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terça-feira, 26 de agosto de 2025

O Paradoxo da Denúncia: quando avisar milhões de pessoas que algo existe também ensina milhões de pessoas o que procurar

Bellacosa Mainframe e o paradoxo dda denuncia

☕ Um Café no Bellacosa Mainframe

O Paradoxo da Denúncia: quando avisar milhões de pessoas que algo existe também ensina milhões de pessoas o que procurar

ATENÇÃO! ESCÂNDALO! PERIGO! NÃO VEJA! NÃO PROCURE! NÃO ENTRE!

Pronto.

Agora você quer saber do que estou falando.

Esse é o problema.

Bem-vindo ao Paradoxo da Denúncia, estranho fenômeno no qual alguém sobe num caixote no meio da praça, pega um megafone e anuncia:

— CIDADÃOS! EXISTE UMA COISA TERRÍVEL NA RUA TAL, NÚMERO TAL, ATRÁS DA PORTA VERMELHA! NÃO ENTREM LÁ!

Dez minutos depois há uma fila diante da porta vermelha.

Não necessariamente porque aquelas pessoas concordem com o que existe lá dentro.

Algumas querem denunciar.

Outras querem verificar.

Outras querem compreender.

Há jornalistas.

Pesquisadores.

Curiosos.

Gente indignada.

Gente que pretende compartilhar a indignação.

E, naturalmente, existe aquele cidadão que estava tranquilamente indo comprar pão, ouviu a confusão e pensou:

— Mas o que diabos tem atrás da porta vermelha?

Na Internet, esse sujeito ganhou um navegador, uma caixa de pesquisa e algoritmos capazes de acompanhá-lo pelo restante da tarde.

E então a coisa fica muito mais interessante.


📰 EXTRA! EXTRA! A DENÚNCIA QUE VIROU MAPA

Décadas atrás, antes de Google dominar nossa relação com informação, antes de trending topics, TikTok, Instagram e recomendadores modernos, revistas e jornais já enfrentavam um problema parecido.

Para denunciar alguma coisa, era necessário explicar do que estavam falando.

E explicar significava fornecer pistas.

Nome.

Vocabulário.

Lugar.

Comportamento.

Tecnologia.

Às vezes até instruções suficientes para que um leitor particularmente curioso reconstruísse o caminho sozinho.

Foi assim que certas reportagens sobre a nascente cultura digital funcionaram para uma geração inteira.

Uma revista poderia publicar uma matéria essencialmente dizendo:

“VEJA O PERIGO QUE ESTÁ ESCONDIDO NA INTERNET!”

O objetivo editorial poderia ser perfeitamente legítimo: alertar pais, discutir pornografia, crimes, comunidades problemáticas, novos comportamentos ou simplesmente apresentar aquele estranho universo chamado Internet.

Só havia um pequeno problema.

Para demonstrar que o monstro existia, era necessário mostrar as pegadas do monstro.

E alguns leitores eram muito curiosos.

O jornalista escrevia:

“Usuários encontram esse conteúdo utilizando determinados termos...”

O leitor:

— Termos, é?

Caneta.

Papel.

Anotado.

A matéria continuava:

“Existem servidores e comunidades onde...”

— Servidores?

Anotado.

“Alguns programas permitem...”

— PROGRAMA?

ANOTADO!

A reportagem terminava com uma advertência moral.

O leitor terminava com uma lista de palavras-chave.

Era como publicar:

GUIA COMPLETO DOS LUGARES ONDE VOCÊ NÃO DEVE IR

seguido de endereço, mapa e horário de funcionamento.


🕵️ FOI DE PROPÓSITO?

Essa é a pergunta deliciosa.

Talvez.

Talvez não.

Provavelmente jamais saberemos em muitos casos.

O jornalista poderia estar simplesmente fazendo seu trabalho.

Para escrever sobre um fenômeno, precisava descrevê-lo.

O editor queria uma reportagem impactante.

A revista precisava mostrar ao leitor que havia investigado.

E ninguém necessariamente estava sentado numa sala esfumaçada dizendo:

— Vamos ensinar secretamente nossos leitores a encontrar essas coisas!

Isso seria uma conclusão sem evidência.

Mas existe outra possibilidade muito mais banal.

Jornalismo conhece uma substância poderosíssima desde muito antes da Internet:

CURIOSIDADE.

O jornalismo popular sabia perfeitamente que existe diferença entre:

“Existe determinado fenômeno.”

e:

“VOCÊ NÃO VAI ACREDITAR NO QUE ESTÁ ACONTECENDO ATRÁS DESTA PORTA!”

O segundo vende jornal.

E aqui entra nosso velho espírito do saudoso Notícias Populares.

Porque o mecanismo psicológico do jornalismo amarelo nunca precisou de inteligência artificial.

Precisava apenas compreender seres humanos.

SEXO!

ESCÂNDALO!

CRIME!

MISTÉRIO!

PROIBIDO!

PERIGO!

VOCÊ NÃO DEVERIA VER ISTO!

O cérebro responde:

— Concordo plenamente.

Pausa.

— Onde está?


🚫 “NÃO PROCURE POR X”

Existe uma experiência mental maravilhosa.

Imagine que você nunca ouviu falar de X.

X poderia passar tranquilamente pelo restante da sua vida sem ocupar um único neurônio.

Então alguém publica para milhões:

“Existe uma coisa chamada X e você jamais deveria procurá-la.”

Parabéns.

Agora milhões de pessoas sabem:

X EXISTE.

Uma pequena parcela imediatamente procura X.

Outra pesquisa notícias sobre X.

Outra procura:

"o que é X"

Outra:

"polêmica X"

Outra:

"por que estão falando de X"

E outra simplesmente digita:

X

O objetivo inicial poderia ser reduzir o fenômeno.

Mas a primeira consequência mensurável pode ser exatamente o contrário:

AUMENTO DA ATENÇÃO.


💥 CHEGA O EFEITO STREISAND

Existe um parente famoso dessa confusão: o efeito Streisand.

A ideia geral é conhecida: uma tentativa de esconder, remover ou reduzir a circulação de determinada informação pode chamar tamanha atenção para ela que o resultado acaba sendo sua disseminação muito maior.

É o maravilhoso momento em que alguém grita:

NINGUÉM PODE VER ESTA FOTO!

e a Internet responde:

QUE FOTO?

Cinco minutos depois:

todo mundo viu a foto.

Mas o Paradoxo da Denúncia é um pouco diferente.

Não precisa haver tentativa de censura.

Basta existir exposição.

A denúncia pode ser perfeitamente sincera.

Pode haver interesse público.

Pode haver comportamento realmente problemático.

Pode existir necessidade genuína de informar.

Ainda assim:

DENÚNCIA
   ↓
EXPOSIÇÃO
   ↓
CONHECIMENTO DA EXISTÊNCIA
   ↓
CURIOSIDADE
   ↓
BUSCA
   ↓
AMPLIFICAÇÃO

A moral da história é desconfortável:

Condenar uma coisa e aumentar sua visibilidade não são acontecimentos incompatíveis.

Você pode fazer os dois simultaneamente.


📺 O INFLUENCIADOR APERTA O BOTÃO VERMELHO

Agora transportemos o problema para 2026.

Um grande criador publica uma denúncia.

Milhões assistem.

O vídeo repercute.

Jornais escrevem sobre ele.

Outros influenciadores comentam.

Políticos comentam.

Especialistas aparecem.

Podcasts discutem.

Trechos circulam.

Pessoas pesquisam os personagens envolvidos.

E começa a máquina.

Não precisamos presumir qualquer intenção de promover aquilo que está sendo denunciado.

Esse não é o ponto.

O ponto é:

A INTERNET NÃO DISTRIBUI INTENÇÃO. ELA DISTRIBUI ATENÇÃO.

Essa distinção é gigantesca.

O ser humano entende:

“Estou assistindo porque considero isso revoltante.”

O sistema pode observar:

CLICOU = SIM
ASSISTIU = SIM
PESQUISOU = SIM
COMPARTILHOU = SIM
COMENTOU = SIM
VOLTOU = SIM

E concluir:

INTERESSE.

O algoritmo não precisa compreender sua indignação para perceber seu comportamento.


🤖 O ALGORITMO NÃO SABE QUE VOCÊ ESTÁ REVOLTADO

Imagine João.

João nunca ouviu falar de determinado fenômeno.

Assiste à denúncia.

Fica indignado.

Pesquisa.

Assiste a três vídeos explicando.

Pesquisa uma pessoa mencionada.

Entra numa rede social.

Assiste a outro vídeo relacionado.

Comenta:

“QUE ABSURDO!”

Compartilha:

“TODO MUNDO PRECISA SABER DISSO!”

O sistema observa João.

Do ponto de vista humano:

JOÃO
↓
REPÚDIO

Do ponto de vista comportamental:

JOÃO
↓
5 vídeos
↓
3 buscas
↓
2 compartilhamentos
↓
4 comentários
↓
18 minutos de atenção

Qual deles o recomendador consegue medir melhor?

Aí mora o problema.


🔥 TRENDING TOPIC: O POSTO IPIRANGA DA CURIOSIDADE

Então aparece outra máquina extraordinária:

Trending Topics.

A sociedade inteira recebe uma placa luminosa dizendo:

TODO MUNDO ESTÁ FALANDO SOBRE X!

Milhões que não sabiam de X perguntam:

— Por quê?

Clicam.

Agora também estão falando de X.

Isso ajuda X a continuar aparecendo.

Outras pessoas veem.

Clicam.

Temos um belo circuito:

ASSUNTO
   ↓
ATENÇÃO
   ↓
TREND
   ↓
MAIS ATENÇÃO
   ↓
MAIS BUSCAS
   ↓
MAIS PUBLICAÇÕES
   ↓
MAIS ATENÇÃO
   ↓
TREND

É praticamente um PERFORM UNTIL, só que alguém esqueceu a condição de saída.


