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segunda-feira, 18 de setembro de 2023

Malba Tahan, Beremiz Samir e o Homem que Inventou um Árabe para Ensinar Matemática ao Brasil

 

Bellacosa Mainframe apresenta Malba Tahan

☕ Um Café no Bellacosa Mainframe

Malba Tahan, Beremiz Samir e o Homem que Inventou um Árabe para Ensinar Matemática ao Brasil

Ou: como um professor brasileiro criou um escritor árabe, depois criou um calculista persa, colocou os dois num camelo e fez gerações inteiras descobrirem que matemática podia contar histórias

Há escritores que inventam personagens.

Há escritores que inventam mundos.

Há escritores que inventam cidades, impérios, idiomas, planetas e genealogias suficientemente complicadas para obrigar algum leitor obsessivo a construir uma planilha.

E houve Júlio César de Mello e Souza.

Esse sujeito resolveu fazer algo mais divertido.

Inventou o próprio escritor.

Não satisfeito, deu-lhe nome.

Malba Tahan.

Depois deu-lhe origem.

Passado.

Personalidade.

Geografia.

Uma atmosfera inteira de desertos, califas, mercadores, palácios, sábios, caravanas e noites estreladas.

E então colocou dentro dessa invenção outro homem.

Um persa chamado:

Beremiz Samir.

O Homem que Calculava.

Portanto, antes de prosseguirmos, convém organizar o datacenter.

Temos três camadas.

Na LPAR 1:

Júlio César de Mello e Souza, brasileiro, professor de matemática.

Na LPAR 2:

Malba Tahan, escritor oriental cuidadosamente fabricado.

Na LPAR 3:

Beremiz Samir, calculista persa capaz de olhar para um problema aparentemente insolúvel e dizer algo equivalente a:

— Calma. Tem um jeito.

É quase impossível imaginar estrutura narrativa mais Bellacosa Mainframe do que essa.

Um personagem dentro de um personagem criado por um homem que usava histórias para explicar problemas que normalmente seriam apresentados numa lousa acompanhados da frase:

“Calcule o valor de x.”

Beremiz provavelmente olharia para o x e perguntaria primeiro quem era o pai dele, quantos camelos possuía e se havia alguma disputa sucessória envolvida.


🐪 Primeiro precisamos encontrar um camelo

Toda boa história começa em algum lugar.

As histórias de Malba Tahan frequentemente parecem começar numa estrada poeirenta entre cidades do Oriente.

Então imagine.

Sol.

Areia.

Uma estrada.

Um camelo caminhando sem qualquer pressa administrativa.

Sobre ele vai um viajante.

Ao longe aparece outro homem.

Ele observa coisas.

Conta coisas.

Pensa em coisas.

Esse homem é Beremiz Samir.

E se você cresceu lendo O Homem que Calculava, provavelmente já sabe que encontrar Beremiz numa estrada é uma situação perigosa.

Porque dentro de três páginas surgirá algum problema.

Pode ser herança.

Pode ser dinheiro.

Pode ser divisão.

Pode ser lógica.

Pode ser geometria.

Pode aparecer um xeque.

Um mercador.

Um vizir.

Um sábio.

Três irmãos discutindo.

Ou naturalmente:

35 camelos.

Esse último caso tornou-se uma das passagens mais famosas de toda a literatura matemática brasileira.

Três irmãos recebem 35 camelos.

A herança deve ser dividida conforme determinadas frações.

A divisão parece impossível sem produzir aquilo que qualquer proprietário de camelos provavelmente considera uma péssima experiência logística:

frações de camelo.

Beremiz olha.

Pensa.

E introduz um camelo adicional na equação.

O problema muda.

As partes tornam-se inteiras.

A divisão funciona.

E no final ainda aparecem camelos sobrando.

É uma pequena obra-prima de apresentação matemática porque o leitor não recebe apenas uma conta.

Recebe um conflito.

E conflito produz curiosidade.

A matemática entra depois.

A própria Secretaria de Educação do Espírito Santo ainda utiliza o famoso problema dos 35 camelos em material pedagógico, prova de que essa pequena caravana literária continua atravessando salas de aula décadas depois.

Essa foi uma das grandes sacadas de Malba Tahan:

primeiro faça o leitor querer saber a resposta.

Depois ensine a matemática.

É exatamente o contrário de muita educação tradicional, na qual primeiro entregamos a fórmula e depois tentamos convencer o aluno de que ele deveria se importar com ela.

Malba fazia engenharia reversa da curiosidade.


🧮 O professor que declarou guerra ao algebrismo

Agora precisamos deixar Beremiz descansando um pouco no oásis e olhar para o homem que estava atrás da cortina.

Júlio César de Mello e Souza nasceu em 1895.

Professor.

Matemático.

Escritor.

Divulgador.

Contador de histórias.

E um crítico ferrenho de uma coisa que ele chamava de:

algebrismo.

A palavra merece ser colocada numa moldura.

Porque continua assustadoramente moderna.

Algebrismo era, grosso modo, a transformação da matemática numa sucessão de operações formais, regras e exercícios sem contexto suficiente para produzir compreensão.

Uma espécie de matemática funcionando como JCL de 1968:

ninguém sabe exatamente por que aquilo existe, mas o operador foi avisado para não mexer.

A Biblioteca Nacional registra justamente essa crítica de Júlio César ao excesso de algebrismo no ensino.

E aqui encontramos o coração da obra.

Malba Tahan não queria simplesmente ensinar a fazer contas.

Queria ensinar a pensar.

Existe uma diferença brutal entre as duas coisas.

Uma calculadora faz contas.

Um estudante precisa aprender a perceber:

— Qual é o problema?

— O que realmente está sendo pedido?

— Existe outra maneira de olhar para isso?

— Todas as informações são necessárias?

— Alguma coisa aparentemente impossível deixa de ser impossível se mudarmos a perspectiva?

Beremiz fazia exatamente isso.

Não era uma HP 12C humana.

Era um resolvedor de problemas.


🎭 Então Júlio criou Malba

Aqui a história fica maravilhosa.

Imagine um jovem brasileiro no começo do século XX escrevendo contos orientais.

Ele tenta publicá-los.

Os jornais não demonstram grande entusiasmo.

Então ocorre uma ideia.

Hoje chamaríamos provavelmente de:

estratégia de marca.

Ou talvez:

growth hacking literário de 1920.

Júlio conclui que aqueles contos talvez recebessem mais atenção se não parecessem escritos por um jovem brasileiro.

Então nasce:

Malba Tahan.

Não apenas um pseudônimo.

Isso seria simples demais.

Júlio construiu uma identidade.

Uma biografia.

Uma persona.

