| Bellacosa Mainframe e os 12 macacos cobol virus coisas q nao cabiam no racf |
☕ Um Café no Bellacosa Mainframe
🐒 Os 12 Macacos, COBOL e o Vírus que Não Cabia no RACF
ARCO I — CAPÍTULO I
Quando a informação começou a se comportar como epidemia
Não era exatamente um vírus. Não destruía arquivos, não formatava discos e não provocava um S0C7. Era muito pior para quem pretendia controlá-lo: era uma ideia.
🕰️ 00:00 — Algum lugar entre 1996 e 2026
Imagine que você é um programador COBOL.
Não um desses personagens cinematográficos que digitam furiosamente:
ACCESS MAINFRAME
HACK PENTAGON
PASSWORD ACCEPTED
Não.
Você é um COBOLzeiro legítimo.
Você acredita em coisas civilizadas.
Dataset tem nome.
Programa tem versão.
Usuário tem identificação.
Arquivo tem catálogo.
Transação tem log.
Acesso tem autorização.
Produção tem RACF.
Problema tem chamado.
E, se Deus, JES2 e o storage permitirem, aquilo que foi gravado em algum lugar pode ser encontrado novamente.
Existe uma certa beleza nisso.
O mainframe é uma civilização construída sobre a ideia de que controle importa.
Então alguém coloca você diante da Internet.
Você olha.
Ela olha de volta.
E pergunta:
— Onde está o catálogo?
Ninguém responde.
— Quem é o administrador?
Silêncio.
— Qual é o nó principal?
Risadas.
— Quem autorizou esse usuário?
Mais risadas.
Então você faz a pergunta definitiva:
— Como eu deleto isso de todos os lugares?
Nesse momento Bruce Willis aparece no corredor, olha para você com aquela expressão cansada de quem já tentou salvar o futuro algumas vezes e responde:
— Você não deleta.
Bem-vindo ao primeiro capítulo.
Coloque café.
Vai piorar.
🐒 1. O Exército dos 12 Macacos entra no CPD
Os 12 Macacos (12 Monkeys, 1995), dirigido por Terry Gilliam, é uma das melhores metáforas possíveis para conversarmos sobre Internet, censura, liberdade, subculturas digitais e circulação de informação.
No filme, a humanidade vive as consequências de uma catástrofe biológica.
Existe um passado.
Existe um futuro devastado.
Existe uma tentativa de descobrir a origem.
Existe informação fragmentada.
Existem interpretações erradas.
Existem pistas.
Existem pessoas tentando impedir acontecimentos que talvez já façam parte da própria história.
E, acima de tudo, existe uma obsessão:
encontrar o paciente zero.
Na Internet fazemos isso o tempo inteiro.
Uma coisa aparece.
Um meme explode.
Uma teoria se espalha.
Uma palavra estranha começa a ser utilizada.
Uma comunidade desconhecida torna-se notícia.
Um comportamento considerado perigoso aparece entre adolescentes.
Uma plataforma é acusada.
Um telejornal pergunta:
"De onde veio isso?"
O governo pergunta.
Os pais perguntam.
A polícia pergunta.
Os jornalistas perguntam.
As plataformas perguntam.
E o velho programador COBOL pergunta algo ainda mais pragmático:
QUAL FOI O JOB QUE GEROU ESSA PORCARIA?
Porque no mainframe essa pergunta faz sentido.
Na Internet, nem sempre.
🦠 2. Informação não é vírus — mas às vezes se comporta como um
Precisamos estabelecer uma diferença importante.
Uma informação não é literalmente um organismo.
Um meme não possui metabolismo.
Uma postagem não tem DNA.
Um vídeo não espirra.
Entretanto, existe uma semelhança fascinante na maneira como conteúdos circulam.
Uma pessoa recebe.
Ela transmite.
Outra modifica.
A terceira retransmite.
Uma comunidade adapta.
Outra comunidade traduz.
Alguém transforma em imagem.
Outro cria uma piada.
Outro inventa uma abreviação.
Outro faz um vídeo.
Alguém denuncia.
