade desapareceram rapidamente.

Empresas que investiram em arquitetura sobreviveram.

Essa continua sendo uma das maiores lições para qualquer profissional de tecnologia.


O Mainframe Nunca Precisou Provar Nada

Existe uma ironia interessante.

Enquanto jornais anunciavam diariamente "o fim do mainframe", milhões de pessoas utilizavam serviços processados justamente por ele.

Compravam.

Vendiam.

Recebiam salários.

Pagavam impostos.

Realizavam transferências.

Utilizavam cartões.

Tudo isso acontecia silenciosamente.

O IBM Z nunca precisou vencer debates na Internet.

Precisava apenas continuar funcionando.

E continuou.

Talvez essa seja uma das maiores demonstrações de maturidade tecnológica.


A Revolução Não Acontece na Superfície

Quando pensamos em inovação normalmente imaginamos aquilo que aparece.

Aplicativos.

Interfaces.

Sites.

Inteligência Artificial.

Mas as maiores revoluções frequentemente acontecem onde poucos observam.

Data centers.

Protocolos.

Bancos de dados.

Infraestrutura.

Redes.

Segurança.

Mainframes.

Cloud.

APIs.

São esses elementos invisíveis que sustentam toda a economia digital.

Sem eles...

Nenhuma inovação permaneceria em pé.


O Futuro Também Será Invisível

Provavelmente ocorrerá exatamente o mesmo com a Inteligência Artificial.

Hoje falamos muito sobre chatbots.

Geradores de imagens.

Agentes inteligentes.

Mas daqui a vinte anos talvez a IA esteja tão integrada ao cotidiano que quase ninguém falará sobre ela.

Assim como ninguém diz atualmente:

"Estou utilizando TCP/IP."

Ou:

"Estou usando DNS."

Ou:

"Acabei de fazer uma requisição HTTPS."

Essas tecnologias desapareceram da conversa.

Não porque falharam.

Mas porque tiveram sucesso.

A verdadeira inovação deixa de ser novidade.

Torna-se infraestrutura.


O Ciclo Nunca Termina

Talvez daqui a quinze ou vinte anos outra tecnologia ocupe todas as manchetes.

Talvez alguém afirme novamente:

"Agora tudo será diferente."

Novos investidores aparecerão.

Novas startups surgirão.

Novas promessas serão feitas.

E, muito provavelmente...

Alguns repetir-se-ão os mesmos erros.

Porque computadores evoluem rapidamente.

Mas o comportamento humano evolui muito mais devagar.


O Que Nunca Mudará

Independentemente da próxima revolução tecnológica, algumas perguntas continuarão fundamentais.

Existe valor para o cliente?

A solução resolve um problema real?

O sistema é confiável?

Pode crescer?

É seguro?

É sustentável financeiramente?

Existe boa engenharia?

Se essas perguntas forem respondidas positivamente...

As chances de sucesso aumentam enormemente.


O Programador COBOL do Século XXI

Chegamos então ao personagem central desta obra.

O Programador COBOL Padawan.

Durante muito tempo disseram que ele representava o passado.

Hoje percebemos que ele carrega conhecimentos extremamente valiosos para o futuro.

Pensamento estruturado.

Integridade de dados.

Transações.

Disponibilidade.

Confiabilidade.

Governança.

Esses princípios tornaram-se ainda mais importantes na era da Inteligência Artificial.

Talvez o maior diferencial do profissional moderno não seja abandonar o passado.

Mas utilizá-lo como alicerce para construir o futuro.


O Verdadeiro Significado da Bolha

Depois de toda esta análise podemos finalmente responder à pergunta inicial.

O que foi, afinal, a bolha da Internet?

Não foi um fracasso.

Não foi um sucesso.

Foi um processo de seleção.

Uma gigantesca prova de resistência.

Ela eliminou empresas frágeis.

Fortaleceu as sólidas.

Acelerou a maturidade da engenharia.

Transformou investidores.

Mudou universidades.

Preparou profissionais.

Construiu infraestrutura.

Criou gigantes.

E abriu caminho para praticamente todas as revoluções digitais das décadas seguintes.

Poucos acontecimentos produziram consequências tão profundas.


Uma Última Reflexão no Centro de Processamento de Dados

Voltemos uma última vez ao velho CPD.

Os enormes gabinetes continuam funcionando.

As luzes piscam discretamente.

O relógio marca três horas da manhã.

Milhões de transações atravessam silenciosamente os canais de comunicação.

Do lado de fora, pessoas utilizam smartphones.

Conversam com Inteligência Artificial.

Compram pela Internet.

Assistem filmes em streaming.

Realizam Pix.

Chamam carros por aplicativos.

Tudo parece extremamente moderno.

Poucos imaginam que, em algum lugar daquele enorme ecossistema, um programa COBOL escrito anos atrás continua executando exatamente aquilo para que foi criado.

Recebendo novos módulos.

Novas APIs.

Novas integrações.

Novas camadas de Inteligência Artificial.

Mas preservando aquilo que sempre foi sua maior qualidade.

Confiabilidade.

Talvez essa seja a metáfora perfeita para toda a computação.

A inovação não substitui completamente o passado.

Ela constrói novos andares sobre fundações que já provaram seu valor.


Epílogo — O Conselho do Velho Engenheiro

Se este livro pudesse terminar com apenas uma única mensagem para um Programador COBOL Padawan, talvez fosse esta.

Não tenha medo das novas tecnologias.

Aprenda Inteligência Artificial.

Aprenda Python.

Aprenda Cloud.

Aprenda Kubernetes.

Aprenda Agentes.

Aprenda Computação Quântica quando ela chegar.

Mas nunca abandone aquilo que transforma um simples programador em um verdadeiro engenheiro.

Pensar antes de programar.

Projetar antes de implementar.

Testar antes de entregar.

Documentar antes de esquecer.

Medir antes de otimizar.

Questionar antes de acreditar.

No universo da Frota Estelar, existe uma antiga tradição.

Quando um engenheiro conclui sua formação, recebe um pequeno distintivo com uma frase gravada na parte interna, invisível para todos.

Ela diz:

"Tecnologias passam. Princípios permanecem."

Talvez essa seja também a maior lição da bolha da Internet.

E talvez seja exatamente essa lição que continuará guiando os engenheiros que construirão os próximos cinquenta anos da computação.

Porque, no final de toda grande revolução tecnológica, aquilo que realmente permanece não são as manchetes, nem as avaliações bilionárias ou as modas passageiras.

Permanecem as pessoas que aprenderam a construir sistemas capazes de atravessar o tempo.


sábado, 9 de janeiro de 2021

DotCom : Capítulo XIII — A Nova Corrida do Ouro: A Inteligência Artificial Está Repetindo a Bolha da Internet?

 

Bellacosa Mainframe e o estouro da bolha dotcom capitulo xiii

Capítulo XIII — A Nova Corrida do Ouro: A Inteligência Artificial Está Repetindo a Bolha da Internet?

Como separar o verdadeiro nascimento de uma revolução tecnológica da inevitável onda de exageros, promessas e especulação que sempre acompanha grandes transformações

"A história nunca se repete exatamente. Mas costuma rimar de maneira impressionante." — Frase frequentemente atribuída a Mark Twain

Chegamos ao ponto em que passado e presente finalmente se encontram.

Durante toda esta jornada analisamos como a bolha das Dot-Com nasceu.

Como cresceu.

Como explodiu.

Como destruiu empresas.

Como transformou carreiras.

Como mudou definitivamente a engenharia de software.

Agora surge a pergunta inevitável.

Estamos vivendo outra bolha?

A resposta não é simples.

Nem deveria ser.

Porque quando falamos em Inteligência Artificial estamos diante de um fenômeno muito mais complexo do que simplesmente comparar gráficos de bolsas de valores.

Existe tecnologia real.

Existe inovação verdadeira.

Existe transformação econômica.

Mas também existe entusiasmo exagerado.

Existe marketing.

Existe FOMO.

Existe especulação.

E, principalmente...

Existe um comportamento humano que já vimos diversas vezes ao longo da história.

Para entender o presente, precisamos primeiro aprender a separar tecnologia de narrativa.


A IA Não É Apenas Mais uma Moda

Existe um erro que alguns analistas cometem.

Comparar a Inteligência Artificial com modismos passageiros.

Não é.

Assim como a Internet não foi apenas uma moda.

A IA representa uma mudança estrutural.

Ela altera a maneira como produzimos conhecimento.

Como escrevemos software.

Como pesquisamos.

Como atendemos clientes.

Como fazemos diagnósticos.

Como descobrimos medicamentos.

Como automatizamos processos.

Como ensinamos.

Como aprendemos.

Seu impacto provavelmente será comparável ao surgimento da eletricidade, da Internet ou do computador pessoal.

O problema não está na tecnologia.

O problema está nas expectativas.


A Primeira Semelhança: Todo Mundo Quer Estar Dentro

Voltemos para 1999.

Empresas adicionavam ".com" ao nome.

Suas ações valorizavam imediatamente.

Pouco importava se possuíam um modelo de negócios consistente.

Bastava parecer parte da revolução.

Agora observe o cenário atual.

Empresas anunciam:

"Utilizamos Inteligência Artificial."

"Nossos produtos possuem IA."

"Somos AI First."

Muitas vezes isso representa inovação genuína.

Em outras...

É apenas marketing.

Existe até um termo para isso.

AI Washing.

Assim como existiu o "Dot-Com Washing" vinte e cinco anos atrás.


O Capital Está Fluindo Novamente

Outro paralelo impressionante.

Nunca se investiu tanto dinheiro em IA.

Grandes empresas anunciam investimentos bilionários.

Startups captam recursos recordes.

Novos fundos surgem constantemente.

Infraestruturas gigantescas estão sendo construídas.

