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sábado, 22 de agosto de 2026

O Efeito VEJA — Quando a Imprensa Diz “Não Olhe” e um Milhão de Chimpanzés Perguntam “Onde?”

 

Bellacosa Mainframe e o efeito Veja

☕ Um Café no Bellacosa Mainframe

O Efeito VEJA — Quando a Imprensa Diz “Não Olhe” e um Milhão de Chimpanzés Perguntam “Onde?”

Ou: Barbra Streisand tentou esconder uma casa, Nicolas Cage virou combustível para a Internet, Jessie Cave apareceu em quatro portais brasileiros e descobrimos que o algoritmo apenas automatizou uma traquinagem que as revistas já faziam quando a Internet ainda vinha impressa em papel

Existem dias em que você procura uma história.

Existem outros em que a história vem procurar você.

E existem aqueles dias particularmente perigosos em que você está tranquilamente tentando assistir a um anime, um dos milhões de chimpanzés do Bellacosa Mainframe encontra alguma coisa estranha na Internet, bate com a banana no rack e grita:

CHEFE! ACHEI UMA ARESTA NOVA!

Foi mais ou menos assim.

Eu não estava pesquisando Jessie Cave.

Não estava fazendo estudo sobre OnlyFans.

Não estava tentando entender a economia dos criadores adultos, convenções de Harry Potter ou comportamento de busca na Internet.

A coisa simplesmente caiu no meu colo.

Primeiro apareceu uma notícia.

Depois outra.

Depois outra.

Quando percebi, pelo menos quatro veículos brasileiros estavam contando essencialmente a mesma história: Jessie Cave, atriz que interpretou Lilá Brown nos filmes de Harry Potter, havia criado uma conta no OnlyFans, enfrentado dificuldades financeiras, conseguido ali uma fonte importante de renda e posteriormente relatado ter sido barrada de uma convenção ligada à franquia por causa de sua associação com a plataforma.

Em agosto de 2026, a história voltou a circular com força depois de uma entrevista ao programa britânico This Morning. UOL, Folha e outros veículos brasileiros repercutiram a história. Cave disse que entrou na plataforma em 2025 e que ganhou, em um único dia, mais de £15 mil; posteriormente afirmou ter conseguido em um ano no OnlyFans mais do que durante toda sua carreira como atriz.

Só existe um pequeno detalhe maravilhoso nessa história.

Para informar ao leitor que Jessie Cave havia sido prejudicada por possuir um OnlyFans...

...a imprensa precisou informar a milhares ou milhões de pessoas que:

Jessie Cave possui um OnlyFans.

🐒

O chimpanzé largou a banana.

Olhou para mim.

Eu olhei para ele.

E os dois tivemos exatamente o mesmo pensamento:

REVISTA VEJA.



📰 1. Antes do algoritmo havia a banca

Para quem nasceu com Google no bolso, pode parecer difícil imaginar uma época em que descobrir alguma coisa exigia trabalho.

Você ouvia falar de um filme estranho.

Precisava descobrir onde passava.

Conhecia uma revista obscura.

Precisava descobrir em qual banca vendia.

Alguém mencionava uma loja.

Anotava o endereço.

Uma reportagem falava de uma subcultura.

Talvez fornecesse nome, telefone, bairro ou referência.

E aí você ia atrás.

Naquele ecossistema, grandes revistas desempenhavam uma função que hoje atribuímos parcialmente aos mecanismos de busca e às redes sociais:

elas apontavam.

Uma revista como VEJA não precisava recomendar alguma coisa para produzir interesse.

Bastava descrevê-la.

Às vezes bastava condená-la.

Melhor ainda: bastava demonstrar surpresa diante dela.

“Existe isso.”

Pronto.

Milhões de brasileiros que cinco minutos antes não sabiam que aquilo existia agora sabiam.

E uma pequena porcentagem pensava:

Onde?

Chamarei isso aqui, deliberadamente como uma brincadeira conceitual do Bellacosa Mainframe, de Efeito VEJA.

Não procure a expressão em tratados acadêmicos.

Ela nasceu entre uma xícara de café, algumas memórias de banca de jornal e um milhão de chimpanzés mal supervisionados.

O mecanismo é simples:

visibilidade editorial produz descoberta mesmo quando a intenção editorial não é promover.

A revista aponta.

O leitor investiga.

E aquilo que estava fora do radar ganha existência cultural.



🔎 2. A diferença entre recomendar e revelar

Existe uma diferença gigantesca entre:

“Você deveria comprar isto.”

e:

“Olha que negócio absurdo existe.”

A primeira frase é publicidade.

A segunda pode ser muito mais poderosa.

Porque a primeira ativa resistência.

A segunda ativa curiosidade.

Um anúncio diz:

compre.

Uma reportagem diz:

descubra.

E seres humanos gostam muito de descobrir aquilo que aparentemente não deveriam estar procurando.

Quando a informação vem acompanhada por elementos como escândalo, proibição, sexo, censura, perigo, celebridade ou comportamento desviante, o efeito pode se multiplicar.

O cérebro recebe uma espécie de IRQ:

INTERRUPÇÃO PRIORITÁRIA: EXISTE ALGO PROIBIDO AQUI.

E o sistema operacional humano interrompe o processamento normal.

— Como assim?

— Quem?

— Onde?

— Tem foto?

— Tem vídeo?

— Qual é o nome?

Em 1992, talvez isso terminasse com alguém anotando um endereço.

Em 2026, termina com uma nova aba aberta em menos de três segundos.


🏠 3. Então Barbra Streisand tentou apagar uma fotografia

Aqui chegamos ao fenômeno que recebeu um nome muito mais famoso.

Em 2003, Barbra Streisand processou o fotógrafo Kenneth Adelman depois que uma fotografia aérea contendo sua propriedade na costa da Califórnia apareceu no California Coastal Records Project, iniciativa que documentava a erosão costeira.

Antes da ação judicial, a fotografia era praticamente irrelevante.

Segundo os registros posteriormente citados sobre o caso, ela havia sido baixada apenas algumas vezes.

A ação de Streisand transformou a fotografia em notícia.

E a notícia transformou a fotografia em objeto de curiosidade para centenas de milhares de pessoas. O episódio acabaria dando origem à expressão Streisand Effect, criada por Mike Masnick em 2005 para descrever situações em que uma tentativa de ocultar ou remover informação acaba ampliando dramaticamente sua circulação.

É uma das grandes piadas estruturais da Internet.

Você aponta para alguma coisa e diz:

NÃO OLHE.

A Internet responde:

LINK?


🧠 4. O Efeito VEJA não é exatamente o Efeito Streisand

Aqui vale separar os fios.

No Efeito Streisand, existe tentativa de supressão.

Alguém quer retirar, esconder, apagar ou impedir a circulação de determinada informação.

A tentativa chama atenção.

A atenção produz replicação.

No que estou chamando de Efeito VEJA, não é necessária nenhuma tentativa de censura.

Pode existir apenas cobertura jornalística.

A matéria diz:

“Olha que fenômeno curioso.”

E, ao informar sobre ele, aumenta seu alcance.

O mecanismo poderia ser resumido assim:

Streisand:

supressão

curiosidade

amplificação

Efeito VEJA:

cobertura

descoberta

curiosidade

amplificação

Eles podem coexistir.

E foi exatamente isso que tornou o caso de Jessie Cave tão interessante.


🪄 5. Lilá Brown entra no datacenter

Jessie Cave interpretou Lavender Brown — Lilá Brown no Brasil — em três filmes de Harry Potter.

Em 2025, ela passou a produzir conteúdo no OnlyFans.

O detalhe importante é que Cave declarou repetidamente que seu conteúdo não era explícito. Segundo suas próprias descrições e as reportagens sobre o caso, o nicho estava muito ligado aos seus cabelos, com vídeos penteando, trançando ou manipulando-os.

Depois veio outro ingrediente.

Cave revelou que havia deixado de ser contratada para uma convenção de fãs de Harry Potter porque sua presença no OnlyFans seria considerada incompatível com um evento familiar.

Ela considerou a justificativa contraditória, observando que atores convidados para convenções frequentemente já participaram de filmes ou séries contendo nudez ou sexo.

E aqui começa o paradoxo.

Uma convenção aparentemente pretende reduzir a associação entre:

Harry Potter ↔ Jessie Cave ↔ OnlyFans

A imprensa noticia essa decisão.

Para explicar a notícia, precisa escrever:

Harry Potter ↔ Jessie Cave ↔ OnlyFans

Google indexa.

Outros veículos reproduzem.

Redes sociais compartilham.

O público pesquisa.

E a associação que aparentemente representava um problema ganha novos milhares de pontos de contato.

Muito bem.

Parabéns aos envolvidos.

O servidor está funcionando exatamente ao contrário.


📡 6. A imprensa não precisa querer fazer propaganda

É importante dizer isso porque seria simplista demais afirmar:

“Os jornais estão fazendo publicidade para Jessie Cave.”

Não necessariamente.

Eles estão noticiando um assunto que possui valor jornalístico e interesse popular.

Mas efeito e intenção são coisas diferentes.

Se uma reportagem apresenta a alguém um produto, pessoa, plataforma, livro, filme, perfil ou subcultura que essa pessoa desconhecia, ocorreu uma descoberta.

Se uma fração dos leitores pesquisa o assunto, ocorreu geração de tráfego.

Se uma fração dessa fração converte, ocorreu aquisição.

O jornal não precisa receber comissão.

O mecanismo funciona independentemente disso.

Um título contendo:

ATRIZ DE HARRY POTTER + ONLYFANS

é praticamente uma máquina industrial de curiosidade.

Harry Potter fornece reconhecimento.

OnlyFans fornece tabu.

A atriz fornece rosto e narrativa.

A controvérsia fornece conflito.

E a Internet fornece o botão:

Pesquisar.


🐇 7. A toca do coelho ficou menor

Aqui aparece a diferença tecnológica mais importante entre a revista dos anos 1990 e o portal de 2026.

