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segunda-feira, 30 de maio de 2016

🎭 Ulisses à Deriva em Campinas — Quando Leopold Bloom Desembarcou na Estação Cultura

 

Bellacosa Mainframe e a peça Ulisses a Deriva na Estação Cultura de Campinas SP

☕ Um Café no Bellacosa Mainframe

🎭 Ulisses à Deriva em Campinas — Quando Leopold Bloom Desembarcou na Estação Cultura



21 de maio de 2016. Estação Cultura de Campinas. Uma antiga estação ferroviária transformada em palco. Naquela noite, porém, quem desembarcou ali não veio de São Paulo, Jundiaí ou Santos. Veio de Dublin. Seu nome era Leopold Bloom.



🚂 PRÓLOGO — Todo Ulisses precisa de uma estação

Existem lugares que parecem escolhidos por acaso.

E existem lugares que, anos depois, percebemos que eram praticamente inevitáveis.

Em 21 de maio de 2016, fui à Estação Cultura de Campinas assistir a uma apresentação teatral.

O espetáculo chamava-se:

Ulisses à Deriva.

Dez anos depois, reconstruindo aquela memória, descobri que o nome completo da montagem era ainda mais interessante:

Ulisses Molly Bloom — Dançando para Adiar ou Ulisses à Deriva.

Era uma montagem da Cia. Estrela D'Alva de Teatro, de Santo André, em parceria com o Quarteto à Deriva, construída a partir do monumental Ulysses, de James Joyce.

Naquele momento, porém, eu não sabia de toda essa história.

Eu simplesmente estava ali.

E talvez isso tenha sido melhor.

Porque Ulisses é justamente uma história sobre alguém que simplesmente está ali.

Caminhando.

Observando.

Desejando.

Lembrando.

Errando.

Entrando em lugares onde talvez não devesse entrar.

E continuando.

Bloom não atravessa oceanos como o Ulisses de Homero.

Ele atravessa uma cidade.

Naquela noite, atravessaria também Campinas.



🚉 1. O primeiro personagem daquela noite já estava esperando por nós

Antes mesmo de os atores entrarem em cena, havia um gigantesco personagem diante de nós:

a própria Estação Cultura.

Quem conhece Campinas sabe que aquele prédio não nasceu como teatro.

Ali funcionou durante décadas a antiga estação ferroviária da cidade.

Trens chegaram.

Trens partiram.

Pessoas se despediram.

Imigrantes desembarcaram.

Trabalhadores passaram por suas plataformas.

Mercadorias atravessaram seus trilhos.

Famílias começaram viagens ali.

Outras terminaram.

E agora, naquele mesmo espaço destinado originalmente ao movimento, alguém apresentava uma história sobre...

um homem caminhando.

Isso é quase perfeito demais.

Leopold Bloom é um viajante urbano.

A Estação Cultura é um monumento à viagem.

Naquela noite os trilhos já não eram necessários.

O trem estava dentro da cabeça.



📚 2. Mas afinal, quem diabos é Ulisses?

Aqui precisamos voltar para 1922.

James Joyce publica Ulysses, uma das obras mais famosas — e também mais temidas — da literatura moderna.

A inspiração está na Odisseia, de Homero.

Na obra grega, Odisseu — Ulisses na tradição latina — passa anos tentando retornar para casa depois da Guerra de Troia.

Há monstros.

Deuses.

Sereias.

Gigantes.

Tempestades.

Feiticeiras.

Naufrágios.

Joyce faz algo absolutamente maluco.

Pega aquela gigantesca aventura mitológica e pergunta:

E se a grande odisseia humana coubesse dentro de um único dia?

Assim chegamos a 16 de junho de 1904.

Dublin.

Leopold Bloom sai pela cidade.

Stephen Dedalus também percorre Dublin.

Molly Bloom permanece como uma presença fundamental naquele universo.

A viagem épica transforma-se em vida cotidiana.

Comer.

Andar.

Conversar.

Beber.

Pensar.

Desejar.

Defecar.

