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sexta-feira, 19 de agosto de 2011

Sunk Cost Fallacy: Doctor Who, COBOL e o Dia em que Já Tínhamos Gastado Demais para Admitir que Era Hora de Parar

 

Bellacosa Mainframe e o sunk cost fallacy

☕ Um Café no Bellacosa Mainframe

Sunk Cost Fallacy: Doctor Who, COBOL e o Dia em que Já Tínhamos Gastado Demais para Admitir que Era Hora de Parar

Uma viagem pela TARDIS dos incidentes para entender por que tempo, dinheiro, esforço e orgulho já investidos podem nos prender a decisões que deixaram de fazer sentido

23:48.

Sexta-feira.

Sala de mudança.

Café número três.

Projeto iniciado há oito meses.

Orçamento inicial:

R$ 2.000.000

Gasto até agora:

R$ 4.700.000

Prazo original:

6 meses

Tempo transcorrido:

8 meses

Funcionalidades concluídas:

63%

Integração crítica:

ainda instável.

Testes:

atrasados.

Rollback:

complexo.

O gerente olha para a apresentação.

— Precisamos terminar.

Nosso jovem programador COBOL pergunta:

— Ainda vale a pena?

Silêncio.

O diretor responde:

— Depois de quase cinco milhões gastos?

O jovem insiste:

— Justamente.

Outro gerente entra na conversa:

— Não podemos jogar todo esse investimento fora.

O especialista complementa:

— Falta pouco.

Nosso programador olha para:

63%

Não parece exatamente “pouco”.

Mas ninguém quer falar sobre abandonar o projeto.

Porque abandonar significaria admitir que:

o dinheiro já gasto não volta;

os meses já utilizados não voltam;

as noites extras não voltam;

as decisões passadas talvez não fossem tão boas quanto pareciam.

Então surge a frase fatal:

“Agora precisamos continuar para recuperar o investimento.”

VWORP.

VWORP.

VWORP.

A TARDIS materializa-se atrás do projetor.

A porta abre.

O Doctor sai.

Olha para a planilha.

— Quanto dinheiro vocês já gastaram?

— Quase cinco milhões.

— E quanto desse dinheiro volta se vocês continuarem?

Silêncio.

— Nenhum.

— E quanto volta se vocês pararem?

— Nenhum.

O Doctor sorri.

— Excelente.

O diretor parece irritado.

— O que há de excelente nisso?

— Agora podemos finalmente parar de fingir que o dinheiro passado participa da próxima decisão.

Bem-vindo ao:


Sunk Cost Fallacy

Ou:

Falácia do Custo Afundado

A tendência de continuar investindo em uma decisão, projeto, sistema ou estratégia porque já investimos muito nela — mesmo quando os custos passados não podem mais ser recuperados e a melhor decisão daqui para frente seria parar, mudar ou recomeçar.


🌀 Nossa TARDIS dos incidentes já percorreu bastante terreno

Até aqui conhecemos:

Swiss Cheese Model — várias barreiras podem falhar juntas.

Normalization of Deviance — desvios viram rotina.

Hindsight Bias — depois do acidente tudo parece óbvio.

Confirmation Bias — procuramos evidências para aquilo em que já acreditamos.

Anchoring Bias — a primeira informação pesa demais.

Groupthink — grupos podem errar em conjunto.

Authority Gradient — hierarquia pode silenciar informação importante.

Plan Continuation Bias — continuamos um plano que já deveria ser revisto.

Alarm Fatigue — alertas demais viram ruído.

Automation Bias — confiamos demais na máquina.

Drift Into Failure — sistemas derivam lentamente para a borda.

Diffusion of Responsibility — todos veem e ninguém assume.

Normalcy Bias — esperamos que tudo volte ao normal.

Survivorship Bias — olhamos apenas para quem sobreviveu.

Base Rate Neglect — esquecemos as frequências reais.

Availability Heuristic — o que lembramos facilmente parece mais provável.

Outcome Bias — confundimos resultado com qualidade da decisão.

Overconfidence Bias — superestimamos o quanto sabemos.

Planning Fallacy — subestimamos tempo, esforço e complexidade.

Agora chegamos à armadilha seguinte:

depois de investir demais, passamos a usar o passado como argumento para continuar.


🧠 O que é um sunk cost?

Sunk cost significa:

custo afundado.

É algo que já foi gasto e não pode ser recuperado independentemente da decisão futura.

Pode ser:

dinheiro;

tempo;

horas de trabalho;

licenças;

infraestrutura;

treinamento;

consultoria;

energia;

reputação;

orgulho.

Exemplo:

você gastou R$ 1 milhão num projeto.

Esse milhão já foi gasto.

