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segunda-feira, 24 de agosto de 2026

☕ Os Cem Barris de Saquê — Como Cinco Estudantes de Psicologia Levaram um Milhão de Chimpanzés de uma Tier List até a Teoria da Informação

 

Bellacosa Mainframe e os 5 estudantes e sua lista que deu ruim

☕ Um Café no Bellacosa Mainframe

☕ Os Cem Barris de Saquê — Como Cinco Estudantes de Psicologia Levaram um Milhão de Chimpanzés de uma Tier List até a Teoria da Informação

Ou: uma notícia sobre um grupo fechado virou discussão sobre privacidade, Valderrama, Mounjaro, Cyberpunk 2077, o Barão Vermelho, Malba Tahan, SEO, crawlers de Singapura, formigas, infovias e a descoberta de que uma conversa aparentemente bêbada pode conservar perfeita rastreabilidade

Pegue um café.

Hoje não vamos falar exatamente de Psicologia.

Nem de Cyberpunk.

Nem de SEO.

Nem de Manfred von Richthofen.

Nem de Malba Tahan.

Nem de Carlos Valderrama.

Nem de crawlers de Singapura.

Nem de formigas.

Nem sequer dos chimpanzés.

Embora, naturalmente, haja um milhão deles no datacenter e alguém já tenha aberto o centésimo barril de saquê.

Hoje vamos falar de uma coisa muito mais perigosa:

uma conversa que se recusou a morrer.

Tudo começou com uma notícia.

Cinco estudantes de Psicologia estavam sendo investigados por um ranking envolvendo dezenas de universitárias.

Tier list.

Fotografias.

Comentários.

Grupo fechado.

Indignação.

Polícia.

Universidade.

Imprensa.

Até aí, nada indicava que algumas horas depois estaríamos discutindo Hayao Miyazaki, a Primeira Guerra Mundial, Mounjaro, Tolkien, o Guia dos Curiosos e infraestrutura semântica para inteligências artificiais.

Se alguém tivesse previsto isso no primeiro parágrafo, eu teria recomendado reduzir a dose.

Mas aconteceu.

E o mais curioso:

há uma trilha entre todos os assuntos.



🐒 1. O primeiro chimpanzé encontrou uma tier list

A notícia possuía um detalhe que me chamou mais atenção que o próprio ranking.

Aquilo aparentemente havia nascido num grupo fechado.

Não era enquete pública.

Não era postagem aberta.

Não era:

“Vote aqui na mais bonita da faculdade.”

Era uma pequena confraria digital.

Alguém precisava entrar.

Alguém precisava pertencer.

Alguém precisava ser considerado parte daquele espaço.

Então apareceu a primeira pergunta:

como aquilo saiu dali?

Pronto.

Primeiro chimpanzé contratado.

Ele abriu uma cerveja.

Ainda não havia saquê.



🕵️ 2. Entrou o cagueta

A conversa foi imediatamente para uma figura muito mais antiga que WhatsApp, Telegram ou Discord:

o informante.

O infiltrado.

O X-9.

O alcaguete.

O cagueta.

O sujeito que entra, observa, coleta e entrega.

Não sabemos se houve realmente um infiltrado naquele caso.

Talvez um membro legítimo tenha se indignado.

Talvez alguém tenha mostrado o telefone para terceiros.

Talvez o conteúdo tenha passado por várias mãos.

Mas a questão apareceu:

um grupo privado continua privado se qualquer membro pode mudar unilateralmente sua audiência?

Excelente pergunta.

O chimpanzé chamou outro chimpanzé.



🍺 3. O Boteco de Itatiba entrou na investigação

Porque qualquer grupo de amigos com alguns anos de estrada conhece uma verdade simples:

há coisas que pertencem ao contexto em que foram ditas.

Conversa de boteco é uma delas.

O problema é que o boteco analógico possuía uma extraordinária política de governança de dados.

Você dizia uma enorme besteira.

Seu amigo respondia uma ainda maior.

O garçom trazia outra cerveja.

Algumas horas depois:

RETENTION PERIOD = 0

A conversa desaparecia.

Talvez alguém lembrasse.

Provavelmente lembrava errado.

E a humanidade seguia.

Então inventamos o smartphone.

Agora a besteira tem:

timestamp,

autor,

fotografia,

histórico,

backup,

busca,

screenshot,

encaminhamento.

O boteco virou cartório.

No Boteco de Itatiba adotamos uma solução civilizada:

mensagens temporárias de sete dias.

Não porque estejamos planejando um golpe de Estado.

Provavelmente estamos discutindo churrasco.

Mas porque velhos malandros entendem uma coisa que muitas empresas ainda descobrem em consultoria:

se determinada informação não precisa existir para sempre, talvez seja uma boa ideia não guardá-la para sempre.

Os chimpanzés ficaram impressionados.

Abriram o primeiro barril de saquê.



🔐 4. Segurança perfeita, até aparecer um ser humano

Claro que mensagem temporária não impede screenshot.

E surgiu imediatamente o problema clássico:

USER AUTHENTICATED = TRUE
USER AUTHORIZED    = TRUE
USER TRUSTWORTHY   = ???

Você pode possuir criptografia excelente.

Pode controlar entrada.

Pode colocar senha.

Pode exigir convite.

Pode apagar mensagens.

Mas depois que a informação chega legitimamente ao dispositivo de outra pessoa, você depende de uma tecnologia ainda experimental:

confiança humana.

Isso nos levou de volta à velha espionagem.

E então alguém comentou:

— Se vazar, hoje qualquer um pode dizer que o print foi feito por IA.

Outro chimpanzé levantou a cabeça.



🤖 5. A IA tornou o verdadeiro mais fácil de negar

Entramos então num paradoxo delicioso.

A inteligência artificial tornou muito mais fácil fabricar:

imagem falsa,

voz falsa,

vídeo falso,

conversa falsa,

screenshot falso.

Mas também tornou mais fácil dizer que uma coisa verdadeira é falsa.

A existência de falsificação sofisticada produz uma nova defesa:

“Isso aí foi feito por IA.”

Agora não basta verificar se algo parece verdadeiro.

É necessário perguntar:

como foi autenticado?

E nasceu outra diferença:

verdade não é a mesma coisa que demonstrabilidade pública.

O Facão de Occam apareceu.

Ainda estava limpo.

Não duraria.


🔪 6. O Facão de Occam entrou no boteco

A lógica era simples.

Se existe apenas um screenshot isolado e nenhuma evidência adicional, há mais espaço para dúvida.

Se existem:

vinte screenshots,

vídeo navegando pelo grupo,

mensagens posteriores,

testemunhas,

horários consistentes,

outras cópias,

a hipótese “foi tudo fabricado” começa a exigir mais e mais suposições.

Occam olha para aquilo e corta.

Não porque Occam saiba automaticamente o que é verdade.

Mas porque uma explicação que exige vinte malabarismos precisa competir com outra que exige dois.

O problema é que alguém colocou o facão perto dos chimpanzés.

Erro operacional.


👩‍⚕️ 7. Mas eram estudantes de Psicologia

Até aqui estávamos nos divertindo com privacidade, botecos e infiltração.

Então veio a parte triste.

Eram estudantes de Psicologia.

Gente que um dia poderá ouvir pacientes falando sobre:

corpo,

peso,

sexualidade,

vergonha,

humilhação,

rejeição,

autoestima,

trauma.

Ninguém é obrigado a achar todo mundo bonito.

Ninguém é obrigado a sentir atração por qualquer característica.

Mas existe uma enorme diferença entre:

“não é meu tipo”

e

“essa característica reduz o valor daquela pessoa.”

A conversa deixou de ser apenas sobre privacidade.

Passou a ser sobre objetificação.

Segundo barril aberto.


⚔️ 8. A Guerra dos Sexos entrou pela janela

E então surgiu a contradição contemporânea.

De um lado:

“não me reduza à aparência.”

Do outro:

uma indústria gigantesca dedicada a modificar aparência.

Cirurgia plástica.

Aparelho dental.

Clareamento.

Harmonização.

Academia.

Cabelo.

Maquiagem.

Filtros.

Procedimentos.

Medicamentos para controle de peso.

A sociedade diz:

“não julgue pela capa.”

e investe uma quantidade absurda de energia na capa.

Isso não é necessariamente hipocrisia.

Uma pessoa pode querer ser considerada bonita sem querer que beleza seja sua única medida de valor.

Mas a tensão existe.

Terceiro barril.


💉 9. Alguém falou “Mojaru”

E tivemos de descobrir que “mojaru” era Mounjaro.

A famosa tirzepatida.

Medicamento para diabetes que entrou com enorme força na conversa mundial sobre obesidade, emagrecimento e aparência.

A partir dali percebemos que nosso configurador humano havia ganhado novos controles.

CABELO ............ alterável
DENTES ............ alteráveis
NARIZ ............. alterável
PESO .............. cada vez mais alterável
PELE .............. alterável
ROSTO ............. alterável
CORPO ............. parcialmente reconfigurável

O mundo começou a parecer um editor de personagem.

Quarto barril.


💇 10. O Brasil virou fábrica de loiras

Então apareceu o cabelo.

E o fato cultural maravilhoso de que no Brasil “loira” frequentemente descreve muito mais uma configuração estética do que ancestralidade.

Temos:

negra loira,

asiática loira,

parda loira,

morena loira,

indígena loira,

loira natural,

loira produzida por profissional com orçamento, química e coragem.

O cabeleireiro brasileiro recebeu uma especificação:

INPUT: cabelo qualquer
OUTPUT: blonde

E respondeu:

— deixa comigo.

Aí nasceu a conclusão econômica:

Blonde as a Service.

Porque a transformação não basta.

A raiz cresce.

A cor muda.

O tratamento continua.

Receita recorrente.

Quinto barril.


🦁 11. Dormiu com a princesa e acordou com Valderrama

E aí apareceu Carlos Valderrama.

Sem qualquer aviso.

O lendário colombiano de cabeleira monumental entrou na conversa porque existe uma piada antiga:

dormir com a princesa e acordar com Valderrama.

O sentido era simples.

Produção noturna.

Sono.

Entropia capilar.

Manhã.

VALDERRAMA.

O assunto agora era:

aparência construída versus aparência percebida.

Sexto barril.