Data centers.

GPUs.

TPUs.

NPUs.

Redes ópticas.

Usinas de energia dedicadas.

Cabos submarinos.

Tudo isso lembra bastante a corrida pela infraestrutura da Internet durante os anos 1990.

Existe uma diferença importante, porém.

Hoje sabemos que infraestrutura demora anos para mostrar todo seu valor.

Essa lição veio justamente das Dot-Com.


A Escassez Mudou de Lugar

Na bolha da Internet, o recurso mais disputado era largura de banda.

Servidores.

Programadores Web.

Hoje...

O recurso escasso é diferente.

GPUs.

Energia elétrica.

Dados de qualidade.

Especialistas em IA.

Pesquisadores.

Engenheiros de Machine Learning.

Especialistas em MLOps.

Especialistas em Governança.

Arquitetos de infraestrutura.

Toda revolução tecnológica cria novos gargalos.

A IA não é diferente.


A Corrida Pelos Talentos

Durante os anos da bolha, empresas disputavam programadores Java, administradores Unix e especialistas em redes.

Hoje ocorre algo semelhante.

Pesquisadores recebem ofertas milionárias.

Engenheiros especializados tornam-se extremamente disputados.

Universidades ampliam cursos.

Empresas criam academias internas.

Governos começam a investir em formação.

O mercado percebeu que tecnologia não se constrói apenas com dinheiro.

Ela depende principalmente de pessoas.


O Marketing Está Novamente Acelerado

Outro elemento familiar.

Promessas grandiosas.

Mudanças revolucionárias.

Apresentações impressionantes.

Demonstrações cuidadosamente preparadas.

Não há nada de errado nisso.

Toda inovação precisa ser apresentada.

O problema surge quando demonstrações começam a ser confundidas com produtos prontos.

Essa diferença tornou-se famosa recentemente.

Uma demonstração impressionante não significa que existe um sistema escalável por trás dela.

Foi exatamente esse erro que destruiu inúmeras Dot-Com.


O Dinheiro Está Mais Inteligente

Existe, entretanto, uma diferença importante entre 1999 e hoje.

Os investidores atuais carregam a memória da bolha.

Eles ainda financiam inovação.

Mas fazem perguntas muito mais difíceis.

Quanto custa cada inferência?

Qual é o consumo energético?

Existe vantagem competitiva sustentável?

Como será monetizado?

Qual o custo operacional?

Como proteger propriedade intelectual?

Como evitar vazamento de dados?

Essas perguntas dificilmente apareciam durante a primeira corrida da Internet.


O Cliente Também Mudou

Os consumidores atuais são muito mais exigentes.

Não basta impressionar.

É preciso funcionar.

Se um chatbot responde incorretamente.

O usuário abandona.

Se um agente de IA demora demais.

O cliente procura outro.

Se um sistema alucina frequentemente.

A confiança desaparece.

Na era da IA, qualidade tornou-se tão importante quanto inovação.


O Maior Desafio Não É Tecnológico

Curiosamente...

Os principais obstáculos da Inteligência Artificial talvez nem sejam técnicos.

São organizacionais.

Governança.

Segurança.

Privacidade.

Aspectos legais.

Direitos autorais.

Viés algorítmico.

Explicabilidade.

Auditoria.

Conformidade regulatória.

Integração com sistemas existentes.

Exatamente como aconteceu após a bolha da Internet.

Quando a tecnologia amadurece...

Os desafios passam a ser empresariais.


O Mainframe Volta ao Centro do Palco

Existe uma ironia fascinante.

Quanto mais avançamos na IA...

Mais importantes tornam-se os sistemas corporativos.

Por quê?

Porque eles armazenam os dados.

Os modelos aprendem com informações.

E onde estão as informações mais valiosas?

Nos bancos.

Nas seguradoras.

Nos governos.

Nas indústrias.

Nos sistemas ERP.

Nos programas COBOL.

Nos bancos de dados Db2.

Nos arquivos VSAM.

Nos sistemas IMS.

A IA não substitui esses ambientes.

Ela amplia seu valor.


Os Custos Começam a Aparecer

Outro paralelo extremamente interessante.

Durante a bolha da Internet, muitas empresas ignoravam custos.

Hoje acontece algo semelhante em alguns projetos de IA.

Treinar modelos gigantescos custa milhões.

Executar inferências continuamente também.

Consumir energia.

Armazenar dados.

Manter infraestrutura.

Tudo possui custo.

Mais cedo ou mais tarde, toda empresa precisa responder à mesma pergunta.

Quem paga essa conta?

Foi exatamente essa pergunta que separou sobreviventes e desaparecidos das Dot-Com.

Provavelmente acontecerá novamente.


Os Vencedores Talvez Ainda Nem Tenham Nascido

Essa talvez seja a reflexão mais fascinante.

Em 1997 ninguém imaginava que Google dominaria buscas.

Em 1998 poucos acreditavam na Amazon.

Em 2003 quase ninguém conhecia Facebook.

Em 2005 o YouTube era apenas uma startup.

Em 2006 a AWS ainda parecia um experimento.

Talvez os maiores vencedores da revolução da Inteligência Artificial ainda nem existam.

Ou talvez estejam neste momento funcionando em uma pequena sala de pesquisa.

Exatamente como aconteceu há vinte e cinco anos.


O Que Realmente Aprendemos

A maior lição da bolha da Internet nunca foi:

"Não invista em tecnologia."

Foi exatamente o contrário.

Invista.

Mas compreenda profundamente aquilo em que está investindo.

Separe inovação de propaganda.

Separe engenharia de marketing.

Separe crescimento de sustentabilidade.

Essa diferença vale para empresas.

Vale para investidores.

Vale para profissionais.

Vale para governos.


O Padawan COBOL Possui Uma Vantagem Inesperada

Muitos acreditam que profissionais experientes em sistemas legados possuem dificuldade para compreender novas tecnologias.

A realidade frequentemente mostra o oposto.

Quem passou anos desenvolvendo sistemas críticos aprende algo extremamente valioso.

Pensar em confiabilidade.

Pensar em disponibilidade.

Pensar em integridade.

Pensar em continuidade.

Esses princípios tornam-se ainda mais importantes na era da Inteligência Artificial.

Talvez o maior diferencial do Programador COBOL Padawan não seja conhecer uma linguagem antiga.

Seja compreender fundamentos que continuam absolutamente modernos.


A Última Grande Comparação

A corrida pela Inteligência Artificial lembra muito a corrida da Internet.

Mas existe uma diferença decisiva.

Na década de 1990 estávamos aprendendo pela primeira vez.

Hoje carregamos décadas de experiência.

Conhecemos bolhas anteriores.

Conhecemos erros anteriores.

Conhecemos armadilhas anteriores.

Isso não impede novas crises.

Mas aumenta significativamente nossa capacidade de enfrentá-las.

É como um capitão da Frota Estelar que já atravessou diversas tempestades espaciais.

Ele continua respeitando cada nova missão.

Mas já sabe interpretar sinais que um cadete ainda não percebe.


Lições para o Padawan COBOL

Imagine que você acaba de ser designado para servir na USS Enterprise durante o lançamento de uma tecnologia revolucionária de propulsão quântica.

Todos estão entusiasmados.

Os jornais afirmam que as antigas naves se tornarão obsoletas.

Empresas investem fortunas.

Novos fabricantes aparecem diariamente.

Alguns prometem viagens instantâneas entre galáxias.

Outros garantem velocidade infinita.

Um engenheiro veterano, porém, observa tudo com serenidade.

Ele não rejeita a nova tecnologia.

Pelo contrário.

Estuda cuidadosamente seus benefícios.

Mas também pergunta:

Ela é confiável?

É segura?

Pode ser mantida durante décadas?

Quanto consome de energia?

Como reage em caso de falha?

Essas perguntas não diminuem a inovação.

Elas tornam a inovação sustentável.

É exatamente esse o papel do Programador COBOL Padawan no século XXI.

Abraçar a Inteligência Artificial.

Aprender continuamente.

Experimentar.

Construir.

Mas nunca abandonar os fundamentos que mantêm sistemas críticos funcionando há mais de meio século.

No próximo e último capítulo desta jornada, faremos uma reflexão sobre o futuro dos próximos vinte anos, explorando quais tecnologias provavelmente sobreviverão, quais desaparecerão e quais competências transformarão os profissionais de tecnologia na próxima geração. Afinal, a história da bolha da Internet não termina em 2000 — ela continua sendo escrita todos os dias, inclusive por nós.


segunda-feira, 26 de outubro de 2020

DotCom : Capítulo X — A História se Repete? Das Tulipas à Inteligência Artificial: O Ciclo Eterno das Bolhas Tecnológicas

 

Bellacosa Mainframe e o estouro da bolha dotcom capitulo x

Capítulo X — A História se Repete? Das Tulipas à Inteligência Artificial: O Ciclo Eterno das Bolhas Tecnológicas

Como mais de 400 anos de história mostram que a tecnologia muda, mas o comportamento humano continua praticamente o mesmo

"Os computadores evoluem a cada cinco anos. O cérebro humano continua executando praticamente o mesmo firmware há milhares de anos."

Ao chegar até este ponto da nossa viagem, um Padawan COBOL provavelmente começa a perceber algo curioso.

A bolha da Internet parece um evento único.

Extraordinário.

Irrepetível.

Mas será que realmente foi?

A resposta é...

Não.

Na verdade, o estouro das Dot-Com faz parte de uma longa sequência de episódios em que uma inovação legítima desperta tanto entusiasmo que investidores começam a acreditar que o crescimento nunca terá fim.

Mudam os produtos.

Mudam as tecnologias.

Mudam os protagonistas.

Mas o roteiro permanece surpreendentemente parecido.

É como se a humanidade executasse o mesmo programa repetidamente.

