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sexta-feira, 21 de agosto de 2026

Quando o Escritório Era uma Família Estendida

 


☕ Um Café no Bellacosa Mainframe

Quando o Escritório Era uma Família Estendida

Ou: antes do Teams, do escritório inteligente e do RH falar em “engajamento”, já existiam o Clube da Veja, o Clube da Bolacha, a vaquinha do aniversário, o churrasco da firma — e uma certa Rosalaine capaz de fazer um office-boy correr mais rápido que Hermes

Pegue um café.

Hoje não vamos falar de COBOL.

Não haverá CICS, Db2, VSAM, JCL nem abend misterioso esperando no fim do artigo.

Hoje vamos abrir um arquivo muito mais antigo e talvez mais complicado de restaurar.

O backup da memória.

A culpa começou com a revista Veja.

Outro dia, enquanto remexia algumas lembranças envolvendo a revista, aconteceu aquilo que frequentemente ocorre com quem já possui algumas décadas de dados armazenados no HD biológico: você procura um arquivo e descobre um diretório inteiro.

Uma lembrança chamou outra.

Depois outra.

E mais outra.

Quando percebi, não estava mais pensando na revista.

Estava novamente dentro de um escritório da Avenida Paulista, antes do ano 2000, numa época em que palavras como smart office, employee experience, collaboration platform, digital workplace e people analytics ainda não haviam sido inventadas para explicar coisas que nós simplesmente chamávamos de:

trabalhar com gente.

Para otimizar essa memória, convoquei três consultores especializados em observar o comportamento do brasileiro:

Laerte, Glauco e Angeli.

E, naturalmente, deixei o temível Leão de Chácara cuidando da porta.

Porque memória corporativa antiga não é assunto para amadores.


🏢 O escritório antes de virar “workspace”

Quem começou a trabalhar nas últimas duas décadas talvez tenha dificuldade para imaginar o tamanho de alguns departamentos empresariais dos anos 1980 e 1990.

Hoje uma atividade pode passar por ERP, workflow, e-mail, portal corporativo, API, chatbot, RPA, inteligência artificial e meia dúzia de sistemas.

Naquela época, boa parte dessa infraestrutura tinha nome, sobrenome e crachá.

Eram pessoas.

Muitas pessoas.

Departamentos com cinquenta, sessenta, oitenta funcionários não eram particularmente estranhos.

Alguns chegavam perto de uma centena.

Dentro deles havia setores menores, frequentemente três ou quatro, cada qual com sua chefia, suas mesas, seus arquivos, seus telefones e seus pequenos universos.

Existia o organograma oficial:

Diretor → Gerente → Chefes → Setores → Funcionários.

Mas havia outro organograma.

Nunca impresso.

Nunca aprovado pela diretoria.

Nunca enviado ao RH.

E provavelmente muito mais importante para entender como aquela empresa realmente funcionava.


Era o organograma social.

Nele estavam as secretárias, os office-boys, o pessoal que sabia onde ficava determinada pasta, quem conhecia alguém na contabilidade, quem sabia qual gerente estava de bom humor, quem organizava o aniversário, quem cobrava a vaquinha, quem fazia o café e quem sabia onde estava a revista que desaparecera havia três dias.

Era uma rede.

Só não chamávamos de rede social.


👩‍💼 A secretária era o roteador social do departamento

A secretária daquela época merece um capítulo próprio.

Aliás, merece uma homenagem.

Sua função formal podia envolver agenda, telefone, correspondência, documentos, reuniões e suporte administrativo.

Mas sua função real era muito maior.

Ela sabia quem estava de férias.

Quem faltara.

Quem precisava falar com o gerente.

Quem estava esperando uma ligação.

Quem fazia aniversário naquela semana.

Quem ia casar.

Quem acabara de ter filho.

Quem estava prestes a se aposentar.

Quem ainda não havia pago a vaquinha.

E, naturalmente, quem estava enrolando para pagar a assinatura da revista.

Em termos mainframeiros, a secretária era simultaneamente:

Scheduler + Service Desk + Workflow + Event Manager + Social Network + Knowledge Base.

Com uma vantagem importante:

ela conhecia as pessoas.

E existia uma hierarquia entre elas.

Cada setor podia possuir sua secretária e uma secretária departamental ajudava a coordenar aquele pequeno universo.

Não estava escrito no organograma informal.

Não precisava.

Todo mundo sabia.


📰 O Clube da Assinatura

Eis uma instituição praticamente desaparecida:

o Clube da Assinatura.

O departamento assinava uma revista.

No nosso caso, entre elas estava a Veja.

Cada participante contribuía com uma pequena cota e, quando chegava o vencimento, entrava em funcionamento um sofisticadíssimo sistema financeiro.

A secretária.

— Pessoal, chegou a hora da assinatura.

Pronto.

Começava a arrecadação.

Não havia PIX.

Não havia aplicativo.

Não havia link de pagamento.

Havia dinheiro, controle, cobrança e memória.

Especialmente memória.

Porque a secretária sabia perfeitamente quem ainda não tinha pago.

Quando a revista chegava, começava outro protocolo.

Ela circulava.

Alguém lia.

Passava para outro.

Esse levava para o almoço.

Outro perguntava:

— Cadê a Veja?

— Está com o fulano.

Era uma espécie de Token Ring editorial.

O pacote precisava circular pelos nós da rede até completar o percurso.

E ninguém precisava de Wi-Fi.


🍪 O Clube da Bolacha

Mas o verdadeiro sistema crítico ficava dentro de um armário.

O Clube da Bolacha.

Cada participante contribuía com um ticket-almoço e, com os recursos arrecadados, abastecíamos um dos armários do departamento.

Aquilo era um pequeno paraíso da gula.

Bolachas.

Biscoitos.

Doces.

Salgados.

Coisas destinadas a salvar funcionários naquele momento crítico entre o almoço e o fim do expediente.

Hoje talvez alguém criasse um projeto chamado:

Corporate Employee Snack Experience Initiative.

Nós chamávamos de:

armário da bolacha.

Funcionava perfeitamente.

Até alguém comer a última.

Aí tínhamos um incidente de produção.

— QUEM ACABOU COM A BOLACHA E NÃO AVISOU?

Severity 1.

War Room imediatamente.

Laerte, Glauco e Angeli poderiam passar uma semana naquele departamento e sair com material para cinco anos.


🎂 A indústria da vaquinha

Outro componente essencial da infraestrutura corporativa era a:

vaquinha.

Tudo justificava uma.

Aniversário?

Vaquinha.

Casamento?

Vaquinha.

Nascimento de filho?

Vaquinha.

Aposentadoria?

Vaquinha.

Dia da Secretária?

Vaquinha.

Ocasião especial?

Evidentemente:

vaquinha.

Nos aniversariantes do mês, juntava-se dinheiro para comprar bolo e alguma lembrancinha.

E então surgia outro artefato arqueológico maravilhoso:

o cartão.

O cartão circulava clandestinamente pelo departamento.

Todo mundo precisava assinar sem que o homenageado percebesse.

Era uma operação de inteligência.

— Passa para o João.

— Mas não deixa a Maria ver.

— O Carlos ainda não assinou.

— Cadê o cartão?

— Está no financeiro.

No final apareciam dezenas de assinaturas.

Algumas simplesmente:

Parabéns!

Outras:

Muitas felicidades!

Outras continham piadas internas que provavelmente seriam completamente indecifráveis para qualquer arqueólogo digital de 2126.

Mas aquele cartão tinha uma coisa que nenhum botão de 👍 conseguiu substituir completamente.

Ele havia passado pelas mãos das pessoas.



❤️ A empresa entrava um pouco na vida

É preciso tomar cuidado para não transformar nostalgia em história cor-de-rosa.

Os escritórios antigos também tinham problemas.

Hierarquias pesadas.

Burocracia.

Chefias ruins.

Fofocas.

Favoritismos.

Conflitos.

Tecnologia limitada.

Processos que hoje consideraríamos absurdamente ineficientes.

Não estou propondo ressuscitar tudo aquilo.

Mas havia uma característica interessante:

a fronteira entre vida profissional e convivência social era diferente.

Quando alguém casava, o departamento comemorava.

Quando nascia um filho, comemorava.

Quando alguém fazia aniversário, comemorava.