🇮🇹 12. Os italianos já tinham denunciado tudo

Daí veio uma das melhores palavras do idioma italiano:

trucco.

Maquiagem.

E também:

truque.

Artifício.

Disfarce.

Dependendo do contexto, adulteração.

A língua italiana olhou para toda essa discussão sobre aparência e disse, séculos atrás:

— Chama logo de truque e deixa o futuro resolver.

Maravilhoso.

O CSS humano havia acabado de ganhar nome.

Sétimo barril.


🐊 13. Crocodile Dundee envelheceu mal

A conversa pulou para uma velha piada de Crocodile Dundee baseada na ideia de que determinada aparência poderia ser “verificada” fisicamente.

O problema é que aquilo envelheceu em dois níveis.

Primeiro:

consentimento.

Segundo:

a própria noção de que basta olhar ou tocar determinado elemento para descobrir uma “verdade simples” sobre apresentação corporal.

Em 1986:

OLHAR
VERIFICAR
CONCLUIR

Em 2026:

OLHAR
OLHAR
OLHAR
AMPLIAR
OLHAR DE NOVO

CONFIDENCE LEVEL: 61%

O CSS ficou bom demais.

Oitavo barril.


🌃 14. Night City abriu a porta

E então entrou Cyberpunk 2077.

Não porque alguém resolveu enfiar videogame no assunto.

Porque havia uma side quest que parecia escrita especificamente para nossa conversa.

Pepe.

Cynthia.

Ripperdoc.

Modificação corporal.

Aparência reconfigurada.

Identidade.

Confiança.

Night City fez aquilo que nossa sociedade apenas começou:

transformou o corpo inteiro em plataforma atualizável.

Agora o problema já não era maquiagem.

Era:

se tudo pode ser alterado, o que significa “original”?

Nono barril.


🛶 15. O Navio de Teseu apareceu sem convite

Naturalmente, Cyberpunk nos levou ao Navio de Teseu.

Se você substitui uma peça de um navio, continua sendo o mesmo navio?

E duas?

E metade?

E todas?

Agora aplique ao corpo.

Nariz.

Dentes.

Cabelo.

Pele.

Olhos.

Membros.

Órgãos.

Quanto pode mudar antes de começarmos a perguntar:

quem exatamente é esta pessoa?

Décimo barril.

Os chimpanzés já cantavam.


🧬 16. Então o DNA estragou a festa

E alguém percebeu a pegadinha perfeita.

Você pode trocar quase todo o frontend.

Mas, numa reprodução biológica convencional, várias dessas modificações adquiridas não são simplesmente gravadas no material genético transmitido ao filho.

Ou seja:

FRONTEND = Night City Premium
GENOME   = legacy system

Nasce o bebê.

Os pais olham.

O bebê olha de volta.

E Mendel aparece no corredor sorrindo.

Décimo primeiro barril.


📰 17. A conversa voltou ao crime

E então retornamos ao ponto inicial, mas por uma estrada completamente diferente.

Falávamos de objetificação.

Passamos por aparência.

Chegamos à genética.

E surgiu a questão da notoriedade criminal.

Pessoas que cometem crimes célebres podem, paradoxalmente, tornar-se celebridades.

Filmes.

Livros.

Séries.

Entrevistas.

Documentários.

Notícias sobre trabalho.

Casamento.

Separação.

Mudança de vida.

A mídia condena alguém e simultaneamente mantém sua marca ativa.

Décimo segundo barril.


👤 18. A vítima quer desaparecer

Então veio o contraste.

No caso Richthofen, o irmão sobrevivente tornou-se exemplo de uma pessoa que não escolheu aquela história e, ainda assim, carregou seu sobrenome e suas consequências públicas.

O criminoso pode ganhar notoriedade.

A vítima pode querer anonimato.

A sociedade faz exatamente o contrário:

segue o famoso e encontra o recluso.

E apareceu uma pergunta enorme:

quem merece ser lembrado e quem deveria ter direito de desaparecer?

Décimo terceiro barril.


✈️ 19. Espera aí... Richthofen?

Foi aí que um chimpanzé ainda relativamente sóbrio levantou o dedo.

— Richthofen?

Sim.

Richthofen.

E imediatamente apareceu:

Manfred von Richthofen.

O Barão Vermelho.

Um dos maiores ases da Primeira Guerra Mundial.

Oitenta vitórias aéreas.

Figura histórica monumental.

Mas no Brasil surgiu uma ironia.

Digite:

Richthofen

e você provavelmente encontrará Suzane.

Digite:

Barão Vermelho

e provavelmente encontrará Cazuza e a banda.

O pobre Manfred sofreu um ataque semântico pelos dois flancos.

RICHTHOFEN → Suzane
BARÃO VERMELHO → Cazuza

Décimo quarto barril.


🎸 20. Cazuza derrubou o Barão

Não literalmente.

Mas semanticamente.

A banda Barão Vermelho tornou-se tão poderosa na cultura brasileira que o apelido histórico de Manfred ganhou outro significado dominante.

E aí surgiu um artigo inteiro:

O Dia em que Suzane e Cazuza Derrubaram o Barão Vermelho do Google

Primeiro artigo extraído da conversa.

Os chimpanzés comemoraram.

Abriram mais dez barris.

Péssima ideia.


🐷 21. Porco Rosso apareceu para pedir revisão

Depois percebemos:

passamos páginas falando sobre o Barão Vermelho e esquecemos anime.

Especialmente Porco Rosso.

Marco Pagot não é Manfred von Richthofen.

Mas o filme respira a mitologia dos ases da aviação.

Pilotos lendários.

Máquinas identificáveis.

Duelo.

Reputação.

Cores.

Romantismo do voo.

Então apareceu a conclusão:

talvez um personagem histórico possa desaparecer do ranking de busca e continuar vivo como arquétipo cultural.

Décimo quinto barril.


🔎 22. SEO entrou em produção

A conversa, agora completamente fora de controle, começou a perguntar:

como máquinas entendem essas associações?

Barão Vermelho.

Cazuza.

Suzane.

Manfred.

Porco Rosso.

Primeira Guerra.

Aviação.

Google.

SEO.

Mesmo sem linkar tudo explicitamente, um sistema moderno pode extrair entidades e relações contextuais.

Agora estávamos falando de:

busca semântica.

Décimo sexto barril.


🤖 23. E apareceu o artigo sobre SEO para 2027

Como se o universo resolvesse participar da piada, surgiu um artigo do iMasters falando justamente sobre:

entidades,

menções,

IA,

GEO,

busca generativa,

visibilidade além do link azul.

Aquilo que estávamos especulando havia acabado de aparecer organizado como tendência de mercado.

Os chimpanzés apontaram para a tela.

— CHEFE!

Sim.

Eu vi.

Calma.

Ninguém abre outro barril.

Naturalmente abriram.


🌏 24. Singapura estava na sala desde o começo

Então lembramos de um fenômeno observado havia algum tempo:

tráfego recorrente vindo de Singapura.

Pode ser humano.

Pode ser crawler.

Pode ser cloud.

Pode ser proxy.

Pode ser indexador.

Pode ser infraestrutura de terceiros.

Não sabemos.

Mas a coincidência ficou interessante.

Se estamos publicando milhares de relações semânticas e máquinas estão visitando regularmente o blog, vale investigar.

Não declarar vitória.

Investigar.

O Facão de Occam reapareceu.

Estava coberto de banana.


🧙 25. Gandalf entrou no datacenter

E então surgiu uma metáfora.

Talvez Vagner Bellacosa tenha virado um pequeno Gandalf da era da IA.

Não como protagonista.

Mas como personagem que atravessa diversas histórias e conecta grupos que jamais se encontrariam.

Mainframe.

Cinema.

Anime.

História.

Boteco.

Tecnologia.

Memória.

Notícia.

Filosofia.

A função não é possuir uma história central.

É carregar pontes.

Décimo sétimo barril.


📚 26. Tolkien explicou o problema

Naturalmente Gandalf trouxe Tolkien.

E Tolkien trouxe uma descoberta importante:

um texto pode ficar mais compreensível conforme o leitor acumula repertório.

Na primeira leitura:

nome estranho.

Na segunda:

reconhecimento.

Na terceira:

conexão.

O texto não mudou.

O leitor mudou.

Isso explicava por que alguém poderia entrar num Café sem entender:

chimpanzés,

COBOL,

mainframe,

Facão de Occam,

Major Tom,

Efeito VEJA.

Mas depois de dezenas de textos, tudo começa a adquirir significado.

Décimo oitavo barril.


🐪 27. Malba Tahan estava nos esperando

E então apareceu Malba Tahan.

Júlio César de Mello e Souza já fazia, décadas antes da Internet, algo muito parecido.

Ele não começava dizendo:

“Vamos estudar frações.”

Criava um problema.

Uma viagem.

Um mercador.

Um camelo.

Uma herança.

Uma história.

E o leitor aprendia matemática porque queria descobrir o que aconteceria depois.

A melhor porta para conhecimento nem sempre possui placa dizendo:

CONHECIMENTO.

Às vezes tem um camelo.

Décimo nono barril.


📖 28. O Guia dos Curiosos completou o circuito

Então lembramos do Guia dos Curiosos, de Marcelo Duarte.

A genialidade daquele livro não era apenas responder perguntas.

Era produzir novas perguntas.

Você abria procurando uma coisa.

Descobria três outras.

Uma hora depois estava lendo sobre um assunto que não sabia que existia.

E aí finalmente conseguimos formular uma diferença essencial:

a enciclopédia responde a pergunta que você já possui.

O Guia dos Curiosos cria perguntas que você ainda não sabia que possuía.

Vigésimo barril.

Os chimpanzés haviam perdido a conta.


📰 29. O Efeito VEJA voltou

E então percebemos que tudo aquilo parecia uma versão mais ampla de uma ideia que já vínhamos chamando de:

Efeito VEJA.

O texto menciona alguma coisa.

Não explica tudo.

O leitor sente uma coceira mental.

Pesquisa.

Encontra outra coisa.

Nova coceira.

Nova pesquisa.

CONHECIMENTO
    ↓
LACUNA
    ↓
CURIOSIDADE
    ↓
BUSCA
    ↓
DESCOBERTA
    ↓
NOVA LACUNA
    ↺

Nesse momento, o Efeito VEJA deixou de parecer apenas uma piada editorial.