Apenas alterando os dados de entrada.


A Primeira Grande Bolha Documentada

Para entender a bolha da Internet, precisamos voltar quase quatro séculos.

Holanda.

Século XVII.

Um pequeno objeto havia conquistado completamente a sociedade.

A tulipa.

Hoje parece estranho imaginar.

Mas, naquela época, determinadas variedades de tulipas tornaram-se símbolos de riqueza e prestígio.

A procura aumentava continuamente.

Os preços disparavam.

Logo surgiram investidores comprando bulbos apenas para revendê-los posteriormente.

Ninguém estava interessado na flor.

O interesse estava na valorização.

Em determinado momento, alguns bulbos chegaram a valer mais do que casas luxuosas.

Era evidente que algo estava errado.

Mesmo assim...

O mercado continuava comprando.

Até que um dia...

Parou.

Os preços despencaram.

A chamada Tulipomania, ocorrida entre 1636 e 1637, tornou-se um dos primeiros grandes exemplos documentados de bolha especulativa.


A South Sea Bubble

Poucas décadas depois, a Inglaterra viveu situação semelhante.

A South Sea Company prometia oportunidades extraordinárias de comércio internacional.

As expectativas eram enormes.

As ações subiam continuamente.

Investidores acreditavam que a riqueza seria praticamente ilimitada.

Mais uma vez...

As expectativas superaram a realidade.

A bolha estourou.

Fortunas desapareceram.

Entre os investidores estava ninguém menos que Isaac Newton.

O próprio Newton teria dito uma frase famosa:

"Posso calcular o movimento dos corpos celestes, mas não a loucura das pessoas."

Se até um dos maiores cientistas da história foi surpreendido pela psicologia dos mercados...

Talvez devamos ser um pouco mais humildes ao analisar novas tecnologias.


Railway Mania: Quando os Trilhos Pareciam Levar ao Infinito

No século XIX surgiu outra inovação revolucionária.

As ferrovias.

E, desta vez, a tecnologia realmente transformou o mundo.

Cidades cresceram.

Mercadorias viajaram mais rapidamente.

Economias inteiras mudaram.

Entretanto...

Mais uma vez surgiu um problema.

Investidores passaram a financiar praticamente qualquer projeto ferroviário.

Nem todas as linhas faziam sentido.

Nem todas possuíam demanda suficiente.

Mesmo assim...

Recebiam enormes quantidades de capital.

Quando a realidade econômica apareceu...

Diversas empresas quebraram.

Curiosamente, os trilhos permaneceram.

Exatamente como aconteceria com os cabos de fibra óptica após a bolha da Internet.


O Crash de 1929

Talvez o colapso financeiro mais famoso da história.

Os anos anteriores haviam sido marcados por enorme otimismo.

A indústria crescia.

O consumo aumentava.

O crédito expandia-se.

As bolsas atingiam recordes.

Então veio outubro de 1929.

Milhões de investidores correram para vender ações.

O mercado entrou em colapso.

A crise espalhou-se pelo mundo inteiro.

Nascia a Grande Depressão.

Mais uma vez encontramos elementos familiares.

Euforia.

Alavancagem.

Excesso de confiança.

Pânico.


A Bolha Imobiliária Japonesa

Durante os anos 1980, o Japão parecia destinado a dominar completamente a economia mundial.

O mercado imobiliário valorizava-se continuamente.

As bolsas batiam recordes.

Empresas japonesas compravam ativos em diversos países.

Chegou-se a afirmar que o terreno do Palácio Imperial de Tóquio valia mais do que todo o estado da Califórnia.

Hoje sabemos que isso era completamente irreal.

Quando a bolha estourou, iniciou-se um longo período de baixo crescimento conhecido como "Décadas Perdidas".

Mais uma vez...

Não foi a tecnologia que falhou.

Foi a expectativa.


A Bolha das Dot-Com

Agora tudo começa a parecer familiar.

Tecnologia revolucionária?

Sim.

Investimentos gigantescos?

Também.

Empresas avaliadas acima de qualquer lógica financeira?

Novamente.

Expectativas irreais?

Sem dúvida.

A Internet realmente mudou o planeta.

Mas não justificava qualquer preço.

Essa diferença é fundamental.

Uma inovação pode ser extraordinária.

Mesmo assim...

Suas ações podem estar caras demais.


A Crise Financeira de 2008

Embora tenha origem diferente, a crise do subprime também apresenta padrões semelhantes.

Durante anos acreditou-se que imóveis jamais perderiam valor.

Bancos concediam financiamentos cada vez mais arriscados.

Mercados ignoravam sinais de alerta.

Até que...

Os pagamentos começaram a falhar.

A confiança desapareceu.

O sistema entrou em colapso.

Novamente vemos o mesmo comportamento.

O problema nunca foi o imóvel.

Nem o crédito.

Foi o excesso de confiança.


Bitcoin e o Sonho das Criptomoedas

Quando o Bitcoin surgiu em 2009, poucos prestaram atenção.

Anos depois seus preços começaram a subir rapidamente.

Logo apareceram milhares de novas criptomoedas.

Algumas extremamente sérias.

Outras completamente sem propósito.

Durante determinados períodos bastava lançar um novo token para atrair investidores.

Muitos projetos desapareceram poucos meses depois.

Entretanto...

A tecnologia blockchain permaneceu.

Mais uma vez...

O padrão repete-se.

Tecnologia legítima.

Especulação exagerada.

Correção.

Amadurecimento.


NFTs: Quando Até Imagens Viraram Ativos Financeiros

Entre 2020 e 2022 ocorreu outro fenômeno curioso.

Arquivos digitais passaram a ser vendidos por milhões de dólares.

Coleções inteiras surgiam diariamente.

Algumas possuíam enorme valor artístico.

Outras existiam apenas porque o mercado parecia disposto a comprar qualquer coisa.

Quando o entusiasmo diminuiu...

Grande parte desses ativos perdeu praticamente todo o valor.

A tecnologia de certificação digital continua existindo.

A especulação não.


O Metaverso

Em 2021 outra palavra dominou praticamente todas as conferências de tecnologia.

Metaverso.

Empresas mudaram de nome.

Investiram bilhões.

Prometeram transformar completamente a forma como trabalhamos.

A ideia continua interessante.

Mas o ritmo de adoção foi muito menor do que o imaginado inicialmente.

Mais uma vez...

A tecnologia talvez estivesse certa.

O momento histórico talvez não.

Exatamente como ocorreu com muitas empresas da primeira geração da Internet.


A Inteligência Artificial

Chegamos finalmente ao tema mais atual.

Será que a Inteligência Artificial representa outra bolha?

A resposta exige cuidado.

Primeiro precisamos separar duas coisas completamente diferentes.

A tecnologia.

E sua valorização financeira.

A tecnologia é absolutamente real.

Modelos de linguagem.

Visão computacional.

Agentes inteligentes.

Robótica.

Descoberta científica.

Automação.

Tudo isso já produz impacto concreto.

Entretanto...

Assim como ocorreu com a Internet, isso não significa que todas as empresas relacionadas à IA sobreviverão.

Nem que todas as avaliações atuais permanecerão justificadas.

A história recomenda prudência.

Não pessimismo.


O Algoritmo Invisível da História

Ao observar todos esses episódios percebemos um padrão quase matemático.

Primeiro surge uma inovação.

Depois aparecem pioneiros.

Em seguida chegam investidores.

Os preços aumentam.

A mídia amplia o entusiasmo.

Mais investidores entram.

As expectativas tornam-se irreais.

O mercado ignora riscos.

Então surge a realidade.

O entusiasmo desaparece.

As empresas sólidas sobrevivem.

A tecnologia continua evoluindo.

Esse ciclo repetiu-se inúmeras vezes.

Talvez volte a repetir-se.


Enquanto Isso... O Mainframe Continua Processando

Existe algo quase poético nessa comparação.

Durante todas essas bolhas ocorreram mudanças profundas.

Computadores pessoais.

Internet.

Cloud.

Smartphones.

Blockchain.

Inteligência Artificial.

Enquanto isso...

Programas COBOL continuaram processando contas bancárias.

Mainframes continuaram liquidando bolsas de valores.

Sistemas críticos permaneceram executando exatamente aquilo para que foram projetados.

Isso não significa que ficaram parados.

Muito pelo contrário.

Eles evoluíram constantemente.

Mas sempre respeitando princípios fundamentais de engenharia.

Talvez seja exatamente essa disciplina que explique sua longevidade.


O Maior Inimigo Não é a Tecnologia

Depois de quatro séculos observando bolhas financeiras, uma conclusão torna-se praticamente inevitável.

O problema nunca foi:

a tulipa;

a ferrovia;

a Internet;

o blockchain;

o metaverso;

a Inteligência Artificial.

O verdadeiro problema sempre foi o comportamento humano.

Ganância.

Medo.

Excesso de confiança.

Comportamento de manada.

FOMO.

Esses elementos aparecem repetidamente.

As tecnologias apenas mudam o cenário onde a história acontece.


Lições para o Padawan COBOL

Todo programa COBOL possui uma característica interessante.

Independentemente da linguagem utilizada na interface, dos servidores modernos ou da Inteligência Artificial integrada ao sistema, operações fundamentais como débito, crédito, consistência de dados e integridade transacional continuam obedecendo às mesmas regras.

A economia funciona de maneira semelhante.

Ferramentas evoluem.

Mercados mudam.

Empresas nascem.

Empresas desaparecem.

Mas princípios permanecem.

No universo da Frota Estelar existe um ensinamento transmitido aos novos oficiais:

"Não confunda uma nova tecnologia com uma nova lei da física."

Motores de dobra evoluem.

Escudos tornam-se mais eficientes.

Sensores ficam mais precisos.

