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segunda-feira, 6 de setembro de 2010

A Louca e a Piedosa — como Brasil e Portugal instalaram duas versões diferentes de D. Maria I

Bellacosa Mainframe e a duas versoes da mesma pessoa D. Maria I

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A Louca e a Piedosa — como Brasil e Portugal instalaram duas versões diferentes de D. Maria I

👑 A mesma rainha atravessou o Atlântico. Em Portugal ficou a memória de Maria, a Piedosa. No Brasil aprendemos Maria, a Louca. Entre as duas existe uma mulher soterrada por Pombal, revoluções, culpa religiosa, doença, Napoleão e dois séculos de historiografia.

Há personagens históricos que possuem uma biografia.

D. Maria I conseguiu duas.

Se você cresceu no Brasil, provavelmente conheceu uma senhora chamada:

D. Maria I, a Louca.

Ela aparece nos livros escolares quase como personagem secundária da história de D. João VI.

A rainha enlouqueceu.

O filho virou príncipe regente.

Napoleão invadiu Portugal.

A família real embarcou às pressas.

Maria chegou ao Rio de Janeiro.

Fim.

NEXT CHAPTER.

Mas atravesse o Atlântico, entre em Portugal e comece a conversar sobre a mesma mulher.

De repente aparece:

D. Maria I, a Piedosa.

Piedosa?

Peraí.

Onde foi parar a louca?

E mais interessante:

onde foi parar aquela rainha quase incapaz que muitos brasileiros aprenderam a imaginar?

Foi justamente esse choque que me fascinou ao conhecer melhor Portugal.

Porque não estamos diante de duas mulheres.

Estamos diante de dois países executando versões diferentes da mesma memória histórica.

//MARIA    JOB 'HISTORIA'

//BRASIL   EXEC PGM=MEMORIA
//PARM     DD *
MARIA_I=A_LOUCA
/*

//PORTUGAL EXEC PGM=MEMORIA
//PARM     DD *
MARIA_I=A_PIEDOSA
/*

SYSTEM:
WARNING — SAME PERSON

E quando aparece esse tipo de inconsistência no banco histórico...

☕ pega o café.

Porque vale abrir o dump.


🇵🇹 Antes da Louca existiu uma rainha perfeitamente funcional

Maria Francisca Isabel Josefa Antónia Gertrudes Rita Joana nasceu em Lisboa em 17 de dezembro de 1734.

Era filha do futuro rei D. José I e de D. Mariana Vitória.

Quando nasceu, ninguém estava esperando que se transformasse numa personagem trágica.

Muito menos que dois séculos depois um país inteiro praticamente resumisse sua existência a uma doença que se manifestaria depois de décadas de vida.

Esse é nosso primeiro problema.

Quando chamamos alguém simplesmente de “Maria, a Louca”, fazemos uma operação historiográfica brutal:

VIDA COMPLETA
████████████████████████████████████

DOENÇA
                         ███████████

MEMÓRIA POPULAR BRASILEIRA
                         █████████████████████

A parte final engoliu todo o resto.

E antes dela existe uma mulher profundamente religiosa, politicamente inserida na corte portuguesa e preparada para ocupar posição dinástica central.

Quando D. José I morreu, em 1777, Maria tornou-se rainha.

E aí aconteceu uma coisa importantíssima:

acabou a era política do Marquês de Pombal.


🧐 Entra em cena Sebastião José de Carvalho e Melo

Para entender a memória de Maria precisamos colocar outro personagem no tabuleiro:

o Marquês de Pombal.

Pombal havia sido o grande ministro de D. José I.

Terremoto de Lisboa de 1755.

Reconstrução.

Reformas administrativas.

Educação.

Economia.

Companhias monopolistas.

Expulsão dos jesuítas.

Centralização do poder.

Processo dos Távoras.

Pombal tornou-se uma das figuras mais poderosas e controversas da história portuguesa.

E aqui nasce uma armadilha historiográfica maravilhosa:

dependendo daquilo que você pensa sobre Pombal, Maria muda de personagem.

Se Pombal é:

grande modernizador racionalista enfrentando forças retrógradas,

então Maria pode aparecer como:

rainha religiosa conservadora que desmontou o projeto modernizador.

Mas se Pombal é:

autoritário brutal que concentrou poder, perseguiu adversários e utilizou violência política,

Maria pode aparecer como:

a rainha que corrigiu abusos do regime anterior.

Mesma mudança política.

Duas interfaces.


🔄 1777: ROLLBACK POMBAL

A ascensão de Maria iniciou aquilo que ficou conhecido como Viradeira.

O nome já é maravilhoso.

