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segunda-feira, 21 de outubro de 2024

A Lanterna de Diógenes, a Vaga de Medicina e o Hambúrguer Vegano de Boutique

 

Bellacosa Mainframe desconfiado com hamburguer veganos e as cotas com brechas legais

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A Lanterna de Diógenes, a Vaga de Medicina e o Hambúrguer Vegano de Boutique

Ou: quando o filósofo cínico entrou numa hamburgueria sem boi, olhou a embalagem, perguntou quem pagou o cursinho e descobriu que princípios também precisam de auditoria

Há conversas que começam com uma pessoa e terminam num espelho. A personagem desta história poderia ser uma jovem aplicada, inteligente, estudiosa, vegana convicta, defensora de inclusão racial, direitos LGBT+ e proteção dos animais. Poderia ser também um rapaz conservador, um executivo que fala de meritocracia, um sindicalista que condena privilégios alheios, ou o sujeito que faz discurso ecológico enquanto deixa a churrasqueira acesa a tarde inteira.

O caso particular importa menos que a pergunta que ele provoca: o que acontece quando nossos princípios encontram exatamente o privilégio que nos beneficia?

Para responder, vamos convidar Diógenes de Sinope. O filósofo grego é famoso por morar num tonel, provocar os poderosos e andar de dia com uma lanterna procurando, segundo a tradição, “um homem honesto”. Não é um modelo completo de vida — ele podia ser deliberadamente desagradável, e ninguém precisa abandonar o banho, a casa e a civilização para ter ética. Mas a lanterna dele continua útil: ela não pergunta qual causa está impressa na camiseta; ela ilumina aquilo que a pessoa não quer ver em si mesma.

E, se Diógenes aparecesse em 2024 numa conversa brasileira, provavelmente não começaria perguntando se você come carne. Perguntaria: “quem paga sua coerência?”


1. Princípio não é uniforme moral

Ter princípios é uma coisa admirável. Defender animais contra crueldade, combater racismo, rejeitar discriminação contra pessoas LGBT+, preocupar-se com o ambiente: tudo isso pode nascer de empatia real. O problema não é acreditar muito em algo. O problema começa quando a convicção vira salvo-conduto para deixar de examinar as próprias escolhas.

Existe uma diferença enorme entre dizer “eu não como animais porque isso fere minha consciência” e dizer “quem come é moralmente inferior e precisa ser convertido”. A primeira frase descreve uma decisão pessoal. A segunda inaugura uma hierarquia religiosa, mesmo quando a religião se apresenta como consciência política.

O termo carnismo, ou pejorativamente CARNISTA usado por parte do ativismo vegano para nomear a normalização cultural do consumo de carne, pode ter lugar numa discussão acadêmica. Em uma conversa de mesa, porém, ele frequentemente chega com a função prática de carimbar o interlocutor como réu. E quase ninguém aprende quando a conversa começa pela acusação. A reação comum é a reatância: quanto mais alguém tenta controlar sua escolha, mais você sente vontade de reafirmar sua liberdade — ainda que só de birra.

Daí a piada amarga: uma pessoa que queria diminuir o consumo de carne talvez consiga exatamente o contrário se usar o veganismo como megafone moral. Não porque a causa seja absurda, mas porque ninguém gosta de receber sermão durante o almoço.

Diógenes provavelmente beberia um gole de água, olharia para o pregador e perguntaria: “Você deseja aliviar sofrimento ou deseja vencer uma discussão?” São objetivos diferentes. O primeiro aceita diálogo, contradição e progresso imperfeito. O segundo precisa de pecadores para continuar existindo.

2. A vaga de cota e a diferença entre a lei e sua alma

Agora entra a universidade pública, especialmente medicina — a fila onde princípios abstratos passam a custar muito caro.

A Lei de Cotas reserva ao menos 50% das vagas das instituições federais para estudantes que fizeram integralmente o ensino médio em escola pública. Dentro dessa reserva, metade é destinada a famílias com renda de até um salário mínimo por pessoa. Há ainda recortes de pretos, pardos, indígenas, quilombolas e pessoas com deficiência conforme a composição populacional da unidade federativa. Desde a atualização de 2023, o candidato concorre primeiro na ampla concorrência; só se não entrar por ela é que passa às vagas reservadas.

