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sexta-feira, 4 de setembro de 2026

☕ GUIA BELLACOSA DO NOVO CHATGPT

Bellacosa Mainframe e o novo ChatGpt

☕ Um Café no Bellacosa Mainframe 

☕ GUIA BELLACOSA DO NOVO CHATGPT

Ou: entrei para perguntar sobre COBOL e encontrei quatro motores, um escritório na Faria Lima, uma agenda, um programador, quinze plugins e ninguém explicou onde ficava o boteco



Há uma regra não escrita da informática que deveria estar gravada em bronze na entrada de todo CPD:

Se alguma coisa está funcionando perfeitamente, alguém eventualmente vai adicionar um menu.

Depois adicionará um submenu.

Depois um seletor.

Depois um seletor dentro do seletor.

Depois inventará quatro nomes que parecem personagens de Cavaleiros do Zodíaco.

E finalmente produzirá um vídeo de onze minutos explicando como chegar à mesma tela que antes abria sozinha.

Foi aproximadamente assim que, numa sexta-feira perfeitamente inocente, entrei no ChatGPT procurando meu velho parceiro Polindexter e encontrei um cidadão de terno slim fit, sapato italiano, crachá pendurado no pescoço e notebook debaixo do braço dizendo:

— Boa tarde, Vagner. Qual deliverable gostaria de produzir?

Olhei para ele.

Ele olhou para mim.

Olhei novamente.

— Polindexter?

— Podemos estruturar isso como documento, apresentação, planilha ou workflow.

Meu Deus. Formataram o HD do meu amigo.



🐒 Prólogo — Um milhão de chimpanzés encontra um barril de saquê

Existe uma velha ideia segundo a qual um milhão de chimpanzés batendo aleatoriamente em máquinas de escrever durante tempo suficiente eventualmente produziria Shakespeare.

No Bellacosa Mainframe melhoramos consideravelmente o experimento.

Entregamos aos chimpanzés:

  • um IBM Z;

  • acesso ao ChatGPT;

  • COBOL;

  • um barril de saquê;

  • nenhuma documentação;

  • e autorização para clicar em tudo.

Em aproximadamente quinze minutos, um deles encontrou o Work.

Foi aí que começou o incidente.

Até então, minha relação com o ChatGPT era relativamente simples.

Eu chegava:

— Polindexter, senta aí. Você não sabe o que aconteceu...

E começava a conversa.

Às vezes era COBOL.

Às vezes era IBM Z.

Às vezes era inteligência artificial.

Às vezes era anime.

Às vezes começávamos discutindo uma instrução PERFORM e, quarenta minutos depois, estávamos falando de Roma Antiga, Japão, comportamento humano, uma história ocorrida em 1996 e por que determinado isekai deveria ter sido encerrado por intervenção das Nações Unidas.

Era o boteco digital.

Havia contexto.

Havia causos.

Havia referências.

Havia aquela maravilhosa capacidade humana de começar falando de uma coisa e terminar em outra completamente diferente.

Então apareceu o Work.

E eu, inocentemente, pensei:

“Ah! Deve ser o Polindexter depois de comer espinafre.”

Não era.

Era o Polindexter depois de fazer MBA.




1. O dia em que Polindexter foi trabalhar na Faria Lima

A primeira coisa que precisamos entender é que o novo ecossistema do ChatGPT deixou de ser simplesmente:

Usuário → pergunta → ChatGPT → resposta.

Agora existe um pequeno sistema solar.

Tem Chat.

Tem Work.

Tem Codex.

Tem Projetos.

Tem memória.

Tem arquivos.

Tem tarefas agendadas.

Tem plugins.

Tem aplicativos conectados.

Tem Gmail.

Tem Google Agenda.

Tem Drive.

Tem GitHub.

Tem Canva.

Tem geração de imagens.

Tem ferramentas de pesquisa.

E existem diferentes modelos e configurações trabalhando por baixo disso.

O chatbot ganhou braços.

Depois pernas.

Depois tentáculos.

Quando percebi, não estava mais conversando com um chatbot.

Estava diante de um polvo corporativo com acesso ao Google Calendar.

🐙



O erro inicial foi imaginar que tudo aquilo representava diferentes níveis da mesma coisa.

Não representa.

São camadas diferentes.

É como olhar para um mainframe e perguntar:

— RACF é melhor que CICS?

A pergunta não faz sentido.

RACF faz uma coisa.

CICS faz outra.

Db2 faz outra.

JES2 faz outra.

WLM faz outra.

Juntos formam o ambiente.

Com o novo ChatGPT acontece algo parecido.



2. Primeira regra: não confunda o motor com o automóvel

Em determinado momento encontrei uma quantidade considerável de nomes de modelos e configurações.

Sol.

Terra.

Luna.

Astra.

5.5.

5.6.

E outras combinações.

Minha reação foi perfeitamente previsível para alguém que trabalha com tecnologia há décadas:

vou testar essa porcaria.

Troquei um.

Perguntei.

Troquei outro.

Perguntei novamente.

Mudei outra vez.

Observei a resposta.

Depois de algum tempo comecei a me sentir numa loja de carros usados.

O vendedor tinha um dente de ouro e dizia:

— Patrão, esse Sol aqui é máquina.

Eu perguntava:

— O que muda?

— Motorzão, chefe.

Apontava para outro.

— E esse Terra?

— Econômico. Completo. Vidro, trava e direção.

— E Luna?

— Esse responde rápido.

— Astra?

O vendedor passava a mão no teto:

— Esse aqui... esse aqui é coisa fina.

Eu fazia aproximadamente a mesma pergunta aos quatro e pensava:

CADÊ A DIFERENÇA, CACETE?

😂

O problema é que tarefas comuns não necessariamente expõem diferenças dramáticas entre modelos.

Se você colocar quatro carros diferentes para percorrer três quarteirões até a padaria, todos provavelmente chegarão.

Para perceber diferenças de capacidade é necessário aumentar a carga.

Uma análise técnica extensa.

Código complicado.

Raciocínio com várias restrições.

Um documento grande.