Sentir ciúmes.

Observar pessoas.

Lembrar.

Fantasiar.

Voltar para casa.

Joyce parece dizer:

não precisamos enfrentar ciclopes para viver uma odisseia.

Às vezes basta sobreviver a uma terça-feira.



🧑‍💼 3. Leopold Bloom talvez seja um dos heróis mais estranhos da literatura

Bloom não parece herói.

E justamente por isso funciona tão bem.

Não é Aquiles.

Não é Conan.

Não é Superman.

Não entra em uma sala fazendo todo mundo parar.

É um homem comum.

Um sujeito andando pela cidade enquanto sua cabeça executa milhares de pequenos processos simultaneamente.

Para um programador COBOL, talvez possamos representar Bloom assim:

PERFORM CAMINHAR-POR-DUBLIN
    UNTIL FIM-DO-DIA.

    PERFORM OBSERVAR-PESSOAS.
    PERFORM LEMBRAR-DO-PASSADO.
    PERFORM PENSAR-EM-MOLLY.
    PERFORM SENTIR-CIUMES.
    PERFORM DESEJAR.
    PERFORM QUESTIONAR-A-VIDA.
    PERFORM ENTRAR-ONDE-NAO-DEVERIA.


O problema é que existe um GO TO perdido nesse programa.

E Bloom passa o romance inteiro tentando descobrir para onde ele aponta.


🌊 4. Ulisses estava à deriva — e nós também

A montagem da Cia. Estrela D'Alva não pretendia simplesmente colocar centenas de páginas de Joyce sobre o palco.

Isso seria praticamente impossível.

A dramaturgia de Lucienne Guedes e Marcio Castro, sob encenação de Marcelo Gianini, transformava aquele universo em um poema cênico.

E essa expressão é importante.

Não estamos falando de:

CAPÍTULO 1
CAPÍTULO 2
CAPÍTULO 3

Estamos falando de fragmentos.

Imagens.

Corpos.

Sons.

Palavras.

Movimentos.

Música.

Silêncios.

Memórias.

Sensações.

Bloom está à deriva.

O público também.


🌑 5. Então a peça começa a caminhar para algum lugar escuro

Uma das lembranças que ficaram comigo daquela apresentação é justamente uma sequência que inicialmente parece não explicar absolutamente nada.

A peça caminha para a escuridão.

Não há uma placa dizendo:

ATENÇÃO: ESTAMOS ENTRANDO NO EPISÓDIO CIRCE.

Não.

Primeiro vem a sensação.

A iluminação diminui.

O ambiente muda.

Então aparecem sons.

Conversas.

Falatório.

Gritos.

Gemidos.

Risadas.

Ruídos humanos.

Alguns bastante inequívocos.

Aos poucos você começa a entender.

Aquilo não parece uma rua comum.

Há alguma coisa acontecendo naquele lugar.

E então surge o vermelho.


🔴 6. A luz vermelha não ilumina — denuncia

Finalmente aquilo ganha forma.

A famosa iluminação vermelha.

A indicação de um bordel.

E Bloom entra naquele mundo.

Hoje sabemos que existe uma conexão fascinante com o episódio 15 de Ulysses, tradicionalmente conhecido como “Circe”.

Na obra de Joyce, Bloom chega a Nighttown, região associada à prostituição em Dublin.

E então Joyce praticamente quebra seu próprio romance.

O capítulo passa a utilizar uma forma que lembra texto teatral.

Personagens aparecem.

Objetos parecem ganhar vida.

Pensamentos tornam-se acontecimentos.

Desejos transformam-se em imagens.

Culpa ganha corpo.

Medos aparecem diante de Bloom.

Fantasia e realidade deixam de obedecer a fronteiras confiáveis.

É quase como se alguém tivesse despejado o conteúdo da memória RAM de Bloom diretamente no palco.


💾 7. CIRCE.DUMP

Programadores de mainframe entenderão imediatamente.

Imagine um sistema executando normalmente.

Então alguma coisa acontece.