Quando se aposentava depois de décadas, aquilo era um acontecimento.

E quando algo ruim acontecia, aquela mesma rede também aparecia.

Éramos colegas de trabalho.

Mas frequentemente funcionávamos como uma espécie de família estendida.

Com todas as vantagens e todos os defeitos que famílias estendidas possuem.


🏃 E no meio disso tudo havia o office-boy

Agora chegamos ao personagem que vos escreve.

O office-boy.

Hoje talvez seja difícil explicar a importância daquele sujeito correndo de um lado para outro.

O office-boy atravessava a empresa inteira.

Levava documentos.

Buscava assinaturas.

Ia ao banco.

Passava pelo protocolo.

Entregava correspondência.

Subia.

Descia.

Entrava no elevador.

Saía do prédio.

Atravessava a Paulista.

Voltava.

Levava outro documento.

Recebia outra missão.

Era uma espécie de:

TCP/IP humano.

Os pacotes eram envelopes.

O roteamento era feito de memória.

E o traceroute podia envolver quinze andares e uma agência bancária.

Como office-boy, tive a sorte de conhecer muita gente.

E entre as pessoas que marcaram aqueles primeiros tempos estavam algumas das primeiras secretárias com quem trabalhei.

Elizabeth, nossa Bethinha.

Ana Maria.

Terezinha.

Cecilia.

Depois vieram Maria Aparecida, Nilce, Eliza, Benzão, Debora, Cristina, Adriana e tantas outras mulheres com quem tive a honra de trabalhar.

E havia...

Rosalaine.


🐺 “É o lobo... é o lobo!”

Rosalaine tinha uma característica impossível de registrar num currículo.

A voz.

Era uma voz de fada.

Angelical.

Leve.

Quase adolescente.

Mas Rosalaine era uma mulher adulta.

E havia um antigo personagem de desenho animado cuja fala eu adorava ouvi-la imitar.

Eu chegava perto.

— Rosalaine...

Ela provavelmente já sabia.

— O quê, Vagner?

— Fala.

— Falar o quê?

Eu insistia.

Até que vinha aquela voz:

— É o lobo... é o lobo!

Pronto.

Podia acabar o expediente.

O dia já tinha valido a pena.

Para aquele office-boy, ouvir Rosalaine dizendo “é o lobo, é o lobo” era praticamente um benefício corporativo não declarado.

E havia outro pequeno problema.

Eu era apaixonado por ela.

Consequentemente, o sistema de prioridades do office-boy apresentava uma pequena vulnerabilidade conhecida pelas demais secretárias.


⚡ SLA ROSALAINE

As outras perceberam rapidamente.

Pedido normal?

Vagner executava.

Pedido urgente?

Vagner corria.

Pedido da Rosalaine?

O espaço-tempo sofria uma pequena deformação.

E naturalmente começaram as piadas.

Uma delas ficou na memória:

“Se for a Rosalaine a pedir para o Vagner, ele faz mais rápido que Hermes.”

Eu provavelmente protestava.

— Nada a ver!

E elas:

— Sei...

— Eu faço rápido para todo mundo!

— Claro, Vagner.

— Faço mesmo!

Bastaria então alguém chamar:

— Rosalaine, pede você para ele.

Fim da discussão.

Porque provavelmente, antes que ela terminasse:

— Vagner, você poderia...

FUUUUSH!

Cadê o office-boy?

Já estava no elevador.


🪽 Mais rápido que Hermes

Décadas depois percebo que a piada era melhor do que talvez imaginássemos.

Hermes, na mitologia grega, era justamente o mensageiro dos deuses.

E o que fazia o office-boy?

Levava mensagens.

Documentos.

Envelopes.

Ordens.

Papéis.

Atravessava territórios carregando informação.

Eu era praticamente um Hermes corporativo da Avenida Paulista.

Só havia uma diferença.

Hermes tinha velocidade divina.

Eu tinha Rosalaine dizendo:

— Vagner...

Nesse momento, meu caro Hermes:

saia da frente.


🎄 O churrasco e a festa da firma

E então chegávamos ao encerramento anual daquele grande organismo social.

O churrasco.

Às vezes viajávamos para uma pousada da própria empresa.

Em outras ocasiões alugávamos uma chácara.

E lá ia o departamento.

Chefes.

Funcionários.

Secretárias.

Famílias.

Namorados.

Maridos.

Esposas.

Filhos.

O sujeito que durante onze meses aparecia impecavelmente vestido surgia de bermuda diante da churrasqueira.

O gerente encontrava seus subordinados fora do habitat corporativo.

As famílias finalmente conheciam aquelas pessoas cujos nomes ouviam durante o ano inteiro.

— Ahhh, então VOCÊ é o fulano!

Frase perigosíssima.

Dependendo da quantidade de cerveja consumida, segredos corporativos podiam começar a vazar.

E então havia a grande instituição:

A Festa de Final de Ano da Empresa

Comentadíssima.

Esperada.

Patrocinada pela empresa.

Não era simplesmente um evento no calendário.

Era um ritual.

Porque naquela época existia uma regra não escrita:

Não bastava ser funcionário. Tinha que participar.


🧠 A empresa que não aparecia no organograma

Quarenta anos depois, algo curioso acontece.

Eu não consigo lembrar de todos os documentos que transportei.

Não lembro de todos os protocolos.

Não lembro de cada assinatura que busquei.

Não lembro de cada tarefa considerada urgentíssima.

Muitas coisas pelas quais alguém provavelmente disse:

“Vagner, isso precisa estar pronto HOJE!”

desapareceram completamente.

Urgentíssimas em 1980 e tantos.

Irrelevantes em 2026.

Mas lembro do Clube da Assinatura.

Lembro do armário da bolacha.

Lembro das vaquinhas.

Lembro dos cartões.

Lembro dos aniversários.

Lembro dos churrascos.

Lembro das festas.

Lembro das secretárias.

E lembro de uma voz dizendo:

“É o lobo... é o lobo!”

Talvez exista uma lição interessante nisso.

A memória humana possui seu próprio algoritmo de retenção.

E aparentemente ele não respeita as prioridades corporativas.


🤖 Então chegou o escritório inteligente

Nas décadas seguintes fizemos uma coisa extraordinária.

Automatizamos.

Digitalizamos.

Otimizamos.

Reduzimos departamentos.

Criamos workflows.

ERPs.

CRMs.

Portais.

Self-service.

E-mail.

Mensagens instantâneas.

Videoconferência.

Automação.

Inteligência artificial.

Hoje equipes muito menores conseguem realizar trabalhos que antigamente exigiam dezenas de pessoas.

Isso é progresso.

Não tenho saudade de carregar papel porque alguém precisava fisicamente transportar informação entre dois pontos.

Não quero trocar APIs por office-boys.

Não quero substituir workflow por pastas circulando de mesa em mesa.

Seria absurdo.

Mas talvez tenhamos cometido um pequeno erro conceitual.

Ao eliminar a ineficiência, às vezes eliminamos junto coisas que não eram ineficiência.

O armário da bolacha não era workflow.

O cartão de aniversário não era processo.

A vaquinha do casamento não era produtividade.

O churrasco não era KPI.

A secretária sabendo que alguém estava vivendo uma semana difícil não era people analytics.

A piada sobre Rosalaine e Hermes não aparecia em nenhuma métrica de desempenho.

Mas tudo isso criava uma coisa dificílima de medir:

pertencimento.


🏭 Quando eficiência demais transforma gente em recurso

Hoje projetamos escritórios fantásticos.

Estações compartilhadas.

Hot desks.

Sensores.

Reserva automática de mesa.

Salas inteligentes.

Dashboards.

Indicadores de ocupação.

Colaboração remota.

Processos digitais.

Tudo muito eficiente.

Tudo muito funcional.

Mas existe uma pergunta que talvez devesse aparecer em algum desses dashboards:

As pessoas ainda conhecem umas às outras?

Não apenas o cargo.

Não apenas o avatar.

Não apenas o nome no Teams.

Conhecem?

Sabem quem está fazendo aniversário?

Sabem quem acabou de ter filho?

Sabem quem vai se aposentar?

Sabem quem conta a pior piada?

Sabem quem sempre rouba a última bolacha?

