| Bellacosa Mainframe apresenta Malba Tahan |
☕ Um Café no Bellacosa Mainframe
Malba Tahan, Beremiz Samir e o Homem que Inventou um Árabe para Ensinar Matemática ao Brasil
Ou: como um professor brasileiro criou um escritor árabe, depois criou um calculista persa, colocou os dois num camelo e fez gerações inteiras descobrirem que matemática podia contar histórias
Há escritores que inventam personagens.
Há escritores que inventam mundos.
Há escritores que inventam cidades, impérios, idiomas, planetas e genealogias suficientemente complicadas para obrigar algum leitor obsessivo a construir uma planilha.
E houve Júlio César de Mello e Souza.
Esse sujeito resolveu fazer algo mais divertido.
Inventou o próprio escritor.
Não satisfeito, deu-lhe nome.
Malba Tahan.
Depois deu-lhe origem.
Passado.
Personalidade.
Geografia.
Uma atmosfera inteira de desertos, califas, mercadores, palácios, sábios, caravanas e noites estreladas.
E então colocou dentro dessa invenção outro homem.
Um persa chamado:
Beremiz Samir.
O Homem que Calculava.
Portanto, antes de prosseguirmos, convém organizar o datacenter.
Temos três camadas.
Na LPAR 1:
Júlio César de Mello e Souza, brasileiro, professor de matemática.
Na LPAR 2:
Malba Tahan, escritor oriental cuidadosamente fabricado.
Na LPAR 3:
Beremiz Samir, calculista persa capaz de olhar para um problema aparentemente insolúvel e dizer algo equivalente a:
— Calma. Tem um jeito.
É quase impossível imaginar estrutura narrativa mais Bellacosa Mainframe do que essa.
Um personagem dentro de um personagem criado por um homem que usava histórias para explicar problemas que normalmente seriam apresentados numa lousa acompanhados da frase:
“Calcule o valor de x.”
Beremiz provavelmente olharia para o x e perguntaria primeiro quem era o pai dele, quantos camelos possuía e se havia alguma disputa sucessória envolvida.
🐪 Primeiro precisamos encontrar um camelo
Toda boa história começa em algum lugar.
As histórias de Malba Tahan frequentemente parecem começar numa estrada poeirenta entre cidades do Oriente.
Então imagine.
Sol.
Areia.
Uma estrada.
Um camelo caminhando sem qualquer pressa administrativa.
Sobre ele vai um viajante.
Ao longe aparece outro homem.
Ele observa coisas.
Conta coisas.
Pensa em coisas.
Esse homem é Beremiz Samir.
E se você cresceu lendo O Homem que Calculava, provavelmente já sabe que encontrar Beremiz numa estrada é uma situação perigosa.
Porque dentro de três páginas surgirá algum problema.
Pode ser herança.
Pode ser dinheiro.
Pode ser divisão.
Pode ser lógica.
Pode ser geometria.
Pode aparecer um xeque.
Um mercador.
Um vizir.
Um sábio.
Três irmãos discutindo.
Ou naturalmente:
35 camelos.
Esse último caso tornou-se uma das passagens mais famosas de toda a literatura matemática brasileira.
Três irmãos recebem 35 camelos.
A herança deve ser dividida conforme determinadas frações.
A divisão parece impossível sem produzir aquilo que qualquer proprietário de camelos provavelmente considera uma péssima experiência logística:
frações de camelo.
Beremiz olha.
Pensa.
E introduz um camelo adicional na equação.
O problema muda.
As partes tornam-se inteiras.
A divisão funciona.
E no final ainda aparecem camelos sobrando.
É uma pequena obra-prima de apresentação matemática porque o leitor não recebe apenas uma conta.
Recebe um conflito.
E conflito produz curiosidade.
A matemática entra depois.
A própria Secretaria de Educação do Espírito Santo ainda utiliza o famoso problema dos 35 camelos em material pedagógico, prova de que essa pequena caravana literária continua atravessando salas de aula décadas depois.
Essa foi uma das grandes sacadas de Malba Tahan:
primeiro faça o leitor querer saber a resposta.
Depois ensine a matemática.
É exatamente o contrário de muita educação tradicional, na qual primeiro entregamos a fórmula e depois tentamos convencer o aluno de que ele deveria se importar com ela.