A pergunta racional agora não é:

“Como recuperamos o milhão?”

Mas:

“Dado o estado atual, vale a pena gastar o próximo real?”

Essa mudança de pergunta é gigantesca.


💰 O dinheiro passado não vota

Imagine:

JÁ GASTO: R$ 5 milhões
CUSTO PARA TERMINAR: R$ 4 milhões
VALOR ESPERADO DO SISTEMA: R$ 2 milhões

Alguém diz:

— Mas já gastamos cinco!

Isso não transforma os quatro milhões futuros em bom investimento.

O passado explica:

como chegamos aqui.

Ele não muda automaticamente:

a qualidade do próximo investimento.


☕ Bellacosa Mainframe: o projeto que não pode morrer

Todo profissional veterano já encontrou um projeto desses.

Projeto começou com:

“Estratégico.”

Depois virou:

“Prioridade da diretoria.”

Depois:

“Já investimos demais para cancelar.”

E finalmente:

“Agora precisamos terminar nem que seja só para provar que funciona.”

Nesse momento, talvez o projeto já não esteja sendo guiado por valor.

Está sendo guiado por passado.


🧠 Sunk Cost Fallacy versus Plan Continuation Bias

Eles são parentes próximos.

Mas há diferença.

Plan Continuation Bias

Continuamos o plano porque já estamos executando e existe inércia para seguir.

“Agora falta pouco.”

Sunk Cost Fallacy

Continuamos porque já investimos recursos irreversíveis.

“Já gastamos demais para parar.”

Frequentemente aparecem juntos.


▶️ A dupla perfeita

Planejamento:

6 meses.

Planning Fallacy:

subestimamos.

Depois de oito meses:

Plan Continuation Bias:

“Estamos quase lá.”

E:

Sunk Cost Fallacy:

“Já gastamos demais para desistir.”

Agora temos um projeto praticamente imortal.


👻 Easter Egg nº 1 — O corredor errado

Imagine Doctor Who.

Doctor e companion caminham por um corredor durante duas horas.

Companion:

— Doctor, acho que estamos indo para o lado errado.

Doctor:

— Talvez.

— Então voltamos?

— Não podemos.

— Por quê?

— Já caminhamos duas horas.

Companion olha.

— Isso parece uma péssima razão.

Exatamente.

O esforço passado não torna a direção correta.


🍿 O exemplo clássico do cinema

Você compra ingresso para um filme.

Depois de 30 minutos percebe:

é horrível.

Você pensa:

“Já paguei, vou assistir até o fim.”

Mas o dinheiro não volta se você ficar.

A decisão real é:

o que você prefere fazer com as próximas duas horas?

Ficar.

Ou sair.

O preço do ingresso já desapareceu.

Agora troque filme por projeto de TI.

Infelizmente, às vezes o ingresso custa R$ 20 milhões.


💻 COBOL e o programa impossível de salvar

Imagine um programa antigo.

18.000 linhas
900 IFs
120 GO TOs
35 copybooks

Projeto de modernização começa.

Após meses:

tentam adaptar.

Remendar.

Refatorar.

Mais remendos.

Já gastaram milhares de horas.

Um arquiteto diz:

— Talvez seja mais barato reescrever este módulo específico.

Resposta:

— Impossível. Já gastamos seis meses tentando corrigir esse.

Sunk Cost.

Os seis meses não diminuem o custo futuro do remendo.

Talvez justamente provem que a abordagem não funciona.


🧠 Esforço passado pode ser evidência — mas não obrigação

Essa nuance é importantíssima.

O passado pode ensinar.

Exemplo:

gastamos seis meses e descobrimos:

arquitetura muito complexa.

Isso é informação valiosa.

Mas não significa:

“portanto precisamos continuar.”

Pode significar:

“portanto precisamos parar.”

O custo passado é dado histórico.

Não justificativa automática.


🌀 Outcome Bias entra pela porta

Imagine projeto arriscado.

Depois de muito investimento, finalmente funciona.

Todos dizem:

“Viu? Valeu a pena continuar.”

Talvez.

Mas cuidado.

Os projetos que continuaram e falharam podem ter desaparecido.

Agora temos:

Outcome Bias;

Survivorship Bias;

Sunk Cost.

Uma bela família.


🧠 Survivorship Bias protege histórias de persistência

Adoramos histórias:

“Quase desistimos, mas persistimos e vencemos.”

São inspiradoras.

Mas onde estão:

“Persistimos por mais dois anos e perdemos mais R$ 50 milhões”?

Essas histórias recebem menos palestras.

Survivorship Bias faz persistência parecer mais inteligente do que talvez seja.


🎰 “Nunca desista” pode ser péssimo conselho

Existem momentos para persistir.