🔎 E ENTÃO ENTRA O SEO

A confusão fica ainda melhor.

Milhões começam a pesquisar determinado termo.

Sites percebem.

Editores percebem.

Criadores percebem.

Ferramentas de tendências percebem.

Surge conteúdo:

O QUE É X?

ENTENDA X

A POLÊMICA DE X

10 COISAS SOBRE X

QUEM É X?

ENTENDA O CASO QUE PAROU A INTERNET

Agora alguém que procura X encontra uma infraestrutura inteira de conteúdo construída ao redor de X.

A denúncia deixou de ser simplesmente uma publicação.

Criou um vocabulário pesquisável.

E vocabulário pesquisável é uma coisa poderosíssima.

Porque antes da denúncia talvez o indivíduo sequer soubesse qual palavra digitar.

Depois dela, sabe.

Essa é talvez a grande ligação entre aquela velha revista impressa e a Internet contemporânea.

A revista entregava a palavra.

O leitor precisava construir o caminho.

Hoje a palavra pode ser suficiente para a infraestrutura digital construir boa parte do caminho por ele.


🐇 ANTIGAMENTE VOCÊ PERSEGUIA O COELHO

Na velha Internet:

LEITOR
  ↓
descobre palavra
  ↓
anota
  ↓
conecta
  ↓
procura
  ↓
tenta outro termo
  ↓
encontra fórum
  ↓
encontra referência
  ↓
procura novamente

Era necessário ser curioso.

Persistente.

Um pequeno arqueólogo digital.

Hoje:

USUÁRIO
   ↓
descobre X
   ↓
pesquisa X
   ↓
ALGORITMO:
"AHÁÁÁÁ!"
   ↓
X relacionado
   ↓
pessoas relacionadas a X
   ↓
vídeos sobre X
   ↓
discussões sobre X
   ↓
"Talvez você também goste..."

Antigamente você perseguia o coelho.

Agora o coelho sabe seu endereço.


🚨 EXPOSIÇÃO NÃO É CONDENAÇÃO

Aqui precisamos separar três coisas que frequentemente são misturadas.

EXPOSIÇÃO

Significa tornar algo visível.

CONDENAÇÃO

Significa atribuir avaliação negativa àquilo.

AMPLIFICAÇÃO

Significa aumentar seu alcance.

Esses três estados são independentes.

É perfeitamente possível:

CONDENAR = SIM
AMPLIFICAR = SIM

Esse talvez seja o ponto mais contraintuitivo.

Alguém pode detestar profundamente determinado conteúdo e, tentando destruí-lo, transformar seu nome no assunto mais pesquisado do país.

Não significa que a denúncia estava errada.

Significa que comunicação em rede possui efeitos colaterais.


🧯 ENTÃO DEVEMOS FICAR CALADOS?

Não.

Esse seria o erro oposto.

Existem situações que precisam ser denunciadas.

Crimes precisam ser investigados.

Vítimas precisam ser protegidas.

Problemas sociais precisam ser discutidos.

Riscos precisam ser conhecidos.

A solução não pode ser:

“Não falemos sobre coisas ruins porque alguém pode pesquisar.”

Isso produziria silêncio justamente onde informação pública pode ser necessária.

A pergunta correta é outra:

COMO INFORMAR SEM TRANSFORMAR A DENÚNCIA NUM CATÁLOGO?

E aí entra responsabilidade editorial.

É realmente necessário repetir determinado identificador vinte vezes?

Precisamos exibir imagens?

Precisamos fornecer caminhos?

Precisamos reproduzir conteúdo?

Precisamos mostrar exatamente como localizar?

O nome é indispensável ao interesse público?

Ou estamos colocando um enorme letreiro:

NÃO ENTRE — ENTRADA LOGO ALI →


🛡️ A MODERAÇÃO ENTRA NO BAR

Enquanto isso, a plataforma precisa distinguir:

denúncia, documentação, jornalismo, sátira, pesquisa, glorificação, exploração e redistribuição.

Boa sorte.

O mesmo fragmento pode aparecer em contextos completamente diferentes.

Um pesquisador pode reproduzir determinada expressão para estudá-la.

Um jornalista para denunciá-la.

Um criminoso para promovê-la.

Um professor para explicar o fenômeno.

O conteúdo pode parecer semelhante.

A intenção e o contexto não são.

É aí que moderação puramente baseada em palavras-chave começa a sofrer.

O computador encontra:

TERM=X

O humano pergunta:

“Mas por que X está aqui?”

Essa segunda pergunta é muito mais difícil.


📰 O VELHO JORNAL AMARELO DESCOBRIU ISSO ANTES DO ALGORITMO

Talvez o mais divertido seja perceber que boa parte dessa engenharia de atenção é muito anterior ao Facebook, Google, TikTok ou qualquer recomendador.

O jornaleiro já conhecia o algoritmo fundamental:

ESCÂNDALO
+
CURIOSIDADE
+
TÍTULO ENORME
=
VENDA

A Internet simplesmente industrializou a operação.

Antes alguém precisava escolher a manchete.

Hoje milhares de sistemas medem em tempo quase real:

  • quem clicou;

  • quanto tempo ficou;

  • onde abandonou;

  • o que procurou depois;

  • o que compartilhou;

  • com quem compartilhou;

  • qual conteúdo semelhante reteve atenção.

O velho editor perguntava:

“Isso vende jornal?”

O recomendador pergunta:

“Isso mantém o sujeito aqui?”

A distância tecnológica é gigantesca.

A matéria-prima continua sendo o mesmo macaco curioso.

Nós.


☕ O MAINFRAMEIRO OLHA PARA TUDO ISSO

E algum velho programador COBOL sentado diante do café observa o espetáculo e pergunta:

— Qual era o requisito?

Reduzir a exposição de X.

— E o resultado?

X tornou-se um dos assuntos mais procurados da semana.

Silêncio.

Ele toma outro gole.

— Tem log?

Tem.

— Métrica anterior?

Tem.

— Métrica posterior?

Tem.

— Grupo de controle?

Não.

— Então parem de dizer que sabem exatamente quem causou o quê.

Silêncio novamente.

Porque esse também é um ponto fundamental.

Correlação não é causalidade.

Uma explosão de buscas posterior a uma denúncia é compatível com amplificação produzida pela denúncia, mas demonstrar quanto dela veio diretamente da publicação, quanto veio da cobertura jornalística, quanto veio das redes, quanto veio de outros acontecimentos e quanto teria acontecido independentemente exige dados.

O jornalista amarelo pode gritar:

VÍDEO FEZ O BRASIL PROCURAR X!

O analista precisa acrescentar:

“Calma, Juvenal. Vamos olhar os dados.”


📼 A VELHA FITA CONTINUA GIRANDO

E talvez exista uma ironia histórica maravilhosa nisso.

Da revista impressa aos influenciadores.

Do jornaleiro aos trending topics.

Do índice remissivo ao Google.

Da recomendação do amigo ao recomendador algorítmico.

Mudamos toda a infraestrutura.

Mas existe um componente que atravessou tudo:

CURIOSIDADE HUMANA.

Diga:

“Aqui está uma porta.”

Alguns passarão reto.

Diga:

“NÃO ABRA ESTA PORTA.”

Agora você tem audiência.

Coloque uma placa:

“POR TRÁS DESTA PORTA EXISTE ALGO TÃO TERRÍVEL QUE NEM DEVERÍAMOS CONTAR QUE EXISTE.”

Meu amigo...

Melhor chamar a segurança.


🧠 O VERDADEIRO PARADOXO

O problema da denúncia não é denunciar.

É imaginar que denúncia e publicidade são fenômenos completamente separados.

Não são.

Toda denúncia pública contém alguma quantidade de exposição.

Toda exposição pode gerar curiosidade.

Toda curiosidade pode gerar busca.

Toda busca pode alimentar sistemas de descoberta.

E sistemas de descoberta podem produzir amplificação.

Portanto:

DENUNCIAR
   ≠
PROMOVER

Mas também:

DENUNCIAR
   ≠
NÃO AMPLIFICAR

Essa diferença deveria estar pregada na parede de redações, plataformas, departamentos de comunicação, escolas e equipes de moderação.


🚨 EDIÇÃO EXTRA: O MONSTRO NÃO PRECISA DE PUBLICIDADE FAVORÁVEL

Talvez essa seja a grande lição da era algorítmica.

No passado, imaginávamos publicidade como elogio.

Na economia da atenção, publicidade pode vir embrulhada em ódio.

Você pode assistir porque ama.

Pode assistir porque odeia.

Pode compartilhar dizendo:

“VEJAM QUE ABSURDO!”

Mas o pacote continua viajando.

E cada viagem aumenta a possibilidade de alguém que jamais conheceu aquilo perguntar:

“Mas afinal... o que é isso?”

É nesse instante que a denúncia atravessa uma fronteira invisível.

Continua sendo denúncia.

Continua podendo ser necessária.

Continua podendo produzir benefícios sociais enormes.

Mas também acabou de criar mais um conhecedor da existência do objeto denunciado.

O que essa pessoa fará com a informação já não pertence completamente ao denunciante.


☕ EPÍLOGO — NÃO OLHE AGORA

Talvez aquela velha reportagem da Veja não pretendesse iniciar ninguém.

Talvez soubesse perfeitamente que curiosidade vendia revista.

Talvez houvesse um pouco das duas coisas.

Jamais saberemos.

Mas sabemos algo muito mais importante.

Alguém leu.

Encontrou palavras.

Percebeu que existiam portas.

E abriu algumas delas.

Décadas depois, a infraestrutura mudou brutalmente.

Hoje um grande criador pode apontar para uma porta diante de milhões de pessoas simultaneamente.

