☕ Um Café no Bellacosa Mainframe
Gostou do conteúdo? Ajude a manter o café quente, o COBOL compilando e o mainframe acordado. 😄
☕ Pague um café ao Bellacosa

Translate

Mostrar mensagens com a etiqueta Shadow IT. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Shadow IT. Mostrar todas as mensagens

domingo, 15 de maio de 2022

🧙‍♂️ YUJI E A DUNGEON DOS SISTEMAS ABERTOS — QUANDO O MAINFRAME DESCOBRIU QUE O UNIX NÃO ERA O CHEFÃO FINAL

 

Bellacosa Mainframe e uma visão sobre sistemas e arquiteturas

☕ Um Café no Bellacosa Mainframe

🧙‍♂️ YUJI E A DUNGEON DOS SISTEMAS ABERTOS — QUANDO O MAINFRAME DESCOBRIU QUE O UNIX NÃO ERA O CHEFÃO FINAL

COBOL, mainframe, microinformática, Unix, RISC, cliente-servidor, sistemas abertos, padrões, 4GL, TCO, auditoria, Shadow IT — e o dia em que Yuji descobriu que o servidor barato podia sair muito caro.



🎬 PRÓLOGO — YUJI ENCONTROU UM COMPUTADOR DEBAIXO DA MESA

Yuji entrou silenciosamente no Departamento Financeiro.

Como sempre, ninguém percebeu sua chegada.

Atrás dele caminhavam alguns slimes.

Puru puru.

Yuji olhou para uma mesa.

Havia um computador.

Olhou para outra.

Outro computador.

Mais adiante encontrou mais seis.

Então um dos slimes apareceu trazendo uma informação:

Detectado aplicativo desconhecido.

Yuji parou.

— Aplicativo desconhecido?

O slime respondeu:

FINANCEIRO_FINAL.XLS

Outro slime apareceu.

FINANCEIRO_FINAL2.XLS

Mais um:

FINANCEIRO_FINAL_AGORA_VAI.XLS

Yuji ficou alguns segundos olhando para aquilo.

Finalmente perguntou:

— Qual deles fecha o balanço da empresa?

Silêncio.

Era o final dos anos 1990.

Durante décadas, a empresa conhecera perfeitamente seu grande computador central. Programas COBOL eram desenvolvidos, compilados, testados e colocados em produção seguindo procedimentos relativamente controlados.

Então chegaram os computadores pessoais.

Baratos.

Fáceis de instalar.

Espalharam-se pelas mesas.

Depois vieram redes locais, servidores departamentais, Unix, arquiteturas RISC, cliente-servidor, bancos de dados distribuídos e Internet.

A capacidade computacional escapara do castelo.

E ninguém sabia exatamente quantos monstros havia agora na floresta.

Yuji acabara de encontrar uma nova dungeon:

a microinformática corporativa.



🏰 CAPÍTULO 1 — QUANDO O COMPUTADOR MORAVA NO CASTELO

Programador COBOL iniciante, antes de falarmos sobre Unix, RISC ou sistemas abertos, precisamos voltar algumas décadas.

Durante grande parte da história da computação empresarial, processamento era algo centralizado.

Imagine uma empresa possuindo um grande computador:

TERMINAL ─┐
TERMINAL ─┤
TERMINAL ─┤
TERMINAL ─┼──── MAINFRAME ──── DADOS
TERMINAL ─┤
TERMINAL ─┤
TERMINAL ─┘

Os usuários trabalhavam em terminais.

O terminal frequentemente tinha pouca capacidade de processamento local. Ele permitia ao usuário interagir com aplicações executadas no computador central.

É daí que aparece uma palavra importantíssima naquele período:

HOST.

Host é o sistema que hospeda e executa serviços ou workloads utilizados por outros sistemas ou usuários.

No mundo corporativo clássico, o mainframe era frequentemente esse host.

Centenas ou milhares de pessoas poderiam compartilhar recursos da mesma máquina.

Um bancário consultava uma conta.

Outro registrava uma transferência.

Um programa batch processava arquivos.

Outro atualizava banco de dados.

Tudo acontecia sobre uma infraestrutura centralizada.

Para quem está começando em COBOL, pense em:

COBOL
  ↓
CICS
  ↓
Db2 / IMS / VSAM 
  ↓
z/OS
  ↓
IBM Z

Naturalmente, essa é uma simplificação, mas ela ajuda a visualizar a ideia.

O mainframe não significa apenas "computador grande".

Sua importância está na capacidade de administrar grandes quantidades de trabalho compartilhado de maneira controlada.



🖥️ CAPÍTULO 2 — O PC ESCAPOU DO CPD

Então aconteceu algo revolucionário.

Computadores ficaram menores e baratos.

O processamento começou a sair do CPD e chegar às mesas.

Era uma transformação profunda porque a informação deveria estar:

onde as pessoas precisavam dela para tomar decisões.

Imagine o Departamento Financeiro.

Antes, alguém poderia solicitar um relatório ao CPD.

Depois teria que esperar sua execução.

Com um PC e uma planilha, o gerente podia manipular informações imediatamente.

Isso era fantástico.

Mas havia um efeito colateral.

Antes:

USUÁRIO
   │
   ▼
SISTEMA CORPORATIVO
   │
   ▼
MAINFRAME

Agora:

USUÁRIO
   │
   ├── planilha
   ├── banco local
   ├── aplicativo comprado
   ├── programa feito pelo departamento
   └── arquivos locais

O poder computacional estava sendo democratizado.

E toda democratização tecnológica cria novas possibilidades — inclusive novas maneiras de fazer besteira.



👻 CAPÍTULO 3 — YUJI DESCOBRE O ANCESTRAL DO SHADOW IT

Um slime apareceu diante de Yuji.

Detectada aplicação crítica.

Yuji perguntou:

— Está no mainframe?

— Não.

— Servidor Unix?

— Não.

— Sistema oficial?

— Não.

— Quem desenvolveu?

O slime respondeu:

Carlos, do Financeiro.

— Carlos é programador?

Não.

— Documentação?

Não encontrada.

— Backup?

Talvez.

Yuji suspirou.

Bem-vindo ao ancestral do Shadow IT.

Shadow IT é tecnologia utilizada dentro de uma organização sem conhecimento, aprovação ou governança adequada da área responsável.

Hoje podemos imaginar:

  • SaaS contratado sem autorização;

  • armazenamento em cloud pessoal;

  • aplicações low-code;

  • ferramentas de IA;

  • bancos de dados externos;

  • APIs não autorizadas.

Nos anos 1990, poderia ser algo muito mais simples:

  • Access;

  • Excel;

  • Lotus 1-2-3;

  • dBase;

  • FoxPro;

  • Visual Basic;

  • programas shareware;

  • bancos de dados locais.

Uma planilha começava ajudando uma pessoa.

Depois ajudava cinco.

Depois cinquenta.

Até que alguém descobria:

“Sem aquela planilha não conseguimos fechar o mês.”

Acabamos de criar um sistema crítico sem Change Management, documentação ou governança.



🔎 CAPÍTULO 4 — NASCE A NECESSIDADE DE AUDITAR A MICROINFORMÁTICA

Quando existem dez computadores, talvez alguém saiba onde estão.

Quando existem dez mil, temos outro problema.

Auditoria de microinformática começou a ganhar enorme importância justamente porque empresas acumulavam grandes quantidades de equipamentos e software distribuídos.

O auditor precisava responder perguntas básicas.

Quantos computadores existem?

Onde estão?

Quem utiliza cada equipamento?