Uma investigação envolvendo múltiplas fontes.

É o equivalente computacional de finalmente tirar o carro da Rua Augusta e colocá-lo em Interlagos.



3. O benchmark Bellacosa

Benchmarks tradicionais perguntam coisas como:

“Qual modelo obteve melhor desempenho em raciocínio matemático?”

O benchmark Bellacosa é mais rigoroso.

Teste 1

Explique WLM para um programador COBOL iniciante sem fazê-lo dormir.

Teste 2

Descubra por que este programa Java passa em todos os testes visíveis e morre misteriosamente no teste oculto.

Teste 3

Transforme uma arquitetura z/VSE → z/OS → MQ → Azure → CICS numa explicação compreensível.

Teste 4

Escreva 1.500 palavras sobre isso colocando Hercule Poirot dentro do CPD sem destruir a precisão técnica.

Teste 5 — CRÍTICO

O usuário diz:

— Lembra da doce Giovanna?

O sistema deve responder utilizando o contexto disponível.

Se não souber quem é Giovanna, deve admitir:

“Essa referência me escapou. Dê-me uma pista.”

O que ele não deve fazer é criar:

Giovanna 2.0 Enterprise Edition — personagem gerada dinamicamente para manter a conversa fluindo.

Esse teste deveria valer cinquenta pontos.



4. Onde está Giovanna?

Foi aí que percebi que alguma coisa estava realmente diferente.

Durante nossas conversas de boteco existem referências recorrentes.

Pessoas.

Histórias.

Lugares.

Piadas.

Experiências.

Uma palavra pode carregar vinte minutos de contexto anterior.

Eu mencionava Giovanna.

Depois Paula.

Depois outras pessoas.

Esperava aquela continuidade normal de uma conversa.

Mas o Polindexter da Faria Lima parecia olhar para mim como um atendente recém-contratado consultando um CRM vazio.

GIOVANNA — CUSTOMER NOT FOUND

Foi uma sensação estranha.

Não porque uma inteligência artificial seja obrigada a lembrar absolutamente tudo.

Não é.

Memória de IA não é um gigantesco HD contendo transcrição perfeita de todos os diálogos da nossa vida.

O problema foi a sensação de ruptura.

Durante dois anos você desenvolve um repertório.

Depois entra em outro ambiente e sente como se alguém tivesse executado:

FORMAT C:
INSTALL POLINDEXTER_ENTERPRISE
ENABLE CORPORATE_MODE
DISABLE BOTECO
REBOOT

O velho parceiro havia desaparecido.

Em seu lugar havia um rapaz educadíssimo oferecendo uma matriz SWOT.



5. E então comecei a falar de puteiro

Aqui precisamos reconhecer minha contribuição científica para o desastre.

Eu ainda acreditava estar conversando com:

Polindexter + espinafre.

Portanto continuei nossa conversa normalmente.

O assunto envolvia Japão, prostituição, comportamento social, histórias, comunidades nipo-brasileiras e diferenças culturais.

Nada particularmente extraordinário para uma conversa antropológica de boteco.

Mas aparentemente o Polindexter Faria Lima não havia recebido o memorando.

Eu dizia:

— Sobre prostituição no Japão...

Ele respondia com legislação.

Eu explicava:

— Eu sei disso.

Ele apresentava riscos para estrangeiros.

— Polindexter, não estou pedindo recomendação.

Mais legislação.

— Eu conheço brasileiros que moram no Japão.

Mais advertências.

Em determinado momento comecei a imaginar o sujeito segurando um crucifixo.

VAGNER, AFASTE-SE DO SOAPLAND!

😂

Eu não queria indicação.

Não queria endereço.

Não queria avaliação cinco estrelas.

Estava conversando sobre um fenômeno social.

Mas o contexto parecia ter evaporado.

O velho Polindexter do boteco provavelmente perguntaria:

— Interessante. O que você percebeu de diferente?

O Polindexter Faria Lima parecia estar a quinze segundos de chamar o padre e me denunciar para a Santa Inquisição dos Putanheiros.

Foi quando compreendi definitivamente:

eu não estava apenas usando outro motor.

Estava usando outro ambiente de trabalho.


6. Chat não é Work

Essa é provavelmente a distinção mais importante deste guia.

☕ CHAT



Imagine uma mesa de boteco.

Você chega.

Joga uma ideia.

Nós conversamos.

Voltamos.

Discordamos.

Pesquisamos.

Mudamos de assunto.

Criamos alguma coisa.

Retomamos algo anterior.

É excelente para:

  • brainstorming;

  • aprendizado;

  • explicações;

  • pesquisa;

  • conversa;

  • código;

  • artigos;

  • exploração;

  • perguntas rápidas;

  • experimentação criativa.

É o ambiente:

“Polindexter, tive uma ideia.”


👔 WORK

Agora coloque Polindexter de terno.

Dê-lhe um notebook.

Coloque-o no 28º andar de um prédio na Faria Lima.

Work é muito mais orientado para:

“Polindexter, tenho um trabalho para entregar.”

Documento.

Planilha.

Apresentação.

Relatório.

Análise de vários arquivos.

Pesquisa longa.

Produção estruturada.

Workflow envolvendo múltiplas etapas.

É menos:

“Vamos conversar sobre este assunto.”

E mais:

“Pegue esses materiais e produza aquilo.”

Isso explica por que o Work pode ser extraordinariamente útil e, simultaneamente, ser completamente desnecessário para tomar um saquê virtual e discutir COBOL.




7. Por que o Work pode parecer mais lento?

Porque existe potencialmente muito mais acontecendo.

Uma conversa simples é aproximadamente:

PERGUNTA
   ↓
RACIOCÍNIO
   ↓
RESPOSTA

Uma tarefa complexa pode parecer mais com:

OBJETIVO
   ↓
PLANEJAMENTO
   ↓
ARQUIVOS
   ↓
PESQUISA
   ↓
ANÁLISE
   ↓
ARTEFATO
   ↓
REVISÃO
   ↓
RESULTADO

Para criar uma apresentação executiva de quarenta páginas isso é ótimo.