Um jornalista publica uma matéria sobre a denúncia.
Milhares de pessoas que jamais tinham ouvido falar do assunto descobrem que ele existe.
Temos então algo parecido com:
PESSOA A
|
v
INFORMAÇÃO
|
+------> PESSOA B
| |
| +------> PESSOA D
|
+------> PESSOA C
|
+------> COMUNIDADE
|
+------> OUTRA REDE
Só que existe uma diferença terrível.
Durante a transmissão, a informação pode sofrer mutação.
Quem já trabalhou décadas com sistemas conhece perfeitamente o problema.
É o telefone sem fio transformado em arquitetura distribuída.
🧬 3. A mutação digital
Considere uma frase:
"Aconteceu X."
Alguém repassa:
"Parece que aconteceu X."
Outro:
"Confirmaram que aconteceu X."
Outro:
"Estão escondendo que aconteceu X."
Outro:
"A imprensa não quer que você saiba que aconteceu X."
Finalmente aparece:
"URGENTE!!! COMPARTILHE ANTES QUE APAGUEM!!!"
Pronto.
O dado inicial pode ter desaparecido completamente.
O que circula agora não é mais o registro original.
É uma linhagem.
Para um COBOLzeiro isso é perturbador.
Imagine atualizar um cadastro bancário assim:
MOVE WS-SALDO TO CLIENTE-SALDO
mas cada sistema intermediário pudesse decidir:
IF EU-ACHO-QUE-EH-ISSO
ADD 20 TO CLIENTE-SALDO
END-IF
Seríamos todos milionários aproximadamente quinze minutos antes da intervenção do Banco Central.
Na cultura digital, entretanto, essa transformação acontece continuamente.
Memes são mutações.
Gírias são mutações.
Recortes são mutações.
Remixes são mutações.
Screenshots são mutações de contexto.
Vídeos curtos retirados de vídeos longos podem produzir novas interpretações.
Uma informação deixa de possuir apenas conteúdo.
Ela ganha uma história de transmissão.
🏛️ 4. O mainframe acredita em autoridade
Vamos voltar ao nosso habitat natural.
Imagine um ambiente z/OS.
Existe segurança.
Existe identidade.
Existe autenticação.
Existe autorização.
Existe auditoria.
Temos RACF ou outro produto equivalente trabalhando dentro de uma arquitetura em que recursos podem ser protegidos.
O conceito fundamental é simples:
nem todo usuário pode fazer qualquer coisa.
Se BELLACOSA tentar acessar algo para o qual não possui autorização, podemos encontrar algo conceitualmente semelhante a:
ICH408I USER(BELLACOS)
ACCESS INTENT(READ)
ACCESS ALLOWED(NONE)
É frustrante?
Às vezes.
Mas existe lógica.
Existe uma autoridade capaz de dizer:
não.
Agora transportemos esse raciocínio para uma rede mundial formada por bilhões de dispositivos, empresas, governos, redes privadas, servidores, aplicações, protocolos e pessoas.
Quem possui o SPECIAL?
Resposta:
ninguém possui o SPECIAL da Internet inteira.
Esse detalhe muda tudo.
🌐 5. A Internet não nasceu como um grande Facebook
Para as gerações que chegaram depois, é fácil imaginar a Internet como uma coleção de aplicativos.
Instagram.
WhatsApp.
YouTube.
TikTok.
Discord.
Reddit.
Telegram.
X.
Mas a cultura digital é mais antiga que essas interfaces.
Antes dos feeds infinitos existiram comunidades muito mais rudimentares.
BBS.
Usenet.
IRC.
Listas de discussão.
FTP.
Newsgroups.
Fóruns.
Chats.
E posteriormente ICQ, mIRC e inúmeros mecanismos improvisados de encontro.
A Internet daquela época tinha uma característica importantíssima:
você precisava procurar.
Hoje um algoritmo pode decidir:
"Você assistiu sete segundos disso. Talvez queira mais."
Naquela Internet, frequentemente você precisava saber:
que determinada comunidade existia;
onde ela estava;
como chegar;
qual programa utilizar;
quais palavras eram utilizadas;
como conversar;
quais regras informais existiam.