Qual configuração possuem?

Que software está instalado?

Existem licenças?

Existe antivírus?

Existe backup?

Quem possui privilégios administrativos?

Existem programas não autorizados?

Existem dados corporativos armazenados localmente?

Observe que a auditoria não estava procurando simplesmente "computadores".

Estava tentando descobrir riscos.

Imagine um PC contendo dados financeiros críticos.

Se o disco falhar amanhã, o que acontece?

Essa pergunta vale muito mais que saber a marca do computador.


🧙 CAPÍTULO 5 — O MAINFRAME ENCONTRA O UNIX

Enquanto PCs conquistavam as mesas, outro personagem ganhava espaço nos data centers:

Unix.

Unix tinha uma longa história acadêmica e empresarial e tornou-se extremamente importante em workstations e servidores.

Nos anos 1990, Unix frequentemente aparecia associado às arquiteturas RISC.

RISC significa:

Reduced Instruction Set Computer.

A filosofia RISC buscava trabalhar com conjuntos de instruções relativamente simples e eficientes, favorecendo determinadas estratégias de implementação e pipeline.

Entre as arquiteturas que se tornaram importantes estavam:

IBM POWER
Sun SPARC
HP PA-RISC
DEC Alpha
MIPS

Imagine nosso mundo de fantasia.

Vários reinos surgiram dizendo:

“Não precisamos daquele castelo gigantesco. Podemos construir fortalezas menores.”

Era o começo de uma mudança significativa na distribuição da capacidade computacional.


⚔️ CAPÍTULO 6 — MERCEDES-BENZ CONTRA FUSCA

Em determinado debate daquela época surgiu uma comparação maravilhosa.

Representantes do mundo mainframe compararam:

MAINFRAME = MERCEDES-BENZ
UNIX      = FUSCA

Segundo o argumento, ambos poderiam levar você ao destino.

Mas a Mercedes ofereceria mais:

  • conforto;

  • segurança;

  • confiabilidade;

  • qualidade dos componentes.

É uma metáfora interessante.

Mas existe um problema.

Yuji provavelmente perguntaria:

— Qual é a missão?

Porque não faz sentido discutir qual veículo é melhor sem perguntar para quê ele será usado.

Se você precisa transportar uma pessoa alguns quilômetros, talvez o veículo simples seja suficiente.

Agora imagine:

“Precisamos processar milhões de transações financeiras, continuamente, com controles rígidos e altíssima disponibilidade.”

A conversa muda.

Tecnologia empresarial deve ser analisada pelo workload.

Essa é uma palavra que você deve guardar.

Workload

É a carga de trabalho computacional que um sistema precisa executar.

Pode ser:

transações CICS
batch COBOL
consultas Db2
servidor Web
analytics
IA
processamento científico
mensageria
APIs

Portanto:

Não existe plataforma universalmente melhor. Existe plataforma mais adequada para determinado conjunto de requisitos.


💰 CAPÍTULO 7 — O SERVIDOR BARATO QUE FICOU CARO

Unix tinha uma vantagem comercial poderosa.

Servidores menores podiam custar significativamente menos que grandes sistemas centralizados.

Então alguém fazia a comparação:

MAINFRAME
US$ $$$$$$$$

UNIX
US$ $$$

Pronto.

Unix venceu?

Calma.

Yuji mandaria seus slimes procurar o restante da conta.

Porque preço de aquisição não é igual a custo total.

Surge então uma ideia fundamental:

TCO — Total Cost of Ownership

TCO significa custo total de propriedade.

Imagine um servidor custando:

US$ 20.000

Mas durante cinco anos você precisará pagar por:

administradores
energia
storage
backup
rede
licenciamento
monitoramento
suporte
patching
segurança
downtime
migrações

Agora multiplique isso por 100 servidores.

O servidor barato pode gerar uma infraestrutura cara.

Essa discussão dos anos 1990 reapareceria décadas depois com cloud.


🌐 CAPÍTULO 8 — CLIENTE-SERVIDOR MUDA A DUNGEON

Uma das grandes arquiteturas daquele período foi o modelo client/server.

Em vez de concentrar praticamente todo processamento no host, distribuímos responsabilidades.

Exemplo:

CLIENTE
   │
   │ solicitação
   ▼
SERVIDOR
   │
   ▼
BANCO DE DADOS

O cliente poderia cuidar da interface.

O servidor executaria regras ou serviços.

O banco armazenaria dados.

Isso possibilitava distribuir capacidade computacional.

Imagine uma aplicação COBOL tradicional:

3270
 │
 ▼
CICS
 │
 ├── COBOL
 │
 ▼
Db2

No mundo distribuído poderíamos encontrar:

Windows Client
      │
      ▼
Unix Server
      │
      ▼
Database

Mas cuidado.

Distribuir processamento também distribui complexidade.

Agora precisamos administrar:

rede
protocolos
clientes
servidores
versões
drivers
bancos
autenticação
compatibilidade

Toda camada adicionada resolve alguma coisa e potencialmente cria outra dungeon.


🔌 CAPÍTULO 9 — SISTEMAS ABERTOS E O PODER DOS PADRÕES

Chegamos a uma das ideias mais importantes daquela transformação:

sistemas abertos.

Um sistema aberto não significa necessariamente que absolutamente tudo nele seja open source.

A questão central está em utilizar interfaces, protocolos e padrões que facilitem interoperabilidade.

Imagine três fornecedores criando três equipamentos.

Sem padrões:

A ── protocolo A
B ── protocolo B
C ── protocolo C

Integrá-los é complicado.

Com padrões:

A ─┐
B ─┼── PADRÃO
C ─┘

Os produtos continuam diferentes.

Mas existe uma linguagem comum.

Pense na Internet.

Equipamentos completamente diferentes conseguem conversar usando protocolos padronizados.

Isso reduz dependência tecnológica e facilita integração.


🧩 CAPÍTULO 10 — PADRÃO NÃO MATA CRIATIVIDADE

Uma preocupação daquela época era:

“Se tudo for padronizado, produtos serão iguais?”

Não.

Um padrão normalmente determina como determinados componentes devem interagir, não como todo produto precisa ser construído.

Considere USB.

Fabricantes podem criar milhares de dispositivos diferentes.

O padrão define determinadas regras de comunicação.

O mesmo raciocínio aparece em:

TCP/IP
HTTP
SQL
POSIX
REST
JSON
Unicode

Padronização cria uma fronteira de interoperabilidade.

Dentro dessa fronteira ainda existe enorme espaço para inovação.

Em outras palavras:

o padrão define a porta; não determina como você deve decorar a casa.


🧬 CAPÍTULO 11 — O MAINFRAME COMEÇA A ABSORVER O MUNDO ABERTO

Aqui está uma ironia histórica maravilhosa.

Naquele período, sistemas abertos eram frequentemente apresentados como alternativa ao mainframe.

Mas o mainframe não ficou congelado.

Ele começou a incorporar tecnologias e interfaces associadas ao mundo aberto.

Décadas depois encontramos no ecossistema IBM Z:

COBOL
CICS
IMS
Db2
VSAM
JCL

convivendo com:

Unix
Java
Python
REST
JSON
Git
APIs
containers
Linux
DevOps
OpenShift

O resultado não foi simplesmente:

NOVO substitui VELHO

Foi frequentemente:

NOVO integra VELHO

Essa diferença é essencial para entender modernização de mainframe.

Modernizar não significa necessariamente jogar tudo fora.


🐉 CAPÍTULO 12 — O UNIX ESCONDIDO DENTRO DO MAINFRAME

Para um programador COBOL iniciante isso pode parecer estranho.