Mas gravidade continua sendo gravidade.

Na economia ocorre exatamente o mesmo.

A Inteligência Artificial pode transformar praticamente todos os setores da sociedade.

Mas continuará existindo receita.

Continuará existindo despesa.

Continuará existindo fluxo de caixa.

Continuará existindo risco.

E continuará existindo a necessidade de construir sistemas confiáveis.

Talvez essa seja a maior lição de toda a bolha da Internet.

A inovação muda o mundo.

Os fundamentos sustentam esse mundo.

No próximo capítulo veremos como essas lições influenciaram diretamente o nascimento das startups modernas, da cultura Lean, do movimento Agile e da filosofia "falhe rápido, mas aprenda mais rápido ainda", moldando a forma como empresas de tecnologia são construídas até os dias atuais.


sexta-feira, 31 de julho de 2020

DotCom : Capítulo VII — Os Sobreviventes da Seleção Natural Digital: Por Que Amazon, Google e eBay Venceram Quando Quase Todos Perderam

 

Bellacosa Mainframe e o estouro da bolha dotcom capitulo vii

Capítulo VII — Os Sobreviventes da Seleção Natural Digital: Por Que Amazon, Google e eBay Venceram Quando Quase Todos Perderam

Como algumas empresas transformaram a maior crise da Internet em uma oportunidade para construir impérios tecnológicos que mudariam o século XXI

"Uma tempestade não cria um grande navegador. Ela apenas revela quem realmente sabe navegar."

Quando estudamos a bolha da Internet, existe uma tendência natural de focarmos apenas nas empresas que desapareceram.

Pets.com.

Webvan.

Boo.com.

eToys.

Excite.

GeoCities.

Broadcast.com.

Centenas de outras.

É uma lista enorme.

Mas existe uma pergunta muito mais interessante.

Por que algumas empresas sobreviveram?

Afinal...

Todas faziam parte da mesma Internet.

Todas enfrentaram o mesmo colapso.

Todas perderam investidores.

Todas sofreram com a queda do NASDAQ.

O que havia de diferente?

Será que tiveram sorte?

Ou existia algo mais profundo?

A resposta é uma das maiores lições de gestão, tecnologia e engenharia da história moderna.


A Natureza Também Funciona Assim

Charles Darwin jamais estudou empresas de tecnologia.

Mesmo assim, sua teoria da evolução explica muito do que aconteceu entre 2000 e 2003.

Na natureza, sobreviver não significa ser o maior.

Nem o mais forte.

Nem o mais bonito.

Sobrevive quem melhor consegue adaptar-se às mudanças do ambiente.

No mundo corporativo acontece exatamente o mesmo.

Quando o dinheiro era abundante...

Quase todas as empresas pareciam saudáveis.

Quando o dinheiro desapareceu...

Descobriu-se quais realmente possuíam capacidade de adaptação.


Amazon: A Empresa que Quase Morreu

Hoje parece impossível imaginar.

Mas houve um momento em que analistas afirmavam seriamente que a Amazon jamais sobreviveria.

Suas ações perderam aproximadamente 95% do valor após o estouro da bolha.

Jeff Bezos tornou-se alvo de críticas.

Jornais publicavam manchetes questionando:

"A Amazon ainda existirá daqui a alguns anos?"

A empresa acumulava prejuízos.

Investia pesadamente em infraestrutura.

Construía centros de distribuição enormes.

Comprava servidores.

Desenvolvia software.

Naquele momento, muitos acreditavam que tudo aquilo era desperdício.

Hoje sabemos que era exatamente o contrário.

Bezos estava construindo a fundação de um império.


Jeff Bezos Não Pensava em Trimestres

Existe uma característica interessante nos fundadores que sobreviveram.

Eles olhavam para décadas.

Não para o próximo trimestre.

Enquanto investidores exigiam resultados imediatos, Bezos repetia constantemente uma filosofia simples.

"Estamos construindo uma empresa para o longo prazo."

Essa visão permitiu decisões extremamente difíceis.

Redução de despesas.

Demissões.

Cancelamento de projetos.

Renegociação de contratos.

O objetivo não era impressionar Wall Street.

Era sobreviver.

Sem sobrevivência...

Não existiria futuro.


Google Chegou na Hora Certa

Outro caso fascinante é o Google.

Ao contrário da maioria das startups da época, o Google nasceu praticamente no momento em que a bolha começava a mostrar sinais de desgaste.

Larry Page e Sergey Brin tinham um problema muito específico para resolver.

Como encontrar informação relevante na Web.

Naquela época já existiam buscadores.

AltaVista.

Lycos.

Excite.

Infoseek.

Yahoo!.

Entretanto...

Os resultados eram frequentemente ruins.

Google resolveu um problema concreto.

Seu algoritmo PageRank organizava resultados de forma muito superior aos concorrentes.

Perceba a diferença.

Eles não criaram uma empresa porque a Internet estava na moda.

Criaram porque existia um problema real.


Resolver Problemas Vale Mais do que Seguir Tendências

Esse talvez seja o maior ensinamento de Google.

Tecnologia é consequência.

Problemas vêm primeiro.

Quando um produto resolve algo importante...

Os clientes permanecem.

Quando ele existe apenas porque está acompanhando uma tendência...

A sobrevivência torna-se muito mais difícil.

Esse princípio continua válido vinte anos depois.

Na era da Inteligência Artificial, a pergunta permanece exatamente a mesma.

Que problema estamos resolvendo?


eBay Descobriu o Poder da Comunidade

Enquanto muitas startups gastavam fortunas em publicidade, o eBay crescia principalmente através dos próprios usuários.

Compradores atraíam vendedores.

Vendedores atraíam compradores.

Esse fenômeno recebe hoje o nome de efeito de rede.

Quanto maior a comunidade...

Maior o valor da plataforma.

Esse crescimento orgânico reduziu drasticamente a necessidade de investimentos gigantescos em marketing.

Era um modelo muito mais sustentável.


PayPal Sobreviveu Porque Existia um Problema Real

Comprar pela Internet no final dos anos 1990 não era simples.

Cartões de crédito ainda geravam desconfiança.

Fraudes eram frequentes.

Pagamentos internacionais eram complicados.

PayPal apareceu justamente para resolver esse problema.

A empresa enfrentou enormes dificuldades.

Mudou diversas vezes de estratégia.

Lutou contra fraudes diariamente.

Mesmo assim...

Persistiu.

Porque seu serviço atendia uma necessidade concreta do mercado.

Não era uma solução procurando um problema.

Era exatamente o contrário.


Salesforce Mudou o Modelo de Negócio

Outro sobrevivente importante foi a Salesforce.

Marc Benioff defendia uma ideia considerada quase absurda na época.

Software não precisava mais ser instalado.

Poderia funcionar diretamente pela Internet.

Hoje chamamos isso de SaaS.

Software as a Service.

Naquele período parecia uma heresia.

Empresas estavam acostumadas a comprar CDs, instalar programas e manter servidores próprios.

Salesforce mostrou que era possível fazer diferente.

Não venceu porque possuía o software mais bonito.

Venceu porque criou um modelo econômico melhor.


O Que Todas Tinham em Comum?

Quando analisamos essas empresas percebemos padrões bastante claros.

Elas possuíam objetivos diferentes.

Mercados diferentes.

Produtos diferentes.

Mas compartilhavam características fundamentais.

Primeiro.

Resolvendo problemas reais.

Segundo.

Pensando no longo prazo.

Terceiro.

Investindo fortemente em engenharia.

Quarto.

Aceitando adaptar modelos de negócio sempre que necessário.

Quinto.

Controlando cuidadosamente recursos durante a crise.

Nenhuma delas ignorou a realidade financeira.


Enquanto Isso... Milhares Desapareciam

No mesmo período, centenas de startups continuavam apostando que novos investidores resolveriam seus problemas.

Não reduziram custos.

Não mudaram estratégias.

Não adaptaram produtos.

Esperaram que o mercado voltasse ao normal.

Ele nunca voltou.

A crise mostrou uma diferença importante entre esperança e planejamento.

Esperança é importante.

Mas não substitui estratégia.


A Engenharia Tornou-se Diferencial Competitivo

Existe outra característica curiosa.

As empresas sobreviventes investiram pesadamente em infraestrutura.

Google construiu data centers gigantescos.

Amazon desenvolveu plataformas logísticas extremamente sofisticadas.

PayPal criou mecanismos antifraude avançados.

eBay investiu em escalabilidade.

Nenhuma delas acreditava que apenas marketing seria suficiente.

Todas compreenderam que crescimento exige engenharia.

Essa continua sendo uma das maiores diferenças entre demonstrações impressionantes e produtos duradouros.


O Mainframe Sempre Conheceu Esse Princípio

Para um profissional COBOL, essa conclusão parece quase óbvia.

Durante décadas, sistemas bancários sempre foram projetados pensando em:

  • crescimento;

  • disponibilidade;

  • redundância;

  • recuperação;

  • desempenho;

  • segurança.

Ninguém constrói um sistema de pagamentos imaginando apenas a demonstração para um cliente.

Ele precisa continuar funcionando durante anos.

É exatamente essa mentalidade que começou a reaparecer na indústria de software após a bolha.

As empresas voltaram a valorizar arquitetura.

Não apenas velocidade.


A Crise Eliminou Concorrentes

Existe uma consequência pouco comentada sobre grandes crises.

Elas reduzem drasticamente a concorrência.

Quando centenas de startups desapareceram, empresas sobreviventes passaram a disputar um mercado muito menos congestionado.

Amazon encontrou menos competidores.

Google tornou-se rapidamente referência em buscas.

eBay consolidou sua liderança.

Salesforce expandiu-se praticamente sozinha no mercado de CRM em nuvem.

Paradoxalmente...