SYSTEM COMPLETION CODE=0C4

Você pega o dump.

E encontra memória.

Registradores.

Endereços.

Dados.

Restos de processamento.

Coisas que deveriam permanecer invisíveis tornam-se examináveis.

“Circe” é quase o dump psicológico de Leopold Bloom.

Desejos.

Vergonha.

Sexualidade.

Humilhação.

Culpa.

Fantasias.

Medos.

Tudo aquilo que normalmente permanece protegido pelo RACF da consciência começa a aparecer.

E alguém aparentemente executou:

PERMIT INCONSCIENTE CLASS(PSYCHOLOGY) ACCESS(READ)

Pior:

parece que deram ALTER.


💔 8. Mas havia outra peça acontecendo ao meu lado

E aqui aquela lembrança de Campinas torna-se muito mais pessoal.

Porque teatro não acontece apenas no palco.

Acontece também nas cadeiras.

Cada espectador assiste à mesma peça carregando um banco de dados completamente diferente dentro da cabeça.

Ao meu lado estava Ana Paula.

E aquela sequência provocou nela uma reação que eu não compreendi imediatamente.

O bordel não era apenas cenário.

A situação tocava numa lembrança dolorosa de sua própria história.

O ex-marido procurava bordéis em busca daquilo que aparentemente julgava não encontrar dentro de casa.

Então aquela sequência teatral encontrou uma memória.

E memória emocional é uma coisa estranha.

Você pode arquivar.

Compactar.

Mover para fita.

Mudar o nome do dataset.

Colocar:

OLD.PAIN.DO.NOT.OPEN

Mas ele continua catalogado.

Às vezes basta uma luz vermelha.

Um som.

Uma palavra.

Uma situação.

E alguém executa:

RECALL OLD.PAIN.DO.NOT.OPEN

🩹 9. A casquinha da ferida

Existe uma imagem que talvez descreva isso melhor que qualquer teoria.

Uma ferida cicatriza.

Forma-se aquela pequena casquinha.

Você sabe que não deveria mexer.

Mas passa o dedo.

Cutuca.

Arranca.

Dói novamente.

Às vezes sangra.

Depois outra casquinha começa a surgir.

Algumas memórias funcionam assim.

O teatro, naquele momento, havia colocado o dedo exatamente sobre uma delas.

Não porque conhecesse Ana Paula.

Não porque aquela montagem tivesse sido escrita para ela.

Mas porque a arte possui essa capacidade assustadora de encontrar coisas dentro de nós que o artista nem sabia que estavam ali.


🎭 10. É aqui que teatro deixa de ser entretenimento

Esse talvez seja o ponto mais importante daquela noite.

Podemos assistir a uma peça e sair dizendo:

— Gostei.

— Não gostei.

— Os atores eram bons.

— A iluminação estava bonita.

— A música era interessante.

Mas algumas obras fazem outra coisa.

Elas entram.

Mexem.

Provocam.

Arranham.

E às vezes incomodam.

A sequência do bordel poderia ser interpretada superficialmente como provocação sexual.

Depois de conhecer melhor Ulysses, entretanto, percebo que existe algo muito mais profundo.

Bloom não está simplesmente entrando em um bordel.

Ele está entrando nele mesmo.


🪞 11. Nighttown é um espelho

Circe transforma o ambiente num enorme espelho psicológico.

Bloom encontra desejos que talvez preferisse esconder.

Medos.

Fantasias.

Culpas.

Questões relacionadas à masculinidade.

Sexualidade.

Poder.

Submissão.

Humilhação.

Identidade.

A cidade exterior começa a confundir-se com a cidade interior.

E talvez seja por isso que aquela sequência funcionasse tão bem começando pela escuridão.

Primeiro você não vê.

Depois você ouve.

Depois imagina.

Finalmente enxerga.

É exatamente assim que muitos medos funcionam.


🧠 12. O cérebro compila antes de receber todos os dados

Existe outra coisa genial nesse recurso.

Quando estamos no escuro ouvindo sons, nosso cérebro tenta preencher aquilo que falta.