Mas o z/OS possui UNIX System Services — USS.

Isso significa que o ambiente z/OS incorpora um ambiente Unix compatível com padrões relevantes.

Podemos pensar conceitualmente em dois mundos convivendo:

        z/OS
 ┌───────────────────┐
 │ TSO / ISPF        │
 │ JCL               │
 │ COBOL             │
 │ CICS              │
 │ Db2               │
 │                   │
 │ UNIX System       │
 │ Services          │
 │ shell             │
 │ filesystem        │
 └───────────────────┘

Imagine explicar isso para alguém no meio da guerra comercial dos anos 1990:

“Um dia você poderá encontrar ferramentas Unix convivendo dentro do ambiente do mainframe IBM.”

Yuji provavelmente apenas responderia:

— Skill adquirida.


🧠 CAPÍTULO 13 — O HARDWARE FICOU BARATO; O HUMANO NÃO

Outra observação extremamente importante daquele debate dizia, aproximadamente:

O custo do programador aumentava enquanto o custo do hardware despencava.

Os percentuais específicos podem variar conforme período e metodologia, mas o princípio econômico é importante.

Nos primórdios:

CPU     = caríssima
memória = caríssima
disco   = caríssimo

Portanto programadores economizavam recursos obsessivamente.

Com a redução do preço do hardware, outra variável ganhou enorme importância:

produtividade humana.

Imagine economizar US$ 5.000 em hardware e criar uma arquitetura que exige mais US$ 200.000 em manutenção.

Você economizou?

Não.

Apenas deslocou o custo.

E aqui entram as linguagens de quarta geração.


🪄 CAPÍTULO 14 — AS 4GL PROMETEM MAGIA

As chamadas 4GL — Fourth Generation Languages buscavam aumentar produtividade.

A ideia geral era permitir que o desenvolvedor descrevesse mais e programasse menos detalhes.

Entre tecnologias associadas ao universo 4GL estavam ferramentas como:

Natural
FOCUS
Informix-4GL
Progress
Oracle Forms

O objetivo econômico era simples:

menos código
   ↓
menos esforço
   ↓
maior produtividade
   ↓
menor custo

Natural, por exemplo, tornou-se particularmente conhecido em grandes ambientes corporativos e frequentemente apareceu junto do banco Adabas.

Para um programador COBOL, a comparação é interessante.

COBOL tende a ser bastante explícito.

Uma ferramenta de nível mais alto pode abstrair detalhes.

Mas abstração não elimina complexidade.

Ela apenas a desloca.

Esse princípio continua válido em 2026 com:

low-code
no-code
frameworks
cloud services
IA generativa

Cada geração promete:

“Agora qualquer pessoa poderá desenvolver.”

E algum tempo depois aparece outra profissão dizendo:

“Precisamos governar tudo isso.”


💾 CAPÍTULO 15 — A GUERRA DOS DISCOS

Durante a discussão histórica aconteceu um momento quase digno de anime.

O representante da HP defendia a tecnologia Unix/RISC.

Surgiu então a questão de problemas relacionados a discos.

A resposta foi aproximadamente:

Tecnologia nova sempre possui problemas.

Então veio a IBM:

“Roupa suja se lava em casa.”

Critical hit.

A IBM defendia que investia enormes recursos em pesquisa e testes para garantir confiabilidade.

Por trás da provocação comercial existe uma discussão séria.

Quanto vale confiabilidade?

Imagine dois discos:

DISCO A = R$ 1.000
DISCO B = R$ 4.000

Qual é mais barato?

Você ainda não sabe.

Precisamos descobrir:

taxa de falha
performance
redundância
suporte
tempo de recuperação
impacto da indisponibilidade

Se a falha do disco A provoca uma interrupção de R$ 5 milhões, aquela economia inicial torna-se irrelevante.

Por isso, em sistemas críticos:

confiabilidade possui valor econômico.


⚙️ CAPÍTULO 16 — COBOL ENSINA UMA LIÇÃO SOBRE CUSTO

Imagine este programa:

       IDENTIFICATION DIVISION.
       PROGRAM-ID. CLIENTE.

       PROCEDURE DIVISION.
           DISPLAY 'PROCESSANDO CLIENTE'.
           STOP RUN.

Compilar e executar esse programa é fácil.

Mas um sistema empresarial não é apenas seu código.

Ele depende de:

dados
segurança
JCL
bibliotecas
interfaces
procedimentos
monitoramento
documentação
operações
backup
recuperação

Essa é uma das razões pelas quais substituir aplicações legadas pode ser muito mais complicado do que alguém imagina.

O código talvez tenha 30 anos.

Mas durante esses 30 anos a empresa acumulou milhares de regras de negócio.

O programa não é simplesmente software velho.

Pode ser conhecimento empresarial executável.


☁️ CAPÍTULO 17 — VINTE ANOS DEPOIS, CLOUD REPETE A DISCUSSÃO

Troque algumas palavras:

1998                 2026

Mainframe            Data Center
Unix/RISC            Cloud
Client/server        Microservices
Servidor             Container
4GL                   Low-code/IA

E várias discussões retornam.

Alguém diz:

“Cloud é mais barata.”

Yuji pergunta:

— Para qual workload?

Outro diz:

“Microservices são melhores.”

— Para qual problema?

Outro:

“IA vai substituir todo desenvolvimento.”

Yuji olha para seus slimes.

— Requisitos?

Silêncio.

A grande lição é que tecnologia empresarial precisa ser analisada economicamente e tecnicamente.


📊 CAPÍTULO 18 — PASSO A PASSO PARA COMPARAR DUAS TECNOLOGIAS

Se amanhã alguém disser:

“Precisamos sair do mainframe porque X é mais barato.”

Não comece uma guerra religiosa.

Pegue café.

Abra uma planilha.

E siga os slimes de Yuji.

Passo 1 — Identifique o workload

Pergunte:

O que está sendo executado?

Batch?

CICS?

Db2?

Web?

Analytics?

Passo 2 — Meça volume

Quantas transações?

Quantos usuários?

Quanto armazenamento?

Qual crescimento anual?

Passo 3 — Determine SLA

Quanto tempo o sistema pode ficar indisponível?

1 hora?
10 minutos?
1 minuto?
praticamente nunca?

Passo 4 — Analise integração

Com quantos sistemas ele conversa?

Passo 5 — Analise segurança

Quem acessa?

Quais dados existem?

Há requisitos regulatórios?

Passo 6 — Calcule TCO

Não compare apenas hardware.

Inclua:

software
licenças
pessoas
infraestrutura
suporte
energia
migração
treinamento
backup
segurança
downtime

Passo 7 — Calcule risco de migração

Migrar também custa.

E falhar na migração custa ainda mais.


🔥 CAPÍTULO 19 — A GRANDE LIÇÃO PARA O PROGRAMADOR COBOL

Você provavelmente ouvirá muitas vezes:

“COBOL morreu.”

“Mainframe morreu.”

“Servidor morreu.”

“Data center morreu.”

“Programador morreu.”

Tecnologia adora anunciar funerais.

Curiosamente, vários cadáveres continuam processando folha de pagamento.

O programador COBOL não deveria defender mainframe simplesmente porque trabalha com mainframe.

Isso seria torcida.

O profissional deve compreender:

requisito
workload
custo
risco
SLA
arquitetura
integração

Se Unix resolver melhor determinado problema, use Unix.

Se cloud resolver melhor, use cloud.

Se IBM Z resolver melhor, use IBM Z.