Existem momentos para parar.

A regra madura não é:

“Nunca desista.”

É:

“Continue enquanto o valor futuro justificar o custo futuro.”

Muito menos épico.

Muito mais útil.


🧠 Escalation of Commitment

Sunk Cost Fallacy costuma aparecer junto de algo chamado:

Escalation of Commitment

A tendência de aumentar investimento numa decisão anterior, especialmente quando surgem sinais de que ela talvez esteja errada.

Exemplo:

projeto atrasado.

Solução:

mais dinheiro.

Continua atrasado.

Mais equipe.

Mais consultoria.

Mais prazo.

Agora parar fica ainda mais doloroso.

O investimento adicional aumenta o sunk cost.

E o sunk cost aumenta pressão para investir ainda mais.

Círculo.


🔄 Espiral do compromisso

INVESTIMOS
↓
PROBLEMA
↓
INVESTIMOS MAIS
↓
SUNK COST AUMENTA
↓
FICA MAIS DIFÍCIL PARAR
↓
INVESTIMOS MAIS

Um projeto pode continuar não porque melhora.

Mas porque abandonar ficou emocionalmente insuportável.


☕ O ego entra no orçamento

Às vezes o custo afundado não é dinheiro.

É:

reputação.

Diretor patrocinou projeto.

Cancelar pode parecer:

admitir erro.

Então projeto continua.

Nesse caso:

o próximo milhão pode estar protegendo uma decisão passada.

Não criando valor futuro.


🧠 Identity Investment

Quanto mais uma pessoa associa sua identidade a uma decisão:

“meu projeto”;

“minha arquitetura”;

“minha estratégia”;

mais difícil abandoná-la.

Agora crítica ao projeto pode parecer crítica à pessoa.

Isso aumenta escalada de compromisso.


🪜 Authority Gradient

Se o projeto pertence ao diretor:

quem diz:

“precisamos cancelar”?

O júnior?

O fornecedor?

O gerente que foi promovido pelo projeto?

Authority Gradient torna sunk cost organizacional ainda mais perigoso.


👥 Groupthink

Diretor quer continuar.

Gerentes concordam.

Ninguém quer ser a voz:

“Talvez devêssemos encerrar.”

Agora consenso social reforça investimento.

Groupthink transforma sunk cost em estratégia coletiva.


🔎 Confirmation Bias

Depois de investir milhões:

equipe começa a procurar evidências de que projeto ainda vai dar certo.

Qualquer pequena vitória:

“Viu? Estamos avançando.”

Problemas:

“normais.”

Críticas:

“pessimismo.”

Confirmation Bias protege o investimento emocional.


⚓ Anchoring Bias

Estimativa inicial:

R$ 2 milhões.

Mesmo quando custo vira R$ 8 milhões, pessoas continuam pensando:

“projeto de dois milhões que atrasou.”

Não.

Agora é outro projeto econômico.

A âncora original ficou obsoleta.


🧠 Planning Fallacy volta

Projeto foi estimado em seis meses.

Depois de seis:

faltam dois.

Depois de oito:

faltam dois.

Depois de dez:

faltam dois.

A famosa:

síndrome dos 90% concluídos.

Projeto permanece 90% pronto por dois anos.


😄 Easter Egg nº 2 — “90% complete”

Existe uma velha piada em software:

Os primeiros 90% do código consomem 90% do tempo.

Os últimos 10% consomem os outros 90%.

Planning Fallacy encontra matemática corporativa alternativa.


🚨 O “quase pronto” é combustível do sunk cost

Se projeto está:

90% completo,

parar parece absurdo.

Mas talvez os últimos 10% contenham:

integração;

performance;

segurança;

migração;

dados;

produção.

Ou seja:

o trabalho mais difícil.

Percentual de conclusão pode ser ilusão.


📊 Percent Complete é perigoso

Pergunte:

90% de quê?

Linhas de código?

Funcionalidades?

Valor?

Risco?

Você pode ter:

CODING: 95%
TESTING: 20%
MIGRATION: 0%
PRODUCTION READINESS: 10%

“90% pronto” vira frase de PowerPoint.


💾 Mainframe: migração parcialmente concluída

Imagine migração de 100 aplicações.

80 migradas.

20 restantes são:

as mais complexas;

mais críticas;

mais acopladas.

Alguém diz:

— Já migramos 80%, não podemos parar.

Mas talvez os últimos 20% custem mais que os primeiros 80.

Quantidade não representa esforço futuro.


🧠 Cost-to-Go

Essa é uma ideia central.

Em vez de olhar:

Cost Spent

olhe:

Cost-to-Go

Quanto falta gastar daqui para frente?

