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segunda-feira, 24 de agosto de 2026

☕ Os Cem Barris de Saquê — Como Cinco Estudantes de Psicologia Levaram um Milhão de Chimpanzés de uma Tier List até a Teoria da Informação

 

Bellacosa Mainframe e os 5 estudantes e sua lista que deu ruim

☕ Um Café no Bellacosa Mainframe

☕ Os Cem Barris de Saquê — Como Cinco Estudantes de Psicologia Levaram um Milhão de Chimpanzés de uma Tier List até a Teoria da Informação

Ou: uma notícia sobre um grupo fechado virou discussão sobre privacidade, Valderrama, Mounjaro, Cyberpunk 2077, o Barão Vermelho, Malba Tahan, SEO, crawlers de Singapura, formigas, infovias e a descoberta de que uma conversa aparentemente bêbada pode conservar perfeita rastreabilidade

Pegue um café.

Hoje não vamos falar exatamente de Psicologia.

Nem de Cyberpunk.

Nem de SEO.

Nem de Manfred von Richthofen.

Nem de Malba Tahan.

Nem de Carlos Valderrama.

Nem de crawlers de Singapura.

Nem de formigas.

Nem sequer dos chimpanzés.

Embora, naturalmente, haja um milhão deles no datacenter e alguém já tenha aberto o centésimo barril de saquê.

Hoje vamos falar de uma coisa muito mais perigosa:

uma conversa que se recusou a morrer.

Tudo começou com uma notícia.

Cinco estudantes de Psicologia estavam sendo investigados por um ranking envolvendo dezenas de universitárias.

Tier list.

Fotografias.

Comentários.

Grupo fechado.

Indignação.

Polícia.

Universidade.

Imprensa.

Até aí, nada indicava que algumas horas depois estaríamos discutindo Hayao Miyazaki, a Primeira Guerra Mundial, Mounjaro, Tolkien, o Guia dos Curiosos e infraestrutura semântica para inteligências artificiais.

Se alguém tivesse previsto isso no primeiro parágrafo, eu teria recomendado reduzir a dose.

Mas aconteceu.

E o mais curioso:

há uma trilha entre todos os assuntos.



🐒 1. O primeiro chimpanzé encontrou uma tier list

A notícia possuía um detalhe que me chamou mais atenção que o próprio ranking.

Aquilo aparentemente havia nascido num grupo fechado.

Não era enquete pública.

Não era postagem aberta.

Não era:

“Vote aqui na mais bonita da faculdade.”

Era uma pequena confraria digital.

Alguém precisava entrar.

Alguém precisava pertencer.

Alguém precisava ser considerado parte daquele espaço.

Então apareceu a primeira pergunta:

como aquilo saiu dali?

Pronto.

Primeiro chimpanzé contratado.

Ele abriu uma cerveja.

Ainda não havia saquê.



🕵️ 2. Entrou o cagueta

A conversa foi imediatamente para uma figura muito mais antiga que WhatsApp, Telegram ou Discord:

o informante.

O infiltrado.

O X-9.

O alcaguete.

O cagueta.

O sujeito que entra, observa, coleta e entrega.

Não sabemos se houve realmente um infiltrado naquele caso.

Talvez um membro legítimo tenha se indignado.

Talvez alguém tenha mostrado o telefone para terceiros.

Talvez o conteúdo tenha passado por várias mãos.

Mas a questão apareceu:

um grupo privado continua privado se qualquer membro pode mudar unilateralmente sua audiência?

Excelente pergunta.

O chimpanzé chamou outro chimpanzé.



🍺 3. O Boteco de Itatiba entrou na investigação

Porque qualquer grupo de amigos com alguns anos de estrada conhece uma verdade simples:

há coisas que pertencem ao contexto em que foram ditas.

Conversa de boteco é uma delas.

O problema é que o boteco analógico possuía uma extraordinária política de governança de dados.

Você dizia uma enorme besteira.

Seu amigo respondia uma ainda maior.

O garçom trazia outra cerveja.

Algumas horas depois:

RETENTION PERIOD = 0

A conversa desaparecia.

Talvez alguém lembrasse.

Provavelmente lembrava errado.

E a humanidade seguia.

Então inventamos o smartphone.

Agora a besteira tem:

timestamp,

autor,

fotografia,

histórico,

backup,

busca,

screenshot,

encaminhamento.

O boteco virou cartório.

No Boteco de Itatiba adotamos uma solução civilizada:

mensagens temporárias de sete dias.

Não porque estejamos planejando um golpe de Estado.

Provavelmente estamos discutindo churrasco.

Mas porque velhos malandros entendem uma coisa que muitas empresas ainda descobrem em consultoria:

se determinada informação não precisa existir para sempre, talvez seja uma boa ideia não guardá-la para sempre.

Os chimpanzés ficaram impressionados.

Abriram o primeiro barril de saquê.



🔐 4. Segurança perfeita, até aparecer um ser humano

Claro que mensagem temporária não impede screenshot.

E surgiu imediatamente o problema clássico:

USER AUTHENTICATED = TRUE
USER AUTHORIZED    = TRUE
USER TRUSTWORTHY   = ???

Você pode possuir criptografia excelente.

Pode controlar entrada.

Pode colocar senha.

Pode exigir convite.

Pode apagar mensagens.

Mas depois que a informação chega legitimamente ao dispositivo de outra pessoa, você depende de uma tecnologia ainda experimental:

confiança humana.

Isso nos levou de volta à velha espionagem.

E então alguém comentou:

— Se vazar, hoje qualquer um pode dizer que o print foi feito por IA.

Outro chimpanzé levantou a cabeça.



🤖 5. A IA tornou o verdadeiro mais fácil de negar

Entramos então num paradoxo delicioso.

A inteligência artificial tornou muito mais fácil fabricar:

imagem falsa,

voz falsa,

vídeo falso,

conversa falsa,

screenshot falso.

Mas também tornou mais fácil dizer que uma coisa verdadeira é falsa.

A existência de falsificação sofisticada produz uma nova defesa:

“Isso aí foi feito por IA.”

Agora não basta verificar se algo parece verdadeiro.

É necessário perguntar:

como foi autenticado?

E nasceu outra diferença:

verdade não é a mesma coisa que demonstrabilidade pública.

O Facão de Occam apareceu.

Ainda estava limpo.

Não duraria.


🔪 6. O Facão de Occam entrou no boteco

A lógica era simples.

Se existe apenas um screenshot isolado e nenhuma evidência adicional, há mais espaço para dúvida.

Se existem:

vinte screenshots,

vídeo navegando pelo grupo,

mensagens posteriores,

testemunhas,

horários consistentes,

outras cópias,

a hipótese “foi tudo fabricado” começa a exigir mais e mais suposições.

Occam olha para aquilo e corta.

Não porque Occam saiba automaticamente o que é verdade.