Malba fazia engenharia reversa da curiosidade.
🧮 O professor que declarou guerra ao algebrismo
Agora precisamos deixar Beremiz descansando um pouco no oásis e olhar para o homem que estava atrás da cortina.
Júlio César de Mello e Souza nasceu em 1895.
Professor.
Matemático.
Escritor.
Divulgador.
Contador de histórias.
E um crítico ferrenho de uma coisa que ele chamava de:
algebrismo.
A palavra merece ser colocada numa moldura.
Porque continua assustadoramente moderna.
Algebrismo era, grosso modo, a transformação da matemática numa sucessão de operações formais, regras e exercícios sem contexto suficiente para produzir compreensão.
Uma espécie de matemática funcionando como JCL de 1968:
ninguém sabe exatamente por que aquilo existe, mas o operador foi avisado para não mexer.
A Biblioteca Nacional registra justamente essa crítica de Júlio César ao excesso de algebrismo no ensino.
E aqui encontramos o coração da obra.
Malba Tahan não queria simplesmente ensinar a fazer contas.
Queria ensinar a pensar.
Existe uma diferença brutal entre as duas coisas.
Uma calculadora faz contas.
Um estudante precisa aprender a perceber:
— Qual é o problema?
— O que realmente está sendo pedido?
— Existe outra maneira de olhar para isso?
— Todas as informações são necessárias?
— Alguma coisa aparentemente impossível deixa de ser impossível se mudarmos a perspectiva?
Beremiz fazia exatamente isso.
Não era uma HP 12C humana.
Era um resolvedor de problemas.
🎭 Então Júlio criou Malba
Aqui a história fica maravilhosa.
Imagine um jovem brasileiro no começo do século XX escrevendo contos orientais.
Ele tenta publicá-los.
Os jornais não demonstram grande entusiasmo.
Então ocorre uma ideia.
Hoje chamaríamos provavelmente de:
estratégia de marca.
Ou talvez:
growth hacking literário de 1920.
Júlio conclui que aqueles contos talvez recebessem mais atenção se não parecessem escritos por um jovem brasileiro.
Então nasce:
Malba Tahan.
Não apenas um pseudônimo.
Isso seria simples demais.
Júlio construiu uma identidade.
Uma biografia.
Uma persona.
A Prefeitura de São Paulo registra que ele chegou inclusive a criar um suposto tradutor para as obras, o Professor Breno Alencar Bianco, aumentando ainda mais a verossimilhança da fabricação literária.
Isso é extraordinário.
Hoje alguém faria:
malbatahan.com
perfil no LinkedIn:
Malba Tahan — Oriental storyteller | Mathematics enthusiast | Baghdad Metropolitan Area
E provavelmente colocaria:
“Helping people solve complex problems through storytelling.”
Júlio fez tudo isso antes da Internet.
O sujeito criou uma identidade narrativa completa.
A Biblioteca Nacional registra inclusive edições apresentadas como traduzidas diretamente do original árabe, acompanhadas da biografia do suposto autor oriental.
Era uma brincadeira literária?
Sim.
Marketing?
Também.
Experimento de narrativa?
Com certeza.
Mas há algo ainda mais interessante.
Com o tempo, Malba Tahan tornou-se tão real culturalmente que deixou de importar se ele existia biologicamente.
Malba passou a existir porque os leitores sabiam quem ele era.
E essa talvez seja uma das formas mais interessantes de existência.
🧠 Um homem criou outro homem para explicar homens
Agora voltamos ao nosso amigo Beremiz.
Porque existe uma bela escadaria narrativa aqui.
Júlio César cria Malba Tahan.
Malba Tahan cria Beremiz Samir.
Beremiz resolve problemas humanos usando matemática.
Temos então:
Júlio → Malba → Beremiz → problema → solução → leitor.
Quase um pipeline.
SOURCE.
TRANSFORM.
PROCESS.
OUTPUT.
Mas o processamento não termina no resultado numérico.
O verdadeiro output é:
compreensão.
Uma pesquisa acadêmica da USP descreve justamente essa cadeia de criação: Júlio cria Malba, que por sua vez cria Beremiz como veículo literário para aplicar uma determinada concepção de matemática à vida cotidiana.
