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terça-feira, 26 de agosto de 2025

O Paradoxo da Denúncia: quando avisar milhões de pessoas que algo existe também ensina milhões de pessoas o que procurar

Bellacosa Mainframe e o paradoxo dda denuncia

☕ Um Café no Bellacosa Mainframe

O Paradoxo da Denúncia: quando avisar milhões de pessoas que algo existe também ensina milhões de pessoas o que procurar

ATENÇÃO! ESCÂNDALO! PERIGO! NÃO VEJA! NÃO PROCURE! NÃO ENTRE!

Pronto.

Agora você quer saber do que estou falando.

Esse é o problema.

Bem-vindo ao Paradoxo da Denúncia, estranho fenômeno no qual alguém sobe num caixote no meio da praça, pega um megafone e anuncia:

— CIDADÃOS! EXISTE UMA COISA TERRÍVEL NA RUA TAL, NÚMERO TAL, ATRÁS DA PORTA VERMELHA! NÃO ENTREM LÁ!

Dez minutos depois há uma fila diante da porta vermelha.

Não necessariamente porque aquelas pessoas concordem com o que existe lá dentro.

Algumas querem denunciar.

Outras querem verificar.

Outras querem compreender.

Há jornalistas.

Pesquisadores.

Curiosos.

Gente indignada.

Gente que pretende compartilhar a indignação.

E, naturalmente, existe aquele cidadão que estava tranquilamente indo comprar pão, ouviu a confusão e pensou:

Mas o que diabos tem atrás da porta vermelha?

Na Internet, esse sujeito ganhou um navegador, uma caixa de pesquisa e algoritmos capazes de acompanhá-lo pelo restante da tarde.

E então a coisa fica muito mais interessante.


📰 EXTRA! EXTRA! A DENÚNCIA QUE VIROU MAPA

Décadas atrás, antes de Google dominar nossa relação com informação, antes de trending topics, TikTok, Instagram e recomendadores modernos, revistas e jornais já enfrentavam um problema parecido.

Para denunciar alguma coisa, era necessário explicar do que estavam falando.

E explicar significava fornecer pistas.

Nome.

Vocabulário.

Lugar.

Comportamento.

Tecnologia.

Às vezes até instruções suficientes para que um leitor particularmente curioso reconstruísse o caminho sozinho.

Foi assim que certas reportagens sobre a nascente cultura digital funcionaram para uma geração inteira.

Uma revista poderia publicar uma matéria essencialmente dizendo:

“VEJA O PERIGO QUE ESTÁ ESCONDIDO NA INTERNET!”

O objetivo editorial poderia ser perfeitamente legítimo: alertar pais, discutir pornografia, crimes, comunidades problemáticas, novos comportamentos ou simplesmente apresentar aquele estranho universo chamado Internet.

Só havia um pequeno problema.

Para demonstrar que o monstro existia, era necessário mostrar as pegadas do monstro.

E alguns leitores eram muito curiosos.

O jornalista escrevia:

“Usuários encontram esse conteúdo utilizando determinados termos...”

O leitor:

— Termos, é?

Caneta.

Papel.

Anotado.

A matéria continuava:

“Existem servidores e comunidades onde...”

— Servidores?

Anotado.

“Alguns programas permitem...”

— PROGRAMA?

ANOTADO!

A reportagem terminava com uma advertência moral.

O leitor terminava com uma lista de palavras-chave.

Era como publicar:

GUIA COMPLETO DOS LUGARES ONDE VOCÊ NÃO DEVE IR

seguido de endereço, mapa e horário de funcionamento.


🕵️ FOI DE PROPÓSITO?

Essa é a pergunta deliciosa.

Talvez.

Talvez não.

Provavelmente jamais saberemos em muitos casos.

O jornalista poderia estar simplesmente fazendo seu trabalho.

Para escrever sobre um fenômeno, precisava descrevê-lo.

O editor queria uma reportagem impactante.

A revista precisava mostrar ao leitor que havia investigado.

E ninguém necessariamente estava sentado numa sala esfumaçada dizendo:

— Vamos ensinar secretamente nossos leitores a encontrar essas coisas!

Isso seria uma conclusão sem evidência.

Mas existe outra possibilidade muito mais banal.

Jornalismo conhece uma substância poderosíssima desde muito antes da Internet:

CURIOSIDADE.

O jornalismo popular sabia perfeitamente que existe diferença entre:

“Existe determinado fenômeno.”

e:

“VOCÊ NÃO VAI ACREDITAR NO QUE ESTÁ ACONTECENDO ATRÁS DESTA PORTA!”