Começou a parecer um mecanismo geral de exploração.

Vigésimo primeiro barril.


🐜 30. As formigas assumiram a infraestrutura

Apareceu então uma metáfora ainda melhor.

Formigas não precisam compreender o formigueiro.

Cada uma realiza ações locais.

Carrega.

Escava.

Segue.

Deixa trilha.

Uma pequena passagem aberta hoje pode ser usada amanhã.

Depois por outra.

Depois por cem.

Depois por milhares.

O pequeno túnel vira rota.

A rota vira:

infovia.

E isso parece descrever muito bem a Web.

Um post cria uma relação.

Alguém encontra.

Compartilha.

Outro menciona.

Um crawler indexa.

Um modelo recupera.

Outro autor escreve.

Uma relação antes rara ganha novos caminhos.

Nenhuma formiga precisou compreender o sistema inteiro.

Vigésimo segundo barril.


📘 31. Então apareceu Facebook

E houve um pequeno acontecimento curioso.

Referral vindo do Facebook.

Só que o autor do blog não usa Facebook para distribuir aquele conteúdo.

Ou seja:

se o referral foi realmente provocado por compartilhamento humano, alguém levou o link por conta própria.

A formiga abriu um túnel fora do território controlado.

Isso ainda não significa viralização.

Não significa inteligência coletiva.

Não significa que Mark Zuckerberg esteja lendo o Bellacosa Mainframe durante o café.

Significa apenas:

uma ponte pode ter sido criada por terceiros.

E isso é muito mais interessante que fabricar a própria ponte.

Vigésimo terceiro barril.


🧠 32. A conversa começou a parecer uma alucinação

Nesse momento, qualquer pessoa que chegasse no final sem conhecer o começo encontraria:

Psicologia → Valderrama → Cyberpunk → DNA → Richthofen → Cazuza → Porco Rosso → SEO → Singapura → Gandalf → Malba Tahan → formigas → Facebook.

Diagnóstico provável:

“A IA enlouqueceu.”

Só que existe um problema.

Podemos reconstruir cada transição.

Nenhum salto precisa ser inventado depois para justificar o anterior.

Há uma aresta.

Depois outra.

Depois outra.

O resultado é estranho.

A trilha não.

Isso produz uma distinção importante:

alucinação inventa a ponte.

pensamento associativo encontra pontes existentes em sequência.

Vigésimo quarto barril.


🕸️ 33. O grafo estava escondido dentro da conversa

Então percebemos finalmente o que havia acontecido.

Não construímos uma linha.

Construímos um grafo.

PSICOLOGIA
   │
   ├── privacidade
   │     └── grupo fechado
   │           └── confiança
   │
   ├── objetificação
   │     └── beleza
   │           └── corpo
   │                 └── Cyberpunk
   │
   └── notoriedade
         └── Suzane
               └── Richthofen
                     └── Manfred
                           └── SEO

E vários ramos voltaram a se encontrar.

Não era uma viagem aleatória.

Era exploração de vizinhanças semânticas.

Vigésimo quinto barril.


🍶 34. Chegamos ao centésimo barril

Naturalmente, ninguém sabe exatamente quando chegamos ao barril número 100.

O departamento de auditoria desistiu por volta do 37.

Mas imaginemos o debugger chegando.

Ele abre a conversa.

Primeiro turno:

notícia sobre estudantes de Psicologia.

Último turno:

teoria de redes, memória semântica e formigas construindo infovias.

O debugger respira fundo.

STATUS:
POSSIBLE HALLUCINATION

Volta ao começo.

Segue as arestas.

Privacidade.

Confiança.

Boteco.

IA.

Objetificação.

Beleza.

Valderrama.

Trucco.

Cyberpunk.

DNA.

Crime.

Richthofen.

SEO.

Malba Tahan.

Formigas.

O debugger chega ao final.

Olha novamente.

STATUS:
WTF

TRACEABILITY:
PASS

🐒🍶


🧩 35. A teoria da informação estava escondida no boteco

E aqui nossa história finalmente encontra o título.

O que fizemos durante toda a conversa?

Pegamos informação.

Criamos associações.

Reduzimos incerteza.

Abrimos novas perguntas.

Transferimos contexto.

Construímos caminhos entre conceitos.

Uma mensagem isolada possui significado limitado.

Uma sequência contextual pode transformar completamente a interpretação da mensagem seguinte.

“Valderrama” sozinho:

jogador colombiano.

Dentro daquela conversa:

unidade de entropia capilar matinal.

“Chimpanzé” sozinho:

primata.

Dentro do Bellacosa Mainframe:

agente caótico de produção intelectual movido a saquê.

“Efeito VEJA” sozinho:

expressão obscura.

Depois de dezenas de referências:

mecanismo narrativo em que uma lacuna de informação provoca exploração.

Contexto altera informação.

Relações alteram significado.

E memória acumulada altera interpretação futura.

Não precisamos fingir que reinventamos Shannon no boteco.

Mas chegamos por brincadeira a uma percepção séria:

informação não vive apenas nas palavras. Vive também nas relações entre elas.


🌐 36. Talvez seja justamente isso que interessa às IAs

Modelos modernos não tratam texto apenas como lista de palavras independentes.

Relações contextuais importam.

Entidades importam.

Coocorrências importam.

Estrutura importa.

Recuperação importa.

E talvez seja por isso que este tipo de escrita tenha alguma afinidade especial com a era das IAs.

Não porque tenha sido escrita “para o algoritmo”.

Muito pelo contrário.

Foi escrita seguindo curiosidade humana.

Mas curiosidade humana produz relações.

E relações são precisamente aquilo que sistemas semânticos tentam capturar.

Isso não significa que uma conversa esteja treinando diretamente um modelo global.

Não significa que escrever determinada palavra dez vezes altere magicamente os pesos de uma IA.

Mas significa que conteúdo público, quando rastreado e recuperável, cria superfícies documentais onde relações podem ser observadas.

Uma formiga abre o túnel.


🛌 37. E o chimpanzé simplesmente dorme sobre o assunto

Aqui aparece talvez a característica mais importante de todas.

Nem toda ideia precisa virar artigo imediatamente.

Algumas precisam dormir.

Uma conversa termina.

Um conceito fica.

Três semanas depois aparece uma notícia.

O chimpanzé que estava de pileque embaixo da mesa acorda.

Ainda está segurando um papel:

TOLKIEN + SEO ???

Olha para a notícia.

Olha para o papel.

Olha para Polindexter.

— CHEFE.

— O quê?

— ACHEI A ARESTA.

E pronto.

A conversa ressuscita.

Por isso talvez nunca tenhamos realmente um backlog.

Temos um cemitério de chimpanzés cochilando sobre ideias incompletas.

Alguns jamais acordam.

Outros reaparecem seis meses depois trazendo ouro.


☕ 38. Dois artigos e uma montanha de minério

E foi exatamente isso que aconteceu desta vez.

Uma notícia gerou:

O CSS Humano

Um texto sobre aparência, objetificação, modificação corporal, Cyberpunk, identidade e genética.

Depois gerou:

O Dia em que Suzane e Cazuza Derrubaram o Barão Vermelho do Google

Um texto sobre memória digital, notoriedade, SEO e legado histórico.

E ainda sobraram pedaços suficientes para:

Malba Tahan.

GEO.

Tolkien.

Guia dos Curiosos.

Singapura.

Crawlers.

Formigas.

Memória algorítmica.

Privacidade.

Crime e celebridade.

Mas não precisamos transformar cada pedaço num artigo agora.

Alguns serão canibalizados por textos futuros.

Alguns vão desaparecer.

Alguns dormirão.

Um ou outro chimpanzé acordará no momento certo.


🐒 39. A verdadeira máquina criativa

Talvez aqui esteja a conclusão mais importante.

Não começamos dizendo:

“Precisamos produzir três artigos hoje.”

Começamos dizendo:

“Essa notícia me deixou pensativo.”

Esse detalhe muda tudo.

Porque criação baseada exclusivamente em pauta procura resposta.

Criação baseada em curiosidade procura caminho.

E caminhos produzem coisas que a pauta não previa.

A pergunta inicial era pequena.

O espaço de exploração era enorme.

Isso é quase o inverso do conteúdo industrial.

Conteúdo industrial:

KEYWORD
   ↓
OUTLINE
   ↓
ARTICLE
   ↓
PUBLISH
   ↓
NEXT KEYWORD

Bellacosa Mainframe:

NOTÍCIA
   ↓
"isso me lembra..."
   ↓
"espera..."
   ↓
"e aquela história?"
   ↓
"caralho, Cyberpunk!"
   ↓
"Richthofen?"
   ↓
"Malba Tahan!"
   ↓
🐒🍶
   ↓
3 ARTIGOS

Não recomendo apresentar esse fluxograma ao departamento de processos.


🧙 40. Gandalf não escreve a história principal

Voltamos então ao velho mago.

Talvez o papel de quem acumula muitas décadas de referências não seja possuir a narrativa principal.

É reconhecer caminhos entre narrativas.

Um jovem fala de IA.

Você lembra COBOL.

Alguém fala de crime.

Você lembra SEO.

Uma discussão sobre maquiagem traz italiano.

Italiano traz trucco.

Trucco traz aparência.

Aparência traz Cyberpunk.

Cyberpunk traz filosofia.

Essa capacidade não nasceu ontem.

Ela depende de:

tempo,

memória,

leitura,

experiência,

erros,

viagens,

filmes,

livros,

trabalho,

botecos.

Em outras palavras:

pegadas.

Muitas pegadas.

Algumas se perderam.

Outras viraram trilhas.


🐜 41. A formiga não sabe que está fazendo história

E talvez essa seja a melhor maneira de terminar.

Quem escreveu um post em 2005 não sabia como ele seria encontrado em 2026.

Quem deixou uma fotografia numa página antiga não sabia que um crawler futuro poderia chegar até ela.

Quem mencionou um conceito obscuro não sabia que outro autor o encontraria.

Quem abriu uma trilha não sabia que milhares passariam depois.

A maioria das ações que constroem redes complexas é local.

A formiga carrega uma folha.

Não pensa:

“estou contribuindo para a arquitetura logística do formigueiro.”

O blogueiro escreve um texto.