Era quase geografia.
Existiam continentes invisíveis.
E as palavras eram coordenadas.
🔤 6. A palavra como endereço
Aqui começa uma das partes mais interessantes de nossa história.
Antes de algoritmos sofisticados compreenderem aproximadamente o que você deseja, saber o vocabulário correto era poder.
Você poderia procurar durante horas por uma coisa sem encontrá-la simplesmente porque não conhecia a palavra usada por aquela comunidade.
Então alguém ensinava o termo.
E tudo mudava.
É como entrar no ISPF sem saber o nome do dataset.
Você sabe que alguma coisa existe.
Mas tente procurar:
'ALGUMA.COISA.QUE.NAO.SEI'
Boa sorte.
Agora alguém cochicha:
HLQ.PROJETO.ARQUIVO
Pronto.
A porta apareceu.
É por isso que vocabulários, códigos, abreviações e gírias possuem tanta importância nas subculturas digitais.
Eles funcionam simultaneamente como:
identidade, filtro, senha cultural e mecanismo de descoberta.
E aqui começa nosso primeiro grande paradoxo.
📰 7. O jornalista quer alertar
Imagine um telejornal dos anos 1990.
Ou uma revista semanal.
A pauta é:
"Os perigos da Internet."
A intenção pode ser absolutamente legítima.
Pais precisam conhecer riscos.
Professores precisam compreender novos comportamentos.
Autoridades precisam saber que determinados fenômenos existem.
O público precisa ser informado.
Então a reportagem explica:
"Existe uma nova prática chamada X."
O espectador em casa pensa:
X?
A reportagem continua:
"Usuários encontram esse material procurando pela expressão Y."
O espectador pega uma caneta.
Y.
"Eles utilizam programas como Z."
Anotado.
Temos agora um fenômeno curioso.
Antes da reportagem:
USUARIO-CONHECE-ASSUNTO = 'N'
USUARIO-CONHECE-TERMO = 'N'
USUARIO-CONHECE-MEIO = 'N'
Depois:
USUARIO-CONHECE-ASSUNTO = 'S'
USUARIO-CONHECE-TERMO = 'S'
USUARIO-CONHECE-MEIO = 'S'
CURIOSIDADE = 100
O alerta também transmitiu conhecimento operacional.
☢️ 8. Informação sobre perigo também é informação
Isso não significa que a imprensa deva esconder perigos.
Muito pelo contrário.
Existe interesse público em informar.
O problema é mais sofisticado:
quanto detalhe é necessário para explicar um risco sem transformar a explicação em mecanismo de descoberta?
Essa pergunta existia antes da Internet.
Mas a Internet multiplicou sua importância.
Imagine um telejornal dizendo:
"Existe um golpe bancário."
Ótimo.
Agora imagine que, para demonstrar o perigo, ele descreva detalhadamente cada etapa operacional necessária para reproduzi-lo.
Em determinado ponto, educação e exposição operacional começam a se aproximar perigosamente.
Segurança da informação conhece esse dilema há décadas.
Divulgação responsável de vulnerabilidades existe justamente porque:
conhecimento pode proteger e atacar.
Tudo depende de contexto, detalhe, intenção e capacidade.
🔥 9. O fruto proibido recebeu hyperlink
Existe ainda uma característica profundamente humana.
Diga:
"Não abra aquela porta."
O cérebro responde:
"O que existe atrás daquela porta?"
Diga:
"Não pesquise essa palavra."
E acabamos de ensinar uma palavra nova.
Diga:
"Esse site é tão absurdo que deveria desaparecer."
E algumas pessoas perguntarão:
"Qual site?"
Isso não significa que toda proibição aumente necessariamente a circulação de conteúdo.
Esse seria um erro importante.
Remoções podem funcionar.
Moderação pode reduzir exposição.
Desindexação pode dificultar descoberta.
Investigações podem desmontar redes criminosas.
Controles podem proteger vítimas.