Algumas vão exigir que ela seja fechada.

Algumas chamarão a polícia.

Algumas discutirão legislação.

Algumas produzirão vídeos.

Algumas pesquisarão academicamente.

E algumas simplesmente perguntarão:

“O QUE TEM LÁ DENTRO?”

Essa pessoa sempre existiu.

O problema é que agora, depois do primeiro clique, existe um sistema gigantesco observando silenciosamente:

“Ah... você demonstrou interesse por portas.”

E começa a mostrar outras.

Portanto, da próxima vez que alguém anunciar:

🚨 “NÃO PESQUISE ISTO DE JEITO NENHUM!”

lembre-se do velho princípio da curiosidade humana:

informar que uma porta existe pode ser necessário.

Condenar o que existe atrás dela pode ser absolutamente legítimo.

Mas apontar para a maçaneta diante de milhões de pessoas também é um ato de distribuição de informação.

E na Internet, meus caros...

até a placa PROIBIDA A ENTRADA pode acabar funcionando como SEO.


//BELLACOS JOB

//PARADOXO JOB CLASS=NP,MSGCLASS=Y
//STEP01   EXEC PGM=CURIOSIDADE
//DENUNCIA DD *
   EXPOSE=YES
   CONDEMN=YES
   AMPLIFY=UNKNOWN
/*
//ALGORITHM DD *
   CLICK=1
   SEARCH=1
   SHARE=1
   COMMENT="QUE ABSURDO!"
/*
//SYSOUT DD SYSOUT=*
//

IEF142I PARADOXO STEP01 - STEP WAS EXECUTED
IEF373I ATTENTION CONSUMED
IEF404I USER SEARCHED THE TERM

RETURN CODE = 0042

Mensagem do sistema:

WARNING: O USUÁRIO QUE NÃO SABIA QUE X EXISTIA AGORA SABE.

☕ Um Café no Bellacosa Mainframe

Porque às vezes o maior problema de colocar uma placa dizendo “NÃO OLHE” é descobrir que acabamos de informar exatamente para onde todo mundo deveria olhar.

terça-feira, 7 de setembro de 2010

Gazeta Esportiva: John Belushi, COBOL e o Jornal que Transformava Segunda-feira em War Room

 

Bellacosa Mainframe e o jornal gazeta esportiva

☕ Um Café no Bellacosa Mainframe

Gazeta Esportiva: John Belushi, COBOL e o Jornal que Transformava Segunda-feira em War Room

⚽ Futebol, rádio, bancas, tabelas, resultados, São Silvestre, Corinthians, Palmeiras, Santos, São Paulo e a extraordinária época em que descobrir o placar de um jogo podia exigir comprar um jornal — enquanto John Belushi berrava que o juiz era ladrão

Se o Notícias Populares era a interface brasileira para descobrir quem havia matado quem, onde apareceu o lobisomem e se o Bebê-Diabo havia sido visto novamente no telhado de alguma residência paulistana...

existia outra máquina de papel rodando em produção.

Só que essa processava uma matéria-prima ainda mais perigosa.

FUTEBOL.

Seu nome:

A GAZETA ESPORTIVA

E antes que algum jovem desenvolvedor COBOL pergunte:

— Bellacosa, mas era apenas um jornal de esportes?

HAHAHAHAHAHAHAHA.

Meu caro...

Dizer que a Gazeta Esportiva era “um jornal de esportes” é como dizer que um IBM Z é “um computador grande”.

Tecnicamente correto.

Culturalmente criminoso.

Durante décadas, a Gazeta Esportiva foi banco de dados, arquivo histórico, placar, agenda, tabela de classificação, serviço estatístico, catálogo de jogadores, calendário esportivo e combustível para discussões capazes de destruir amizades antes mesmo da invenção das redes sociais.

Se Quentin Tarantino foi nosso guia para o Notícias Populares, aqui precisamos de alguém diferente.

Precisamos de um homem capaz de olhar para uma derrota por 1 a 0 e reagir como se o Império Romano tivesse acabado.

Precisamos de:

JOHN BELUSHI.

Camisa parcialmente aberta.

Gravata torta.

Café na mão.

Gazeta Esportiva debaixo do braço.

Ele invade a redação:

— QUEM ESCALOU ESSE TIME?!

Bem-vindo.

O batch de domingo acabou.

Segunda-feira começou.

E o SYSOUT tem 64 páginas.


CAPÍTULO I — ANTES DO GOOGLE EXISTIA PAPEL

Precisamos novamente transportar o jovem programador para uma época estranha.

Uma época em que você não podia perguntar:

“Quem ganhou o jogo ontem?”

para um retângulo luminoso no bolso.

Não havia Google.

Não havia OneFootball.

Não havia SofaScore.

Não havia ESPN no celular.

Não havia notificações push.

Não havia grupo do WhatsApp.

Não havia X.

Não havia geolocalização do jogador.

Não havia mapa de calor.

Não havia xG.

Não havia VAR.

Aliás...

talvez devêssemos ter parado no “não havia VAR” e apreciado alguns segundos de silêncio.

Você queria informação esportiva?

Havia rádio.

Televisão.

E havia:

JORNAL.

Na manhã seguinte, o torcedor caminhava até a banca.

E lá estava ela.

A Gazeta Esportiva.

O equivalente esportivo de executar:

DISPLAY MATCH-RESULTS
DISPLAY LEAGUE-TABLE
DISPLAY PLAYER-RATINGS
DISPLAY NEXT-ROUND
DISPLAY COMPLETE-DISASTER

Só que impresso.


CAPÍTULO II — TUDO COMEÇOU COM UM QUARTO DE PÁGINA

A origem da Gazeta Esportiva é quase uma aula de escalabilidade.

Em 1918, já sob a administração de Cásper Líbero, o jornal A Gazeta criou uma pequena seção dedicada aos esportes.

Tamanho?

Aproximadamente:

UM QUARTO DE PÁGINA.

Isso mesmo.

O monstro começou como feature pequena.

A popularidade cresceu.

E em 24 de dezembro de 1928, aquela seção evoluiu para um suplemento esportivo, então chamado A Gazeta — Edição Esportiva.

O COBOLzeiro reconhece imediatamente.

V1.0
COLUNA ESPORTIVA

V2.0
SUPLEMENTO

V3.0
JORNAL INDEPENDENTE

V4.0
PORTAL WEB

Nunca subestime aquele programinha de 400 linhas que alguém chama de:

“solução temporária”.


CAPÍTULO III — CÁSPER LÍBERO, O ARQUITETO

Para compreender a Gazeta Esportiva precisamos conhecer Cásper Líbero.

Ele adquiriu A Gazeta em 1918 e iniciou uma série de transformações editoriais. Esporte tornou-se uma das áreas nas quais investiu intensamente.

Mas sua importância vai muito além de simplesmente publicar resultados.

Cásper percebeu algo fundamental:

ESPORTE É CONTEÚDO E EVENTO.

Essa combinação é poderosíssima.

Você não apenas cobre uma competição.

Você pode ajudar a criá-la.

A marca Gazeta ficou ligada a eventos esportivos que atravessariam gerações.

O caso mais extraordinário?

CORRIDA INTERNACIONAL DE SÃO SILVESTRE.

Criada em 1925.

Também surgiu a tradicional Prova Ciclística Nove de Julho, criada em 1933.

Isso significa que o ecossistema não era:

EVENTO
  |
  v
JORNAL COBRE

Era muito mais interessante:

JORNAL
  |
  +----> PROMOVE EVENTO
  |
  +----> COBRE EVENTO
  |
  +----> CRIA AUDIÊNCIA
  |
  +----> FORTALECE MARCA
  |
  +----> AUMENTA INTERESSE

Hoje chamaríamos isso de:

ecossistema de conteúdo.

Em 1925 chamavam de:

trabalhar.


CAPÍTULO IV — A TRAGÉDIA DE CÁSPER

Cásper Líbero não chegou a ver a Gazeta Esportiva transformar-se no grande diário independente que se tornaria.

Ele morreu em 27 de agosto de 1943, em um acidente aéreo na Baía de Guanabara.

Mas deixou algo extraordinário.

Um testamento determinando a criação de uma fundação.

Como não teve filhos, seu patrimônio foi destinado à instituição que preservaria seu projeto de comunicação.

Nasceu a:

FUNDAÇÃO CÁSPER LÍBERO.

Instituída em 1944, ela permanece responsável por um ecossistema que inclui Gazeta Esportiva, TV Gazeta, Rádio Gazeta, Faculdade Cásper Líbero e outras atividades.

Isso diferencia profundamente a história empresarial da Gazeta.

Não estamos falando simplesmente de:

PROPRIETÁRIO
   |
HERDEIROS
   |
VENDA

Existe uma estrutura institucional criada a partir da vontade testamentária de seu fundador.

É quase um:

PERFORM LEGADO
    UNTIL FOREVER
END-PERFORM.

CAPÍTULO V — 10 DE OUTUBRO DE 1947: GO LIVE

Chegamos ao grande deployment.

10 de outubro de 1947.

A Gazeta Esportiva deixa definitivamente sua condição de suplemento e torna-se um jornal diário independente dedicado ao esporte.

O projeto havia sido pensado antes.

A Copa de 1938 parecia uma oportunidade.

Depois veio a Segunda Guerra Mundial.

Houve nova tentativa em 1943.

Então Cásper morreu.

Finalmente:

1947.

GO LIVE.

A primeira edição diária apresentava o jornal como moderno, dinâmico e comprometido com independência e ética jornalística.

E nasceu uma expressão que se tornaria praticamente identidade:

“O MAIS COMPLETO.”

Isso era marketing.

Mas havia uma ambição real por trás.

Não se pretendia falar apenas de futebol.