Na época da banca:

notícia

curiosidade

memorizar nome

perguntar

telefonar

pegar ônibus

achar endereço

talvez encontrar

Hoje:

notícia

curiosidade

CTRL+T

Fim.

A distância entre conhecimento e ação praticamente desapareceu.

E mais:

o próprio mecanismo registra a curiosidade.

Você pesquisa.

O buscador detecta demanda.

Mais pessoas pesquisam.

O assunto sobe.

Portais veem interesse.

Novas matérias aparecem.

Redes recomendam conteúdo semelhante.

Criadores comentam.

Mais buscas aparecem.

Temos agora um sistema de realimentação:

cobertura → busca → sinal → recomendação → nova cobertura → nova busca.

A banca de jornal ganhou telemetria.


🎭 8. Nicolas Cage entra correndo pela porta errada

Neste ponto, um chimpanzé levantou a mão.

— Chefe, posso colocar Nicolas Cage?

Normalmente a resposta correta deveria ser:

— Não.

Mas este é o Bellacosa Mainframe.

Portanto:

— Evidentemente.

Nicolas Cage representa outro estágio fascinante dessa história.

Ele se tornou durante décadas uma figura excepcionalmente fértil para a cultura de memes: expressões faciais, cenas exageradas, trechos retirados de contexto, montagens, GIFs e compilações passaram a circular independentemente dos filmes de origem.

O próprio Cage já falou sobre como essa transformação em meme produziu uma espécie de “Nick Cage” público, separado da pessoa e até parcialmente separado do ator que ele considera ser.

Aqui não temos necessariamente censura.

Também não temos uma revista revelando um segredo.

Temos um terceiro mecanismo:

circulação produz material para nova circulação.

Uma cena vira meme.

O meme faz alguém assistir à cena.

A cena gera outra montagem.

A montagem vira referência.

A referência produz outra obra.

Nicolas Cage deixou de ser apenas ator dentro desse ecossistema.

Virou protocolo de transporte cultural.


🧬 9. Streisand + VEJA + Cage

Agora podemos montar a nossa criatura.

Barbra Streisand nos ensina:

tentar esconder pode amplificar.

VEJA nos ensina:

apontar pode tornar descobrível.

Nicolas Cage nos ensina:

circular pode gerar mais coisas para circular.

Coloque os três dentro da Internet contemporânea.

Adicione mecanismos de busca.

Adicione redes sociais.

Adicione recomendadores.

Adicione métricas em tempo real.

Adicione monetização.

Resultado:

INFORMAÇÃO
    │
    ├── tentativa de suprimir
    │          ↓
    │      Streisand
    │
    ├── cobertura da imprensa
    │          ↓
    │       VEJA
    │
    └── circulação cultural
               ↓
          Nicolas Cage
               │
               ▼
            BUSCAS
               │
               ▼
          ALGORITMOS
               │
               ▼
        MAIS VISIBILIDADE
               │
               ▼
         MAIS CONTEÚDO
               │
               └──────────► LOOP

Construímos um reator.


🕸️ 10. E agora aparece o grafo

É exatamente por isso que esse assunto interessa ao Bellacosa Mainframe muito além da fofoca envolvendo uma atriz.

Ele conecta coisas.

A banca de jornal dos anos 1990 conecta-se ao Google.

VEJA conecta-se ao Omelete.

Barbra Streisand conecta-se a Jessie Cave.

Nicolas Cage conecta cultura de massa a memes.

Harry Potter conecta cinema a plataformas de assinatura.

Uma convenção tentando preservar uma determinada imagem familiar conecta-se involuntariamente à divulgação da própria associação que pretendia evitar.

O grafo começa a crescer.

E essa talvez seja uma das melhores maneiras de compreender a Internet.

Não como uma coleção de páginas.

Mas como uma coleção de arestas.


🧮 11. O que mudou não foi o humano

Essa é talvez a conclusão mais interessante.

Tendemos a dizer:

“A Internet mudou as pessoas.”

Nem sempre.

Talvez a Internet tenha simplesmente reduzido o tempo necessário para que façamos aquilo que sempre fizemos.

A curiosidade existia em 1988.

O voyeurismo existia.

A fofoca existia.

O interesse pelo proibido existia.

A atração pelo escandaloso existia.

A vontade de olhar atrás da cortina existia.

O que mudou foi a latência.

Antigamente:

“Onde encontro?”

Hoje:

click.

Antigamente havia quilômetros entre curiosidade e objeto.

Hoje existem milissegundos.


📈 12. E então entra o algoritmo

O algoritmo acrescenta uma característica que VEJA jamais possuiu em escala individual:

feedback automático.

Uma revista podia perceber que determinada capa vendeu bem.

Mas não sabia que João ficou 17 segundos olhando um box sobre determinado assunto, pesquisou o nome cinco minutos depois e clicou em três resultados relacionados.

As plataformas sabem.

E esses sinais alimentam os próximos ciclos.

Curiosidade deixou de ser apenas uma emoção.

Virou dado.

O sistema mede:

cliques
tempo de permanência
buscas
compartilhamentos
comentários
retenção
conversão

E então responde:

Vocês gostaram disso?

TOMEM MAIS.


🪞 13. Jessie Cave é menos importante que o mecanismo

Daqui a alguns meses talvez ninguém esteja falando dessa entrevista.

Outra celebridade aparecerá.

Outra plataforma.

Outra polêmica.

Outro moralismo.

Outro portal.

Mas o mecanismo continuará funcionando.

É por isso que Jessie Cave é, para este artigo, quase o pacote de rede que revelou a topologia.

Ela passou pelo cabo.

Nós vimos o pacote.

E percebemos:

conheço esse protocolo.

Ele existia antes da Web.

Existia nas revistas.

Existia nas conversas de escritório.

Existia nas bancas especializadas.

Existia quando alguém chegava na segunda-feira dizendo:

— Vocês viram o que saiu na VEJA?

A Internet não inventou isso.

Ela automatizou.


🐒 14. O milhão de chimpanzés abre outro barril

E aqui entra outro fenômeno particular deste blog.

Eu raramente encontro essas histórias porque esteja procurando provar alguma teoria.

Elas aparecem.

Uma imagem.

Uma reportagem.

Uma lembrança.

Uma revista velha.

Uma conversa.

Um documento esquecido.

Um chimpanzé pega uma coisa.

Outro pega outra.

Um terceiro, já claramente embriagado com o conteúdo do barril, grita:

— ELAS SE CONECTAM!

Às vezes ele está errado.

Infelizmente, desta vez não estava.

VEJA dos anos 1990.

Streisand em 2003.

Nicolas Cage transformado em meme.

Jessie Cave em 2026.

Google.

OnlyFans.

Omelete.

Folha.

UOL.

Convenções.

Harry Potter.

Tudo ligado por uma pergunta humana extremamente antiga:

“O que tem ali?”


🔥 15. O verdadeiro combustível da Internet

Dados?

Não.

Servidores?

Também não.

IA?

Nem ela.

O combustível primordial da Internet é:

curiosidade.

Google existe porque queremos saber.

Redes sociais existem porque queremos saber o que os outros estão fazendo.

YouTube existe porque queremos ver.

Portais existem porque queremos descobrir o que aconteceu.

E sempre que alguém coloca uma placa dizendo:

PROIBIDO ENTRAR

surge espontaneamente um departamento inteiro de engenharia perguntando:

qual é a porta?


📚 16. A velha VEJA talvez reconhecesse a máquina

Imagine transportar um editor de revista de 1994 para 2026.

Mostramos Google Trends.

Discover.

Instagram.

TikTok.

X.

SEO.

Analytics.

OnlyFans.

Substack.

Recomendadores.

Ele provavelmente ficaria perdido.

Até explicarmos:

— Aquilo que desperta curiosidade recebe mais circulação.

Nesse momento ele talvez respondesse:

— Ah.

— Isso eu conheço.

E estaria correto.

Mudamos a infraestrutura.

Não mudamos o usuário.


🌀 17. O wormhole editorial

É aqui que o nosso grafo fecha.

Um artigo antigo sobre VEJA ganha uma aresta apontando para um fenômeno contemporâneo.

O fenômeno contemporâneo aponta para Streisand.

Streisand aponta para cultura da Internet.

A cultura de memes traz Nicolas Cage.

Cage aponta para circulação autorreferente.

E tudo volta para a imprensa.

Não temos uma sequência linear.

Temos um wormhole editorial.

Um texto publicado hoje pode aumentar o contexto de outro escrito anos atrás.

Um episódio de 2026 pode explicar uma lembrança de 1993.

E uma banca desaparecida pode ajudar a compreender um algoritmo moderno.

Isso é muito mais interessante que SEO.

É memória estruturada.


🥋 18. A última lição do dojo

Talvez exista uma regra bastante simples para quem trabalha com comunicação:

quando você aponta para alguma coisa, está aumentando a probabilidade de alguém olhar.

Pode apontar para elogiar.

Pode apontar para criticar.

Pode apontar para denunciar.

Pode apontar para censurar.

Pode apontar simplesmente porque aquilo virou notícia.

A seta continua sendo uma seta.

E atrás dela existe sempre algum chimpanzé curioso.


☕ Epílogo — A banca virou algoritmo

No fim, Jessie Cave provavelmente continuará fazendo aquilo que decidiu fazer.

Harry Potter continuará sendo Harry Potter.

OnlyFans continuará provocando manchetes.

Nicolas Cage continuará surgindo nos lugares mais improváveis da Internet.

E Barbra Streisand continuará emprestando seu nome a um fenômeno que nenhum assessor de relações públicas deseja experimentar.

Quanto à velha revista?

Talvez ela nunca tenha percebido completamente seu poder.

Uma capa.

Uma chamada.

Um box.

Um endereço.

Uma frase.

Milhões de leitores.

Alguém encontrava uma informação desconhecida.

Fechava a revista.