Mudou o rei.

Mudou o grupo político.

Mudaram ministros.

Prisioneiros políticos foram libertados.

Pombal perdeu o poder e foi afastado da corte.

Para quem estava associado ao regime anterior, aquilo podia parecer uma enorme purga.

Para vítimas do pombalismo, parecia reparação.

E Maria tinha razões pessoais e políticas para desconfiar daquele homem.

Pombal havia exercido poder extraordinário durante o reinado de seu pai.

O processo dos Távoras, especialmente, deixou uma marca profunda na monarquia portuguesa.

Então Maria assumiu e basicamente executou:

UPDATE PORTUGAL
SET POLICY = 'POST_POMBAL'
WHERE REIGN = 'MARIA_I';

Mas cuidado.

A Viradeira não significou simplesmente:

POMBAL = MODERNIDADE
MARIA  = IDADE_MEDIA

Essa interpretação é confortável demais.

Várias estruturas administrativas e reformas continuaram.

O Estado português não acordou em 1777 e decidiu reinstalar 1450.


🇧🇷 E aqui surge uma hipótese deliciosa

Durante nossa conversa apareceu uma pergunta que merece investigação histórica muito mais profunda:

será que parte da imagem particularmente negativa de Maria transmitida no Brasil foi alimentada pela memória de grupos ligados ao mundo pombalino?

É uma hipótese.

Não devemos transformá-la em fato sem documentação.

Mas é uma excelente pergunta.

Porque a circulação de funcionários, famílias, comerciantes, militares e administradores entre Portugal e Brasil carregava também memórias políticas.

Pessoas não migram somente com malas.

Trazem:

idioma
religião
receitas
ressentimentos
lealdades
inimigos
histórias
versões do passado

E versões históricas sobrevivem de maneira extraordinária.

Talvez haja aí material para investigar como diferentes tradições historiográficas brasileiras consolidaram a expressão “Maria, a Louca”, enquanto a memória portuguesa preservou também “Maria, a Piedosa”.

Não precisamos inventar uma conspiração pombalina.

A pergunta já é fascinante.


⛪ Por que “a Piedosa”?

Porque Maria era profundamente religiosa.

E não “religiosa” no sentido moderno de:

vai à missa domingo.

Estamos falando de uma princesa criada no ambiente católico das monarquias europeias do século XVIII, em que religião, consciência moral, legitimidade política e vida cotidiana estavam profundamente misturadas.

Maria possuía intensa devoção.

Essa religiosidade tornou-se parte central de sua imagem pública.

Daí:

Maria, a Piedosa.

Mas aquilo que inicialmente sustentava sua identidade posteriormente participaria também de seu sofrimento.

Porque Maria aparentemente desenvolveu angústias religiosas intensas, acompanhadas por medo, culpa e preocupação com salvação e condenação.

E então começam as perdas.


💀 O sistema começa a perder componentes

A vida pessoal de Maria foi atingida por uma sequência terrível de mortes.

Seu marido, D. Pedro III, morreu em 1786.

Seu filho mais velho e herdeiro, D. José, príncipe do Brasil, morreu em 1788, vítima de varíola.

Outras perdas familiares e acontecimentos traumáticos se acumularam.

E havia ainda a memória política do reinado anterior e das execuções associadas ao processo dos Távoras.

Maria parece ter desenvolvido obsessões relacionadas à culpa e à condenação.

Hoje é extremamente perigoso fazer diagnóstico psiquiátrico retrospectivo com segurança.

Não temos D. Maria numa clínica moderna.

Não temos prontuário segundo critérios contemporâneos.

Não podemos simplesmente executar:

SELECT diagnosis
FROM DSM_5
WHERE patient='Maria I'
AND year=1792;

Mas sabemos que sua condição mental deteriorou-se seriamente.

E, por volta de 1792, tornou-se incapaz de exercer normalmente as funções de governo.

Seu filho João passou progressivamente a assumir a direção do Estado.


🤴 Entra D. João

Sim.

Aquele D. João.

O futuro D. João VI.

Outro personagem vítima de versões nacionais completamente diferentes.

No imaginário brasileiro durante muito tempo:

gordo, medroso, comedor de frango, fugiu de Napoleão.

Quando começamos a estudar seriamente o contexto:

príncipe governando uma monarquia europeia presa entre França e Inglaterra, realizando uma transferência transatlântica de corte que preservaria a dinastia e transformaria completamente o Brasil.

É outro artigo inteiro.

E talvez justamente por D. João tornar-se protagonista, Maria tenha sido reduzida no Brasil a:

“a mãe louca de D. João.”

Isso é historiograficamente devastador.