O segundo vende jornal.

E aqui entra nosso velho espírito do saudoso Notícias Populares.

Porque o mecanismo psicológico do jornalismo amarelo nunca precisou de inteligência artificial.

Precisava apenas compreender seres humanos.

SEXO!

ESCÂNDALO!

CRIME!

MISTÉRIO!

PROIBIDO!

PERIGO!

VOCÊ NÃO DEVERIA VER ISTO!

O cérebro responde:

— Concordo plenamente.

Pausa.

— Onde está?


🚫 “NÃO PROCURE POR X”

Existe uma experiência mental maravilhosa.

Imagine que você nunca ouviu falar de X.

X poderia passar tranquilamente pelo restante da sua vida sem ocupar um único neurônio.

Então alguém publica para milhões:

“Existe uma coisa chamada X e você jamais deveria procurá-la.”

Parabéns.

Agora milhões de pessoas sabem:

X EXISTE.

Uma pequena parcela imediatamente procura X.

Outra pesquisa notícias sobre X.

Outra procura:

"o que é X"

Outra:

"polêmica X"

Outra:

"por que estão falando de X"

E outra simplesmente digita:

X

O objetivo inicial poderia ser reduzir o fenômeno.

Mas a primeira consequência mensurável pode ser exatamente o contrário:

AUMENTO DA ATENÇÃO.


💥 CHEGA O EFEITO STREISAND

Existe um parente famoso dessa confusão: o efeito Streisand.

A ideia geral é conhecida: uma tentativa de esconder, remover ou reduzir a circulação de determinada informação pode chamar tamanha atenção para ela que o resultado acaba sendo sua disseminação muito maior.

É o maravilhoso momento em que alguém grita:

NINGUÉM PODE VER ESTA FOTO!

e a Internet responde:

QUE FOTO?

Cinco minutos depois:

todo mundo viu a foto.

Mas o Paradoxo da Denúncia é um pouco diferente.

Não precisa haver tentativa de censura.

Basta existir exposição.

A denúncia pode ser perfeitamente sincera.

Pode haver interesse público.

Pode haver comportamento realmente problemático.

Pode existir necessidade genuína de informar.

Ainda assim:

DENÚNCIA
   ↓
EXPOSIÇÃO
   ↓
CONHECIMENTO DA EXISTÊNCIA
   ↓
CURIOSIDADE
   ↓
BUSCA
   ↓
AMPLIFICAÇÃO

A moral da história é desconfortável:

Condenar uma coisa e aumentar sua visibilidade não são acontecimentos incompatíveis.

Você pode fazer os dois simultaneamente.


📺 O INFLUENCIADOR APERTA O BOTÃO VERMELHO

Agora transportemos o problema para 2026.

Um grande criador publica uma denúncia.

Milhões assistem.

O vídeo repercute.

Jornais escrevem sobre ele.

Outros influenciadores comentam.

Políticos comentam.

Especialistas aparecem.

Podcasts discutem.

Trechos circulam.

Pessoas pesquisam os personagens envolvidos.

E começa a máquina.

Não precisamos presumir qualquer intenção de promover aquilo que está sendo denunciado.

Esse não é o ponto.

O ponto é:

A INTERNET NÃO DISTRIBUI INTENÇÃO. ELA DISTRIBUI ATENÇÃO.

Essa distinção é gigantesca.

O ser humano entende:

“Estou assistindo porque considero isso revoltante.”

O sistema pode observar:

CLICOU = SIM
ASSISTIU = SIM
PESQUISOU = SIM
COMPARTILHOU = SIM
COMENTOU = SIM
VOLTOU = SIM

E concluir:

INTERESSE.

O algoritmo não precisa compreender sua indignação para perceber seu comportamento.


🤖 O ALGORITMO NÃO SABE QUE VOCÊ ESTÁ REVOLTADO

Imagine João.

João nunca ouviu falar de determinado fenômeno.

Assiste à denúncia.

Fica indignado.

Pesquisa.

Assiste a três vídeos explicando.

Pesquisa uma pessoa mencionada.

Entra numa rede social.

Assiste a outro vídeo relacionado.

Comenta:

“QUE ABSURDO!”

Compartilha:

“TODO MUNDO PRECISA SABER DISSO!”

O sistema observa João.

Do ponto de vista humano:

JOÃO
↓
REPÚDIO

Do ponto de vista comportamental:

JOÃO
↓
5 vídeos
↓
3 buscas
↓
2 compartilhamentos
↓
4 comentários
↓
18 minutos de atenção

Qual deles o recomendador consegue medir melhor?