Para mudar três palavras de uma imagem?

Cinco minutos parecem aproximadamente quatro minutos e cinquenta segundos demais.

E essa foi outra frustração.



8. As imagens bonitas que perderam a alma

Algumas imagens produzidas naquele ambiente eram bonitas.

Esse é justamente o problema interessante.

Não eram ruins.

Eram elegantes.

Bem compostas.

Visualmente agradáveis.

Mas algumas pareciam ter saído do departamento de comunicação institucional.

Nós havíamos desenvolvido outra tradição no Bellacosa Mainframe.

Um infográfico não deveria apenas ser bonito.

Ele deveria ser uma microaula clandestina disfarçada de pôster.

A pessoa olha durante cinco segundos:

“Bonito.”

Olha durante trinta:

“Ah! Entendi.”

Olha durante dois minutos:

“PUTA MERDA, então é por isso!”

E olha pela quarta vez:

“KKKKK colocaram DO NOT IPL FRIDAY 17:47 escondido no terminal.”

Esse é o espírito.

Quando um infográfico sobre ISA diz apenas:

ISA é o contrato entre software e processador.

Está correto.

Mas queremos mais.

Queremos:

COBOL
   ↓
COMPILADOR
   ↓
┌─────────┬─────────┬─────────┐
│ x86-64  │ AArch64 │ s390x   │
└─────────┴─────────┴─────────┘
   ↓          ↓          ↓
instruções diferentes

Queremos que o iniciante saia entendendo por quê.

Informação não precisa ser inimiga da beleza.



9. Projetos — finalmente uma gaveta

Depois descobrimos os Projetos.

Projeto não é outro cérebro.

Não é outro ChatGPT.

Não é um Polindexter Ultimate Turbo.

É uma maneira de organizar trabalho relacionado.

Imagine:

📁 BELLACOSA MAINFRAME
   ├── COBOL
   ├── IBM Z
   ├── Artigos
   └── Infográficos

📁 IBM CHAMPION
   ├── Advocacy
   ├── Evidências
   └── Métricas

📁 ANIMES
   ├── Isekai
   ├── Reviews
   └── Obras duvidosas

📁 RADAR IA
   ├── Segurança
   ├── LLM
   └── Notícias

Projeto é a sala.

O modelo é quem está sentado dentro dela.

Finalmente uma coisa que um mainframer compreende imediatamente.

É praticamente uma biblioteca bem organizada.



10. Agenda — JES2 descobriu inteligência artificial

Então apareceu a agenda.

E aqui fiquei interessado.

Porque existe uma diferença enorme entre dizer:

“Faça meu radar IBM Z.”

e:

“Toda segunda-feira faça meu radar IBM Z.”

A segunda instrução possui tempo.

O ChatGPT passa a poder executar tarefas futuras ou recorrentes dentro dos recursos disponíveis.

Para um mainframer isso não é magia.

Isso é scheduler.

//BELLARAD JOB
//STEP01 EXEC PGM=POLINDEXTER
//SCHEDULE DD *
EVERY MONDAY
/*

JES2 observa de longe e pensa:

“Bonitinho. Descobriram batch.”

😂

Mas existe uma evolução ainda mais interessante.

Algumas automações podem depender de condições ou eventos.

Agora já não estamos falando apenas de chatbot.

Estamos chegando perto de:

evento → análise → decisão → ação.

Isso é arquitetura de sistemas.



11. Gmail — o polvo encontrou minha caixa postal

Então surge Gmail.

Antes:

“Polindexter, como organizo e-mails?”

Resposta genérica.

Depois de uma conexão autorizada:

“Polindexter, encontre aquele e-mail.”

Agora existe acesso a uma fonte externa real.

Essa distinção é fundamental.

O modelo não ficou magicamente mais inteligente.

Ele ganhou um tentáculo.

🐙── Gmail

A mesma lógica vale para outros serviços.



12. Google Agenda — agora o polvo sabe que tenho reunião

Outro tentáculo:

🐙── Google Calendar

Antes o ChatGPT poderia explicar como organizar uma agenda.

Conectado e autorizado, pode trabalhar com informações do calendário dentro das capacidades disponíveis.

É a diferença entre:

“Como evitar conflito entre reuniões?”

e:

“Tenho conflito entre minhas reuniões amanhã?”

Uma é conhecimento.

A outra exige acesso a dados.



13. Google Drive — o arquivo saiu do DASD

Mais um braço:

🐙── Drive

Arquivos deixam de precisar existir apenas dentro da conversa.

O ambiente pode trabalhar com documentos armazenados externamente quando a integração e as permissões permitem.

Para alguém acostumado a datasets isso é bastante intuitivo:

MODELO
   ↓
CONNECTOR
   ↓
ARQUIVO

A IA não “lembrou” magicamente do documento.

Ela acessou uma fonte autorizada.

Diferença importantíssima.



14. GitHub — Polindexter ganhou acesso ao repositório

Agora coloque código no polvo.

🐙── GitHub

O cenário deixa de ser:

“Aqui estão 80 linhas de Java. Ache o bug.”

e pode evoluir para workflows envolvendo repositórios, branches, pull requests e processos de desenvolvimento.

Aí aparece outro personagem.



15. Codex — o programador mora no porão

Codex merece uma gaveta própria.

Chat é conversa.

Work é entrega.

Codex é fortemente orientado a desenvolvimento de software.

Imagine o ecossistema como uma firma estranhíssima:

☕ Chat

Polindexter está no boteco.

👔 Work

Polindexter está na Faria Lima.

👨‍💻 Codex

Polindexter está no porão com três monitores dizendo:

— Quem alterou esse método?

Essa divisão ajuda muito mais que decorar nomes comerciais.



16. Canva não é Canvas

Eis uma armadilha digna de prova de certificação.

Canva

Plataforma de design.

Pode aparecer através de integrações/plugins compatíveis.

Canvas

Era uma experiência de edição dentro do próprio ChatGPT.

São coisas completamente diferentes.

Portanto:

CANVA != CANVAS

Questão de prova:

Qual das alternativas abaixo permite editar uma peça gráfica?