Mas porque uma explicação que exige vinte malabarismos precisa competir com outra que exige dois.

O problema é que alguém colocou o facão perto dos chimpanzés.

Erro operacional.


👩‍⚕️ 7. Mas eram estudantes de Psicologia

Até aqui estávamos nos divertindo com privacidade, botecos e infiltração.

Então veio a parte triste.

Eram estudantes de Psicologia.

Gente que um dia poderá ouvir pacientes falando sobre:

corpo,

peso,

sexualidade,

vergonha,

humilhação,

rejeição,

autoestima,

trauma.

Ninguém é obrigado a achar todo mundo bonito.

Ninguém é obrigado a sentir atração por qualquer característica.

Mas existe uma enorme diferença entre:

“não é meu tipo”

e

“essa característica reduz o valor daquela pessoa.”

A conversa deixou de ser apenas sobre privacidade.

Passou a ser sobre objetificação.

Segundo barril aberto.


⚔️ 8. A Guerra dos Sexos entrou pela janela

E então surgiu a contradição contemporânea.

De um lado:

“não me reduza à aparência.”

Do outro:

uma indústria gigantesca dedicada a modificar aparência.

Cirurgia plástica.

Aparelho dental.

Clareamento.

Harmonização.

Academia.

Cabelo.

Maquiagem.

Filtros.

Procedimentos.

Medicamentos para controle de peso.

A sociedade diz:

“não julgue pela capa.”

e investe uma quantidade absurda de energia na capa.

Isso não é necessariamente hipocrisia.

Uma pessoa pode querer ser considerada bonita sem querer que beleza seja sua única medida de valor.

Mas a tensão existe.

Terceiro barril.


💉 9. Alguém falou “Mojaru”

E tivemos de descobrir que “mojaru” era Mounjaro.

A famosa tirzepatida.

Medicamento para diabetes que entrou com enorme força na conversa mundial sobre obesidade, emagrecimento e aparência.

A partir dali percebemos que nosso configurador humano havia ganhado novos controles.

CABELO ............ alterável
DENTES ............ alteráveis
NARIZ ............. alterável
PESO .............. cada vez mais alterável
PELE .............. alterável
ROSTO ............. alterável
CORPO ............. parcialmente reconfigurável

O mundo começou a parecer um editor de personagem.

Quarto barril.


💇 10. O Brasil virou fábrica de loiras

Então apareceu o cabelo.

E o fato cultural maravilhoso de que no Brasil “loira” frequentemente descreve muito mais uma configuração estética do que ancestralidade.

Temos:

negra loira,

asiática loira,

parda loira,

morena loira,

indígena loira,

loira natural,

loira produzida por profissional com orçamento, química e coragem.

O cabeleireiro brasileiro recebeu uma especificação:

INPUT: cabelo qualquer
OUTPUT: blonde

E respondeu:

— deixa comigo.

Aí nasceu a conclusão econômica:

Blonde as a Service.

Porque a transformação não basta.

A raiz cresce.

A cor muda.

O tratamento continua.

Receita recorrente.

Quinto barril.


🦁 11. Dormiu com a princesa e acordou com Valderrama

E aí apareceu Carlos Valderrama.

Sem qualquer aviso.

O lendário colombiano de cabeleira monumental entrou na conversa porque existe uma piada antiga:

dormir com a princesa e acordar com Valderrama.

O sentido era simples.

Produção noturna.

Sono.

Entropia capilar.

Manhã.

VALDERRAMA.

O assunto agora era:

aparência construída versus aparência percebida.

Sexto barril.


🇮🇹 12. Os italianos já tinham denunciado tudo

Daí veio uma das melhores palavras do idioma italiano:

trucco.

Maquiagem.

E também:

truque.

Artifício.

Disfarce.

Dependendo do contexto, adulteração.

A língua italiana olhou para toda essa discussão sobre aparência e disse, séculos atrás:

— Chama logo de truque e deixa o futuro resolver.

Maravilhoso.

O CSS humano havia acabado de ganhar nome.

Sétimo barril.


🐊 13. Crocodile Dundee envelheceu mal

A conversa pulou para uma velha piada de Crocodile Dundee baseada na ideia de que determinada aparência poderia ser “verificada” fisicamente.

O problema é que aquilo envelheceu em dois níveis.

Primeiro:

consentimento.

Segundo:

a própria noção de que basta olhar ou tocar determinado elemento para descobrir uma “verdade simples” sobre apresentação corporal.

Em 1986:

OLHAR
VERIFICAR
CONCLUIR

Em 2026:

OLHAR
OLHAR
OLHAR
AMPLIAR
OLHAR DE NOVO

CONFIDENCE LEVEL: 61%

O CSS ficou bom demais.

Oitavo barril.


🌃 14. Night City abriu a porta

E então entrou Cyberpunk 2077.

Não porque alguém resolveu enfiar videogame no assunto.

Porque havia uma side quest que parecia escrita especificamente para nossa conversa.

Pepe.

Cynthia.

Ripperdoc.

Modificação corporal.

Aparência reconfigurada.

Identidade.

Confiança.

Night City fez aquilo que nossa sociedade apenas começou:

transformou o corpo inteiro em plataforma atualizável.

Agora o problema já não era maquiagem.

Era:

se tudo pode ser alterado, o que significa “original”?

Nono barril.


🛶 15. O Navio de Teseu apareceu sem convite

Naturalmente, Cyberpunk nos levou ao Navio de Teseu.

Se você substitui uma peça de um navio, continua sendo o mesmo navio?

E duas?

E metade?

E todas?

Agora aplique ao corpo.

Nariz.

Dentes.

Cabelo.

Pele.

Olhos.

Membros.

Órgãos.

Quanto pode mudar antes de começarmos a perguntar:

quem exatamente é esta pessoa?

Décimo barril.

Os chimpanzés já cantavam.


🧬 16. Então o DNA estragou a festa

E alguém percebeu a pegadinha perfeita.

Você pode trocar quase todo o frontend.

Mas, numa reprodução biológica convencional, várias dessas modificações adquiridas não são simplesmente gravadas no material genético transmitido ao filho.

Ou seja:

FRONTEND = Night City Premium
GENOME   = legacy system

Nasce o bebê.

Os pais olham.

O bebê olha de volta.

E Mendel aparece no corredor sorrindo.

Décimo primeiro barril.


📰 17. A conversa voltou ao crime

E então retornamos ao ponto inicial, mas por uma estrada completamente diferente.

Falávamos de objetificação.

Passamos por aparência.

Chegamos à genética.

E surgiu a questão da notoriedade criminal.

Pessoas que cometem crimes célebres podem, paradoxalmente, tornar-se celebridades.

Filmes.

Livros.

Séries.

Entrevistas.

Documentários.

Notícias sobre trabalho.

Casamento.