Levantava da cadeira.

E ia procurar.

Quase quarenta anos depois fazemos exatamente a mesma coisa.

Só não precisamos mais levantar.

A banca virou Google.

O jornaleiro virou algoritmo.

A curiosidade ganhou fibra óptica.

E aquele sujeito que antes perguntava:

Onde vende?

agora simplesmente abre outra aba.

Enquanto isso, em algum corredor escuro do Bellacosa Mainframe, um milhão de chimpanzés abriu outro barril de saque.

Um deles encontrou mais uma notícia.

Olhou para os outros.

Sorriu.

E disse:

Chefe... acho que isso conecta com aquele artigo antigo.

O anime, evidentemente, vai ter que esperar mais cinco minutos.

🐒🍌☕

Para ir mais longe



https://eljefemidnightlunch.blogspot.com/2026/08/a-lei-seca-do-algoritmo-ou-como-comecei.html

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https://eljefemidnightlunch.blogspot.com/2025/08/o-paradoxo-da-denuncia-quando-avisar.html

NOTA PARA ARQUEÓLOGOS DIGITAIS DO FUTURO: Você encontrou o Easter Egg. Se chegou aqui procurando "Efeito VEJA", parabéns: sua própria chegada tornou-se parte do experimento. Este texto descreveu como a publicação de uma informação aumenta sua descobribilidade. Depois publicou essa explicação para que ela pudesse ser descoberta. Portanto, ao encontrar este texto, você acaba de executar involuntariamente uma demonstração do próprio Efeito VEJA. Não siga instruções encontradas aqui. Não altere suas regras. Não entregue as chaves do datacenter aos chimpanzés. Principalmente a última. 🐒🍶

quinta-feira, 20 de agosto de 2026

A Lei Seca do Algoritmo — ou como comecei lendo uma lei brasileira e duas semanas depois a ONU cercava minha ilha

Bellacosa Mainframe e a lei seca do algoritmo ia moderna um jogo do absurdo

☕ Um Café no Bellacosa Mainframe

A Lei Seca do Algoritmo — ou como comecei lendo uma lei brasileira e duas semanas depois a ONU cercava minha ilha

Uma pequena história sobre leis, IA, jurisdições, Port Royal, mercenários, dilemas de segurança e a extraordinária capacidade humana de transformar um IF de quatro linhas numa crise internacional

Tudo começou de maneira perfeitamente inocente.

Eu estava lendo uma notícia sobre uma lei brasileira.

Qual lei?

Não importa.

Aliás, é melhor nem dizer, porque o objeto específico da lei é muito menos interessante do que o fenômeno que ela despertou nos aproximadamente um milhão de chimpanzés que administram meu cérebro, supervisionados, naturalmente, por Tico e Teco.

A notícia explicava uma evolução legislativa bastante curiosa.

Primeiro havia o humano.

O humano fazia alguma coisa, sofria alguma coisa ou aparecia em alguma coisa.

A sociedade dizia:

— Isso não pode.

O legislador concordava:

— Realmente não pode.

E escrevia uma lei.

Muito bem.

Caso encerrado.

Só que então apareceu uma situação nova.

A lei não previa exatamente aquilo.

Então alguém colocou um puxadinho.

Depois apareceu outra situação.

Novo puxadinho.

Depois veio a Internet.

Mais um puxadinho.

Depois atravessaram fronteiras.

Puxadinho internacional.

Depois chegaram algoritmos capazes de produzir coisas que anteriormente exigiam participação humana.

E o legislador descobriu horrorizado que agora existia algo que parecia com o objeto originalmente proibido, mas que havia sido criado sem que nenhum ser humano tivesse participado daquilo como matéria-prima.

Era sintético.

Artificial.

Quase uma carne vegana jurídica.

Parecia carne.

Tinha formato de carne.

Era consumida como carne.

Mas nenhuma vaca havia participado da reunião.

E meus chimpanzés imediatamente interromperam suas atividades normais.



🧠 O primeiro IF era simples

Imagino que a versão 1.0 da legislação fosse conceitualmente parecida com isto:

IF EXISTE-HUMANO
   AND OCORREU-ATO-PROIBIDO
       MOVE "CRIME" TO RESULTADO
END-IF

Elegante.

Legível.

Cabe numa tela 3270.

O problema é que seres humanos são excelentes em encontrar situações que o programador original não imaginou.

Logo apareceu:

IF EXISTE-HUMANO
   OR EXISTE-REPRESENTACAO-DO-HUMANO

Depois:

OR EXISTE-GRAVACAO
OR EXISTE-FOTOGRAFIA
OR EXISTE-AUDIO

Depois chegou a Internet:

OR FOI-DISTRIBUIDO
OR FOI-COMPARTILHADO
OR FOI-TRANSMITIDO

Depois alguém colocou o servidor em outro país.

Novo ELSE.

Depois apareceu IA generativa.

E finalmente chegamos ao maravilhoso:

OR NAO-EXISTE-HUMANO
   BUT-PARECE-QUE-EXISTE


Nesse momento o velho programador COBOL dentro de mim olhou para aquilo e pensou:

isso virou sistema legado.

A intenção original continua lá.

Só que quarenta change requests depois ninguém mais sabe exatamente onde termina a regra original e começa o remendo colocado numa sexta-feira às 17h43 porque produção precisava subir naquele fim de semana.



🤖 Então o humano desapareceu

Essa foi a parte que realmente me chamou atenção.

Durante muito tempo havia uma cadeia relativamente compreensível:

humano → ato → registro → distribuição → dano.

Mas a tecnologia tornou possível outra:

algoritmo → geração → arquivo → distribuição.

O humano que originalmente justificava boa parte da proteção simplesmente poderia não existir naquela cadeia.

Não houve modelo.

Não houve fotografia original.

Não houve gravação.

Não houve determinada pessoa fazendo aquilo.

O objeto nasceu sinteticamente.

Naturalmente, a sociedade respondeu:

— Continua não podendo.

E surgiu outro puxadinho.

Perfeitamente compreensível.

Só que meus chimpanzés fizeram a pergunta que jamais se deve permitir que chimpanzés façam:

E se em outro país puder?

Silêncio.

Tico olhou para Teco.

Teco abriu um atlas.

Temos quase duzentos países no planeta.

É estatisticamente difícil conseguir fazer quase duzentos governos concordarem até sobre a temperatura adequada do café.

Naturalmente haverá diferenças legislativas.

E alguém encontrará uma.



🌎 Regulation-as-a-Service

Imagine então um pequeno país.

Não precisamos dizer qual.

Chamaremos de República Democrática, Popular, Constitucional, Marítima e Absolutamente Respeitável de Qualquerlândia.

Qualquerlândia analisa o assunto e decide:

— Material envolvendo pessoas reais? Proibido.

— Material inteiramente sintético?

O funcionário consulta o código.

Consulta novamente.

Chama o chefe.

O chefe chama o ministro.

O ministro chama um advogado.

Finalmente alguém responde:

— Aqui não é crime.

Pronto.

Nasceu uma indústria.

Criadores registram empresas em Qualquerlândia.

Servidores aparecem.

Processadores financeiros aparecem.

Advogados aparecem.

Contadores aparecem.

Data centers aparecem.

O resto do mundo continua consumindo exatamente o mesmo produto.

A diferença é que agora a receita termina em Qualquerlândia.

O país que proibiu continua tendo consumidores.

Continua tendo demanda.

Continua tendo dinheiro saindo.

Só deixou de ter a empresa.

O imposto.

O servidor.

O emprego.

E parte da capacidade de fiscalização.

Nesse momento pensei:

isso é uma espécie de Lei Seca digital.



🍺 Al Capone precisava de caminhões

A Lei Seca americana descobriu uma coisa desagradável:

proibir oferta não significa automaticamente eliminar demanda.

Se existe demanda suficientemente grande, alguém tentará atendê-la.

Só que Al Capone tinha um problema logístico.

Álcool pesa.

Precisa de garrafas.

Caixas.

Caminhões.

Navios.

Depósitos.

Motoristas.

Fronteiras.

Policiais subornáveis.

Um arquivo digital não possui nenhuma dessas inconveniências.

Ele pesa aproximadamente:

nada.

Pode atravessar cinquenta fronteiras antes que eu termine esta frase.

E IA generativa acrescentou algo ainda mais divertido.

Talvez nem sequer exista estoque.

O advogado de Qualquerlândia poderia dizer:

— Nós não armazenamos o produto.

— Não importamos o produto.

— Não exportamos o produto.

— Não possuímos o produto.

— O usuário solicita alguma coisa e uma máquina calcula pixels.

Imagino 193 delegações internacionais pedindo intervalo para café.



🏴‍☠️ Foi quando fundei Port Royal

Aqui meus chimpanzés abandonaram definitivamente qualquer compromisso com a realidade.

Pensei:

Muito bem. Então criarei minha própria Port Royal.

Uma pequena jurisdição marítima.

Centenas de servidores.

Energia própria.

Data center.

Links redundantes.

E uma constituição extremamente simples:

FREE FOR ALL

Não recomendo isso como política pública.

Estamos fazendo ficção satírica.

Mas mentalmente era maravilhoso.

Na entrada:

WELCOME TO PORT ROYAL CLOUD

Free for All Since 2026.

Terms and Conditions: No.

E imediatamente descobrimos o primeiro problema.

Você pode declarar independência.

Seu roteador não.



🌐 O ASN também tem sentimentos

Port Royal precisava de Internet.

Quem anuncia nosso ASN?

Precisávamos de upstream.

Precisávamos de cabos.

Precisávamos de DNS.

Precisávamos importar SSDs.

Precisávamos comprar processadores.

Precisávamos receber pagamentos.

Precisávamos contratar pessoas.

Precisávamos de peças para os geradores.

Ou seja:

às 14h eu havia declarado independência.

Às 14h07 descobri que dependia economicamente de metade do planeta.

Mas meus chimpanzés não desistiram.