Existe algum equivalente moderno daquela secretária que percebia o departamento como um organismo humano?

Porque uma empresa pode otimizar perfeitamente o fluxo de trabalho e, ao mesmo tempo, transformar seres humanos em unidades intercambiáveis de capacidade.

E aí talvez tenhamos criado o escritório mais inteligente da história...

para tratar pessoas como gado com extraordinária eficiência.


🎨 Laerte, Glauco, Angeli e o departamento invisível

É justamente por isso que gosto de imaginar Laerte, Glauco e Angeli caminhando por aquele escritório.

Eles sabiam observar o Brasil que não aparece nos documentos oficiais.

O Brasil da conversa lateral.

Da piada.

Da fila.

Do cafezinho.

Do sujeito tentando escapar da vaquinha.

Da secretária que sabe tudo.

Do funcionário que esconde a revista.

Do armário comunitário.

Do chefe que muda completamente depois da segunda cerveja no churrasco.

E o Leão de Chácara?

Naturalmente ficaria na entrada.

Talvez cobrando:

— Você pagou a cota da bolacha?

— Ainda não.

— Então volta.

Governança.


☕ Epílogo — O mainframe social

Talvez aquela empresa antiga tivesse dois sistemas funcionando simultaneamente.

O primeiro processava negócios.

Pedidos.

Contas.

Contratos.

Documentos.

Pagamentos.

Relatórios.

O segundo processava gente.

Aniversários.

Casamentos.

Nascimentos.

Paixões.

Amizades.

Piadas.

Brigas.

Reconciliações.

Festas.

Café.

Bolachas.

O primeiro sistema foi substituído inúmeras vezes.

Mainframes, minis, PCs, cliente-servidor, web, cloud, APIs, inteligência artificial.

O segundo nunca teve documentação.

E talvez por isso tenhamos perdido partes dele durante a migração.

Esta história é uma pequena tentativa de restaurar o backup.

E principalmente uma homenagem carinhosa a Elizabeth, a Bethinha; Ana Maria; Terezinha; Cecilia; Maria Aparecida; Nilce; Eliza; Benzão; Debora; Cristina; Adriana e tantas outras secretárias com quem tive a honra de trabalhar.

Mulheres que provavelmente jamais aparecerão no organograma histórico dessas empresas, mas que ajudaram a fazer aqueles departamentos funcionarem como comunidades.

E, claro, uma lembrança especial para Rosalaine.

A mulher de voz de fada que, sem saber, descobriu uma vulnerabilidade crítica no sistema operacional de determinado office-boy. Sabe que vendo hoje, descobri de onde gosto das vozes das personagens de anime, talvez Freud explique, mas agora entendo um pouco melhor a magia da voz feminina dos animes, o efeito que me provoque e a pessoa que iniciou esse processo.

Bastava chamar:

— Vagner...

E qualquer prioridade anterior era imediatamente reavaliada.

Se depois viesse:

— É o lobo... é o lobo!

pronto.

O expediente estava ganho.

Hoje temos máquinas capazes de processar bilhões de instruções por segundo.

Temos inteligência artificial.

Temos escritórios inteligentes.

Temos automação suficiente para eliminar departamentos inteiros.

Mas até hoje ninguém conseguiu construir um sistema capaz de reproduzir perfeitamente aquele estranho protocolo social que fazia cinquenta pessoas assinarem escondidas um cartão de aniversário.

Talvez porque aquilo nunca tenha sido tecnologia.

Era simplesmente gente vivendo parte da vida junto.

E quando alguém perguntar como eram aqueles escritórios antes do ano 2000, talvez eu não precise explicar organogramas, máquinas de escrever, arquivos de aço ou processos administrativos.

Posso simplesmente responder:

Havia um armário cheio de bolachas.

Uma Veja circulando pelo departamento.

Um cartão esperando a última assinatura.

Uma secretária cobrando a vaquinha.

Um churrasco sendo planejado.

E um office-boy atravessando a Avenida Paulista mais rápido que Hermes porque, em algum lugar do escritório, Rosalaine havia acabado de chamá-lo.

Bons tempos.

Bons e imperfeitos tempos.

Agora pegue mais uma bolacha.

Mas, pelo amor de Deus:

se pegar a última, avise.

☕🐺


Para ir mais longe

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sábado, 4 de julho de 2026

Capítulo 4 — Forbes (1989)

Bellacosa Mainframe e a revista forbes em 1989

☕ Um Café no Bellacosa Mainframe

Capítulo 4 — Forbes (1989)

O Dia em que o Mainframe Virou um Dinossauro... e Resolveu Continuar Evoluindo

Uma análise da reportagem da Forbes que classificou o mainframe como um "dinossauro tecnológico", mostrando o contexto da época e como a plataforma IBM evoluiu continuamente até chegar ao IBM z17.

Por

Capa da Forbes de 1989 e o início das previsões sobre a morte do Mainframe
A reportagem da Forbes marcou uma geração ao comparar o mainframe a um dinossauro, iniciando uma longa sequência de previsões sobre seu fim.

"Toda revolução tecnológica produz duas coisas: uma inovação verdadeira e dezenas de previsões exageradas."

— Bellacosa Mainframe

Março de 1989

Voltemos quase quarenta anos no tempo.

O muro de Berlim ainda estava de pé.

A World Wide Web sequer existia.

Linux ainda não havia sido criado.

Java levaria vários anos para nascer.

Windows era apenas a versão 2.0.

O IBM AS/400 havia acabado de ser lançado.

O System/390 ainda nem existia.

A computação corporativa era dominada por grandes datacenters.

E foi exatamente nesse cenário que a Forbes, uma das revistas de negócios mais influentes do planeta, publicou um artigo que ajudaria a moldar a percepção do mercado sobre o futuro da computação.

O tom era claro.

Os computadores pessoais estavam ficando mais poderosos.

As workstations da Sun Microsystems faziam sucesso entre engenheiros.

Os servidores UNIX ganhavam espaço.

As redes locais Ethernet cresciam rapidamente.

Tudo parecia indicar que a centralização estava com os dias contados.

O mainframe passou a ser descrito como um "dinossauro tecnológico", uma metáfora poderosa para sugerir que uma tecnologia gigantesca, cara e aparentemente lenta seria inevitavelmente substituída por uma nova geração de computadores menores e distribuídos. Essa imagem se espalhou rapidamente pela indústria e seria repetida inúmeras vezes ao longo da década seguinte.


Por que essa comparação fazia sentido?

Hoje é fácil dizer que a Forbes estava errada.

Mas um engenheiro sério precisa entender o contexto antes de julgar.

Em 1989 havia excelentes razões para acreditar naquela previsão.

Os microprocessadores evoluíam rapidamente.

O preço do hardware caía ano após ano.

As empresas começavam a montar redes locais.

Os usuários finalmente podiam ter um computador sobre a mesa.

Até então, era comum dividir tempo em um único computador central.

De repente...

Cada funcionário tinha sua própria máquina.

Parecia uma revolução.

E realmente era.


O nascimento da ilusão da descentralização

Imagine um gerente em 1989.

Ele visita uma feira de tecnologia.

No primeiro estande encontra um enorme IBM Mainframe.

Na sala ao lado vê uma workstation Sun rodando gráficos coloridos.

Depois encontra dezenas de PCs ligados em rede.

A demonstração impressiona.

Tudo parece mais moderno.

Mais rápido.

Mais bonito.

O vendedor então faz a pergunta fatal:

"Por que continuar pagando milhões por um mainframe?"

É uma pergunta excelente.

O problema é que ela estava incompleta.

A pergunta correta deveria ser:

"Quem continuará processando milhões de transações com disponibilidade próxima de 100% durante os próximos vinte anos?"

Essa pergunta aparecia muito menos nos folders de marketing.


O marketing encontrou um vilão perfeito

Toda boa campanha publicitária precisa de um antagonista.

Na indústria automobilística, o vilão pode ser o consumo de combustível.

Na indústria farmacêutica, pode ser uma doença.

Na computação dos anos 90...

O vilão escolhido foi o mainframe.

Ele reunia todas as características necessárias para uma boa narrativa.

Era grande.

Era caro.

Ficava escondido em salas refrigeradas.

Poucas pessoas o conheciam.

Pouquíssimos sabiam como funcionava.