Isso é extremamente humano.

Recebemos:

INPUT:
   GEMIDO
   RISADA
   GRITO
   CONVERSA
   RESPIRACAO

E nosso cérebro começa imediatamente:

IF GEMIDO = TRUE
   AND RISADA = TRUE
   AND AMBIENTE = ESCURO
THEN
   PERFORM CONSTRUIR-CENARIO.

Quando finalmente aparece a luz vermelha, talvez o bordel já estivesse pronto dentro da cabeça do espectador.

O cenário apenas confirma aquilo que nossa imaginação havia compilado.


🎷 13. O Quarteto à Deriva

Outro componente fundamental da montagem foi justamente a música.

A aproximação entre a Cia. Estrela D'Alva e o Quarteto à Deriva ocorreu durante a trajetória do Projeto Ulisses.

Isso muda profundamente a experiência.

Porque Joyce é musical.

Seu texto possui ritmo.

Repetições.

Interrupções.

Fluxos.

Ruídos.

Vozes.

A música consegue entrar onde uma explicação racional talvez destruísse a experiência.

Em vez de explicar Bloom:

fazemos Bloom soar.


🚂 14. E tudo isso acontecendo dentro de uma antiga estação

Voltemos para Campinas.

Quanto mais penso naquela escolha de espaço, mais interessante ela fica.

Estação é transição.

Você não constrói uma estação para permanecer nela.

Você chega.

Espera.

Embarca.

Desembarca.

Parte.

Bloom também vive em trânsito.

Então tínhamos:

Dublin dentro de Campinas.

Uma odisseia dentro de uma estação.

Um homem perdido dentro de uma história.

Espectadores perdidos dentro das próprias lembranças.

E antigos trilhos silenciosos do lado de fora.


🗓️ 15. Por que aquela apresentação aconteceu em Campinas?

A resposta só apareceu para mim muitos anos depois.

O espetáculo teve origem no projeto contemplado pelo ProAC 2011.

A montagem estreou em 2012.

Posteriormente encontrou o Quarteto à Deriva.

O projeto continuou desenvolvendo-se.

Em 2015 houve novo apoio para circulação.

E chegamos a 2016.

Naquele ano, Ulisses à Deriva percorreu sete cidades paulistas, totalizando 14 apresentações.

Campinas fazia parte dessa viagem.

Portanto, naquela noite de 21 de maio de 2016, eu não estava diante de uma apresentação ocasional perdida no calendário cultural.

Estava assistindo a uma etapa de uma circulação profissional de uma obra que já possuía anos de pesquisa.

Essa descoberta mudou minha própria memória daquele evento.


🧭 16. O Ulisses de Homero queria voltar para casa

Existe uma linha ligando tudo isso.

Odisseu passa sua aventura tentando voltar para Ítaca.

Bloom passa Dublin e finalmente retorna para casa.

E nós passamos a vida inteira fazendo algo parecido.

Saímos.

Trabalhamos.

Amamos.

Erramos.

Viajamos.

Mudamos de cidade.

Mudamos de país.

Perdemos pessoas.

Conhecemos outras.

Guardamos fotografias.

Filmamos pequenos momentos.

E algum dia retornamos.

Nem sempre ao lugar.

Às vezes retornamos apenas à memória.

Foi exatamente o que aconteceu comigo agora.

2016 tornou-se minha Ítaca.


📹 17. O backup de uma noite

Existe ainda uma coisa que considero maravilhosa.

Eu registrei parte daquela experiência em vídeo.

Na época talvez fosse apenas:

— Vou filmar isso.

Dez anos depois, aquele arquivo tornou-se outra coisa.

Documento.

Registro cultural.

Memória pessoal.

Fragmento histórico.

Isso reforça algo em que acredito há muito tempo:

não sabemos quais arquivos banais de hoje serão preciosos amanhã.

Programadores antigos sabem disso.

Aquele comentário no início de um programa:

* ALTERADO EM 21/05/2016
* MOTIVO: CORRECAO PROCESSAMENTO
* PROGRAMADOR: XXXXX

pode parecer irrelevante.