Isso significa que a lei possui dois mecanismos ao mesmo tempo. Um deles é claramente econômico: pelo menos 25% do total de vagas é protegido para quem tem baixa renda per capita. O outro usa “ensino médio integral em escola pública” como sinal de desvantagem educacional — e esse sinal é útil na média, mas falha nos extremos.

Imagine duas candidatas à mesma vaga de medicina. A primeira sempre estudou em escola pública, trabalha ou ajuda em casa, teve acesso precário a computador, não fez cursinho caro e talvez tenha tentado o ENEM enquanto enfrentava transporte, renda curta e família sem formação universitária. A segunda é filha de pais com renda conjunta de cinquenta mil reais por mês. Estudou em colégio particular, fez inglês e cursinho de ponta; depois, por estratégia perfeitamente legal, passou todo o ensino médio numa escola pública, em paralelo estudou cursinho pré-vestibular e se tornou elegível à reserva sem critério de renda.

As duas cumpriram, em tese, o requisito escolar. Mas não carregaram a mesma vida até a prova.

Isso não autoriza chamar a segunda de fraudadora. Se a documentação é verdadeira, ela está dentro da lei. Pode ter estudado muito, falhado em tentativas anteriores, perseverado e finalmente alcançado uma nota alta. Mérito existe. Só que mérito nunca chega nu ao vestibular: ele chega de ônibus, com computador ou sem computador, depois de jornada de trabalho ou depois de cursinho, com pais que entendem o processo seletivo ou com pais que jamais tiveram contato com uma faculdade.

Há algo intelectualmente fraco em fingir que toda aprovação é só mérito individual; e há algo igualmente fraco em fingir que esforço não conta. A leitura adulta suporta as duas verdades. A jovem esforçou-se. E a estrutura familiar tornou possível que seu esforço fosse mais longo, mais protegido e melhor equipado.

O problema ético aparece quando alguém defensor da justiça distributiva trata essa vantagem como se ela não existisse. A lei pode permitir; a pergunta de Diógenes é se ela deveria querer usar a permissão. A regra tem letra. A política pública tem finalidade. Quando uma família muito rica planeja a rota escolar para entrar numa reserva concebida para compensar desigualdades, ela pode obedecer à letra e contrariar a finalidade.

3. A média nacional não é a fila de medicina

Aqui convém não cair em outro exagero. Não é correto imaginar que as federais inteiras foram sequestradas por jovens ricos fingindo ser pobres. A Pesquisa de Perfil Socioeconômico dos Graduandos das IFES, divulgada pela Andifes com dados de 2018, apontou que 70,2% dos alunos presenciais tinham renda familiar per capita de até um salário mínimo e meio; 60,4% haviam feito todo o ensino médio na rede pública; e 48,3% eram cotistas. É uma mudança social concreta no perfil das universidades federais.

Portanto, cotas não são uma farsa integral nem simples “lei para o meio”. Elas abriram a universidade para muitos jovens cuja família não teve universidade, renda estável ou capital cultural. Isso merece ser reconhecido sem asterisco maldoso.

Mas uma média de toda a universidade não responde à pergunta mais incômoda: como se distribuem renda, cursinho, tentativas de ENEM e origem escolar nas carreiras de altíssimo retorno? Medicina não é Letras. Odontologia em curso concorrido não é uma licenciatura que tem dificuldade até de completar a turma. Há cursos em que a vaga remanescente é um problema administrativo; há cursos em que um décimo na redação muda uma vida inteira.

Nas filas mais competitivas, a assimetria de preparação tende a pesar mais. Quem dispõe de dinheiro pode comprar anos adicionais de estudo, materiais, simulados, orientação, tranquilidade para não trabalhar e a possibilidade de errar uma, duas ou três vezes antes de acertar. Não é culpa individual possuir esses recursos. O ponto é não fingir que eles deixam de existir quando a pessoa preenche a modalidade “escola pública”.

Uma política mais precisa talvez mantivesse a reserva por escola pública, mas escalonaria renda e patrimônio de maneira mais fina; também poderia distinguir quem sempre dependeu da rede pública de quem entrou nela apenas como estratégia. Não para humilhar ninguém, mas para impedir que uma aproximação estatística se transforme num manual de planejamento para os já favorecidos.