Era o candidato perfeito para representar "o passado".

Enquanto isso, os novos servidores eram vendidos como:

  • modernos;

  • abertos;

  • flexíveis;

  • distribuídos;

  • democráticos.

Era uma excelente história.

Só havia um detalhe.

Histórias vendem revistas.

Engenharia precisa funcionar às três horas da manhã.


O dinossauro mais estranho da História

A metáfora do dinossauro era extremamente eficiente.

Todos entendem imediatamente seu significado.

Dinossauros dominaram o planeta.

Depois desapareceram.

Logo...

O mainframe também desapareceria.

Mas havia um pequeno problema biológico nessa comparação.

Dinossauros não evoluem.

Mainframes, sim.

Enquanto as revistas escreviam artigos...

Os laboratórios da IBM trabalhavam silenciosamente.

Novos processadores.

Novos canais de I/O.

Mais memória.

Mais virtualização.

Mais desempenho.

Mais confiabilidade.

A cada geração surgiam melhorias que dificilmente apareciam nas manchetes.

Porque evolução incremental quase nunca vira capa de revista.


O que a reportagem acertou

É importante reconhecer que a Forbes não estava completamente equivocada.

Ela acertou em vários pontos.

A computação realmente se descentralizou.

Os PCs dominaram os escritórios.

As redes locais tornaram-se padrão.

Os servidores UNIX conquistaram espaço.

Mais tarde vieram Linux, virtualização e cloud.

Tudo isso aconteceu.

A revista percebeu corretamente que a arquitetura corporativa mudaria profundamente.

Onde ela errou foi na conclusão.

Ela confundiu crescimento de uma tecnologia com desaparecimento de outra.

Na engenharia, coexistência costuma ser muito mais comum do que substituição completa.


O que ficou de fora

Existe uma palavra que praticamente não aparecia nessas análises.

Negócio.

As reportagens discutiam hardware.

Processadores.

Arquiteturas.

Preço.

Memória.

Sistema operacional.

Mas quase nunca perguntavam:

Quem processa a folha de pagamento?

Quem controla o estoque nacional?

Quem liquida operações bancárias?

Quem registra bilhões de transações financeiras?

Quem mantém décadas de regras de negócio escritas em COBOL?

Porque substituir hardware é relativamente simples.

Substituir quarenta anos de conhecimento empresarial é outra história completamente diferente.


Enquanto isso... dentro do CPD

Vamos imaginar a cena.

Um jornalista termina de escrever:

"O mainframe é um dinossauro."

Na mesma hora...

Em algum banco brasileiro...

Um operador pressiona ENTER no terminal 3270.

Um programa COBOL inicia sua execução.

O CICS recebe milhares de requisições.

O Db2 executa centenas de milhares de comandos SQL.

O JES2 inicia dezenas de JOBs batch.

O RACF valida usuários.

O VSAM grava registros.

Tudo continua funcionando.

Sem saber que havia acabado de ser declarado extinto.

Se computadores pudessem rir...

Talvez aquele IBM respondesse:

"Interessante... agora deixe-me voltar ao trabalho."


O tempo é um juiz implacável

A grande vantagem da História é que ela não discute.

Ela apenas acontece.

Passaram-se cinco anos.

Depois dez.

Depois vinte.

Depois trinta.

Chegamos a 2026.

O "dinossauro" citado em 1989 agora atende por outro nome.

IBM z17.

Possui aceleração nativa para Inteligência Artificial.

Executa Linux.

Hospeda OpenShift.

Integra-se ao watsonx.

Utiliza DevOps.

Executa aplicações Java, Python, Node.js, Go e COBOL.

Conversa naturalmente com Kubernetes, APIs REST e ambientes híbridos de cloud.

O que morreu não foi o mainframe.

Foi a ideia de que inovação exige abandonar tudo o que veio antes.


A primeira lição da Forbes

A reportagem da Forbes merece ser lembrada.

Não porque acertou.

Nem porque errou.

Mas porque representa perfeitamente um fenômeno que continua acontecendo em 2026.

Sempre que surge uma tecnologia revolucionária...

Alguém anuncia o fim da tecnologia anterior.

Foi assim com:

  • PCs contra Mainframes.

  • Internet contra PCs.

  • Cloud contra Datacenters.

  • Containers contra Máquinas Virtuais.

  • Microservices contra Monólitos.

  • IA contra Programadores.

A História mostra que a realidade costuma ser bem menos dramática.

As melhores tecnologias raramente eliminam completamente as anteriores.

Elas aprendem a conviver.

A integrar.

A evoluir juntas.

E talvez essa seja a maior lição deixada pela Forbes de 1989.

O verdadeiro erro nunca foi apostar no futuro.

Foi acreditar que o futuro só poderia existir depois de destruir completamente o passado.


Fonte histórica

Forbes, edição de 20 de março de 1989, posteriormente citada pelo Professor Wolfgang Spruth em The Death of the Mainframe, como uma das primeiras grandes publicações a popularizar a metáfora do "dinossauro tecnológico". O trabalho de Spruth preserva essa e outras manchetes históricas, permitindo compreender o contexto da época e compará-lo com a evolução real da plataforma IBM Z.

Bellacosa Mainframe e o Funeral que nunca aconteceu


C:\BELLACOSA\COBOL\FUNERAL_QUE_NUNCA_ACONTECEU.HTML
★ BELLACOSA MAINFRAME APRESENTA ★

A MORTE DO COBOL

O Funeral que Nunca Aconteceu

Uma investigação histórica em 14 capítulos sobre as previsões, reportagens, buzzwords e profetas que anunciaram repetidamente o fim do COBOL — enquanto bilhões de transações continuavam sendo processadas silenciosamente.

SISTEMA ONLINE — 14 CAPÍTULOS DISPONÍVEIS
DIRETÓRIO DE CAPÍTULOS

README.TXT

Esta série investiga uma das narrativas mais repetidas da história da tecnologia: a suposta morte do COBOL. Durante décadas, revistas, jornais, consultorias e especialistas anunciaram seu desaparecimento. Entretanto, o COBOL permaneceu processando bancos, seguradoras, governos, cartões, pagamentos e sistemas críticos.

Os títulos e links acima são elementos HTML reais, permitindo que mecanismos de busca encontrem e rastreiem todos os capítulos. Os iframes funcionam apenas como previews visuais.

C:\> RUN BELLACOSA.EXE /COBOL /HISTORY /NO-FUNERAL _

★ BELLACOSA MAINFRAME ★ COBOL ★ IBM Z ★ HISTÓRIA DA COMPUTAÇÃO ★

Melhor visualizado em qualquer navegador com café disponível.

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2026

Chernobyl : Quando um Desastre Nuclear Entrou no Vocabulário Brasileiro, Virou Adjetivo e Acabou Dentro de um Sanduíche Capaz de Produzir um ABEND Intestinal

Bellacosa Mainframe e os lanches chernobyl


☕ Um Café no Bellacosa Mainframe

Chernobyl sem Mistérios para Programadores COBOL

Quando um Desastre Nuclear Entrou no Vocabulário Brasileiro, Virou Adjetivo e Acabou Dentro de um Sanduíche Capaz de Produzir um ABEND Intestinal

“Está vivo! Está vivo! E está pingando uma substância que definitivamente não deveria estar pingando!”

Boa noite, jovem padawan do mainframe.

Puxe uma cadeira, coloque o café ao lado do terminal 3270 e não toque naquele sanduíche esquecido sobre a CPU. Ninguém sabe quando ele chegou, quem o catalogou ou por que sua maionese parece emitir uma luminosidade azulada.

O operador do turno anterior deixou apenas um bilhete:

NÃO COMER. POSSÍVEL CHERNOBYL.

Você poderia imaginar que “Chernobyl” fosse apenas o nome de uma usina nuclear, de uma cidade ou de uma tragédia ocorrida na antiga União Soviética.

Tecnicamente, estaria correto.

Culturalmente, porém, estaria executando apenas metade do programa.

No Brasil, especialmente nas grandes cidades do Sudeste e no vocabulário popular das décadas de 1980, 1990 e 2000, Chernobyl escapou dos livros de História, atravessou a televisão, entrou nos programas humorísticos, contaminou o vocabulário urbano e acabou transformado em adjetivo.