A crise abriu espaço para gigantes crescerem ainda mais.


A Internet Ficou Mais Forte

Pode parecer contraditório.

Mas a bolha fortaleceu a própria Internet.

Como?

Eliminando modelos insustentáveis.

Concentrando investimentos em empresas mais eficientes.

Incentivando engenharia de melhor qualidade.

Criando consumidores mais confiantes.

Melhorando infraestrutura.

Fortalecendo meios de pagamento.

Quando a década seguinte começou...

A Internet estava muito mais preparada para crescer.

A crise havia funcionado como uma gigantesca poda.

As raízes permaneceram.

Os galhos fracos desapareceram.


O Paralelo com a Inteligência Artificial

Estamos vivendo algo semelhante atualmente.

Existem milhares de startups de IA.

Nem todas sobreviverão.

Isso não significa que a Inteligência Artificial fracassará.

Muito provavelmente ocorrerá o oposto.

Assim como aconteceu após as Dot-Com, algumas poucas empresas construirão infraestrutura sólida, resolverão problemas relevantes e permanecerão durante décadas.

Outras desaparecerão.

A tecnologia continuará evoluindo.

A história mostra que inovação costuma sobreviver às bolhas.

O que normalmente não sobrevive são os modelos econômicos mal planejados.


Lições para o Padawan COBOL

Existe uma razão pela qual programas COBOL escritos há quarenta anos continuam executando milhões de transações diariamente.

Eles foram desenvolvidos para resolver problemas concretos.

Não para impressionar investidores.

Essa talvez seja a maior diferença entre sistemas críticos e muitos produtos criados durante períodos de euforia.

Um sistema duradouro nasce da combinação entre boa engenharia, visão de longo prazo e disciplina operacional.

Empresas também.

No universo da Frota Estelar, durante uma batalha, as naves mais vistosas nem sempre sobrevivem. Muitas possuem armamentos impressionantes, mas pouca resistência estrutural. Já as naves projetadas por engenheiros cuidadosos suportam impactos, adaptam-se aos danos, redistribuem energia e continuam cumprindo sua missão.

Foi exatamente isso que aconteceu após a bolha da Internet.

As empresas que sobreviveram não eram necessariamente as mais rápidas.

Eram as mais resilientes.

No próximo capítulo conheceremos uma das maiores ironias dessa história: como justamente o colapso das Dot-Com abriu caminho para a Web 2.0, as redes sociais, os smartphones e praticamente toda a economia digital que conhecemos hoje. Às vezes, destruir o excesso é exatamente o que permite o verdadeiro crescimento.


segunda-feira, 4 de maio de 2020

DotCom : Capítulo V — O Dia em que a Bolha Estourou: Quando Wall Street Acordou do Sonho Digital

 

Bellacosa Mainframe e o estouro da bolha dotcom capitulo v

Capítulo V — O Dia em que a Bolha Estourou: Quando Wall Street Acordou do Sonho Digital

Como trilhões de dólares desapareceram, milhares de empresas faliram e a maior euforia tecnológica da história transformou-se em uma das maiores crises do mercado financeiro

"Toda bolha financeira parece indestrutível... até o dia em que alguém faz uma pergunta simples: 'Quanto isso realmente vale?'"

Durante quase cinco anos, o mercado viveu como se a gravidade econômica tivesse deixado de existir.

A Internet crescia.

Os computadores tornavam-se mais rápidos.

As conexões melhoravam.

Milhões de novos usuários entravam na rede.

Empresas anunciavam projetos revolucionários praticamente todos os dias.

Jornais estampavam manchetes otimistas.

Analistas elevavam projeções.

Investidores comemoravam.

Empreendedores eram tratados como visionários.

Parecia que o século XXI havia finalmente chegado.

Mas existia um detalhe que quase ninguém queria discutir.

A maior parte dessas empresas continuava sem apresentar lucro.

Pior.

Muitas nem sequer possuíam um plano claro para obtê-lo.

Durante algum tempo isso foi ignorado.

Até que chegou março de 2000.

E a realidade resolveu cobrar a conta.


O Pico da Euforia

No dia 10 de março de 2000, o índice NASDAQ atingiu aproximadamente 5.048 pontos, seu maior valor até então.

Naquele instante, parecia que nada poderia interromper o crescimento da economia digital.

Empresas recém-criadas valiam bilhões de dólares.

Muitas delas possuíam poucos anos de existência.

Algumas tinham menos funcionários do que uma agência bancária.

Mesmo assim, eram avaliadas acima de corporações industriais construídas ao longo de décadas.

Para muitos investidores, aquele era apenas o começo.

Hoje sabemos que, na realidade, era o topo da montanha.


O Mercado Começou a Fazer Perguntas

É curioso observar que grandes crises raramente começam com um único evento.

Elas normalmente surgem quando várias pequenas dúvidas começam a aparecer ao mesmo tempo.

Investidores passaram a perguntar:

  • Quando essas empresas darão lucro?

  • Quantas realmente sobreviverão?

  • Os usuários continuarão crescendo indefinidamente?

  • O mercado consumidor é grande o suficiente?

  • Essas avaliações fazem sentido?

Essas perguntas existiam desde o início.

Mas agora começaram a receber atenção.

E, quando investidores começam a duvidar...

Os preços começam a cair.


A Confiança é o Ativo Mais Valioso

Existe algo extremamente interessante sobre mercados financeiros.

O dinheiro é importante.

Mas existe algo ainda mais valioso.

Confiança.

Uma ação representa uma expectativa sobre o futuro.

Enquanto investidores acreditam nesse futuro...

O preço sobe.

Quando essa confiança desaparece...

O valor pode evaporar rapidamente.

Foi exatamente isso que ocorreu.

Não houve um grande desastre natural.

Não ocorreu uma guerra mundial.

Não surgiu uma tecnologia concorrente.

O que mudou foi a percepção coletiva.

E isso foi suficiente para iniciar uma reação em cadeia.


A Primeira Queda Parecia Apenas uma Correção

No início, muitos especialistas minimizaram o problema.

"É apenas uma realização de lucros."

"Uma pequena correção."

"O mercado subiu demais."

Essa interpretação parecia razoável.

Mercados realmente passam por correções periódicas.

Mas aquela não era uma correção comum.

Ela escondia algo muito maior.

Empresas começaram a divulgar resultados decepcionantes.

Projetos foram cancelados.

Captações de investimento ficaram mais difíceis.

Fundos passaram a selecionar melhor onde aplicar seus recursos.

O fluxo de dinheiro começou a diminuir.

E isso era extremamente perigoso para empresas que dependiam exclusivamente de novos investimentos para continuar existindo.


Quando o Capital Secou

Lembre-se do conceito de Burn Rate apresentado no capítulo anterior.

Enquanto investidores continuavam financiando prejuízos...

Tudo funcionava.

Mas agora o cenário havia mudado.

Os fundos começaram a fechar a torneira.

Empresas planejavam captar mais cinquenta milhões de dólares.

Recebiam cinco.

Outras esperavam cem milhões.

Não conseguiam nenhum.

Sem novos aportes...

O caixa começou a desaparecer rapidamente.

E empresas que pareciam gigantes descobriram que possuíam apenas alguns meses de sobrevivência.


O Efeito Dominó

Uma startup fechava.

Centenas de funcionários eram demitidos.

Fornecedores deixavam de receber.

Agências de publicidade perdiam contratos.

Empresas de hospedagem ficavam sem clientes.

Consultorias deixavam de faturar.

Outra empresa também quebrava.

Depois outra.

Depois outra.

O problema deixou de ser individual.

Transformou-se em um fenômeno sistêmico.

Era como uma sequência de dominós.

Cada peça derrubava a seguinte.


O NASDAQ Entrou em Queda Livre

Nos meses seguintes, o índice NASDAQ iniciou uma das maiores quedas da história.

O que antes parecia uma pequena correção transformou-se em um verdadeiro colapso.

Entre março de 2000 e outubro de 2002, o índice perdeu cerca de 78% do seu valor.

Milhões de investidores assistiram, impotentes, ao desaparecimento de boa parte de seu patrimônio.

Para muitos, tratava-se da primeira grande crise tecnológica de suas vidas.

A sensação era de incredulidade.

Como empresas avaliadas em bilhões podiam valer tão pouco em tão pouco tempo?

A resposta era simples.

Grande parte daquele valor existia apenas enquanto existia confiança.


Empresas Sumiram da Noite para o Dia

Algumas startups fecharam em poucas semanas.

Outras tentaram reduzir despesas desesperadamente.

Demitiram funcionários.

Cancelaram projetos.

Venderam equipamentos.

Mudaram de sede.

Renegociaram contratos.

Mesmo assim...

Muitas não conseguiram sobreviver.

É importante entender que nem todas eram empresas ruins.

Diversas possuíam produtos interessantes.

Algumas tinham excelentes engenheiros.

Outras contavam com tecnologias inovadoras.

O problema era que seus modelos financeiros dependiam de investimentos constantes.

Quando o dinheiro acabou...

A operação tornou-se inviável.


Pets.com Tornou-se um Símbolo

Nenhuma empresa simboliza melhor esse período do que a Pets.com.

Seu famoso mascote aparecia em comerciais de televisão.

Era uma marca conhecida nacionalmente.

Parecia estar em todos os lugares.

Entretanto...

A empresa fechou poucos meses após abrir capital.

Seu nome tornou-se praticamente sinônimo da bolha da Internet.

O curioso é que a ideia nunca foi ruim.

Hoje milhões de pessoas compram produtos para animais online.

O problema era outro.

A logística.

Os custos.

O momento histórico.

A empresa estava certa.

O mercado ainda não.


A Tragédia Humana

Quando estudamos crises econômicas costumamos analisar gráficos.

Índices.

Percentuais.