A proposta era cobrir:

futebol,

atletismo,

basquete,

automobilismo,

ciclismo,

boxe,

natação,

tênis

e muitas outras modalidades.

Era uma espécie de:

SPORTS.*

CAPÍTULO VI — MAS VAMOS PARAR DE FINGIR: FUTEBOL ERA O MONSTRO

Sim.

Havia outras modalidades.

Mas estamos no Brasil.

Portanto chega John Belushi chutando a porta:

— E O CORINTHIANS?!

HAHAHAHAHAHA.

Futebol era inevitavelmente o grande motor de atenção.

Corinthians.

Palmeiras.

São Paulo.

Santos.

Portuguesa.

Clubes do interior.

Seleção Brasileira.

Campeonatos estaduais.

Nacionais.

Mundiais.

Transferências.

Escalações.

Crises.

Cartolas.

Técnicos.

Juízes.

E aquela instituição brasileira que existe desde antes de a humanidade dominar o fogo:

A CORNETA.


CAPÍTULO VII — A BANCA ERA O SOFASCORE

Voltemos à banca.

Segunda-feira de manhã.

São Paulo.

Um trabalhador chega.

Vê a Gazeta.

A manchete anuncia a rodada.

Ele não precisa comprar imediatamente.

Olha.

Outro sujeito para.

Mais um.

— Você viu o jogo?

— Vi.

— Aquilo não foi pênalti.

Pronto.

THREAD CRIADA.

Outro responde:

— Foi pênalti sim.

ENGAGEMENT +100%.

Chega um palmeirense.

CONFLITO DETECTADO.

Chega um corintiano.

CPU 97%.

Chega um santista lembrando do Pelé.

HISTORICAL QUERY STARTED.

Chega o dono da banca:

— Vocês vão comprar o jornal ou vão ficar discutindo aí?

A rede social brasileira já funcionava perfeitamente.

Sem Internet.


CAPÍTULO VIII — A SEGUNDA-FEIRA ERA O WAR ROOM

O domingo terminava.

Mas o futebol não.

Na segunda-feira começava:

A AUTÓPSIA.

Quem jogou bem?

Quem jogou mal?

O juiz errou?

O técnico enlouqueceu?

O atacante perdeu gol?

Quem foi expulso?

Como ficou a classificação?

Quem joga na próxima rodada?

Era praticamente uma reunião pós-incidente.

INCIDENT:
DERROTA POR 3 X 0

SEVERITY:
SEV-1

ROOT CAUSE:
EM INVESTIGAÇÃO

POSSIBLE CAUSES:
- técnico
- goleiro
- zagueiro
- gramado
- juiz
- diretoria
- Mercúrio retrógrado

John Belushi sobe na mesa:

— NÃO FOI DERROTA!

Todos olham.

— FOI SABOTAGEM!


CAPÍTULO IX — A GAZETA ERA BANCO DE DADOS

Aqui entra o COBOL.

Para gerações inteiras, jornal esportivo era também:

DATASET.

Resultados.

Classificações.

Artilharia.

Escalações.

Calendários.

Estatísticas.

Histórico.

Você queria saber como estava o campeonato?

Não executava API.

Consultava tabela.

01 CAMPEONATO.
   05 TIME.
   05 PONTOS.
   05 JOGOS.
   05 VITORIAS.
   05 EMPATES.
   05 DERROTAS.
   05 GOLS-PRO.
   05 GOLS-CONTRA.

A tabela classificatória era praticamente um arquivo sequencial que todo brasileiro sabia interpretar.

Curiosamente, milhões de pessoas que jamais ouviram falar em banco relacional entendiam perfeitamente:

ordenação, agregação, chave, ranking e atualização incremental.


CAPÍTULO X — 1958: BRASIL CAMPEÃO

Então acontece 1958.

Brasil campeão mundial.

Pelé.

Garrincha.

Didi.

Nilton Santos.

Bellini.

Suécia.

O futebol brasileiro explode simbolicamente.

Segundo registros históricos, a Gazeta alcançou cerca de 400 mil exemplares nas grandes tiragens associadas à Copa de 1958.

Imagine imprimir centenas de milhares de jornais.

Não é pageview.

Não é request HTTP.

Cada cópia exige:

papel,

tinta,

máquina,

energia,

operários,

caminhão,

distribuição,

banca.

É infraestrutura física.


CAPÍTULO XI — 1970: O MAINFRAME ENTRA EM OVERLOAD

E então chegamos ao México.

Pelé.

Jairzinho.

Tostão.

Rivelino.

Carlos Alberto Torres.

Brasil tricampeão.

A Seleção que virou mitologia.

Em 23 de junho de 1970, a Gazeta Esportiva registrou seu recorde histórico:

534.530 EXEMPLARES.

Em um único dia.

MEIO MILHÃO.

John Belushi olha para a rotativa.

— MAIS PAPEL!

— Não cabe!

— MAIS TINTA!

— Estamos no limite!

— ENTÃO OVERCLOCKA A ROTATIVA!

Isso é escala.


CAPÍTULO XII — A COR DO JORNAL ERA A PAIXÃO

A experiência do jornal esportivo não era apenas informacional.

Era ritual.

Comprar.

Dobrar.

Carregar debaixo do braço.

Ler no ônibus.

Ler no bar.

Ler no trabalho escondido.

Deixar sobre a mesa.

Recortar.

Guardar.

Um resultado esportivo deixava de ser efêmero porque adquiria suporte físico.

A vitória do seu time existia em papel.

A derrota também.

Infelizmente.

E aquela página podia sobreviver décadas.


CAPÍTULO XIII — “ME DÁ A GAZETA”

Essa frase fazia sentido por si só.

O jornaleiro sabia.

A marca havia conquistado aquilo que toda empresa deseja:

atalho mental.

Gazeta = esporte.

Assim como determinados produtos tornam-se quase sinônimos de categoria, a Gazeta ocupava um lugar particular no imaginário esportivo paulista.

E isso era especialmente poderoso numa cidade onde futebol não era passatempo.

Era:

IDENTITY MANAGEMENT SYSTEM.

CAPÍTULO XIV — E O INTERIOR?

Aqui há outro ponto importante.

A Gazeta não se limitava ao eixo dos quatro grandes clubes paulistas.

A imprensa esportiva impressa possuía espaço para acompanhar campeonatos, clubes e modalidades que hoje podem desaparecer rapidamente da homepage porque não geram cliques suficientes.

Guarani.

Ponte Preta.

XV de Piracicaba.

Ferroviária.

Botafogo de Ribeirão Preto.

Comercial.

Noroeste.

Portuguesa Santista.

São Bento.

Juventus.

América.

E tantos outros.

O papel tinha limite físico.

Mas o jornal esportivo precisava construir uma visão relativamente ampla do ecossistema.

Isso ajudou a preservar uma quantidade monumental de memória esportiva.


CAPÍTULO XV — E A SÃO SILVESTRE?

Aqui o legado sai da página e invade a rua.

A Corrida Internacional de São Silvestre permanece uma das marcas esportivas mais reconhecíveis associadas ao legado de Cásper Líbero.

Criada em 1925, atravessou décadas e continua sendo realizada.

Pense nisso.

Um veículo de comunicação ajudou a criar um evento.

O evento virou tradição.

A tradição sobreviveu ao jornal impresso.

Isso é branding com RETENTION PERIOD = CENTURY.


CAPÍTULO XVI — O TROFÉU INVISÍVEL DA MEMÓRIA

A Gazeta também esteve ligada à criação e distribuição de premiações esportivas, entre elas a tradicional Taça dos Invictos, associada a equipes que mantinham longas sequências sem derrota.

Isso revela outra função da imprensa esportiva:

ela não apenas relata o esporte.

Ela ajuda a construir:

mitologia.

Recordes precisam ser lembrados.

Sequências precisam ser comparadas.

Heróis precisam de narrativas.

Rivalidades precisam de arquivo.

O jornal funciona como memória externa do torcedor.


CAPÍTULO XVII — O TORCEDOR ERA O ALGORITMO DE RECOMENDAÇÃO

Hoje:

IF USER = CORINTHIANS
   RECOMMEND CORINTHIANS-CONTENT
END-IF

Na banca?

O torcedor olhava a primeira página.

Se o clube estivesse em destaque:

CLICK = BUY

Se o rival tivesse perdido vergonhosamente:

CLICK = BUY
SHARE = BUY-AND-SHOW-FRIENDS

HAHAHAHA.

Esse segundo caso provavelmente possuía CTR extraordinário.


CAPÍTULO XVIII — O HUMOR DO FUTEBOL

Aqui John Belushi assume definitivamente a redação.

Porque futebol brasileiro nunca foi apenas análise.

É absurdo.

Um sujeito passa a semana inteira dizendo:

— Futebol é só entretenimento.

Domingo, 17h43:

— EU NÃO ACREDITO NESSE DESGRAÇADO!

Cinco minutos depois:

— Nunca mais assisto futebol.

Quarta-feira:

— Que horas é o jogo?

Essa é uma máquina de estados fantástica:

STATE 01 = ESPERANÇA
STATE 02 = ANSIEDADE
STATE 03 = EUFORIA
STATE 04 = ÓDIO
STATE 05 = DEPRESSÃO
STATE 06 = NUNCA-MAIS
STATE 07 = PRÓXIMA-RODADA

GO TO STATE-01.

Loop infinito.


CAPÍTULO XIX — RÁDIO, TV, JORNAL: UM ECOSSISTEMA

Outra diferença fundamental da Gazeta está no ecossistema construído pela Fundação.

Jornal.

Rádio.

Televisão.

Faculdade.

Agência.

Eventos.

Hoje falaríamos em:

OMNICHANNEL.