A pergunta profissional não é:

“Qual tecnologia eu amo?”

É:

“Qual problema preciso resolver?”


🥚 EASTER EGG — INCIDENTE 03:17

Às 03:17 da madrugada, Yuji recebeu uma mensagem.

JOB ABEND

Ele abriu o log.

IEF450I
PAYROLL STEP01
ABEND=S0C7

Um slime perguntou:

— Devemos migrar para Unix?

Yuji respondeu:

— Não. Primeiro descubra quem colocou caracteres alfanuméricos naquele campo numérico.

O slime desapareceu.

Alguns minutos depois:

ROOT CAUSE FOUND.

Moral da história:

arquitetura moderna não corrige dado ruim.


🧭 CAPÍTULO 20 — A PREVISÃO MAIS IMPORTANTE DOS ANOS 1990

No final daquele debate surgiu uma conclusão:

Mainframe e Unix terão que conviver.

E talvez essa tenha sido a previsão mais lúcida de todas.

Porque o futuro não se tornou:

MAINFRAME
    X
   UNIX

VENCEDOR: ???

Tornou-se:

             INTERNET
                 │
               APIs
                 │
      ┌──────────┴──────────┐
      │                     │
    CLOUD                 IBM Z
      │                     │
containers              CICS
Linux                   COBOL
Java                    Db2
Python                  IMS
      │                     │
      └──────── EVENTOS ────┘

A palavra fundamental passou a ser:

INTEGRAÇÃO.


🧙‍♂️ EPÍLOGO — YUJI NÃO ESCOLHEU UM REINO

Ao terminar a auditoria, Yuji reuniu seus slimes.

Um encontrou mainframes.

Outro encontrou Unix.

Outro encontrou PCs.

Outro encontrou bancos de dados.

E aquele slime particularmente curioso voltou carregando:

FINANCEIRO_FINAL_DEFINITIVO_V7.XLS

Yuji olhou para ele.

— Isso é importante?

O slime respondeu:

Responsável pelo fechamento financeiro mensal da empresa.

— Backup?

Não.

— Documentação?

Não.

— Controle de acesso?

Não.

— Quem criou?

Funcionário aposentado em 1997.

Yuji ficou em silêncio.

Finalmente pronunciou:

— Esta é a aplicação mais perigosa que encontramos.

Não estava no mainframe.

Não estava no Unix.

Não custara milhões.

Provavelmente ninguém sequer sabia oficialmente que existia.

E essa talvez seja a maior lição desta dungeon.

A história da computação empresarial não é simplesmente uma sequência na qual tecnologias novas matam tecnologias antigas.

É uma história de redistribuição de responsabilidades.

O mainframe centralizou.

O PC descentralizou.

Unix distribuiu.

Cliente-servidor separou responsabilidades.

Sistemas abertos conectaram plataformas.

Padrões reduziram barreiras.

4GLs aumentaram produtividade.

Internet conectou organizações.

Cloud abstraiu infraestrutura.

Containers abstraíram ambientes.

IA começou a abstrair parte do trabalho intelectual.

Mas cada nova abstração também criou novos riscos.

Por isso aquela frase aparentemente simples dos anos 1990 continua extraordinariamente moderna:

Tecnologia não tem concorrência. Ela existe porque tem função.

Para o programador COBOL iniciante, eu acrescentaria uma segunda:

Nunca compare tecnologias pelo nome. Compare workloads, requisitos, riscos e custos.

E uma terceira, aprendida depois de décadas entrando em war rooms:

Se alguém disser que encontrou uma solução simples para substituir um sistema de 30 anos, pergunte primeiro se ele já encontrou todas as dependências.

Yuji levantou-se.

Os slimes começaram a abandonar a dungeon.

Um deles voltou correndo.

Puru puru!

Nova skill detectada:

SHADOW_IT_DETECTION

Yuji observou a tela.

Havia agora uma aplicação chamada:

CONTROLE_CLIENTES_IA_FINAL_V3.xlsx

Ele suspirou.

Vinte e oito anos haviam passado.

A tecnologia mudara completamente.

O problema de auditoria continuava praticamente o mesmo.

Bem-vindo ao Bellacosa Mainframe.

Aqui o COBOL pode ter décadas de idade, o Unix pode morar dentro do mainframe, o servidor barato pode custar uma fortuna e o arquivo mais perigoso da empresa talvez ainda esteja escondido debaixo da mesa de alguém.

E, se o incidente começar exatamente às 03:17, procure o slime.

Ele provavelmente já encontrou o log.

sexta-feira, 1 de março de 2002

🧙‍♂️ LLOYD DE SALOUM E A DUNGEON DA MICROINFORMÁTICA — QUANDO O PC VIROU BUSINESS COMPUTER

 

Bellacosa Mainframe e a auditoria em computadores

☕ Um Café no Bellacosa Mainframe

🧙‍♂️ LLOYD DE SALOUM E A DUNGEON DA MICROINFORMÁTICA — QUANDO O PC VIROU BUSINESS COMPUTER

COBOL, mainframe, PCs, Winchester, Lotus 1-2-3, antivírus, backup, auditoria, Shadow IT, ITAM, CMDB, Cloud e IA — e o dia em que Lloyd descobriu que o aplicativo secreto do Financeiro era mais perigoso que um demônio ancestral.



🎬 PRÓLOGO — LLOYD ENCONTROU UM PC DEBAIXO DA MESA

— Lloyd-sama, temos um problema.

Lloyd de Saloum levantou os olhos.

Aquilo normalmente significava uma excelente oportunidade para aprender alguma magia nova.

— Um demônio?

— Não.

— Uma maldição?

— Também não.

— Um artefato mágico proibido?

— Pior. Encontramos um computador no Financeiro que ninguém da Informática sabia que existia.

Os olhos de Lloyd brilharam.

— Interessante!

O pobre auditor percebeu imediatamente que havia cometido um erro.

Poucos minutos depois, Lloyd estava ajoelhado diante da máquina.

Na tela:

C:\>

No disco rígido havia planilhas, documentos, programas em dBASE, arquivos de clientes, backups de backups, executáveis de procedência desconhecida e um diretório chamado:

C:\NOVO\FINAL\BACKUP\VELHO

— Fascinante!

— Lloyd-sama, isso não deveria estar aqui.

— Por quê?

Essa pergunta aparentemente inocente nos leva a uma das transformações mais importantes da história da informática corporativa.

Durante décadas, empresas construíram regras rigorosas para controlar computadores centrais, aplicações COBOL, arquivos, bancos de dados, usuários, backups e mudanças.

Então chegaram os microcomputadores.

E milhares de usuários descobriram que podiam fazer muita coisa sem pedir autorização ao velho CPD.

Nascia uma revolução.

E, junto com ela, uma enorme dungeon chamada:

AUDITORIA DE MICROINFORMÁTICA.



🏰 CAPÍTULO 1 — QUANDO O COMPUTADOR MORAVA NO CASTELO

Para entender a auditoria de microinformática, nosso jovem programador COBOL precisa voltar algumas décadas.

Em uma empresa tradicional, o processamento de dados era altamente centralizado.

Podíamos ter algo parecido com:

                    ┌─────────────────┐
                    │    MAINFRAME    │
                    │                 │
                    │ COBOL           │
                    │ CICS            │
                    │ IMS             │
                    │ DB2             │
                    │ VSAM            │
                    └────────┬────────┘
                             │
                 ┌───────────┴───────────┐
                 │                       │
             TERMINAL                TERMINAL
                 │                       │
              Usuário                 Usuário

O terminal normalmente não era um computador independente como conhecemos hoje.