Uma lanchonete suspeita podia ser Chernobyl.

Uma coxinha de procedência duvidosa podia ser Chernobyl.

Um banheiro depois do almoço da firma podia virar Chernobyl.

Um computador montado com peças retiradas de três aparelhos diferentes podia ser chamado de Chernobyl.

E, naturalmente, existia o lendário:

Sanduíche Chernobyl

Não era necessariamente um produto oficial.

Não havia uma franquia internacional chamada “Chernobyl Burger”.

Não existia um controle de qualidade com um cientista portando contador Geiger ao lado da chapa.

“Sanduíche Chernobyl” era — e ainda pode ser — uma expressão popular para descrever uma construção gastronômica extremamente suspeita, exagerada, gordurosa, apimentada, malconservada ou aparentemente capaz de iniciar uma reação em cadeia no sistema digestivo humano.

Era o tipo de sanduíche que você não simplesmente comia.

Você submetia seu organismo a um teste de recuperação de desastre.

       IF SANDUICHE-SUSPEITO = 'S'
           PERFORM ATIVAR-PLANO-CONTINGENCIA
           MOVE 'ABEND-INTESTINAL' TO STATUS-OPERACAO
       END-IF.

E é justamente essa transformação cultural que merece ser examinada.

Prepare as bobinas.

Levante a chave do laboratório.

Peça ao assistente corcunda que não confunda novamente o cérebro “normal” com o cérebro “anormal”.

Hoje vamos descobrir como uma das maiores tragédias tecnológicas do século XX foi recompilada pelo humor brasileiro até virar sinônimo de algo perigoso, contaminado, caótico ou simplesmente assustador.


CAPÍTULO I — O EVENTO ORIGINAL: QUANDO O SISTEMA SAIU DE CONTROLE

Na madrugada de 26 de abril de 1986, o reator número 4 da usina nuclear de Chernobyl, localizada na então República Socialista Soviética da Ucrânia, saiu de controle durante um teste. A sequência envolveu características problemáticas do projeto do reator RBMK, decisões operacionais inadequadas e condições extremamente instáveis. Explosões e incêndios destruíram parte da unidade e lançaram material radioativo no ambiente. (Agência Internacional de Energia Atômica)

Não foi um pequeno erro de programação.

Não foi:

IGZ0035S A FILE STATUS WAS NOT EXPECTED.

Foi algo mais próximo de:

IEC9999E O PLANETA RECEBEU UM ABEND E O DUMP NÃO CABE NO SYSOUT.

Chernobyl tornou-se símbolo mundial dos riscos associados à combinação de falhas de projeto, decisões humanas, cultura organizacional inadequada, segredo institucional, comunicação deficiente e sistemas complexos operando fora das condições seguras.

Para um programador COBOL, existe aqui uma lição imediatamente reconhecível:

Sistemas críticos raramente falham por causa de uma única linha.

Normalmente há uma cadeia.

Uma decisão ruim encontra uma condição não prevista.

A condição não prevista encontra uma proteção desabilitada.

A proteção desabilitada encontra uma equipe sem informações completas.

A equipe sem informações encontra uma administração preocupada em esconder problemas.

E, de repente, o pequeno incidente que deveria ser tratado no primeiro IF alcança o último parágrafo do programa carregando uma espada, uma tocha e três variáveis não inicializadas.

A Organização Mundial da Saúde registra efeitos imediatos e de longo prazo associados ao acidente, incluindo síndrome aguda da radiação entre trabalhadores e equipes de emergência, cataratas, câncer de tireoide em populações expostas quando crianças e consequências psicológicas persistentes. A avaliação dos efeitos totais exige cuidado, pois diferentes consequências possuem níveis distintos de evidência científica. (Organização Mundial da Saúde)

Esse cuidado é importante porque a memória cultural não trabalha como um relatório técnico.

A memória cultural não executa:

       COMPUTE IMPACTO-REAL =
           EVIDENCIA-CIENTIFICA
           * NIVEL-DE-CONFIANCA.

Ela trabalha com símbolos.

E o símbolo produzido foi simples, poderoso e assustador:

Chernobyl = perigo invisível, contaminação e desastre.

Foi esse símbolo, e não toda a complexidade científica do acidente, que entrou no vocabulário popular.


CAPÍTULO II — A TELEVISÃO COMO JES2 DA MEMÓRIA COLETIVA

Em 1986 não havia redes sociais, vídeos curtos, influenciadores transmitindo ao vivo nem grupos de família recebendo quinze versões contraditórias do mesmo acontecimento antes do café da manhã.

A televisão possuía enorme poder de concentração narrativa.

Os telejornais mostravam mapas da Europa, imagens da usina, helicópteros, militares, bombeiros, roupas protetoras, cidades evacuadas e uma ameaça que não podia ser vista, cheirada ou ouvida.

A radiação era particularmente assustadora porque contrariava o funcionamento intuitivo dos sentidos humanos.

Um incêndio pode ser visto.

Uma enchente pode ser observada.

Um desabamento produz ruído.

A radiação, entretanto, pode estar presente sem apresentar uma placa piscando:

ATENÇÃO: VOCÊ ESTÁ SENDO IRRADIADO.
PRESSIONE ENTER PARA CONTINUAR.

Essa invisibilidade transformou Chernobyl numa espécie de monstro perfeito para o imaginário popular.

O vampiro possui dentes.

O lobisomem possui pelos.

A criatura construída no laboratório possui parafusos cinematográficos no pescoço.

A radiação não possui rosto.

Ela não precisa arrombar a porta.

Ela já pode estar dentro da sala.

Para crianças e adolescentes brasileiros que assistiram à cobertura daquele período, “Chernobyl” tornou-se uma palavra carregada de imagens, medo e mistério.

Muitas dessas pessoas não conheciam o funcionamento de um reator nuclear.

Não sabiam diferenciar fissão de fusão.

Não tinham a menor ideia do que fosse um RBMK.

Mas entendiam perfeitamente que Chernobyl representava:

  • algo muito perigoso;

  • algo contaminado;

  • algo que havia saído completamente de controle;

  • algo que as autoridades talvez não estivessem explicando direito;

  • algo que poderia causar consequências muito além do local do acidente.

Em linguagem de mainframe:

EVENTO LOCAL COM IMPACTO ENTERPRISE.

A televisão funcionou como um enorme sistema de distribuição cultural.

O fato entrou pelo INPUT.

As imagens foram processadas.

O medo foi armazenado.

A palavra “Chernobyl” saiu pelo OUTPUT com um significado maior do que o geográfico.


CAPÍTULO III — GOIÂNIA: QUANDO A RADIAÇÃO DEIXOU DE SER UM MONSTRO DISTANTE

No Brasil, essa memória ganhou uma camada ainda mais intensa por causa do acidente radiológico de Goiânia, ocorrido em setembro de 1987.

Uma fonte de césio-137 utilizada em equipamento de radioterapia foi retirada de uma instalação abandonada, teve sua proteção violada e acabou espalhando material radioativo. Segundo a Agência Internacional de Energia Atômica, aproximadamente 250 pessoas foram contaminadas e quatro morreram no primeiro mês. O episódio tornou-se uma referência mundial sobre os perigos do abandono, do controle inadequado e do manuseio de fontes radioativas. (IAEA Publications)

De repente, o perigo não estava apenas numa distante república soviética.

Estava no Brasil.

Falava português.

Circulava por uma cidade brasileira.

E, talvez o elemento mais perturbador, parecia bonito.

O cloreto de césio associado ao acidente apresentava uma luminosidade azulada que despertou curiosidade. Aquilo que parecia fascinante carregava um perigo que as pessoas envolvidas não tinham condições de reconhecer.

Essa é uma das características mais cruéis de certos riscos tecnológicos:

Eles não necessariamente parecem perigosos.

Um arquivo corrompido não aparece usando uma capa preta.

Uma senha exposta não começa a tocar música dramática.

Um programa COBOL com um erro de arredondamento pode produzir relatórios aparentemente perfeitos durante anos.

Um PIC 9(05) recebendo valores superiores ao esperado não grita.

Ele apenas aguarda o momento mais inconveniente para demonstrar que o projeto havia sido otimista demais.