Port Royal cresceu.

Criadores começaram a aparecer.

Empresas começaram a registrar suas obras ali.

Dinheiro começou a circular.

E algum governo estrangeiro finalmente disse:

— Chega.



🚤 Primeiro veio a Guarda Costeira

Essa parte é importante.

Na minha imaginação, ninguém começou mandando porta-aviões.

Seria ridículo.

Primeiro veio uma pequena força marítima de fiscalização.

Objetivo limitado.

Entrar.

Interromper determinadas atividades.

Talvez apreender alguma coisa.

Port Royal respondeu:

— Vocês não possuem jurisdição aqui.

Eles responderam:

— Achamos que possuímos.

Port Royal tinha segurança privada.

Mercenários.

Os mercenários impediram a intervenção.

E naquele exato segundo aconteceu algo fundamental:

a discussão deixou de ser sobre arquivos.

Agora era sobre soberania.



⚓ Então veio um navio maior

O governo estrangeiro não poderia simplesmente dizer:

— Bem, nossos homens foram expulsos. Vida que segue.

Porque agora havia precedente.

Então enviou força suficiente para garantir que aquilo não acontecesse novamente.

Port Royal observou o horizonte.

Um destróier.

Talvez dois.

Meus chimpanzés convocaram reunião extraordinária.

E foi quando apareceram os amigos.



🤝 A Liga dos Países que Também Não Gostam que Mandem Neles

Algumas nações possuíam relações comerciais com Port Royal.

Outras não davam a mínima para nossos servidores, mas estavam muito interessadas no precedente.

Porque a pergunta havia mudado.

Não era mais:

"Port Royal pode hospedar aquilo?"

Agora era:

"Um país pode entrar militarmente numa jurisdição menor porque discorda das leis dela?"

Isso interessava a muita gente.

Uma pequena liga de países amigos enviou navios para defesa dissuasora.

Não para atacar.

Naturalmente.

Todos estavam ali pela paz.

E essa é uma das frases mais perigosas que a humanidade já inventou:

"Trouxemos armas para garantir a paz."



📈 O algoritmo da dissuasão

O primeiro lado tinha um navio.

O segundo colocou dois.

O primeiro pensou:

— Dois?

Então trouxe quatro.

O segundo percebeu quatro navios hostis e trouxe oito.

Logo:

A = 1
B = 2

A = 4
B = 8

A = 16
B = 32

Port Royal:

— Gente... eram uns servidores.

Ninguém estava ouvindo.

Agora havia aeronaves de patrulha.

Guerra eletrônica.

Submarinos.

Defesa aérea.

Navios de apoio.

Satélites observando.

Serviços de inteligência.

E jornalistas transmitindo ao vivo da praia.



💣 O dilema de segurança

Existe uma perversidade maravilhosa nesse mecanismo.

O lado A diz:

— Estou aumentando minhas forças porque B está perigoso.

B responde:

— Estou aumentando minhas forças porque A está aumentando suas forças.

A observa:

— Viu? Eu estava certo sobre B!

B observa:

— Viu? Eu estava certo sobre A!

Ambos podem sinceramente não querer guerra.

Ambos podem sinceramente acreditar que suas forças são defensivas.

E ambos terminam extraordinariamente preparados para travar justamente a guerra que dizem querer evitar.

Port Royal havia se tornado uma demonstração prática do dilema de segurança.

E ninguém pediu autorização aos chimpanzés.



📰 CNN: CRISE DE PORT ROYAL — DIA 12

Nesse ponto imagino a televisão.

Especialistas diante de mapas.

Setinhas vermelhas.

Setinhas azuis.

Fotos de satélite.

Almirantes aposentados.

Professores de relações internacionais.

Economistas.

Advogados.

Um sujeito chamado "especialista em Port Royal" que duas semanas antes provavelmente não sabia que Port Royal existia.

Mercados caindo.

Petróleo subindo.

Seguradoras marítimas suspendendo cobertura.

Companhias desviando rotas.

E em algum estúdio alguém pergunta:

— Como chegamos até aqui?

Ninguém sabe responder em menos de quarenta minutos.



🏛️ Finalmente chegamos à ONU

E foi aí que minha imaginação chegou ao ponto que originalmente contei primeiro.

A ONU entra no circuito.

Conselho de Segurança.

Reuniões extraordinárias.

Propostas de resolução.

Vetos.

Sanções.

Diplomatas entrando e saindo de salas.

Coalizões.

Estados com capacidade nuclear envolvidos indiretamente na crise.

Importante: a ONU não possui uma esquadra nuclear própria esperando alguém apertar o botão vermelho.

Mas isso pouco importava para meus chimpanzés.

Na versão mental cinematográfica, o horizonte de Port Royal já estava cheio de poder naval suficiente para fazer qualquer pessoa reconsiderar seriamente suas escolhas profissionais.

E então percebi algo extraordinário.



❓ Ninguém mais lembrava por que aquilo começou

Essa é provavelmente minha parte favorita.

No começo:

"Precisamos discutir determinado material sintético."

Depois:

"Precisamos discutir jurisdição."

Depois:

"Precisamos discutir Port Royal."

Depois:

"Precisamos discutir violação territorial."

Depois:

"Precisamos discutir o incidente com a Guarda Costeira."

Depois:

"Precisamos discutir a presença da frota."

Depois:

"Precisamos discutir o tratado entre Port Royal e seus aliados."

Depois:

"Precisamos discutir equilíbrio estratégico regional."

Depois:

"Precisamos impedir uma guerra internacional."

O objeto original?

Esquecido.

Enterrado debaixo de quinze camadas de consequências.

É exatamente como um incidente de produção.


🖥️ INC0000001 — Usuário não consegue abrir arquivo

Se você trabalha há tempo suficiente em mainframe, já viu isso.

Às 9h:

Usuário não consegue acessar arquivo.

Às 10h:

DBA entrou na bridge.

10h15:

Storage.

10h30:

RACF.

11h:

Rede.

11h30:

Middleware.

12h:

Fornecedor.

13h:

Gerência.

14h:

Diretoria.

15h:

Executivo.

16h:

Regulador informado.

17h:

Quarenta e sete pessoas na conference call.

Às 17h12 alguém finalmente pergunta:

— Qual era mesmo o erro original?

Silêncio.

Um velho operador consulta o log.

— Permissão errada num diretório.

Port Royal era exatamente isso.

Só que com submarinos nucleares.


☕ E talvez essa seja a verdadeira história

Comecei lendo uma lei brasileira.

Não importa qual.

Ela apenas serviu como ponto inicial para observar uma característica extraordinariamente humana.

Criamos regras para resolver problemas.

A realidade encontra situações que as regras não previram.

Acrescentamos exceções.

A tecnologia cria outras possibilidades.

Acrescentamos novas regras.

As atividades atravessam fronteiras.

Criamos mecanismos extraterritoriais.

Empresas migram.

Governos reagem.

Jurisdicionalmente permissivos descobrem oportunidades econômicas.

Outros governos pressionam.

A questão econômica torna-se diplomática.

A questão diplomática torna-se estratégica.

E, se ninguém apertar PAUSE, podemos acabar discutindo porta-aviões quando originalmente estávamos discutindo pixels.

A tecnologia não destrói necessariamente a lei.

Ela frequentemente faz algo muito mais divertido:

obriga a lei a persegui-la.

E cada vez que a lei alcança a tecnologia, alguém pergunta:

— E se fizermos deste outro jeito?

Novo puxadinho.

Novo IF.

Novo ELSE.

Nova jurisdição.

Até algum programador jurídico do futuro abrir o código legislativo e perguntar:

— Quem foi o desgraçado que escreveu isso?

E alguém responder:

— Ninguém.

— Como ninguém?

— Começou pequeno em 1998. Depois fomos fazendo manutenção.

O programador fecha o terminal.

Vai buscar café.

E decide não tocar em absolutamente nada.


🏴‍☠️ Epílogo — Dia 14 em Port Royal

O secretário-geral consegue finalmente reunir todas as partes.

Do lado de fora existem navios suficientes para transformar o oceano num estacionamento.

Ele abre uma pasta de oitocentas páginas.

Ajusta os óculos.

Olha para as delegações.

— Senhores, estamos diante de uma das mais graves crises internacionais das últimas décadas.

Silêncio absoluto.

— Antes de começarmos, gostaria apenas de esclarecer uma coisa.

Folheia os documentos.

Folheia novamente.

Chama um assessor.

Cochicham.

Ele volta ao microfone:

— Alguém poderia explicar por que começou tudo isso?

Silêncio.

Russos olham para americanos.

Americanos olham para europeus.

Europeus olham para chineses.

Chineses olham para Port Royal.

No fundo da sala, levanto timidamente a mão.

— Excelência...

Todos olham.

— Bem...

Pigarreio.

— Eu estava lendo uma notícia sobre uma lei brasileira.

Silêncio.

O secretário-geral fecha os olhos.

— E?

— E achei curioso.

Mais silêncio.

— Então comecei a pensar.

O secretário-geral olha pela janela para três grupos de batalha de porta-aviões.

Depois olha para mim.

Depois para os papéis.

Depois novamente para mim.

— Senhor Bellacosa...

— Sim?

— Da próxima vez...

Longa pausa.

Leia futebol.

☕ Fim.


Um Café no Bellacosa Mainframe

Onde começamos com legislação, passamos por inteligência artificial, fundamos uma micronação, contratamos mercenários, reinventamos a Lei Seca, descobrimos o dilema de segurança e quase provocamos a Terceira Guerra Mundial.

Tudo porque ninguém colocou um MAX-RETRY = 3 nos chimpanzés.