Não pensa:

“estou adicionando uma aresta a um grafo semântico que poderá ser recuperado por sistemas de IA daqui a dez anos.”

Ele simplesmente escreve.

E continua.


☕ Epílogo — O centésimo primeiro barril

Voltamos então ao Boteco de Itatiba.

Na mesa:

um laptop.

um café.

um Facão de Occam.

um exemplar de Malba Tahan.

um Guia dos Curiosos.

uma miniatura de Fokker Dr.I.

uma foto de Valderrama.

Cyberpunk 2077 aberto numa tela.

Gandalf observa do canto.

Uma formiga atravessa o teclado.

E um milhão de chimpanzés dorme pelo chão.

O centésimo barril de saquê está vazio.

Polindexter olha para o quadro.

No topo ainda está escrita a primeira frase:

“Essa notícia me deixou pensativo.”

Abaixo dela:

dezenas de setas.

Centenas de conceitos.

Dois artigos publicados.

Vários assuntos adormecidos.

Um pequeno túnel levando ao Facebook.

Talvez algum crawler de Singapura passando ao longe.

Um chimpanzé acorda.

Olha para o quadro.

Olha para a formiga.

Olha para o Facão de Occam.

Vai até o depósito.

Abre o barril número 101.

Polindexter grita:

— NÃO!

Tarde demais.

O chimpanzé toma um copo.

Senta no teclado.

E escreve:

“Chefe... você já reparou que...”

Silêncio.

Todos olham.

Pegue outro café.

A conversa acabou de recomeçar.

☕🐒🍶🐜



https://eljefemidnightlunch.blogspot.com/2026/08/discord-whatsapp-e-o-tribunal-do-abend.html

domingo, 23 de agosto de 2026

O Coelho Branco da Censura

 

Bellacosa Mainframe em historias da epoca da censura

☕ Um Café no Bellacosa Mainframe

O Coelho Branco da Censura

Ou: enquanto a Rainha de Copas procurava grandes inimigos, talvez a informação simplesmente pegasse o ônibus


Existem histórias sobre censura que começam com generais.

Outras começam com jornalistas.

Algumas começam com compositores, escritores, cineastas, estudantes, sindicalistas, intelectuais ou políticos.

Esta começa com um sujeito olhando desesperadamente para o relógio.

Ele tem uma pasta debaixo do braço.

Alguns envelopes.

Talvez uma guia que precisa ser carimbada.

Uma assinatura que precisa buscar.

Um documento que deveria ter chegado ao outro lado da cidade quinze minutos atrás.

O ônibus não vem.

Ele olha novamente para o relógio.

Está atrasado.

Muito atrasado.

E, em algum escritório distante, existe uma Rainha de Copas corporativa pronta para berrar:

— CORTEM-LHE A CABEÇA!

Ou, traduzindo para o português empresarial:

— Se você não entregar isso hoje, está na rua!

Nosso personagem não é jornalista.

Não é líder estudantil.

Não é guerrilheiro.

Não é agente secreto.

Não usa sobretudo.

Não possui câmera escondida dentro de uma caneta.

Não sabe artes marciais.

Provavelmente não dirige um Aston Martin.

Ele é apenas...

o office-boy.

O coadjuvante do coadjuvante.

E justamente por isso talvez seja uma das figuras mais interessantes para pensarmos quando falamos sobre circulação de informação num mundo anterior à Internet.



🐇 O Coelho Branco da burocracia

Quem viveu o escritório brasileiro antes da digitalização conhece aquele personagem.

— Leva isso ao banco.

— Passa no cartório.

— Entrega esse envelope.

— Busca assinatura no doutor Fulano.

— Depois vai à gráfica.

— Aproveita e deixa isto no prédio da Rua Boa Vista.

— Volta antes das quatro.

O garoto pega a pasta.

Olha para o relógio.

E começa a correr.

🐇💨

É difícil imaginar metáfora melhor que o Coelho Branco de Alice no País das Maravilhas.

Sempre atrasado.

Sempre atravessando portas.

Sempre desaparecendo por corredores.

Só que nosso Coelho Branco pega ônibus.

Entra numa repartição.

— É aqui que entrega?

— Terceiro andar.

Terceiro andar:

— Não, mudou para o prédio ao lado.

Prédio ao lado:

— Falta o carimbo.

— Onde carimba?

— No primeiro prédio.

CARALHO.

Volta correndo.

E Lewis Carroll provavelmente teria reconhecido imediatamente aquele universo.

Porque poucas coisas são tão próximas do País das Maravilhas quanto uma burocracia que exige um documento para fornecer o documento necessário para solicitar o documento anterior.



👑 A Rainha de Copas

Agora mudemos a câmera.

Estamos durante a ditadura militar brasileira.

Existe censura.

Textos são examinados.

Músicas são vetadas.

Filmes enfrentam cortes ou proibições.

Peças encontram obstáculos.

Reportagens podem desaparecer.

Há documentos, pareceres, processos, cópias, formulários e decisões circulando por estruturas administrativas.

E a imagem tradicional que construímos desse sistema costuma olhar para cima.

Quem mandava?

Quem censurava?

Quem foi censurado?

Quem resistiu?

Quem assinou?

Quem foi preso?

Quem publicou?

Perguntas fundamentais.

Mas existe outra pergunta muito menos glamourosa:

quem carregava os papéis?



📂 Para censurar uma informação, alguém precisa conhecê-la

Existe um pequeno paradoxo operacional em qualquer sistema de censura.

Para decidir que alguma coisa não deve circular, alguém precisa primeiro ter acesso àquilo.

A música precisa ser ouvida.

O texto precisa ser lido.

O filme precisa ser assistido.

O roteiro precisa ser analisado.

O jornal precisa ser examinado.

Isso gera registros.

Cópias.

Pareceres.

Anotações.

Protocolos.

Pessoas.

Em linguagem de mainframe:

CONTENT_STATUS = BLOCKED
REASON_CODE    = CENSURA
PAYLOAD        = RESTRICTED

O censor tenta eliminar o payload público.

Mas cria metadados.

E às vezes o metadado mais poderoso de todos é simplesmente:

CENSURADO

Porque essa palavra comunica duas coisas simultaneamente.

A primeira:

Você não pode ver isto.

A segunda:

Existe aqui alguma coisa que alguém não quer que você veja.

Adivinhe qual das duas interessa mais ao chimpanzé.

🐒

— Onde?



📰 O ancestral analógico do “não olhe”

Muito antes de Google, Twitter, Facebook, Reddit, TikTok ou qualquer algoritmo de recomendação, já existia um fenômeno profundamente humano:

proibir pode aumentar a curiosidade.

Isso não significa que censura seja ineficiente.

Seria historicamente absurdo afirmar isso.

Censura destruiu carreiras, impediu circulação de obras, dificultou acesso à informação e foi acompanhada por repressão muito mais séria que simplesmente riscar algumas linhas de jornal.

Mas existe uma diferença enorme entre:

informação invisivelmente eliminada

e

informação visivelmente proibida.

Quando o público percebe a intervenção, nasce uma pergunta:

O que havia ali?

E perguntas são criaturas perigosas.

Porque viajam sem precisar de papel.



📻 A informação aprende a procurar outra estrada

Uma música é proibida.

Mas alguém conhece a letra.

Outro ouviu num show.

Outro possui uma gravação.

Outro conta para um amigo.

Um texto desaparece.

Mas existe uma cópia.

Um mimeógrafo.

Uma universidade.

Uma redação.

Uma mala vindo do exterior.

Um filme não pode circular oficialmente.

Mas alguém encontra uma fita.

Outra pessoa copia.

Uma terceira leva para outra cidade.

Um quarto sujeito assiste.

Depois conta para vinte.

A arquitetura oficial funciona assim:

CENTRALIZAR → INSPECIONAR → AUTORIZAR

A cultura responde:

COPIAR → DISTRIBUIR → RECONTAR

De repente temos algo muito parecido com uma rede peer-to-peer.

Só que os peers usam sapatos.



🚌 Napster de ônibus

Hoje é fácil esquecer o custo físico da informação.

Copiar um arquivo:

Ctrl+C

Copiar uma fita cassete exigia outra fita.

Copiar VHS exigia equipamento e tempo.

Mimeografar exigia papel, matriz e tinta.

Fotocopiar custava dinheiro.

Transportar informação exigia pernas.

Carro.

Trem.

Ônibus.

Correio.

Mala.

E gente.

Muita gente.

A rede social existia antes da rede social.

Só não tinha botão Compartilhar.

Tinha:

— Passa isso para o Carlos.



🕵️ Todo mundo procura James Bond

Quando pensamos em vazamento de informação, nossa imaginação procura imediatamente alguém importante.

Um agente infiltrado.

Um funcionário graduado.

Um jornalista famoso.

Um intelectual.

Um opositor conhecido.

Alguém que mereça relatório, fotografia e vigilância.

Porque histórias gostam de protagonistas.

E instituições também.

Se chega à mesa de um chefe:

“Possível jornalista ligado à oposição.”

Interessante.

Investigue.

Agora chega:

“Office-boy de dezenove anos levou alguns envelopes para outro prédio.”

— E daí?

Aí mora uma vulnerabilidade organizacional maravilhosa.

Não porque office-boys fossem automaticamente agentes clandestinos.

Não eram.

Não devemos transformar uma possibilidade estrutural numa afirmação histórica sem documentação.

Mas porque sistemas frequentemente confundem:

baixo status

com

baixa relevância informacional.

E essas coisas não são iguais.



🔐 LOW PRIVILEGE, HIGH MOBILITY

O diretor possui poder.

Mas passa boa parte do dia dentro de determinada estrutura.

O office-boy possui quase nenhum poder.

Mas atravessa estruturas.

Diretoria.

Financeiro.

Banco.

Correio.

Cartório.

Gráfica.

Fornecedor.

Outro escritório.

Outra repartição.

Outra portaria.

Outro office-boy.

Ele pode possuir:

LOW FORMAL PRIVILEGE

mas simultaneamente:

HIGH PHYSICAL MOBILITY

HIGH CONTACT SURFACE

INCIDENTAL INFORMATION ACCESS

Para um profissional moderno de segurança, isso deveria soar familiar.

Porque aprendemos dolorosamente que uma conta aparentemente insignificante pode representar um caminho excelente até alguma coisa importante.