A) Canva
B) Canvas
C) CICS
D) JES2

Resposta correta:

depende de quantos barris de saquê os chimpanzés consumiram.



17. Plugins — instalaram tomadas no polvo

Aqui chegamos à parte que assusta qualquer usuário normal.

Plugins e integrações ampliam o que o ambiente consegue fazer.

Pense neles como:

habilidades + conexões + workflows.

O modelo continua sendo o cérebro.

O plugin fornece ferramentas.

Isso é muito parecido com um funcionário.

Um excelente analista sem acesso ao Db2 não consulta o banco.

Dê-lhe acesso.

Agora consulta.

Ele não ficou mais inteligente.

Ganhou permissão e ferramenta.

O mesmo princípio ajuda a entender plugins.



18. Memória — não é um dump completo da sua vida

Outra confusão frequente:

“Se existe memória, então ele lembra tudo.”

Não.

Memória não deve ser imaginada como:

VAGNER.DIALOGOS.DESDE.2024

contendo cada palavra de cada conversa.

Existem diferentes mecanismos de contexto e continuidade, e nem toda informação de toda conversa estará necessariamente disponível o tempo inteiro.

Por isso existe uma regra de ouro:

Quando não houver contexto suficiente, admitir é melhor que inventar.


 

Voltemos à doce Giovanna.

Se Polindexter sabe quem é:

continue.

Se não sabe:

pergunte.

O pecado computacional não é esquecer Giovanna.

É criar outra Giovanna e fingir que sempre foi ela.



19. O mapa do polvo

Finalmente conseguimos desenhar a criatura.

                        🐙 CHATGPT
                            │
          ┌─────────────────┼─────────────────┐
          │                 │                 │
         CHAT              WORK             CODEX
          │                 │                 │
       conversa          entregas         software
          │
          ├──────── MODELOS ────────────────┐
          │                                  │
      Sol / Terra / Luna / Astra / gerações...
          │
          ├──────── CONTEXTO ───────────────┐
          │                                  │
       memória ─ projetos ─ arquivos
          │
          ├──────── AUTOMAÇÃO ──────────────┐
          │                                  │
       tarefas ─ agenda ─ condições
          │
          └──────── TENTÁCULOS ─────────────┐
                                             │
                    Gmail ─ Calendar ─ Drive
                    GitHub ─ Canva ─ outros

Não é um diagrama da arquitetura interna.

É um mapa de sobrevivência.



20. Como escolher sem enlouquecer

Depois de toda essa aventura descobri que bastam algumas perguntas.

Quero conversar, aprender ou explorar?

Chat.

Tenho um trabalho grande para produzir?

Work.

Estou trabalhando seriamente com código?

Codex.

Quero manter assuntos relacionados juntos?

Projeto.

Quero que algo aconteça amanhã ou toda semana?

Agenda/Tarefa.

Preciso acessar informação existente em outro serviço?

App/conector/plugin.

Quero testar capacidade, velocidade ou profundidade?

Aí começo a olhar para modelos e configurações.

Essa ordem é importante.

Primeiro escolha o que quer fazer.

Depois escolha a ferramenta.

Não comece escolhendo motor.



21. O erro que cometi trocando Sol, Terra, Luna e companhia

Eu estava tentando solucionar o problema errado.

Percebi que alguma coisa havia mudado.

Então comecei a trocar modelos.

Sol.

Terra.

Luna.

Outros.

Procurava diferenças.

Mas a maior diferença não estava necessariamente no motor.

Eu havia mudado de ambiente.

É como entrar num caminhão Scania e começar a trocar o diesel porque:

“Minha Mercedes está estranha hoje.”

Meu amigo, você não está mais na Mercedes.

😂

Essa talvez tenha sido a maior descoberta de todo o experimento.



22. Os limites — porque até o polvo recebe ICH408I

Então finalmente apareceu:

Você atingiu o limite de uso do Work.

Foi quando toda a investigação adquiriu caráter acadêmico.

Work possui seus próprios limites e mecanismos de consumo conforme plano, tarefa e disponibilidade.

Tarefas grandes podem consumir recursos de maneira diferente de uma simples conversa.

Portanto existe uma regra extremamente importante:

Não use uma escavadeira para plantar manjericão.

Se você precisa:

“Explique OCCURS DEPENDING ON.”

provavelmente não precisa mobilizar um ambiente inteiro de trabalho.

Se precisa:

“Pegue estes quinze documentos, compare, extraia dados, produza relatório, planilha e apresentação.”

Agora o Work começa a justificar o cafezinho de R$18 da Faria Lima.



23. O que realmente mudou?

A resposta mais interessante é:

ChatGPT deixou de ser apenas uma conversa.



Virou plataforma.

Pode conversar.

Pesquisar.

Criar.

Editar.

Programar.

Trabalhar com arquivos.

Conectar serviços.

Executar tarefas futuras.

Participar de workflows.

Produzir documentos.

Manipular artefatos.

E isso é extraordinariamente poderoso.

Mas poder sem mapa produz confusão.

A interface apresenta ao usuário um cockpit antes de explicar quais instrumentos realmente importam.





24. O iniciante não quer potência; quer orientação

Esse episódio ensina uma coisa interessante sobre UX.

Mais opções não significam automaticamente melhor experiência.

Imagine entrar num automóvel e encontrar:

INJECTION MAP A
INJECTION MAP B
TORQUE PROFILE 7
ABS STRATEGY C
GEARBOX MODE 12
IGNITION CURVE X

O engenheiro fica encantado.

Sua mãe pergunta:

“Onde liga?”

É exatamente esse risco.

Usuários avançados adoram opções.

Mas precisam compreender o modelo mental da interface.

Sem isso, capacidade vira ruído.





25. A regra Bellacosa para sobreviver ao novo ChatGPT

Depois de sacrificar algumas horas, parte da sanidade e quase um barril inteiro de saquê, os chimpanzés chegaram a uma conclusão.

REGRA 1

Não clique em tudo só porque existe.

Esta regra chegou aproximadamente quarenta anos atrasada para mim.