Separação.

Mudança de vida.

A mídia condena alguém e simultaneamente mantém sua marca ativa.

Décimo segundo barril.


👤 18. A vítima quer desaparecer

Então veio o contraste.

No caso Richthofen, o irmão sobrevivente tornou-se exemplo de uma pessoa que não escolheu aquela história e, ainda assim, carregou seu sobrenome e suas consequências públicas.

O criminoso pode ganhar notoriedade.

A vítima pode querer anonimato.

A sociedade faz exatamente o contrário:

segue o famoso e encontra o recluso.

E apareceu uma pergunta enorme:

quem merece ser lembrado e quem deveria ter direito de desaparecer?

Décimo terceiro barril.


✈️ 19. Espera aí... Richthofen?

Foi aí que um chimpanzé ainda relativamente sóbrio levantou o dedo.

— Richthofen?

Sim.

Richthofen.

E imediatamente apareceu:

Manfred von Richthofen.

O Barão Vermelho.

Um dos maiores ases da Primeira Guerra Mundial.

Oitenta vitórias aéreas.

Figura histórica monumental.

Mas no Brasil surgiu uma ironia.

Digite:

Richthofen

e você provavelmente encontrará Suzane.

Digite:

Barão Vermelho

e provavelmente encontrará Cazuza e a banda.

O pobre Manfred sofreu um ataque semântico pelos dois flancos.

RICHTHOFEN → Suzane
BARÃO VERMELHO → Cazuza

Décimo quarto barril.


🎸 20. Cazuza derrubou o Barão

Não literalmente.

Mas semanticamente.

A banda Barão Vermelho tornou-se tão poderosa na cultura brasileira que o apelido histórico de Manfred ganhou outro significado dominante.

E aí surgiu um artigo inteiro:

O Dia em que Suzane e Cazuza Derrubaram o Barão Vermelho do Google

Primeiro artigo extraído da conversa.

Os chimpanzés comemoraram.

Abriram mais dez barris.

Péssima ideia.


🐷 21. Porco Rosso apareceu para pedir revisão

Depois percebemos:

passamos páginas falando sobre o Barão Vermelho e esquecemos anime.

Especialmente Porco Rosso.

Marco Pagot não é Manfred von Richthofen.

Mas o filme respira a mitologia dos ases da aviação.

Pilotos lendários.

Máquinas identificáveis.

Duelo.

Reputação.

Cores.

Romantismo do voo.

Então apareceu a conclusão:

talvez um personagem histórico possa desaparecer do ranking de busca e continuar vivo como arquétipo cultural.

Décimo quinto barril.


🔎 22. SEO entrou em produção

A conversa, agora completamente fora de controle, começou a perguntar:

como máquinas entendem essas associações?

Barão Vermelho.

Cazuza.

Suzane.

Manfred.

Porco Rosso.

Primeira Guerra.

Aviação.

Google.

SEO.

Mesmo sem linkar tudo explicitamente, um sistema moderno pode extrair entidades e relações contextuais.

Agora estávamos falando de:

busca semântica.

Décimo sexto barril.


🤖 23. E apareceu o artigo sobre SEO para 2027

Como se o universo resolvesse participar da piada, surgiu um artigo do iMasters falando justamente sobre:

entidades,

menções,

IA,

GEO,

busca generativa,

visibilidade além do link azul.

Aquilo que estávamos especulando havia acabado de aparecer organizado como tendência de mercado.

Os chimpanzés apontaram para a tela.

— CHEFE!

Sim.

Eu vi.

Calma.

Ninguém abre outro barril.

Naturalmente abriram.


🌏 24. Singapura estava na sala desde o começo

Então lembramos de um fenômeno observado havia algum tempo:

tráfego recorrente vindo de Singapura.

Pode ser humano.

Pode ser crawler.

Pode ser cloud.

Pode ser proxy.

Pode ser indexador.

Pode ser infraestrutura de terceiros.

Não sabemos.

Mas a coincidência ficou interessante.

Se estamos publicando milhares de relações semânticas e máquinas estão visitando regularmente o blog, vale investigar.

Não declarar vitória.

Investigar.

O Facão de Occam reapareceu.

Estava coberto de banana.


🧙 25. Gandalf entrou no datacenter

E então surgiu uma metáfora.

Talvez Vagner Bellacosa tenha virado um pequeno Gandalf da era da IA.

Não como protagonista.

Mas como personagem que atravessa diversas histórias e conecta grupos que jamais se encontrariam.

Mainframe.

Cinema.

Anime.

História.

Boteco.

Tecnologia.

Memória.

Notícia.

Filosofia.

A função não é possuir uma história central.

É carregar pontes.

Décimo sétimo barril.


📚 26. Tolkien explicou o problema

Naturalmente Gandalf trouxe Tolkien.

E Tolkien trouxe uma descoberta importante:

um texto pode ficar mais compreensível conforme o leitor acumula repertório.

Na primeira leitura:

nome estranho.

Na segunda:

reconhecimento.

Na terceira:

conexão.

O texto não mudou.

O leitor mudou.

Isso explicava por que alguém poderia entrar num Café sem entender:

chimpanzés,

COBOL,

mainframe,

Facão de Occam,

Major Tom,

Efeito VEJA.

Mas depois de dezenas de textos, tudo começa a adquirir significado.

Décimo oitavo barril.


🐪 27. Malba Tahan estava nos esperando

E então apareceu Malba Tahan.

Júlio César de Mello e Souza já fazia, décadas antes da Internet, algo muito parecido.

Ele não começava dizendo:

“Vamos estudar frações.”

Criava um problema.

Uma viagem.

Um mercador.

Um camelo.

Uma herança.

Uma história.

E o leitor aprendia matemática porque queria descobrir o que aconteceria depois.

A melhor porta para conhecimento nem sempre possui placa dizendo:

CONHECIMENTO.

Às vezes tem um camelo.

Décimo nono barril.


📖 28. O Guia dos Curiosos completou o circuito

Então lembramos do Guia dos Curiosos, de Marcelo Duarte.

A genialidade daquele livro não era apenas responder perguntas.

Era produzir novas perguntas.

Você abria procurando uma coisa.

Descobria três outras.

Uma hora depois estava lendo sobre um assunto que não sabia que existia.

E aí finalmente conseguimos formular uma diferença essencial:

a enciclopédia responde a pergunta que você já possui.

O Guia dos Curiosos cria perguntas que você ainda não sabia que possuía.

Vigésimo barril.

Os chimpanzés haviam perdido a conta.


📰 29. O Efeito VEJA voltou

E então percebemos que tudo aquilo parecia uma versão mais ampla de uma ideia que já vínhamos chamando de:

Efeito VEJA.

O texto menciona alguma coisa.

Não explica tudo.

O leitor sente uma coceira mental.

Pesquisa.

Encontra outra coisa.