A Fundação Cásper Líbero mantém até hoje esse complexo de comunicação no edifício da Avenida Paulista, incluindo TV Gazeta, Rádio Gazeta, Faculdade Cásper Líbero e Gazeta Esportiva digital.

A Gazeta não era apenas uma publicação isolada.

Era parte de uma arquitetura.


CAPÍTULO XX — ENTÃO CHEGA A INTERNET

E novamente nosso velho conhecido aparece.

TCP/IP.

Em 1997, segundo a própria Fundação, a Gazeta Esportiva começou sua entrada na Internet, inicialmente reproduzindo conteúdo do impresso. Outra retrospectiva oficial situa o lançamento do portal independente em 1998. As duas datas refletem etapas diferentes da migração digital.

Isso é interessante porque mostra a transição acontecendo em tempo real.

Primeiro:

PAPER → HTML

Depois:

DIGITAL-FIRST

E finalmente:

REAL-TIME

CAPÍTULO XXI — O INIMIGO DO JORNAL ESPORTIVO CHAMAVA-SE LATÊNCIA

Pense no problema.

Um jogo termina às 22h.

O jornal precisa:

fechar texto,

editar,

diagramar,

imprimir,

distribuir.

A Internet diz:

— Gol.

Agora.

Cartão vermelho.

Agora.

Fim do jogo.

Agora.

Classificação atualizada.

Agora.

Para informação esportiva, a diferença entre:

amanhã

e

agora

é brutal.

O produto possuía um problema arquitetural que nenhuma manchete conseguiria eliminar:

LATENCY = HOURS

contra:

LATENCY = SECONDS

CAPÍTULO XXII — 2001: ABEND

No início do século XXI, a situação financeira do jornal havia se tornado crítica.

Em outubro de 2001, a Fundação anunciou a decisão de encerrar a edição impressa e transferir seu conteúdo para a Internet. A Folha registrou naquele momento uma tiragem média inferior a 14 mil exemplares.

Compare.

1970:

534.530

2001:

menos de 14.000 em média

Isso não é queda.

Isso é:

IEC030I B37

O dataset ficou sem espaço para continuar fingindo que estava tudo bem.


CAPÍTULO XXIII — A ÚLTIMA CAPA

Em 19 de novembro de 2001, circulou a edição número:

27.162

A última edição impressa diária.

A manchete?

“O Futuro é Hoje!”

Poucas manchetes poderiam ser mais apropriadas.

No dia seguinte, a operação esportiva passava definitivamente para o ambiente digital.

O jornal morreu?

O suporte morreu.

A marca continuou.

E isso é muito diferente.


CAPÍTULO XXIV — MODERNIZAÇÃO SEM REWRITE

Agora o programador COBOL começa a sorrir.

Porque reconheceu tudo.

BUSINESS LOGIC:
COBRIR ESPORTES

OLD INTERFACE:
PAPEL

NEW INTERFACE:
WEB

Não foi necessário executar:

DELETE FROM BRAND;

Executou-se:

ALTER ACCESS METHOD.

Essa é uma aula maravilhosa de modernização.

A função continua.

A tecnologia muda.


CAPÍTULO XXV — O QUE MORREU?

Morreu o ritual diário específico.

O jornal debaixo do braço.

A banca como endpoint.

A tabela impressa.

O resultado congelado no papel.

A fotografia que você recortava.

A edição guardada porque seu clube foi campeão.

O sujeito lendo por cima do seu ombro no ônibus.

O jornal aberto sobre a mesa do boteco.

E talvez uma das experiências mais deliciosamente analógicas:

virar a página procurando seu time.


CAPÍTULO XXVI — O QUE NÃO MUDOU ABSOLUTAMENTE NADA?

Agora prepare-se.

1958:

— O juiz roubou.

2026:

— O juiz roubou.

1970:

— O técnico escalou errado.

2026:

— O técnico escalou errado.

1985:

— Esse presidente está destruindo o clube.

2026:

— Esse presidente está destruindo o clube.

1994:

— Esse jogador não vale tudo isso.

2026:

— Esse jogador não vale tudo isso.

O suporte tecnológico evoluiu.

O torcedor recebeu:

Internet,

smartphone,

streaming,

4K,

VAR,

GPS,

estatística avançada,

inteligência artificial,

tracking,

big data.

E usa tudo isso para concluir:

“O JUIZ É CEGO.”

Magnífico.


CAPÍTULO XXVII — A GAZETA ERA O REDDIT DO BOTECO

O jornal sozinho não era a comunidade.

Ele era o gatilho da comunidade.

A pessoa lia.

Comentava.

Discutia.

Levava ao trabalho.

Mostrava ao colega.

Discordava.

Guardava.

Recortava.

A informação saía do papel e entrava na conversa.

Hoje chamamos isso de:

engagement.

Na época chamava:

— Você viu a Gazeta?


CAPÍTULO XXVIII — JOHN BELUSHI DESCOBRE O VAR

Nosso guia finalmente chega ao futebol moderno.

Belushi observa uma sala com 37 monitores.

Linhas.

Replay.

Zoom.

Câmeras.

Computadores.

Comunicação eletrônica.

Ele pergunta:

— Tudo isso serve para decidir se foi pênalti?

— Sim.

— E funciona?

Silêncio.

Belushi pega uma Gazeta Esportiva de 1970.

— Na minha época bastava xingar o juiz!

O COBOLzeiro responde:

— Tecnicamente ainda basta.


CAPÍTULO XXIX — O ARQUIVO É UMA MÁQUINA DO TEMPO

Existe algo que frequentemente esquecemos quando falamos sobre jornais antigos.

Eles são bancos de memória.

Uma edição da Gazeta Esportiva não guarda apenas resultados.

Guarda:

ortografia,

publicidade,

preços,

nomes,

clubes desaparecidos,

estádios modificados,

patrocinadores,

uniformes,

jogadores esquecidos,

modalidades,

expectativas,

frustrações.

Você abre uma edição de 1958 e não está simplesmente lendo sobre futebol.

Está executando:

RESTORE BRASIL
FROM BACKUP
DATE '1958';

Isso é patrimônio histórico.


CAPÍTULO XXX — O GRANDE EASTER EGG: O ESPORTE SEMPRE FOI DATA-DRIVEN

Hoje adoramos falar:

data analytics no futebol.

Mas esporte sempre foi uma gigantesca fábrica de dados.

Gols.

Pontos.

Vitórias.

Derrotas.

Tempo.

Distância.

Recordes.

Classificação.

Artilharia.

Aproveitamento.

Média.

O jornal esportivo era uma camada de apresentação desse banco de dados.

Hoje temos dashboards.

Antes tínhamos tabelas.

Hoje temos APIs.

Antes tínhamos repórteres telefonando.

Hoje temos feeds em tempo real.

Antes tínhamos fechamento.

A arquitetura mudou.

O domínio continua assustadoramente parecido.


CAPÍTULO XXXI — NOTÍCIAS POPULARES X GAZETA ESPORTIVA

Agora coloque os dois jornais lado a lado numa banca imaginária.

À esquerda:

NOTÍCIAS POPULARES

NASCEU O DIABO!

À direita:

GAZETA ESPORTIVA

CORINTHIANS PERDE CLÁSSICO!

Um corintiano olha para ambos.

Compra o Notícias Populares.

Porque naquele momento:

o Bebê-Diabo parece uma notícia menos traumática.

HAHAHAHAHAHA.

Mas há uma conexão séria.

Os dois compreendiam a força da banca.

Da manchete.

Da identidade do público.

Da leitura compartilhada.

Da informação como ritual.

E principalmente:

da emoção.


CAPÍTULO XXXII — A BANCA COMO HOMEPAGE DA CIDADE

Imagine novamente São Paulo.

Década de 1970.

Ônibus.

Fumaça.

Buzinas.

Padaria.

Café.

Cigarro.

Banca.

Jornais pendurados.

Você passa.

Em alguns segundos recebe:

política,

economia,

crime,

esporte,

celebridade,

emprego,

classificados.

A banca era:

PORTAL.

Só que fisicamente instalado na calçada.

Cada jornal era um aplicativo.

Cada manchete era uma notificação.

Cada capa disputava atenção.

Cada comprador era conversão.

E a Gazeta tinha uma vantagem extraordinária:

o torcedor já chegava emocionalmente autenticado.


CAPÍTULO XXXIII — O LEGADO

O legado da Gazeta Esportiva é maior que seu período impresso.

Ele inclui a contribuição histórica para o jornalismo esportivo brasileiro, sua ligação com eventos como São Silvestre e Nove de Julho, o arquivo acumulado durante décadas e a continuidade da marca no ambiente digital.

Mas existe um legado menos tangível.

Ela pertence a uma época em que a relação com informação possuía:

peso.

Literalmente.

Você carregava informação.

Dobrava informação.

Emprestava informação.

Guardava informação.

Jogava informação fora.

A notícia tinha cheiro de tinta.


EPÍLOGO — BELUSHI, O COBOLZEIRO E A ÚLTIMA SEGUNDA-FEIRA

São Paulo.

Segunda-feira.

Sete horas da manhã.

Um bar perto de uma estação.

Café.

Pão na chapa.

Um homem entra carregando a Gazeta Esportiva.

Abre sobre o balcão.

Outro olha.

— Quanto foi?

— Dois a zero.

— Quem fez?

Ele aponta para a página.

Chega outro.

— Esse time não tem meio-campo.

Outro responde:

— Você não entende nada de futebol.

Pronto.

A rede entrou em produção.

Não existe Wi-Fi.

Não existe smartphone.

Não existe login.

Não existe perfil.

Não existe algoritmo.

Mas existe:

USER-A
USER-B
USER-C
CONTENT
ENGAGEMENT
COMMUNITY

John Belushi entra.

Olha o jornal.

Olha o placar.

Derruba o café.

— DOIS A ZERO?!