Mas existe uma variável que nenhum IF elimina completamente:
01 HUMAN-CURIOSITY PIC 9(03) VALUE 999.
E ela participa de praticamente toda a história da comunicação.
🚨 10. Censura, moderação e crime não são sinônimos
Precisamos colocar uma placa enorme neste capítulo:
NÃO JOGUE TUDO NO MESMO OCCURS.
Quando alguém diz:
"Isso é censura!"
precisamos perguntar:
Quem removeu?
Foi o Estado?
Foi uma ordem judicial?
Foi uma empresa privada aplicando suas regras?
Foi o administrador de uma comunidade?
Foi um moderador?
Foi um sistema automático?
Houve crime?
Houve apenas violação dos termos de serviço?
São situações diferentes.
Um administrador expulsar alguém de um servidor Discord não possui automaticamente o mesmo significado jurídico de um Estado proibir determinada manifestação.
Uma plataforma remover conteúdo segundo suas políticas também não é automaticamente equivalente a uma condenação criminal.
E uma investigação policial sobre uma conduta prevista em lei não pode ser reduzida simplesmente a:
"Estão censurando a Internet."
Essa distinção será fundamental quando chegarmos ao ECA.
Porque existe uma fronteira em que nossa conversa deixa de tratar apenas de liberdade e passa a tratar também de proteção de pessoas vulneráveis e condutas criminalizadas pela legislação brasileira.
Esse assunto merece capítulo próprio.
E terá.
👶 11. A variável que muda toda a equação
Existe uma diferença enorme entre uma comunidade formada exclusivamente por adultos e ambientes frequentados também por crianças e adolescentes.
Não apenas culturalmente.
Juridicamente.
Eticamente.
Arquitetonicamente.
Um serviço digital pode pensar:
USER = USER
A sociedade não pode simplesmente fazer isso.
Idade importa.
Vulnerabilidade importa.
Assimetria de poder importa.
Exploração importa.
A legislação brasileira estabelece proteção especial a crianças e adolescentes.
Consequentemente, quando começarmos a discutir Discord, Telegram, WhatsApp, fóruns e comunidades digitais, não será suficiente perguntar:
"Existe liberdade de expressão?"
Precisaremos também perguntar:
"Quem está naquele ambiente?"
E:
"O que está acontecendo com essas pessoas?"
Liberdade não transforma crime em opinião.
Da mesma maneira, preocupação com crime não deveria transformar qualquer comportamento estranho, subcultura ou manifestação desagradável automaticamente em crime.
Essa distinção é difícil.
Por isso ela importa.
🧑💻 12. Nasce a tribo digital
Agora chegamos às subculturas.
Toda comunidade humana cria linguagem.
Médicos fazem isso.
Advogados fazem.
Militares fazem.
Programadores fazem.
Mainframeiros fazem isso de maneira quase criminosa.
Experimente colocar uma pessoa normal numa conversa:
"O AOR chamou o programa via LINK, pegou AEI9 porque o arquivo estava indisponível, depois vimos no SDSF que o batch tinha quebrado e precisamos conferir o RACF."
A pessoa pergunta:
Vocês são uma seita?
Talvez.
Mas esse vocabulário possui função.
Ele comprime conhecimento.
Quem conhece o contexto entende rapidamente.
Subculturas digitais fazem exatamente a mesma coisa.
Criam:
palavras;
abreviações;
memes;
referências;
símbolos;
piadas internas;
códigos;
maneiras específicas de escrever.
Isso gera pertencimento.
Mas também pode dificultar a compreensão externa.
🕵️ 13. Quando o moderador aprende a palavra
Imagine uma plataforma tentando impedir determinado comportamento.
Ela descobre que usuários utilizam:
PALAVRA-X
Então cria:
IF MESSAGE CONTAINS PALAVRA-X
BLOCK MESSAGE
END-IF
Problema resolvido?
Claro que não.
Somos programadores.
Sabemos que nunca termina no primeiro IF.
Os usuários percebem.
Substituem a palavra.
O sistema aprende a nova palavra.
Os usuários inventam outra.
Entram abreviações.