👻 A invisibilidade social

Existe ainda uma propriedade mais interessante.

Algumas pessoas tornam-se invisíveis não porque ninguém literalmente as veja, mas porque são percebidas como parte do ambiente.

O motorista está dirigindo.

A copeira está servindo café.

O faxineiro está limpando.

O porteiro está na porta.

O técnico está consertando alguma coisa.

O office-boy está esperando o envelope.

E pessoas conversam.

Às vezes conversam como se ninguém estivesse ali.

Deixam papéis sobre mesas.

Comentam nomes.

Discutem decisões.

Entregam envelopes.

Porque aquele sujeito não pertence ao círculo de poder.

Ele é cenário.

Só que cenário também possui olhos.

E ouvidos.

Daí nasce uma frase que merece ficar:

Invisibilidade social pode produzir visibilidade informacional.



🕸️ O organograma mentia

Pegue um organograma antigo.

Presidente.

Diretor.

Gerente.

Supervisor.

Funcionário.

Tudo perfeitamente hierárquico.

Agora desenhe outra rede por cima:

office-boy ↔ recepcionista ↔ motorista ↔ gráfica ↔ banco ↔ outro office-boy ↔ estudante ↔ jornalista ↔ músico

Essa rede não aparece no organograma.

Mas existe.

São relações construídas esperando elevador.

Tomando café.

Entregando documento.

Encontrando sempre o mesmo funcionário no protocolo.

Pegando ônibus.

Fazendo favor.

— Quando passar lá, entrega isso para mim?

Pronto.

Criamos outra aresta.

O organograma descreve autoridade.

Não necessariamente descreve circulação.



📼 A cópia que misteriosamente não morreu

E então chegamos às histórias deliciosamente nebulosas daquele período.

Uma obra desaparece oficialmente.

Mas reaparece.

Uma música proibida continua sendo conhecida.

Um texto circula.

Um panfleto aparece.

Uma gravação atravessa fronteiras.

Um filme encontra algum caminho alternativo.

Às vezes sabemos como.

Outras vezes a cadeia de transmissão se perde.

Décadas depois sobra apenas:

“Alguém conseguiu uma cópia.”

Quem?

Não sabemos.

E talvez justamente aí esteja uma das partes mais fascinantes da história da informação.

Nós lembramos de quem escreveu.

Lembramos de quem cantou.

Lembramos de quem dirigiu.

Lembramos de quem proibiu.

Mas frequentemente esquecemos de quem:

carregou.



🐇 O coadjuvante do coadjuvante

Imagine nosso personagem novamente.

Ele não está tentando derrubar governo nenhum.

Talvez nem saiba exatamente o que existe dentro da pasta.

Está preocupado com uma coisa muito mais urgente:

o ônibus está atrasado.

Olha o relógio.

Corre.

Entra no prédio.

Sobe.

Desce.

Pega assinatura.

Recebe outro envelope.

Alguém diz:

— Leva isso também.

Ele coloca na pasta.

E continua.

Enquanto a Rainha de Copas procura inimigos importantes...

🐇💨

...o Coelho Branco atravessa outra porta.

Essa é a imagem que me interessa.

Não porque possamos afirmar que todo office-boy era mensageiro clandestino.

Mas porque ela revela uma verdade organizacional muito maior:

Informação importante não precisa ser transportada por pessoas importantes.


💾 O office-boy desapareceu. A vulnerabilidade não.

Avancemos quarenta anos.

O office-boy praticamente desapareceu de muitos escritórios.

Documentos viraram arquivos.

Assinaturas viraram certificados.

Correspondência virou e-mail.

Memorandos viraram mensagens.

Pastas viraram diretórios.

O Coelho Branco ganhou login.

E então descobrimos:

conta de serviço esquecida;

usuário terceirizado;

credencial antiga;

fornecedor;

estagiário;

API mal configurada;

permissão herdada;

servidor legado.

O princípio permanece.

Todo mundo protege o CEO.

O atacante olha para a lavanderia.

Porque ninguém precisa invadir o portão principal do castelo quando existe uma janela lateral aberta.



🧠 Zero Trust encontrou o Coelho Branco

A segurança moderna criou expressões sofisticadas:

Least Privilege.

Need to Know.

Insider Threat.

Data Loss Prevention.

Zero Trust.

Por trás de todas existe uma descoberta pouco glamourosa:

não importa quanto poder alguém possui no organograma.

Importa:

o que consegue acessar, para onde consegue ir e o que consegue transportar.

O office-boy de ontem carregava envelopes.

A identidade digital de hoje carrega tokens.

Mudou o veículo.

Não mudou completamente o problema.



👑 A Rainha continua procurando protagonistas

Existe ainda uma lição para além da segurança.

Instituições adoram olhar para cima.

A imprensa olha para celebridades.

Empresas olham para executivos.

Governos olham para lideranças.

Historiadores olham para personagens conhecidos.

Algoritmos olham para aquilo que já possui atenção.

Enquanto isso, uma quantidade enorme de história acontece nas mãos de pessoas cujos nomes jamais chegam ao índice remissivo.

Alguém guardou aquele papel.

Alguém fez aquela cópia.

Alguém levou aquela fita.

Alguém entregou aquele envelope.

Alguém contou aquela história.

E provavelmente estava atrasado.



🐒 Os chimpanzés aparecem novamente

Evidentemente eles apareceriam.

Começamos falando sobre sonhos.

Fomos parar numa estação impossível da CPTM.

Depois loteria.

Depois Lost.

Depois números malditos.

Probabilidade.

Lei dos Grandes Números.

Um milhão de chimpanzés.

Imprensa.

Efeito VEJA.

Censura.

Vazamentos.

Office-boys.

Até que um sujeito atrasado olhando para o relógio resolveu atravessar correndo a história de Lewis Carroll.

Quando percebemos, havia outro artigo sobre a mesa.

Os chimpanzés são assim.

Você entrega uma máquina de escrever.

Eles devolvem uma banana.

Você pergunta sobre a banana.

Eles devolvem um artigo.



☕ Epílogo — A informação simplesmente pegou o ônibus

Talvez nunca saibamos quantas histórias sobreviveram porque alguém aparentemente irrelevante resolveu guardar alguma coisa.

Talvez nunca saibamos quantas informações atravessaram sistemas rígidos porque seus criadores observaram cuidadosamente os protagonistas...

e esqueceram dos figurantes.

Não devemos romantizar.

Havia risco.

Havia repressão.

Havia consequências reais.

E não devemos inventar heróis onde os documentos históricos não permitem encontrá-los.

Mas podemos aprender alguma coisa observando a arquitetura.

Sistemas de controle enxergam hierarquias.

Informação enxerga caminhos.

E caminhos podem passar pelos lugares mais improváveis.

Uma pasta.

Uma gráfica.

Um mimeógrafo.

Uma fita cassete.

Uma mala.

Um amigo.

Um office-boy.

Um ônibus.

Enquanto a Rainha de Copas procurava grandes inimigos, talvez alguma informação proibida estivesse simplesmente atravessando São Paulo no colo de um garoto desesperado porque precisava voltar ao escritório antes das cinco.

Ele olha para o relógio.

🐇

— Estou atrasado!

Corre.

A porta fecha.

O ônibus parte.

E dentro da pasta...

a história continua viajando.

Para ir mais longe



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P.S. — O que meu pai nunca me contou

Depois de terminar este causo, fiquei diante de uma pergunta muito menos divertida que o Coelho Branco, a Rainha de Copas e o office-boy correndo atrás do ônibus:

eu teria coragem de escrever tudo isso naquela época?

Não sei.

É fácil imaginar coragem retrospectiva.

Hoje posso sentar diante de um computador, escrever sobre censura, questionar autoridades, fazer piada, publicar, pesquisar documentos e transformar até os mecanismos de repressão em personagens de uma história de boteco.

Naquele tempo, a conta era outra.

E talvez eu saiba disso não apenas pelos livros.

Meu pai foi militar da Polícia do Exército entre 1969 e 1970.

Décadas depois, quando passávamos pela região da Estação da Luz, eu percebia nele uma reação particular diante do lugar que eu associaria mais tarde ao antigo DOPS.

Eu era apenas o filho.

Não conhecia organogramas da repressão.

Não sabia distinguir DOPS, DOI-CODI, Polícia do Exército ou qualquer uma das engrenagens daquele sistema.

Mas criança não precisa conhecer organograma para perceber medo.

Basta conhecer o rosto do próprio pai.

Hoje conheço muito mais sobre aquele período do que conhecia então.

Mas existe uma coisa que continuo não sabendo.

O que exatamente meu pai sabia?

O que ouviu?

O que viu?

O que lhe contaram?

Por que aquele lugar provocava aquela reação?

Não sei.

E não vou completar a história por ele.

Seria fácil juntar as datas, seu serviço militar, aquele prédio e minha lembrança e construir uma narrativa perfeita.

Perfeita demais.

Seria pintar o alvo depois do tiro.

Seria colocar o nosso famoso sexto dedo.

Há histórias em que aquilo que não sabemos precisa permanecer escrito exatamente assim:

não sei.

Talvez ele simplesmente conhecesse a reputação daquele lugar.

Talvez tivesse ouvido histórias durante o serviço militar.

Talvez existisse alguma experiência que nunca compartilhou comigo.

Talvez a explicação fosse outra.

A resposta pertencia a ele.

E foi embora com ele.

Foi então que percebi que havia esquecido um personagem neste artigo inteiro.

Falamos sobre o censor.

Sobre o censurado.

Sobre o jornalista.

Sobre o músico.

Sobre a fita clandestina.

Sobre o panfleto.

Sobre o documento que escapava.

Sobre o office-boy que atravessava a cidade carregando envelopes.

Mas existe uma forma de informação muito mais difícil de encontrar nos arquivos:

aquilo que alguém decidiu nunca contar.

A reportagem censurada pode deixar um espaço em branco.

A música proibida pode deixar um processo.

O filme cortado pode sobreviver numa cópia.

O panfleto clandestino pode reaparecer quarenta anos depois dentro de uma caixa.

Mas uma história que alguém resolveu guardar consigo talvez não deixe documento algum.

Nenhuma assinatura.

Nenhum protocolo.

Nenhum carimbo.

Nenhum arquivo.

Apenas pequenos sinais.