Ele era uma janela para o sistema central.

O processamento estava no mainframe.

Os programas estavam sob controle da área de tecnologia.

Os dados estavam em datasets, bancos ou arquivos administrados.

Havia procedimentos para produção.

Havia operadores.

Havia controle de acesso.

Havia backup.

Havia processos de mudança.

Mesmo que tudo isso não fosse perfeito, existia uma importante característica:

centralização.

Se Lloyd perguntasse:

— Onde está a folha de pagamento?

Provavelmente alguém poderia responder:

— Na aplicação XPTO, executada no mainframe, usando estes programas COBOL, estes arquivos e este banco de dados.

Isso é governança.

Então alguém colocou um computador sobre uma mesa.



🖥️ CAPÍTULO 2 — O PC ESCAPOU DO CPD

O Personal Computer mudou completamente a relação entre usuário e tecnologia.

Agora um departamento podia ter poder computacional próprio.

Financeiro podia criar planilhas.

Engenharia podia comprar aplicativos.

Recursos Humanos podia montar uma pequena base de dados.

Vendas podia desenvolver um sistema departamental.

O computador deixou de ser somente uma janela para o grande computador central.

Ele próprio processava informações.

Imagine:

                 MAINFRAME
                     │
            Sistemas Corporativos
                     │
        ─────────────┼─────────────
                     │
                    LAN
                     │
        ┌────────────┼────────────┐
        │            │            │
    Financeiro     Vendas     Engenharia
        │            │            │
       PC           PC           PC
        │            │            │
     Lotus        dBASE      Aplicativo

Parece maravilhoso.

E realmente foi uma revolução de produtividade.

Mas existe uma pergunta:

quem controla tudo isso?

O programador COBOL acostumado ao mainframe talvez estranhasse.

No ambiente centralizado, para colocar uma aplicação importante em produção, normalmente existiam processos.

No PC departamental alguém poderia simplesmente criar:

C:\CONTAS\FATURA.DBF

E, seis meses depois, aquele arquivo estar participando do fechamento financeiro da empresa.

Sem que ninguém tivesse percebido quando uma experiência virou aplicação crítica.

Essa transformação é fundamental para entender todo o nosso tema.

O PC estava deixando de ser apenas Personal Computer.

Estava virando:

Business Computer.

BC.

Computador de negócios.



🧙 CAPÍTULO 3 — LLOYD DESCOBRE QUE A MAGIA FUNCIONA SEM AUTORIZAÇÃO

Lloyd provavelmente adoraria microcomputadores.

Porque eles representavam liberdade.

Você podia experimentar.

Instalar.

Programar.

Criar.

Testar.

Automatizar.

O problema empresarial aparece quando confundimos:

liberdade para experimentar

com:

liberdade para criar processos corporativos sem governança.

Imagine João, funcionário do Financeiro.

Todo mês ele recebe um arquivo e leva oito horas para produzir determinado relatório.

João aprende dBASE.

Cria uma pequena aplicação.

Agora leva vinte minutos.

Fantástico!

Depois outras pessoas começam a usar.

Dois anos depois:

Programa do João
       ↓
Relatório financeiro
       ↓
Fechamento mensal
       ↓
Diretoria
       ↓
Decisão empresarial

Parabéns.

João acabou de criar um sistema crítico.

Só existe um pequeno problema.

Ninguém sabe disso.



👻 CAPÍTULO 4 — O ANCESTRAL DO SHADOW IT

Hoje usamos a expressão Shadow IT para tecnologia utilizada fora da governança ou visibilidade formal da organização.

Mas Shadow IT não nasceu com Cloud.

Muito antes de alguém criar uma máquina virtual escondida na AWS, havia aplicações escondidas em PCs.

Podia ser:

Lotus 1-2-3
Excel
Access
dBASE
FoxPro
Clipper
Macros
scripts
executáveis locais

O usuário não estava necessariamente tentando sabotar a empresa.

Na maioria dos casos queria resolver um problema.

Essa distinção é importante.

Shadow IT frequentemente nasce de uma combinação de:

necessidade urgente
        +
tecnologia acessível
        +
processo corporativo lento
        =
solução paralela

O auditor inteligente não deveria simplesmente perguntar:

— Quem foi o irresponsável que fez isso?

Deveria perguntar:

— Por que a organização precisou disso?

Porque uma aplicação clandestina também pode ser sintoma de outro problema.

Talvez o departamento de TI demore oito meses para atender uma necessidade que o negócio precisa resolver em oito dias.


💰 CAPÍTULO 5 — AUDITORIA NÃO É CAÇA ÀS BRUXAS

Existe uma visão pobre de auditoria:

encontrar alguém fazendo algo errado.

Uma boa auditoria é muito mais interessante.

Ela procura compreender:

PROCESSO
   ↓
RISCO
   ↓
CONTROLE
   ↓
EVIDÊNCIA
   ↓
EXCEÇÃO
   ↓
IMPACTO
   ↓
AÇÃO

Suponha que encontramos dez computadores com determinado software instalado.

O auditor não deveria imediatamente gritar:

— IRREGULARIDADE!

Primeiro precisamos entender.

As dez licenças existem?

São necessárias?

São utilizadas?

Existem vinte licenças compradas e apenas dez usadas?

Outro departamento pretende comprar cinco?

Perceba a mudança.

A auditoria pode descobrir economia.

Departamento A:

20 licenças compradas
10 utilizadas
10 ociosas

Departamento B:

10 utilizadas
precisa de mais 5

Sem inventário, B compra cinco novas licenças.

Com governança, talvez seja possível reaproveitar licenças disponíveis, dependendo das condições contratuais do produto.

Auditoria também é otimização de recursos.


📦 CAPÍTULO 6 — O SOFTWARE QUE NINGUÉM USAVA

Outra preocupação clássica era encontrar software instalado e não utilizado.

Isso parece pequeno até multiplicarmos pelo tamanho da empresa.

Imagine 3.000 computadores.

Agora imagine software pago instalado em centenas deles sem necessidade.

Dinheiro parado.

O mesmo vale para hardware.

Uma área pode possuir computadores subutilizados enquanto outra solicita equipamentos novos.

Daí a necessidade de conhecer:

  • localização;

  • departamento;

  • usuário responsável;

  • fabricante;

  • modelo;

  • configuração;

  • número de série;

  • software instalado;

  • situação operacional;

  • manutenção;

  • movimentações.

Hoje chamamos grande parte desse universo de IT Asset Management — ITAM.

Para software existe Software Asset Management — SAM.

O velho inventário da microinformática evoluiu.

Mas a pergunta continua:

O que possuímos, onde está, quem usa, quanto custa e ainda precisamos disso?


🗃️ CAPÍTULO 7 — O CADASTRO DIZ 327, MAS LLOYD CONTOU 319

Aqui entramos no coração da auditoria.

Imagine o cadastro:

MICROCOMPUTADORES: 327

Lloyd percorre a empresa e encontra:

MICROCOMPUTADORES: 319

Faltam oito.

Isso não significa automaticamente fraude.

Podem estar:

  • em manutenção;

  • transferidos;

  • emprestados;

  • armazenados;

  • descartados;

  • substituídos;

  • roubados;

  • simplesmente cadastrados incorretamente.

Mas existe uma diferença.

E diferenças precisam ser explicadas.

É por isso que o texto original insiste tanto em:

bater cadastro de hardware e software com o existente.

Hoje chamaríamos isso de reconciliação.