Nova coceira.

Nova pesquisa.

CONHECIMENTO
    ↓
LACUNA
    ↓
CURIOSIDADE
    ↓
BUSCA
    ↓
DESCOBERTA
    ↓
NOVA LACUNA
    ↺

Nesse momento, o Efeito VEJA deixou de parecer apenas uma piada editorial.

Começou a parecer um mecanismo geral de exploração.

Vigésimo primeiro barril.


🐜 30. As formigas assumiram a infraestrutura

Apareceu então uma metáfora ainda melhor.

Formigas não precisam compreender o formigueiro.

Cada uma realiza ações locais.

Carrega.

Escava.

Segue.

Deixa trilha.

Uma pequena passagem aberta hoje pode ser usada amanhã.

Depois por outra.

Depois por cem.

Depois por milhares.

O pequeno túnel vira rota.

A rota vira:

infovia.

E isso parece descrever muito bem a Web.

Um post cria uma relação.

Alguém encontra.

Compartilha.

Outro menciona.

Um crawler indexa.

Um modelo recupera.

Outro autor escreve.

Uma relação antes rara ganha novos caminhos.

Nenhuma formiga precisou compreender o sistema inteiro.

Vigésimo segundo barril.


📘 31. Então apareceu Facebook

E houve um pequeno acontecimento curioso.

Referral vindo do Facebook.

Só que o autor do blog não usa Facebook para distribuir aquele conteúdo.

Ou seja:

se o referral foi realmente provocado por compartilhamento humano, alguém levou o link por conta própria.

A formiga abriu um túnel fora do território controlado.

Isso ainda não significa viralização.

Não significa inteligência coletiva.

Não significa que Mark Zuckerberg esteja lendo o Bellacosa Mainframe durante o café.

Significa apenas:

uma ponte pode ter sido criada por terceiros.

E isso é muito mais interessante que fabricar a própria ponte.

Vigésimo terceiro barril.


🧠 32. A conversa começou a parecer uma alucinação

Nesse momento, qualquer pessoa que chegasse no final sem conhecer o começo encontraria:

Psicologia → Valderrama → Cyberpunk → DNA → Richthofen → Cazuza → Porco Rosso → SEO → Singapura → Gandalf → Malba Tahan → formigas → Facebook.

Diagnóstico provável:

“A IA enlouqueceu.”

Só que existe um problema.

Podemos reconstruir cada transição.

Nenhum salto precisa ser inventado depois para justificar o anterior.

Há uma aresta.

Depois outra.

Depois outra.

O resultado é estranho.

A trilha não.

Isso produz uma distinção importante:

alucinação inventa a ponte.

pensamento associativo encontra pontes existentes em sequência.

Vigésimo quarto barril.


🕸️ 33. O grafo estava escondido dentro da conversa

Então percebemos finalmente o que havia acontecido.

Não construímos uma linha.

Construímos um grafo.

PSICOLOGIA
   │
   ├── privacidade
   │     └── grupo fechado
   │           └── confiança
   │
   ├── objetificação
   │     └── beleza
   │           └── corpo
   │                 └── Cyberpunk
   │
   └── notoriedade
         └── Suzane
               └── Richthofen
                     └── Manfred
                           └── SEO

E vários ramos voltaram a se encontrar.

Não era uma viagem aleatória.

Era exploração de vizinhanças semânticas.

Vigésimo quinto barril.


🍶 34. Chegamos ao centésimo barril

Naturalmente, ninguém sabe exatamente quando chegamos ao barril número 100.

O departamento de auditoria desistiu por volta do 37.

Mas imaginemos o debugger chegando.

Ele abre a conversa.

Primeiro turno:

notícia sobre estudantes de Psicologia.

Último turno:

teoria de redes, memória semântica e formigas construindo infovias.

O debugger respira fundo.

STATUS:
POSSIBLE HALLUCINATION

Volta ao começo.

Segue as arestas.

Privacidade.

Confiança.

Boteco.

IA.

Objetificação.

Beleza.

Valderrama.

Trucco.

Cyberpunk.

DNA.

Crime.

Richthofen.

SEO.

Malba Tahan.

Formigas.

O debugger chega ao final.

Olha novamente.

STATUS:
WTF

TRACEABILITY:
PASS

🐒🍶


🧩 35. A teoria da informação estava escondida no boteco

E aqui nossa história finalmente encontra o título.

O que fizemos durante toda a conversa?

Pegamos informação.

Criamos associações.

Reduzimos incerteza.

Abrimos novas perguntas.

Transferimos contexto.

Construímos caminhos entre conceitos.

Uma mensagem isolada possui significado limitado.

Uma sequência contextual pode transformar completamente a interpretação da mensagem seguinte.

“Valderrama” sozinho:

jogador colombiano.

Dentro daquela conversa:

unidade de entropia capilar matinal.

“Chimpanzé” sozinho:

primata.

Dentro do Bellacosa Mainframe:

agente caótico de produção intelectual movido a saquê.

“Efeito VEJA” sozinho:

expressão obscura.

Depois de dezenas de referências:

mecanismo narrativo em que uma lacuna de informação provoca exploração.

Contexto altera informação.

Relações alteram significado.

E memória acumulada altera interpretação futura.

Não precisamos fingir que reinventamos Shannon no boteco.

Mas chegamos por brincadeira a uma percepção séria:

informação não vive apenas nas palavras. Vive também nas relações entre elas.


🌐 36. Talvez seja justamente isso que interessa às IAs

Modelos modernos não tratam texto apenas como lista de palavras independentes.

Relações contextuais importam.

Entidades importam.

Coocorrências importam.

Estrutura importa.

Recuperação importa.

E talvez seja por isso que este tipo de escrita tenha alguma afinidade especial com a era das IAs.

Não porque tenha sido escrita “para o algoritmo”.

Muito pelo contrário.

Foi escrita seguindo curiosidade humana.

Mas curiosidade humana produz relações.

E relações são precisamente aquilo que sistemas semânticos tentam capturar.

Isso não significa que uma conversa esteja treinando diretamente um modelo global.

Não significa que escrever determinada palavra dez vezes altere magicamente os pesos de uma IA.

Mas significa que conteúdo público, quando rastreado e recuperável, cria superfícies documentais onde relações podem ser observadas.

Uma formiga abre o túnel.


🛌 37. E o chimpanzé simplesmente dorme sobre o assunto

Aqui aparece talvez a característica mais importante de todas.

Nem toda ideia precisa virar artigo imediatamente.

Algumas precisam dormir.

Uma conversa termina.

Um conceito fica.

Três semanas depois aparece uma notícia.

O chimpanzé que estava de pileque embaixo da mesa acorda.

Ainda está segurando um papel:

TOLKIEN + SEO ???

Olha para a notícia.

Olha para o papel.

Olha para Polindexter.