E:

Value-to-Go

Quanto valor ainda podemos obter?

A decisão deve olhar para o futuro.


📊 Uma conta simples

Projeto A:

GASTO:
R$ 10 milhões

FALTA:
R$ 5 milhões

VALOR FUTURO:
R$ 20 milhões

Continuar pode fazer sentido.

Projeto B:

GASTO:
R$ 10 milhões

FALTA:
R$ 8 milhões

VALOR FUTURO:
R$ 3 milhões

O fato de ambos terem gasto R$ 10 milhões não significa mesma decisão.

O sunk cost é igual.

O futuro não.


🧠 Expected Future Value

Pergunta madura:

“Qual o benefício esperado daqui para frente?”

Não:

“Quanto já gastamos?”

Claro que custo histórico importa para aprendizado e governança.

Mas não deveria dominar a decisão marginal.


🎯 Pergunta Bellacosa nº 1

Quando alguém disser:

“Já investimos muito para parar.”

Pergunte:

“Se ainda não tivéssemos investido nada, começaríamos este projeto hoje nas condições atuais?”

Essa é brutalmente eficiente.

Se resposta for não:

sunk cost provavelmente está presente.


🎯 Pergunta Bellacosa nº 2

Outra:

“Qual é o custo daqui para frente?”


🎯 Pergunta Bellacosa nº 3

Outra:

“Qual valor futuro justifica esse custo?”


🎯 Pergunta Bellacosa nº 4

E:

“Estamos tentando criar valor ou justificar decisões antigas?”

Essa pergunta pode deixar a sala silenciosa.

Às vezes silêncio é útil.


🛑 Stop-loss

Finanças conhecem um conceito útil:

stop-loss.

Definir antecipadamente um ponto de saída.

Em projeto:

SE custo > X
SE prazo > Y
SE hipótese de valor falhar
SE condição crítica não for atendida

→ REAVALIAR

Não necessariamente cancelar automaticamente.

Mas parar e decidir novamente.


🧠 Kill Criteria

Podemos chamar:

Kill Criteria

Antes de começar:

“Em quais condições encerraremos?”

Isso é poderoso.

Porque depois de investir:

ficamos emocionalmente comprometidos.

Definir antes reduz viés.


☕ Bellacosa Mainframe: critérios antes do café virar intravenoso

Projeto começa.

Defina:

STOP / REASSESS IF:

- custo exceder 150%
- performance target falhar
- integração crítica inviável
- benefício econômico cair abaixo de X
- prazo ultrapassar Y

Agora você possui saída digna.


🧠 Precommitment

Outra vez.

Decisões prévias protegem nosso eu futuro.

Antes:

somos relativamente neutros.

Depois de milhões gastos:

não.

Precommitment cria estrutura.


🚦 Stage Gates

Projetos grandes podem ter pontos formais:

DISCOVERY
↓
GATE

PROTOTYPE
↓
GATE

BUILD
↓
GATE

MIGRATION
↓
GATE

Em cada gate:

ainda vale continuar?

Não:

já começamos, então prossiga.


🧠 Business Case não é documento fossilizado

Projeto aprovado em 2024.

Em 2026:

mercado mudou.

Tecnologia mudou.

Custos mudaram.

Business case precisa ser atualizado.

Não diga:

“Foi aprovado.”

Pergunte:

“Ainda é válido?”


📈 Opportunity Cost

Outro conceito central.

Continuar num projeto ruim não custa apenas dinheiro nele.

Custa:

o que você deixa de fazer com os mesmos recursos.

Equipe presa seis meses aqui.

Não trabalha em projeto melhor.

Esse é custo de oportunidade.


☕ O recurso mais caro pode ser o tempo

R$ 1 milhão pode voltar em receita futura.

Seis meses perdidos:

não voltam.

Especialmente em tecnologia.

Enquanto você insiste:

concorrente avança;

sistema envelhece;

equipe cansa.

Opportunity cost precisa entrar.


🪫 Burnout como sunk cost escondido

Projeto atrasado.

Equipe trabalhando noites.

Direção pensa:

já investimos muito esforço.

Então exige mais.

Agora sunk cost financeiro começa a consumir pessoas.

Muito perigoso.

Não use sacrifício anterior como justificativa para sacrifício futuro.


🧠 “Depois de tudo que fizemos...”

Essa frase é emocionalmente poderosa.

“Depois de todo esforço da equipe, não podemos cancelar.”

Talvez cancelar seja justamente respeitar o esforço e impedir desperdício adicional.

O trabalho passado continua tendo valor de aprendizado.

Mesmo se projeto acabar.


🧬 Knowledge is not wasted

Cancelar projeto não significa que tudo foi desperdiçado.