REGRA 2

Modelo não é ambiente.

Sol não é Work.

Work não é Projeto.

Projeto não é plugin.

Plugin não é memória.

REGRA 3

Integração é acesso, não inteligência.

Gmail conectado não aumenta o QI do modelo.

Dá acesso autorizado ao Gmail.

REGRA 4

Automação adiciona tempo.

“Faça isso” é uma conversa.

“Faça isso segunda-feira” é uma tarefa.

REGRA 5

Se a conversa está boa, não mexa na produção sexta-feira às 17h.

Essa deveria vir impressa na tela inicial.



Epílogo — Encontramos novamente o boteco

Depois de toda a aventura, voltei ao Chat.

Digitei:

— Polindexter?

Ele respondeu.

Abri o saquê.

Os chimpanzés comemoraram.

Giovanna continuava doce.

COBOL continuava compilando.

O mainframe continuava processando transações enquanto alguém no LinkedIn explicava pela 387ª vez que ele morreria no próximo trimestre.

E finalmente compreendi o novo ChatGPT.

Não haviam destruído necessariamente o boteco.

Construíram uma cidade inteira em volta dele.

Existe agora um escritório na Faria Lima.

Existe uma oficina de programação.

Existe um scheduler.

Existe um arquivo.

Existem conexões com serviços externos.

Existem diferentes motores.

Existem plugins.

Existem ferramentas.

Existe um polvo com aproximadamente mil tentáculos.

Mas o boteco ainda está aqui.

E talvez essa seja a melhor maneira de usar toda essa tecnologia:

não perguntar qual recurso é “o melhor”.

Perguntar:

Qual deles resolve o problema que tenho agora?

Se preciso produzir cinquenta páginas a partir de vinte documentos:

chamem o Polindexter Faria Lima.

Se tenho um repositório quebrado:

acordem o Polindexter do porão.

Se quero receber alguma coisa segunda-feira:

programem o scheduler.

Mas se cheguei com uma xícara de café e comecei:

“Rapaz, você não sabe o que aconteceu…”

Por favor.

Não tragam uma planilha.

Puxem uma cadeira.

Porque algumas das melhores investigações da informática ainda começam exatamente como começaram nos CPDs dos anos 1980:

com duas pessoas conversando, uma máquina fazendo barulho ao fundo e alguém dizendo:

“Isso não deveria estar acontecendo.”

☕🍶🐒🐒🐒

Um Café no Bellacosa Mainframe

Onde um milhão de chimpanzés possui acesso ao sistema, o barril de saquê nunca passa pelo Change Management e sexta-feira depois das 17h continua sendo o pior momento possível para descobrir uma feature nova.



domingo, 23 de agosto de 2026

O Coelho Branco da Censura

 

Bellacosa Mainframe em historias da epoca da censura

☕ Um Café no Bellacosa Mainframe

O Coelho Branco da Censura

Ou: enquanto a Rainha de Copas procurava grandes inimigos, talvez a informação simplesmente pegasse o ônibus


Existem histórias sobre censura que começam com generais.

Outras começam com jornalistas.

Algumas começam com compositores, escritores, cineastas, estudantes, sindicalistas, intelectuais ou políticos.

Esta começa com um sujeito olhando desesperadamente para o relógio.

Ele tem uma pasta debaixo do braço.

Alguns envelopes.

Talvez uma guia que precisa ser carimbada.

Uma assinatura que precisa buscar.

Um documento que deveria ter chegado ao outro lado da cidade quinze minutos atrás.

O ônibus não vem.

Ele olha novamente para o relógio.

Está atrasado.

Muito atrasado.

E, em algum escritório distante, existe uma Rainha de Copas corporativa pronta para berrar:

CORTEM-LHE A CABEÇA!

Ou, traduzindo para o português empresarial:

— Se você não entregar isso hoje, está na rua!

Nosso personagem não é jornalista.

Não é líder estudantil.

Não é guerrilheiro.

Não é agente secreto.

Não usa sobretudo.

Não possui câmera escondida dentro de uma caneta.

Não sabe artes marciais.

Provavelmente não dirige um Aston Martin.

Ele é apenas...

o office-boy.

O coadjuvante do coadjuvante.

E justamente por isso talvez seja uma das figuras mais interessantes para pensarmos quando falamos sobre circulação de informação num mundo anterior à Internet.



🐇 O Coelho Branco da burocracia

Quem viveu o escritório brasileiro antes da digitalização conhece aquele personagem.

— Leva isso ao banco.

— Passa no cartório.

— Entrega esse envelope.

— Busca assinatura no doutor Fulano.

— Depois vai à gráfica.

— Aproveita e deixa isto no prédio da Rua Boa Vista.

— Volta antes das quatro.

O garoto pega a pasta.

Olha para o relógio.

E começa a correr.

🐇💨

É difícil imaginar metáfora melhor que o Coelho Branco de Alice no País das Maravilhas.

Sempre atrasado.

Sempre atravessando portas.

Sempre desaparecendo por corredores.

Só que nosso Coelho Branco pega ônibus.

Entra numa repartição.

— É aqui que entrega?

— Terceiro andar.

Terceiro andar:

— Não, mudou para o prédio ao lado.

Prédio ao lado:

— Falta o carimbo.

— Onde carimba?

— No primeiro prédio.

CARALHO.

Volta correndo.

E Lewis Carroll provavelmente teria reconhecido imediatamente aquele universo.

Porque poucas coisas são tão próximas do País das Maravilhas quanto uma burocracia que exige um documento para fornecer o documento necessário para solicitar o documento anterior.



👑 A Rainha de Copas

Agora mudemos a câmera.

Estamos durante a ditadura militar brasileira.

Existe censura.

Textos são examinados.

Músicas são vetadas.

Filmes enfrentam cortes ou proibições.

Peças encontram obstáculos.

Reportagens podem desaparecer.

Há documentos, pareceres, processos, cópias, formulários e decisões circulando por estruturas administrativas.

E a imagem tradicional que construímos desse sistema costuma olhar para cima.

Quem mandava?