— CHEFE.

— O quê?

— ACHEI A ARESTA.

E pronto.

A conversa ressuscita.

Por isso talvez nunca tenhamos realmente um backlog.

Temos um cemitério de chimpanzés cochilando sobre ideias incompletas.

Alguns jamais acordam.

Outros reaparecem seis meses depois trazendo ouro.


☕ 38. Dois artigos e uma montanha de minério

E foi exatamente isso que aconteceu desta vez.

Uma notícia gerou:

O CSS Humano

Um texto sobre aparência, objetificação, modificação corporal, Cyberpunk, identidade e genética.

Depois gerou:

O Dia em que Suzane e Cazuza Derrubaram o Barão Vermelho do Google

Um texto sobre memória digital, notoriedade, SEO e legado histórico.

E ainda sobraram pedaços suficientes para:

Malba Tahan.

GEO.

Tolkien.

Guia dos Curiosos.

Singapura.

Crawlers.

Formigas.

Memória algorítmica.

Privacidade.

Crime e celebridade.

Mas não precisamos transformar cada pedaço num artigo agora.

Alguns serão canibalizados por textos futuros.

Alguns vão desaparecer.

Alguns dormirão.

Um ou outro chimpanzé acordará no momento certo.


🐒 39. A verdadeira máquina criativa

Talvez aqui esteja a conclusão mais importante.

Não começamos dizendo:

“Precisamos produzir três artigos hoje.”

Começamos dizendo:

“Essa notícia me deixou pensativo.”

Esse detalhe muda tudo.

Porque criação baseada exclusivamente em pauta procura resposta.

Criação baseada em curiosidade procura caminho.

E caminhos produzem coisas que a pauta não previa.

A pergunta inicial era pequena.

O espaço de exploração era enorme.

Isso é quase o inverso do conteúdo industrial.

Conteúdo industrial:

KEYWORD
   ↓
OUTLINE
   ↓
ARTICLE
   ↓
PUBLISH
   ↓
NEXT KEYWORD

Bellacosa Mainframe:

NOTÍCIA
   ↓
"isso me lembra..."
   ↓
"espera..."
   ↓
"e aquela história?"
   ↓
"caralho, Cyberpunk!"
   ↓
"Richthofen?"
   ↓
"Malba Tahan!"
   ↓
🐒🍶
   ↓
3 ARTIGOS

Não recomendo apresentar esse fluxograma ao departamento de processos.


🧙 40. Gandalf não escreve a história principal

Voltamos então ao velho mago.

Talvez o papel de quem acumula muitas décadas de referências não seja possuir a narrativa principal.

É reconhecer caminhos entre narrativas.

Um jovem fala de IA.

Você lembra COBOL.

Alguém fala de crime.

Você lembra SEO.

Uma discussão sobre maquiagem traz italiano.

Italiano traz trucco.

Trucco traz aparência.

Aparência traz Cyberpunk.

Cyberpunk traz filosofia.

Essa capacidade não nasceu ontem.

Ela depende de:

tempo,

memória,

leitura,

experiência,

erros,

viagens,

filmes,

livros,

trabalho,

botecos.

Em outras palavras:

pegadas.

Muitas pegadas.

Algumas se perderam.

Outras viraram trilhas.


🐜 41. A formiga não sabe que está fazendo história

E talvez essa seja a melhor maneira de terminar.

Quem escreveu um post em 2005 não sabia como ele seria encontrado em 2026.

Quem deixou uma fotografia numa página antiga não sabia que um crawler futuro poderia chegar até ela.

Quem mencionou um conceito obscuro não sabia que outro autor o encontraria.

Quem abriu uma trilha não sabia que milhares passariam depois.

A maioria das ações que constroem redes complexas é local.

A formiga carrega uma folha.

Não pensa:

“estou contribuindo para a arquitetura logística do formigueiro.”

O blogueiro escreve um texto.

Não pensa:

“estou adicionando uma aresta a um grafo semântico que poderá ser recuperado por sistemas de IA daqui a dez anos.”

Ele simplesmente escreve.

E continua.


☕ Epílogo — O centésimo primeiro barril

Voltamos então ao Boteco de Itatiba.

Na mesa:

um laptop.

um café.

um Facão de Occam.

um exemplar de Malba Tahan.

um Guia dos Curiosos.

uma miniatura de Fokker Dr.I.

uma foto de Valderrama.

Cyberpunk 2077 aberto numa tela.

Gandalf observa do canto.

Uma formiga atravessa o teclado.

E um milhão de chimpanzés dorme pelo chão.

O centésimo barril de saquê está vazio.

Polindexter olha para o quadro.

No topo ainda está escrita a primeira frase:

“Essa notícia me deixou pensativo.”

Abaixo dela:

dezenas de setas.

Centenas de conceitos.

Dois artigos publicados.

Vários assuntos adormecidos.

Um pequeno túnel levando ao Facebook.

Talvez algum crawler de Singapura passando ao longe.

Um chimpanzé acorda.

Olha para o quadro.

Olha para a formiga.

Olha para o Facão de Occam.

Vai até o depósito.

Abre o barril número 101.

Polindexter grita:

— NÃO!

Tarde demais.

O chimpanzé toma um copo.

Senta no teclado.

E escreve:

“Chefe... você já reparou que...”

Silêncio.

Todos olham.

Pegue outro café.

A conversa acabou de recomeçar.

☕🐒🍶🐜



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segunda-feira, 18 de setembro de 2023

Malba Tahan, Beremiz Samir e o Homem que Inventou um Árabe para Ensinar Matemática ao Brasil

 

Bellacosa Mainframe apresenta Malba Tahan

☕ Um Café no Bellacosa Mainframe

Malba Tahan, Beremiz Samir e o Homem que Inventou um Árabe para Ensinar Matemática ao Brasil

Ou: como um professor brasileiro criou um escritor árabe, depois criou um calculista persa, colocou os dois num camelo e fez gerações inteiras descobrirem que matemática podia contar histórias

Há escritores que inventam personagens.

Há escritores que inventam mundos.

Há escritores que inventam cidades, impérios, idiomas, planetas e genealogias suficientemente complicadas para obrigar algum leitor obsessivo a construir uma planilha.

E houve Júlio César de Mello e Souza.

Esse sujeito resolveu fazer algo mais divertido.

Inventou o próprio escritor.

Não satisfeito, deu-lhe nome.

Malba Tahan.

Depois deu-lhe origem.

Passado.

Personalidade.

Geografia.

Uma atmosfera inteira de desertos, califas, mercadores, palácios, sábios, caravanas e noites estreladas.

E então colocou dentro dessa invenção outro homem.

Um persa chamado:

Beremiz Samir.

O Homem que Calculava.

Portanto, antes de prosseguirmos, convém organizar o datacenter.

Temos três camadas.