Dez anos depois pode ser a única pista disponível para compreender por que alguma coisa existe.

Meu vídeo daquela noite acabou funcionando da mesma maneira.


🥚 EASTER EGG — 21/05/2016

Aqui está nosso pequeno easter egg Bellacosa Mainframe.

Imagine um job submetido naquela noite:

//ULISSES JOB (2016),'CAMPINAS'
//STEP01  EXEC PGM=BLOOM
//DUBLIN  DD DSN=JOYCE.ULYSSES,DISP=SHR
//MEMORIA DD DSN=VAGNER.2016,DISP=OLD
//OUTPUT  DD SYSOUT=*

O job terminou.

RC=0000?

Não exatamente.

Porque uma boa obra de arte não deveria terminar com RC=0000.

Ela deveria deixar alguma coisa pendente.

Talvez:

IEC999I
PROCESSAMENTO ENCERRADO
ALGUNS DATASETS PERMANECEM ABERTOS

Dez anos depois, um deles acabou de ser reaberto.


🔎 18. A curiosidade que surgiu dez anos depois

Quando comecei a reconstruir aquela apresentação, inicialmente lembrava dela quase como uma peça feita por um grupo teatral do ABC paulista.

A investigação revelou algo maior.

A companhia era a Cia. Estrela D'Alva de Teatro, de Santo André.

A montagem possuía trajetória.

Pesquisa.

Dramaturgia própria.

Edital.

Circulação.

Parceria musical.

Anos de desenvolvimento.

E isso demonstra uma coisa maravilhosa sobre memória:

lembrar é diferente de investigar.

Memória fornece pistas.

Pesquisa reorganiza as pistas.

Uma não destrói a outra.

Elas trabalham juntas.


📚 19. O roteiro que ainda permanece perdido

Há ainda um mistério.

Conseguimos localizar ficha técnica.

Registros institucionais.

Programações.

Histórico da companhia.

Registros audiovisuais.

Informações sobre circulação.

Mas o texto dramatúrgico integral de Lucienne Guedes e Marcio Castro ainda não apareceu publicamente nas buscas que fizemos.

Talvez esteja em algum arquivo.

Biblioteca.

Computador antigo.

Catálogo.

Dissertação.

Arquivo pessoal.

Backup.

HD esquecido.

Ou numa pasta chamada:

ULISSES_FINAL_FINAL_AGORA_VAI_V3.DOC

Todo programador sabe que esse arquivo provavelmente existe.


🌌 20. Talvez Ulisses nunca tenha estado realmente à deriva

Depois de revisitar tudo isso, comecei a desconfiar do próprio título.

Ulisses à Deriva.

Deriva pressupõe ausência de direção.

Mas talvez Bloom possua uma direção.

Talvez todos nós tenhamos.

Casa.

Memória.

Afeto.

Pertencimento.

Mesmo quando caminhamos aparentemente sem rumo, alguma coisa nos puxa.

Odisseu tinha Ítaca.

Bloom tinha Molly.

Eu tinha aquela noite guardada num vídeo e numa lembrança.

E foi necessário esperar dez anos para perceber que ela ainda não havia terminado.


☕ EPÍLOGO — O trem partiu, mas alguma coisa permaneceu na plataforma

21 de maio de 2016.

Estação Cultura.

Campinas.

As luzes se apagaram.

Os atores terminaram a apresentação.

O público levantou.

As pessoas conversaram.

Cada uma seguiu para algum lugar.

A antiga estação voltou ao silêncio.

Mas algumas histórias possuem um comportamento estranho.

Elas não acabam quando fechamos a porta.

Ficam executando silenciosamente em background.

Como aquele velho processo que ninguém encontra no SDSF porque ninguém lembra exatamente qual era o JOBNAME.

Até que alguma coisa acontece.

Um vídeo reaparece.

Uma pergunta surge.

Uma lembrança incomoda.

Você começa a pesquisar.