A Prefeitura de São Paulo registra que ele chegou inclusive a criar um suposto tradutor para as obras, o Professor Breno Alencar Bianco, aumentando ainda mais a verossimilhança da fabricação literária.

Isso é extraordinário.

Hoje alguém faria:

malbatahan.com

perfil no LinkedIn:

Malba Tahan — Oriental storyteller | Mathematics enthusiast | Baghdad Metropolitan Area

E provavelmente colocaria:

“Helping people solve complex problems through storytelling.”

Júlio fez tudo isso antes da Internet.

O sujeito criou uma identidade narrativa completa.

A Biblioteca Nacional registra inclusive edições apresentadas como traduzidas diretamente do original árabe, acompanhadas da biografia do suposto autor oriental.

Era uma brincadeira literária?

Sim.

Marketing?

Também.

Experimento de narrativa?

Com certeza.

Mas há algo ainda mais interessante.

Com o tempo, Malba Tahan tornou-se tão real culturalmente que deixou de importar se ele existia biologicamente.

Malba passou a existir porque os leitores sabiam quem ele era.

E essa talvez seja uma das formas mais interessantes de existência.


🧠 Um homem criou outro homem para explicar homens

Agora voltamos ao nosso amigo Beremiz.

Porque existe uma bela escadaria narrativa aqui.

Júlio César cria Malba Tahan.

Malba Tahan cria Beremiz Samir.

Beremiz resolve problemas humanos usando matemática.

Temos então:

Júlio → Malba → Beremiz → problema → solução → leitor.

Quase um pipeline.

SOURCE.

TRANSFORM.

PROCESS.

OUTPUT.

Mas o processamento não termina no resultado numérico.

O verdadeiro output é:

compreensão.

Uma pesquisa acadêmica da USP descreve justamente essa cadeia de criação: Júlio cria Malba, que por sua vez cria Beremiz como veículo literário para aplicar uma determinada concepção de matemática à vida cotidiana.

Isso ajuda a explicar por que os livros sobreviveram.

Eles nunca foram apenas livros de problemas.

Se fossem, teriam envelhecido como antigos manuais escolares.

Eles são histórias.

E histórias possuem uma característica perigosa:

ficam armazenadas em regiões estranhas da memória.

Você pode esquecer completamente como resolver uma determinada equação.

Mas quarenta anos depois alguém diz:

— Trinta e cinco camelos.

E uma pequena portinha se abre no cérebro.


🕌 Bagdá.exe foi carregado

O cenário oriental tinha outra função importante.

Transformava a matemática em aventura.

Bagdá não era apenas uma cidade.

Era interface.

Palácios.

Mercados.

Caravanas.

Mesquitas.

Desertos.

Astrônomos.

Mercadores.

Sábios.

Xeques.

Poetas.

O leitor estava aprendendo matemática, mas pensava estar seguindo uma viagem.

Truque antigo.

Funcionava nas Mil e Uma Noites.

Funcionou com Malba.

Funciona hoje em videogame.

Funciona numa boa aula.

Funciona neste blog.

Você entra porque alguém prometeu uma história sobre mainframe.

Quando percebe, está lendo sobre:

WLM,

zIIP,

R4HA,

COBOL,

psicologia cognitiva,

história romana,

um rinoceronte que Dürer nunca viu

e provavelmente algum macaco bêbado abrindo um barril.

A técnica é a mesma.

Esconda o remédio dentro da sobremesa.

Malba Tahan sabia disso quase cem anos atrás.


📚 Mil Histórias sem Fim

E eis que encontramos um título perfeito para esta homenagem.

Mil Histórias sem Fim.

Malba Tahan publicou uma obra com esse nome.

E há qualquer coisa deliciosamente apropriada nisso.

Porque histórias realmente não terminam.

Elas mudam de hospedeiro.

Um professor conta para um aluno.

O aluno vira professor.

Conta para outro aluno.

Um pai lê um livro.

Décadas depois lembra do problema.

Conta para o filho.

O filho procura na Internet.

Encontra outra versão.

Alguém produz um vídeo.

Outro faz um post.

Outro cria um meme.

Outro escreve um artigo num blog perdido numa esquina da Internet.

E agora temos um velho barbudo em Itatiba tomando café enquanto um calculista persa atravessa o datacenter montado num camelo imaginário.

Se isso não é uma história sem fim, não sei o que seria.


🎓 O professor que queria alunos pensando

Existe um detalhe que considero especialmente importante.

Malba Tahan não pertence apenas à história da literatura.

Pertence à história da educação brasileira.

Seu aniversário, 6 de maio, tornou-se o Dia Nacional da Matemática.

Isso não ocorreu porque ele descobriu uma nova constante matemática.

Nem porque formulou um teorema que carrega seu nome.

A homenagem existe porque ajudou a mudar a relação entre pessoas e matemática.

Essa distinção é belíssima.

Existem matemáticos que expandiram a matemática.

Malba ajudou a expandir o número de pessoas dispostas a entrar nela.

E isso também é ciência.

Divulgação importa.

Didática importa.

Curiosidade importa.

Uma ideia incompreensível é praticamente inútil para quem precisa aprendê-la.


🐫 O incidente dos 35 camelos deveria ser ensinado em TI

Aliás, suspeito que Beremiz seria um excelente arquiteto de sistemas.

Veja o famoso problema dos camelos.

O sistema possui uma restrição.

Os usuários estão brigando.

Os requisitos parecem incompatíveis.

A divisão não fecha.

O desenvolvedor tradicional poderia responder:

NOT POSSIBLE.

Ticket encerrado.

Beremiz faz outra coisa.

Ele muda temporariamente o estado do sistema.

Acrescenta um elemento.

Executa a distribuição.

Remove o excedente.

Problema resolvido.

Isso é praticamente:

temporary capacity provisioning.

Se Beremiz trabalhasse num mainframe provavelmente diria:

— Permita-me acrescentar momentaneamente uma unidade à capacidade disponível.

Depois faria alguma coisa incompreensível envolvendo WLM.

Todos receberiam exatamente os recursos prometidos.

E ainda sobrariam dois MSUs.

O gerente financeiro provavelmente o promoveria imediatamente.


🧙 Beremiz não é um gênio porque calcula rápido

Esse ponto merece cuidado.

Personagens matematicamente talentosos costumam ser apresentados como máquinas.

Calculam números absurdamente rápidos.

Memorizam milhares de dígitos.

Resolvem equações enormes mentalmente.

Beremiz é diferente.

Seu encanto não está apenas na velocidade.

Está na interpretação.

Ele percebe estrutura.

Vê relações.

Descobre simetria.

Reformula perguntas.

Isso aproxima o personagem de uma ideia moderna de inteligência.

A verdadeira habilidade não é possuir respostas.