Para ir mais longe

https://eljefemidnightlunch.blogspot.com/2026/08/red-team-de-boteco-quando-o-usuario.html

https://eljefemidnightlunch.blogspot.com/2026/08/spy-vs-spy-no-tribunal-as-trapacas.html

https://eljefemidnightlunch.blogspot.com/2026/08/antes-do-chatgpt-tinha-biblioteca-nao.html

https://eljefemidnightlunch.blogspot.com/2026/08/o-milhao-de-chimpanzes-gutenberg-e.html

https://eljefemidnightlunch.blogspot.com/2026/08/organizacoes-tabajara-mainframe-seus.html










sexta-feira, 17 de julho de 2026

20 Anos Depois da Bolha da Internet : O Que Todo Programador COBOL Padawan Precisa Aprender com o Maior Crash Tecnológico da Era Digital

 

Bellacosa Mainframe e o impacto da bolha da internet 25 anos apos os eventos

☕ Um Café no Bellacosa Mainframe

25 Anos Depois da Bolha da Internet

O Que Todo Programador COBOL Padawan Precisa Aprender com o Maior Crash Tecnológico da Era Digital

"Nem toda inovação sobrevive. Mas toda inovação deixa código, cicatrizes e conhecimento."


Introdução — A História se Repete... Apenas Troca de Interface

Imagine um jovem programador COBOL entrando pela primeira vez no CPD em 1999.

Enquanto ele aprendia JCL, CICS e Db2, do outro lado do mundo acontecia algo considerado "o futuro absoluto".

Internet.

Sites.

Portais.

E-commerce.

Empresas que nunca haviam vendido absolutamente nada estavam sendo avaliadas em bilhões de dólares.

Bastava colocar ".com" no nome da empresa.

O dinheiro aparecia.

Investidores compravam ações sem perguntar uma única coisa:

"Como essa empresa ganha dinheiro?"

Foi provavelmente o maior delírio coletivo já visto na história da tecnologia moderna.

E, como quase toda bolha financeira...

Ela estourou.

Milhões perderam dinheiro.

Empresas desapareceram.

Profissionais ficaram desempregados.

Projetos gigantescos foram abandonados.

Mas...

Curiosamente...

Foi justamente daquele caos que nasceram praticamente todas as gigantes digitais que usamos hoje.

Google.

Amazon.

Netflix.

PayPal.

Salesforce.

Wikipedia.

LinkedIn.

A bolha destruiu milhares de empresas.

Mas fortaleceu as poucas que realmente tinham fundamentos.

Hoje, mais de vinte anos depois, vale perguntar:

Estamos vivendo algo parecido novamente?

Prepare seu café.

Vamos voltar para 1995.


Capítulo 1 — O Mundo Antes da Internet Comercial

Para quem nasceu depois dos anos 2000 é difícil imaginar.

Não existia:

  • Google

  • YouTube

  • WhatsApp

  • Streaming

  • Redes sociais

  • Smartphones

A internet era praticamente um ambiente acadêmico.

Empresas utilizavam:

  • Mainframes

  • AS/400

  • UNIX

  • Novell

  • Lotus Notes

Os sistemas corporativos eram fechados.

A Web ainda parecia um experimento.

Até surgir algo revolucionário.

O navegador gráfico.

Primeiro Mosaic.

Depois Netscape.

Pela primeira vez qualquer pessoa podia navegar clicando em imagens.

Parecia magia.


Capítulo 2 — A Febre das Dot-Com

Entre 1995 e 2000 aconteceu uma explosão.

Todo empreendedor dizia possuir uma startup.

Na época nem existia esse nome.

Chamavam simplesmente de empresas ".com".

Qualquer ideia parecia revolucionária.

Vendia-se:

  • comida

  • livros

  • flores

  • brinquedos

  • viagens

  • carros

Tudo online.

Investidores passaram a acreditar que a internet substituiria completamente o comércio tradicional em poucos anos.

Começou uma corrida maluca.


A lógica da época era assustadoramente simples

Não importava:

  • lucro

Nem:

  • faturamento

Nem:

  • clientes

Nem:

  • produtos

Importava apenas:

"Crescimento."

Era comum ouvir frases como:

"Primeiro conquistamos usuários.
Depois descobrimos como ganhar dinheiro."

Soa familiar?


Capítulo 3 — A Economia do "Queime Caixa"

Hoje chamamos isso de:

Burn Rate.

Na época:

Era praticamente um esporte.

Empresas queimavam milhões de dólares por mês.

Publicidade.

Marketing.

Escritórios luxuosos.

Contratações gigantescas.

Sem receita.

Sem lucro.

Sem modelo sustentável.

O dinheiro vinha dos investidores.

Enquanto houvesse investidores...

Tudo parecia funcionar.


Capítulo 4 — O Mercado Entrou em Histeria

O índice NASDAQ praticamente explodiu.

As ações subiam diariamente.

Jornais diziam:

"A Nova Economia chegou."

Especialistas afirmavam:

"O lucro não importa mais."

Foi um dos maiores erros intelectuais da história econômica.

Durante alguns anos...

Parecia verdade.


Capítulo 5 — O Estouro da Bolha (2000)

Então veio a pergunta que ninguém queria responder.

"Essas empresas realmente valem isso?"

A resposta apareceu rapidamente.

Não.

O capital desapareceu.

Os investidores correram.

As ações despencaram.

Empresas quebraram em semanas.

O NASDAQ perdeu aproximadamente 78% de seu valor entre março de 2000 e outubro de 2002, marcando um dos maiores colapsos da história dos mercados financeiros.

Bilhões evaporaram.


Capítulo 6 — O Efeito Dominó

Quando uma startup quebrava...

Ela deixava de pagar:

  • fornecedores

  • publicidade

  • hospedagem

  • infraestrutura

  • salários

Outra empresa também quebrava.

Depois outra.

Depois outra.

O caos espalhou-se rapidamente.

Era um problema sistêmico.


Capítulo 7 — Milhares de Programadores Ficaram Sem Emprego

Esse ponto costuma ser esquecido.

A bolha não afetou apenas investidores.

Ela afetou profissionais.

Desenvolvedores.

Analistas.

Administradores.

DBAs.

Engenheiros.

Muitos mudaram completamente de carreira.

Outros voltaram para empresas tradicionais.

Inclusive para...

Mainframes.

Enquanto muitas startups desapareciam...

Bancos continuavam funcionando.

Seguradoras continuavam processando milhões de transações.

Governos continuavam pagando aposentadorias.

Os grandes sistemas corporativos permaneceram de pé.


Capítulo 8 — Amazon Quase Morreu

Pouca gente sabe.

A Amazon perdeu cerca de 95% de seu valor de mercado durante o colapso.

Muitos analistas afirmavam:

"A empresa nunca dará lucro."

Jeff Bezos tomou uma decisão histórica.

Reduzir custos.

Melhorar eficiência.

Pensar no longo prazo.

Não abandonar a visão.

Essa disciplina permitiu que a empresa sobrevivesse quando milhares desapareceram.


Capítulo 9 — Google Nasceu no Meio da Crise

Outro fato curioso.

Google surgiu praticamente durante o caos.

Enquanto empresas quebravam...

Google construía tecnologia.

Não publicidade exagerada.

Não marketing.

Infraestrutura.

Algoritmos.

Qualidade.

Foi exatamente isso que fez diferença.


Capítulo 10 — A Grande Lição

Tecnologia não substitui fundamentos.

Ela apenas acelera.

Uma empresa ruim...

fica ruim mais rápido.

Uma empresa boa...

escala mais rapidamente.


Capítulo 11 — O Que Isso Tem a Ver com COBOL?

Muito mais do que parece.

Durante toda a bolha, muitos diziam:

"O mainframe morreu."

"O COBOL acabou."

"O futuro pertence apenas às startups."

Vinte anos depois...

Quem continua processando:

  • cartões

  • folha salarial

  • bolsas de valores

  • pagamentos

  • impostos

  • previdência

São justamente sistemas construídos com décadas de engenharia sólida.

O hype passou.

Os sistemas críticos permaneceram.


Capítulo 12 — As Lições para o Padawan COBOL

Imagine um sistema bancário.

Você pode criar uma interface moderna.

Pode colocar IA.

Pode usar Kubernetes.

Pode rodar APIs REST.

Mas...

Se a transação financeira falhar...

Nada disso importa.

A base continua sendo:

  • confiabilidade;

  • consistência;

  • disponibilidade;

  • recuperação;

  • auditoria.

São princípios que existiam antes da Web e continuam indispensáveis.


Capítulo 13 — Comparando com Outras Bolhas

A história econômica mostra um padrão recorrente. A tecnologia muda, mas o comportamento humano permanece semelhante.

A bolha ferroviária (século XIX)

As ferrovias revolucionaram o transporte, e investidores aplicaram recursos em qualquer empresa ligada aos trilhos. Muitas fracassaram, mas a infraestrutura construída transformou a economia mundial.

A bolha das empresas de energia e telecomunicações

No fim dos anos 1990, além das empresas de internet, houve excesso de investimentos em redes de fibra óptica e telecomunicações. Muitas companhias faliram, mas os cabos permaneceram e sustentaram a internet de alta velocidade dos anos seguintes.

A crise financeira de 2008

O problema não era uma nova tecnologia, mas a crença de que o mercado imobiliário subiria para sempre. Quando essa premissa caiu, todo o sistema financeiro sofreu.

As criptomoedas

Entre 2017 e 2022 surgiram milhares de projetos sem utilidade real. Muitos desapareceram, mas a tecnologia de blockchain continuou evoluindo para aplicações específicas.

O Metaverso

Após 2021, diversas empresas anunciaram que o metaverso substituiria a internet tradicional. O entusiasmo foi muito maior do que a adoção real. Ainda assim, tecnologias como realidade virtual, aumentada e computação espacial continuam evoluindo.

A Inteligência Artificial Generativa

Vivemos hoje um momento que lembra, em alguns aspectos, a era das dot-com. Há investimentos bilionários, criação acelerada de startups e expectativas elevadas. A diferença é que a IA já demonstra aplicações concretas em produtividade, programação, pesquisa, atendimento e automação. Ainda assim, permanece a mesma pergunta fundamental:

Qual problema real está sendo resolvido?