Isso ajuda a explicar por que os livros sobreviveram.
Eles nunca foram apenas livros de problemas.
Se fossem, teriam envelhecido como antigos manuais escolares.
Eles são histórias.
E histórias possuem uma característica perigosa:
ficam armazenadas em regiões estranhas da memória.
Você pode esquecer completamente como resolver uma determinada equação.
Mas quarenta anos depois alguém diz:
— Trinta e cinco camelos.
E uma pequena portinha se abre no cérebro.
🕌 Bagdá.exe foi carregado
O cenário oriental tinha outra função importante.
Transformava a matemática em aventura.
Bagdá não era apenas uma cidade.
Era interface.
Palácios.
Mercados.
Caravanas.
Mesquitas.
Desertos.
Astrônomos.
Mercadores.
Sábios.
Xeques.
Poetas.
O leitor estava aprendendo matemática, mas pensava estar seguindo uma viagem.
Truque antigo.
Funcionava nas Mil e Uma Noites.
Funcionou com Malba.
Funciona hoje em videogame.
Funciona numa boa aula.
Funciona neste blog.
Você entra porque alguém prometeu uma história sobre mainframe.
Quando percebe, está lendo sobre:
WLM,
zIIP,
R4HA,
COBOL,
psicologia cognitiva,
história romana,
um rinoceronte que Dürer nunca viu
e provavelmente algum macaco bêbado abrindo um barril.
A técnica é a mesma.
Esconda o remédio dentro da sobremesa.
Malba Tahan sabia disso quase cem anos atrás.
📚 Mil Histórias sem Fim
E eis que encontramos um título perfeito para esta homenagem.
Mil Histórias sem Fim.
Malba Tahan publicou uma obra com esse nome.
E há qualquer coisa deliciosamente apropriada nisso.
Porque histórias realmente não terminam.
Elas mudam de hospedeiro.
Um professor conta para um aluno.
O aluno vira professor.
Conta para outro aluno.
Um pai lê um livro.
Décadas depois lembra do problema.
Conta para o filho.
O filho procura na Internet.
Encontra outra versão.
Alguém produz um vídeo.
Outro faz um post.
Outro cria um meme.
Outro escreve um artigo num blog perdido numa esquina da Internet.
E agora temos um velho barbudo em Itatiba tomando café enquanto um calculista persa atravessa o datacenter montado num camelo imaginário.
Se isso não é uma história sem fim, não sei o que seria.
🎓 O professor que queria alunos pensando
Existe um detalhe que considero especialmente importante.
Malba Tahan não pertence apenas à história da literatura.
Pertence à história da educação brasileira.
Seu aniversário, 6 de maio, tornou-se o Dia Nacional da Matemática.
Isso não ocorreu porque ele descobriu uma nova constante matemática.
Nem porque formulou um teorema que carrega seu nome.
A homenagem existe porque ajudou a mudar a relação entre pessoas e matemática.
Essa distinção é belíssima.
Existem matemáticos que expandiram a matemática.
Malba ajudou a expandir o número de pessoas dispostas a entrar nela.
E isso também é ciência.
Divulgação importa.
Didática importa.
Curiosidade importa.
Uma ideia incompreensível é praticamente inútil para quem precisa aprendê-la.
🐫 O incidente dos 35 camelos deveria ser ensinado em TI
Aliás, suspeito que Beremiz seria um excelente arquiteto de sistemas.
Veja o famoso problema dos camelos.
O sistema possui uma restrição.
Os usuários estão brigando.
Os requisitos parecem incompatíveis.
A divisão não fecha.
O desenvolvedor tradicional poderia responder:
NOT POSSIBLE.
Ticket encerrado.
Beremiz faz outra coisa.
Ele muda temporariamente o estado do sistema.
Acrescenta um elemento.
Executa a distribuição.
Remove o excedente.
Problema resolvido.
Isso é praticamente:
temporary capacity provisioning.
Se Beremiz trabalhasse num mainframe provavelmente diria:
— Permita-me acrescentar momentaneamente uma unidade à capacidade disponível.
Depois faria alguma coisa incompreensível envolvendo WLM.
Todos receberiam exatamente os recursos prometidos.
E ainda sobrariam dois MSUs.