Uma mudança de expressão.

Um silêncio inesperado.

Um olhar para determinado prédio.

Talvez uma frase interrompida.

E um filho que percebe que alguma coisa aconteceu ali, embora não saiba exatamente o quê.

Foi assim que compreendi outra dimensão da censura.

A mais eficiente talvez não seja aquela que coloca um carimbo vermelho sobre uma página.

É aquela que consegue fazer alguém pensar:

“É melhor não falar sobre isso.”

Nesse momento o censor já nem precisa estar presente.

O medo executa o programa sozinho.

E talvez seja por isso que não consigo responder heroicamente à pergunta que abriu este P.S.

Eu teria escrito este artigo naquela época?

Gostaria de dizer que sim.

Seria uma bela história.

Eu, enfrentando a Rainha de Copas, escondendo textos na pasta do Coelho Branco e mandando a censura para /dev/null.

Mas não sei.

Eu vi, muitos anos depois, algo daquele período ainda existir no rosto do meu pai.

Isso basta para desconfiar de qualquer coragem que eu invente retrospectivamente para mim mesmo.

Hoje posso escrever.

Posso perguntar.

Posso discordar.

Posso pesquisar.

Posso publicar.

Posso olhar para um documento marcado CENSURADO e perguntar o que havia embaixo.

E posso contar que meu pai serviu na Polícia do Exército entre 1969 e 1970 e que havia coisas sobre aquele tempo que ele nunca me contou.

Sem acusá-lo.

Sem absolvê-lo.

Sem completar os espaços vazios.

Apenas preservando aquilo que realmente sei.

Porque talvez os arquivos mais difíceis de recuperar sejam justamente aqueles que nunca chegaram a ser gravados.

Meu pai carregou alguma coisa daquele período.

Não sei o quê.

Mas lembro do seu rosto.

E há memórias que o tempo não consegue censurar.






quinta-feira, 11 de janeiro de 2024

🐒 Os 12 Macacos, COBOL e o Vírus que Não Cabia no RACF

 

Bellacosa Mainframe e os 12 macacos cobol virus coisas q nao cabiam no racf

☕ Um Café no Bellacosa Mainframe

🐒 Os 12 Macacos, COBOL e o Vírus que Não Cabia no RACF

ARCO I — CAPÍTULO I

Quando a informação começou a se comportar como epidemia

Não era exatamente um vírus. Não destruía arquivos, não formatava discos e não provocava um S0C7. Era muito pior para quem pretendia controlá-lo: era uma ideia.


🕰️ 00:00 — Algum lugar entre 1996 e 2026

Imagine que você é um programador COBOL.

Não um desses personagens cinematográficos que digitam furiosamente:

ACCESS MAINFRAME
HACK PENTAGON
PASSWORD ACCEPTED

Não.

Você é um COBOLzeiro legítimo.

Você acredita em coisas civilizadas.

Dataset tem nome.

Programa tem versão.

Usuário tem identificação.

Arquivo tem catálogo.

Transação tem log.

Acesso tem autorização.

Produção tem RACF.

Problema tem chamado.

E, se Deus, JES2 e o storage permitirem, aquilo que foi gravado em algum lugar pode ser encontrado novamente.

Existe uma certa beleza nisso.

O mainframe é uma civilização construída sobre a ideia de que controle importa.

Então alguém coloca você diante da Internet.

Você olha.

Ela olha de volta.

E pergunta:

— Onde está o catálogo?

Ninguém responde.

— Quem é o administrador?

Silêncio.

— Qual é o nó principal?

Risadas.

— Quem autorizou esse usuário?

Mais risadas.

Então você faz a pergunta definitiva:

— Como eu deleto isso de todos os lugares?

Nesse momento Bruce Willis aparece no corredor, olha para você com aquela expressão cansada de quem já tentou salvar o futuro algumas vezes e responde:

— Você não deleta.

Bem-vindo ao primeiro capítulo.

Coloque café.

Vai piorar.


🐒 1. O Exército dos 12 Macacos entra no CPD

Os 12 Macacos (12 Monkeys, 1995), dirigido por Terry Gilliam, é uma das melhores metáforas possíveis para conversarmos sobre Internet, censura, liberdade, subculturas digitais e circulação de informação.

No filme, a humanidade vive as consequências de uma catástrofe biológica.

Existe um passado.

Existe um futuro devastado.

Existe uma tentativa de descobrir a origem.

Existe informação fragmentada.

Existem interpretações erradas.

Existem pistas.

Existem pessoas tentando impedir acontecimentos que talvez já façam parte da própria história.

E, acima de tudo, existe uma obsessão:

encontrar o paciente zero.

Na Internet fazemos isso o tempo inteiro.

Uma coisa aparece.

Um meme explode.

Uma teoria se espalha.

Uma palavra estranha começa a ser utilizada.

Uma comunidade desconhecida torna-se notícia.

Um comportamento considerado perigoso aparece entre adolescentes.

Uma plataforma é acusada.

Um telejornal pergunta:

"De onde veio isso?"

O governo pergunta.

Os pais perguntam.

A polícia pergunta.

Os jornalistas perguntam.

As plataformas perguntam.

E o velho programador COBOL pergunta algo ainda mais pragmático:

QUAL FOI O JOB QUE GEROU ESSA PORCARIA?

Porque no mainframe essa pergunta faz sentido.

Na Internet, nem sempre.


🦠 2. Informação não é vírus — mas às vezes se comporta como um

Precisamos estabelecer uma diferença importante.

Uma informação não é literalmente um organismo.

Um meme não possui metabolismo.

Uma postagem não tem DNA.

Um vídeo não espirra.

Entretanto, existe uma semelhança fascinante na maneira como conteúdos circulam.

Uma pessoa recebe.

Ela transmite.

Outra modifica.

A terceira retransmite.

Uma comunidade adapta.

Outra comunidade traduz.

Alguém transforma em imagem.

Outro cria uma piada.

Outro inventa uma abreviação.

Outro faz um vídeo.

Alguém denuncia.

Um jornalista publica uma matéria sobre a denúncia.

Milhares de pessoas que jamais tinham ouvido falar do assunto descobrem que ele existe.

Temos então algo parecido com:

PESSOA A
   |
   v
INFORMAÇÃO
   |
   +------> PESSOA B
   |           |
   |           +------> PESSOA D
   |
   +------> PESSOA C
               |
               +------> COMUNIDADE
                           |
                           +------> OUTRA REDE

Só que existe uma diferença terrível.

Durante a transmissão, a informação pode sofrer mutação.

Quem já trabalhou décadas com sistemas conhece perfeitamente o problema.

É o telefone sem fio transformado em arquitetura distribuída.


🧬 3. A mutação digital

Considere uma frase:

"Aconteceu X."

Alguém repassa:

"Parece que aconteceu X."

Outro:

"Confirmaram que aconteceu X."

Outro:

"Estão escondendo que aconteceu X."

Outro:

"A imprensa não quer que você saiba que aconteceu X."

Finalmente aparece:

"URGENTE!!! COMPARTILHE ANTES QUE APAGUEM!!!"

Pronto.

O dado inicial pode ter desaparecido completamente.

O que circula agora não é mais o registro original.

É uma linhagem.

Para um COBOLzeiro isso é perturbador.

Imagine atualizar um cadastro bancário assim:

MOVE WS-SALDO TO CLIENTE-SALDO

mas cada sistema intermediário pudesse decidir:

IF EU-ACHO-QUE-EH-ISSO
   ADD 20 TO CLIENTE-SALDO
END-IF

Seríamos todos milionários aproximadamente quinze minutos antes da intervenção do Banco Central.

Na cultura digital, entretanto, essa transformação acontece continuamente.

Memes são mutações.

Gírias são mutações.

Recortes são mutações.

Remixes são mutações.

Screenshots são mutações de contexto.

Vídeos curtos retirados de vídeos longos podem produzir novas interpretações.

Uma informação deixa de possuir apenas conteúdo.

Ela ganha uma história de transmissão.


🏛️ 4. O mainframe acredita em autoridade

Vamos voltar ao nosso habitat natural.

Imagine um ambiente z/OS.

Existe segurança.

Existe identidade.

Existe autenticação.

Existe autorização.

Existe auditoria.

Temos RACF ou outro produto equivalente trabalhando dentro de uma arquitetura em que recursos podem ser protegidos.

O conceito fundamental é simples:

nem todo usuário pode fazer qualquer coisa.

Se BELLACOSA tentar acessar algo para o qual não possui autorização, podemos encontrar algo conceitualmente semelhante a:

ICH408I USER(BELLACOS)
         ACCESS INTENT(READ)
         ACCESS ALLOWED(NONE)

É frustrante?

Às vezes.

Mas existe lógica.

Existe uma autoridade capaz de dizer:

não.

Agora transportemos esse raciocínio para uma rede mundial formada por bilhões de dispositivos, empresas, governos, redes privadas, servidores, aplicações, protocolos e pessoas.

Quem possui o SPECIAL?

Resposta:

ninguém possui o SPECIAL da Internet inteira.

Esse detalhe muda tudo.


🌐 5. A Internet não nasceu como um grande Facebook

Para as gerações que chegaram depois, é fácil imaginar a Internet como uma coleção de aplicativos.

Instagram.

WhatsApp.

YouTube.

TikTok.

Discord.

Reddit.

Telegram.

X.

Mas a cultura digital é mais antiga que essas interfaces.

Antes dos feeds infinitos existiram comunidades muito mais rudimentares.

BBS.

Usenet.

IRC.

Listas de discussão.

FTP.

Newsgroups.

Fóruns.

Chats.

E posteriormente ICQ, mIRC e inúmeros mecanismos improvisados de encontro.

A Internet daquela época tinha uma característica importantíssima:

você precisava procurar.

Hoje um algoritmo pode decidir:

"Você assistiu sete segundos disso. Talvez queira mais."

Naquela Internet, frequentemente você precisava saber:

  • que determinada comunidade existia;

  • onde ela estava;

  • como chegar;

  • qual programa utilizar;

  • quais palavras eram utilizadas;

  • como conversar;

  • quais regras informais existiam.

Era quase geografia.

Existiam continentes invisíveis.

E as palavras eram coordenadas.


🔤 6. A palavra como endereço

Aqui começa uma das partes mais interessantes de nossa história.