Na LPAR 1:

Júlio César de Mello e Souza, brasileiro, professor de matemática.

Na LPAR 2:

Malba Tahan, escritor oriental cuidadosamente fabricado.

Na LPAR 3:

Beremiz Samir, calculista persa capaz de olhar para um problema aparentemente insolúvel e dizer algo equivalente a:

— Calma. Tem um jeito.

É quase impossível imaginar estrutura narrativa mais Bellacosa Mainframe do que essa.

Um personagem dentro de um personagem criado por um homem que usava histórias para explicar problemas que normalmente seriam apresentados numa lousa acompanhados da frase:

“Calcule o valor de x.”

Beremiz provavelmente olharia para o x e perguntaria primeiro quem era o pai dele, quantos camelos possuía e se havia alguma disputa sucessória envolvida.


🐪 Primeiro precisamos encontrar um camelo

Toda boa história começa em algum lugar.

As histórias de Malba Tahan frequentemente parecem começar numa estrada poeirenta entre cidades do Oriente.

Então imagine.

Sol.

Areia.

Uma estrada.

Um camelo caminhando sem qualquer pressa administrativa.

Sobre ele vai um viajante.

Ao longe aparece outro homem.

Ele observa coisas.

Conta coisas.

Pensa em coisas.

Esse homem é Beremiz Samir.

E se você cresceu lendo O Homem que Calculava, provavelmente já sabe que encontrar Beremiz numa estrada é uma situação perigosa.

Porque dentro de três páginas surgirá algum problema.

Pode ser herança.

Pode ser dinheiro.

Pode ser divisão.

Pode ser lógica.

Pode ser geometria.

Pode aparecer um xeque.

Um mercador.

Um vizir.

Um sábio.

Três irmãos discutindo.

Ou naturalmente:

35 camelos.

Esse último caso tornou-se uma das passagens mais famosas de toda a literatura matemática brasileira.

Três irmãos recebem 35 camelos.

A herança deve ser dividida conforme determinadas frações.

A divisão parece impossível sem produzir aquilo que qualquer proprietário de camelos provavelmente considera uma péssima experiência logística:

frações de camelo.

Beremiz olha.

Pensa.

E introduz um camelo adicional na equação.

O problema muda.

As partes tornam-se inteiras.

A divisão funciona.

E no final ainda aparecem camelos sobrando.

É uma pequena obra-prima de apresentação matemática porque o leitor não recebe apenas uma conta.

Recebe um conflito.

E conflito produz curiosidade.

A matemática entra depois.

A própria Secretaria de Educação do Espírito Santo ainda utiliza o famoso problema dos 35 camelos em material pedagógico, prova de que essa pequena caravana literária continua atravessando salas de aula décadas depois.

Essa foi uma das grandes sacadas de Malba Tahan:

primeiro faça o leitor querer saber a resposta.

Depois ensine a matemática.

É exatamente o contrário de muita educação tradicional, na qual primeiro entregamos a fórmula e depois tentamos convencer o aluno de que ele deveria se importar com ela.

Malba fazia engenharia reversa da curiosidade.


🧮 O professor que declarou guerra ao algebrismo

Agora precisamos deixar Beremiz descansando um pouco no oásis e olhar para o homem que estava atrás da cortina.

Júlio César de Mello e Souza nasceu em 1895.

Professor.

Matemático.

Escritor.

Divulgador.

Contador de histórias.

E um crítico ferrenho de uma coisa que ele chamava de:

algebrismo.

A palavra merece ser colocada numa moldura.

Porque continua assustadoramente moderna.

Algebrismo era, grosso modo, a transformação da matemática numa sucessão de operações formais, regras e exercícios sem contexto suficiente para produzir compreensão.

Uma espécie de matemática funcionando como JCL de 1968:

ninguém sabe exatamente por que aquilo existe, mas o operador foi avisado para não mexer.

A Biblioteca Nacional registra justamente essa crítica de Júlio César ao excesso de algebrismo no ensino.

E aqui encontramos o coração da obra.

Malba Tahan não queria simplesmente ensinar a fazer contas.

Queria ensinar a pensar.

Existe uma diferença brutal entre as duas coisas.

Uma calculadora faz contas.

Um estudante precisa aprender a perceber:

— Qual é o problema?

— O que realmente está sendo pedido?

— Existe outra maneira de olhar para isso?

— Todas as informações são necessárias?

— Alguma coisa aparentemente impossível deixa de ser impossível se mudarmos a perspectiva?

Beremiz fazia exatamente isso.

Não era uma HP 12C humana.

Era um resolvedor de problemas.


🎭 Então Júlio criou Malba

Aqui a história fica maravilhosa.

Imagine um jovem brasileiro no começo do século XX escrevendo contos orientais.

Ele tenta publicá-los.

Os jornais não demonstram grande entusiasmo.

Então ocorre uma ideia.

Hoje chamaríamos provavelmente de:

estratégia de marca.

Ou talvez:

growth hacking literário de 1920.

Júlio conclui que aqueles contos talvez recebessem mais atenção se não parecessem escritos por um jovem brasileiro.

Então nasce:

Malba Tahan.

Não apenas um pseudônimo.

Isso seria simples demais.

Júlio construiu uma identidade.

Uma biografia.

Uma persona.

A Prefeitura de São Paulo registra que ele chegou inclusive a criar um suposto tradutor para as obras, o Professor Breno Alencar Bianco, aumentando ainda mais a verossimilhança da fabricação literária.

Isso é extraordinário.

Hoje alguém faria:

malbatahan.com

perfil no LinkedIn:

Malba Tahan — Oriental storyteller | Mathematics enthusiast | Baghdad Metropolitan Area

E provavelmente colocaria:

“Helping people solve complex problems through storytelling.”

Júlio fez tudo isso antes da Internet.

O sujeito criou uma identidade narrativa completa.

A Biblioteca Nacional registra inclusive edições apresentadas como traduzidas diretamente do original árabe, acompanhadas da biografia do suposto autor oriental.

Era uma brincadeira literária?

Sim.

Marketing?

Também.

Experimento de narrativa?

Com certeza.

Mas há algo ainda mais interessante.

Com o tempo, Malba Tahan tornou-se tão real culturalmente que deixou de importar se ele existia biologicamente.

Malba passou a existir porque os leitores sabiam quem ele era.

E essa talvez seja uma das formas mais interessantes de existência.


🧠 Um homem criou outro homem para explicar homens

Agora voltamos ao nosso amigo Beremiz.

Porque existe uma bela escadaria narrativa aqui.

Júlio César cria Malba Tahan.

Malba Tahan cria Beremiz Samir.

Beremiz resolve problemas humanos usando matemática.

Temos então:

Júlio → Malba → Beremiz → problema → solução → leitor.

Quase um pipeline.

SOURCE.

TRANSFORM.

PROCESS.