Depois imagens.
Depois memes.
Depois contexto.
Depois ironia.
Depois códigos conhecidos apenas pelos membros.
Temos uma corrida:
FILTRO
↓
ADAPTAÇÃO
↓
NOVO FILTRO
↓
NOVA ADAPTAÇÃO
↓
CLASSIFICADOR
↓
NOVO DIALETO
↓
IA
↓
NOVO CONTEXTO
É uma guerra semântica.
E estamos apenas começando.
🐒 14. Onde estão os 12 Macacos?
Essa é a pergunta perfeita.
Quando alguma coisa ruim acontece numa comunidade digital, existe uma tentação enorme de procurar:
O grupo responsável.
Pode existir.
Em crimes organizados, evidentemente pode haver indivíduos, grupos, estruturas e responsabilidades identificáveis.
Mas fenômenos culturais amplos frequentemente não possuem uma única sala secreta onde doze pessoas decidiram:
"A partir de amanhã todos farão isso."
Eles emergem.
Um usuário copia outro.
Uma piada atravessa comunidades.
Um termo migra.
Um algoritmo recomenda.
Um influenciador comenta.
Um jornal noticia.
Um adversário denuncia.
Alguém publica a denúncia.
A denúncia viraliza.
Pessoas descobrem o conteúdo através da própria denúncia.
Agora tente desenhar o diagrama de causa.
Boa sorte.
🧮 15. O COBOLzeiro procura o ROOT CAUSE
Nós fomos treinados para isso.
Produção caiu.
War Room.
Café.
Logs.
Dump.
SMF.
Abend.
Horário.
Mudança.
Programa.
Transação.
Dataset.
ROOT CAUSE.
Encontramos.
Corrigimos.
Documentamos.
Encerramos incidente.
Na cultura digital, frequentemente encontramos isto:
CAUSE-A ---> EVENT
CAUSE-B ---> EVENT
CAUSE-C ---> EVENT
^ |
| v
+----- REACTION
|
v
MEDIA
|
v
MORE USERS
|
v
EVENT-2
A consequência alimenta a causa.
É feedback.
A notícia modifica o fenômeno noticiado.
A moderação modifica o comportamento moderado.
A proibição modifica o vocabulário.
O algoritmo modifica aquilo que as pessoas produzem.
As pessoas aprendem a modificar o conteúdo para agradar ao algoritmo.
E o algoritmo aprende com aquilo que as pessoas modificaram para agradá-lo.
Terry Gilliam provavelmente sorriria.
📡 16. Ontem você procurava a subcultura
Existe uma diferença que será essencial nos próximos capítulos.
Na velha Internet, muitas comunidades eram relativamente difíceis de encontrar.
Era preciso conhecer alguém.
Saber um endereço.
Encontrar um fórum.
Descobrir um canal.
Aprender uma palavra.
Instalar determinado programa.
Isso criava fricção.
Fricção é uma coisa subestimada.
Para chegar ao conteúdo você precisava executar:
INTERESSE
+
CONHECIMENTO
+
FERRAMENTA
+
ESFORÇO
Hoje existe outra possibilidade:
INTERESSE = 0
ALGORITHM:
SHOW CONTENT
Você não encontrou a comunidade.
A comunidade encontrou você.
Essa transformação talvez seja uma das maiores mudanças da história das subculturas digitais.
E será central quando chegarmos às redes sociais.
🤖 17. O algoritmo não precisa gostar de você
Outra confusão frequente:
"O algoritmo quer isso."
Algoritmos não precisam possuir desejos humanos.
Um sistema de recomendação pode simplesmente estar otimizado para algum conjunto de objetivos.
Clique.
Retenção.
Visualização.
Interação.
Engajamento.
Conversão.
Se determinado conteúdo produz reação, ele pode ganhar circulação dependendo da arquitetura e dos critérios utilizados.
E indignação também é interação.
Você vê algo absurdo.
Comenta:
"QUE ABSURDO!"
Compartilha:
"VEJAM QUE ABSURDO!"
Cinco pessoas respondem.
Três brigam.