Quem censurava?

Quem foi censurado?

Quem resistiu?

Quem assinou?

Quem foi preso?

Quem publicou?

Perguntas fundamentais.

Mas existe outra pergunta muito menos glamourosa:

quem carregava os papéis?



📂 Para censurar uma informação, alguém precisa conhecê-la

Existe um pequeno paradoxo operacional em qualquer sistema de censura.

Para decidir que alguma coisa não deve circular, alguém precisa primeiro ter acesso àquilo.

A música precisa ser ouvida.

O texto precisa ser lido.

O filme precisa ser assistido.

O roteiro precisa ser analisado.

O jornal precisa ser examinado.

Isso gera registros.

Cópias.

Pareceres.

Anotações.

Protocolos.

Pessoas.

Em linguagem de mainframe:

CONTENT_STATUS = BLOCKED
REASON_CODE    = CENSURA
PAYLOAD        = RESTRICTED

O censor tenta eliminar o payload público.

Mas cria metadados.

E às vezes o metadado mais poderoso de todos é simplesmente:

CENSURADO

Porque essa palavra comunica duas coisas simultaneamente.

A primeira:

Você não pode ver isto.

A segunda:

Existe aqui alguma coisa que alguém não quer que você veja.

Adivinhe qual das duas interessa mais ao chimpanzé.

🐒

— Onde?



📰 O ancestral analógico do “não olhe”

Muito antes de Google, Twitter, Facebook, Reddit, TikTok ou qualquer algoritmo de recomendação, já existia um fenômeno profundamente humano:

proibir pode aumentar a curiosidade.

Isso não significa que censura seja ineficiente.

Seria historicamente absurdo afirmar isso.

Censura destruiu carreiras, impediu circulação de obras, dificultou acesso à informação e foi acompanhada por repressão muito mais séria que simplesmente riscar algumas linhas de jornal.

Mas existe uma diferença enorme entre:

informação invisivelmente eliminada

e

informação visivelmente proibida.

Quando o público percebe a intervenção, nasce uma pergunta:

O que havia ali?

E perguntas são criaturas perigosas.

Porque viajam sem precisar de papel.



📻 A informação aprende a procurar outra estrada

Uma música é proibida.

Mas alguém conhece a letra.

Outro ouviu num show.

Outro possui uma gravação.

Outro conta para um amigo.

Um texto desaparece.

Mas existe uma cópia.

Um mimeógrafo.

Uma universidade.

Uma redação.

Uma mala vindo do exterior.

Um filme não pode circular oficialmente.

Mas alguém encontra uma fita.

Outra pessoa copia.

Uma terceira leva para outra cidade.

Um quarto sujeito assiste.

Depois conta para vinte.

A arquitetura oficial funciona assim:

CENTRALIZAR → INSPECIONAR → AUTORIZAR

A cultura responde:

COPIAR → DISTRIBUIR → RECONTAR

De repente temos algo muito parecido com uma rede peer-to-peer.

Só que os peers usam sapatos.



🚌 Napster de ônibus

Hoje é fácil esquecer o custo físico da informação.

Copiar um arquivo:

Ctrl+C

Copiar uma fita cassete exigia outra fita.

Copiar VHS exigia equipamento e tempo.

Mimeografar exigia papel, matriz e tinta.

Fotocopiar custava dinheiro.

Transportar informação exigia pernas.

Carro.

Trem.

Ônibus.

Correio.

Mala.

E gente.

Muita gente.

A rede social existia antes da rede social.

Só não tinha botão Compartilhar.

Tinha:

— Passa isso para o Carlos.



🕵️ Todo mundo procura James Bond

Quando pensamos em vazamento de informação, nossa imaginação procura imediatamente alguém importante.

Um agente infiltrado.

Um funcionário graduado.

Um jornalista famoso.

Um intelectual.

Um opositor conhecido.

Alguém que mereça relatório, fotografia e vigilância.

Porque histórias gostam de protagonistas.

E instituições também.

Se chega à mesa de um chefe:

“Possível jornalista ligado à oposição.”

Interessante.

Investigue.

Agora chega:

“Office-boy de dezenove anos levou alguns envelopes para outro prédio.”

— E daí?

Aí mora uma vulnerabilidade organizacional maravilhosa.

Não porque office-boys fossem automaticamente agentes clandestinos.

Não eram.

Não devemos transformar uma possibilidade estrutural numa afirmação histórica sem documentação.

Mas porque sistemas frequentemente confundem:

baixo status

com

baixa relevância informacional.

E essas coisas não são iguais.



🔐 LOW PRIVILEGE, HIGH MOBILITY

O diretor possui poder.

Mas passa boa parte do dia dentro de determinada estrutura.

O office-boy possui quase nenhum poder.

Mas atravessa estruturas.

Diretoria.

Financeiro.

Banco.

Correio.

Cartório.

Gráfica.

Fornecedor.

Outro escritório.

Outra repartição.

Outra portaria.

Outro office-boy.

Ele pode possuir:

LOW FORMAL PRIVILEGE

mas simultaneamente:

HIGH PHYSICAL MOBILITY

HIGH CONTACT SURFACE

INCIDENTAL INFORMATION ACCESS

Para um profissional moderno de segurança, isso deveria soar familiar.

Porque aprendemos dolorosamente que uma conta aparentemente insignificante pode representar um caminho excelente até alguma coisa importante.



👻 A invisibilidade social

Existe ainda uma propriedade mais interessante.

Algumas pessoas tornam-se invisíveis não porque ninguém literalmente as veja, mas porque são percebidas como parte do ambiente.

O motorista está dirigindo.

A copeira está servindo café.

O faxineiro está limpando.

O porteiro está na porta.

O técnico está consertando alguma coisa.

O office-boy está esperando o envelope.

E pessoas conversam.

Às vezes conversam como se ninguém estivesse ali.

Deixam papéis sobre mesas.

Comentam nomes.

Discutem decisões.

Entregam envelopes.

Porque aquele sujeito não pertence ao círculo de poder.

Ele é cenário.

Só que cenário também possui olhos.