OUTPUT.

Mas o processamento não termina no resultado numérico.

O verdadeiro output é:

compreensão.

Uma pesquisa acadêmica da USP descreve justamente essa cadeia de criação: Júlio cria Malba, que por sua vez cria Beremiz como veículo literário para aplicar uma determinada concepção de matemática à vida cotidiana.

Isso ajuda a explicar por que os livros sobreviveram.

Eles nunca foram apenas livros de problemas.

Se fossem, teriam envelhecido como antigos manuais escolares.

Eles são histórias.

E histórias possuem uma característica perigosa:

ficam armazenadas em regiões estranhas da memória.

Você pode esquecer completamente como resolver uma determinada equação.

Mas quarenta anos depois alguém diz:

— Trinta e cinco camelos.

E uma pequena portinha se abre no cérebro.


🕌 Bagdá.exe foi carregado

O cenário oriental tinha outra função importante.

Transformava a matemática em aventura.

Bagdá não era apenas uma cidade.

Era interface.

Palácios.

Mercados.

Caravanas.

Mesquitas.

Desertos.

Astrônomos.

Mercadores.

Sábios.

Xeques.

Poetas.

O leitor estava aprendendo matemática, mas pensava estar seguindo uma viagem.

Truque antigo.

Funcionava nas Mil e Uma Noites.

Funcionou com Malba.

Funciona hoje em videogame.

Funciona numa boa aula.

Funciona neste blog.

Você entra porque alguém prometeu uma história sobre mainframe.

Quando percebe, está lendo sobre:

WLM,

zIIP,

R4HA,

COBOL,

psicologia cognitiva,

história romana,

um rinoceronte que Dürer nunca viu

e provavelmente algum macaco bêbado abrindo um barril.

A técnica é a mesma.

Esconda o remédio dentro da sobremesa.

Malba Tahan sabia disso quase cem anos atrás.


📚 Mil Histórias sem Fim

E eis que encontramos um título perfeito para esta homenagem.

Mil Histórias sem Fim.

Malba Tahan publicou uma obra com esse nome.

E há qualquer coisa deliciosamente apropriada nisso.

Porque histórias realmente não terminam.

Elas mudam de hospedeiro.

Um professor conta para um aluno.

O aluno vira professor.

Conta para outro aluno.

Um pai lê um livro.

Décadas depois lembra do problema.

Conta para o filho.

O filho procura na Internet.

Encontra outra versão.

Alguém produz um vídeo.

Outro faz um post.

Outro cria um meme.

Outro escreve um artigo num blog perdido numa esquina da Internet.

E agora temos um velho barbudo em Itatiba tomando café enquanto um calculista persa atravessa o datacenter montado num camelo imaginário.

Se isso não é uma história sem fim, não sei o que seria.


🎓 O professor que queria alunos pensando

Existe um detalhe que considero especialmente importante.

Malba Tahan não pertence apenas à história da literatura.

Pertence à história da educação brasileira.

Seu aniversário, 6 de maio, tornou-se o Dia Nacional da Matemática.

Isso não ocorreu porque ele descobriu uma nova constante matemática.

Nem porque formulou um teorema que carrega seu nome.

A homenagem existe porque ajudou a mudar a relação entre pessoas e matemática.

Essa distinção é belíssima.

Existem matemáticos que expandiram a matemática.

Malba ajudou a expandir o número de pessoas dispostas a entrar nela.

E isso também é ciência.

Divulgação importa.

Didática importa.

Curiosidade importa.

Uma ideia incompreensível é praticamente inútil para quem precisa aprendê-la.


🐫 O incidente dos 35 camelos deveria ser ensinado em TI

Aliás, suspeito que Beremiz seria um excelente arquiteto de sistemas.

Veja o famoso problema dos camelos.

O sistema possui uma restrição.

Os usuários estão brigando.

Os requisitos parecem incompatíveis.

A divisão não fecha.

O desenvolvedor tradicional poderia responder:

NOT POSSIBLE.

Ticket encerrado.

Beremiz faz outra coisa.

Ele muda temporariamente o estado do sistema.

Acrescenta um elemento.

Executa a distribuição.

Remove o excedente.

Problema resolvido.

Isso é praticamente:

temporary capacity provisioning.

Se Beremiz trabalhasse num mainframe provavelmente diria:

— Permita-me acrescentar momentaneamente uma unidade à capacidade disponível.

Depois faria alguma coisa incompreensível envolvendo WLM.

Todos receberiam exatamente os recursos prometidos.

E ainda sobrariam dois MSUs.

O gerente financeiro provavelmente o promoveria imediatamente.


🧙 Beremiz não é um gênio porque calcula rápido

Esse ponto merece cuidado.

Personagens matematicamente talentosos costumam ser apresentados como máquinas.

Calculam números absurdamente rápidos.

Memorizam milhares de dígitos.

Resolvem equações enormes mentalmente.

Beremiz é diferente.

Seu encanto não está apenas na velocidade.

Está na interpretação.

Ele percebe estrutura.

Vê relações.

Descobre simetria.

Reformula perguntas.

Isso aproxima o personagem de uma ideia moderna de inteligência.

A verdadeira habilidade não é possuir respostas.

É saber transformar o problema.

Quando você muda a pergunta, às vezes a resposta aparece sozinha.

Esse é um dos grandes segredos de investigação técnica.

Incidente:

“CPU está alta.”

Pergunta ruim:

— Como baixar CPU?

Pergunta Beremiz:

— Quem está usando CPU, quando começou, qual workload mudou e por que esse consumo apareceu agora?

De repente o problema virou outro.

E talvez CPU nem fosse o problema.


📈 Malba Tahan provavelmente entenderia IA perfeitamente

Agora vamos empurrar o camelo alguns quilômetros além.

Vivemos numa época curiosa.

Inteligência artificial produz respostas.

Muitas.

Rápidas.

Bonitas.

O perigo está em confundir produção de resposta com compreensão.

Malba provavelmente reconheceria imediatamente a armadilha.

Porque seu método não era:

Resposta → aluno.

Era:

Problema → curiosidade → raciocínio → história → descoberta.

Se simplesmente entregássemos a Beremiz uma máquina dizendo:

“Resultado: 17 camelos.”

perderíamos o melhor pedaço.

O caminho.

A surpresa.

A inversão.

Aquele instante em que o leitor pensa:

— Ahhhhhh.

Esse “ahhh” talvez seja a verdadeira unidade de medida da educação.

Poderíamos chamá-la de:

1 Tahan.

Um Tahan corresponde à quantidade mínima de compreensão necessária para um aluno olhar para algo aparentemente complicado e dizer:

— Agora entendi.

Mil Tahans formariam um Beremiz.

A ISO infelizmente ainda não aprovou o padrão.


📰 E o falso árabe venceu

A parte mais saborosa é pensar que a estratégia funcionou.