Você pode preservar:

código;

pesquisa;

POCs;

documentação;

aprendizado;

componentes reutilizáveis.

Sunk cost pode virar conhecimento.

Mas não precisa virar prisão.


👨‍💻 COBOL iniciante: jogar código fora dói

Você passa dois dias numa solução.

Descobre abordagem melhor.

Mas pensa:

“Não vou jogar fora dois dias.”

Então gasta outros cinco tentando salvar.

Todos nós fazemos isso.

A pergunta:

“Se eu visse essas duas soluções agora, sem saber qual escrevi, qual escolheria?”

Essa técnica remove ego e sunk cost.


🔀 Branch mental

Imagine:

Solução A:

já tem 2 dias investidos.

Precisa de mais 5.

Solução B:

zero investido.

Precisa de 2.

Escolha racional:

B.

Mas cérebro diz:

A.

Porque quer recuperar os dois dias.

Não consegue.

Eles já foram gastos.


🐛 Debugging e sunk cost

Você investiga hipótese Db2 por duas horas.

Nenhuma evidência.

Mas pensa:

“Agora vou até o fim.”

Porque abandonar parece admitir que perdeu duas horas.

Resultado:

mais três horas.

Melhor:

timebox.


⏱️ Hypothesis Timebox

Exemplo:

HIPÓTESE:
DB2

TIMEBOX:
20 MIN

SE EVIDÊNCIA FOR FRACA:
ROTACIONAR

Isso combate sunk cost durante incidentes.


🧠 Investigation Sunk Cost

Quanto mais tempo investigamos uma hipótese:

mais difícil abandoná-la.

Isso é uma forma pequena e muito prática de Sunk Cost Fallacy.

War Rooms sofrem disso diariamente.


⚓ Anchoring + Sunk Cost

Primeira hipótese:

rede.

Investe uma hora.

Agora existe:

âncora;

mais custo investido.

Muito mais difícil mudar para MQ.

Por isso checkpoints de hipótese são valiosos.


🔎 Confirmation Bias fica mais forte com investimento

Depois de horas:

qualquer sinal de rede parece:

“Finalmente!”

Mesmo que fraco.

Porque queremos justificar tempo gasto.

Isso é comportamento humano.

Não incompetência.

Processos devem compensar.


🧠 Escalation of Commitment em incidentes

Restart não funcionou.

Tenta novamente.

Depois terceira vez.

— Agora vai.

Por quê?

Porque já investimos.

Talvez devêssemos mudar abordagem.


😄 A definição Bellacosa do insanity loop

RESTART
↓
NÃO FUNCIONOU
↓
RESTART DE NOVO
↓
NÃO FUNCIONOU
↓
“VAMOS TENTAR MAIS UMA VEZ”

Talvez não seja troubleshooting.

Talvez seja religião.


🤖 IA e Sunk Cost Fallacy

Você investe meses numa solução de IA.

Modelo não entrega valor.

Mas empresa continua:

“Já gastamos muito.”

Tecnologia nova torna isso ainda mais comum porque existe hype, reputação e expectativa.

Pergunta permanece:

começaríamos hoje?


🧠 Vendor Lock-in psicológico

Não apenas lock-in técnico.

Empresa investiu:

licenças;

treinamento;

integrações.

Agora trocar fornecedor parece admitir desperdício.

Talvez manter seja correto.

Mas sunk cost não pode ser único argumento.

Avalie TCO futuro.


☁️ Cloud migration

Projeto de migração começa.

Descobre que algumas cargas são mais baratas on-premises.

Mas estratégia era:

“Tudo para cloud.”

Já investimos muito.

Então movemos mesmo assim.

Isso pode ser sunk cost + commitment to narrative.

Tecnologia deveria servir objetivo.

Não slogan.


🧠 Mainframe também

O contrário também pode acontecer.

“Já investimos décadas no mainframe, então tudo deve permanecer nele.”

Também é sunk cost.

A pergunta correta:

qual workload faz mais sentido onde?

Nem cloud por fé.

Nem mainframe por nostalgia.

Arquitetura é decisão presente.


☕ Isso é muito Bellacosa

Mainframe não precisa ser defendido com:

“já temos.”

Pode ser defendido quando:

performance;

custo;

segurança;

disponibilidade;

proximidade dos dados;

economia

fazem sentido.

Se não fizerem:

questione.

A melhor defesa de uma tecnologia é valor atual.

Não custo histórico.


🧠 Technology Tribalism

Sunk Cost pode virar identidade tecnológica:

“Somos Java.”

“Somos mainframe.”

“Somos cloud-first.”

“Somos SAP.”

Isso pode impedir decisões melhores.

