| Bellacosa Mainframe e os titas do processamento de dados |
☕ Um Café no Bellacosa Mainframe
Os Titãs do Processamento
Quando um Programador COBOL Descobre que Antes da IBM Existia uma Guerra de Gigantes — e que Quase Todos Foram Esquecidos pela História
"Nenhum império nasce sozinho. Antes de existir um rei, existiram dezenas de cavaleiros abrindo caminho."
Introdução
Quando alguém fala em mainframe, praticamente toda pessoa imagina imediatamente um enorme computador azul com o logotipo da IBM.
É compreensível.
Durante mais de quarenta anos a IBM tornou-se praticamente sinônimo de computação corporativa.
Mas existe uma história muito mais fascinante.
Muito antes de o IBM System/360 revolucionar o mercado em 1964, dezenas de empresas disputavam ferozmente quem construiria o cérebro eletrônico do futuro.
Algumas nasceram produzindo calculadoras mecânicas.
Outras fabricavam radares durante a Segunda Guerra Mundial.
Algumas vieram da telefonia.
Outras da indústria militar.
Muitas desapareceram.
Algumas foram compradas.
Pouquíssimas sobreviveram.
Entre 1940 e 1990 aconteceu aquilo que muitos historiadores chamam de A Guerra dos Mainframes.
Foi uma época onde praticamente cada fabricante possuía sua própria arquitetura, linguagem, periféricos, sistema operacional e filosofia de desenvolvimento.
Era um verdadeiro universo paralelo.
Hoje vamos prestar homenagem aos gigantes que construíram a informática moderna.
Pegue seu café.
Vamos viajar quase cinquenta anos no tempo.
A Era dos Pioneiros (1940-1955)
Antes mesmo da palavra computador existir da forma que conhecemos, grandes empresas já investiam milhões em máquinas capazes de resolver cálculos militares.
O cenário era dominado por necessidades extremamente específicas:
Guerra
Balística
Criptografia
Estatística
Censos
Engenharia
Os computadores ocupavam salas inteiras.
Consumiam quilowatts.
Possuíam milhares de válvulas.
Falhavam diariamente.
Mesmo assim eram considerados milagres tecnológicos.
IBM
O Gigante que já Nasceu Grande
Fundação: 1911
Origem: CTR (Computing Tabulating Recording Company)
Especialidade inicial:
Cartões perfurados
Máquinas Hollerith
Relógios de ponto
Equipamentos administrativos
Durante décadas a IBM dominou completamente o processamento por cartões.
Quando os computadores eletrônicos apareceram ela já possuía milhares de clientes.
Essa vantagem seria praticamente impossível de superar.
Modelo histórico
IBM 701
Ano:
1952
Conhecido como:
Defense Calculator
Foi o primeiro computador científico comercial da IBM.
Remington Rand
Pouca gente lembra dela.
Mas foi a empresa responsável por comercializar um dos computadores mais famosos da história.
Modelo
UNIVAC I
Ano:
1951
Curiosidade:
Foi o primeiro computador comercial vendido nos Estados Unidos.
O UNIVAC ficou mundialmente famoso por prever corretamente o resultado das eleições americanas de 1952.
A televisão ficou em choque.
Foi o momento em que o público percebeu que computadores poderiam "pensar".
Burroughs
Para muitos programadores COBOL veteranos, falar Burroughs ainda desperta nostalgia.
A empresa apostava em arquiteturas completamente diferentes.
Enquanto quase todo mundo pensava em registradores, a Burroughs acreditava em máquinas orientadas por pilha (stack machines).
Décadas depois esse conceito voltaria a aparecer nas máquinas virtuais Java.
Modelo clássico
Burroughs B5000
1961
Foi um dos computadores mais elegantes já projetados.
Era praticamente feito para linguagens de alto nível.
Muitos historiadores afirmam que seu projeto estava décadas à frente do tempo.
Easter Egg
A arquitetura da Burroughs lembra bastante o funcionamento interno da JVM.
Sim.
Muito antes do Java existir.
RCA
A Radio Corporation of America também entrou na disputa.
Ela possuía enorme experiência em eletrônica.
Produziu computadores voltados principalmente para governo.
Modelo famoso:
RCA Spectra 70
1965
Seu objetivo era competir diretamente com o System/360.
Não conseguiu.
Honeywell
Originalmente conhecida por equipamentos industriais.
Entrou forte no mercado de computadores corporativos.
Modelo famoso
Honeywell 200
1963
Uma curiosidade incrível.
Ele foi projetado para executar programas do IBM 1401 com poucas modificações.
Era praticamente um "compatível IBM".
Na época isso foi revolucionário.