O acidente de Goiânia reforçou no imaginário brasileiro a ideia de que contaminação poderia ser silenciosa, invisível e doméstica.

Chernobyl e Goiânia eram acontecimentos distintos, com naturezas e escalas diferentes, mas a cultura popular não funciona como uma tabela normalizada em terceira forma normal.

Ela cria associações.

Na tabela cultural brasileira, os campos ficaram mais ou menos assim:

RADIAÇÃO
   ├── CHERNOBYL
   ├── CÉSIO-137
   ├── GOIÂNIA
   ├── CONTAMINAÇÃO
   ├── PERIGO INVISÍVEL
   └── NÃO TOQUE NISSO, MENINO!

A partir daí, “Chernobyl” possuía todas as condições para deixar de ser apenas um nome próprio e se tornar uma unidade portátil de significado.


CAPÍTULO IV — QUANDO O NOME PRÓPRIO VIROU ADJETIVO

Aqui entramos no laboratório da linguística.

Coloque as luvas.

Não puxe aquela alavanca.

A alavanca errada abre a jaula do particípio irregular.

Originalmente, Chernobyl é um nome próprio.

Ele identifica um lugar específico.

Mas as línguas possuem uma extraordinária capacidade de transformar nomes próprios em referências genéricas.

Quando alguém diz:

“Ele é um Einstein.”

A pessoa não está afirmando que Albert Einstein ressuscitou, mudou de nome e começou a trabalhar no suporte de produção.

Ela quer dizer:

“Ele é extremamente inteligente.”

Quando alguém chama outro de “Sherlock”, normalmente está destacando sua capacidade de investigar — ou ironizando alguém que acabou de descobrir o óbvio.

Quando uma solução improvisada é chamada de “MacGyver”, o nome do personagem deixa de indicar apenas um indivíduo e passa a representar um tipo de comportamento.

A retórica associa esse processo à antonomásia, pela qual um nome próprio pode ser usado como representação de determinadas características. Sob uma perspectiva lexical, também se pode falar em processos de lexicalização, generalização ou transformação de nomes próprios em usos comuns. (OpenEdition Journals)

No caso brasileiro, “Chernobyl” sofreu uma espécie de promoção semântica.

Antes:

       01 CHERNOBYL         PIC X(20).
          *> NOME DE UM LUGAR.

Depois:

       01 CHERNOBYL         PIC X(20).
          *> QUALQUER COISA PERIGOSA, CONTAMINADA,
          *> CAÓTICA, SUSPEITA OU DIGESTIVAMENTE HOSTIL.

Observe algumas construções possíveis:

“Aquele banheiro está um Chernobyl.”

“O computador do almoxarifado é um Chernobyl.”

“Não compra salgado naquela estação; aquilo é Chernobyl.”

“Depois da festa, a cozinha virou Chernobyl.”

Nesses exemplos, a palavra já não descreve um lugar na Ucrânia.

Ela funciona como uma classificação.

É praticamente um 88 LEVEL cultural:

       01 CONDICAO-OBJETO        PIC X.
          88 OBJETO-SEGURO       VALUE 'S'.
          88 OBJETO-CHERNOBYL    VALUE 'C'.

E ninguém precisa consultar o manual.

A expressão funciona porque os interlocutores compartilham o mesmo mapa simbólico.

Chernobyl significa desastre.

Se o contexto for comida, significa ameaça gastrointestinal.

Se o contexto for um ambiente, significa bagunça extrema.

Se o contexto for equipamento, significa gambiarra perigosa.

Se o contexto for uma situação social, significa confusão capaz de contaminar tudo ao redor.

O significado é selecionado dinamicamente.

É quase polimorfismo, mas sem aquela reunião de arquitetura na qual alguém desenha seis hexágonos para explicar uma coxinha.


CAPÍTULO V — O MISTERIOSO SANDUÍCHE CHERNOBYL

Chegamos ao objeto sobre a mesa.

O sanduíche está coberto por um pano.

Raios atravessam o céu.

Um órgão toca ao fundo.

O assistente pergunta:

— Doutor, devemos ligá-lo à tomada?

— Não! Primeiro verifique a data da maionese!

O chamado “sanduíche Chernobyl” pertence principalmente ao território da oralidade, do humor urbano e das denominações informais. Não existe necessariamente uma origem única, um inventor identificável ou uma receita universal.

Essa ausência de padronização é parte da graça.

Em uma lanchonete, o nome podia designar um sanduíche gigantesco.

Em outra, podia indicar uma combinação excessivamente apimentada.

Entre amigos, podia ser qualquer lanche de aparência duvidosa.

Em casa, podia ser o resultado da tentativa de alguém de reunir todos os restos da geladeira entre duas fatias de pão.

A especificação funcional seria aproximadamente esta:

REQUISITO 001:
O SANDUÍCHE DEVERÁ CONTER UMA QUANTIDADE DE INGREDIENTES
SUPERIOR À CAPACIDADE ESTRUTURAL DO PÃO.

REQUISITO 002:
A ORIGEM DE PELO MENOS UM INGREDIENTE DEVERÁ SER INCERTA.

REQUISITO 003:
O CONSUMIDOR DEVERÁ QUESTIONAR SUAS ESCOLHAS DE VIDA
ENTRE DUAS E QUATRO HORAS APÓS O CONSUMO.

REQUISITO 004:
O SISTEMA DEVERÁ PRODUZIR EVENTOS NÃO PROGRAMADOS
NO SUBSISTEMA INTESTINAL.

É evidente que a piada trabalha com exagero.

Um sanduíche não se transforma literalmente numa usina nuclear.

Não há fissão espontânea da mortadela.

O ketchup não possui meia-vida de milhares de anos.

O cozinheiro não precisa ser resfriado com grafite — e, por favor, não tente isso em casa.

O humor nasce da desproporção entre causa e comparação.

Temos um salgado suspeito.

Em vez de dizer:

“Talvez esse alimento não tenha sido armazenado segundo as condições sanitárias recomendadas.”

O brasileiro diz:

“Isso aí é Chernobyl.”

Fim.

Mensagem transmitida.

Nenhum PowerPoint necessário.

Nenhuma reunião de quarenta minutos.

Nenhum consultor usando a expressão “jornada gastronômica orientada à experiência do consumidor”.

A palavra executa o processamento inteiro em uma única instrução.


CAPÍTULO VI — POR QUE O BRASILEIRO TRANSFORMA TRAGÉDIA EM PIADA?

Essa pergunta exige delicadeza.

O uso humorístico não significa necessariamente desprezo pelas vítimas ou desconhecimento da gravidade histórica.

Muitas culturas usam humor para reduzir a ansiedade diante de eventos assustadores.

O humor transforma aquilo que parece incompreensível em algo manipulável.

Não podemos controlar um desastre nuclear.

Mas podemos usar o nome do desastre para descrever o cachorro-quente suspeito da esquina.

Ao fazer isso, reduzimos simbolicamente sua escala.

O monstro gigantesco é convertido num apelido cotidiano.

É uma forma imperfeita, às vezes grosseira, mas profundamente humana de domesticar o medo.

O humor brasileiro possui especial afinidade com:

  • hipérbole;

  • ironia;

  • apelidos;

  • comparações absurdas;

  • tragédia transformada em comentário cotidiano;

  • improvisação verbal;

  • exageros corporais e escatológicos.

Por isso, a ligação entre Chernobyl e uma futura “boa caganeira” parece tão brasileira.

Não basta dizer que o sanduíche fará mal.

Ele precisa provocar uma evacuação comparável à retirada de uma zona de exclusão.

Não basta dizer que o banheiro ficará desagradável.

É necessário acionar:

  • Defesa Civil;

  • Exército;

  • equipe de descontaminação;

  • operador de console;

  • suporte de banco de dados;

  • e o padre da paróquia mais próxima.

       EVALUATE NIVEL-DA-CAGANEIRA
           WHEN 1
               DISPLAY 'INCIDENTE CONTROLADO'
           WHEN 2
               DISPLAY 'ACIONAR SUPORTE'
           WHEN 3
               DISPLAY 'EVACUAR O ANDAR'
           WHEN 4
               DISPLAY 'DECLARAR ZONA DE EXCLUSAO'
           WHEN OTHER
               DISPLAY 'CHERNOBYL'
       END-EVALUATE.