Aí mora o problema.


🔥 TRENDING TOPIC: O POSTO IPIRANGA DA CURIOSIDADE

Então aparece outra máquina extraordinária:

Trending Topics.

A sociedade inteira recebe uma placa luminosa dizendo:

TODO MUNDO ESTÁ FALANDO SOBRE X!

Milhões que não sabiam de X perguntam:

— Por quê?

Clicam.

Agora também estão falando de X.

Isso ajuda X a continuar aparecendo.

Outras pessoas veem.

Clicam.

Temos um belo circuito:

ASSUNTO
   ↓
ATENÇÃO
   ↓
TREND
   ↓
MAIS ATENÇÃO
   ↓
MAIS BUSCAS
   ↓
MAIS PUBLICAÇÕES
   ↓
MAIS ATENÇÃO
   ↓
TREND

É praticamente um PERFORM UNTIL, só que alguém esqueceu a condição de saída.


🔎 E ENTÃO ENTRA O SEO

A confusão fica ainda melhor.

Milhões começam a pesquisar determinado termo.

Sites percebem.

Editores percebem.

Criadores percebem.

Ferramentas de tendências percebem.

Surge conteúdo:

O QUE É X?

ENTENDA X

A POLÊMICA DE X

10 COISAS SOBRE X

QUEM É X?

ENTENDA O CASO QUE PAROU A INTERNET

Agora alguém que procura X encontra uma infraestrutura inteira de conteúdo construída ao redor de X.

A denúncia deixou de ser simplesmente uma publicação.

Criou um vocabulário pesquisável.

E vocabulário pesquisável é uma coisa poderosíssima.

Porque antes da denúncia talvez o indivíduo sequer soubesse qual palavra digitar.

Depois dela, sabe.

Essa é talvez a grande ligação entre aquela velha revista impressa e a Internet contemporânea.

A revista entregava a palavra.

O leitor precisava construir o caminho.

Hoje a palavra pode ser suficiente para a infraestrutura digital construir boa parte do caminho por ele.


🐇 ANTIGAMENTE VOCÊ PERSEGUIA O COELHO

Na velha Internet:

LEITOR
  ↓
descobre palavra
  ↓
anota
  ↓
conecta
  ↓
procura
  ↓
tenta outro termo
  ↓
encontra fórum
  ↓
encontra referência
  ↓
procura novamente

Era necessário ser curioso.

Persistente.

Um pequeno arqueólogo digital.

Hoje:

USUÁRIO
   ↓
descobre X
   ↓
pesquisa X
   ↓
ALGORITMO:
"AHÁÁÁÁ!"
   ↓
X relacionado
   ↓
pessoas relacionadas a X
   ↓
vídeos sobre X
   ↓
discussões sobre X
   ↓
"Talvez você também goste..."

Antigamente você perseguia o coelho.

Agora o coelho sabe seu endereço.


🚨 EXPOSIÇÃO NÃO É CONDENAÇÃO

Aqui precisamos separar três coisas que frequentemente são misturadas.

EXPOSIÇÃO

Significa tornar algo visível.

CONDENAÇÃO

Significa atribuir avaliação negativa àquilo.

AMPLIFICAÇÃO

Significa aumentar seu alcance.

Esses três estados são independentes.

É perfeitamente possível:

CONDENAR = SIM
AMPLIFICAR = SIM

Esse talvez seja o ponto mais contraintuitivo.

Alguém pode detestar profundamente determinado conteúdo e, tentando destruí-lo, transformar seu nome no assunto mais pesquisado do país.

Não significa que a denúncia estava errada.

Significa que comunicação em rede possui efeitos colaterais.


🧯 ENTÃO DEVEMOS FICAR CALADOS?

Não.

Esse seria o erro oposto.

Existem situações que precisam ser denunciadas.

Crimes precisam ser investigados.

Vítimas precisam ser protegidas.

Problemas sociais precisam ser discutidos.

Riscos precisam ser conhecidos.

A solução não pode ser:

“Não falemos sobre coisas ruins porque alguém pode pesquisar.”

Isso produziria silêncio justamente onde informação pública pode ser necessária.

A pergunta correta é outra:

COMO INFORMAR SEM TRANSFORMAR A DENÚNCIA NUM CATÁLOGO?

E aí entra responsabilidade editorial.

É realmente necessário repetir determinado identificador vinte vezes?

Precisamos exibir imagens?

Precisamos fornecer caminhos?

Precisamos reproduzir conteúdo?