A mulher que havia governado Portugal desde 1777 passa a existir apenas como obstáculo biográfico na história do filho.


🧠 “Louca” não é diagnóstico

Aqui precisamos fazer uma parada importante.

Durante séculos, palavras como:

louco, demente, insano, alienado

foram utilizadas de maneiras muito diferentes das categorias médicas contemporâneas.

Quando dizemos hoje:

“Maria era louca”

estamos comprimindo uma condição humana complexa numa caricatura.

Ela efetivamente sofreu uma doença mental incapacitante.

Isso é historicamente relevante.

Mas transformar a doença em nome da pessoa é outra operação.

Imagine alguém governando durante anos, tomando decisões, participando da administração de um império e vivendo inúmeras experiências.

Depois desenvolve uma doença.

E a posteridade executa:

RENAME PERSON
TO DISEASE;

É praticamente isso que ocorreu.


🇫🇷 E então aparece Napoleão

Como se a vida daquela família ainda estivesse tranquila demais.

A Revolução Francesa havia destruído o equilíbrio político europeu.

Depois veio Napoleão.

Portugal possuía um problema geopolítico quase insolúvel.

De um lado:

🇫🇷 França

Do outro:

🇬🇧 Grã-Bretanha

Portugal possuía uma antiga e importantíssima relação com os britânicos.

Napoleão queria impor o Bloqueio Continental contra a Inglaterra.

Portugal tentou ganhar tempo.

Diplomacia.

Negociação.

Ambiguidade.

Mais diplomacia.

Mais tempo.

Até que o relógio acabou.

Em 1807, forças francesas comandadas por Junot avançaram sobre Portugal.


🚢 E a corte faz uma coisa absolutamente insana

A família real portuguesa decide atravessar o Atlântico.

Hoje costumamos dizer:

“A família real fugiu para o Brasil.”

Tecnicamente, sim.

Mas essa formulação esconde a escala da operação.

Não foi:

D. João
D. Maria
duas malas
Uber para o aeroporto

🤣

Foi a transferência de uma corte monárquica, acompanhada por grande quantidade de pessoas, instituições, documentos, recursos e aparato estatal.

A capital política do império português atravessou o oceano.

E dentro daquela frota estava a rainha.

Maria I.

A mulher cuja incapacidade havia obrigado o filho a governar.


😱 “Não corram tanto! Vão pensar que estamos fugindo!”

Existe uma frase famosa atribuída a Maria durante a partida, segundo a tradição:

não deveriam correr daquela maneira, pois poderiam pensar que estavam fugindo.

É maravilhosa.

Talvez maravilhosa demais.

Como sempre, precisamos separar documentação contemporânea de tradição posterior.

Mas perceba por que a frase sobrevive.

Porque transforma a “rainha louca” em alguém que, por um instante, enxerga perfeitamente o absurdo da situação.

Todo mundo correndo.

Carruagens.

Bagagens.

Soldados.

Navios esperando.

Franceses aproximando-se.

E a senhora supostamente considerada incapaz dizendo:

“Tenham compostura, pelo amor de Deus.”

🤣

Se aconteceu exatamente assim ou não, tornou-se uma excelente peça de teatro histórico.


🇵🇹 Portugal ficou

E aqui está uma parte que me impressionou profundamente ao conhecer fisicamente esses lugares.

A família real atravessou o oceano.

Portugal não atravessou.

Ficaram cidades.

Aldeias.

Camponeses.

Militares.

Padres.

Mulheres.

Crianças.

Estradas.

Pontes.

Armazéns.

E vieram os franceses.

Depois britânicos.

Depois portugueses reorganizados.

Vieram invasões sucessivas.

Guerrilha.

Repressão.

Fome.

Destruição.

Política de terra arrasada.

Linhas de Torres Vedras.

Massena.

Wellington.

E uma população inteira tentando sobreviver no meio.

Quando você anda por lugares como Amarante ou pelas regiões associadas às Linhas de Torres Vedras, a história deixa de parecer aquele parágrafo escolar:

“A família real transferiu-se para o Brasil em 1808.”

A frase fica pequena demais.

Image

Image

Image

Image

A pergunta muda:

o que aconteceu com quem ficou?

E então D. João também começa a parecer diferente.


🇧🇷 Enquanto isso, Maria chega ao Rio

Em 1808, a corte portuguesa chegou ao Brasil.

E acontece uma inversão histórica extraordinária:

a colônia passa a receber a monarquia da metrópole.

Maria, já incapacitada, torna-se uma figura estranha naquele cenário.

Era a rainha.

Mas não governava.

Possuía a dignidade máxima.