O gerente financeiro provavelmente o promoveria imediatamente.
🧙 Beremiz não é um gênio porque calcula rápido
Esse ponto merece cuidado.
Personagens matematicamente talentosos costumam ser apresentados como máquinas.
Calculam números absurdamente rápidos.
Memorizam milhares de dígitos.
Resolvem equações enormes mentalmente.
Beremiz é diferente.
Seu encanto não está apenas na velocidade.
Está na interpretação.
Ele percebe estrutura.
Vê relações.
Descobre simetria.
Reformula perguntas.
Isso aproxima o personagem de uma ideia moderna de inteligência.
A verdadeira habilidade não é possuir respostas.
É saber transformar o problema.
Quando você muda a pergunta, às vezes a resposta aparece sozinha.
Esse é um dos grandes segredos de investigação técnica.
Incidente:
“CPU está alta.”
Pergunta ruim:
— Como baixar CPU?
Pergunta Beremiz:
— Quem está usando CPU, quando começou, qual workload mudou e por que esse consumo apareceu agora?
De repente o problema virou outro.
E talvez CPU nem fosse o problema.
📈 Malba Tahan provavelmente entenderia IA perfeitamente
Agora vamos empurrar o camelo alguns quilômetros além.
Vivemos numa época curiosa.
Inteligência artificial produz respostas.
Muitas.
Rápidas.
Bonitas.
O perigo está em confundir produção de resposta com compreensão.
Malba provavelmente reconheceria imediatamente a armadilha.
Porque seu método não era:
Resposta → aluno.
Era:
Problema → curiosidade → raciocínio → história → descoberta.
Se simplesmente entregássemos a Beremiz uma máquina dizendo:
“Resultado: 17 camelos.”
perderíamos o melhor pedaço.
O caminho.
A surpresa.
A inversão.
Aquele instante em que o leitor pensa:
— Ahhhhhh.
Esse “ahhh” talvez seja a verdadeira unidade de medida da educação.
Poderíamos chamá-la de:
1 Tahan.
Um Tahan corresponde à quantidade mínima de compreensão necessária para um aluno olhar para algo aparentemente complicado e dizer:
— Agora entendi.
Mil Tahans formariam um Beremiz.
A ISO infelizmente ainda não aprovou o padrão.
📰 E o falso árabe venceu
A parte mais saborosa é pensar que a estratégia funcionou.
Malba Tahan tornou-se amplamente conhecido.
Escreveu dezenas de obras sob essa identidade.
O Homem que Calculava, publicado originalmente em 1938, atravessou gerações e ganhou enorme circulação.
O personagem imaginário tornou-se mais famoso do que o cidadão que o inventou.
É quase uma vingança literária.
Júlio queria que publicassem suas histórias.
Criou Malba.
Décadas depois estudantes aprendem:
— Malba Tahan era o pseudônimo de Júlio César de Mello e Souza.
Ou seja:
primeiro aprendemos o nome inventado.
Depois descobrimos o homem real.
A máscara virou rosto.
🪞 E aqui aparece o easter egg
Talvez o leitor já tenha percebido.
Este artigo não é apenas uma homenagem a Malba Tahan.
É também uma pequena demonstração de seu método.
Começamos com um escritor.
Encontramos um personagem.
Depois um camelo.
Então apareceu matemática.
Depois educação.
Depois arquitetura de sistemas.
Depois mainframe.
Depois inteligência artificial.
E agora estamos falando sobre como histórias transmitem conhecimento.
Ou seja:
o texto foi mudando enquanto caminhávamos.
Como uma caravana.
Esse é o easter egg.
Malba não está apenas sendo mencionado.
A estrutura está tentando imitá-lo.
🐪 Beremiz chega ao Bellacosa Mainframe
Imagino então uma cena.
Madrugada.
03h17.
Algum lugar de Itatiba.
Datacenter metafórico funcionando.
Café.
Logs.
Um terminal 3270 aberto.
De repente surge um homem trajando roupas persas.
Atrás dele, naturalmente, um camelo.
Segurança imediatamente abre chamado.
ICH408I BEREMIZ LOGON REJECTED.
O homem olha tranquilamente para o console.
Pergunta quantos jobs estão executando.
Quantos aguardam.
Qual a prioridade.