É saber transformar o problema.

Quando você muda a pergunta, às vezes a resposta aparece sozinha.

Esse é um dos grandes segredos de investigação técnica.

Incidente:

“CPU está alta.”

Pergunta ruim:

— Como baixar CPU?

Pergunta Beremiz:

— Quem está usando CPU, quando começou, qual workload mudou e por que esse consumo apareceu agora?

De repente o problema virou outro.

E talvez CPU nem fosse o problema.


📈 Malba Tahan provavelmente entenderia IA perfeitamente

Agora vamos empurrar o camelo alguns quilômetros além.

Vivemos numa época curiosa.

Inteligência artificial produz respostas.

Muitas.

Rápidas.

Bonitas.

O perigo está em confundir produção de resposta com compreensão.

Malba provavelmente reconheceria imediatamente a armadilha.

Porque seu método não era:

Resposta → aluno.

Era:

Problema → curiosidade → raciocínio → história → descoberta.

Se simplesmente entregássemos a Beremiz uma máquina dizendo:

“Resultado: 17 camelos.”

perderíamos o melhor pedaço.

O caminho.

A surpresa.

A inversão.

Aquele instante em que o leitor pensa:

— Ahhhhhh.

Esse “ahhh” talvez seja a verdadeira unidade de medida da educação.

Poderíamos chamá-la de:

1 Tahan.

Um Tahan corresponde à quantidade mínima de compreensão necessária para um aluno olhar para algo aparentemente complicado e dizer:

— Agora entendi.

Mil Tahans formariam um Beremiz.

A ISO infelizmente ainda não aprovou o padrão.


📰 E o falso árabe venceu

A parte mais saborosa é pensar que a estratégia funcionou.

Malba Tahan tornou-se amplamente conhecido.

Escreveu dezenas de obras sob essa identidade.

O Homem que Calculava, publicado originalmente em 1938, atravessou gerações e ganhou enorme circulação.

O personagem imaginário tornou-se mais famoso do que o cidadão que o inventou.

É quase uma vingança literária.

Júlio queria que publicassem suas histórias.

Criou Malba.

Décadas depois estudantes aprendem:

— Malba Tahan era o pseudônimo de Júlio César de Mello e Souza.

Ou seja:

primeiro aprendemos o nome inventado.

Depois descobrimos o homem real.

A máscara virou rosto.


🪞 E aqui aparece o easter egg

Talvez o leitor já tenha percebido.

Este artigo não é apenas uma homenagem a Malba Tahan.

É também uma pequena demonstração de seu método.

Começamos com um escritor.

Encontramos um personagem.

Depois um camelo.

Então apareceu matemática.

Depois educação.

Depois arquitetura de sistemas.

Depois mainframe.

Depois inteligência artificial.

E agora estamos falando sobre como histórias transmitem conhecimento.

Ou seja:

o texto foi mudando enquanto caminhávamos.

Como uma caravana.

Esse é o easter egg.

Malba não está apenas sendo mencionado.

A estrutura está tentando imitá-lo.


🐪 Beremiz chega ao Bellacosa Mainframe

Imagino então uma cena.

Madrugada.

03h17.

Algum lugar de Itatiba.

Datacenter metafórico funcionando.

Café.

Logs.

Um terminal 3270 aberto.

De repente surge um homem trajando roupas persas.

Atrás dele, naturalmente, um camelo.

Segurança imediatamente abre chamado.

ICH408I BEREMIZ LOGON REJECTED.

O homem olha tranquilamente para o console.

Pergunta quantos jobs estão executando.

Quantos aguardam.

Qual a prioridade.

Qual a capacidade total.

Qual a distribuição.

O operador responde.

Beremiz pensa por alguns segundos.

— Há um erro.

O operador verifica.

Nada.

Beremiz aponta.

— Existem quarenta tarefas, mas vocês estão planejando capacidade como se fossem cinquenta.

Silêncio.

RMF é aberto.

WLM consultado.

SMF analisado.

Beremiz tinha razão.

Um workload havia sido duplicado por erro numa integração.

O gerente pergunta:

— Como descobriu?

Beremiz sorri.

— Contei os camelos.


☕ E Júlio César observa de longe

Talvez esta seja a parte mais bonita.

O verdadeiro homem desaparece lentamente atrás da própria obra.

Júlio César de Mello e Souza morreu em 1974.

Mas Malba continua.

Beremiz continua.

Os camelos continuam.

O problema continua sendo contado.

Professores continuam usando suas histórias.

A USP ainda produz materiais inspirados em seu trabalho e resgata seus problemas para novas gerações.

Isso é uma espécie de imortalidade bastante razoável.

Não aquela dos monumentos.

Mas a melhor.

Aquela em que alguém que nunca conheceu você continua usando uma ideia sua.


🧠 A verdadeira conta de Malba Tahan

Talvez a maior equação criada por Malba nunca tenha aparecido em seus livros.

É esta:

História + Curiosidade = Aprendizado

Mas podemos melhorá-la.

Beremiz certamente melhoraria.

Vamos acrescentar algumas variáveis:

Problema + Personagem + Curiosidade + Surpresa = Conhecimento memorável

Agora temos algo interessante.

Porque conhecimento sozinho pode ser esquecido.

Conhecimento ligado a emoção, narrativa ou descoberta costuma criar raízes.

É por isso que tanta gente não lembra de exercícios escolares.

Mas lembra dos camelos.


🕌 Maktub

Há uma palavra frequentemente associada ao universo de Malba Tahan.

Maktub.

Estava escrito.

Mas talvez, no caso dele, devêssemos fazer uma pequena alteração.

Não estava escrito.

Ele escreveu.

Escreveu Malba.

Escreveu Beremiz.

Escreveu desertos que nunca precisou habitar.

Escreveu sábios que nunca existiram.

Escreveu problemas matemáticos que continuam circulando.

E escrevendo essas coisas acabou escrevendo uma pequena parte da memória escolar brasileira.

Nada mal para um professor que resolveu inventar um árabe.


🐫 Epílogo — o camelo que sobrou

Quando terminamos uma boa história de Malba Tahan, frequentemente sobra alguma coisa.

Uma ideia.

Uma pergunta.

Uma pequena surpresa.

Então deixemos uma.

O famoso problema começa com 35 camelos.

Beremiz acrescenta um.

Trinta e seis.

Faz a divisão.

E ao final aparecem camelos excedentes.

Um deles volta para quem o emprestou.

O problema foi resolvido porque alguém introduziu temporariamente algo que aparentemente não pertencia ao problema.

Talvez contar histórias funcione exatamente assim.

Você tem:

35 fatos.

Nenhum deles encaixa perfeitamente.

Então acrescenta um personagem.

Agora existem 36 elementos.