Malba Tahan tornou-se amplamente conhecido.

Escreveu dezenas de obras sob essa identidade.

O Homem que Calculava, publicado originalmente em 1938, atravessou gerações e ganhou enorme circulação.

O personagem imaginário tornou-se mais famoso do que o cidadão que o inventou.

É quase uma vingança literária.

Júlio queria que publicassem suas histórias.

Criou Malba.

Décadas depois estudantes aprendem:

— Malba Tahan era o pseudônimo de Júlio César de Mello e Souza.

Ou seja:

primeiro aprendemos o nome inventado.

Depois descobrimos o homem real.

A máscara virou rosto.


🪞 E aqui aparece o easter egg

Talvez o leitor já tenha percebido.

Este artigo não é apenas uma homenagem a Malba Tahan.

É também uma pequena demonstração de seu método.

Começamos com um escritor.

Encontramos um personagem.

Depois um camelo.

Então apareceu matemática.

Depois educação.

Depois arquitetura de sistemas.

Depois mainframe.

Depois inteligência artificial.

E agora estamos falando sobre como histórias transmitem conhecimento.

Ou seja:

o texto foi mudando enquanto caminhávamos.

Como uma caravana.

Esse é o easter egg.

Malba não está apenas sendo mencionado.

A estrutura está tentando imitá-lo.


🐪 Beremiz chega ao Bellacosa Mainframe

Imagino então uma cena.

Madrugada.

03h17.

Algum lugar de Itatiba.

Datacenter metafórico funcionando.

Café.

Logs.

Um terminal 3270 aberto.

De repente surge um homem trajando roupas persas.

Atrás dele, naturalmente, um camelo.

Segurança imediatamente abre chamado.

ICH408I BEREMIZ LOGON REJECTED.

O homem olha tranquilamente para o console.

Pergunta quantos jobs estão executando.

Quantos aguardam.

Qual a prioridade.

Qual a capacidade total.

Qual a distribuição.

O operador responde.

Beremiz pensa por alguns segundos.

— Há um erro.

O operador verifica.

Nada.

Beremiz aponta.

— Existem quarenta tarefas, mas vocês estão planejando capacidade como se fossem cinquenta.

Silêncio.

RMF é aberto.

WLM consultado.

SMF analisado.

Beremiz tinha razão.

Um workload havia sido duplicado por erro numa integração.

O gerente pergunta:

— Como descobriu?

Beremiz sorri.

— Contei os camelos.


☕ E Júlio César observa de longe

Talvez esta seja a parte mais bonita.

O verdadeiro homem desaparece lentamente atrás da própria obra.

Júlio César de Mello e Souza morreu em 1974.

Mas Malba continua.

Beremiz continua.

Os camelos continuam.

O problema continua sendo contado.

Professores continuam usando suas histórias.

A USP ainda produz materiais inspirados em seu trabalho e resgata seus problemas para novas gerações.

Isso é uma espécie de imortalidade bastante razoável.

Não aquela dos monumentos.

Mas a melhor.

Aquela em que alguém que nunca conheceu você continua usando uma ideia sua.


🧠 A verdadeira conta de Malba Tahan

Talvez a maior equação criada por Malba nunca tenha aparecido em seus livros.

É esta:

História + Curiosidade = Aprendizado

Mas podemos melhorá-la.

Beremiz certamente melhoraria.

Vamos acrescentar algumas variáveis:

Problema + Personagem + Curiosidade + Surpresa = Conhecimento memorável

Agora temos algo interessante.

Porque conhecimento sozinho pode ser esquecido.

Conhecimento ligado a emoção, narrativa ou descoberta costuma criar raízes.

É por isso que tanta gente não lembra de exercícios escolares.

Mas lembra dos camelos.


🕌 Maktub

Há uma palavra frequentemente associada ao universo de Malba Tahan.

Maktub.

Estava escrito.

Mas talvez, no caso dele, devêssemos fazer uma pequena alteração.

Não estava escrito.

Ele escreveu.

Escreveu Malba.

Escreveu Beremiz.

Escreveu desertos que nunca precisou habitar.

Escreveu sábios que nunca existiram.

Escreveu problemas matemáticos que continuam circulando.

E escrevendo essas coisas acabou escrevendo uma pequena parte da memória escolar brasileira.

Nada mal para um professor que resolveu inventar um árabe.


🐫 Epílogo — o camelo que sobrou

Quando terminamos uma boa história de Malba Tahan, frequentemente sobra alguma coisa.

Uma ideia.

Uma pergunta.

Uma pequena surpresa.

Então deixemos uma.

O famoso problema começa com 35 camelos.

Beremiz acrescenta um.

Trinta e seis.

Faz a divisão.

E ao final aparecem camelos excedentes.

Um deles volta para quem o emprestou.

O problema foi resolvido porque alguém introduziu temporariamente algo que aparentemente não pertencia ao problema.

Talvez contar histórias funcione exatamente assim.

Você tem:

35 fatos.

Nenhum deles encaixa perfeitamente.

Então acrescenta um personagem.

Agora existem 36 elementos.

Você organiza.

Divide.

Relaciona.

Explica.

E quando termina…

o personagem pode ir embora.

Os fatos continuam lá.

Só que agora fazem sentido.

Talvez esse tenha sido o grande truque de Malba Tahan.

Ele emprestava um camelo para a matemática.

O camelo chamava-se:

história.

A matemática fazia a viagem.

Depois o camelo voltava.

E o leitor ficava com a resposta.


☕ P.S. — Registro de acesso

Se algum arqueólogo digital encontrar este texto em 2126 e tentar descobrir por que existe um calculista persa andando de camelo dentro de um mainframe IBM, favor registrar:

não houve corrupção no banco de dados.

não foi hallucination da IA.

não foi defeito no WLM.

não foi erro de encoding EBCDIC.

Foi apenas Malba Tahan passando.

Provavelmente procurando os outros dois camelos.

E se você souber onde estão…

não conte.

Beremiz já calculou.



https://eljefemidnightlunch.blogspot.com/2014/07/o-livro-que-passou-pelo-firewall-de.html

Vagner Renato Bellacosa, IBM Champion e especialista em IBM Mainframe
IBM Z17 SYSTEM ONLINE
Sobre o autor

Vagner Renato Bellacosa

IBM Champion 2026 • Especialista em IBM Mainframe

Vagner Renato Bellacosa trabalha com IBM Mainframe desde 1988 , é IBM Champion e especialista em COBOL, CICS, Db2, z/OS e IBM Z. Compartilha experiências profissionais, conhecimento técnico, história da computação e práticas do universo mainframe para aproximar novas gerações das tecnologias que sustentam empresas, bancos e governos ao redor do mundo.

IBM Champion IBM Z COBOL CICS Db2 z/OS Mainframe desde 1988
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