O que nossa base acredita existir precisa ser comparado ao que realmente existe.

Esse princípio aparece em CMDBs modernas.


🧠 CAPÍTULO 8 — A EMPRESA TEM CÓDIGO, MAS PERDEU A MEMÓRIA

Agora chegamos a uma das questões mais profundas:

Como preservar a memória da empresa diante do turnover?

Voltemos ao João.

João criou uma aplicação.

Durante quinze anos recebeu solicitações:

— João, cliente XPTO precisa de tratamento diferente.

João altera.

Depois:

— João, quando o produto for 37, calcule assim.

João altera.

Depois:

— João, operações realizadas depois das 17h precisam entrar no próximo ciclo.

João altera.

Quinze anos depois existe isto:

IF CLIENTE = 'XPTO'
   ...
END-IF

A empresa possui o código.

Mas por que XPTO é diferente?

João sabe.

O programa não.

Então João se aposenta.

💀

Essa situação não é exclusividade da microinformática.

Programador COBOL conhece perfeitamente esse fenômeno.

Podemos possuir o fonte de um programa de 1989 e ainda assim não possuir todo o conhecimento necessário para compreender por que ele foi construído daquela maneira.

Existe diferença entre:

CÓDIGO

e:

CONHECIMENTO

Código registra o que acontece.

Documentação, histórico, requisitos, tickets e conhecimento humano ajudam a explicar por que acontece.


📝 CAPÍTULO 9 — DOCUMENTAÇÃO NÃO É DECORAÇÃO

Por isso “documentação inexistente” aparece como risco.

Imagine encontrar:

CALCULA.EXE

Perguntas:

Quem desenvolveu?

Qual linguagem?

Onde está o fonte?

Qual versão está em produção?

Quais arquivos utiliza?

Quem pode alterar?

Existe procedimento de instalação?

Como recuperar?

Qual é a regra de negócio?

Quem é responsável?

Sem respostas, temos uma espécie de artefato mágico.

Funciona.

Ninguém sabe exatamente como.

Lloyd adoraria.

O auditor teria pesadelos.


💾 CAPÍTULO 10 — WINCHESTER NÃO É ARQUIVO MORTO

Para os Padawans que nasceram na era do SSD: “Winchester” tornou-se uma forma popular de chamar o disco rígido.

E havia um problema.

O usuário descobria espaço em disco e começava a guardar tudo.

Logo apareciam estruturas dignas de arqueologia:

C:\
 ├── TESTE
 ├── TESTE2
 ├── TESTEVELHO
 ├── BACKUP
 ├── BACKUP2
 ├── NOVO
 ├── NOVO2
 ├── FINAL
 └── FINAL_AGORA_VAI

Parece antigo?

Abra uma pasta corporativa moderna.

Talvez encontre:

Contrato_Final.docx
Contrato_Final2.docx
Contrato_Final_Novo.docx
Contrato_Final_Revisado.docx
Contrato_Final_Revisado_FINAL.docx
Contrato_Final_Revisado_FINAL_v3.docx

Mudamos de storage.

O ser humano permaneceu compatível com versões anteriores.

Essa é a verdadeira retrocompatibilidade.


🧹 CAPÍTULO 11 — FRAGMENTAÇÃO, DEFRAG E ARQUEOLOGIA DOS DISCOS

O texto original também menciona arquivos fragmentados.

Nos discos magnéticos, um arquivo podia acabar armazenado em partes espalhadas pelo disco.

Simplificando:

Arquivo A:

[10][11][12] ........ [58] .... [97]

Um disco mecânico possui partes móveis.

O cabeçote precisa acessar diferentes posições.

Quanto mais espalhados os dados, potencialmente maior o trabalho necessário para determinadas operações.

Daí a popularização de ferramentas de desfragmentação.

Quem viveu DOS e Windows antigos provavelmente lembra de utilitários como DEFRAG, além de ferramentas de diagnóstico e manutenção de disco.

Mas atenção:

não devemos transportar automaticamente essa prática para SSDs modernos.

SSDs funcionam de maneira diferente, não possuem cabeçote mecânico e utilizam mecanismos como wear leveling e TRIM.

Aqui existe uma lição fantástica para auditoria:

o princípio pode sobreviver mesmo quando o controle técnico fica obsoleto.

O princípio era:

manter armazenamento saudável, organizado e adequadamente administrado.

A implementação mudou.


🦠 CAPÍTULO 12 — O DEMÔNIO VIAJAVA DE DISQUETE

Outra preocupação era antivírus.

Durante a era da microinformática, disquetes eram excelentes meios de transporte para dados.

E para vírus.

Um disquete passava por:

PC A
 ↓
PC B
 ↓
PC C
 ↓
casa
 ↓
PC D
 ↓
empresa

O malware ganhava transporte gratuito.

Com o tempo vieram vírus de arquivos, boot sector, macrovírus e inúmeras outras famílias.

Hoje a pergunta:

“Existe antivírus?”

é insuficiente.

Em um ambiente moderno poderíamos investigar:

EDR/XDR
patch management
hardening
MFA
least privilege
application control
telemetria
SIEM
resposta a incidentes
gestão de vulnerabilidades

A pergunta fundamental permanece:

Conseguimos prevenir, detectar, investigar e responder a comportamento malicioso no endpoint?


🔐 CAPÍTULO 13 — O PC DESCOBRIU QUE PRECISAVA DE RACF

Aqui temos um choque cultural delicioso para quem conhece mainframe.

O mainframe corporativo já possuía uma longa tradição de controles de acesso.

No mundo IBM Z podemos pensar em mecanismos como RACF e outros componentes de segurança.

Mas muitos PCs antigos foram concebidos originalmente para um contexto bastante diferente.

O usuário ligava a máquina e encontrava:

C:\>

Não existia necessariamente aquele mesmo modelo corporativo robusto de identidade, autorização e auditoria.

Quando o PC começou a processar informações importantes, surgiu uma pergunta inevitável:

Como transportar os conceitos de segurança existentes nos ambientes corporativos para a microinformática?

Não significava instalar RACF em DOS.

Significava transportar princípios.

MAINFRAME                  ENDPOINT

Identidade       →         Conta do usuário
Autorização      →         Permissões
Dataset          →         Arquivo/pasta
Auditoria        →         Logs
Backup           →         Backup endpoint
Change control   →         Gestão de software
Inventário       →         Asset Management

A tecnologia muda.

O objetivo do controle permanece.


🌐 CAPÍTULO 14 — MICRO E MAINFRAME SE ENCONTRAM

Outro item importantíssimo era a ligação micro/mainframe.

Primeiro o PC podia funcionar quase como terminal.

Depois começaram transferências de arquivos.

Depois vieram redes, client/server, aplicações gráficas e integrações cada vez mais sofisticadas.

Hoje podemos ter:

Notebook
   ↓
Browser
   ↓
Aplicação Web
   ↓
API Gateway
   ↓
API
   ↓
z/OS Connect
   ↓
CICS
   ↓
COBOL
   ↓
Db2

O usuário talvez nem saiba que existe COBOL.

Ele aperta:

CONFIRMAR PAGAMENTO

e, alguns milissegundos depois, uma transação pode estar chegando a uma aplicação no mainframe.

A velha pergunta:

“Como o micro se conecta ao mainframe?”

evoluiu para:

“Como endpoints, canais digitais, aplicações distribuídas, APIs, cloud e parceiros acessam os serviços corporativos?”

É a mesma árvore genealógica.


💽 CAPÍTULO 15 — BACKUP NÃO É COPIAR PARA BACKUP2

Lloyd encontra uma pasta:

C:\BACKUP

— Excelente! Há backup!