Control Data Corporation (CDC)
Se existiu um gênio absoluto da engenharia de computadores, seu nome era:
Seymour Cray.
Antes dos supercomputadores Cray, ele trabalhava na CDC.
Modelo famoso
CDC 6600
1964
Considerado por muitos o primeiro supercomputador verdadeiro.
Era mais rápido que praticamente qualquer concorrente.
NCR
National Cash Register.
Começou fabricando caixas registradoras.
Depois migrou para sistemas bancários.
Modelo famoso
NCR Century
1976
Muito utilizado em bancos.
General Electric
Pouca gente lembra, mas a GE também produziu grandes computadores.
Modelo
GE-600
1965
Influenciou diretamente o desenvolvimento do MULTICS.
Sem MULTICS talvez nunca existisse o UNIX.
Digital Equipment Corporation (DEC)
Embora fosse conhecida pelos minicomputadores, merece enorme respeito.
O PDP-8 democratizou a computação.
Depois veio o VAX.
Modelo famoso
VAX-11/780
1977
Era tão poderoso que muitas empresas deixaram de comprar mainframes médios.
Sperry
Resultado da fusão da Sperry Rand.
Modelo famoso
UNIVAC 1100
Década de 1970
Muito utilizado por governos.
Fujitsu
Enquanto o Ocidente brigava entre IBM e Burroughs, o Japão crescia silenciosamente.
Modelo famoso
FACOM M-190
1974
Os japoneses investiram pesadamente em compatibilidade IBM.
Hitachi
Outro gigante japonês.
Modelo famoso
HITAC M Series
Década de 1970
Grande presença em bancos asiáticos.
NEC
Modelo famoso
ACOS Series
1974
Ainda hoje existem versões modernas.
Siemens
Alemanha.
Modelo famoso
BS2000
Década de 1970
Muito utilizado na Europa.
Bull
Orgulho francês.
Modelo famoso
GCOS
Década de 1970
A Bull sobreviveu durante décadas oferecendo alternativas europeias.
ICL
Reino Unido.
Modelo famoso
ICL 2900
1974
Representava a tentativa britânica de manter independência tecnológica.
Olivetti
Conhecida pelas máquinas de escrever.
Também entrou na corrida.
Modelo
Elea 9003
1959
Projeto extremamente elegante.
Wang Laboratories
Muito forte em processamento de textos.
Modelo
VS Series
Década de 1980
Prime Computer
Muito utilizada em universidades.
Modelo
Prime 750
1979
A Revolução que Mudou Tudo
Em 1964 a IBM lançou algo que redefiniu completamente a indústria.
IBM System/360
Não era apenas um computador.
Era uma família inteira.
Pela primeira vez um programa escrito em um modelo podia funcionar em outro.
Hoje isso parece óbvio.
Na época era praticamente ficção científica.
O investimento foi colossal.
Mais de cinco bilhões de dólares da época.
Foi uma das maiores apostas industriais do século XX.
O Nascimento da Compatibilidade
Depois do sucesso do System/360, praticamente todas as empresas começaram a copiar a estratégia da IBM.
Compatibilidade virou sobrevivência.
Foi nesse momento que surgiram fabricantes conhecidos como:
Plug Compatible Manufacturers (PCMs)
Entre eles:
Amdahl
Hitachi
Fujitsu
National Advanced Systems
Essas empresas fabricavam computadores capazes de executar software IBM.
Era como vender peças compatíveis para um automóvel extremamente popular.
Os Grandes Modelos que Marcaram Época
| Ano | Modelo | Fabricante |
|---|---|---|
| 1951 | UNIVAC I | Remington Rand |
| 1952 | IBM 701 | IBM |
| 1959 | Elea 9003 | Olivetti |
| 1961 | B5000 | Burroughs |
| 1963 | Honeywell 200 | Honeywell |
| 1964 | CDC 6600 | CDC |
| 1964 | System/360 | IBM |
| 1965 | Spectra 70 | RCA |
| 1965 | GE-600 | General Electric |
| 1974 | ICL 2900 | ICL |
| 1974 | FACOM M-190 | Fujitsu |
| 1974 | ACOS | NEC |
| 1977 | VAX 11/780 | DEC |
| 1980 | IBM 3081 | IBM |
| 1985 | IBM 3090 | IBM |
| 1990 | IBM ES/9000 | IBM |
Curiosidades
O primeiro "clone"
Honeywell praticamente criou computadores capazes de executar programas IBM.
Hoje chamaríamos isso de compatibilidade binária.
Burroughs inspirou o futuro
Seu conceito de pilha antecipou tecnologias usadas décadas depois.
IBM quase faliu
O investimento no System/360 foi tão gigantesco que muitos acionistas acreditavam que seria o fim da empresa.