Mas o filho exercia o poder.

Estava viva.

Mas politicamente pertencia a outro tempo.

E para os brasileiros que conviveram com sua imagem nesse período, aquela era a Maria que conheceram.

Não a jovem princesa.

Não a rainha de 1777.

Não a mulher que afastou Pombal.

Não a soberana ativa.

Mas a senhora idosa e mentalmente doente vivendo no Rio de Janeiro.

E talvez esteja aí uma das explicações mais simples para a divergência das memórias nacionais.


💡 Portugal conheceu o começo da história. O Brasil conheceu o final.

Essa é uma chave poderosa.

Portugal tinha memória de:

MARIA
│
├── princesa
├── sucessora
├── rainha
├── Viradeira
├── governo
├── religiosidade
└── doença

O Brasil recebeu:

MARIA
│
└── doença
    └── corte no Rio

É como assistir somente aos últimos vinte minutos de um filme e depois escrever a biografia da protagonista.

Naturalmente as percepções serão diferentes.


👑 1815: a rainha de um novo Reino

E há uma ironia maravilhosa.

Em 1815, foi criado o Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves.

Portanto aquela velha rainha, incapacitada e vivendo no Rio de Janeiro, tornou-se formalmente soberana de uma entidade política na qual o Brasil deixava de ser simplesmente colônia e era elevado à condição de reino.

Maria I tornou-se:

Rainha do Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves.

A mulher que no imaginário brasileiro ficaria reduzida a “a Louca” estava no trono durante uma das maiores mudanças de status político da história brasileira.

Ela morreu no Rio de Janeiro em 20 de março de 1816.

D. João tornou-se rei.

D. João VI.


⚰️ E Maria atravessaria o Atlântico novamente

Primeiro veio viva.

Depois voltou morta.

Seus restos mortais foram posteriormente trasladados para Portugal e depositados na Basílica da Estrela, em Lisboa — igreja cuja história está profundamente ligada à própria Maria.

É uma espécie de simetria estranha:

PORTUGAL
   │
   │ 1807
   ▼
ATLÂNTICO
   │
   ▼
BRASIL
   │
   │ morte — 1816
   │
   ▼
ATLÂNTICO
   │
   ▼
PORTUGAL

O corpo voltou.

A reputação, porém, ficou dividida entre os dois lados do oceano.


🧠 Hindsight Bias entra novamente na sala

Depois que sabemos que Maria desenvolveu grave doença mental, começamos a reinterpretar episódios anteriores procurando sinais.

Isso é perigosíssimo.

É o mesmo mecanismo que discutimos quando falamos de incidentes de TI:

“Era óbvio que aconteceria.”

Depois do incidente, todo log parece profético.

Antes dele, ninguém sabia qual linha seria importante.

Com Maria acontece algo semelhante.

Sabemos como terminou sua vida.

Então somos tentados a procurar:

religiosidade excessiva!

medo!

culpa!

comportamento estranho!

estava ficando louca!

Calma.

Pessoas religiosas no século XVIII eram...

religiosas.

Precisamos evitar transformar retrospectivamente cada característica da personalidade numa manifestação precoce da doença posterior.


🗺️ E voltamos ao nosso velho problema: quem controla a legenda?

Essa conversa inteira começou muito antes de Maria.

Falamos de leões que escultores nunca tinham visto.

Falamos do rinoceronte que Dürer nunca viu.

Falamos dos monstros colocados nos mapas quando faltavam informações.

E agora encontramos outra versão do mesmo problema:

personagens históricos também são representações.

O Brasil recebeu determinado conjunto de informações sobre Maria.

Portugal preservou outro.

Cada sociedade treinou seu próprio modelo cultural.

TRAINING DATA: BRASIL

Maria velha
Maria doente
D. João regente
fuga da corte
Rio de Janeiro

OUTPUT:

"D. Maria, a Louca"

Enquanto:

TRAINING DATA: PORTUGAL

Maria princesa
Maria rainha
Viradeira
religiosidade
Basílica da Estrela
governo
doença

OUTPUT:

"D. Maria, a Piedosa"

Nenhum modelo contém sozinho a pessoa inteira.


👻 E talvez a verdadeira Maria esteja entre as duas

Essa é a parte que considero mais bonita.

Maria provavelmente não era:

nem apenas a Louca

nem

apenas a Piedosa.

Era uma mulher do século XVIII.

Princesa.

Filha.

Esposa.

Mãe.

Rainha.

Católica profundamente devota.

Adversária política do mundo pombalino.

Soberana de um império.

Mulher submetida a perdas pessoais terríveis.