Não necessariamente.

Talvez ela esteja no mesmo disco.

Se o disco morrer:

ORIGINAL  → morreu
BACKUP    → morreu junto

Um verdadeiro backup exige planejamento.

O documento original já perguntava:

  • periodicidade;

  • responsável;

  • local de guarda;

  • como recuperar.

A última questão vale ouro:

como recuperar?

Backup que nunca foi testado é uma promessa.

Em ambientes modernos adicionamos conceitos como:

RPO — Recovery Point Objective

Quanto dado podemos tolerar perder?

RTO — Recovery Time Objective

Quanto tempo podemos tolerar ficar sem o serviço?

Além disso:

  • retenção;

  • cópias off-site;

  • criptografia;

  • imutabilidade;

  • testes de restauração;

  • proteção contra ransomware;

  • estratégia 3-2-1 quando apropriada.

A evolução conceitual é interessante:

BACKUP
   ↓
RECOVERY
   ↓
DISASTER RECOVERY
   ↓
BUSINESS CONTINUITY
   ↓
CYBER RESILIENCE

Não queremos simplesmente possuir cópias.

Queremos conseguir continuar ou recuperar o negócio.


⚡ CAPÍTULO 16 — CONFIG.SYS E AUTOEXEC.BAT: NÃO MEXA NO GRIMÓRIO

Quem viveu DOS provavelmente sorriu ao encontrar:

CONFIG.SYS
AUTOEXEC.BAT

Esses arquivos participavam da configuração do ambiente.

Alterações podiam carregar drivers, modificar memória, definir variáveis, caminhos e executar comandos durante a inicialização.

Era perfeitamente possível alguém “otimizar” a máquina e quebrar alguma coisa.

Isso nos leva a outro conceito moderno:

Configuration Management.

Configuração também é ativo.

Hoje não estamos preocupados com AUTOEXEC.BAT da mesma maneira.

Estamos preocupados com:

políticas
registry
GPO
MDM
containers
YAML
Terraform
Ansible
Kubernetes manifests
cloud configuration

Novamente:

o arquivo mudou.

O problema continuou.


📚 CAPÍTULO 17 — O CATÁLOGO DE SOFTWARE

O documento propõe manter um catálogo de software.

Excelente ideia.

Imagine três departamentos.

Todos precisam resolver o mesmo problema.

Cada um contrata um fornecedor diferente.

Resultado:

Área A → Sistema X
Área B → Sistema Y
Área C → Sistema Z

Agora temos três contratos, três tecnologias, três equipes, três processos de suporte e três integrações.

Talvez exista justificativa.

Mas talvez ninguém soubesse que uma solução já existia.

Um catálogo corporativo ajuda a responder:

Já temos alguma coisa que faz isso?

Esse conceito evoluiu para catálogos de aplicações, portfolios de aplicações e ferramentas de Application Portfolio Management.


🧪 CAPÍTULO 18 — COMO LLOYD FARIA UMA AUDITORIA

Vamos transformar tudo em um pequeno laboratório.

Etapa 1 — Conheça a história

Pergunte:

Quando começou a microinformática?

Por quê?

Quem decidiu?

Havia estratégia?

Compra ou aluguel?

Existia padronização?

Etapa 2 — Conheça as políticas

Descubra quais normas deveriam ser cumpridas.

Sem critério não existe avaliação consistente.

Etapa 3 — Obtenha o inventário

Precisamos saber o que a organização acredita possuir.

Etapa 4 — Vá a campo

Agora verificamos o que realmente existe.

Etapa 5 — Compare

REGISTRO
   versus
REALIDADE

Etapa 6 — Teste controles

Não pergunte somente:

— Existe backup?

Peça evidência.

Não pergunte somente:

— Existe antivírus?

Verifique.

Não pergunte somente:

— Existe documentação?

Leia.

Etapa 7 — Investigue diferenças

Toda divergência precisa de contexto.

Etapa 8 — Avalie risco

Uma diferença cadastral em um PC isolado não possui necessariamente o mesmo impacto que uma aplicação não documentada processando milhões em operações financeiras.

Etapa 9 — Recomende ações

A recomendação deve atacar causa e risco, não apenas o sintoma.


🕵️ CAPÍTULO 19 — O AUDITOR QUE PROCURA CAUSA, NÃO CULPADO

Imagine encontrar um PC sem proteção adequada.

Auditoria superficial:

“Usuário em desacordo com a norma.”

Auditoria investigativa:

Por que isso aconteceu?

Descobrimos que o agente deveria ser instalado automaticamente.

Por que não foi?

A máquina estava fora do inventário.

Por quê?

Foi transferida entre departamentos sem atualização cadastral.

Agora temos uma cadeia:

Transferência inadequada
        ↓
Inventário incorreto
        ↓
Gestão não identifica endpoint
        ↓
Controle não é aplicado
        ↓
Endpoint fica desprotegido

O computador sem proteção era apenas o último sintoma.

A verdadeira descoberta está no processo quebrado.

Isso é muito mais valioso.


☁️ CAPÍTULO 20 — O PC VIROU CLOUD

Agora chegamos à ironia histórica.

Décadas atrás:

“O departamento comprou um PC sem informar o CPD.”

Depois:

“Instalaram um software sem informar TI.”

Depois:

“Colocaram um servidor Linux embaixo da mesa.”

Depois:

“Criaram uma VM.”

Depois:

“Contrataram SaaS no cartão corporativo.”

Depois:

“Criaram recursos na Cloud.”

Agora:

“Colaram dados corporativos numa IA generativa.”

Percebeu?

O objeto mudou.

O padrão permanece:

TECNOLOGIA FICA MAIS ACESSÍVEL
             ↓
USUÁRIO GANHA AUTONOMIA
             ↓
INOVAÇÃO ACELERA
             ↓
GOVERNANÇA PERDE VISIBILIDADE
             ↓
RISCO APARECE
             ↓
NOVOS CONTROLES SÃO CRIADOS

É praticamente um ciclo histórico da tecnologia empresarial.


🤖 CAPÍTULO 21 — SHADOW AI: O NOVO LOTUS 1-2-3 CLANDESTINO

E chegamos a 2026.

Um funcionário descobre uma ferramenta de IA.

Começa usando para corrigir textos.

Depois resume documentos.

Depois analisa contratos.

Depois envia código.

Depois envia dados de clientes.

Depois constrói um agente.

Em algum momento a experiência pessoal pode virar processo empresarial.

A auditoria moderna deveria perguntar:

Qual ferramenta?
Quem autorizou?
Qual contrato?
Qual modelo?
Quais dados entram?
Onde são processados?
Existe retenção?
Existe logging?
Existe DLP?
Quem revisa as respostas?
Há integração com sistemas?
Quais permissões o agente possui?
Existe supervisão humana?
Como desligamos isso?

Compare com a auditoria antiga:

Qual software?
Quem comprou?
Onde está instalado?
Quem utiliza?
Quais arquivos acessa?
Existe documentação?
Existe backup?
Quem é responsável?

Lloyd provavelmente sorriria.

— É o mesmo feitiço!

Exatamente.


🧠 CAPÍTULO 22 — DO PERSONAL COMPUTER AO PERSONAL AGENT

Existe ainda uma evolução curiosa.

O PC democratizou processamento.

A Web democratizou publicação.

Cloud democratizou infraestrutura.

SaaS democratizou software corporativo.

Low-code democratizou desenvolvimento.

IA generativa democratizou parte da produção intelectual e automação.