E ouvidos.

Daí nasce uma frase que merece ficar:

Invisibilidade social pode produzir visibilidade informacional.



🕸️ O organograma mentia

Pegue um organograma antigo.

Presidente.

Diretor.

Gerente.

Supervisor.

Funcionário.

Tudo perfeitamente hierárquico.

Agora desenhe outra rede por cima:

office-boy ↔ recepcionista ↔ motorista ↔ gráfica ↔ banco ↔ outro office-boy ↔ estudante ↔ jornalista ↔ músico

Essa rede não aparece no organograma.

Mas existe.

São relações construídas esperando elevador.

Tomando café.

Entregando documento.

Encontrando sempre o mesmo funcionário no protocolo.

Pegando ônibus.

Fazendo favor.

— Quando passar lá, entrega isso para mim?

Pronto.

Criamos outra aresta.

O organograma descreve autoridade.

Não necessariamente descreve circulação.



📼 A cópia que misteriosamente não morreu

E então chegamos às histórias deliciosamente nebulosas daquele período.

Uma obra desaparece oficialmente.

Mas reaparece.

Uma música proibida continua sendo conhecida.

Um texto circula.

Um panfleto aparece.

Uma gravação atravessa fronteiras.

Um filme encontra algum caminho alternativo.

Às vezes sabemos como.

Outras vezes a cadeia de transmissão se perde.

Décadas depois sobra apenas:

“Alguém conseguiu uma cópia.”

Quem?

Não sabemos.

E talvez justamente aí esteja uma das partes mais fascinantes da história da informação.

Nós lembramos de quem escreveu.

Lembramos de quem cantou.

Lembramos de quem dirigiu.

Lembramos de quem proibiu.

Mas frequentemente esquecemos de quem:

carregou.



🐇 O coadjuvante do coadjuvante

Imagine nosso personagem novamente.

Ele não está tentando derrubar governo nenhum.

Talvez nem saiba exatamente o que existe dentro da pasta.

Está preocupado com uma coisa muito mais urgente:

o ônibus está atrasado.

Olha o relógio.

Corre.

Entra no prédio.

Sobe.

Desce.

Pega assinatura.

Recebe outro envelope.

Alguém diz:

— Leva isso também.

Ele coloca na pasta.

E continua.

Enquanto a Rainha de Copas procura inimigos importantes...

🐇💨

...o Coelho Branco atravessa outra porta.

Essa é a imagem que me interessa.

Não porque possamos afirmar que todo office-boy era mensageiro clandestino.

Mas porque ela revela uma verdade organizacional muito maior:

Informação importante não precisa ser transportada por pessoas importantes.


💾 O office-boy desapareceu. A vulnerabilidade não.

Avancemos quarenta anos.

O office-boy praticamente desapareceu de muitos escritórios.

Documentos viraram arquivos.

Assinaturas viraram certificados.

Correspondência virou e-mail.

Memorandos viraram mensagens.

Pastas viraram diretórios.

O Coelho Branco ganhou login.

E então descobrimos:

conta de serviço esquecida;

usuário terceirizado;

credencial antiga;

fornecedor;

estagiário;

API mal configurada;

permissão herdada;

servidor legado.

O princípio permanece.

Todo mundo protege o CEO.

O atacante olha para a lavanderia.

Porque ninguém precisa invadir o portão principal do castelo quando existe uma janela lateral aberta.



🧠 Zero Trust encontrou o Coelho Branco

A segurança moderna criou expressões sofisticadas:

Least Privilege.

Need to Know.

Insider Threat.

Data Loss Prevention.

Zero Trust.

Por trás de todas existe uma descoberta pouco glamourosa:

não importa quanto poder alguém possui no organograma.

Importa:

o que consegue acessar, para onde consegue ir e o que consegue transportar.

O office-boy de ontem carregava envelopes.

A identidade digital de hoje carrega tokens.

Mudou o veículo.

Não mudou completamente o problema.



👑 A Rainha continua procurando protagonistas

Existe ainda uma lição para além da segurança.

Instituições adoram olhar para cima.

A imprensa olha para celebridades.

Empresas olham para executivos.

Governos olham para lideranças.

Historiadores olham para personagens conhecidos.

Algoritmos olham para aquilo que já possui atenção.

Enquanto isso, uma quantidade enorme de história acontece nas mãos de pessoas cujos nomes jamais chegam ao índice remissivo.

Alguém guardou aquele papel.

Alguém fez aquela cópia.

Alguém levou aquela fita.

Alguém entregou aquele envelope.

Alguém contou aquela história.

E provavelmente estava atrasado.



🐒 Os chimpanzés aparecem novamente

Evidentemente eles apareceriam.

Começamos falando sobre sonhos.

Fomos parar numa estação impossível da CPTM.

Depois loteria.

Depois Lost.

Depois números malditos.

Probabilidade.

Lei dos Grandes Números.

Um milhão de chimpanzés.

Imprensa.

Efeito VEJA.

Censura.

Vazamentos.

Office-boys.

Até que um sujeito atrasado olhando para o relógio resolveu atravessar correndo a história de Lewis Carroll.

Quando percebemos, havia outro artigo sobre a mesa.

Os chimpanzés são assim.

Você entrega uma máquina de escrever.

Eles devolvem uma banana.

Você pergunta sobre a banana.

Eles devolvem um artigo.



☕ Epílogo — A informação simplesmente pegou o ônibus

Talvez nunca saibamos quantas histórias sobreviveram porque alguém aparentemente irrelevante resolveu guardar alguma coisa.

Talvez nunca saibamos quantas informações atravessaram sistemas rígidos porque seus criadores observaram cuidadosamente os protagonistas...

e esqueceram dos figurantes.

Não devemos romantizar.

Havia risco.

Havia repressão.

Havia consequências reais.

E não devemos inventar heróis onde os documentos históricos não permitem encontrá-los.

Mas podemos aprender alguma coisa observando a arquitetura.

Sistemas de controle enxergam hierarquias.

Informação enxerga caminhos.

E caminhos podem passar pelos lugares mais improváveis.

Uma pasta.