É o exagero funcionando como compressão cultural.

Uma única palavra carrega um filme inteiro dentro dela.


CAPÍTULO VII — OS PROGRAMAS HUMORÍSTICOS COMO COMPILADORES DE GÍRIAS

Expressões populares raramente possuem uma árvore genealógica perfeitamente documentada.

Elas circulam em bares, escolas, oficinas, fábricas, quartéis, escritórios, lanchonetes, ônibus, vestiários e famílias.

A televisão não necessariamente inventa cada expressão.

Muitas vezes, ela captura algo que já circula, amplia seu alcance e devolve ao público numa forma mais reconhecível.

Os programas humorísticos brasileiros das décadas de 1980, 1990 e 2000 trabalhavam intensamente com referências compartilhadas.

Não era preciso explicar durante cinco minutos o que Chernobyl representava.

Bastava pronunciar a palavra.

O público completava a piada.

Esse mecanismo é semelhante a uma chamada de subprograma:

       CALL 'MEMORIA-COLETIVA'
           USING PALAVRA-CHERNOBYL
                 SIGNIFICADO-IMPLICITO.

O programa principal não precisa conter todos os detalhes.

Ele chama uma rotina já armazenada na mente do espectador.

A rotina retorna:

PERIGO + RADIAÇÃO + DESASTRE + CONTAMINAÇÃO + EXAGERO.

Acrescente um sanduíche e a função retorna:

RISCO DE INTOXICAÇÃO + ARREPENDIMENTO + BANHEIRO.

Isso explica a eficiência da expressão.

Ela é praticamente uma API cultural.

Entrada:

{
  "objeto": "coxinha",
  "aparencia": "suspeita",
  "tempo_na_estufa": "desconhecido"
}

Saída:

{
  "classificacao": "Chernobyl",
  "recomendacao": "não consumir",
  "plano_de_contingencia": "localizar banheiro"
}

CAPÍTULO VIII — O MAPA SEMÂNTICO DE CHERNOBYL

Para entender completamente a expressão, podemos construir uma pequena tabela de significados.

Contexto“Chernobyl” pode significar
ComidaEstragada, exagerada, perigosa ou indigesta
BanheiroAmbiente devastado e possivelmente inabitável
ComputadorEquipamento improvisado, instável ou perigoso
Instalação elétricaFiação caótica, risco de curto ou incêndio
CozinhaSujeira, desorganização e contaminação
FestaSituação que saiu completamente do controle
RelacionamentoConflito emocional com efeitos duradouros
Programa COBOLCódigo antigo, obscuro, instável e sem documentação
ProduçãoIncidente grave espalhando impacto por vários sistemas

Naturalmente, essas interpretações dependem do grupo social, da região, da idade e do contexto.

Nem todos os brasileiros usam a expressão.

Nem todos reconhecem “sanduíche Chernobyl”.

Não existe um cadastro nacional de gírias controlado pelo SERPRO com atualização noturna via arquivo VSAM.

A expressão pertence ao uso cultural informal.

Por isso, é prudente dizer que ela foi ouvida com frequência em determinados círculos urbanos, especialmente entre pessoas que cresceram sob forte influência da televisão das décadas posteriores ao acidente.

É memória oral.

E memória oral se comporta como sistema legado:

  • todos sabem que existe;

  • ninguém sabe quem implantou;

  • a documentação desapareceu;

  • existem versões regionais;

  • cada usuário jura que a sua é a original;

  • desligar o sistema pode causar uma revolta inesperada.


CAPÍTULO IX — CURIOSIDADES DO LABORATÓRIO

1. Chernobyl, Chornobyl ou Chernobil?

Existem diferentes transliterações do nome, dependendo da língua de origem e das convenções utilizadas.

“Chernobyl” tornou-se internacionalmente difundida a partir da forma russa.

“Chornobyl” aproxima-se da transliteração do ucraniano.

“Chernobil” aparece adaptada ao português em alguns contextos.

Na gíria brasileira, entretanto, “Chernobyl” permaneceu muito forte porque foi essa forma que se consolidou na mídia e na cultura popular.

2. Pripyat não era a usina

Muitas pessoas confundem os nomes.

A usina estava próxima à cidade de Pripyat, construída para abrigar trabalhadores e suas famílias.

Chernobyl era outra localidade da região.

A memória popular, porém, resumiu tudo sob um único nome.

É como chamar todo o ambiente do mainframe de “COBOL”, incluindo:

  • z/OS;

  • JES2;

  • CICS;

  • Db2;

  • VSAM;

  • RACF;

  • JCL;

  • e o operador que está tentando almoçar.

Tecnicamente impreciso.

Culturalmente compreensível.

3. O perigo invisível é excelente combustível narrativo

A literatura e o cinema sempre gostaram de ameaças invisíveis.

Radiação, vírus, maldições, possessões e inteligências artificiais funcionam bem porque podem estar agindo antes de os personagens perceberem.

No mainframe, o equivalente é aquele processamento mensal que termina com CC 0000, mas produz valores errados na contabilidade.

O monstro mais assustador não é o que derruba o job.

É o que entrega o resultado incorreto com aparência de sucesso.

4. A minissérie de 2019 reativou a memória histórica

Décadas depois do acidente, a minissérie Chernobyl, lançada em 2019, apresentou o episódio a uma nova geração e renovou o interesse internacional pela história. Para muitos jovens, Chernobyl voltou a ser primeiro um acontecimento histórico e somente depois uma referência cultural. (IMDb)

Temos, portanto, duas camadas geracionais:

GERAÇÃO MAIS ANTIGA:
CHERNOBYL = TELEJORNAL + MEDO NUCLEAR + GÍRIA.

GERAÇÃO MAIS NOVA:
CHERNOBYL = MINISSÉRIE + HISTÓRIA + INTERNET + TURISMO SOMBRIO.

As duas convivem.

Às vezes dentro da mesma família.

O pai diz:

“Não come isso, é Chernobyl.”

O filho responde:

“Na verdade, pai, o problema técnico envolvia um reator RBMK e um coeficiente de vazio positivo.”

E o pai conclui:

“Tudo bem, professor. Come então.”


CAPÍTULO X — LIÇÕES PARA O PROGRAMADOR COBOL

Talvez você esteja perguntando:

“Bellacosa, o que um sanduíche radioativo metafórico tem a ver com minha carreira no mainframe?”

Tudo.

Ou pelo menos o suficiente para justificar outro café.

Lição 1 — Palavras carregam contexto

Em sistemas corporativos, os nomes parecem simples:

ARQCLI
CADPES
MOVTO
HIST01
STATUS
TIPO

Mas cada nome pode carregar décadas de significado organizacional.

Assim como “Chernobyl” deixou de ser apenas um lugar, um campo chamado STATUS = 7 pode significar muito mais do que o copybook explica.

Talvez signifique:

  • cliente bloqueado;

  • contrato encerrado;

  • operação suspeita;

  • cadastro em análise;

  • exceção criada em 1994 para um produto que não existe mais.

Não presuma que o nome revela todo o significado.

Investigue o contexto.

Lição 2 — Sistemas críticos falham em cadeia

Grandes incidentes não devem ser reduzidos a “erro humano”.

Essa expressão muitas vezes encerra a investigação cedo demais.

Pergunte:

  • Por que a pessoa pôde cometer aquele erro?

  • Quais proteções falharam?

  • Que informação estava ausente?

  • Qual pressão organizacional existia?

  • O procedimento era adequado?

  • O sistema permitia uma condição insegura?

  • Havia testes?

  • Havia observabilidade?

  • Havia plano de recuperação?

No COBOL:

       IF OPERADOR-ERROU
           DISPLAY 'INVESTIGAR SISTEMA, PROCESSO E CONTEXTO'
       END-IF.

Lição 3 — Um retorno zero não significa ausência de perigo

O job pode terminar corretamente e ainda produzir um desastre lógico.

MAXCC=0000

não significa:

TODOS OS VALORES ESTÃO CORRETOS.

Significa apenas que o sistema não detectou determinada classe de erro durante a execução.

A validação precisa considerar:

  • totais de controle;

  • quantidade de registros;

  • reconciliação financeira;

  • limites esperados;

  • tendências históricas;

  • duplicidades;

  • campos obrigatórios;

  • consistência entre sistemas.