Você organiza.

Divide.

Relaciona.

Explica.

E quando termina…

o personagem pode ir embora.

Os fatos continuam lá.

Só que agora fazem sentido.

Talvez esse tenha sido o grande truque de Malba Tahan.

Ele emprestava um camelo para a matemática.

O camelo chamava-se:

história.

A matemática fazia a viagem.

Depois o camelo voltava.

E o leitor ficava com a resposta.


☕ P.S. — Registro de acesso

Se algum arqueólogo digital encontrar este texto em 2126 e tentar descobrir por que existe um calculista persa andando de camelo dentro de um mainframe IBM, favor registrar:

não houve corrupção no banco de dados.

não foi hallucination da IA.

não foi defeito no WLM.

não foi erro de encoding EBCDIC.

Foi apenas Malba Tahan passando.

Provavelmente procurando os outros dois camelos.

E se você souber onde estão…

não conte.

Beremiz já calculou.



https://eljefemidnightlunch.blogspot.com/2014/07/o-livro-que-passou-pelo-firewall-de.html

quarta-feira, 11 de janeiro de 2023

O Livro que Queria Ser Texto : A Extraordinária História do OCR — Das Máquinas que Confundiam "Computador" com "Cornputad0r" até a Era da Inteligência Artificial

 

Bellacosa Mainframe e a origem dos ocrs parte I

☕📠 Um Café no Bellacosa Mainframe

O Livro que Queria Ser Texto

A Extraordinária História do OCR — Das Máquinas que Confundiam "Computador" com "Cornputad0r" até a Era da Inteligência Artificial

Existe uma ironia maravilhosa na história da computação.

Hoje o mundo inteiro fala sobre Inteligência Artificial Generativa.

ChatGPT.

Claude.

Gemini.

Llama.

Copilot.

Mas existe uma tecnologia muito mais antiga, discreta e silenciosa, que trabalhou durante mais de meio século preparando o terreno para tudo isso.

Ela não escrevia poemas.

Não respondia perguntas.

Não criava imagens.

Seu trabalho era infinitamente mais humilde.

Olhar para uma folha de papel e dizer:

"Isso aqui é a letra A."

Parece simples.

Na realidade foi uma das tarefas mais difíceis que a informática já tentou resolver.

Porque antes de ensinar um computador a pensar...

foi necessário ensiná-lo a ler.


O Sonho de Transformar Papel em Informação

Imagine um banco em 1965.

Milhões de cheques.

Formulários.

Notas fiscais.

Contratos.

Tudo em papel.

Cada documento precisava ser digitado novamente por operadores.

Era lento.

Caro.

Propenso a erros.

A grande pergunta surgiu naturalmente:

"E se uma máquina pudesse ler isso sozinha?"

Nascia uma área inteira da ciência chamada OCR — Optical Character Recognition (Reconhecimento Óptico de Caracteres).

Seu objetivo parecia simples.

Transformar pixels em letras.

Mas havia um pequeno detalhe.

Os computadores ainda mal conseguiam desenhar um círculo.


As Primeiras Tentativas (Décadas de 1910–1950)

Curiosamente, a ideia antecede os computadores eletrônicos.

Ainda no início do século XX surgiram dispositivos eletromecânicos para auxiliar pessoas cegas, convertendo caracteres impressos em sons ou sinais táteis. Inventores como Edmund Fournier d'Albe e, décadas depois, Emanuel Goldberg, criaram equipamentos capazes de identificar caracteres extremamente padronizados.

Essas máquinas não "entendiam" letras.

Elas comparavam formas.

Era quase um quebra-cabeça mecânico.


David Shepard e o Nascimento do OCR Comercial

Nos anos 1950, um engenheiro chamado David H. Shepard mudou tudo.

Ele criou um dos primeiros sistemas comerciais de OCR.

Sua empresa, a Intelligent Machines Research Corporation (IMR), mostrou que era possível automatizar a leitura de documentos.

A IBM rapidamente percebeu o potencial.

Pouco tempo depois comprou a tecnologia.

Era o começo de uma nova indústria.


O Primo Mais Famoso: MICR

Curiosamente, o primeiro grande sucesso comercial nem foi exatamente OCR.

Foi o MICR (Magnetic Ink Character Recognition).

Os números impressos na parte inferior dos cheques bancários eram escritos com tinta magnética.

Assim, mesmo documentos sujos ou carimbados podiam ser lidos.

Até hoje milhões de bancos utilizam descendentes diretos dessa tecnologia.

Era um OCR especializado.

Mas extremamente eficiente.


A IBM e a Automação de Escritórios

Na década de 1960 a IBM passou a investir pesado em automação documental.

Leitores ópticos começaram a aparecer em grandes empresas.

Os equipamentos custavam pequenas fortunas.

Mesmo assim compensavam.

Uma máquina podia substituir dezenas de digitadores.


O Grande Problema

O OCR da época possuía uma limitação enorme.

Ele precisava conhecer previamente a fonte utilizada.

Cada tipo de letra exigia treinamento específico.

Mudou a fonte?

Tudo quebrava.

Mudou o tamanho?

Recomece.

Mudou a inclinação?

Boa sorte.

Era quase como ensinar um aluno a reconhecer apenas uma única caligrafia.


Xerox PARC e a Revolução Silenciosa

Enquanto todos lembram do mouse e da interface gráfica criados no lendário Xerox PARC, poucas pessoas sabem que os laboratórios também impulsionaram pesquisas em digitalização de documentos, processamento de imagens e reconhecimento de padrões.

Esses estudos influenciaram diretamente os futuros scanners comerciais, impressoras a laser e sistemas documentais.

Sem essas pesquisas talvez o desktop publishing nunca tivesse existido.


Os Anos 80

Os scanners começaram a chegar às universidades.

Ainda eram lentos.

Caríssimos.

Monocromáticos.

Mas funcionavam.

Mais ou menos.

Os computadores já possuíam capacidade suficiente para comparar milhares de padrões.

Mesmo assim os erros eram frequentes.


Então Chegaram os Anos 90...

E milhares de geeks viveram exatamente a mesma aventura.

Scanner doméstico.

Windows 3.11.

Depois Windows 95.

OCR instalado a partir de vários disquetes.

E finalmente...

o momento mágico.

Digitalizar uma revista.

Esperar vários minutos.

Ver surgir um arquivo de texto.

Ou algo parecido com um arquivo de texto.


As Primeiras Alucinações da Informática

Quem viveu essa época nunca esquece.

O OCR americano simplesmente não entendia português.

Ç?

Alienígena.

Ã?

Objeto voador não identificado.

Ê?

Talvez fosse um F.

Ó?

Quem sabe um O.