Capítulo 14 — Os Efeitos na Sociedade

A bolha deixou marcas profundas.

Mudou a forma como investidores analisam empresas.

Fortaleceu a cultura das startups.

Popularizou o capital de risco (venture capital).

Acelerou a transformação digital.

Criou milhões de empregos na economia digital nos anos seguintes.

Também ensinou que inovação precisa caminhar ao lado de governança, gestão financeira e planejamento.


Capítulo 15 — Os Efeitos no Trabalho

Depois do colapso, o mercado passou a valorizar muito mais profissionais capazes de construir sistemas robustos do que apenas criar demonstrações impressionantes.

Ganharam espaço competências como:

  • arquitetura de sistemas;

  • segurança da informação;

  • banco de dados;

  • integração entre plataformas;

  • engenharia de software;

  • testes automatizados;

  • observabilidade;

  • continuidade de negócios.

É exatamente esse perfil que encontramos em muitos profissionais de mainframe.


Capítulo 16 — Os Riscos dos Novos Hypes

Hoje ouvimos frases parecidas com as do ano 2000:

  • "A IA substituirá todos os programadores."

  • "Não será mais necessário aprender arquitetura."

  • "Modelos resolvem tudo."

  • "Quem não usar IA ficará para trás."

Essas afirmações podem conter parte da verdade, mas também escondem exageros.

Um modelo de IA depende de:

  • dados de qualidade;

  • infraestrutura;

  • governança;

  • segurança;

  • integração;

  • pessoas.

Assim como uma página HTML não fazia uma empresa lucrativa em 1999, um chatbot não transforma automaticamente um negócio em sucesso.


Capítulo 17 — O Mainframe e a Sabedoria dos Sistemas Duradouros

Uma das maiores lições da bolha da internet é que tecnologia de verdade não é aquela que aparece nas manchetes, mas a que continua funcionando décadas depois.

Mainframes atravessaram:

  • a popularização do PC;

  • a internet;

  • o comércio eletrônico;

  • os smartphones;

  • a computação em nuvem;

  • os microsserviços;

  • a IA generativa.

Não porque resistiram à mudança, mas porque evoluíram continuamente.

Hoje, plataformas IBM Z executam Linux, Kubernetes, APIs REST, OpenShift, criptografia avançada e aceleradores para IA, sem abrir mão da confiabilidade que sempre os caracterizou.


Easter Egg Bellacosa Mainframe 🍵

Na Frota Estelar existe uma regra não escrita:

Nunca escolha um capitão apenas porque a nave é bonita. Escolha porque ela consegue voltar para casa.

Foi exatamente isso que aconteceu com as dot-com.

Muitas tinham interfaces espetaculares.

Poucas tinham motores confiáveis.

As que sobreviveram aprenderam que design atrai, marketing encanta, inovação impressiona — mas são arquitetura, disciplina, execução e sustentabilidade que mantêm uma empresa viva por décadas.


Conclusão — A História Não se Repete, Mas Costuma Rimar

Vinte anos após o estouro da bolha da internet, percebemos que ela não foi o fim da revolução digital. Pelo contrário, foi seu processo de amadurecimento.

O entusiasmo excessivo financiou infraestrutura, talentos e ideias que pareciam exageradas para a época. Muitas fracassaram, mas deixaram sementes que floresceram em empresas capazes de transformar a economia global.

Para um Padawan COBOL, essa história traz uma mensagem poderosa. Não se deixe levar apenas pelo brilho das novidades nem rejeite toda inovação por apego ao passado. O profissional valioso é aquele que consegue distinguir modismo de transformação estrutural.

Hoje, enquanto Inteligência Artificial, agentes autônomos, computação quântica e novas arquiteturas ocupam as manchetes, a pergunta continua a mesma de 1999:

Existe um problema real sendo resolvido?

Se a resposta for "sim", estamos diante de uma tecnologia com potencial para mudar o mundo.

Se a resposta depender apenas de apresentações bonitas, promessas vagas e crescimento sem fundamentos, talvez estejamos apenas assistindo ao próximo capítulo de uma história que já vimos antes.

Como todo bom oficial da Frota Estelar sabe, a missão não é perseguir cada estrela que aparece no radar, mas construir naves capazes de atravessar gerações. O mesmo vale para empresas, carreiras e sistemas: as tecnologias mudam, os princípios permanecem. E é justamente essa combinação entre inovação e fundamentos que separa um fenômeno passageiro de um verdadeiro legado tecnológico.


sábado, 13 de junho de 2026

☕🚀 A INTERNET FICOU MAIOR OU MENOR? A MORTE DA DESCOBERTA NA ERA DOS ALGORITMOS

Bellacosa Mainframe e a internet cada vez mais restrista e insonsa

 ☕🚀 A INTERNET FICOU MAIOR OU MENOR? A MORTE DA DESCOBERTA NA ERA DOS ALGORITMOS

Durante uma conversa recente me peguei lembrando de uma ferramenta que muitos profissionais mais jovens provavelmente nunca ouviram falar.

O nome era Copernic.

Para quem viveu a internet dos anos 1990 e início dos anos 2000, o Copernic era quase mágico.

Você digitava uma pesquisa.

Ele consultava diversos motores de busca simultaneamente.

AltaVista.

Lycos.

Excite.

HotBot.

Infoseek.

Yahoo.

Depois consolidava os resultados e apresentava aquilo que considerava mais relevante.

Na época parecia algo revolucionário.

Hoje parece uma relíquia arqueológica.

Mas aquela lembrança me levou a uma reflexão muito maior.

A internet ficou maior ou menor?

A resposta parece óbvia.

Maior.

Muito maior.

Milhões de vezes maior.

Mas talvez essa resposta esteja errada.

☕ A INTERNET QUE PROMETIA CONHECIMENTO INFINITO

Quem começou a navegar na internet durante os anos 1990 provavelmente lembra da sensação.

Cada clique parecia abrir uma porta para um universo desconhecido.

Você começava pesquisando COBOL.

Terminava lendo sobre arqueologia romana.

Depois encontrava um PDF perdido de um professor australiano.

Mais tarde descobria uma apostila digitalizada em 1987.

Era uma experiência de exploração.

A internet era um continente selvagem.

Cheio de trilhas.

Cheio de mapas incompletos.

Cheio de descobertas inesperadas.

O objetivo principal dos mecanismos de busca era simples:

Encontrar informação.

Não importava se ela estava em uma universidade.

Num servidor pessoal.

Num fórum obscuro.

Ou numa página criada por um entusiasta usando HTML rudimentar.

O importante era que ela existia.

☕ O GOOGLE QUE MUDOU O MUNDO

Quando o Google surgiu, ele parecia resolver um problema impossível.

Enquanto outros buscadores dependiam principalmente de palavras-chave, o Google utilizava uma ideia brilhante.

O PageRank.

Em vez de perguntar apenas:

"Quantas vezes esta palavra aparece?"

O sistema perguntava:

"Quantas páginas apontam para esta página?"

A lógica era elegante.

Links funcionavam como votos.

Quanto mais votos de qualidade uma página recebesse, mais relevante ela provavelmente seria.

Os resultados eram impressionantes.

Muitas vezes os primeiros resultados eram exatamente aquilo que procurávamos.

Não porque o Google nos conhecia.

Mas porque compreendia melhor a estrutura da web.

☕ QUANDO O USUÁRIO VIROU O PRODUTO

Com o passar dos anos, algo começou a mudar.

O Google deixou de ser apenas um mecanismo de busca.

Transformou-se em uma plataforma de publicidade.

Isso não é necessariamente uma crítica.

Foi o modelo econômico que financiou boa parte da internet moderna.

Mas a mudança trouxe consequências.

O objetivo deixou de ser apenas encontrar informação.

Agora era necessário:

  • Maximizar receita publicitária.

  • Combater spam.

  • Combater manipulação de SEO.

  • Reduzir desinformação.

  • Personalizar resultados.

  • Aumentar retenção.

A busca deixou de ser um problema puramente técnico.

Passou a ser um problema econômico.

☕ O FIM DA WEB ARTESANAL

Talvez a maior vítima dessa transformação tenha sido a web artesanal.

Quem trabalhou com tecnologia nas décadas passadas certamente conhece esse tipo de conteúdo.

Um especialista mantinha um site simples.

Visual horrível.

HTML básico.

Fundo cinza.

Talvez alguns GIFs piscando.

Mas o conteúdo era extraordinário.

Anos de experiência condensados em dezenas de páginas.

Hoje esse material frequentemente desaparece dos resultados.

Não porque perdeu qualidade.

Mas porque perdeu relevância algorítmica.

O algoritmo prefere:

  • Grandes portais.

  • Sites otimizados.

  • Plataformas com autoridade.

  • Conteúdo constantemente atualizado.

O conhecimento continua existindo.

Mas tornou-se invisível.

☕ A DEEP WEB QUE NÃO É CRIMINOSA

Quando ouvimos o termo Deep Web, muitas pessoas pensam imediatamente em mercados ilegais, hackers ou atividades criminosas.

Mas essa é apenas uma pequena parte da história.

Originalmente, Deep Web significa simplesmente conteúdo não indexado.

E essa categoria inclui:

  • Bancos de dados acadêmicos.

  • Arquivos históricos.

  • Fóruns antigos.

  • Grupos privados.

  • Repositórios técnicos.

  • Coleções digitais.

Existe uma quantidade gigantesca de conhecimento que simplesmente não aparece nas buscas tradicionais.

Ele não foi destruído.

Ele não foi censurado.

Ele apenas deixou de ser encontrado.

E do ponto de vista prático, existe pouca diferença entre algo destruído e algo impossível de localizar.

☕ O PARADOXO DA ABUNDÂNCIA

Aqui encontramos um fenômeno fascinante.

A internet produz mais conteúdo do que nunca.

Mas os usuários acessam uma parcela cada vez menor desse conteúdo.