Uma gráfica.

Um mimeógrafo.

Uma fita cassete.

Uma mala.

Um amigo.

Um office-boy.

Um ônibus.

Enquanto a Rainha de Copas procurava grandes inimigos, talvez alguma informação proibida estivesse simplesmente atravessando São Paulo no colo de um garoto desesperado porque precisava voltar ao escritório antes das cinco.

Ele olha para o relógio.

🐇

— Estou atrasado!

Corre.

A porta fecha.

O ônibus parte.

E dentro da pasta...

a história continua viajando.

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P.S. — O que meu pai nunca me contou

Depois de terminar este causo, fiquei diante de uma pergunta muito menos divertida que o Coelho Branco, a Rainha de Copas e o office-boy correndo atrás do ônibus:

eu teria coragem de escrever tudo isso naquela época?

Não sei.

É fácil imaginar coragem retrospectiva.

Hoje posso sentar diante de um computador, escrever sobre censura, questionar autoridades, fazer piada, publicar, pesquisar documentos e transformar até os mecanismos de repressão em personagens de uma história de boteco.

Naquele tempo, a conta era outra.

E talvez eu saiba disso não apenas pelos livros.

Meu pai foi militar da Polícia do Exército entre 1969 e 1970.

Décadas depois, quando passávamos pela região da Estação da Luz, eu percebia nele uma reação particular diante do lugar que eu associaria mais tarde ao antigo DOPS.

Eu era apenas o filho.

Não conhecia organogramas da repressão.

Não sabia distinguir DOPS, DOI-CODI, Polícia do Exército ou qualquer uma das engrenagens daquele sistema.

Mas criança não precisa conhecer organograma para perceber medo.

Basta conhecer o rosto do próprio pai.

Hoje conheço muito mais sobre aquele período do que conhecia então.

Mas existe uma coisa que continuo não sabendo.

O que exatamente meu pai sabia?

O que ouviu?

O que viu?

O que lhe contaram?

Por que aquele lugar provocava aquela reação?

Não sei.

E não vou completar a história por ele.

Seria fácil juntar as datas, seu serviço militar, aquele prédio e minha lembrança e construir uma narrativa perfeita.

Perfeita demais.

Seria pintar o alvo depois do tiro.

Seria colocar o nosso famoso sexto dedo.

Há histórias em que aquilo que não sabemos precisa permanecer escrito exatamente assim:

não sei.

Talvez ele simplesmente conhecesse a reputação daquele lugar.

Talvez tivesse ouvido histórias durante o serviço militar.

Talvez existisse alguma experiência que nunca compartilhou comigo.

Talvez a explicação fosse outra.

A resposta pertencia a ele.

E foi embora com ele.

Foi então que percebi que havia esquecido um personagem neste artigo inteiro.

Falamos sobre o censor.

Sobre o censurado.

Sobre o jornalista.

Sobre o músico.

Sobre a fita clandestina.

Sobre o panfleto.

Sobre o documento que escapava.

Sobre o office-boy que atravessava a cidade carregando envelopes.

Mas existe uma forma de informação muito mais difícil de encontrar nos arquivos:

aquilo que alguém decidiu nunca contar.

A reportagem censurada pode deixar um espaço em branco.

A música proibida pode deixar um processo.

O filme cortado pode sobreviver numa cópia.

O panfleto clandestino pode reaparecer quarenta anos depois dentro de uma caixa.

Mas uma história que alguém resolveu guardar consigo talvez não deixe documento algum.

Nenhuma assinatura.

Nenhum protocolo.

Nenhum carimbo.

Nenhum arquivo.

Apenas pequenos sinais.

Uma mudança de expressão.

Um silêncio inesperado.

Um olhar para determinado prédio.

Talvez uma frase interrompida.

E um filho que percebe que alguma coisa aconteceu ali, embora não saiba exatamente o quê.

Foi assim que compreendi outra dimensão da censura.

A mais eficiente talvez não seja aquela que coloca um carimbo vermelho sobre uma página.

É aquela que consegue fazer alguém pensar:

“É melhor não falar sobre isso.”

Nesse momento o censor já nem precisa estar presente.

O medo executa o programa sozinho.

E talvez seja por isso que não consigo responder heroicamente à pergunta que abriu este P.S.

Eu teria escrito este artigo naquela época?

Gostaria de dizer que sim.

Seria uma bela história.

Eu, enfrentando a Rainha de Copas, escondendo textos na pasta do Coelho Branco e mandando a censura para /dev/null.

Mas não sei.

Eu vi, muitos anos depois, algo daquele período ainda existir no rosto do meu pai.

Isso basta para desconfiar de qualquer coragem que eu invente retrospectivamente para mim mesmo.

Hoje posso escrever.

Posso perguntar.

Posso discordar.

Posso pesquisar.

Posso publicar.

Posso olhar para um documento marcado CENSURADO e perguntar o que havia embaixo.

E posso contar que meu pai serviu na Polícia do Exército entre 1969 e 1970 e que havia coisas sobre aquele tempo que ele nunca me contou.

Sem acusá-lo.

Sem absolvê-lo.

Sem completar os espaços vazios.

Apenas preservando aquilo que realmente sei.

Porque talvez os arquivos mais difíceis de recuperar sejam justamente aqueles que nunca chegaram a ser gravados.

Meu pai carregou alguma coisa daquele período.

Não sei o quê.

Mas lembro do seu rosto.

E há memórias que o tempo não consegue censurar.






Vagner Renato Bellacosa, IBM Champion e especialista em IBM Mainframe
IBM Z17 SYSTEM ONLINE
Sobre o autor

Vagner Renato Bellacosa

IBM Champion 2026 • Especialista em IBM Mainframe

Vagner Renato Bellacosa trabalha com IBM Mainframe desde 1988 , é IBM Champion e especialista em COBOL, CICS, Db2, z/OS e IBM Z. Compartilha experiências profissionais, conhecimento técnico, história da computação e práticas do universo mainframe para aproximar novas gerações das tecnologias que sustentam empresas, bancos e governos ao redor do mundo.

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