Precisamos mostrar exatamente como localizar?

O nome é indispensável ao interesse público?

Ou estamos colocando um enorme letreiro:

NÃO ENTRE — ENTRADA LOGO ALI →


🛡️ A MODERAÇÃO ENTRA NO BAR

Enquanto isso, a plataforma precisa distinguir:

denúncia, documentação, jornalismo, sátira, pesquisa, glorificação, exploração e redistribuição.

Boa sorte.

O mesmo fragmento pode aparecer em contextos completamente diferentes.

Um pesquisador pode reproduzir determinada expressão para estudá-la.

Um jornalista para denunciá-la.

Um criminoso para promovê-la.

Um professor para explicar o fenômeno.

O conteúdo pode parecer semelhante.

A intenção e o contexto não são.

É aí que moderação puramente baseada em palavras-chave começa a sofrer.

O computador encontra:

TERM=X

O humano pergunta:

“Mas por que X está aqui?”

Essa segunda pergunta é muito mais difícil.


📰 O VELHO JORNAL AMARELO DESCOBRIU ISSO ANTES DO ALGORITMO

Talvez o mais divertido seja perceber que boa parte dessa engenharia de atenção é muito anterior ao Facebook, Google, TikTok ou qualquer recomendador.

O jornaleiro já conhecia o algoritmo fundamental:

ESCÂNDALO
+
CURIOSIDADE
+
TÍTULO ENORME
=
VENDA

A Internet simplesmente industrializou a operação.

Antes alguém precisava escolher a manchete.

Hoje milhares de sistemas medem em tempo quase real:

  • quem clicou;

  • quanto tempo ficou;

  • onde abandonou;

  • o que procurou depois;

  • o que compartilhou;

  • com quem compartilhou;

  • qual conteúdo semelhante reteve atenção.

O velho editor perguntava:

“Isso vende jornal?”

O recomendador pergunta:

“Isso mantém o sujeito aqui?”

A distância tecnológica é gigantesca.

A matéria-prima continua sendo o mesmo macaco curioso.

Nós.


☕ O MAINFRAMEIRO OLHA PARA TUDO ISSO

E algum velho programador COBOL sentado diante do café observa o espetáculo e pergunta:

— Qual era o requisito?

Reduzir a exposição de X.

— E o resultado?

X tornou-se um dos assuntos mais procurados da semana.

Silêncio.

Ele toma outro gole.

— Tem log?

Tem.

— Métrica anterior?

Tem.

— Métrica posterior?

Tem.

— Grupo de controle?

Não.

— Então parem de dizer que sabem exatamente quem causou o quê.

Silêncio novamente.

Porque esse também é um ponto fundamental.

Correlação não é causalidade.

Uma explosão de buscas posterior a uma denúncia é compatível com amplificação produzida pela denúncia, mas demonstrar quanto dela veio diretamente da publicação, quanto veio da cobertura jornalística, quanto veio das redes, quanto veio de outros acontecimentos e quanto teria acontecido independentemente exige dados.

O jornalista amarelo pode gritar:

VÍDEO FEZ O BRASIL PROCURAR X!

O analista precisa acrescentar:

“Calma, Juvenal. Vamos olhar os dados.”


📼 A VELHA FITA CONTINUA GIRANDO

E talvez exista uma ironia histórica maravilhosa nisso.

Da revista impressa aos influenciadores.

Do jornaleiro aos trending topics.

Do índice remissivo ao Google.

Da recomendação do amigo ao recomendador algorítmico.

Mudamos toda a infraestrutura.

Mas existe um componente que atravessou tudo:

CURIOSIDADE HUMANA.

Diga:

“Aqui está uma porta.”

Alguns passarão reto.

Diga:

“NÃO ABRA ESTA PORTA.”

Agora você tem audiência.

Coloque uma placa:

“POR TRÁS DESTA PORTA EXISTE ALGO TÃO TERRÍVEL QUE NEM DEVERÍAMOS CONTAR QUE EXISTE.”

Meu amigo...

Melhor chamar a segurança.


🧠 O VERDADEIRO PARADOXO

O problema da denúncia não é denunciar.

É imaginar que denúncia e publicidade são fenômenos completamente separados.

Não são.

Toda denúncia pública contém alguma quantidade de exposição.

Toda exposição pode gerar curiosidade.

Toda curiosidade pode gerar busca.

Toda busca pode alimentar sistemas de descoberta.

E sistemas de descoberta podem produzir amplificação.