O bar inteiro olha.

Belushi sobe numa cadeira.

— Acabou! Este clube morreu! Nunca mais assisto futebol! Nunca mais compro jornal! Nunca mais discuto escalação!

Silêncio.

O balconista pergunta:

— Quarta tem jogo, não tem?

Belushi desce lentamente.

Pega a Gazeta.

Folheia.

— Oito e meia.

Senta.

Pede outro café.

E talvez essa seja a melhor definição possível da Gazeta Esportiva.

Ela não vendia apenas resultados.

Vendia o próximo capítulo.

A derrota de domingo não encerrava nada.

Produzia a segunda-feira.

A segunda-feira produzia discussão.

A discussão produzia expectativa.

A expectativa produzia quarta-feira.

Quarta produzia outro jogo.

Outro resultado.

Outra manchete.

Outra Gazeta.

       IDENTIFICATION DIVISION.
       PROGRAM-ID. TORCEDOR-BRASILEIRO.

       PROCEDURE DIVISION.

       JOGA.
           PERFORM ESPERAR-JOGO.
           PERFORM ASSISTIR-JOGO.
           PERFORM RECLAMAR-DO-JUIZ.
           PERFORM DISCUTIR-ESCALACAO.
           PERFORM LER-GAZETA.
           PERFORM PROMETER-NUNCA-MAIS.

           GO TO JOGA.

Um programador junior observa horrorizado:

— Bellacosa! Isso é um GO TO infinito!

Exatamente.

Está em produção há mais de cem anos.

Não mexa.

Ninguém sabe todas as dependências.

A Gazeta Esportiva impressa executou sua última edição em 2001.

Mas o programa continua.

A banca virou portal.

A tabela virou widget.

O rádio virou streaming.

A fotografia virou vídeo.

A coluna virou feed.

O fechamento virou atualização contínua.

O leitor virou usuário.

O assinante virou audiência.

A discussão do bar virou comentário.

O arquivo virou database.

O jornal virou URL.

Mas domingo à tarde, quando a bola bate na mão de alguém dentro da área...

todo o avanço tecnológico da humanidade é descartado.

Milhões de brasileiros executam simultaneamente:

IF PENALTI-CONTRA-MEU-TIME
    DISPLAY 'FOI SEM QUERER'
ELSE
    DISPLAY 'PENALTI CLARISSIMO'
END-IF.

Esse código jamais passou por revisão.

Jamais passará.

John Belushi pega o jornal.

O COBOLzeiro pega o café.

A rotativa começa a girar.

CLAC. CLAC. CLAC. CLAC.

534.530 exemplares.

Uma cidade acordando.

Uma banca abrindo.

Um torcedor procurando a manchete.

E um programa centenário chamado:

PAIXÃO PELO ESPORTE

continua executando.

RC=0000.

☕

domingo, 14 de fevereiro de 2010

Notícias Populares: Tarantino, COBOL e o Jornal que Espremia e Saía Sangue

 

Bellacosa Mainframe e o jornal noticias populares

☕ Um Café no Bellacosa Mainframe

Notícias Populares: Tarantino, COBOL e o Jornal que Espremia e Saía Sangue

🩸 Crime, sexo, Bebê-Diabo, ditadura, censura, bancas, manchetes impossíveis e a extraordinária história do jornal que transformou São Paulo num filme de Quentin Tarantino décadas antes de Tarantino filmar Pulp Fiction

Imagine, jovem padawan do COBOL, que você saiu do trabalho em 1987.

Não existe smartphone.

Não existe Google.

Não existe X.

Não existe Instagram.

Não existe portal de notícias.

Não existe WhatsApp.

E, evidentemente, ninguém recebeu ainda no grupo da família um vídeo de procedência duvidosa acompanhado da mensagem:

URGENTE!!! REPASSEM ANTES QUE APAGUEM!!!

Para descobrir o que aconteceu no mundo, você passa diante de uma banca de jornal.

E ali está o algoritmo de recomendação de 1987.

Só que feito de madeira, metal, barbante e pregadores.

Dezenas de jornais e revistas estão expostos. Alguns pendurados. Outros sobrepostos. As capas disputam fisicamente alguns centímetros do seu campo de visão.

Folha.

Estadão.

Jornal da Tarde.

Gazeta Esportiva.

Revistas.

Quadrinhos.

E então aparece uma coisa que parece ter sido diagramada por alguém que misturou jornalismo policial, filme B, programa de auditório, revista masculina, conversa de boteco e uma quantidade preocupante de café.

NOTÍCIAS POPULARES.

O NP.

Você não precisava comprar.

Bastava enxergar a manchete.

E a manchete praticamente agarrava você pelo colarinho.

O jornal circulou de 1963 a 2001 e ficou marcado justamente pela combinação de textos curtos, muitas fotografias e títulos de enorme impacto. Em sua fase clássica, crime, sexo, violência, escatologia, celebridades, futebol e acontecimentos sobrenaturais conviviam alegremente no mesmo produto editorial.

Se Quentin Tarantino tivesse nascido no Brás e trabalhado como repórter policial antes de dirigir cinema, talvez alguma coisa parecida tivesse acontecido.

Só faltava Samuel L. Jackson entrar na redação e perguntar:

— E o fechamento, motherf...?


CAPÍTULO I — ERA UMA VEZ UMA INTERNET DE PAPEL

Para compreender o Notícias Populares é preciso cometer um erro muito comum em manutenção de legado:

não analisar o programa sem analisar o ambiente em que ele executava.

Um COBOL de 1973 parece estranho quando retirado de seu contexto.

O NP também.

O Brasil que viu o jornal nascer, em 15 de outubro de 1963, era muito diferente do Brasil digital.

A televisão estava crescendo.

O rádio tinha enorme importância.

O país atravessava urbanização acelerada.

Milhares de pessoas migravam para grandes centros industriais.

São Paulo crescia violentamente.

Havia trabalhadores com pouca escolarização formal e enormes desigualdades educacionais.

Aqui vale corrigir uma simplificação importante.

Não seria justo dizer simplesmente:

“O NP existia porque o povo brasileiro não sabia ler.”

Não.

O fenômeno é mais interessante.

Existiam índices elevados de analfabetismo e escolarização limitada, mas também existia uma enorme população leitora com diferentes graus de letramento, habituada a formas mais diretas e orais de comunicação.

O NP compreendeu isso extraordinariamente bem.

Ele reduziu a complexidade sintática.

Usou títulos enormes.

Preferiu frases curtas.

Explorou fotografias.

Empregou vocabulário cotidiano.

Transformou assuntos complexos em narrativas.

Em linguagem de sistemas:

INPUT:
acontecimento complexo

PROCESS:
simplificação
personificação
emoção
imagem
humor
sexo
violência
curiosidade

OUTPUT:
MANCHETE IMPOSSÍVEL DE IGNORAR

Isso também explica por que chamar seu público simplesmente de “ignorante” seria perder justamente a parte mais interessante da história.

O leitor do NP podia ter pouca educação formal e, ao mesmo tempo, possuir enorme conhecimento prático do trabalho, da cidade, do transporte, do sindicato, do futebol e da sobrevivência urbana.

O jornal aprendeu a falar a língua desse público.


CAPÍTULO II — O NASCIMENTO ÀS VÉSPERAS DO GOLPE

Aqui a história fica politicamente muito mais interessante.

O NP foi lançado em 1963 pelo empresário Herbert Levy, tendo Jean Mellé como figura fundamental de sua concepção e primeira direção editorial. A intenção original envolvia disputar o público popular da Última Hora, jornal associado a Samuel Wainer e ao campo político ligado ao trabalhismo. Fontes históricas descrevem o projeto inicial como uma tentativa de criar um jornal popular politicamente conservador.

E olhe a data:

1963.

Um ano antes do golpe militar de 1964.

O Brasil fervia.

João Goulart.

Reformas de Base.

Movimento sindical.

Guerra Fria.

Anticomunismo.

Conflitos empresariais.

Estados Unidos e União Soviética disputando influência mundial.

As Forças Armadas no centro da crise.

E havia a Última Hora falando diretamente com parcelas populares.

A ideia era disputar esse espaço.

Só que aconteceu uma coisa deliciosamente digna de sistema legado.

O requisito original perdeu importância.

O produto sobreviveu.

Depois do golpe de 1964, aquele propósito político inicial tornou-se menos necessário. Em 1965, o jornal passou para o controle do grupo que viria a constituir o Grupo Folha.

É o equivalente jornalístico de:

* ESTA ROTINA FOI CRIADA PARA UMA REGRA DE 1963.
* A REGRA NÃO EXISTE MAIS.
* A ROTINA CONTINUA SENDO EXECUTADA.

Todo COBOLzeiro imediatamente se sente em casa.


CAPÍTULO III — IMPRENSA AMARELA NÃO É LISTA TELEFÔNICA

Quando falamos em imprensa amarela, não estamos falando das antigas Páginas Amarelas do telefone.

Estamos falando de yellow journalism ou yellow press.

O conceito nasceu ligado à imprensa sensacionalista de grande circulação: manchetes enormes, acontecimentos dramáticos, crimes, escândalos, histórias humanas, sexo, curiosidades e exploração emocional.

No Brasil popularizou-se também a expressão:

imprensa marrom.

A tradição remonta à penny press e à yellow press do século XIX e reaparece em diferentes formatos no jornalismo popular brasileiro.

O NP levou a fórmula a um nível quase industrial.

Se fosse arquitetura de software:

NOTÍCIA
   |
   +--> medo
   |
   +--> sexo
   |
   +--> curiosidade
   |
   +--> indignação
   |
   +--> humor
   |
   +--> identificação popular
   |
   +--> MANCHETE

Era um engagement engine analógico.