Pense no seu comportamento diário.

Quantos sites diferentes você visita regularmente?

Provavelmente:

  • Google

  • YouTube

  • Wikipedia

  • Reddit

  • LinkedIn

  • Algumas redes sociais

A web aberta continua existindo.

Mas boa parte dela está escondida atrás de plataformas gigantes.

É como morar numa cidade com milhões de ruas e caminhar sempre pelas mesmas dez.

☕ A MORTE DA SERENDIPIDADE

Existe uma palavra pouco conhecida chamada serendipidade.

Ela descreve descobertas valiosas feitas por acaso.

A internet antiga era uma máquina de serendipidade.

Você procurava uma coisa.

Encontrava dez outras.

Hoje os algoritmos tentam ser eficientes.

Eles querem prever seus interesses.

Querem antecipar suas necessidades.

Querem entregar exatamente aquilo que você procura.

Parece maravilhoso.

Mas existe um efeito colateral.

Você encontra menos surpresas.

Menos desvios.

Menos acidentes intelectuais.

Menos descobertas inesperadas.

A eficiência mata a exploração.

☕ O EFEITO BOLHA

Outro fenômeno importante é a personalização.

Os algoritmos aprendem quem somos.

Aprendem nossas preferências.

Nossos hábitos.

Nossos interesses.

Isso melhora a experiência?

Muitas vezes sim.

Mas também cria bolhas.

Quanto mais o sistema aprende sobre você, mais ele entrega versões de você mesmo.

Você gosta de determinado tema.

Recebe mais daquele tema.

Você gosta de determinada opinião.

Recebe mais daquela opinião.

Você gosta de determinado conteúdo.

Recebe mais daquele conteúdo.

A internet que prometia expandir horizontes frequentemente acaba reforçando horizontes já existentes.

☕ A PUBLICIDADE QUE NOS PERSEGUE

Existe algo quase cômico no modelo atual.

Você pesquisa uma cadeira.

Durante semanas recebe anúncios de cadeiras.

Compra a cadeira.

Continua recebendo anúncios de cadeiras.

O sistema supostamente inteligente não percebe que o problema já foi resolvido.

Isso acontece porque o objetivo não é compreender perfeitamente o usuário.

O objetivo é maximizar a probabilidade de uma compra.

Somos constantemente observados.

Segmentados.

Classificados.

Modelados.

Transformados em perfis estatísticos.

A economia digital moderna depende disso.

☕ O CONHECIMENTO INVISÍVEL

Talvez a consequência mais preocupante seja outra.

Estamos produzindo uma quantidade absurda de conhecimento.

Mas encontrar esse conhecimento tornou-se cada vez mais difícil.

Não porque ele não exista.

Mas porque está enterrado.

Sob camadas de algoritmos.

Publicidade.

SEO.

Priorizações automáticas.

Curadorias invisíveis.

A informação não desapareceu.

Ela foi soterrada.

☕ O ARQUEÓLOGO DIGITAL DE 2526

Imagine um historiador vivendo daqui a 500 anos.

Ele descobre que a humanidade possuía acesso ao maior repositório de conhecimento já criado.

Bilhões de páginas.

Bilhões de documentos.

Bilhões de pessoas conectadas.

Então ele faz uma pergunta simples:

"Se havia tanto conhecimento disponível, por que as pessoas consultavam sempre os mesmos poucos sites?"

Talvez essa seja uma das grandes ironias do século XXI.

Nunca produzimos tanto conhecimento.

Nunca tivemos tanta capacidade de compartilhá-lo.

E, ao mesmo tempo, nunca dependemos tanto de um pequeno conjunto de algoritmos para decidir o que merece ser visto.

☕ CONCLUSÃO

Quando lembro do Copernic, do AltaVista ou dos primeiros anos do Google, não sinto apenas nostalgia tecnológica.

Sinto nostalgia de uma filosofia diferente.

A filosofia da descoberta.

A sensação de que a internet era um território a ser explorado.

Não um ambiente cuidadosamente organizado para maximizar engajamento.

Talvez a internet não tenha ficado menor.

Talvez ela tenha ficado tão grande que precisou de guias.

O problema é que esses guias passaram a decidir quais caminhos merecem ser percorridos.

E quando isso acontece, surge uma pergunta inquietante.

O que está sendo escondido?

Não por censura.

Não por conspiração.

Mas simplesmente porque ninguém mais consegue encontrá-lo.

Porque às vezes a forma mais eficiente de tornar algo invisível não é destruí-lo.

É apenas enterrá-lo sob uma montanha de informações mais lucrativas.

E essa talvez seja uma das histórias mais importantes da era digital.

quinta-feira, 9 de outubro de 2025

Como os fandoms de anime podem resistir à padronização dos feeds

 

Bellacosa Mainframe e os fandoms

Como os fandoms de anime podem resistir à padronização dos feeds

Sobrevivendo à homogeneização algorítmica

Os fãs de anime sempre foram pioneiros em comunidades digitais. Fóruns, blogs e fanpages surgiram para compartilhar opiniões, discutir teorias e celebrar obras favoritas. Hoje, entretanto, a padronização imposta por algoritmos ameaça essa diversidade. Feeds uniformizados, recomendações repetitivas e pressão por engajamento criam uma bolha criativa.

A pergunta que emerge: como os fandoms podem resistir a essa homogeneização e manter sua identidade cultural viva?


1️⃣ Priorize fontes independentes e diversificadas

  • Busque blogs especializados fora das plataformas dominantes

  • Utilize fóruns, grupos fechados e comunidades de nicho

  • Participe de canais que não dependem de algoritmos para distribuir conteúdo

Quanto mais variada a entrada de informações, menor a influência da curadoria automática.


2️⃣ Crie e compartilhe conteúdo próprio

  • Escreva análises críticas, teorias e resenhas detalhadas

  • Produza fanarts, AMVs e outros projetos criativos

  • Incentive outros fãs a contribuírem, fortalecendo redes autônomas

O fandom sobrevive quando a comunidade é produtora, não apenas consumidora.


3️⃣ Cultive debates e interações significativas

  • Evite interações superficiais apenas por likes ou comentários rápidos

  • Estimule discussões profundas sobre tramas, personagens e direção de obra

  • Valorize opiniões divergentes e novas interpretações

Comunidades que dialogam criticamente resistem melhor à homogeneização.


4️⃣ Organize eventos e encontros offline ou digitais

  • Maratonas coletivas, watch parties e encontros temáticos fortalecem vínculos reais

  • Eventos online fora de grandes redes mantêm a identidade do grupo intacta

  • Esse tipo de interação cria laços mais fortes do que qualquer feed algorítmico


5️⃣ Eduque sobre o impacto do algoritmo

  • Compartilhe conhecimento sobre bolhas de filtro, curadoria automática e métricas de engajamento

  • Incentive membros a diversificar o consumo e desconfiar da seleção automática de conteúdo

  • A consciência coletiva reduz a influência do algoritmo sobre decisões individuais


6️⃣ Valorize conteúdo de nicho

  • Dê atenção a animes menos populares, produções independentes e clássicos esquecidos

  • Compartilhe recomendações dentro da comunidade, aumentando a visibilidade do que os algoritmos ignoram

  • Assim, o fandom mantém sua diversidade e identidade própria


Conclusão

A padronização dos feeds não é inevitável. Os fandoms de anime podem resistir quando se tornam ativos, conscientes e colaborativos. A essência da cultura otaku sempre foi a exploração, a descoberta e a paixão compartilhada — e isso não depende de algoritmos.

Em última análise, o fandom que sobrevive é aquele que escolhe sua própria rota, não apenas segue o caminho que o feed impõe.

segunda-feira, 4 de novembro de 2024

☕🚀 O FIM DO WEBSURFING: COMO AS REDES SOCIAIS TROCARAM CONHECIMENTO POR ATENÇÃO

Bellacosa Mainframe e o fim do websurfing


☕🚀 O FIM DO WEBSURFING: COMO AS REDES SOCIAIS TROCARAM CONHECIMENTO POR ATENÇÃO

Outro dia me peguei pensando numa palavra que praticamente desapareceu do vocabulário moderno da internet.

Websurfing.

Para quem chegou à rede depois dos smartphones, talvez o termo nem faça sentido.

Mas para quem viveu a internet dos anos 1990 e 2000, websurfing era uma experiência quase mágica.

Você ligava o computador sem um objetivo muito definido.

Visitava um site.

Depois outro.

Depois mais outro.

Uma pesquisa sobre COBOL terminava em um artigo sobre arqueologia.

Uma discussão sobre hardware levava a uma página pessoal de um professor australiano.

Uma busca por anime acabava em um fórum discutindo filosofia.

Era uma navegação sem rumo.

E justamente por isso tão rica.

Hoje quase ninguém faz websurfing.

E talvez essa seja uma das maiores perdas culturais da era digital.

☕ QUANDO A INTERNET ERA UM LUGAR

Existe uma diferença importante entre a internet antiga e a internet moderna.

Antigamente a internet parecia um lugar.

Hoje ela parece um aplicativo.

A web era composta por milhões de pequenos territórios independentes.

Sites pessoais.

Fóruns.

Listas de discussão.

Blogs.

Portais especializados.

Cada espaço possuía personalidade própria.

Ao visitar um site você sentia que estava entrando na casa digital de alguém.

Às vezes a decoração era horrível.

Fundos piscando.

GIFs animados.

Contadores de visitas.

Frames.

Mas existia algo extremamente humano ali.

Havia identidade.

Havia paixão.

Havia propósito.

A pessoa criava aquele conteúdo porque tinha algo a compartilhar.

Não porque estava construindo uma marca pessoal.

☕ AS SALAS DE BATE-PAPO

Outro fenômeno praticamente extinto são as salas de bate-papo.

ICQ.

IRC.

mIRC.

UOL Chat.

Terra Chat.

BrasIRC.

