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segunda-feira, 8 de agosto de 2016

🚀 1986 — O GAROTO QUE CONTINUOU OLHANDO PARA O CÉU

 


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🚀 1986 — O GAROTO QUE CONTINUOU OLHANDO PARA O CÉU

Challenger, Halley, Star Trek, Star Wars, Parque Sabará e o dia em que um garoto de 12 anos descobriu que até a NASA podia falhar

Taubaté, 1986. Parque Sabará.

Eu tinha 12 anos.

Ainda não sabia o que era Root Cause Analysis. Não conhecia análise de riscos, engenharia de segurança, tolerância a falhas, redundância, telemetria ou cultura organizacional.

Muito menos imaginava que passaria boa parte da vida trabalhando com computadores, sistemas críticos, auditoria, segurança e incidentes.

Naquele momento eu era apenas um garoto olhando para uma televisão.

E queria ir para o espaço.


Naquele ano o céu parecia estar em toda parte. Havia Star Trek, Star Wars, astronomia e a passagem do cometa Halley. Eu subia no telhado de casa e ficava olhando na direção que o jornal dizia que deveria aparecer.

Não tinha telescópio.

Não tinha luneta.

Não tinha binóculo.

Tinha dois olhos, um jornal e uma quantidade praticamente infinita de curiosidade.

Olhei muitas noites.

Às vezes aparecia uma pequena luz e o coração acelerava.

— É o Halley?

Não.

Provavelmente um avião.

Nunca encontrei o cometa.

Mas continuei olhando.

E então veio a Challenger.

A televisão transformara o lançamento em um grande acontecimento. Havia os astronautas, os preparativos, a contagem regressiva e especialmente a professora Christa McAuliffe.

Para um garoto apaixonado pelo espaço aquilo era quase irresistível.

Eu estava diante da televisão, emocionado e agitado.



A contagem começou.

Dez.

Nove.

Oito...



Aquilo não era ficção científica.

Não era Star Trek.

Não era Star Wars.

Seres humanos estavam realmente indo para o espaço.

Os motores foram acionados.

A Challenger deixou a plataforma.

Subiu.

E então aconteceu.

No céu apareceu aquela forma que minha memória infantil guardaria durante quarenta anos como um estranho caracol de fumaça.

Eu não entendia.

Como aquilo poderia ter acontecido?

A NASA não podia simplesmente falhar.

Ou podia?

Vieram tristeza, lágrimas e uma sensação terrível de impotência.

Eu queria uma explicação.

Comecei a inventar hipóteses. Pensava em defeitos, erros e até teorias conspiratórias.

Alguma coisa precisava explicar aquilo.

No dia seguinte, a Challenger estava na escola.

Estava na rua.

Estava nas conversas entre as crianças.

— Você viu?

— Onde você estava?

— O que estava fazendo?

— Você viu explodir?

— Sabe o que aconteceu?

Era 1986.

Não existia WhatsApp.

Não existia Facebook.

Não existia X.

Não existia YouTube.

Não existia Google.

Não havia um smartphone vibrando no bolso a cada nova informação.

Nosso feed era o recreio.

A rede social era a calçada.

As notificações chegavam pela voz de alguém:

— Você ficou sabendo?

E durante dias o assunto parecia não terminar.

Televisão.

Jornais.

Revistas.

Pais conversando.

Crianças repetindo o que tinham ouvido dos adultos.

Cada pessoa carregava um pequeno fragmento da história.

E todos tentávamos montar o quebra-cabeça.

Mas uma pergunta ficou comigo:

Como isso pôde acontecer?

Talvez eu não soubesse ainda, mas acabara de conhecer uma das perguntas que me acompanhariam pelo resto da vida.

Quando um sistema falha, o que aconteceu alguns segundos, minutos, horas, dias ou meses antes da falha?

Onde estava o primeiro sinal?

Quem o viu?

Quem não viu?

Quem entendeu?

Quem não entendeu?

O que parecia pequeno demais para interromper uma operação gigantesca?

Eu levaria décadas para aprender os nomes dessas coisas.

Naquele dia eram apenas perguntas de um garoto.

Quarenta anos depois, percebo algo curioso.

A Challenger me mostrou que até a NASA podia falhar.

O Halley me ensinou que podemos procurar alguma coisa durante noites e não encontrá-la.

Star Trek dizia que talvez algum dia chegássemos às estrelas.

Star Wars dizia que o espaço poderia ser uma aventura.

E eu?

Eu continuava olhando para cima.

Talvez essa seja a parte da história que mais gosto.

A Challenger não matou meu sonho de conhecer o espaço.

Mostrou o preço dele.

Mostrou que atrás de cada foguete existem máquinas, computadores, materiais, procedimentos e, principalmente, seres humanos.

Seres humanos extraordinários.

Mas humanos.

Décadas depois eu trabalharia justamente com sistemas nos quais pequenas decisões podem produzir consequências enormes.

Aprenderia sobre incidentes.

Segurança.

Auditoria.

Evidências.

Riscos.

Falhas.

Controles.

Aprenderia que sistemas gigantescos também possuem pontos frágeis.

Mas em janeiro de 1986 eu não sabia nada disso.

Eu só sabia que sete pessoas tinham partido tentando fazer algo extraordinário.

E chorei por pessoas que nunca conheci, de outro país, falando outro idioma e a milhares de quilômetros daquele garoto em Taubaté.

Talvez seja justamente isso que permaneceu por quarenta anos.

Não foi apenas a explosão.

Foi descobrir simultaneamente duas verdades enormes:

podemos construir máquinas capazes de alcançar o espaço.

E:

podemos falhar tentando chegar lá.

Ainda assim, na noite seguinte, havia estrelas.

E algum tempo depois lá estava novamente aquele garoto no telhado procurando o Halley.

Nunca encontrou.

Não importa.

Porque quarenta anos depois percebo que talvez estivesse procurando outra coisa.

O futuro.

E continuo procurando.


Em memória da tripulação da Challenger — Francis R. Scobee, Michael J. Smith, Ronald McNair, Ellison Onizuka, Judith Resnik, Gregory Jarvis e Christa McAuliffe.

28 de janeiro de 1986.

Há incidentes que entram para os livros de engenharia.

Outros entram para a História.

Alguns entram na memória de um garoto e nunca mais saem.

03:17 — LOG PRESERVADO.

Vagner Renato Bellacosa, IBM Champion e especialista em IBM Mainframe
IBM Z17 SYSTEM ONLINE
Sobre o autor

Vagner Renato Bellacosa

IBM Champion 2026 • Especialista em IBM Mainframe

Vagner Renato Bellacosa trabalha com IBM Mainframe desde 1988 , é IBM Champion e especialista em COBOL, CICS, Db2, z/OS e IBM Z. Compartilha experiências profissionais, conhecimento técnico, história da computação e práticas do universo mainframe para aproximar novas gerações das tecnologias que sustentam empresas, bancos e governos ao redor do mundo.

IBM Champion IBM Z COBOL CICS Db2 z/OS Mainframe desde 1988
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