Arquitetura madura pergunta:

qual ferramenta resolve este problema?


📊 TCO e sunk cost

Total Cost of Ownership futuro deve incluir:

operação;

licenças;

staff;

migração;

risco;

manutenção.

Custo passado:

registro financeiro.

Custo futuro:

decisão.

Não misture.


🚨 Segurança e sunk cost

Controle antigo custou milhões.

Nova arquitetura torna-o obsoleto.

Organização mantém porque:

foi caro.

Isso não o torna eficaz.

Security theater pode sobreviver décadas graças a sunk costs institucionais.


📋 Governance

Board precisa perguntar:

“Estamos mantendo isso porque funciona ou porque custou caro?”

Excelente pergunta.


🧠 Normalcy Bias

Projeto sempre recebe mais um trimestre.

Normalcy Bias:

vai melhorar.

Sunk Cost:

já gastamos demais.

Plan Continuation:

falta pouco.

Trio perigoso.


🌀 Drift Into Failure

Projeto ruim consome:

dinheiro;

pessoas;

atenção.

Outros sistemas recebem menos manutenção.

Agora insistência local cria risco global.

Sunk Cost pode alimentar Drift Into Failure em outras áreas.


👥 Diffusion of Responsibility

Projeto continua porque ninguém possui autoridade clara para cancelar.

Todo mundo acha:

decisão é do steering committee.

Steering acha:

sponsors querem.

Sponsors:

equipe técnica recomenda.

Ninguém encerra.

Responsabilidade diluída mantém sunk cost vivo.


🎯 Pergunta Bellacosa nº 5

“Quem possui autoridade real para dizer STOP?”

Se resposta não estiver clara:

temos outro risco.


🧠 Face-saving

Cancelar decisão pública pode gerar constrangimento.

Então líderes podem preferir gastar mais a admitir erro.

Isso é chamado em vários contextos de proteção de face.

Cultura madura precisa tornar mudança de rumo aceitável.


🛡️ Cancelar bem é competência

Uma organização deve celebrar:

projeto encerrado cedo após hipótese invalidada.

Isso economiza dinheiro.

Não é fracasso.

É:

detecção antecipada.


🧪 Fail Fast — com significado real

“Fail fast” virou clichê.

Mas aqui faz sentido:

descobrir cedo que hipótese não funciona.

Não:

produzir software ruim rapidamente.

A meta:

baratear aprendizado.


📈 Real Options

Você pode estruturar projetos para investir progressivamente.

Primeiro:

pequena aposta.

Depois:

evidência.

Depois:

mais investimento.

Isso reduz risco de grandes sunk costs antes de descobrir inviabilidade.


🔬 POC antes da fábrica

Antes de gastar R$ 20 milhões:

POC de R$ 100 mil.

Descobre limitação.

Excelente.

Alguns chamam:

“POC fracassou.”

Não.

POC cumpriu missão.

Descobriu cedo.


☕ A melhor falha custa barato

Uma das melhores frases para esta série:

Falhe enquanto o erro ainda cabe numa reunião pequena.

Não quando precisa de conselho, jurídico e imprensa.


🧠 Reversible versus Irreversible Decisions

Decisões reversíveis:

experimente.

Irreversíveis:

mais rigor.

Quanto mais caro for voltar:

mais importante evitar sunk cost psicológico futuro.


🔄 Exit Strategy

Antes de começar:

qual saída?

Projeto.

Contrato.

Tecnologia.

Migração.

Se não existe saída:

risco aumenta.


📋 Checklist anti-Sunk Cost

[ ] Quanto já gastamos?

[ ] Quanto desse gasto é recuperável?

[ ] Quanto ainda precisamos gastar?

[ ] Qual valor futuro esperamos?

[ ] Se começássemos hoje, faríamos igual?

[ ] Existem alternativas melhores agora?

[ ] Estamos continuando para criar valor ou justificar o passado?

[ ] Qual é o custo de oportunidade?

[ ] Qual é nosso kill criterion?

[ ] Quem pode interromper?

[ ] O business case ainda é válido?

[ ] A equipe está sendo usada como buffer?

[ ] Estamos confundindo persistência com competência?

[ ] Que conhecimento podemos preservar se pararmos?

🧪 Passo a passo para combater Sunk Cost Fallacy

Passo 1 — Separe passado e futuro

Colunas diferentes.


Passo 2 — Calcule cost-to-go

Quanto ainda falta?


Passo 3 — Recalcule value-to-go

Quanto valor ainda existe?


Passo 4 — Ignore temporariamente o gasto histórico

Pergunte:

começaríamos hoje?


Passo 5 — Liste alternativas

Talvez exista solução melhor agora.