Uma frase como:

"Computador"

virava

"Cornputad0r"

Porque "rn" parecia um "m".

O "o" virava zero.

O "l" virava um.

O "B" virava oito.

O resultado parecia uma mistura de português, inglês, latim e hieróglifos.

Era obrigatório revisar tudo manualmente.

Nascia uma expressão clássica:

"Catar milho."


As Empresas que Marcaram Época

Quem viveu os anos 90 certamente encontrou alguns destes nomes:

  • Caere OmniPage – talvez o OCR doméstico mais famoso do mundo.

  • Xerox TextBridge – excelente para documentos corporativos.

  • Kurzweil Recognition Systems – pioneira em OCR para acessibilidade.

  • Readiris – muito popular na Europa.

  • ABBYY FineReader – referência em precisão desde os anos 1990.

  • IRIS – forte no mercado profissional.

  • ExperVision TypeReader – bastante utilizado em universidades.

  • HP PrecisionScan OCR – distribuído com diversos scanners HP.

  • Canon ScanGear OCR – integrado aos scanners da Canon.

  • Epson Smart Panel OCR – comum entre usuários domésticos.

Cada um tinha personalidade própria.

E seus próprios surtos psicóticos.


O Milagre Chamado ABBYY

Quando o FineReader apareceu, muita gente achou que era magia.

Ele reconhecia:

  • colunas;

  • tabelas;

  • múltiplas fontes;

  • idiomas;

  • imagens inclinadas.

Hoje parece trivial.

Na época parecia ficção científica.


O Problema Nunca Foi Ler Letras

A verdadeira dificuldade era entender contexto.

Imagine:

CASA

C4SA

CA5A

CAS4

Um OCR clássico apenas comparava pixels.

Já um OCR moderno pergunta:

"Qual dessas palavras faz sentido na língua portuguesa?"

Foi aí que Linguística Computacional e Estatística começaram a caminhar juntas.


Então Veio o Machine Learning

A partir dos anos 2000 o OCR deixou de depender apenas de regras.

Passou a aprender.

Redes neurais começaram a reconhecer padrões invisíveis.

Depois vieram CNNs (Convolutional Neural Networks).

Mais tarde Transformers.

Hoje um OCR consegue reconhecer:

  • manuscritos;

  • páginas rasgadas;

  • documentos tortos;

  • fotografias de celular;

  • recibos amassados;

  • livros centenários;

  • placas de rua;

  • textos parcialmente apagados.


O OCR Alimentou a Inteligência Artificial

Existe um detalhe que poucas pessoas percebem.

Antes de treinar um LLM era necessário possuir bilhões de páginas digitais.

Mas onde conseguir isso?

Livros.

Revistas.

Jornais.

Artigos científicos.

Bibliotecas inteiras foram digitalizadas.

Projetos como Google Books, Internet Archive, Project Gutenberg, HathiTrust e iniciativas nacionais de bibliotecas digitais converteram acervos gigantescos em texto pesquisável.

Sem OCR...

grande parte desse conhecimento permaneceria presa ao papel.

Pode-se dizer que o OCR foi um dos grandes "garimpeiros" da era da IA: ele transformou montanhas de papel em matéria-prima para mecanismos de busca, sistemas de tradução, indexadores, modelos de linguagem e pesquisa acadêmica.


O Outro Lado da História

Nem tudo foi perfeito.

O OCR também gerou problemas.

Livros antigos possuem:

  • manchas;

  • páginas rasgadas;

  • tinta desbotada;

  • ortografia antiga;

  • fontes góticas;

  • caracteres inexistentes hoje.

Cada erro introduzido pelo OCR pode propagar informações incorretas.

Pesquisadores chamam isso de OCR Noise.

Modelos modernos precisam aprender a conviver com esse "ruído".

É um dos motivos pelos quais grandes projetos de digitalização investem tanto em revisão humana, pós-processamento e comparação entre múltiplas digitalizações.


O Retrocesso Inesperado

Curiosamente, o avanço dos smartphones trouxe um novo desafio.

Milhões de documentos passaram a ser fotografados tortos.

Com sombras.

Reflexos.

Perspectiva.

Antes o scanner produzia uma imagem perfeita.

Hoje o OCR precisa corrigir fotografia, iluminação, rotação e distorção antes mesmo de começar a ler.

Ou seja...

ficou mais inteligente.

Mas o problema ficou muito mais difícil.


OCR + IA = Document Understanding

O OCR moderno praticamente deixou de existir como tecnologia isolada.

Hoje ele faz parte de algo muito maior.

Chamado:

Intelligent Document Processing (IDP).

Não basta ler.

É preciso compreender.

Separar CPF.

Identificar CNPJ.

Descobrir assinaturas.

Encontrar valores.

Relacionar contratos.

Extrair tabelas.

Responder perguntas sobre documentos.

Em outras palavras...

o OCR virou apenas os olhos.

A IA tornou-se o cérebro.


Easter Eggs da História

🕵️ O primeiro CAPTCHA era uma vingança elegante. Muitos CAPTCHAs usavam palavras difíceis justamente porque humanos conseguiam ler aquilo que os OCRs antigos não conseguiam.

📚 ReCAPTCHA ajudou a digitalizar livros. Durante anos, quando você provava que não era um robô, também ajudava a confirmar palavras que o OCR não conseguira reconhecer em obras digitalizadas.

🏦 Bancos usavam OCR e MICR juntos. Enquanto a linha magnética identificava o cheque, o OCR podia ler campos adicionais.

📠 O fax ajudou o OCR a evoluir. Documentos de baixa qualidade forçaram algoritmos mais robustos de limpeza e reconstrução de imagem.

🤖 As primeiras "alucinações" vieram antes dos LLMs. Muito antes de modelos generativos inventarem referências, os antigos programas de OCR já inventavam letras, acentos e palavras inteiras.

📖 A caligrafia continua sendo um dos maiores desafios. Apesar dos avanços, letras muito cursivas ou documentos extremamente degradados ainda exigem intervenção humana.


Um Café Antes de Fechar o Scanner

Sempre achei curioso que as pessoas digam que a Inteligência Artificial nasceu quando os computadores aprenderam a conversar.

Discordo.

Ela começou muito antes.

Começou quando uma máquina olhou para uma folha de papel e tentou responder a uma pergunta aparentemente simples:

"O que está escrito aqui?"

Errou milhares de vezes.

Confundiu "rn" com "m".

Transformou "Computador" em "Cornputad0r".

Fez qualquer entusiasta passar horas "catando milho" diante do Word 6.0.

Mas, como toda boa aprendiz, insistiu.

Década após década, scanner após scanner, algoritmo após algoritmo, ela deixou de apenas reconhecer caracteres para compreender páginas, identificar documentos e servir de ponte entre o conhecimento impresso e o mundo digital.