Qual a capacidade total.
Qual a distribuição.
O operador responde.
Beremiz pensa por alguns segundos.
— Há um erro.
O operador verifica.
Nada.
Beremiz aponta.
— Existem quarenta tarefas, mas vocês estão planejando capacidade como se fossem cinquenta.
Silêncio.
RMF é aberto.
WLM consultado.
SMF analisado.
Beremiz tinha razão.
Um workload havia sido duplicado por erro numa integração.
O gerente pergunta:
— Como descobriu?
Beremiz sorri.
— Contei os camelos.
☕ E Júlio César observa de longe
Talvez esta seja a parte mais bonita.
O verdadeiro homem desaparece lentamente atrás da própria obra.
Júlio César de Mello e Souza morreu em 1974.
Mas Malba continua.
Beremiz continua.
Os camelos continuam.
O problema continua sendo contado.
Professores continuam usando suas histórias.
A USP ainda produz materiais inspirados em seu trabalho e resgata seus problemas para novas gerações.
Isso é uma espécie de imortalidade bastante razoável.
Não aquela dos monumentos.
Mas a melhor.
Aquela em que alguém que nunca conheceu você continua usando uma ideia sua.
🧠 A verdadeira conta de Malba Tahan
Talvez a maior equação criada por Malba nunca tenha aparecido em seus livros.
É esta:
História + Curiosidade = Aprendizado
Mas podemos melhorá-la.
Beremiz certamente melhoraria.
Vamos acrescentar algumas variáveis:
Problema + Personagem + Curiosidade + Surpresa = Conhecimento memorável
Agora temos algo interessante.
Porque conhecimento sozinho pode ser esquecido.
Conhecimento ligado a emoção, narrativa ou descoberta costuma criar raízes.
É por isso que tanta gente não lembra de exercícios escolares.
Mas lembra dos camelos.
🕌 Maktub
Há uma palavra frequentemente associada ao universo de Malba Tahan.
Maktub.
Estava escrito.
Mas talvez, no caso dele, devêssemos fazer uma pequena alteração.
Não estava escrito.
Ele escreveu.
Escreveu Malba.
Escreveu Beremiz.
Escreveu desertos que nunca precisou habitar.
Escreveu sábios que nunca existiram.
Escreveu problemas matemáticos que continuam circulando.
E escrevendo essas coisas acabou escrevendo uma pequena parte da memória escolar brasileira.
Nada mal para um professor que resolveu inventar um árabe.
🐫 Epílogo — o camelo que sobrou
Quando terminamos uma boa história de Malba Tahan, frequentemente sobra alguma coisa.
Uma ideia.
Uma pergunta.
Uma pequena surpresa.
Então deixemos uma.
O famoso problema começa com 35 camelos.
Beremiz acrescenta um.
Trinta e seis.
Faz a divisão.
E ao final aparecem camelos excedentes.
Um deles volta para quem o emprestou.
O problema foi resolvido porque alguém introduziu temporariamente algo que aparentemente não pertencia ao problema.
Talvez contar histórias funcione exatamente assim.
Você tem:
35 fatos.
Nenhum deles encaixa perfeitamente.
Então acrescenta um personagem.
Agora existem 36 elementos.
Você organiza.
Divide.
Relaciona.
Explica.
E quando termina…
o personagem pode ir embora.
Os fatos continuam lá.
Só que agora fazem sentido.
Talvez esse tenha sido o grande truque de Malba Tahan.
Ele emprestava um camelo para a matemática.
O camelo chamava-se:
história.
A matemática fazia a viagem.
Depois o camelo voltava.
E o leitor ficava com a resposta.
☕ P.S. — Registro de acesso
Se algum arqueólogo digital encontrar este texto em 2126 e tentar descobrir por que existe um calculista persa andando de camelo dentro de um mainframe IBM, favor registrar:
não houve corrupção no banco de dados.
não foi hallucination da IA.
não foi defeito no WLM.
não foi erro de encoding EBCDIC.
Foi apenas Malba Tahan passando.
Provavelmente procurando os outros dois camelos.
E se você souber onde estão…
não conte.
Beremiz já calculou.
https://eljefemidnightlunch.blogspot.com/2014/07/o-livro-que-passou-pelo-firewall-de.html