Alguém faz vídeo respondendo.
Parabéns.
Você talvez tenha acabado de fornecer sinais de interesse ao ecossistema que desejava combater.
É o equivalente digital a tentar apagar incêndio com:
//EXTING JOB
//STEP01 EXEC PGM=IEBGENER
//SYSUT1 DD *
GASOLINA
/*
📰 18. O paradoxo da denúncia
Isso nos leva novamente à imprensa.
Denunciar é necessário.
Investigar é necessário.
Informar é necessário.
Mas a forma da informação importa.
Existe diferença entre:
"Autoridades identificaram determinada prática perigosa e explicamos como se proteger."
e fornecer detalhes desnecessários que facilitem reprodução ou descoberta.
O mesmo problema aparece em:
segurança cibernética;
golpes;
desafios perigosos;
extremismo;
automutilação;
exploração;
fraudes;
determinadas comunidades criminosas.
Existe um equilíbrio delicado entre:
informar suficientemente para proteger
e
detalhar suficientemente para ensinar.
Não existe algoritmo perfeito para determinar essa fronteira.
Nem jornalista perfeito.
Nem moderador perfeito.
Nem IA perfeita.
🧠 19. A memória humana é o backup que ninguém consegue apagar
Agora chegamos ao detalhe que destrói definitivamente nosso sonho de DELETE.
Suponha que uma informação seja removida.
Servidor apagado.
Postagem removida.
Conta excluída.
Acabou?
Não necessariamente.
Alguém viu.
Alguém lembra.
Alguém anotou.
Alguém tirou screenshot.
Alguém comentou em outro lugar.
Alguém explicou para outra pessoa.
Mesmo que todas as cópias digitais desaparecessem magicamente, existe um dispositivo extremamente inconveniente:
cérebro humano.
Não possui interface REST confiável.
Não aceita DELETE.
Não possui transação distribuída.
E frequentemente altera os registros sem preservar o original.
É provavelmente o pior banco de dados já colocado em produção.
Mesmo assim, continuamos utilizando há alguns milhares de anos.
🦠 20. O verdadeiro vírus
Talvez agora possamos entender nossa metáfora.
O vírus de nossa história não é Facebook.
Não é Discord.
Não é Telegram.
Não é Reddit.
Não é televisão.
Não é jornal.
Não é eMule.
Não é IRC.
Não é algoritmo.
Essas coisas são, dependendo do contexto, ambientes, vetores, amplificadores, filtros ou barreiras.
O elemento que atravessa todos eles é:
INFORMAÇÃO.
E informação possui uma característica extraordinária:
ela pode ser copiada sem que o original desapareça.
Se eu lhe entregar meu relógio, fico sem relógio.
Se eu lhe entregar uma informação, agora somos dois possuindo a informação.
Isso muda completamente a economia da propagação.
☕ 21. Easter egg: o operador recebe uma mensagem
São 03:17.
Nosso programador está sozinho no CPD.
Existe uma caneca de café cuja composição química já não pode ser determinada pelas técnicas disponíveis à ciência.
O terminal 3270 pisca.
Surge uma mensagem que ele não reconhece:
BELLACOSA INFORMATION CONTROL FACILITY
--------------------------------------
SYSTEM TIME....: UNKNOWN
ORIGIN.........: UNKNOWN
NETWORK........: GLOBAL
INCIDENT TYPE..: INFORMATION OUTBREAK
PATIENT ZERO...: NOT FOUND
COPIES.........: UNKNOWN
MUTATIONS......: ACTIVE
ENTER COMMAND ===> _
O programador pensa.
Digita:
DELETE INFORMATION
Resposta:
COMMAND REJECTED
REASON:
INFORMATION EXISTS ON REMOTE NODES.
Ele tenta:
DELETE REMOTE NODES
Resposta:
COMMAND REJECTED
REASON:
REMOTE NODES ARE NOT UNDER YOUR AUTHORITY.
Irritado:
RACF PERMIT INTERNET CLASS(*) ACCESS(NONE)
Silêncio.