Se hoje uma inteligência artificial consegue responder perguntas sobre milhões de livros, artigos e documentos em poucos segundos, existe um herói quase invisível por trás dessa façanha.

Um velho scanner.

Uma folha de papel.

E um software teimoso que, mesmo tropeçando em cada acento da língua portuguesa, foi a primeira máquina a tentar ensinar um computador a ler.

sábado, 1 de maio de 2021

Douglas Adams: o Homem que Descobriu que o Universo Rodava em Produção sem Documentação

 


☕ Um Café no Bellacosa Mainframe

Douglas Adams: o Homem que Descobriu que o Universo Rodava em Produção sem Documentação

🌌 Vida, obra, computadores, toalhas, rinocerontes, prazos impossíveis e a curiosa história do escritor que parecia ter escapado de um dos próprios livros

DON'T PANIC.

Há escritores que criam personagens.

Há escritores que criam universos.

E há Douglas Adams, que conseguiu realizar uma façanha consideravelmente mais improvável:

criou um universo tão parecido consigo mesmo que, depois de algum tempo, ficou difícil descobrir onde terminava Douglas Adams e começava O Guia do Mochileiro das Galáxias.

Ele era enorme.

Literalmente.

Tinha quase dois metros de altura.

Gostava de computadores, guitarras, ciência, tecnologia, carros, animais, viagens, ideias absurdas e prazos — embora sua relação com estes últimos fosse comparável à relação de um programa COBOL de 1973 com uma especificação OpenAPI.

Sabia que existiam.

Reconhecia sua importância.

Mas preferia encontrá-los passando rapidamente ao longe.

Douglas Noël Adams nasceu em Cambridge, Inglaterra, em 11 de março de 1952, estudou em Brentwood e depois literatura inglesa no St John's College, Cambridge. Antes de se tornar mundialmente famoso, passou por uma coleção de empregos e experiências que parecem ter sido escolhidos por um gerador aleatório de profissões: escritor, produtor de rádio, roteirista, performer e, em certos períodos, trabalhos completamente distantes da carreira literária. (Douglas Adams)

Mais tarde escreveria para Monty Python, trabalharia em Doctor Who, criaria Dirk Gently, se apaixonaria por computadores, ajudaria causas ambientais, desenvolveria jogos e acabaria criando uma das obras mais deliciosamente absurdas da cultura pop.

Tudo isso antes de morrer, inesperadamente, em 2001, aos 49 anos.

Mas começar pelo fim seria terrivelmente organizado.

E Douglas Adams provavelmente desconfiaria disso.

Portanto:

pegue sua toalha.

Vamos começar pelo lugar mais apropriado.

No meio do caos.



🌍 CAPÍTULO 1

Um inglês de quase dois metros tentando descobrir o que fazer da vida

Douglas Adams não surgiu magicamente carregando um exemplar do Guia do Mochileiro das Galáxias.

Antes do sucesso houve algo que todo programador conhece muito bem:

tentativa
erro
tentativa
erro
boletos e conta para pagar
tentativa
erro
ideia estranha
tentativa

Em Cambridge, Adams se envolveu com o ambiente de comédia estudantil e com o Footlights, tradicional celeiro britânico de humoristas.

Seu interesse era escrever comédia.

Não exatamente ficção científica.

Essa distinção é importante.

Adams chegou a explicar que se considerava fundamentalmente um escritor de comédia, usando os mecanismos da ficção científica para satirizar praticamente todo o resto. (Enciclopédia)

Isso explica muita coisa.

As naves espaciais são cenário.

Os alienígenas são ferramentas.

Os computadores gigantes são piadas.

O verdadeiro assunto é:

nós.

A burocracia.

A arrogância.

A tecnologia.

O governo.

A religião.

A economia.

Os restaurantes.

As filas.

Os formulários.

Os especialistas.

E principalmente nossa incrível capacidade de construir sistemas complicadíssimos para resolver problemas que talvez não precisassem existir.

Um programador mainframe reconhece imediatamente esse universo.



🐍 CAPÍTULO 2

Antes das galáxias havia Monty Python

Existe uma conexão maravilhosa entre Adams e Monty Python.

Ele trabalhou com Graham Chapman e conseguiu créditos no programa.

Douglas está inclusive entre o pequeno grupo de pessoas externas ao núcleo principal do Python que recebeu crédito de roteiro na série original. Também apareceu rapidamente diante das câmeras em episódios da quarta temporada.

E aqui encontramos parte do código-fonte de seu humor.

Imagine:

Monty Python
     +
ficção científica
     +
rádio BBC
     +
filosofia
     +
burocracia britânica
     +
computadores
     +
chá
     +
um sujeito olhando para o universo e perguntando:

"Mas quem aprovou essa arquitetura?"

Resultado:

Douglas Adams.

Seu nonsense não era simplesmente aleatório.

Essa é uma das grandes lições para quem tenta imitá-lo.

Por trás do absurdo existe lógica.

Uma lógica impecável.

O problema é que a premissa inicial é completamente insana.



📺 CAPÍTULO 3

Doctor Who entra no CPD

Antes e durante a explosão de Hitchhiker's, Adams também trabalhou em outra instituição britânica:

Doctor Who.

Foi roteirista e chegou a atuar como script editor da série.

Entre suas contribuições estão histórias relacionadas a:

  • The Pirate Planet;

  • City of Death;

  • Shada;

  • e trabalhos na temporada 17.

Isso é importantíssimo para entender Adams.

Porque Doctor Who permitia exatamente aquilo de que ele gostava:

pegar uma ideia filosófica absurda...

...transformá-la em problema tecnológico...

...colocar personagens britânicos no meio...

...e observar a civilização entrar em pane.

Em outras palavras:

produção.


🚀 CAPÍTULO 4

O Guia nasceu no rádio

Aqui existe uma curiosidade maravilhosa para uma geração acostumada a pensar primeiro em livros.

O Guia do Mochileiro das Galáxias não nasceu como livro.

Nasceu como programa de rádio da BBC Radio 4.

A primeira transmissão aconteceu em março de 1978. (Douglas Adams)

Depois veio praticamente tudo:

RÁDIO
 ↓
LIVROS
 ↓
TV
 ↓
DISCOS
 ↓
TEATRO
 ↓
JOGO DE COMPUTADOR
 ↓
FILME
 ↓
mais adaptações
 ↓
fãs discutindo cronologia
 ↓
42

O próprio site dedicado à obra de Adams registra essa extraordinária multiplicação de formatos. (Douglas Adams)

Portanto, chamar Hitchhiker's simplesmente de "uma série de livros" é quase como chamar z/OS de editor de texto.