Bilhões de dólares.

Mas existe um lado humano que frequentemente é esquecido.

Milhares de profissionais perderam seus empregos.

Programadores.

Analistas.

Designers.

Administradores.

Executivos.

Famílias inteiras precisaram reorganizar suas vidas.

Muitos haviam trocado empregos estáveis por startups promissoras.

Outros haviam investido todas as suas economias em ações de tecnologia.

A bolha não destruiu apenas empresas.

Ela destruiu sonhos.


O Mainframe Continuou Trabalhando

Enquanto Wall Street enfrentava o caos, uma cena curiosa acontecia silenciosamente nos centros de processamento de dados.

O batch da madrugada continuava sendo executado.

Os sistemas bancários permaneciam autorizando cartões.

Folhas de pagamento continuavam sendo processadas.

Caixas eletrônicos permaneciam funcionando.

As bolsas de valores continuavam liquidando operações.

Nada disso aparecia nas manchetes.

Mas mostrava uma verdade importante.

Infraestrutura crítica não pode depender do humor do mercado.

Ela precisa continuar funcionando mesmo durante crises.

Talvez essa seja uma das maiores virtudes do universo mainframe.

Ele foi projetado justamente para operar quando tudo ao redor parece instável.


A Internet Não Morreu

Esse talvez seja o maior equívoco histórico sobre a bolha.

Muitos acreditam que a Internet fracassou.

Não.

Quem fracassou foram determinados modelos de negócios.

A tecnologia continuou evoluindo.

As conexões ficaram mais rápidas.

Os computadores tornaram-se mais baratos.

Novos navegadores apareceram.

O comércio eletrônico amadureceu.

Serviços online continuaram crescendo.

A bolha não destruiu a Internet.

Ela eliminou os excessos.

Foi um processo de seleção natural empresarial.


O Mercado Aprendeu da Forma Mais Difícil

Depois da crise, investidores passaram a fazer perguntas muito diferentes.

Quanto essa empresa realmente fatura?

Existe fluxo de caixa positivo?

Qual é sua margem?

Ela consegue sobreviver sem novos aportes?

Existe um caminho claro para a lucratividade?

Essas perguntas parecem óbvias hoje.

Mas foram aprendidas a um custo extremamente elevado.


O Paralelo com Outras Crises

Se observarmos a história econômica, veremos que praticamente todas as grandes bolhas seguem um roteiro semelhante.

Primeiro surge uma inovação legítima.

Depois aparece entusiasmo.

Em seguida, excesso de investimento.

Logo depois, especulação.

Então vem a euforia.

Por fim...

A realidade.

Esse padrão aconteceu com:

  • as tulipas na Holanda;

  • as ferrovias inglesas;

  • o mercado imobiliário japonês;

  • as hipotecas americanas;

  • as criptomoedas mais especulativas;

  • diversos projetos de NFTs.

O comportamento humano permanece surpreendentemente constante.

Mudam apenas os personagens.


O Que um Padawan COBOL Deve Aprender

Quando um programa COBOL executa um cálculo incorreto, cedo ou tarde o erro aparece.

Pode levar minutos.

Horas.

Dias.

Mas a inconsistência será encontrada.

Na economia acontece exatamente a mesma coisa.

Uma empresa pode operar durante algum tempo sustentada por expectativas.

Pode sobreviver graças a investimentos.

Pode esconder prejuízos atrás de crescimento acelerado.

Mas, em algum momento, os resultados reais aparecem.

É por isso que profissionais de sistemas críticos valorizam tanto conceitos como:

  • consistência;

  • previsibilidade;

  • auditoria;

  • confiabilidade;

  • planejamento.

Esses princípios parecem conservadores.

Na verdade, são justamente eles que permitem atravessar tempestades.


Lições para o Padawan COBOL

Na Academia da Frota Estelar existe uma máxima que poderia perfeitamente resumir a bolha da Internet:

"Nunca confunda velocidade com estabilidade."

Durante alguns anos, as empresas Dot-Com pareciam as naves mais rápidas da galáxia.

Aceleravam continuamente.

Recebiam investimentos gigantescos.

Cresciam em ritmo impressionante.

Mas muitas nunca haviam testado seus motores em uma tempestade.

Quando a turbulência chegou, descobriram que velocidade sem estrutura não garante sobrevivência.

Enquanto isso, velhas naves aparentemente menos glamorosas continuaram suas missões silenciosamente.

Foi exatamente isso que aconteceu com os sistemas corporativos.

Os grandes bancos, seguradoras, governos e companhias aéreas continuaram operando graças a décadas de engenharia sólida, disciplina operacional e arquiteturas resilientes.

A bolha havia estourado.

Mas a história da Internet estava apenas começando.

No próximo capítulo veremos um dos aspectos menos lembrados desse período: como o colapso das Dot-Com transformou profundamente o mercado de trabalho, mudou a carreira de milhares de profissionais de tecnologia e redefiniu o perfil do engenheiro de software para as décadas seguintes.


quinta-feira, 9 de abril de 2020

DotCom: Capítulo IV — A Euforia Coletiva: Quando o Mercado Acreditou que as Regras da Economia Haviam Mudado

 

Bellacosa Mainframe e o estouro da bolha dotcom capitulo iv

Capítulo IV — A Euforia Coletiva: Quando o Mercado Acreditou que as Regras da Economia Haviam Mudado

Como investidores, analistas, imprensa e empresários construíram uma ilusão que parecia impossível de dar errado

"O maior perigo de uma bolha financeira não é o excesso de dinheiro. É quando pessoas inteligentes começam a acreditar que as leis da realidade deixaram de existir."

Até este ponto da nossa jornada vimos como a Internet deixou os laboratórios, conquistou empresas, encantou a sociedade e atraiu bilhões de dólares em investimentos.

Mas ainda falta responder uma pergunta fundamental.

Como milhares de investidores extremamente experientes conseguiram acreditar em negócios que claramente não paravam de pé?

Será que ninguém percebeu os problemas?

Será que todos foram enganados?

A resposta é muito mais interessante.

Na maioria dos casos...

As pessoas não estavam sendo irracionais.

Elas estavam olhando para uma tecnologia verdadeiramente revolucionária.

O erro foi concluir que uma revolução tecnológica também significava uma revolução nas leis da economia.

E isso nunca aconteceu.


Quando a Internet Parecia Magia

Volte mentalmente para 1998.

Imagine que você nunca viu um site.

Nunca enviou um e-mail.

Nunca comprou nada pela Internet.

De repente alguém mostra um computador conectado ao mundo inteiro.

Você consegue conversar com pessoas de outro país.

Ler jornais internacionais.

Pesquisar universidades.

Comprar um livro sem sair de casa.

Tudo isso parecia tão extraordinário que muitas pessoas passaram a acreditar que estavam diante da maior transformação econômica desde a Revolução Industrial.

Na verdade...

Talvez estivessem.

Mas uma revolução tecnológica não elimina conceitos básicos como receita, despesa e fluxo de caixa.

Ela apenas muda a forma como esses conceitos são aplicados.


A "Nova Economia"

Poucas expressões foram tão repetidas entre 1998 e 2000 quanto:

New Economy.

A Nova Economia.

Livros foram publicados.

Congressos discutiam o tema.

Revistas estampavam capas afirmando que o capitalismo havia entrado em uma nova fase.

Segundo muitos especialistas da época, empresas digitais deveriam ser avaliadas de maneira completamente diferente das empresas tradicionais.

Por quê?

Porque elas cresceriam infinitamente.

Como seus custos marginais seriam pequenos, bastaria conquistar usuários.

O lucro viria naturalmente.

Essa teoria possuía uma parte verdadeira.

Empresas digitais realmente conseguem escalar muito mais rapidamente.

Entretanto...

Ela ignorava algo essencial.

Nenhum crescimento é infinito.


O Mercado Começou a Precificar Sonhos

Uma empresa tradicional era avaliada principalmente pelo que já havia construído.

Uma empresa da Internet passou a ser avaliada pelo que talvez construísse algum dia.

É uma diferença gigantesca.

Imagine dois restaurantes.

O primeiro possui clientes, lucro e vinte anos de funcionamento.

O segundo acabou de abrir.

Não possui faturamento.

Mas promete que, daqui a dez anos, será a maior rede do planeta.

Qual deles deveria valer mais?

Durante a bolha da Internet, muitas vezes era o segundo.

Porque o mercado deixou de comprar resultados.

Passou a comprar expectativas.


O Papel dos Analistas Financeiros

Outro personagem importante dessa história foi o analista de mercado.

Seu trabalho consiste em estudar empresas e recomendar compra, venda ou manutenção de ações.

Em períodos normais, essas análises costumam ser bastante conservadoras.

Durante a bolha...

Muitos relatórios passaram a utilizar hipóteses extremamente otimistas.

Algumas previsões assumiam que determinadas empresas cresceriam acima de 50% ao ano durante uma década inteira.

Hoje sabemos como isso era improvável.

Naquele momento parecia plausível.

Afinal...

A Internet realmente crescia em ritmo impressionante.


A Mídia Descobriu os Novos Heróis

Os jornais também tiveram papel importante.

Até então, empresários famosos normalmente eram industriais.

Banqueiros.

Executivos.

Presidentes de grandes corporações.

De repente surgia uma nova geração.

Empreendedores de vinte e poucos anos.

Usando camiseta.

Tênis.

Sem gravata.

Criando empresas em garagens.

Eles se tornaram ícones culturais.

As capas das revistas estampavam frases como:

"O próximo Bill Gates."

"O jovem que mudará o mundo."

"A empresa que revolucionará tudo."

Criava-se um ambiente onde sucesso parecia inevitável.

Fracassar deixava de ser considerado uma possibilidade.