Então:
ICH408I INTERNET NOT DEFINED TO RACF
O programador tira os óculos.
Olha para o café.
Olha novamente para a tela.
Finalmente pergunta:
WHO CONTROLS INTERNET?
O cursor permanece parado por alguns segundos.
Então surge:
NO SINGLE OWNER FOUND.
Mais uma linha:
WARNING:
SEARCHING FOR PATIENT ZERO MAY CHANGE THE OUTBREAK.
E outra:
12 MONKEYS STATUS: UNKNOWN
A tela apaga.
🐒 22. E talvez esse seja o verdadeiro problema
Passamos décadas tentando aplicar metáforas do mundo físico ao digital.
Biblioteca.
Página.
Documento.
Lixeira.
Pasta.
Arquivo.
Correio.
Endereço.
Comunidade.
Parede.
Amigo.
Seguidor.
Canal.
Todas ajudam.
Nenhuma explica completamente o fenômeno.
Talvez precisemos acrescentar outra:
epidemiologia da informação.
Não para dizer que ideias são doenças.
Isso seria simplista e perigoso.
Mas para compreender que informação possui:
origem;
transmissão;
alcance;
mutação;
comunidades;
barreiras;
vetores;
amplificadores;
resistência;
memória.
E, principalmente, efeitos inesperados das tentativas de intervenção.
🔮 23. O que vem depois
Nosso COBOLzeiro ainda acredita que conseguirá encontrar o paciente zero.
Coitado.
No próximo capítulo vamos colocá-lo diante de algo ainda mais estranho.
Uma revista ou um telejornal deseja proteger o público.
Produz uma reportagem sobre alguma coisa que poucas pessoas conhecem.
Explica o nome.
Mostra o fenômeno.
Apresenta o vocabulário.
Talvez indique até os ambientes nos quais aquilo circula.
No dia seguinte milhares de curiosos sabem uma coisa que não sabiam anteriormente:
o que procurar.
E começaremos a investigar uma pergunta desconfortável:
É possível denunciar alguma coisa sem também aumentar sua visibilidade?
Porque existe uma diferença gigantesca entre dizer:
"Existe uma porta perigosa."
e explicar:
"A porta fica no terceiro corredor, à esquerda, e esta é a palavra escrita nela."
🖥️ FINAL DO CAPÍTULO I
No CPD, o terminal volta a acender sozinho.
BELLACOSA MAINFRAME
------------------------------------
INCIDENT: INFORMATION OUTBREAK
PATIENT ZERO........ NOT FOUND
TRANSMISSION........ ACTIVE
MUTATION............ ACTIVE
HUMAN CURIOSITY..... ACTIVE
NEXT TRACE SOURCE:
[ ] BBS
[ ] USENET
[ ] IRC
[ ] TELEVISION
[ ] NEWSPAPER
[X] MAGAZINE
SOURCE IDENTIFIED:
VEJA
WARNING:
THE SOURCE MAY NOT HAVE CREATED
THE INFORMATION.
IT MAY HAVE DONE SOMETHING
FAR MORE INTERESTING:
TAUGHT PEOPLE WHAT TO SEARCH FOR.
------------------------------------
ARC I
CHAPTER I........... COMPLETE
CHAPTER II.......... WAITING
COMMAND ===> _
Bruce Willis observa o terminal.
O COBOLzeiro pergunta:
— Então no próximo capítulo encontramos o culpado?
Bruce Willis balança a cabeça.
— Não.
— Encontramos pelo menos o paciente zero?
— Também não.
— Então o que encontramos?
Ele olha para uma velha revista sobre a mesa.
— O manual.
CONTINUA...
🐒 Próximo capítulo
ARCO I — CAPÍTULO II
📺 "Não procure isto na Internet" — e milhões descobriram o que procurar
Revista Veja, televisão, jornais, palavras-chave, curiosidade, pânico moral, efeito Streisand e o curioso período da história em que uma reportagem podia tentar ensinar os pais a proteger os filhos — enquanto um adolescente diante do computador anotava cuidadosamente cada palavra nova que aparecia na matéria.