Portanto:

DENUNCIAR
   ≠
PROMOVER

Mas também:

DENUNCIAR
   ≠
NÃO AMPLIFICAR

Essa diferença deveria estar pregada na parede de redações, plataformas, departamentos de comunicação, escolas e equipes de moderação.


🚨 EDIÇÃO EXTRA: O MONSTRO NÃO PRECISA DE PUBLICIDADE FAVORÁVEL

Talvez essa seja a grande lição da era algorítmica.

No passado, imaginávamos publicidade como elogio.

Na economia da atenção, publicidade pode vir embrulhada em ódio.

Você pode assistir porque ama.

Pode assistir porque odeia.

Pode compartilhar dizendo:

“VEJAM QUE ABSURDO!”

Mas o pacote continua viajando.

E cada viagem aumenta a possibilidade de alguém que jamais conheceu aquilo perguntar:

“Mas afinal... o que é isso?”

É nesse instante que a denúncia atravessa uma fronteira invisível.

Continua sendo denúncia.

Continua podendo ser necessária.

Continua podendo produzir benefícios sociais enormes.

Mas também acabou de criar mais um conhecedor da existência do objeto denunciado.

O que essa pessoa fará com a informação já não pertence completamente ao denunciante.


☕ EPÍLOGO — NÃO OLHE AGORA

Talvez aquela velha reportagem da Veja não pretendesse iniciar ninguém.

Talvez soubesse perfeitamente que curiosidade vendia revista.

Talvez houvesse um pouco das duas coisas.

Jamais saberemos.

Mas sabemos algo muito mais importante.

Alguém leu.

Encontrou palavras.

Percebeu que existiam portas.

E abriu algumas delas.

Décadas depois, a infraestrutura mudou brutalmente.

Hoje um grande criador pode apontar para uma porta diante de milhões de pessoas simultaneamente.

Algumas vão exigir que ela seja fechada.

Algumas chamarão a polícia.

Algumas discutirão legislação.

Algumas produzirão vídeos.

Algumas pesquisarão academicamente.

E algumas simplesmente perguntarão:

“O QUE TEM LÁ DENTRO?”

Essa pessoa sempre existiu.

O problema é que agora, depois do primeiro clique, existe um sistema gigantesco observando silenciosamente:

“Ah... você demonstrou interesse por portas.”

E começa a mostrar outras.

Portanto, da próxima vez que alguém anunciar:

🚨 “NÃO PESQUISE ISTO DE JEITO NENHUM!”

lembre-se do velho princípio da curiosidade humana:

informar que uma porta existe pode ser necessário.

Condenar o que existe atrás dela pode ser absolutamente legítimo.

Mas apontar para a maçaneta diante de milhões de pessoas também é um ato de distribuição de informação.

E na Internet, meus caros...

até a placa PROIBIDA A ENTRADA pode acabar funcionando como SEO.


//BELLACOS JOB

//PARADOXO JOB CLASS=NP,MSGCLASS=Y
//STEP01   EXEC PGM=CURIOSIDADE
//DENUNCIA DD *
   EXPOSE=YES
   CONDEMN=YES
   AMPLIFY=UNKNOWN
/*
//ALGORITHM DD *
   CLICK=1
   SEARCH=1
   SHARE=1
   COMMENT="QUE ABSURDO!"
/*
//SYSOUT DD SYSOUT=*
//

IEF142I PARADOXO STEP01 - STEP WAS EXECUTED
IEF373I ATTENTION CONSUMED
IEF404I USER SEARCHED THE TERM

RETURN CODE = 0042

Mensagem do sistema:

WARNING: O USUÁRIO QUE NÃO SABIA QUE X EXISTIA AGORA SABE.

Um Café no Bellacosa Mainframe

Porque às vezes o maior problema de colocar uma placa dizendo “NÃO OLHE” é descobrir que acabamos de informar exatamente para onde todo mundo deveria olhar.

Vagner Renato Bellacosa, IBM Champion e especialista em IBM Mainframe
IBM Z17 SYSTEM ONLINE
Sobre o autor

Vagner Renato Bellacosa

IBM Champion 2026 • Especialista em IBM Mainframe

Vagner Renato Bellacosa trabalha com IBM Mainframe desde 1988 , é IBM Champion e especialista em COBOL, CICS, Db2, z/OS e IBM Z. Compartilha experiências profissionais, conhecimento técnico, história da computação e práticas do universo mainframe para aproximar novas gerações das tecnologias que sustentam empresas, bancos e governos ao redor do mundo.

IBM Champion IBM Z COBOL CICS Db2 z/OS Mainframe desde 1988
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