CAPÍTULO IV — O ALGORITMO ERA A BANCA

Aqui está uma coisa que uma geração criada com celulares talvez tenha dificuldade de visualizar.

A banca de jornal era uma interface gráfica urbana.

E era maravilhosa.

Havia revistas penduradas.

Jornais dobrados.

Capas sobrepostas.

Publicações presas em varais e expositores.

Gente esperando ônibus.

Gente saindo do trabalho.

Gente parando alguns minutos.

Gente que não comprava absolutamente nada, mas lia todas as manchetes disponíveis.

Era o Google News da calçada.

O jornaleiro era o algoritmo.

— Chegou aquela revista?

— Chegou.

— Tem jornal do concurso?

— Ali.

— Saiu o resultado do jogo?

— Primeira página.

E havia um fenômeno importantíssimo:

uma única cópia tinha dezenas de leitores visuais.

Hoje contamos pageviews.

Na banca, ninguém sabia quantos olhos haviam processado uma capa.

O NP compreendeu perfeitamente essa economia da atenção.

Sua primeira página precisava funcionar a cinco metros de distância.

Isso significa:

tipografia enorme + fotografia + poucas palavras + emoção.

É praticamente a ciência moderna da thumbnail do YouTube aplicada em papel-jornal.


CAPÍTULO V — TARANTINO ENTRA NA REDAÇÃO

Agora imaginemos Quentin Tarantino analisando uma pilha de Notícias Populares.

Ele provavelmente reconheceria imediatamente vários elementos de sua própria gramática cinematográfica.

Violência exagerada.

Humor dentro da tragédia.

Personagens marginais.

Sexo.

Grotesco.

Cultura popular.

Diálogos aparentemente absurdos.

Criminalidade.

Situações inacreditáveis.

O extraordinário misturado ao cotidiano.

Uma pessoa pega o ônibus.

Outra mata o vizinho.

Outra encontra um lobisomem.

Uma celebridade desapareceu.

Alguém viu um disco voador.

Uma mulher está seminua na contracapa.

O Corinthians perdeu.

Tudo pertence ao mesmo universo narrativo.

É quase:

Pulp Journalism.


CAPÍTULO VI — AS MANCHETES

Algumas manchetes tornaram-se parte do folclore jornalístico brasileiro.

Uma das mais famosas foi:

“Nasceu o Diabo em São Paulo”

Apareceu em 1975 e iniciou a lendária saga do Bebê-Diabo. O sucesso foi tão grande que a história continuou durante várias edições, transformando uma narrativa inicialmente ligada ao nascimento de uma criança com deformidades em uma verdadeira novela sobrenatural.

Outra manchete documentada pela própria história do jornal:

“Violada em pleno auditório”

O contexto?

Sérgio Ricardo havia quebrado o violão durante o Festival de Música Popular Brasileira de 1967.

O “violado” era o violão.

A construção deliberadamente ambígua fazia o resto.

Também apareceu:

“Desapareceu Roberto Carlos”

O contato com o cantor não havia sido conseguido nos Estados Unidos, e a história ganhou dimensão espetacular.

Havia ainda lobisomens, discos voadores, crimes improváveis, histórias sexuais e personagens urbanos transformados em celebridades instantâneas. O acervo histórico preserva, por exemplo, uma primeira página de 1974 dedicada a um suposto lobisomem pernambucano.

O NP compreendia algo fundamental:

a manchete não precisava contar a história inteira.

Precisava obrigar você a executar:

READ NEXT RECORD

CAPÍTULO VII — O BEBÊ-DIABO ERA O CLICKBAIT ANTES DO CLICK

O Bebê-Diabo merece uma parada especial.

A capa anuncia:

NASCEU O DIABO EM SÃO PAULO.

Venda espetacular.

E alguém percebe:

— Meu Deus.

— O quê?

— Vendeu tudo.

— Então o Diabo volta amanhã.

E voltou.

A criatura passou a protagonizar novas histórias.

Aparecia aqui.

Desaparecia ali.

Assustava gente.

Era visto em telhados.

Pegava táxi.

A narrativa continuou por semanas. A história acabou reconhecida como uma construção ficcional da redação e tornou-se talvez o exemplo máximo da mistura de jornalismo, folclore urbano e entretenimento que caracterizou o NP.

Hoje chamaríamos isso de:

retenção de audiência.

Ou:

story arc.

Ou:

conteúdo serializado.

Em 1975:

vende jornal pra cacete.


CAPÍTULO VIII — CRIME: ESPREME QUE SAI SANGUE

A fama do NP também vinha de sua cobertura policial.

Assassinatos.

Acidentes.

Corpos.

Criminosos.

Vítimas.

Delegacias.

Tragédias.

A violência podia aparecer de maneira gráfica que dificilmente seria aceita por muitos veículos generalistas atuais.

Essa estética produziu a célebre descrição:

“espreme que sai sangue”.

Mas há uma contradição importante.

A cobertura policial também dava visibilidade a personagens que raramente apareciam nas páginas nobres da grande imprensa.

Operário.

Empregada doméstica.

Morador da periferia.

Desempregado.

Prostituta.

Motorista.

Pequeno comerciante.

Migrante.

Criminoso de bairro.

Vítima desconhecida.

Era frequentemente uma representação brutal e exploratória.

Mas era representação.

O sujeito que jamais apareceria na coluna social podia ocupar meia primeira página do NP.


CAPÍTULO IX — SEXO VENDE. E O NP SABIA.

E chegamos ao subsistema que provavelmente teria recebido:

PROGRAM-ID. SEX-SELLS.

O NP utilizou extensamente erotismo.

Mulheres seminuas.

Nudez.

Modelos.

Atrizes.

Histórias sexuais.

Duplo sentido.

Escândalos amorosos.

Personagens sexualizados.

Em determinadas fases, mulheres nuas ou seminuas na contracapa tornaram-se parte reconhecível da fórmula editorial. Décadas depois, reproduções históricas dessas capas chegaram a enfrentar moderação automática nas redes sociais justamente por conter nudez.

Isso também revela uma mudança cultural enorme.

Aquilo que podia ficar pendurado numa banca no meio da rua, visível a qualquer transeunte, posteriormente poderia ser removido de uma plataforma digital.

A censura mudou de arquitetura.

Antes:

ESTADO
   |
CENSOR
   |
JORNAL

Hoje pode existir:

PLATAFORMA
   |
POLÍTICA DE CONTEÚDO
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POST

Mudamos o middleware.

A discussão permaneceu.


CAPÍTULO X — DITADURA, CENSURA E A GRANDE CONTRADIÇÃO

O NP atravessou praticamente todo o regime militar brasileiro de 1964 a 1985.

E isso torna sua história fascinante.

Durante a ditadura, a imprensa brasileira conviveu com censura, pressões políticas, autocensura e perseguição a jornalistas.

Mas jornais não foram afetados exatamente da mesma maneira.

E o NP possuía uma característica peculiar.

Grande parte de sua energia editorial estava direcionada para:

crime, sexo, celebridades, futebol, bizarrices e cotidiano.

Enquanto jornais políticos podiam travar batalhas sobre governo, economia e repressão, o NP podia colocar um lobisomem na capa.

Há aqui uma ironia quase tarantinesca:

em um país onde determinados assuntos políticos eram perigosos demais para imprimir, um Bebê-Diabo podia tornar-se protagonista nacional.

Isso não significa que o jornal estivesse fora do sistema político ou imune à censura.

Significa que seu modelo editorial ocupava um espaço diferente.


CAPÍTULO XI — MAS QUEM CENSURA O MAU GOSTO?

Depois aparece outra discussão.

Não censura política.

Censura moral.

Até onde um jornal pode mostrar um cadáver?

Até onde pode explorar sexualmente uma capa?

Até onde pode publicar nudez?

Até onde pode transformar sofrimento humano em entretenimento?

Em 1994, a própria Folha registrava que o NP havia vencido disputas judiciais contra tentativas de obrigá-lo a circular lacrado, enquanto enfrentava outras controvérsias judiciais relacionadas ao conteúdo publicado.

Essa discussão continua atualíssima.

Troque:

banca

por:

timeline

e o problema reaparece.

Quem decide?

O Estado?

A plataforma?

O editor?

O algoritmo?

O leitor?


CAPÍTULO XII — HUMOR: O COMPONENTE QUE MUITA GENTE ESQUECE

Quem reduz o NP apenas a sangue e mulheres nuas perde uma característica fundamental:

ele podia ser tremendamente engraçado.

Às vezes propositalmente.

Às vezes involuntariamente.

Às vezes não havia sequer como saber.

O título possuía ritmo de piada.

Preparação.

Suspense.

Punchline.

A realidade era convertida em espetáculo linguístico.

Era quase uma tradição de boteco aplicada ao jornalismo.

O leitor podia pensar simultaneamente:

— Isso é horrível.

— Isso é absurdo.

— Isso não pode ser verdade.

— HAHAHAHAHAHAHA.

— Quanto custa?

Essa combinação é profundamente tarantinesca.

Você ri de alguma coisa da qual talvez não devesse rir.


CAPÍTULO XIII — O JORNAL TAMBÉM ERA SERVIÇO

Mas existe outro NP escondido atrás do Bebê-Diabo.

O jornal do trabalhador.

Emprego.

Sindicato.

Transporte.

Problemas urbanos.

Futebol.

Serviços.

Histórias dos bairros.

Problemas que afetavam diretamente as classes populares.

Essa dimensão é importante porque impede uma caricatura fácil.

O NP não era simplesmente:

CRIME + PEITO + DEMÔNIO

Era uma mistura muito mais complicada de jornalismo popular, serviço, entretenimento, sensacionalismo e exploração comercial da curiosidade humana.

Essa ambiguidade explica parte de sua longevidade.


CAPÍTULO XIV — 113 MIL EXEMPLARES

O negócio funcionou.