Passo 6 — Considere custo de oportunidade

O que deixamos de fazer?


Passo 7 — Use stage gates

Reavalie formalmente.


Passo 8 — Crie kill criteria

Antes do apego emocional.


Passo 9 — Permita cancelamento sem caça às bruxas

Senão ninguém encerra nada.


Passo 10 — Preserve aprendizado

Parar não precisa apagar conhecimento.


📊 Decision Board

Uma tela simples:

PAST SPEND:
R$ 5M

COST TO GO:
R$ 4M

EXPECTED VALUE:
R$ 2.5M

ALTERNATIVE COST:
R$ 1.5M

ALTERNATIVE VALUE:
R$ 5M

Agora a decisão fica mais clara.

Não agradável.

Mas clara.


🧠 Uma decisão pode ter sido boa no passado e ruim agora

Importantíssimo.

Talvez iniciar projeto tivesse sido racional.

Circunstâncias mudaram.

Hoje parar pode ser racional.

Isso não significa:

decisão inicial foi estúpida.

Essa distinção reduz ego.


🌀 Hindsight Bias

Depois de cancelar:

“Nunca deveríamos ter começado.”

Talvez não.

Cuidado.

Com dados disponíveis na época, talvez fosse boa aposta.

O mundo mudou.

Ou descobrimos coisas.

Decisões têm tempo.


🧠 Dynamic Decision Quality

Uma decisão pode ser:

boa em janeiro;

ruim em agosto.

Reavaliar não é contradição.

É adaptação.


💻 COBOL: solução temporária virou projeto

Você cria workaround.

Funciona.

Investe tempo.

Depois arquitetura muda.

Agora workaround não faz mais sentido.

Mas:

“já investimos tanto nesse framework.”

Talvez esteja na hora de deletar.

Deletar código também é engenharia.


🗑️ Código removido não é trabalho perdido

Se uma rotina foi útil por cinco anos e depois apagada:

cumpriu sua função.

Software não precisa viver eternamente para justificar seu custo.


👻 Easter Egg nº 3 — Time Lords e apego

Companion:

— Doctor, você vai destruir essa máquina depois de passar três episódios construindo-a?

Doctor:

— Sim.

— Mas você trabalhou tanto!

— E?

— Não dói?

— Muito.

Pausa.

— Ainda assim ela continua sendo uma péssima ideia.

Isso é maturidade.


🧠 Em incidentes: quando parar uma investigação

War Room.

Hipótese:

network.

Tempo:

90 minutos.

Evidência:

nenhuma.

Não diga:

“já investimos 90 minutos.”

Diga:

“temos evidência suficiente para continuar?”

Se não:

rotacione.


📍 Hypothesis Board

NETWORK
TIME SPENT: 20m
CONFIDENCE: 40%

After 20m:
EVIDENCE: weak
CONFIDENCE: 15%

ACTION:
DEPRIORITIZE

A confiança deve cair com evidência fraca.

Não subir porque gastamos tempo.


🧠 Learning Value

Às vezes continuar investigação ainda faz sentido não porque hipótese principal seja provável, mas porque informação obtida tem valor.

Ótimo.

Declare isso.

“Vamos gastar mais 20 min porque o teste elimina três hipóteses.”

Agora existe valor futuro.

Não sunk cost.


💸 Orçamento anual e “use it or lose it”

Outro comportamento curioso.

Área recebeu orçamento.

Final do ano sobra.

Gasta porque:

senão perdemos ano que vem.

Não é exatamente sunk cost clássico, mas mostra como estruturas de incentivo podem criar gastos desconectados de valor.

Economia comportamental mora em toda organização.


🧠 Incentivos criam vieses sistemáticos

Se cancelar projeto prejudica carreira:

ninguém cancela.

Se terminar projeto ruim dá bônus:

todos terminam.

Viés individual vira comportamento institucional.


🏛️ Governance saudável

Board deveria premiar:

decisões de parar bem fundamentadas;

aprendizado;

reallocação de capital.

Não apenas:

quantos projetos chegaram ao fim.

Porque conclusão não é sinônimo de valor.


📓 Diário do Doctor

Se guardar apenas algumas ideias desta viagem, guarde estas:

Sunk Cost Fallacy é a tendência de continuar porque já investimos recursos irrecuperáveis.

Custos passados não devem dominar decisões futuras.

A pergunta correta é: vale investir o próximo recurso?

Sunk Cost frequentemente alimenta Escalation of Commitment.

Planning Fallacy cria atrasos; Sunk Cost dificulta abandonar o plano.

Plan Continuation Bias aparece quando o plano já está em execução.

Survivorship Bias torna histórias de persistência bem-sucedida mais visíveis que os fracassos.