Foi exatamente o contrário.
Seymour Cray saiu para fundar sua própria empresa
E acabou criando alguns dos computadores mais rápidos do planeta.
A Guerra Fria acelerou tudo
Sem investimentos militares, provavelmente a evolução teria levado mais vinte anos.
Easter Eggs para Programadores COBOL
☕ O COBOL nasceu em 1959 e foi pensado para rodar em computadores de diferentes fabricantes. Antes do System/360, portar um programa entre máquinas era quase uma aventura arqueológica.
☕ O B5000 da Burroughs foi um dos primeiros computadores desenhados pensando em linguagens de alto nível, reduzindo a dependência da programação em Assembly.
☕ Muitos bancos brasileiros já utilizaram equipamentos Burroughs, UNIVAC, Honeywell e NCR antes de consolidarem seus parques em IBM.
☕ O nome "mainframe" só se popularizou porque a unidade central ficava instalada no main frame (gabinete principal) que concentrava CPU, memória e canais de E/S.
☕ Empresas como Amdahl provaram que era possível inovar mesmo dentro do ecossistema IBM, oferecendo equipamentos compatíveis com melhor relação custo-desempenho.
Dicas para Quem Deseja Estudar a História dos Mainframes
Se você deseja compreender realmente a evolução do IBM Z, vale a pena estudar a história dos seus concorrentes. Muitas ideias consideradas modernas nasceram em empresas que já não existem mais:
Entenda a arquitetura do Burroughs B5000 para conhecer os conceitos de máquinas orientadas por pilha.
Estude o UNIVAC I para compreender a transição dos cartões perfurados para a computação eletrônica comercial.
Pesquise o CDC 6600 para entender como Seymour Cray revolucionou o paralelismo e a alta performance.
Compare o IBM System/360 com seus sucessores (System/370, 308X, 3090, ES/9000) para perceber como a compatibilidade de software se tornou um dos maiores patrimônios da IBM.
Explore a história da Honeywell, Bull, ICL e Fujitsu para descobrir como diferentes países buscaram independência tecnológica durante a Guerra Fria.
O Fim da Guerra e o Monopólio da IBM
Durante os anos 1970 e 1980, a competição diminuiu drasticamente.
A IBM havia conseguido algo extraordinário: transformar sua arquitetura em um padrão de mercado. Quem escolhia um System/370 ou, mais tarde, um 3090, investia em um ecossistema completo de hardware, sistemas operacionais, linguagens, bancos de dados, ferramentas e suporte técnico. Mudar de fornecedor passou a significar reescrever aplicações inteiras, treinar equipes e substituir uma infraestrutura construída ao longo de décadas.
Enquanto isso, muitos concorrentes enfrentaram dificuldades:
A Burroughs fundiu-se com a Sperry, formando a Unisys em 1986.
A CDC abandonou gradualmente o mercado de mainframes para concentrar esforços em supercomputação.
A RCA vendeu sua divisão de computadores.
A Honeywell deixou o segmento após diversas reestruturações.
Empresas europeias como ICL, Bull e Siemens reduziram sua participação ou migraram para outros mercados.
Fabricantes japoneses permaneceram relevantes, mas em grande parte adotando estratégias de compatibilidade com a arquitetura IBM.
Esse cenário levou muitos analistas da época a falar em um "monopólio de fato" da IBM no universo dos grandes sistemas corporativos. Embora outras empresas continuassem existindo e produzindo soluções importantes, a influência do ecossistema IBM tornou-se dominante.
Mas há uma ironia digna do Bellacosa Mainframe.
A IBM venceu a guerra dos fabricantes, porém jamais venceu sozinha.
Cada concorrente deixou uma peça fundamental no quebra-cabeça da computação moderna. O conceito de compatibilidade, as arquiteturas orientadas por pilha, a alta performance, os sistemas operacionais multiprogramados, a confiabilidade extrema e até muitas ideias presentes hoje no IBM Z, em máquinas virtuais e em ambientes de nuvem nasceram ou amadureceram graças à ousadia desses gigantes.
Assim, quando um programador COBOL executa um simples EXEC CICS, um READ VSAM ou um SELECT no Db2, ele também carrega um pouco do legado de engenheiros da Burroughs, da Honeywell, da UNIVAC, da CDC, da DEC, da Bull, da Fujitsu, da Hitachi e de tantas outras empresas que desafiaram os limites da tecnologia.
Porque a verdadeira história dos mainframes não é apenas a história da IBM.
É a história de uma geração de visionários que, entre 1940 e 1990, construiu as fundações invisíveis sobre as quais o mundo digital continua funcionando até hoje. E essa merece ser lembrada, estudada e homenageada por todos que amam a computação clássica.
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