O IPO Virou um Evento Nacional

As ofertas públicas de ações transformaram-se em verdadeiros espetáculos.

No dia em que uma startup estreava na bolsa de valores, milhares de investidores corriam para comprar ações.

Pouco importava quanto a empresa faturava.

O importante era entrar antes que o preço subisse.

Em muitos casos...

Subia mesmo.

Ações dobravam.

Triplicavam.

Quadruplicavam em poucos dias.

Isso criava uma sensação extremamente perigosa.

Parecia impossível perder dinheiro.


O Ciclo da Euforia

Toda bolha financeira costuma seguir um padrão bastante semelhante.

Primeiro surgem empresas inovadoras.

Depois aparecem investidores pioneiros.

Esses investidores obtêm grandes retornos.

Os jornais começam a divulgar essas histórias.

Novos investidores chegam.

Os preços aumentam ainda mais.

Mais reportagens são publicadas.

Mais pessoas entram.

Forma-se um ciclo de retroalimentação.

O próprio aumento dos preços passa a ser utilizado como prova de que os preços continuarão aumentando.

É um fenômeno psicológico conhecido como feedback positivo.

Quanto mais sobe...

Mais pessoas acreditam que continuará subindo.


O Medo de Ficar de Fora

Existe um sentimento extremamente poderoso nos mercados financeiros.

O medo de perder uma oportunidade.

Hoje chamamos isso de FOMO (Fear of Missing Out).

Imagine dois colegas de trabalho.

Um deles comprou ações de uma startup.

Em poucos meses dobrou seu patrimônio.

O outro não investiu.

Quem provavelmente começará a sentir ansiedade?

Exatamente.

O segundo.

Esse mecanismo psicológico faz com que investidores deixem de analisar racionalmente os riscos.

Eles passam a comprar apenas porque todos estão comprando.

A lógica desaparece.

A emoção assume o controle.


O Efeito Manada

Na psicologia existe um conceito chamado comportamento de manada.

É a tendência natural de seguir o grupo.

Durante milhares de anos essa característica ajudou nossa espécie a sobreviver.

Se todos corriam...

Provavelmente havia um predador.

Na bolsa de valores esse mesmo mecanismo pode se tornar perigoso.

Se todos estão comprando...

Talvez ninguém esteja pensando.

A bolha das Dot-Com foi um dos maiores exemplos desse comportamento.

Investidores compravam ações porque outros investidores estavam comprando.

Não porque compreendiam profundamente o negócio.


O Viés da Confirmação

Outro fenômeno psicológico apareceu com força.

As pessoas passaram a procurar apenas informações que confirmassem aquilo em que já acreditavam.

Quando uma empresa anunciava crescimento de usuários...

Todos comemoravam.

Quando anunciava prejuízo...

Diziam que isso era normal.

Quando outra startup quebrava...

Afirmavam que era um caso isolado.

Poucos percebiam que dezenas de empresas apresentavam exatamente os mesmos problemas.

Esse fenômeno é chamado de viés de confirmação.

Selecionamos apenas as evidências que reforçam nossas convicções.

Ignoramos o restante.


"Desta Vez é Diferente"

Talvez nenhuma frase seja tão perigosa na história da economia quanto esta:

"Desta vez é diferente."

Ela apareceu na Tulipomania.

Na Railway Mania.

Na bolha imobiliária japonesa.

Na crise das hipotecas de 2008.

E também na bolha da Internet.

Sempre existe alguém afirmando que as regras antigas deixaram de valer.

Que a tecnologia mudou tudo.

Que agora o crescimento será infinito.

Infelizmente...

As leis da matemática continuam exatamente as mesmas.


Enquanto Isso... Dentro de um CPD

Agora imagine um gerente de operações de um grande banco em 1999.

Enquanto Wall Street discutia bilhões em startups, ele precisava responder perguntas muito diferentes.

O backup terminou?

O batch fechou?

A janela noturna foi cumprida?

Os arquivos VSAM ficaram íntegros?

O CICS permaneceu disponível?

O Db2 completou o REORG?

A folha de pagamento será processada amanhã?

Perceba a diferença.

Lá fora...

O mercado discutia expectativas.

Aqui dentro...

O assunto era execução.

Não havia espaço para euforia.

Nem para modismos.

Apenas para resultados concretos.


O NASDAQ Parecia uma Nave em Velocidade de Dobra

Entre 1995 e o início de 2000, o índice NASDAQ tornou-se o principal símbolo do entusiasmo tecnológico.

Empresas de tecnologia valorizavam-se de maneira impressionante.

Cada novo recorde reforçava a ideia de que a Internet havia criado uma riqueza infinita.

Analistas utilizavam gráficos para provar que o crescimento continuaria.

Investidores acreditavam.

Jornalistas repercutiam.

Políticos comemoravam.

Empresários expandiam seus negócios.

Poucos percebiam que boa parte desse crescimento estava sendo sustentada pela própria expectativa de crescimento.

Era uma espécie de motor alimentado pela própria confiança.

Enquanto a confiança existisse...

Tudo funcionava.


O Dia em que a Realidade Bateu à Porta

Existe uma característica curiosa das bolhas financeiras.

Elas não estouram quando todos percebem os problemas.

Elas estouram quando um número suficiente de pessoas começa a fazer perguntas simples.

Como:

Quanto essa empresa realmente fatura?

Ela consegue sobreviver sem novos investidores?

Quando começará a gerar lucro?

Qual seu fluxo de caixa?

Essas perguntas demoraram anos para aparecer.

Mas, quando surgiram...

Mudaram completamente o humor do mercado.

A euforia começou a desaparecer.

E a confiança, que sustentava boa parte da valorização, começou lentamente a evaporar.


O Paralelo com a Inteligência Artificial

Hoje, em 2026, vemos novamente uma enorme onda de entusiasmo em torno da IA.

Modelos generativos impressionam.

Agentes inteligentes prometem transformar empresas.

Investimentos bilionários são anunciados.

Tudo isso é real.

Mas o Padawan COBOL precisa fazer as mesmas perguntas que faltaram durante a bolha da Internet.

Qual problema está sendo resolvido?

Existe um modelo de negócios sustentável?

Quem paga por essa solução?

Ela continuará existindo daqui a dez anos?

Essas perguntas não diminuem a inovação.

Pelo contrário.

Elas ajudam a separar tecnologias duradouras de simples modismos.


Lições para o Padawan COBOL

Existe uma frase muito conhecida entre engenheiros de software:

"O computador executa exatamente aquilo que você programou, não aquilo que você imaginou."

Os mercados financeiros funcionam de maneira semelhante.

Eles podem ignorar a realidade durante algum tempo.

Mas não para sempre.

No final, resultados concretos acabam prevalecendo sobre expectativas.

É exatamente por isso que sistemas corporativos continuam valorizando conceitos como:

  • confiabilidade;

  • auditoria;

  • rastreabilidade;

  • disponibilidade;

  • consistência;

  • governança.

Esses princípios nunca saem de moda.

No universo da Frota Estelar, um capitão experiente não toma decisões olhando apenas para a beleza do mapa estelar. Ele consulta sensores, verifica o combustível, analisa a integridade estrutural da nave e calcula cuidadosamente os riscos antes de entrar em velocidade de dobra. Durante a bolha das Dot-Com, porém, muitos investidores olharam apenas para as estrelas e esqueceram de verificar se a nave realmente possuía motores capazes de chegar ao destino.

E foi exatamente aí que começou o princípio do fim.

No próximo capítulo veremos o momento em que a realidade finalmente venceu a euforia. Bastou uma simples mudança de humor entre investidores para que bilhões de dólares desaparecessem em questão de meses, dando início ao maior colapso tecnológico que o mercado já havia testemunhado até então.


domingo, 2 de fevereiro de 2020

DotCom: Capítulo II — A Corrida do Ouro Digital: Como Nasceu a Febre das Empresas ".com"

  

Bellacosa Mainframe e o estouro da bolha dotcom capitulo II

Capítulo II — A Corrida do Ouro Digital: Como Nasceu a Febre das Empresas ".com"

Quando Wall Street descobriu a Internet e acreditou que o lucro havia se tornado opcional

"Na história da humanidade, toda grande corrida do ouro começa com uma descoberta legítima. O problema começa quando as pessoas passam a vender pás em vez de procurar ouro."

Se no capítulo anterior vimos como a Internet saiu dos laboratórios e começou a conquistar o mundo, agora chegamos ao momento em que a tecnologia deixou de ser apenas uma ferramenta e passou a ser encarada como a promessa de uma nova civilização econômica.

Foi nesse instante que nasceu a famosa Era das Dot-Com.

Para um Padawan COBOL, esse é um dos capítulos mais importantes da história da computação, porque mostra como uma tecnologia revolucionária pode ser confundida com uma oportunidade de enriquecimento fácil. A Internet realmente mudaria o planeta. O erro foi acreditar que qualquer empresa ligada a ela se transformaria automaticamente em um império.

A tecnologia estava certa.

A lógica financeira, não.


O Significado de ".com"

Hoje digitamos endereços como algo absolutamente natural.

bellacosamainframe.com

ibm.com

openai.com

amazon.com

Mas poucos lembram que, na década de 1990, possuir um domínio ".com" era quase um símbolo de status.

O ".com" era originalmente apenas um domínio de primeiro nível destinado a empresas comerciais.

Nada mais.

Entretanto, o imaginário popular transformou essas quatro letras em sinônimo de modernidade, inovação e riqueza.

Era como se existissem dois mundos.

O mundo antigo.

E o mundo ".com".

Se uma empresa acrescentasse ".com" ao seu nome, muitos investidores imediatamente acreditavam que ela fazia parte da nova economia.

Hoje parece absurdo.

Na época, parecia inevitável.


A Internet Virou um Sonho Coletivo

O final dos anos 1990 foi marcado por um sentimento raro na história.