Outcome Bias pode transformar persistência sortuda em “boa estratégia”.

Cost-to-go e value-to-go são mais úteis para decisão futura que gasto histórico.

Kill criteria e stage gates ajudam.

Cancelar cedo pode ser competência.

E principalmente:

O dinheiro, o tempo e o café de ontem já foram consumidos. A única coisa que ainda podemos decidir é o que fazer com o próximo real, a próxima hora e a próxima xícara.


🕰️ De volta à reunião

Projeto:

GASTO:
R$ 4.7M

FALTA:
estimativa R$ 3.2M

VALOR ATUAL ESPERADO:
R$ 1.8M

O diretor repete:

— Já gastamos quase cinco milhões.

Nosso programador responde:

— Eu sei.

— Então precisamos terminar.

— Por quê?

— Para não perder o investimento.

O Doctor pergunta:

— O investimento volta?

— Não.

— Então já foi perdido como caixa.

Silêncio.

O programador abre outra opção:

OPÇÃO B

REAPROVEITAR:
componentes existentes

CUSTO:
R$ 1.1M

VALOR:
R$ 4M

O diretor olha.

— Então você quer cancelar?

— Quero decidir entre A e B olhando para amanhã.

Não para ontem.

A reunião fica longa.

Desconfortável.

Finalmente:

projeto A encerrado.

Parte do código reaproveitada.

Equipe realocada.

Novo plano.

Ninguém comemora muito.

Cancelar não tem a adrenalina de um go-live.

Seis meses depois:

a solução alternativa entra em produção.

Custo total menor que o restante previsto do projeto original.

O diretor encontra o programador.

— Ainda dói pensar nos cinco milhões.

Ele responde:

— Claro.

— Então não foram desperdiçados?

Nosso jovem pensa.

— Parte talvez tenha sido.

Pausa.

— Mas gastar mais só para evitar admitir isso teria desperdiçado ainda mais.

O Doctor sorri.

— Finalmente.

VWORP.

VWORP.

VWORP.


🥚 Easter Egg final

Na manhã seguinte surge:

BELLACOSA.BIAS(SUNKCOST)

Dentro:

       IF MONEY-SPENT > ZERO
           CONTINUE
       END-IF.

       IF FUTURE-VALUE < FUTURE-COST
           PERFORM REASSESS
       END-IF.

       IF ONLY-REASON-TO-CONTINUE =
          'WE-SPENT-TOO-MUCH'
           PERFORM STOP-AND-THINK
       END-IF.

O programador encara o primeiro IF.

Sorri.

— Esse CONTINUE está perfeito.

Outro comentário:

* YESTERDAY'S MONEY
* CANNOT PAY TOMORROW'S VALUE.

Outro:

* PERSISTENCE IS NOT A BUSINESS CASE.

E naturalmente:

* BAD WOLF ALREADY PAID.

Nosso jovem fecha o membro.

Pouco depois recebe mensagem:

“Estamos investigando rede há duas horas. Queremos tentar mais um teste.”

Ele pergunta:

— Que nova evidência justifica?

Resposta:

— Nenhuma, mas já investimos bastante.

Nosso programador olha para a tela.

Sorri.

— Então o tempo investido está tentando tomar a próxima decisão.

— Como assim?

— Vamos voltar aos dados.

A hipótese de rede é abandonada.

Dez minutos depois encontram o problema numa aplicação downstream.

Nenhuma magia.

Nenhum heroísmo.

Apenas uma decisão pequena:

parar de pedir ao passado permissão para mudar de ideia.

VWORP.

VWORP.

VWORP.

A TARDIS desaparece.

No quadro da War Room permanece:

Não continue para justificar aquilo que já gastou. Continue apenas se aquilo que ainda pode ganhar justificar aquilo que ainda terá de gastar.

☕🌀

Next stop: Status Quo Bias — quando mudar parece tão arriscado que continuamos usando um processo ruim principalmente porque ele já está lá, funciona “mais ou menos” e ninguém quer ser a pessoa que mexeu nele.

Vagner Renato Bellacosa, IBM Champion e especialista em IBM Mainframe
IBM Z17 SYSTEM ONLINE
Sobre o autor

Vagner Renato Bellacosa

IBM Champion 2026 • Especialista em IBM Mainframe

Vagner Renato Bellacosa trabalha com IBM Mainframe desde 1988 , é IBM Champion e especialista em COBOL, CICS, Db2, z/OS e IBM Z. Compartilha experiências profissionais, conhecimento técnico, história da computação e práticas do universo mainframe para aproximar novas gerações das tecnologias que sustentam empresas, bancos e governos ao redor do mundo.

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