4. O hambúrguer sem boi não vem sem mundo

Voltemos à mesa. A jovem vegana frequenta hamburguerias veganas caras, pizzarias veganas de boutique, casas japonesas veganas e compra produtos de marca, prontos, embalados, às vezes trazidos por longa cadeia de transporte. Isso invalida sua decisão de não consumir animais? Não. Um hambúrguer vegetal pode, sim, evitar a participação direta na criação e no abate de um boi. Se a prioridade moral dela é sofrimento animal, há coerência nessa escolha.

Mas isso não permite empacotar todas as virtudes numa mesma sacola de delivery.

“Vegano” responde principalmente à presença de ingredientes e exploração de origem animal. Não responde automaticamente a embalagem, refrigeração, consumo de energia, distância percorrida, precarização do entregador, ultraprocessamento, desperdício ou preço inacessível. Um produto pode ser vegano e ainda ser um pequeno monumento ao consumo premium contemporâneo.

Essa é a razão pela qual a expressão “vegana nutella” faz rir. Não porque cozinhar em casa seja requisito de pureza moral — nem todo mundo tem tempo, quintal ou vocação para virar agricultor. Ela aponta para outra coisa: a pessoa mantém intacto o modelo de consumo sofisticado, industrial, altamente embalado e identitário, mas passa a tratá-lo como superior em todos os eixos apenas porque retirou o animal da receita.

Diógenes não exigiria que todos plantassem grão-de-bico. Mas talvez perguntasse se a embalagem dourada, o delivery e o marketing de “consciência” são parte inevitável do princípio ou apenas o conforto que a pessoa não deseja sacrificar. A resposta honesta poderia ser: “Não consigo viver de modo ambientalmente perfeito; minha prioridade é o animal.” Pronto. É uma posição limitada, porém intelectualmente limpa.

O problema é reivindicar pureza total enquanto se recusa a auditar a própria pegada.

5. Carne, sangue e a bandeja que apaga o bicho

Também é fácil fazer moralidade abstrata com carne quando nunca se viu sua origem. Quem cresceu em casa onde se criava galinha ou porco e se abatia o animal para alimentação conhece uma verdade que a bandeja de supermercado tenta apagar: carne não nasce de isopor, plástico-filme e promoção de terça-feira.

Essa proximidade não torna o abate bonito nem obriga ninguém a aceitá-lo. Mas impede a fantasia higienizada. Uma pessoa pode comer carne e ainda defender criação decente, abate com menos sofrimento, fiscalização séria, menos desperdício e consumo menos automático. Pode também ser vegana e defender o fim de toda exploração animal. São posições opostas sobre o uso do animal, mas ambas podem ser éticas se encararem a realidade em vez de fingirem que ela não existe.

Há até uma correção curiosa: o líquido vermelho da carne não é “sangue” no sentido comum; o abate busca drenar o sangue. A cor vem sobretudo de água e mioglobina, proteína muscular. Mesmo assim, muita gente percebe que a carne moderna tem menos sabor, menos aroma e textura mais padronizada. Seleção por crescimento e rendimento, animais mais jovens e magros, dieta uniforme com milho e farelo de soja, embalagens a vácuo, congelamento e cortes com pouca gordura intramuscular ajudam a explicar a sensação. Gordura carrega sabor. A eficiência industrial frequentemente entrega previsibilidade, não memória afetiva.

E as palavras colaboram para esconder a origem. Dizemos “carne bovina”, “proteína animal”, “corte premium”, “blend”, “filé mignon”. Não são mentiras; são camadas de distância. No inglês, essa distância ficou gravada na história: o camponês anglo-saxão cuidava da cow, do pig e do sheep; a elite normanda comia beef, pork e mutton, palavras trazidas do francês. No português, não há divisão histórica tão profunda: boi e carne de boi, porco e carne de porco, coelho e coelho. “Bovino” e “suíno” vêm do latim e soam técnicos, não pertencem a outro povo conquistador. Nossa cortina é mais moderna: indústria, marketing e conforto psicológico.

6. O rato, a cidade e a ética que precisa escolher prioridades

Talvez o episódio mais instrutivo seja a briga com um comerciante que mata ratos no próprio estabelecimento. É fácil enxergar a compaixão: rato é animal, sente dor, não deveria sofrer gratuitamente. Mas uma ética que para aí não terminou o raciocínio. Há alimento, clientes, funcionários, doenças, contaminação e responsabilidade sanitária. A pergunta não é “ratos merecem tortura?” Claro que não. A pergunta é: quais métodos controlam a infestação com menor sofrimento e menor risco às pessoas?