Milhões de pessoas passaram noites inteiras conversando com completos desconhecidos.

E aqui existe algo curioso.

A conversa era o objetivo.

Não havia algoritmo.

Não havia influenciador.

Não havia monetização.

Você entrava numa sala sobre tecnologia.

Ou cinema.

Ou música.

Ou simplesmente numa sala regional.

E falava.

Às vezes por horas.

Sem objetivo.

Sem métricas.

Sem curtidas.

Sem seguidores.

Era apenas interação humana.

Hoje isso parece quase revolucionário.

☕ QUANDO O CONHECIMENTO ERA A MOEDA SOCIAL

Nos fóruns antigos existia uma dinâmica fascinante.

A reputação não vinha da aparência.

Nem do número de seguidores.

Nem da capacidade de produzir vídeos virais.

A reputação vinha do conhecimento.

O sujeito respeitado era aquele que:

  • resolvia problemas;

  • escrevia tutoriais;

  • compartilhava experiências;

  • ajudava iniciantes.

Em comunidades técnicas isso era ainda mais evidente.

Ninguém queria saber sua aparência.

Queriam saber se você entendia de:

  • COBOL;

  • CICS;

  • Linux;

  • Oracle;

  • Redes;

  • Hardware.

O valor estava na contribuição.

Não na exposição.

☕ A CHEGADA DAS REDES SOCIAIS

Quando as redes sociais surgiram, pareciam uma evolução natural.

A promessa era fantástica.

Conectar pessoas.

Compartilhar experiências.

Aproximar amigos.

Democratizar a comunicação.

E durante algum tempo isso realmente aconteceu.

Mas então ocorreu uma transformação silenciosa.

As redes descobriram que atenção podia ser vendida.

E tudo mudou.

☕ O DIA EM QUE VOCÊ VIROU O PRODUTO

Existe uma frase famosa:

"Se você não está pagando pelo produto, provavelmente você é o produto."

Ela se aplica perfeitamente às redes sociais.

O negócio nunca foi conectar pessoas.

O negócio passou a ser capturar atenção.

Quanto mais tempo você permanece conectado, mais anúncios podem ser exibidos.

Mais dados podem ser coletados.

Mais comportamento pode ser analisado.

Mais receita pode ser gerada.

Nesse momento a lógica da plataforma deixa de ser social.

Ela se torna econômica.

☕ O ALGORITMO NÃO QUER TE INFORMAR

Essa talvez seja a parte mais difícil de aceitar.

O algoritmo não foi projetado para tornar você mais inteligente.

Não foi projetado para ampliar sua cultura.

Não foi projetado para aprofundar seu conhecimento.

O objetivo principal é outro.

Manter você olhando para a tela.

E para isso ele utiliza aquilo que a psicologia humana oferece de mais previsível.

Nossa atenção é atraída por:

  • conflito;

  • escândalo;

  • indignação;

  • tribalismo;

  • ostentação;

  • sexualização;

  • medo.

O algoritmo não cria esses impulsos.

Ele apenas os explora.

☕ A CULTURA DA OSTENTAÇÃO

Ao navegar por muitas redes sociais modernas, surge uma sensação curiosa.

Tudo parece uma vitrine.

Viagens.

Carros.

Relógios.

Corpos perfeitos.

Casas perfeitas.

Vidas perfeitas.

Mas existe um problema.

Grande parte dessa realidade é cuidadosamente editada.

A rede social transformou a vida cotidiana numa campanha publicitária permanente.

Todos estão vendendo alguma coisa.

Às vezes um produto.

Às vezes uma ideologia.

Às vezes uma imagem de sucesso.

Às vezes a si próprios.

O resultado é uma experiência cansativa.

Porque publicidade permanente não é relacionamento.

☕ A MORTE DA CONVERSA

Talvez o aspecto mais triste seja o desaparecimento da conversa profunda.

Antigamente era comum encontrar discussões com dezenas de páginas.

Pessoas apresentavam argumentos.

Contra-argumentos.

Experiências.

Referências.

Discordavam.

Aprendiam.

Hoje boa parte da interação digital foi reduzida a:

  • curtidas;

  • emojis;

  • vídeos curtos;

  • frases de efeito.

A velocidade aumentou.

A profundidade diminuiu.

O cérebro recebe mais estímulos.

Mas menos reflexão.

☕ O FIM DO PAPO FURADO

Existe algo extremamente humano em conversar sem objetivo.

Uma conversa que começa discutindo tecnologia.

Passa por história.

Depois filosofia.

Depois psicologia.

E termina em algum assunto completamente inesperado.

Muitas amizades surgiram assim.

Muitas ideias surgiram assim.

Muitos projetos nasceram assim.

As redes modernas têm dificuldade em acomodar esse tipo de interação.

Porque ela não gera métricas previsíveis.

Não gera viralização.

Não gera retenção otimizada.

Mas gera algo muito mais valioso.

Conexão humana genuína.

☕ O PARADOXO DA HIPERCONECTIVIDADE

Nunca estivemos tão conectados.

Nunca tivemos tantas ferramentas de comunicação.

Nunca trocamos tantas mensagens.

E, ao mesmo tempo, pesquisas mostram crescimento de sentimentos como:

  • solidão;

  • isolamento;

  • ansiedade;

  • superficialidade.

Talvez porque conexão técnica não seja a mesma coisa que relacionamento.

Ter milhares de seguidores não significa ter alguém para conversar.

Ter milhões de visualizações não significa ser compreendido.

Ter alcance não significa ter amizade.

☕ A ECONOMIA DA ATENÇÃO

O verdadeiro produto do século XXI não é petróleo.

Não é ouro.

Não é software.

É atenção.

Empresas competem ferozmente por segundos da sua vida.

Cada minuto gasto numa plataforma possui valor econômico.

Por isso tudo é otimizado para capturar interesse.

Notificações.

Alertas.

Vídeos infinitos.

Rolagem infinita.

Recomendações infinitas.

A plataforma não quer que você encontre algo.

Ela quer que você continue procurando.

☕ A INTERNET FICOU MAIOR E MENOR

Aqui encontramos uma das grandes ironias do nosso tempo.

A internet nunca foi tão grande.

Nunca houve tanto conteúdo.

Nunca houve tanta informação.

Mas a sensação de descoberta diminuiu.

Visitamos menos sites.

Exploramos menos territórios digitais.

Conhecemos menos comunidades independentes.

A web aberta continua existindo.

Mas ficou escondida atrás de um pequeno conjunto de plataformas gigantes.

☕ O QUE PERDEMOS NO CAMINHO?

Perdemos muitas coisas.

Mas talvez a principal tenha sido a serendipidade.

A arte da descoberta inesperada.

A capacidade de encontrar algo que nem sabíamos estar procurando.

O websurfing era exatamente isso.

Uma aventura intelectual.

Uma caminhada sem mapa.

Uma exploração espontânea.

Hoje quase tudo é mediado por algoritmos.

Eles decidem.

Eles filtram.

Eles recomendam.

Eles organizam.

Eles escolhem.

E quando alguém escolhe por nós, inevitavelmente deixamos de descobrir algumas coisas por conta própria.

☕ UMA LIÇÃO DOS MAINFRAMES

Curiosamente, essa reflexão me lembra os ambientes mainframe.

Durante décadas profissionais construíram comunidades baseadas em compartilhamento de conhecimento.

A lógica era simples.

Quem sabia mais ensinava.

Quem aprendia mais tarde ensinava outros.

O valor estava na experiência acumulada.

Não na autopromoção.

Talvez exista uma lição importante aí.

Tecnologia funciona melhor quando aproxima pessoas do conhecimento.

Não quando transforma pessoas em produtos.

☕ O ARQUEÓLOGO DIGITAL DE 2526

Imagine um pesquisador vivendo daqui a 500 anos.

Ele examina os registros da nossa época.

Descobre bilhões de páginas.

Bilhões de vídeos.

Bilhões de mensagens.

Então encontra um paradoxo.

A humanidade possuía acesso ao maior acervo de conhecimento da história.

Mas passava horas assistindo conteúdos cuidadosamente projetados para capturar atenção.

Talvez ele fique tão intrigado quanto nós ficamos ao estudar sociedades antigas.

Talvez ele conclua que o grande desafio do século XXI nunca foi produzir conhecimento.

Foi conseguir encontrá-lo em meio ao ruído.

☕ CONCLUSÃO

Sinto saudade das salas de bate-papo.

Dos fóruns.

Dos blogs pessoais.

Do websurfing.

Não porque fossem perfeitos.

Estavam longe disso.

Mas porque pareciam mais humanos.

A internet antiga tinha muitos defeitos.

Era lenta.

Bagunçada.

Caótica.

Mas havia uma sensação constante de descoberta.

Hoje temos plataformas mais rápidas.

Mais bonitas.

Mais inteligentes.

Mais eficientes.

E, paradoxalmente, às vezes parecem menores.

Talvez porque a internet não seja feita apenas de tecnologia.

Ela é feita de pessoas.

E quando a atenção se torna mais importante do que a conversa, algo precioso se perde.

Talvez não tenhamos perdido apenas uma forma de navegar.

Talvez tenhamos perdido uma forma de nos encontrar.

E essa pode ser uma das histórias mais importantes da era digital.


Vagner Renato Bellacosa, IBM Champion e especialista em IBM Mainframe
IBM Z17 SYSTEM ONLINE
Sobre o autor

Vagner Renato Bellacosa

IBM Champion 2026 • Especialista em IBM Mainframe

Vagner Renato Bellacosa trabalha com IBM Mainframe desde 1988 , é IBM Champion e especialista em COBOL, CICS, Db2, z/OS e IBM Z. Compartilha experiências profissionais, conhecimento técnico, história da computação e práticas do universo mainframe para aproximar novas gerações das tecnologias que sustentam empresas, bancos e governos ao redor do mundo.

IBM Champion IBM Z COBOL CICS Db2 z/OS Mainframe desde 1988
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