O mundo inteiro parecia acreditar que estava vivendo o nascimento de uma nova Revolução Industrial.

Todos os dias surgiam manchetes anunciando:

  • "A Internet vai acabar com as lojas físicas."

  • "Os bancos tradicionais desaparecerão."

  • "Os jornais impressos morrerão."

  • "Nunca mais será necessário sair de casa para fazer compras."

  • "O comércio eletrônico dominará o planeta."

Curiosamente...

Quase todas essas previsões acabaram se tornando verdadeiras.

O problema foi o prazo.

Os investidores imaginavam que isso aconteceria em dois ou três anos.

Na realidade, muitas dessas transformações levaram vinte ou trinta anos para amadurecer.

A tecnologia estava apenas adiantada em relação ao comportamento da sociedade.


O Surgimento da "Nova Economia"

Naquele período começou a surgir uma expressão extremamente popular:

The New Economy.

Segundo muitos economistas da época, as regras tradicionais deixariam de existir.

Lucro?

Não importava.

Fluxo de caixa?

Ultrapassado.

Patrimônio?

Irrelevante.

O importante era conquistar usuários.

Essa ideia parecia revolucionária.

E, em parte, realmente era.

Empresas digitais podiam crescer muito mais rapidamente do que empresas tradicionais.

Uma loja física precisava construir filiais.

Uma empresa na Internet precisava apenas de mais servidores.

Era uma mudança gigantesca na forma de escalar um negócio.

Mas alguém começou a confundir crescimento com sustentabilidade.

E foi aí que a história começou a tomar um rumo perigoso.


Wall Street Descobre a Internet

Até então, o mercado financeiro sempre havia analisado empresas utilizando critérios relativamente objetivos.

Receita.

Lucro.

Margem.

Patrimônio.

Endividamento.

Capacidade de geração de caixa.

Com as empresas de Internet surgiu um novo raciocínio.

"Elas ainda não dão lucro porque estão crescendo."

Inicialmente fazia sentido.

Afinal, muitas empresas realmente sacrificam lucro nos primeiros anos para ganhar mercado.

O problema foi quando isso deixou de ser uma fase e passou a ser um modelo de negócios.

Algumas companhias queimavam milhões de dólares por mês sem qualquer perspectiva concreta de rentabilidade.

Mesmo assim...

Recebiam novos investimentos.

Era como abastecer um carro sem motor.


O Primeiro IPO Virou um Espetáculo

Outro fator alimentou a euforia.

Os IPOs.

Initial Public Offering, ou Oferta Pública Inicial.

Empresas extremamente jovens chegavam à bolsa de valores e suas ações dobravam ou triplicavam de preço no primeiro dia de negociação.

Imagine abrir uma empresa hoje e, poucos anos depois, vê-la valer bilhões apenas porque investidores acreditam no seu potencial.

Foi exatamente isso que aconteceu.

Cada IPO bem-sucedido atraía novos investidores.

Cada novo investidor aumentava ainda mais os preços.

E o ciclo se retroalimentava.

Nascia um dos ingredientes clássicos de toda bolha especulativa.


Venture Capital: O Combustível da Explosão

Ao mesmo tempo, os fundos de Venture Capital passaram a desempenhar um papel decisivo.

Sua missão era investir em empresas extremamente inovadoras, assumindo riscos elevados em troca da possibilidade de retornos extraordinários.

Esse modelo continua existindo até hoje e é extremamente importante para a inovação.

O problema não era o Venture Capital em si.

O problema era o excesso de dinheiro procurando oportunidades.

Quando existe muito capital disponível, a disciplina tende a diminuir.

Projetos que normalmente seriam rejeitados começaram a receber milhões de dólares.

Muitas vezes bastava apresentar uma ideia interessante acompanhada por uma bela apresentação em PowerPoint.

O produto ainda nem existia.


O Fascínio das Startups

Foi nessa época que começou a nascer a cultura das startups como conhecemos atualmente.

Escritórios modernos.

Mesas de sinuca.

Videogames.

Pufes coloridos.

Ambientes descontraídos.

Horários flexíveis.

Jovens empreendedores usando camiseta e tênis apresentavam projetos para investidores acostumados a ternos e gravatas.

Era uma ruptura cultural.

Empresas centenárias pareciam lentas.

As startups representavam velocidade.

Coragem.

Criatividade.

Disrupção.

A palavra "disruptivo" virou praticamente um mantra.

Poucos paravam para perguntar:

"Como exatamente essa empresa pretende ganhar dinheiro?"


A Mídia Também Entrou na Festa

Revistas especializadas publicavam diariamente histórias de jovens milionários.

Empreendedores de vinte e poucos anos tornavam-se celebridades.

A imprensa tratava fundadores de startups quase como astros do rock.

As capas anunciavam:

"A empresa do futuro."

"O próximo bilionário."

"A nova Microsoft."

Criava-se um ambiente psicológico muito perigoso.

Quem não investisse em Internet parecia estar ficando para trás.

Esse fenômeno possui um nome bastante conhecido atualmente:

FOMO — Fear of Missing Out, o medo de perder uma oportunidade única.

É exatamente esse sentimento que costuma alimentar as grandes bolhas financeiras.


Quando o Marketing Passou a Valer Mais que o Produto

Durante a febre das Dot-Com ocorreu algo curioso.

Algumas empresas gastavam mais dinheiro anunciando seus serviços do que desenvolvendo seus próprios produtos.

Campanhas publicitárias milionárias apareciam na televisão.

Outdoor.

Revistas.

Eventos.

Patrocínios.

Enquanto isso...

Os sistemas internos ainda apresentavam falhas.

Os processos logísticos não funcionavam.

O atendimento era precário.

Era como pintar uma nave espacial antes mesmo de instalar os motores.

Bonita por fora.

Incapaz de completar a missão.


Pets.com: O Símbolo do Exagero

Nenhuma empresa representa melhor aquele período do que a Pets.com.

Sua proposta parecia excelente.

Vender produtos para animais de estimação pela Internet.

Hoje isso parece absolutamente comum.

Na época também parecia uma ótima ideia.

O problema não era a ideia.

Era a matemática.

Transportar sacos de ração pesados para clientes espalhados pelo país custava muito mais do que a empresa conseguia cobrar.

Mesmo assim, a Pets.com gastou milhões em publicidade, criou um mascote famoso e abriu capital na bolsa.

Menos de um ano depois do IPO, encerrou suas atividades.

Seu fantoche de cachorro tornou-se um dos símbolos mais conhecidos da bolha da Internet.

A ideia sobreviveu.

A empresa, não.


Nem Todas Eram Fraudes

É importante desfazer um mito.

A maioria das empresas Dot-Com não nasceu para enganar investidores.

Pelo contrário.

Muitas possuíam profissionais brilhantes.

Ideias genuinamente inovadoras.

Tecnologia avançada.

O problema era outro.

Elas chegaram cedo demais.

O mercado ainda não estava preparado.

A infraestrutura de Internet era limitada.

Os meios de pagamento online eram pouco confiáveis.

A logística ainda era cara.

O consumidor ainda desconfiava das compras virtuais.

Ou seja...

A visão estava correta.

O momento histórico, não.


Enquanto Isso... Nos Bastidores dos Mainframes

Enquanto jornais anunciavam diariamente a "Nova Economia", os computadores centrais continuavam executando silenciosamente suas rotinas.

Os bancos processavam bilhões em transferências.

As bolsas de valores liquidavam operações.

As seguradoras calculavam riscos.

Os governos arrecadavam impostos.

Curiosamente, muitas startups utilizavam justamente esses sistemas tradicionais para realizar pagamentos, processar cartões de crédito e registrar transações financeiras.

A fachada era moderna.

A infraestrutura continuava clássica.

Essa é uma das grandes ironias da história da computação.

A revolução digital avançava apoiada em tecnologias que muitos diziam estar ultrapassadas.


O Erro que Ninguém Percebeu

A Internet realmente mudaria o mundo.

Esse diagnóstico estava absolutamente correto.

O erro foi imaginar que crescimento infinito poderia substituir fundamentos econômicos.

Receita ainda importava.

Lucro continuava importante.

Fluxo de caixa permanecia essencial.

Clientes precisavam pagar contas.

Funcionários precisavam receber salários.

Empresas precisavam sobreviver até que o futuro chegasse.

E foi justamente aí que muitas fracassaram.

Elas apostaram que o amanhã chegaria antes que o dinheiro acabasse.


Lições para o Padawan COBOL

Para um desenvolvedor de sistemas, existe uma lição valiosa escondida na febre das Dot-Com.

Uma boa ideia é apenas o início da jornada.

Entre uma apresentação inspiradora e um sistema funcionando em produção existe um oceano de desafios:

  • arquitetura;

  • infraestrutura;

  • segurança;

  • escalabilidade;

  • manutenção;

  • suporte;

  • integração;

  • continuidade do negócio.

É exatamente por isso que profissionais de mainframe costumam enxergar a tecnologia de maneira diferente.

Eles sabem que um sistema não é medido apenas pelo entusiasmo que desperta no lançamento, mas pela capacidade de continuar operando com segurança cinco, dez ou vinte anos depois.

No universo da Frota Estelar, qualquer engenheiro consegue desenhar uma nave impressionante no holodeck. O verdadeiro desafio é construir uma nave capaz de atravessar uma tempestade de plasma, cumprir a missão e retornar com toda a tripulação em segurança.

No próximo capítulo veremos como essa corrida desenfreada por crescimento criou uma cultura conhecida como "queimar caixa" (Burn Rate), onde gastar milhões de dólares deixou de ser um problema e passou a ser considerado uma estratégia de negócios. Foi nesse momento que a bolha começou, silenciosamente, a preparar sua própria explosão.