É justamente aí que princípios saem do cartaz e entram no mundo. Uma posição madura não exige que o comerciante conviva com a praga em nome de uma pureza abstrata; exige prevenção, limpeza, barreiras, controle profissional e métodos proporcionais. Ética não é o prazer de apontar a crueldade de alguém. É carregar o peso das consequências quando todos os caminhos têm custo.

7. A auditoria que vale para todos — inclusive para nós

O erro mais fácil é transformar essa jovem numa vilã perfeita. Ela provavelmente não é, pelo contrario é uma das jovens mais adoraveis que conheci, uma pessoa impar pelo seu esforço, sagacidade e perseverança. Pode ter genuína compaixão por animais, ter estudado de verdade e acreditar sinceramente que fez o correto. Pessoas não são arquivos COBOL com um único IF determinando toda a personalidade. Somos sistemas legados: regras bonitas, remendos antigos, condições não documentadas e uma exceção escondida que só aparece em produção.

Mas a intenção boa não elimina a necessidade de revisão. E a revisão vale para todos nós.

Quem condena a jovem pela vaga de cota deve também perguntar que privilégios próprios trata como naturais. Quem ri do hambúrguer vegano de boutique deve examinar desperdício, origem da carne e escolhas de consumo. Quem defende a ampla concorrência precisa perguntar se sua definição de mérito inclui dinheiro comprado como “esforço”. Quem defende cotas precisa perguntar se a ferramenta está chegando primeiro a quem tem menos alternativas.

É a parte que Diógenes entendia melhor do que quase todo mundo: o cinismo útil não é achar que todos são falsos; é desconfiar do ponto preciso em que cada pessoa deixa de aplicar a própria regra.

Ele talvez não resolvesse a política de cotas, não acabasse com o abate animal nem oferecesse uma dieta ideal. Mas levantaria a lanterna e perguntaria, a cada lado da mesa: “Você defende isso mesmo quando perde algo?”

Se a resposta for sim, há princípio. Se a resposta for “sim, exceto quando a vaga é minha, o conforto é meu, o restaurante é meu e a conta é minha”, talvez haja menos ética do que identidade.

Epílogo — O tonel não tinha iFood

No final, ninguém precisa virar Diógenes, morar num tonel ou comer feijão plantado no quintal para ter uma vida minimamente coerente. A civilização é feita de compromissos, limitações e contradições. O objetivo não é pureza; pureza costuma ser uma arma ótima para acusar os outros e impossível de praticar até o fim.

O objetivo é honestidade proporcional.

Reconhecer que comer carne envolve um animal. Reconhecer que um produto vegano pode proteger animais e ainda gerar outros impactos. Reconhecer que cotas corrigem desigualdades reais, mas podem ter brechas exploráveis. Reconhecer que esforço pessoal existe, mas chega à linha de partida acompanhado por classe social, família, informação e dinheiro. Reconhecer que defender minorias não nos imuniza contra nossos próprios privilégios.

Uma ética que começa por vigiar o prato, a vaga ou a fala do vizinho pode virar polícia moral. Uma ética que inclui a própria biografia vira caráter.

E talvez seja essa a única lanterna que vale carregar: não a que procura o pecador na mesa ao lado, mas a que ilumina o próprio recibo.


Referências para aprofundamento

Vagner Renato Bellacosa, IBM Champion e especialista em IBM Mainframe
IBM Z17 SYSTEM ONLINE
Sobre o autor

Vagner Renato Bellacosa

IBM Champion 2026 • Especialista em IBM Mainframe

Vagner Renato Bellacosa trabalha com IBM Mainframe desde 1988 , é IBM Champion e especialista em COBOL, CICS, Db2, z/OS e IBM Z. Compartilha experiências profissionais, conhecimento técnico, história da computação e práticas do universo mainframe para aproximar novas gerações das tecnologias que sustentam empresas, bancos e governos ao redor do mundo.

IBM Champion IBM Z COBOL CICS Db2 z/OS Mainframe desde 1988
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