Agentes começam a democratizar execução autônoma de tarefas.

Portanto a pergunta histórica da auditoria fica ainda mais importante:

Quanto de liberdade podemos oferecer sem perder governança, segurança e responsabilidade?

Não existe resposta simples.

Bloquear tudo destrói produtividade.

Liberar tudo cria riscos.

A solução normalmente está entre os extremos:

AUTONOMIA
    +
GUARDRAILS
    +
OBSERVABILIDADE
    +
RESPONSABILIDADE

🧙‍♂️ CAPÍTULO 23 — O QUE UM PROGRAMADOR COBOL TEM A VER COM ISSO?

Tudo.

Você talvez pense:

“Bellacosa, eu só quero programar COBOL.”

Então guarde esta lição.

Um programa não existe isoladamente.

Seu COBOL participa de um ecossistema:

Usuário
 ↓
Canal
 ↓
Aplicação
 ↓
API / MQ / CICS
 ↓
COBOL
 ↓
Db2 / IMS / VSAM
 ↓
Batch
 ↓
Outros sistemas

Cada seta possui:

  • identidade;

  • autorização;

  • configuração;

  • logs;

  • documentação;

  • dependências;

  • recuperação;

  • responsáveis.

Um excelente programador não conhece somente sintaxe.

Ele começa a entender o sistema ao redor do programa.


🏺 CAPÍTULO 24 — SEU PROGRAMA COBOL É UM ARTEFATO HISTÓRICO

Imagine abrir um programa:

       IF WS-CUSTOMER-CODE = 317
           PERFORM SPECIAL-PROCESSING
       END-IF.

Não remova imediatamente.

Pergunte:

Por quê?

Talvez exista uma regra contratual de 1997.

Talvez o cliente nem exista mais.

Talvez seja código morto.

Talvez seja absolutamente crítico.

O auditor e o mantenedor de legado compartilham uma virtude:

desconfiança metodológica.

Não significa suspeitar das pessoas.

Significa não confundir aparência com evidência.

O código compila?

Ótimo.

Mas está correto?

Tem teste?

Tem documentação?

Quem depende dele?

Qual impacto de uma alteração?

Essa mentalidade transforma um digitador de COBOL em engenheiro de sistemas.


🕒 CAPÍTULO 25 — O EASTER EGG DAS 03:17

Lloyd encontra uma documentação antiga:

“Não executar antes das 03:17.”

— Por quê?

Silêncio.

Ninguém sabe.

O programador original se aposentou.

O analista que conhecia o processo saiu.

O documento não explica.

Lloyd, naturalmente, executa às 03:16.

A dungeon inteira começa a tremer.

😂

Esse é o easter egg, mas também contém uma lição séria.

Uma organização pode preservar:

O QUE FAZER

e perder:

POR QUE FAZER

Esse segundo conhecimento é frequentemente muito mais difícil de reconstruir.

Por isso bons comentários, documentação, versionamento, tickets, decisões arquiteturais e transferência de conhecimento são tão importantes.


🗺️ CAPÍTULO 26 — A EVOLUÇÃO COMPLETA DA DUNGEON

Podemos finalmente montar nosso mapa:

MAINFRAME CENTRALIZADO
        ↓
MICROCOMPUTADOR
        ↓
REDES LOCAIS
        ↓
CLIENT/SERVER
        ↓
INTERNET
        ↓
WEB
        ↓
VIRTUALIZAÇÃO
        ↓
CLOUD
        ↓
SAAS
        ↓
LOW-CODE
        ↓
GENERATIVE AI
        ↓
AI AGENTS

A cada camada, a tecnologia fica mais acessível.

E surge novamente a pergunta:

Quem governa?


☕ EPÍLOGO — LLOYD FINALMENTE ENTENDEU O VERDADEIRO FEITIÇO

Depois de examinar computadores, discos, aplicativos, números de série, backups, documentação e cadastros, Lloyd chegou a uma conclusão.

A auditoria de microinformática nunca foi realmente sobre contar computadores.

Também não era sobre procurar arquivos pessoais no Winchester.

Nem sobre descobrir quem havia instalado três processadores de texto diferentes.

Era sobre uma coisa muito maior:

descobrir se a empresa continuava conhecendo e controlando a tecnologia da qual havia passado a depender.

Nos tempos do mainframe, boa parte desse universo estava centralizada.

O PC distribuiu poder computacional.

A rede conectou esse poder.

A Internet expandiu as fronteiras.

Cloud distribuiu infraestrutura.

SaaS distribuiu aplicações.

Low-code distribuiu desenvolvimento.

IA distribuiu capacidade cognitiva.

Agentes começam a distribuir capacidade de ação.

E toda vez que distribuímos poder tecnológico, precisamos redistribuir também:

RESPONSABILIDADE
CONTROLE
CONHECIMENTO
SEGURANÇA
OBSERVABILIDADE

Caso contrário teremos sistemas funcionando perfeitamente...

...que ninguém sabe que existem.

Lloyd fechou o velho computador.

— Então encontramos o demônio?

O auditor balançou a cabeça.

— Não exatamente.

— Encontramos uma aplicação crítica sem documentação?

— Sim.

— Sem responsável?

— Sim.

— Sem backup testado?

— Sim.

— Fora do inventário?

— Sim.

— E ninguém sabe quem criou?

— Exatamente.

Lloyd sorriu.

— Excelente! Quero ver o código!

O auditor começou a suar.

Na tela apareceu:

C:\SISTEMA> DIR

CLIENTES.DBF
FATURA.DBF
CALCULA.EXE
README.TXT

Lloyd abriu o README.

Havia apenas uma frase:

“NÃO APAGAR. É IMPORTANTE.”

Nenhuma assinatura.

Nenhuma documentação.

Nenhum responsável.

Nenhuma explicação.

Lloyd ficou maravilhado.

O auditor pediu café.

E em algum lugar do castelo, provavelmente às 03:17, um velho batch COBOL terminou com:

CC 0000

sem jamais imaginar que, décadas depois, continuávamos tentando resolver exatamente o mesmo problema.

Porque computadores mudam.

Linguagens mudam.

Storage muda.

Redes mudam.

Cloud muda.

IA muda.

Mas existe uma constante assustadoramente retrocompatível:

Toda tecnologia que começa como experiência pode acabar virando infraestrutura crítica antes que alguém perceba.

E talvez essa seja a verdadeira magia que Lloyd de Saloum precisava aprender.

Não a magia de criar sistemas.

Mas a magia muito mais difícil de saber quais sistemas existem, por que existem, quem responde por eles e o que acontecerá quando alguma coisa der errado.

Bem-vindo ao Bellacosa Mainframe.

Onde até um PC esquecido debaixo de uma mesa pode esconder uma dungeon inteira de governança corporativa.

Vagner Renato Bellacosa, IBM Champion e especialista em IBM Mainframe
IBM Z17 SYSTEM ONLINE
Sobre o autor

Vagner Renato Bellacosa

IBM Champion 2026 • Especialista em IBM Mainframe

Vagner Renato Bellacosa trabalha com IBM Mainframe desde 1988 , é IBM Champion e especialista em COBOL, CICS, Db2, z/OS e IBM Z. Compartilha experiências profissionais, conhecimento técnico, história da computação e práticas do universo mainframe para aproximar novas gerações das tecnologias que sustentam empresas, bancos e governos ao redor do mundo.

IBM Champion IBM Z COBOL CICS Db2 z/OS Mainframe desde 1988
GitHub LinkedIn
Inicializando conteúdo...