Antes de algoritmos sofisticados compreenderem aproximadamente o que você deseja, saber o vocabulário correto era poder.

Você poderia procurar durante horas por uma coisa sem encontrá-la simplesmente porque não conhecia a palavra usada por aquela comunidade.

Então alguém ensinava o termo.

E tudo mudava.

É como entrar no ISPF sem saber o nome do dataset.

Você sabe que alguma coisa existe.

Mas tente procurar:

'ALGUMA.COISA.QUE.NAO.SEI'

Boa sorte.

Agora alguém cochicha:

HLQ.PROJETO.ARQUIVO

Pronto.

A porta apareceu.

É por isso que vocabulários, códigos, abreviações e gírias possuem tanta importância nas subculturas digitais.

Eles funcionam simultaneamente como:

identidade, filtro, senha cultural e mecanismo de descoberta.

E aqui começa nosso primeiro grande paradoxo.


📰 7. O jornalista quer alertar

Imagine um telejornal dos anos 1990.

Ou uma revista semanal.

A pauta é:

"Os perigos da Internet."

A intenção pode ser absolutamente legítima.

Pais precisam conhecer riscos.

Professores precisam compreender novos comportamentos.

Autoridades precisam saber que determinados fenômenos existem.

O público precisa ser informado.

Então a reportagem explica:

"Existe uma nova prática chamada X."

O espectador em casa pensa:

X?

A reportagem continua:

"Usuários encontram esse material procurando pela expressão Y."

O espectador pega uma caneta.

Y.

"Eles utilizam programas como Z."

Anotado.

Temos agora um fenômeno curioso.

Antes da reportagem:

USUARIO-CONHECE-ASSUNTO = 'N'
USUARIO-CONHECE-TERMO   = 'N'
USUARIO-CONHECE-MEIO    = 'N'

Depois:

USUARIO-CONHECE-ASSUNTO = 'S'
USUARIO-CONHECE-TERMO   = 'S'
USUARIO-CONHECE-MEIO    = 'S'
CURIOSIDADE             = 100

O alerta também transmitiu conhecimento operacional.


☢️ 8. Informação sobre perigo também é informação

Isso não significa que a imprensa deva esconder perigos.

Muito pelo contrário.

Existe interesse público em informar.

O problema é mais sofisticado:

quanto detalhe é necessário para explicar um risco sem transformar a explicação em mecanismo de descoberta?

Essa pergunta existia antes da Internet.

Mas a Internet multiplicou sua importância.

Imagine um telejornal dizendo:

"Existe um golpe bancário."

Ótimo.

Agora imagine que, para demonstrar o perigo, ele descreva detalhadamente cada etapa operacional necessária para reproduzi-lo.

Em determinado ponto, educação e exposição operacional começam a se aproximar perigosamente.

Segurança da informação conhece esse dilema há décadas.

Divulgação responsável de vulnerabilidades existe justamente porque:

conhecimento pode proteger e atacar.

Tudo depende de contexto, detalhe, intenção e capacidade.


🔥 9. O fruto proibido recebeu hyperlink

Existe ainda uma característica profundamente humana.

Diga:

"Não abra aquela porta."

O cérebro responde:

"O que existe atrás daquela porta?"

Diga:

"Não pesquise essa palavra."

E acabamos de ensinar uma palavra nova.

Diga:

"Esse site é tão absurdo que deveria desaparecer."

E algumas pessoas perguntarão:

"Qual site?"

Isso não significa que toda proibição aumente necessariamente a circulação de conteúdo.

Esse seria um erro importante.

Remoções podem funcionar.

Moderação pode reduzir exposição.

Desindexação pode dificultar descoberta.

Investigações podem desmontar redes criminosas.

Controles podem proteger vítimas.

Mas existe uma variável que nenhum IF elimina completamente:

01 HUMAN-CURIOSITY PIC 9(03) VALUE 999.

E ela participa de praticamente toda a história da comunicação.


🚨 10. Censura, moderação e crime não são sinônimos

Precisamos colocar uma placa enorme neste capítulo:

NÃO JOGUE TUDO NO MESMO OCCURS.

Quando alguém diz:

"Isso é censura!"

precisamos perguntar:

Quem removeu?

Foi o Estado?

Foi uma ordem judicial?

Foi uma empresa privada aplicando suas regras?

Foi o administrador de uma comunidade?

Foi um moderador?

Foi um sistema automático?

Houve crime?

Houve apenas violação dos termos de serviço?

São situações diferentes.

Um administrador expulsar alguém de um servidor Discord não possui automaticamente o mesmo significado jurídico de um Estado proibir determinada manifestação.

Uma plataforma remover conteúdo segundo suas políticas também não é automaticamente equivalente a uma condenação criminal.

E uma investigação policial sobre uma conduta prevista em lei não pode ser reduzida simplesmente a:

"Estão censurando a Internet."

Essa distinção será fundamental quando chegarmos ao ECA.

Porque existe uma fronteira em que nossa conversa deixa de tratar apenas de liberdade e passa a tratar também de proteção de pessoas vulneráveis e condutas criminalizadas pela legislação brasileira.

Esse assunto merece capítulo próprio.

E terá.


👶 11. A variável que muda toda a equação

Existe uma diferença enorme entre uma comunidade formada exclusivamente por adultos e ambientes frequentados também por crianças e adolescentes.

Não apenas culturalmente.

Juridicamente.

Eticamente.

Arquitetonicamente.

Um serviço digital pode pensar:

USER = USER

A sociedade não pode simplesmente fazer isso.

Idade importa.

Vulnerabilidade importa.

Assimetria de poder importa.

Exploração importa.

A legislação brasileira estabelece proteção especial a crianças e adolescentes.

Consequentemente, quando começarmos a discutir Discord, Telegram, WhatsApp, fóruns e comunidades digitais, não será suficiente perguntar:

"Existe liberdade de expressão?"

Precisaremos também perguntar:

"Quem está naquele ambiente?"

E:

"O que está acontecendo com essas pessoas?"

Liberdade não transforma crime em opinião.

Da mesma maneira, preocupação com crime não deveria transformar qualquer comportamento estranho, subcultura ou manifestação desagradável automaticamente em crime.

Essa distinção é difícil.

Por isso ela importa.


🧑‍💻 12. Nasce a tribo digital

Agora chegamos às subculturas.

Toda comunidade humana cria linguagem.

Médicos fazem isso.

Advogados fazem.

Militares fazem.

Programadores fazem.

Mainframeiros fazem isso de maneira quase criminosa.

Experimente colocar uma pessoa normal numa conversa:

"O AOR chamou o programa via LINK, pegou AEI9 porque o arquivo estava indisponível, depois vimos no SDSF que o batch tinha quebrado e precisamos conferir o RACF."

A pessoa pergunta:

Vocês são uma seita?

Talvez.

Mas esse vocabulário possui função.

Ele comprime conhecimento.

Quem conhece o contexto entende rapidamente.

Subculturas digitais fazem exatamente a mesma coisa.

Criam:

  • palavras;

  • abreviações;

  • memes;

  • referências;

  • símbolos;

  • piadas internas;

  • códigos;

  • maneiras específicas de escrever.

Isso gera pertencimento.

Mas também pode dificultar a compreensão externa.


🕵️ 13. Quando o moderador aprende a palavra

Imagine uma plataforma tentando impedir determinado comportamento.

Ela descobre que usuários utilizam:

PALAVRA-X

Então cria:

IF MESSAGE CONTAINS PALAVRA-X
    BLOCK MESSAGE
END-IF

Problema resolvido?

Claro que não.

Somos programadores.

Sabemos que nunca termina no primeiro IF.

Os usuários percebem.

Substituem a palavra.

O sistema aprende a nova palavra.

Os usuários inventam outra.

Entram abreviações.

Depois imagens.

Depois memes.

Depois contexto.

Depois ironia.

Depois códigos conhecidos apenas pelos membros.

Temos uma corrida:

FILTRO
   ↓
ADAPTAÇÃO
   ↓
NOVO FILTRO
   ↓
NOVA ADAPTAÇÃO
   ↓
CLASSIFICADOR
   ↓
NOVO DIALETO
   ↓
IA
   ↓
NOVO CONTEXTO

É uma guerra semântica.

E estamos apenas começando.


🐒 14. Onde estão os 12 Macacos?

Essa é a pergunta perfeita.

Quando alguma coisa ruim acontece numa comunidade digital, existe uma tentação enorme de procurar:

O grupo responsável.

Pode existir.

Em crimes organizados, evidentemente pode haver indivíduos, grupos, estruturas e responsabilidades identificáveis.

Mas fenômenos culturais amplos frequentemente não possuem uma única sala secreta onde doze pessoas decidiram:

"A partir de amanhã todos farão isso."

Eles emergem.

Um usuário copia outro.

Uma piada atravessa comunidades.

Um termo migra.

Um algoritmo recomenda.

Um influenciador comenta.

Um jornal noticia.

Um adversário denuncia.

Alguém publica a denúncia.

A denúncia viraliza.

Pessoas descobrem o conteúdo através da própria denúncia.

Agora tente desenhar o diagrama de causa.

Boa sorte.


🧮 15. O COBOLzeiro procura o ROOT CAUSE

Nós fomos treinados para isso.

Produção caiu.

War Room.

Café.

Logs.

Dump.

SMF.

Abend.

Horário.

Mudança.

Programa.

Transação.

Dataset.

ROOT CAUSE.

Encontramos.

Corrigimos.

Documentamos.

Encerramos incidente.

Na cultura digital, frequentemente encontramos isto:

CAUSE-A ---> EVENT
CAUSE-B ---> EVENT
CAUSE-C ---> EVENT
     ^         |
     |         v
     +----- REACTION
              |
              v
            MEDIA
              |
              v
          MORE USERS
              |
              v
           EVENT-2

A consequência alimenta a causa.

É feedback.

A notícia modifica o fenômeno noticiado.

A moderação modifica o comportamento moderado.

A proibição modifica o vocabulário.

O algoritmo modifica aquilo que as pessoas produzem.

As pessoas aprendem a modificar o conteúdo para agradar ao algoritmo.

E o algoritmo aprende com aquilo que as pessoas modificaram para agradá-lo.

Terry Gilliam provavelmente sorriria.


