segunda-feira, 29 de dezembro de 2025

Brasil 2025: o ano do pre-flight check

 


Brasil 2025: o ano do pre-flight check

ao estilo bellacosa mainframe, para o El Jefe Midnight Lunch

2025 não foi ano de grandes anúncios. Foi ano de preparativos. Em linguagem de mainframe, o Brasil entrou em modo pre-flight check: luzes acesas, sistemas testados, operadores atentos, porque 2026 já aparecia no horizonte como aquele batch pesado que roda uma vez a cada ciclo e decide o destino da máquina inteira.

Depois de doze anos vivendo na Europa e mais de uma década de retorno ao Brasil, aprendi a identificar esse tipo de ano: não é o crash, não é o reboot, não é a virada histórica. É o ano em que todo mundo sabe que algo grande vem aí — e começa a se posicionar.

Brasil: aquecimento político, memória recente ainda viva

Em 2025, o Brasil começou a aquecer o motor eleitoral. As eleições de 2026 passaram a pautar discursos, alianças e ressentimentos. Nada ainda explodiu, mas o cheiro de combustível político já estava no ar.

A diferença em relação a ciclos anteriores é a memória coletiva recente. O trauma do bolsonarismo, da radicalização e da ruptura institucional ainda estava fresco demais para ser ignorado. Mesmo quem flertava com discursos extremos precisava modular o tom. O sistema aprendeu — ainda que à força — que instabilidade custa caro.

Não significa maturidade plena. Significa aprendizado por dor.

Economia brasileira: prudência como estratégia

Economicamente, 2025 seguiu o manual da cautela. Nada de apostas ousadas. Nada de populismo fiscal escancarado. A prioridade foi não quebrar o que começou a funcionar em 2023 e 2024.

Para quem voltou da Europa acostumado a Estados que operam na base da previsibilidade, isso soou como um pequeno avanço civilizatório. O Brasil ainda não planeja como um alemão — mas já evita improvisar como nos piores anos.

E no Brasil, evitar improviso já é progresso.

A guerra da Ucrânia: o conflito que virou ruído constante

Enquanto isso, no tabuleiro global, 2025 confirmou algo amargo: a guerra da Ucrânia virou ruído permanente. Não acabou. Não avançou decisivamente. Não trouxe a paz prometida em cada nova rodada diplomática.

Virou um conflito de fundo, sempre presente, sempre sangrando, sempre alimentando indústrias, discursos e medos. A paz que “nunca sai” virou parte do cenário, como um servidor legado que ninguém consegue desligar porque o impacto seria imprevisível.

Para quem viveu na Europa, isso pesa mais. O conflito não é distante — ele ecoa nos preços, na política, na sensação de vulnerabilidade.

Europa: acuada, envelhecida, perdendo protagonismo

Em 2025, a Europa parecia cansada. Não derrotada, mas acuada. Presa entre dependências energéticas, pressões geopolíticas, envelhecimento populacional e uma perda lenta — porém contínua — de protagonismo global.

A União Europeia já não dita o ritmo do mundo. Reage. Ajusta. Mitiga danos. É a administração de crise permanente, não a condução do futuro.

Para quem passou doze anos ali, a sensação é clara: a Europa virou um grande mainframe estável, confiável, mas rodando aplicações cada vez menos centrais no ecossistema global.

Inglaterra: o post-Brexit como falha de projeto

E a Inglaterra… ah, a Inglaterra.

Em 2025, o Brexit mostrou sua fatura completa. Não em colapso imediato, mas em erosão contínua. Menos influência, menos fluidez econômica, mais isolamento, mais tensão social. Um país que acreditou que podia sair do cluster europeu e manter o mesmo throughput.

Erro clássico de arquitetura.

O Reino Unido virou um sistema standalone tentando operar como se ainda estivesse integrado a um grid continental. O custo disso aparece aos poucos — e dói mais exatamente porque não explode de uma vez.

Cultura e sociedade: o mundo mais cínico, menos ingênuo

Culturalmente, 2025 foi um ano menos iludido. No Brasil e fora dele. As pessoas passaram a acreditar menos em narrativas grandiosas e mais em soluções imperfeitas. O cinismo cresceu, mas junto dele veio um tipo estranho de lucidez.

Menos fé em salvadores. Mais atenção a processos.

Para quem já atravessou migração, retorno, crise, pandemia e radicalização política, isso soa quase como maturidade emocional tardia da sociedade.

Epílogo: o operador sabe o que vem aí

2025 foi o ano em que o operador experiente ajusta a cadeira, confere logs antigos e faz backup completo. Porque 2026 está logo ali — e ninguém esqueceu o que acontece quando eleições rodam em ambiente instável.

O Brasil de 2025 não resolveu seus problemas.
O mundo de 2025 não encontrou a paz.
A Europa de 2025 não recuperou seu protagonismo.
A Inglaterra de 2025 ainda paga por um commit mal pensado.

Mas todos parecem ter entendido algo essencial:

sistemas grandes não quebram por falta de discurso,
quebram por excesso de ilusão.

E 2025 foi, acima de tudo, o ano em que a ilusão ficou mais curta —
e a realidade, mais nítida.

Para o bem ou para o mal,
o batch de 2026 já está na fila.

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