Descobre James Joyce.

Descobre Leopold Bloom.

Descobre Molly.

Descobre Nighttown.

Descobre Circe.

Descobre a Cia. Estrela D'Alva.

Descobre o Projeto Ulisses.

Descobre o ProAC.

Descobre que aquela apresentação fazia parte de uma circulação por cidades paulistas.

E finalmente percebe:

você não estava apenas assistindo a Ulisses à Deriva.

Também estava viajando.

Naquela noite, uma antiga estação ferroviária de Campinas tornou-se Dublin.

Leopold Bloom caminhou por Nighttown.

Uma luz vermelha apareceu no escuro.

Uma memória dolorosa foi tocada na cadeira ao lado.

E um homem com uma câmera guardou alguns fragmentos sem imaginar que, dez anos depois, tentaria remontá-los.

Talvez seja justamente isso que Joyce tentou nos mostrar.

As grandes odisseias não acontecem apenas quando enfrentamos monstros, atravessamos oceanos ou derrotamos exércitos.

Elas acontecem enquanto caminhamos.

Enquanto observamos.

Enquanto lembramos.

Enquanto amamos.

Enquanto carregamos nossas pequenas feridas.

E enquanto tentamos encontrar o caminho de volta.

Naquela noite, Ulisses desembarcou em Campinas.

O espetáculo terminou.

A viagem, aparentemente, não.

Um Café no Bellacosa Mainframe

Onde algumas histórias são executadas imediatamente — e outras permanecem dez anos na fila até alguém finalmente descobrir o JOBNAME.

☕ Um Café no Bellacosa Mainframe

🎭 Teatro na Estação — Campinas 2016

Uma viagem pelos registros do Teatro na Estação, na Estação Cultura de Campinas, incluindo a passagem de Ulisses à Deriva em 21 de maio de 2016.

Esta coleção reúne vídeos, relatos e memórias registrados durante o evento Teatro na Estação, preservando diferentes momentos da programação cultural realizada na antiga estação ferroviária de Campinas.

🚂 Uma estação transformada em palco

Em maio de 2016, a Estação Cultura de Campinas recebeu apresentações em que teatro, música, performances e personagens ocuparam plataformas, vagões e antigos espaços ferroviários.

Estes registros formam uma pequena memória digital daquele encontro entre ferrovia, patrimônio histórico, teatro, música e cultura em Campinas.

Entre as apresentações estava Ulisses à Deriva, montagem relacionada ao universo de Ulysses, de James Joyce, transformando a antiga estação em mais uma parada na longa viagem de Leopold Bloom.

📺 Visor — Teatro na Estação Artigo principal carregado
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📚 Teatro, ferrovia e memória cultural de Campinas

O projeto Teatro na Estação ocupou a histórica Estação Cultura de Campinas com apresentações, música, teatro e performances. Estes registros publicados no Bellacosa Mainframe preservam diferentes fragmentos daquela experiência cultural.

A coleção inclui cenas relacionadas a Ulisses à Deriva, além de músicos, personagens, performances e intervenções realizadas no ambiente ferroviário.

O conjunto conecta temas como Campinas, Estação Cultura, patrimônio ferroviário, teatro brasileiro, James Joyce, Ulysses, Leopold Bloom, Molly Bloom, literatura, música e memória cultural.

Vagner Renato Bellacosa, IBM Champion e especialista em IBM Mainframe
IBM Z17 SYSTEM ONLINE
Sobre o autor

Vagner Renato Bellacosa

IBM Champion 2026 • Especialista em IBM Mainframe

Vagner Renato Bellacosa trabalha com IBM Mainframe desde 1988 , é IBM Champion e especialista em COBOL, CICS, Db2, z/OS e IBM Z. Compartilha experiências profissionais, conhecimento técnico, história da computação e práticas do universo mainframe para aproximar novas gerações das tecnologias que sustentam empresas, bancos e governos ao redor do mundo.

IBM Champion IBM Z COBOL CICS Db2 z/OS Mainframe desde 1988
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