A História da Censura: do Shogunato aos Streamings
A censura não nasceu com a internet nem com o anime. Ela é tão antiga quanto o próprio medo do pensamento livre. Mas o Japão e o Ocidente trilharam caminhos bem diferentes até chegar na mesma conclusão: o poder de uma ideia é o que mais assusta quem tem poder.
🏯 Japão Feudal – o início do controle simbólico
Durante o período Tokugawa (1603–1868), o Japão vivia sob um regime militar e profundamente hierarquizado.
A arte, o teatro kabuki e até os livros eram rigidamente supervisionados.
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Obras que retratassem sensualidade, crítica social ou zombassem de samurais eram proibidas.
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Havia censura até para certos penteados e roupas que indicavam rebeldia.
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Curiosidade: o governo chegou a proibir ilustrações de beijos, pois eram “indecorosas” — algo que influenciou o modo como o romance é mostrado nos animes até hoje.
Essa forma de censura moldou uma estética japonesa discreta e simbólica: insinuar virou arte.
A sensualidade e a crítica passaram a se esconder em metáforas e gestos sutis.
📜 Era Meiji e Segunda Guerra – o nacionalismo molda o discurso
Com a modernização do Japão no fim do século XIX, veio a censura ideológica.
Durante o período imperial e a Segunda Guerra Mundial, tudo que não servia ao orgulho nacional era suprimido.
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Filmes, livros e até canções tinham que reforçar o espírito japonês.
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O anime Momotaro: Umi no Shinpei (1945) foi o primeiro longa de animação japonês — e também uma obra de propaganda militar.
Curiosidade Bellacosa:
Os animadores que fariam Astro Boy anos depois aprenderam sua arte… criando desenhos para o exército.
💥 Pós-Guerra – o renascimento sob censura americana
Após a derrota, o Japão foi ocupado pelos EUA (1945–1952).
Agora, a censura mudou de dono.
Os americanos proibiram referências militaristas, nacionalistas ou antiocidentais — mas, curiosamente, permitiram erotismo e comédia, contanto que não houvesse crítica política.
Foi o nascimento da cultura manga-anime moderna.
Os artistas aprenderam a usar humor, ficção científica e fantasia como escudo para falar de coisas sérias.
👉 Astro Boy, Akira e Evangelion são filhos diretos dessa herança: críticas sociais disfarçadas de ficção.
🌍 Ocidente – censura moral e midiática
Enquanto isso, na Europa e nos EUA, a censura seguiu outro caminho: o moralismo.
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Nos anos 1930, o Código Hays de Hollywood impedia beijos longos, saias curtas e qualquer referência sexual.
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Nos anos 1950, os Comics Code Authority proibiram sangue, terror e política nos quadrinhos.
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E na TV dos anos 80–90, desenhos precisavam ser “educativos” e “seguros” para as crianças.
Quando o anime chegou ao Ocidente, ele bateu de frente com essa barreira moral.
O choque cultural foi inevitável.
🎥 Era dos Streamings – liberdade com vigilância
Hoje, a censura mudou de forma.
Ninguém mais queima livros ou corta fitas — agora, os algoritmos escolhem o que você vê.
Plataformas decidem o que é “adequado” para sua região, faixa etária ou “sensibilidade”.
E o curioso é que, muitas vezes, a censura vem disfarçada de preocupação social ou correção política.
Ou seja:
“Não estamos censurando — estamos te protegendo.”
Soa familiar, não?
A velha lógica paternalista, apenas com filtros digitais.
☕ Comentário Bellacosa
O Japão aprendeu a falar o indizível com poesia.
O Ocidente aprendeu a vender o proibido com moralidade.
E o público moderno vive entre esses dois extremos — o da expressão simbólica e o do controle invisível.
Censura, no fundo, é uma batalha entre quem confia na maturidade humana e quem acredita que somos frágeis demais para pensar sozinhos.
💡 Dica Bellacosa Final:
Assista seus animes na versão original, leia as notas de tradução e pesquise o contexto histórico.
Entender o que foi cortado — e por quê — é um ato de liberdade intelectual.