E muito.

Em 1986, a circulação média chegou a aproximadamente 113 mil exemplares diários.

Depois caiu para 71 mil em 1988.

Uma reforma gráfica e editorial iniciada em 1990 recuperou público, levando novamente a circulação para cerca de 104 mil exemplares naquele ano.

Observe o detalhe.

Não estamos falando de impressão de página web.

Cada exemplar precisava:

ser impresso,

dobrado,

empacotado,

transportado,

distribuído,

entregue à banca

e finalmente comprado.

Era uma infraestrutura física monstruosa.


CAPÍTULO XV — AS BANCAS ERAM AS REDES SOCIAIS

Imagine uma manhã em São Paulo.

Ônibus chegando.

Gente atravessando rua.

Café.

Cigarro.

Buzina.

Jornaleiro abrindo pacotes.

Os jornais são colocados no varal.

Um sujeito para.

Outro olha por cima do ombro.

Outro comenta:

— Você viu isso?

Pronto.

Temos:

POST       = capa
FEED       = banca
LIKE       = comentário
SHARE      = contar para colega
TRENDING   = multidão olhando
ALGORITHM  = jornaleiro
CLICK      = comprar

E havia algo maravilhoso:

o lurker analógico.

O cidadão que lia todas as manchetes e jamais comprava jornal algum.

O terror do modelo de monetização desde 1972.


CAPÍTULO XVI — TARANTINO ENCONTRA O NP

Agora podemos voltar ao nosso diretor imaginário.

Tarantino provavelmente compreenderia o Notícias Populares porque ambos trabalham com uma pergunta semelhante:

Até onde podemos levar a cultura popular antes que ela se transforme em grotesco?

Em Tarantino, a violência pode ser horrível e engraçada.

No NP também.

O sexo pode ser desejo, exploração e piada.

No NP também.

O criminoso pode virar personagem.

No NP também.

O absurdo pode coexistir com acontecimentos reais.

No NP também.

E principalmente:

ninguém está tentando parecer elegante.

O produto assume sua vulgaridade.

Isso é fundamental.

O NP não queria parecer o New York Times.

Ele queria que você parasse diante da banca.


CAPÍTULO XVII — ENTÃO VEIO A TELEVISÃO E ROUBOU O CÓDIGO-FONTE

Nos anos 1990 apareceu um concorrente devastador.

A televisão percebeu:

— Espera aí.

Crime funciona.

Tragédia funciona.

Perseguição funciona.

Repórter gritando funciona.

Popular funciona.

Programas como Aqui Agora levaram parte dessa estética para a televisão.

Depois outros programas policiais continuaram explorando a fórmula.

O que antes precisava ser imaginado através de uma fotografia agora aparecia:

em movimento.

Com som.

Sirene.

Repórter.

Helicóptero.

Ao vivo.

O NP encontrou um problema clássico de TI:

sua interface foi copiada por uma plataforma tecnologicamente mais atraente.


CAPÍTULO XVIII — O FIM

Em 20 de janeiro de 2001, saiu a última edição.

A circulação havia despencado para cerca de 20 mil exemplares diários.

Para comparar:

1986:

113.000

2001:

20.000

O Grupo Folha decidiu concentrar seu jornalismo popular no Agora São Paulo, que naquele momento circulava aproximadamente 118 mil exemplares por dia. A direção afirmou que o modelo do NP havia se esgotado.

Também pesavam a dificuldade comercial, a resistência de anunciantes, mudanças no mercado e a concorrência de novas formas de jornalismo popular.

O processo vinha ocorrendo havia anos:

1994 — 99 mil.

1996 — 74 mil.

1998 — 48 mil.

2001 — 20 mil.

O batch estava morrendo lentamente.

Até alguém executar:

//NP      JOB
//STEP01  EXEC PGM=ENCERRA
//SYSOUT  DD SYSOUT=*
//

RC=0000

37 anos.

Fim.


CAPÍTULO XIX — OU TALVEZ NÃO

Porque aqui está o maior easter egg desta história.

O Notícias Populares morreu?

O jornal, sim.

A arquitetura?

HAHAHAHAHAHA.

Não.

Olhe sua timeline.

URGENTE!

CHOCANTE!

VOCÊ NÃO VAI ACREDITAR!

VEJA O QUE ACONTECEU!

IMAGENS FORTES!

POLÊMICA!

BOMBA!

ABSURDO!

Reconheceu?

O NP não desapareceu.

Ele foi portado para a Web.


CAPÍTULO XX — O NP ERA UM ALGORITMO HUMANO

A redação havia descoberto empiricamente coisas que hoje chamamos de:

  • engagement;

  • click-through rate;

  • emotional triggering;

  • visual hierarchy;

  • retention;

  • cliffhanger;

  • serialização;

  • curiosity gap;

  • personalização por público;

  • linguagem otimizada;

  • conteúdo viral.

Não havia machine learning.

Havia jornalista.

Não havia dashboard em tempo real.

Havia:

VENDEU?

Se a resposta fosse sim:

PERFORM FAZ-DE-NOVO
    UNTIL CIRCULACAO = ZERO
END-PERFORM.

O Bebê-Diabo foi praticamente um mecanismo de retenção serializado.


CAPÍTULO XXI — E O “POVO SEM LETRAMENTO”?

Voltamos ao ponto mais delicado.

É tentador olhar para aquelas capas hoje e concluir:

“Funcionavam porque o público era ignorante.”

Seria uma conclusão confortável.

E provavelmente errada.

Porque as mesmas técnicas funcionam hoje com:

executivos,

engenheiros,

médicos,

advogados,

professores,

programadores,

mestres,

doutores

e pessoas com três monitores exibindo dashboards.

O problema não é simplesmente alfabetização.

É psicologia humana.

Medo chama atenção.

Sexo chama atenção.

Perigo chama atenção.

Curiosidade chama atenção.

Violência chama atenção.

O extraordinário chama atenção.

Somos Homo sapiens antes de sermos usuários autenticados.

A diferença é que o NP precisava convencer um cidadão caminhando pela calçada.

Hoje o recomendador sabe exatamente qual Bebê-Diabo mostrar para cada pessoa.

E isso é muito mais poderoso.


CAPÍTULO XXII — O VERDADEIRO LEGADO

O Notícias Populares é uma cápsula cultural brasileira.

Nele encontramos simultaneamente:

ditadura,

urbanização,

migração,

violência,

desigualdade,

sexualidade,

machismo,

humor,

moralismo,

religiosidade,

superstição,

televisão,

futebol,

celebridades,

criminalidade,

publicidade,

censura,

liberdade de imprensa

e cultura popular.

Por isso suas capas parecem absurdas hoje.

Elas são snapshots de memória.

SYS1.BRASIL.HISTORIA.NP

Cada edição preserva não apenas aquilo que aconteceu.

Preserva aquilo que uma sociedade desejava ver.

E talvez isso seja ainda mais importante.


EPÍLOGO — PULP FICTION NA BANCA

Imagine a cena final.

São Paulo.

Final dos anos 1980.

Seis horas da manhã.

Ônibus passando.

Um bar abrindo.

Café sendo servido num copo americano.

A banca está cheia.

O jornaleiro prende jornais no varal.

Um trabalhador aproxima-se.

Olha uma capa.

Para.

Franze a testa.

Outro sujeito olha também.

Um terceiro aproxima-se.

Ninguém sabe ainda que existe uma coisa chamada Internet comercial.

Ninguém ouviu falar em SEO.

Não existe trending topic.

Não existe feed personalizado.

Não existe recomendador.

Não existe botão compartilhar.

Mas existe uma manchete enorme anunciando alguma combinação absolutamente improvável de:

crime + sexo + tragédia + celebridade + sobrenatural.

O primeiro homem comenta:

— Você viu essa porra?

O segundo responde:

— Vi.

O terceiro pergunta:

— O que aconteceu?

E a informação começa a circular.

Tarantino poderia congelar a imagem exatamente aí.

Entraria uma guitarra surf dos anos 1960.

A tela ficaria vermelha.

E surgiria:

NOTÍCIAS POPULARES

Nada mais que a verdade.

Corta.

Créditos.

Mas o COBOLzeiro permanece sentado diante do terminal.

Porque ele percebeu uma coisa inquietante.

O Notícias Populares foi encerrado em 2001.

O código-fonte comportamental que fazia o Notícias Populares funcionar continua executando.

A banca virou feed.

O varal virou timeline.

A manchete virou thumbnail.

O jornaleiro virou algoritmo.

O Bebê-Diabo virou conteúdo viral.

A disputa por centímetros de papel virou disputa por pixels.

E as centenas de pessoas que paravam diante das bancas para ler gratuitamente as manchetes viraram bilhões de dedos fazendo:

SCROLL
SCROLL
SCROLL
STOP

Talvez o maior legado do NP seja justamente esse.

Ele demonstrou, muito antes do Facebook, do YouTube, do TikTok e dos recomendadores modernos, que existe uma disputa feroz pelo recurso computacional mais caro do planeta:

a atenção humana.

E nisso, meu caro COBOLzeiro...

o velho Notícias Populares tinha um algoritmo absolutamente infernal.

Vagner Renato Bellacosa, IBM Champion e especialista em IBM Mainframe
IBM Z17 SYSTEM ONLINE
Sobre o autor

Vagner Renato Bellacosa

IBM Champion 2026 • Especialista em IBM Mainframe

Vagner Renato Bellacosa trabalha com IBM Mainframe desde 1988 , é IBM Champion e especialista em COBOL, CICS, Db2, z/OS e IBM Z. Compartilha experiências profissionais, conhecimento técnico, história da computação e práticas do universo mainframe para aproximar novas gerações das tecnologias que sustentam empresas, bancos e governos ao redor do mundo.

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