Lição 4 — Comunicação faz parte da segurança

Esconder erros para proteger reputações costuma ampliar o impacto.

Em ambientes corporativos, comunicar cedo não é fraqueza.

É controle de dano.

Uma equipe madura não pergunta primeiro:

“Quem será culpado?”

Ela pergunta:

“Como interrompemos a propagação?”

Depois:

“Como preservamos evidências?”

E somente então:

“Como evitamos recorrência?”

Lição 5 — Toda organização possui seus “Chernobyls” linguísticos

Dentro de empresas existem palavras que concentram histórias inteiras.

Por exemplo:

  • “virada de 2008”;

  • “incidente do arquivo vazio”;

  • “sexta-feira do batch infinito”;

  • “projeto Fênix”;

  • “aquela PROC”;

  • “o programa do Arnaldo”;

  • “não mexe no módulo XPTO”.

Esses nomes são atalhos culturais.

O iniciante ouve e não entende.

O veterano empalidece.

O gerente cancela as férias.

O operador verifica o estoque de café.

Aprender um ambiente legado exige compreender não apenas a sintaxe dos programas, mas também essas narrativas internas.


CAPÍTULO XI — PROCEDIMENTO OPERACIONAL PARA IDENTIFICAR UM CHERNOBYL DIGITAL

Vamos criar um pequeno roteiro.

Passo 1 — Observe os sinais

O programa possui:

  • centenas de GO TO;

  • campos sem descrição;

  • alterações emergenciais acumuladas;

  • datas de dois dígitos;

  • variáveis chamadas WS-AUX1 até WS-AUX97;

  • comentários como “não retirar”;

  • chamadas para módulos que ninguém conhece;

  • arquivos intermediários sem layout atualizado?

Não entre em pânico.

Ainda.

Passo 2 — Não altere antes de entender

A primeira tentação do jovem programador é dizer:

“Vou refatorar tudo.”

Essa frase costuma ser pronunciada poucos minutos antes de a criatura escapar do laboratório.

Primeiro descubra:

  • quem chama o programa;

  • o que ele chama;

  • quais arquivos lê;

  • quais arquivos grava;

  • quais tabelas acessa;

  • quais códigos de retorno produz;

  • quais totais devem fechar;

  • quais exceções históricas existem.

Passo 3 — Crie uma linha de base

Execute o programa em ambiente controlado.

Registre:

  • entrada;

  • saída;

  • tempo;

  • uso de CPU;

  • quantidade de registros;

  • mensagens;

  • códigos de retorno;

  • totais financeiros.

Sem linha de base, você não sabe se melhorou o sistema ou apenas ensinou o monstro a usar sapatos.

Passo 4 — Faça mudanças pequenas

Altere uma coisa por vez.

Compile.

Teste.

Compare.

Documente.

Não mude simultaneamente:

  • regra de negócio;

  • acesso a arquivo;

  • tipo de variável;

  • algoritmo de cálculo;

  • estrutura de parágrafos;

  • processo de chamada.

Isso não é refatoração.

É uma cerimônia para invocar entidades.

Passo 5 — Prepare o retorno

Antes de implantar, saiba como voltar.

Tenha:

  • versão anterior;

  • plano de rollback;

  • cópia dos arquivos;

  • evidências dos testes;

  • responsáveis;

  • janela de acompanhamento;

  • critérios objetivos para abortar.

Toda criação de laboratório precisa de um interruptor de emergência.

E, preferencialmente, alguém que saiba onde ele fica.


CAPÍTULO XII — O EASTER EGG DO DOUTOR E DO PROGRAMADOR

Em certas histórias, um cientista tenta construir uma criatura perfeita juntando partes diferentes.

Um cérebro daqui.

Um braço dali.

Uma perna encontrada num depósito cuja documentação foi perdida durante uma tempestade.

O resultado ganha vida.

No mundo corporativo, chamamos isso de:

integração de sistemas.

O programa COBOL lê um arquivo criado em 1978.

Consulta uma tabela migrada em 1996.

Chama um módulo alterado em 2007.

Publica uma mensagem numa fila implantada em 2014.

Entrega dados a uma API criada em 2025.

E alguém olha para tudo aquilo e pergunta:

“Quem desenhou essa arquitetura?”

Ninguém desenhou.

Ela foi montada.

Ela cresceu.

Recebeu partes.

Sobreviveu a fusões, terceirizações, crises, mudanças de governo, planos econômicos e consultorias que prometeram substituí-la em dezoito meses.

Então, numa noite de tempestade, o operador executa o JCL.

Os relâmpagos atingem o data center.

As luzes piscam.

O spool começa a girar.

E o sistema declara:

IEF142I JOBCHERN STEP01 - STEP WAS EXECUTED - COND CODE 0000

O gerente ergue os braços:

“Está vivo!”

O programador COBOL, mais experiente, olha os totais e responde:

“Calma. Primeiro vamos reconciliar os valores.”

Esse é o verdadeiro herói.

Não aquele que comemora o CC 0000.

Mas aquele que pergunta se o resultado faz sentido.


CONCLUSÃO — A PALAVRA QUE SOBREVIVEU AO TEMPO

Chernobyl foi uma tragédia histórica real, complexa e profundamente humana.

Mas também se tornou um símbolo cultural.

No Brasil, esse símbolo foi absorvido pelo humor urbano e transformado em uma palavra capaz de classificar alimentos suspeitos, ambientes devastados, equipamentos improvisados e situações que saíram completamente do controle.

O “sanduíche Chernobyl” representa uma das formas mais brasileiras dessa transformação.

Ele reúne:

  • medo tecnológico;

  • memória televisiva;

  • exagero humorístico;

  • criatividade linguística;

  • escatologia;

  • cultura urbana;

  • desconfiança de comida armazenada em condições misteriosas.

A expressão demonstra que a linguagem não é um arquivo estático.

Ela é um sistema em produção.

Recebe eventos.

Cria associações.

Reaproveita nomes.

Altera significados.

Mantém compatibilidade com gerações anteriores.

E às vezes produz comportamentos que nenhum analista havia previsto na especificação original.

Para o programador COBOL iniciante, fica a lição:

Nunca examine apenas a palavra. Examine a história armazenada dentro dela.

Um campo pode parecer simples.

Um código pode parecer inocente.

Um nome pode parecer geográfico.

Um sanduíche pode parecer comestível.

Mas sistemas legados — linguísticos, culturais ou computacionais — sempre carregam mais informação do que aparece na tela.

Portanto, antes de executar, pergunte.

Antes de alterar, investigue.

Antes de comer, cheire.

E, caso alguém lhe ofereça um sanduíche conhecido como Chernobyl, confirme imediatamente três informações fundamentais:

       DISPLAY 'DATA DE FABRICACAO: '.
       DISPLAY 'ORIGEM DA MAIONESE: '.
       DISPLAY 'LOCALIZACAO DO BANHEIRO: '.

Porque a cultura brasileira pode transformar uma catástrofe nuclear em gíria.

O humor pode transformar medo em piada.

A linguagem pode transformar um nome próprio em adjetivo.

Mas nenhuma dessas maravilhas da criatividade humana garante que aquela maionese esteja boa.

Easter egg final: se, durante a leitura, o sanduíche sobre a CPU começou a se mover sozinho, não tente destruí-lo.

Ele pode ser o único funcionário que ainda conhece o programa de fechamento mensal.

Um Café no Bellacosa Mainframe

Onde até uma gíria urbana pode revelar que história, linguagem e sistemas legados possuem a mesma regra fundamental:

Nada desaparece completamente. Apenas muda de interface e continua executando em produção.


Vagner Renato Bellacosa, IBM Champion e especialista em IBM Mainframe
IBM Z17 SYSTEM ONLINE
Sobre o autor

Vagner Renato Bellacosa

IBM Champion 2026 • Especialista em IBM Mainframe

Vagner Renato Bellacosa trabalha com IBM Mainframe desde 1988 , é IBM Champion e especialista em COBOL, CICS, Db2, z/OS e IBM Z. Compartilha experiências profissionais, conhecimento técnico, história da computação e práticas do universo mainframe para aproximar novas gerações das tecnologias que sustentam empresas, bancos e governos ao redor do mundo.

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