Tecnicamente há texto envolvido.

Mas estamos omitindo alguns detalhes.


🌍 CAPÍTULO 5

Arthur Dent: o homem que só queria sua casa

E aqui encontramos nosso primeiro suspeito de ser Douglas Adams disfarçado.

Arthur Dent.

Arthur não é Luke Skywalker.

Não quer salvar a galáxia.

Não possui poderes.

Não tem treinamento Jedi.

Não descobriu ser herdeiro de nenhuma dinastia.

Arthur gostaria basicamente de:

ter sua casa
tomar chá
entender o que está acontecendo

Infelizmente, o universo possui outros planos.

Sua casa será demolida para construir uma estrada.

Pouco depois...

a Terra será demolida para construir uma via expressa hiperespacial.

E essa simetria contém Douglas Adams inteiro.

O indivíduo é esmagado pela burocracia local.

A humanidade inteira é esmagada pela burocracia cósmica.

A escala muda.

A estupidez administrativa permanece perfeitamente compatível.


📋 CAPÍTULO 6

Vogons: o verdadeiro terror do universo

Esqueça monstros.

Esqueça Daleks.

Esqueça invasões alienígenas.

Adams compreendeu algo muito mais assustador.

O formulário.

Os Vogons representam uma das maiores contribuições da literatura para a compreensão da burocracia.

Eles não precisam odiar você.

Isso seria pessoal demais.

Eles possuem:

procedimentos.

regulamentos.

autorizações.

protocolos.

E provavelmente algum equivalente galáctico do:

TICKET STATUS: CLOSED
REASON:
WORKING AS DESIGNED

A Terra será destruída?

Lamentável.

Os planos estavam disponíveis.

Você não consultou?

Problema seu.

Qualquer pessoa que já tenha enfrentado uma mudança corporativa aprovada por quinze departamentos reconhecerá imediatamente a espécie.


📚 CAPÍTULO 7

A trilogia de cinco livros

Douglas Adams também conseguiu melhorar a matemática.

Sua famosa "trilogia" acabou composta por cinco romances escritos por ele:

1. The Hitchhiker's Guide to the Galaxy

1979

2. The Restaurant at the End of the Universe

1980

3. Life, the Universe and Everything

1982

4. So Long, and Thanks for All the Fish

1984

5. Mostly Harmless

1992

O site oficial registra a sequência e suas datas, incluindo o sucesso comercial extraordinário da série. (Douglas Adams)

Uma trilogia com cinco livros.

Porque quando você criou uma piada cósmica sobre a incapacidade humana de organizar a realidade, seria decepcionante começar obedecendo à aritmética.


🧠 CAPÍTULO 8

Deep Thought

Então chegamos ao computador.

Naturalmente.

Uma civilização deseja descobrir a resposta para:

A Vida, o Universo e Tudo Mais.

Portanto constrói um supercomputador chamado:

Deep Thought

Ele calcula.

Durante aproximadamente:

7,5 milhões de anos.

Finalmente encontra a resposta.

E a resposta é:

42

(The Guardian)

Maravilhoso.

Mas existe um pequeno problema.

Ninguém sabe exatamente qual era a pergunta.

E essa talvez seja uma das melhores piadas já escritas sobre computação.

Porque qualquer veterano de TI reconhece imediatamente:

RESULTADO CORRETO
+
REQUISITO ERRADO
=
PROJETO CORPORATIVO

💾 CAPÍTULO 9

Deep Thought era um mainframe?

Douglas nunca precisou chamá-lo assim.

Mas permita que Bellacosa abra uma Change Request absolutamente não autorizada.

Deep Thought possui:

  • processamento centralizado;

  • workload gigantesco;

  • disponibilidade medida em eras geológicas;

  • usuários que não entendem os requisitos;

  • documentação aparentemente insuficiente;

  • projeto com duração de milhões de anos;

  • resposta tecnicamente correta;

  • cliente insatisfeito.

Senhoras e senhores:

isso é enterprise computing.

Só faltou:

IEF142I DEEPTHOT STEP42 - STEP WAS EXECUTED - COND CODE 0000

E algum gerente perguntar:

— Então podemos desligar?

Não.

Porque agora precisamos calcular a pergunta.


🌎 CAPÍTULO 10

A Terra era o segundo computador

E aqui Adams melhora ainda mais a piada.

Para descobrir a pergunta correspondente à resposta 42, é construído um computador ainda mais sofisticado.

Chamado:

Terra.

Sim.

Nós.

O planeta inteiro.

Um sistema computacional gigantesco.

Executando durante milhões de anos.

Até que...

pouco antes de terminar o processamento...

os Vogons destroem a máquina.

Se isso não parece um projeto de TI cancelado três semanas antes do go-live depois de oito anos de desenvolvimento, você ainda não trabalhou tempo suficiente em uma grande organização.


🐟 CAPÍTULO 11

Babel Fish

Outra criação genial:

Babel Fish.

Um pequeno peixe capaz de permitir comunicação entre idiomas.

Décadas depois, "Babel Fish" tornou-se referência cultural para sistemas de tradução automática; serviços tecnológicos chegaram a adotar diretamente o nome inspirado na criação de Adams. (Estante Virtual)

Hoje olhamos para tradução automática e IA generativa e pensamos:

Douglas provavelmente passaria quinze minutos fascinado.

Depois perguntaria:

— Muito interessante. Agora quantos bilhões gastamos construindo máquinas para podermos finalmente discutir com estrangeiros em tempo real?

E sairia procurando café.


🕵️ CAPÍTULO 12

Dirk Gently

Mas reduzir Adams ao Guia seria injusto.

Ele também criou outro personagem extraordinário:

Dirk Gently.

As principais obras são:

  • Dirk Gently's Holistic Detective Agency — 1987;

  • The Long Dark Tea-Time of the Soul — 1988.

(Simon & Schuster)

Dirk acredita na:

interconectividade fundamental de todas as coisas.

O método investigativo dele poderia ser resumido assim:

tudo está conectado
 ↓
portanto qualquer pista pode importar
 ↓
inclusive aquela completamente absurda
 ↓
especialmente aquela completamente absurda

Qualquer analista investigando um incidente em produção às três da manhã entende perfeitamente.

O Db2 está lento.

Por quê?

Porque houve alteração no storage.

Por quê?

Porque um processo batch mudou.

Por quê?

Porque alguém alterou um parâmetro.

Por quê?

Porque houve migração seis meses atrás.

Por quê?

Porque...

Dirk sorri.

Interconectividade fundamental de todas as coisas.


🌳 CAPÍTULO 13

Last Chance to See

Existe ainda outro Douglas Adams.

Menos conhecido.

E talvez ainda mais interessante.

O ambientalista.