📡 16. Ontem você procurava a subcultura

Existe uma diferença que será essencial nos próximos capítulos.

Na velha Internet, muitas comunidades eram relativamente difíceis de encontrar.

Era preciso conhecer alguém.

Saber um endereço.

Encontrar um fórum.

Descobrir um canal.

Aprender uma palavra.

Instalar determinado programa.

Isso criava fricção.

Fricção é uma coisa subestimada.

Para chegar ao conteúdo você precisava executar:

INTERESSE
   +
CONHECIMENTO
   +
FERRAMENTA
   +
ESFORÇO

Hoje existe outra possibilidade:

INTERESSE = 0

ALGORITHM:
    SHOW CONTENT

Você não encontrou a comunidade.

A comunidade encontrou você.

Essa transformação talvez seja uma das maiores mudanças da história das subculturas digitais.

E será central quando chegarmos às redes sociais.


🤖 17. O algoritmo não precisa gostar de você

Outra confusão frequente:

"O algoritmo quer isso."

Algoritmos não precisam possuir desejos humanos.

Um sistema de recomendação pode simplesmente estar otimizado para algum conjunto de objetivos.

Clique.

Retenção.

Visualização.

Interação.

Engajamento.

Conversão.

Se determinado conteúdo produz reação, ele pode ganhar circulação dependendo da arquitetura e dos critérios utilizados.

E indignação também é interação.

Você vê algo absurdo.

Comenta:

"QUE ABSURDO!"

Compartilha:

"VEJAM QUE ABSURDO!"

Cinco pessoas respondem.

Três brigam.

Alguém faz vídeo respondendo.

Parabéns.

Você talvez tenha acabado de fornecer sinais de interesse ao ecossistema que desejava combater.

É o equivalente digital a tentar apagar incêndio com:

//EXTING JOB
//STEP01 EXEC PGM=IEBGENER
//SYSUT1 DD *
     GASOLINA
/*

📰 18. O paradoxo da denúncia

Isso nos leva novamente à imprensa.

Denunciar é necessário.

Investigar é necessário.

Informar é necessário.

Mas a forma da informação importa.

Existe diferença entre:

"Autoridades identificaram determinada prática perigosa e explicamos como se proteger."

e fornecer detalhes desnecessários que facilitem reprodução ou descoberta.

O mesmo problema aparece em:

  • segurança cibernética;

  • golpes;

  • desafios perigosos;

  • extremismo;

  • automutilação;

  • exploração;

  • fraudes;

  • determinadas comunidades criminosas.

Existe um equilíbrio delicado entre:

informar suficientemente para proteger

e

detalhar suficientemente para ensinar.

Não existe algoritmo perfeito para determinar essa fronteira.

Nem jornalista perfeito.

Nem moderador perfeito.

Nem IA perfeita.


🧠 19. A memória humana é o backup que ninguém consegue apagar

Agora chegamos ao detalhe que destrói definitivamente nosso sonho de DELETE.

Suponha que uma informação seja removida.

Servidor apagado.

Postagem removida.

Conta excluída.

Acabou?

Não necessariamente.

Alguém viu.

Alguém lembra.

Alguém anotou.

Alguém tirou screenshot.

Alguém comentou em outro lugar.

Alguém explicou para outra pessoa.

Mesmo que todas as cópias digitais desaparecessem magicamente, existe um dispositivo extremamente inconveniente:

cérebro humano.

Não possui interface REST confiável.

Não aceita DELETE.

Não possui transação distribuída.

E frequentemente altera os registros sem preservar o original.

É provavelmente o pior banco de dados já colocado em produção.

Mesmo assim, continuamos utilizando há alguns milhares de anos.


🦠 20. O verdadeiro vírus

Talvez agora possamos entender nossa metáfora.

O vírus de nossa história não é Facebook.

Não é Discord.

Não é Telegram.

Não é Reddit.

Não é televisão.

Não é jornal.

Não é eMule.

Não é IRC.

Não é algoritmo.

Essas coisas são, dependendo do contexto, ambientes, vetores, amplificadores, filtros ou barreiras.

O elemento que atravessa todos eles é:

INFORMAÇÃO.

E informação possui uma característica extraordinária:

ela pode ser copiada sem que o original desapareça.

Se eu lhe entregar meu relógio, fico sem relógio.

Se eu lhe entregar uma informação, agora somos dois possuindo a informação.

Isso muda completamente a economia da propagação.


☕ 21. Easter egg: o operador recebe uma mensagem

São 03:17.

Nosso programador está sozinho no CPD.

Existe uma caneca de café cuja composição química já não pode ser determinada pelas técnicas disponíveis à ciência.

O terminal 3270 pisca.

Surge uma mensagem que ele não reconhece:

BELLACOSA INFORMATION CONTROL FACILITY
--------------------------------------

SYSTEM TIME....: UNKNOWN
ORIGIN.........: UNKNOWN
NETWORK........: GLOBAL

INCIDENT TYPE..: INFORMATION OUTBREAK

PATIENT ZERO...: NOT FOUND
COPIES.........: UNKNOWN
MUTATIONS......: ACTIVE

ENTER COMMAND ===> _

O programador pensa.

Digita:

DELETE INFORMATION

Resposta:

COMMAND REJECTED

REASON:
INFORMATION EXISTS ON REMOTE NODES.

Ele tenta:

DELETE REMOTE NODES

Resposta:

COMMAND REJECTED

REASON:
REMOTE NODES ARE NOT UNDER YOUR AUTHORITY.

Irritado:

RACF PERMIT INTERNET CLASS(*) ACCESS(NONE)

Silêncio.

Então:

ICH408I INTERNET NOT DEFINED TO RACF

O programador tira os óculos.

Olha para o café.

Olha novamente para a tela.

Finalmente pergunta:

WHO CONTROLS INTERNET?

O cursor permanece parado por alguns segundos.

Então surge:

NO SINGLE OWNER FOUND.

Mais uma linha:

WARNING:
SEARCHING FOR PATIENT ZERO MAY CHANGE THE OUTBREAK.

E outra:

12 MONKEYS STATUS: UNKNOWN

A tela apaga.


🐒 22. E talvez esse seja o verdadeiro problema

Passamos décadas tentando aplicar metáforas do mundo físico ao digital.

Biblioteca.

Página.

Documento.

Lixeira.

Pasta.

Arquivo.

Correio.

Endereço.

Comunidade.

Parede.

Amigo.

Seguidor.

Canal.

Todas ajudam.

Nenhuma explica completamente o fenômeno.

Talvez precisemos acrescentar outra:

epidemiologia da informação.

Não para dizer que ideias são doenças.

Isso seria simplista e perigoso.

Mas para compreender que informação possui:

  • origem;

  • transmissão;

  • alcance;

  • mutação;

  • comunidades;

  • barreiras;

  • vetores;

  • amplificadores;

  • resistência;

  • memória.

E, principalmente, efeitos inesperados das tentativas de intervenção.


🔮 23. O que vem depois

Nosso COBOLzeiro ainda acredita que conseguirá encontrar o paciente zero.

Coitado.

No próximo capítulo vamos colocá-lo diante de algo ainda mais estranho.

Uma revista ou um telejornal deseja proteger o público.

Produz uma reportagem sobre alguma coisa que poucas pessoas conhecem.

Explica o nome.

Mostra o fenômeno.

Apresenta o vocabulário.

Talvez indique até os ambientes nos quais aquilo circula.

No dia seguinte milhares de curiosos sabem uma coisa que não sabiam anteriormente:

o que procurar.

E começaremos a investigar uma pergunta desconfortável:

É possível denunciar alguma coisa sem também aumentar sua visibilidade?

Porque existe uma diferença gigantesca entre dizer:

"Existe uma porta perigosa."

e explicar:

"A porta fica no terceiro corredor, à esquerda, e esta é a palavra escrita nela."


🖥️ FINAL DO CAPÍTULO I

No CPD, o terminal volta a acender sozinho.

BELLACOSA MAINFRAME
------------------------------------

INCIDENT: INFORMATION OUTBREAK

PATIENT ZERO........ NOT FOUND
TRANSMISSION........ ACTIVE
MUTATION............ ACTIVE
HUMAN CURIOSITY..... ACTIVE

NEXT TRACE SOURCE:

   [ ] BBS
   [ ] USENET
   [ ] IRC
   [ ] TELEVISION
   [ ] NEWSPAPER
   [X] MAGAZINE

SOURCE IDENTIFIED:

VEJA

WARNING:

THE SOURCE MAY NOT HAVE CREATED
THE INFORMATION.

IT MAY HAVE DONE SOMETHING
FAR MORE INTERESTING:

TAUGHT PEOPLE WHAT TO SEARCH FOR.

------------------------------------

ARC I
CHAPTER I........... COMPLETE
CHAPTER II.......... WAITING

COMMAND ===> _

Bruce Willis observa o terminal.

O COBOLzeiro pergunta:

— Então no próximo capítulo encontramos o culpado?

Bruce Willis balança a cabeça.

— Não.

— Encontramos pelo menos o paciente zero?

— Também não.

— Então o que encontramos?

Ele olha para uma velha revista sobre a mesa.

— O manual.

CONTINUA...


🐒 Próximo capítulo

ARCO I — CAPÍTULO II

📺 "Não procure isto na Internet" — e milhões descobriram o que procurar

Revista Veja, televisão, jornais, palavras-chave, curiosidade, pânico moral, efeito Streisand e o curioso período da história em que uma reportagem podia tentar ensinar os pais a proteger os filhos — enquanto um adolescente diante do computador anotava cuidadosamente cada palavra nova que aparecia na matéria.

Vagner Renato Bellacosa, IBM Champion e especialista em IBM Mainframe
IBM Z17 SYSTEM ONLINE
Sobre o autor

Vagner Renato Bellacosa

IBM Champion 2026 • Especialista em IBM Mainframe

Vagner Renato Bellacosa trabalha com IBM Mainframe desde 1988 , é IBM Champion e especialista em COBOL, CICS, Db2, z/OS e IBM Z. Compartilha experiências profissionais, conhecimento técnico, história da computação e práticas do universo mainframe para aproximar novas gerações das tecnologias que sustentam empresas, bancos e governos ao redor do mundo.

IBM Champion IBM Z COBOL CICS Db2 z/OS Mainframe desde 1988
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