Pessoa que desenvolveu grave sofrimento mental.

Rainha incapaz.

Passageira involuntária de uma das mais extraordinárias transferências de poder da história.

E finalmente uma senhora que morreu a milhares de quilômetros da cidade onde nasceu.

É muito mais interessante que o apelido.


🇧🇷🇵🇹 Dois países, dois arquivos

Talvez seja por isso que viajar seja tão importante para compreender história.

Você pode ler durante quarenta anos:

D. Maria I, a Louca.

Depois atravessa o Atlântico e encontra:

D. Maria I, a Piedosa.

E acontece aquele maravilhoso:

IEC141I HISTORICAL DATASET CONFLICT

🤣

Você começa a perguntar.

E a pergunta vale mais que decorar outra data.

Porque percebe que história nacional não é necessariamente mentira.

É seleção.

Portugal selecionou determinadas memórias.

Brasil selecionou outras.

A escola simplificou.

A literatura reforçou.

Caricaturas sobreviveram.

Apelidos comprimiram vidas inteiras.

E depois de duzentos anos parece que sempre foi assim.


☕ O Café Bellacosa

Talvez a maior injustiça feita a D. Maria I não tenha sido chamá-la de louca.

Ela realmente sofreu uma doença mental incapacitante.

A injustiça foi transformar essa doença na síntese de sua existência.

É como encontrar alguém no último capítulo e decidir que aquilo explica o livro inteiro.

Portugal também construiu sua versão.

A Piedosa enfatiza religiosidade, devoção e determinado imaginário da soberana.

Também é uma simplificação.

Entre as duas existe uma personagem muito mais interessante.

Uma rainha que chegou ao poder depois de um dos ministros mais poderosos da história portuguesa.

Uma mulher que participou da reversão de parte daquele sistema.

Uma soberana profundamente religiosa.

Uma mãe que enterrou pessoas que amava.

Uma pessoa cuja mente posteriormente entrou em colapso.

Uma rainha que assistiu, já incapaz de governar, à Revolução Francesa destruir o velho mundo europeu.

Que viu Napoleão ameaçar seu reino.

Que atravessou um oceano.

Que terminou seus dias no Rio de Janeiro.

E que, sem poder governar efetivamente, ainda estava viva quando o Brasil deixou formalmente de ser apenas colônia e tornou-se parte do Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves.

Não é pouca biografia.

Mas nós conseguimos compactá-la em:

Maria, a Louca.


🖥️ $HASP395 MARIAI JOB ENDED

//MARIAI   JOB 'MEMORIA'
//STEP01   EXEC PGM=PRINCESS
//STEP02   EXEC PGM=QUEEN
//STEP03   EXEC PGM=VIRADEIRA
//STEP04   EXEC PGM=GRIEF
//STEP05   EXEC PGM=ILLNESS
//STEP06   EXEC PGM=NAPOLEON
//STEP07   EXEC PGM=ATLANTIC
//STEP08   EXEC PGM=BRAZIL

PORTUGAL:
MARIA_I = "A PIEDOSA"

BRAZIL:
MARIA_I = "A LOUCA"

HISTORIAN:
COMPARE DATASETS...

RESULT:
SAME WOMAN.
DIFFERENT MEMORY.

E talvez essa seja a melhor conclusão.

D. Maria I não precisa ser absolvida.

Não precisa ser condenada.

Nem precisamos escolher qual dos dois apelidos está “correto”.

Precisamos fazer algo muito mais difícil:

devolver-lhe a complexidade.

Porque quando Brasil e Portugal instalaram versões diferentes de Maria, cada um preservou um fragmento.

A mulher verdadeira ficou escondida entre os dois.

E talvez viajar, conversar, comparar documentos e desconfiar das versões prontas sirva justamente para isso:

executar, de vez em quando,

RESTORE HUMANITY
FROM HISTORY_BACKUP;

RC=00. ☕👑🇵🇹🇧🇷

Vagner Renato Bellacosa, IBM Champion e especialista em IBM Mainframe
IBM Z17 SYSTEM ONLINE
Sobre o autor

Vagner Renato Bellacosa

IBM Champion 2026 • Especialista em IBM Mainframe

Vagner Renato Bellacosa trabalha com IBM Mainframe desde 1988 , é IBM Champion e especialista em COBOL, CICS, Db2, z/OS e IBM Z. Compartilha experiências profissionais, conhecimento técnico, história da computação e práticas do universo mainframe para aproximar novas gerações das tecnologias que sustentam empresas, bancos e governos ao redor do mundo.

IBM Champion IBM Z COBOL CICS Db2 z/OS Mainframe desde 1988
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