Com o zoólogo Mark Carwardine, Adams participou do projeto que resultaria em:

Last Chance to See

Uma viagem para encontrar espécies ameaçadas de extinção.

Não era simplesmente comédia.

Era conservação.

Era ciência.

Era encantamento diante da biodiversidade.

Adams tornou-se patrono fundador da Save the Rhino e chegou, em 1994, a participar de uma subida ao Kilimanjaro envolvendo uma fantasia de rinoceronte para ajudar a arrecadar dinheiro e conscientização. (Save the Rhino)

Pare por alguns segundos.

O homem que escreveu sobre um peixe tradutor universal...

subiu uma montanha...

vestido de rinoceronte...

para tentar salvar rinocerontes reais.

Douglas Adams não precisava inventar um personagem chamado Douglas Adams.

A produção já estava suficientemente absurda.


🍎 CAPÍTULO 14

Douglas Adams, o nerd

Aqui nossa história fica particularmente interessante.

Douglas Adams adorava tecnologia.

Computadores não eram apenas ferramentas de escrita para ele.

Eram brinquedos intelectuais.

O Macintosh o fascinou.

Ele foi um dos primeiros entusiastas britânicos da plataforma e manteve enorme interesse por computadores pessoais e tecnologias digitais. (Wikipedia)

Lembre-se da época.

Estamos falando dos anos 1980 e 1990.

Quando dizer:

"computadores vão mudar nossa maneira de comunicar, criar e pensar"

ainda não era frase obrigatória de keynote.

Adams percebeu cedo que computadores poderiam ser meios culturais.

Não apenas calculadoras.


🎮 CAPÍTULO 15

E naturalmente ele fez jogos

Em 1984 surgiu o jogo baseado em:

The Hitchhiker's Guide to the Galaxy.

Adams participou também de projetos como:

  • Bureaucracy;

  • Starship Titanic.

Seu catálogo oficial inclui esses experimentos tecnológicos ao lado dos livros e trabalhos audiovisuais. (Douglas Adams)

E Bureaucracy merece aplausos.

Porque transformar burocracia em videogame é reconhecer que o verdadeiro survival horror sempre foi preencher documentos corretamente.


🎸 CAPÍTULO 16

Pink Floyd aparece porque naturalmente aparece

Douglas Adams também era amigo de David Gilmour, do Pink Floyd.

E há uma conexão deliciosa.

Adams sugeriu o título:

The Division Bell

para o álbum de 1994 da banda. (The Christian Science Monitor)

Porque aparentemente escrever uma das séries mais famosas da ficção científica não era suficiente.

Era necessário deixar Easter eggs também na história do rock.


⏰ CAPÍTULO 17

O homem que amava deadlines

Existe uma frase famosa associada a Douglas Adams sobre gostar de prazos principalmente pelo som que fazem quando passam voando.

E ela combina perfeitamente com sua reputação.

Adams era notoriamente complicado quando precisava terminar textos.

Isso cria uma maravilhosa contradição.

Ele possuía:

imaginação       100
humor            100
inteligência     100
criatividade     100
curiosidade      100
deadline          03

Mas existe uma lição importante nisso.

O próprio material oficial de Adams, ao aconselhar aspirantes a escritores, enfatiza duas coisas bastante menos românticas:

escrever alguma coisa e possuir determinação para continuar. (Douglas Adams)

A inspiração é maravilhosa.

O problema é que eventualmente alguém precisa salvar o arquivo.


✍️ CAPÍTULO 18

O segredo técnico do humor de Adams

Se você escreve artigos, histórias ou documentação e quer aprender alguma coisa com Douglas Adams, não copie apenas as piadas.

Copie a arquitetura.

1. Comece com algo normal

Uma casa será demolida.

2. Aumente absurdamente a escala

Agora a Terra será demolida.

3. Mantenha a lógica administrativa

Existe documentação.

4. Faça o personagem reagir como uma pessoa comum

— Como assim?

5. Trate o absurdo como rotina

— Os documentos estavam disponíveis.

Essa é a mágica.

O narrador nunca precisa gritar que aquilo é engraçado.

O universo considera tudo perfeitamente razoável.


☕ CAPÍTULO 19

Douglas Adams aplicado ao mainframe

Imagine um diálogo.

— Por que esse programa existe?

— Porque processa o arquivo XPTO.

— Por que o arquivo XPTO existe?

— Porque alimenta o sistema ABC.

— Por que ABC precisa disso?

— Não sabemos.

— Quem escreveu?

— Aposentou em 1994.

— Existe documentação?

— Sim.

— Onde?

— Num dataset arquivado.

— Qual?

— Não sabemos.

— Então como sabemos que funciona?

— O job termina RC=0.

Arthur Dent provavelmente perguntaria:

— Isso é normal?

Ford Prefect responderia:

— Em sistemas enterprise, aparentemente sim.


🥚 CAPÍTULO 20

Easter eggs para carregar na toalha

Algumas pequenas delícias do universo Adams:

42 escapou dos livros e virou referência cultural gigantesca, aparecendo repetidamente em tecnologia, matemática recreativa e cultura hacker. (Douglas Adams)

O asteroide 18610 Arthurdent recebeu o nome inspirado no protagonista do Guia. (The Christian Science Monitor)

O nome Babel Fish atravessou a ficção e foi parar em tecnologia de tradução. (Estante Virtual)

O nome Deep Thought também encontrou ecos no mundo da computação. (Douglas Adams)

E existe ainda o objeto mais importante que um viajante pode carregar:

a toalha.

Porque uma pessoa que sabe onde está sua toalha claramente possui controle da situação.

Mesmo quando absolutamente não possui.


🧺 CAPÍTULO 21

Towel Day

Depois da morte de Adams, fãs transformaram a toalha em homenagem.

Todo 25 de maio, admiradores celebram o Towel Day carregando uma toalha.

Parece ridículo.

Naturalmente.

Por isso funciona.

Um monumento tradicional provavelmente seria inadequado.

Douglas criou uma mitologia em que um objeto banal tornou-se símbolo de preparação diante do caos.

Talvez seja justamente por isso que a ideia sobreviveu.



🧬 CAPÍTULO 22

Douglas Adams era um personagem de Douglas Adams

E finalmente chegamos à suspeita inicial.

Observe este homem.

Quase dois metros de altura.

Escritor de comédia.

Passa por Monty Python.

Vai trabalhar em Doctor Who.

Inventa um livro eletrônico fictício décadas antes de carregarmos enciclopédias no bolso.

Apaixona-se por computadores.

Escreve videogames.

Convive com músicos.

Batiza álbum do Pink Floyd.

Viaja pelo planeta procurando espécies ameaçadas.

Participa de uma aventura envolvendo uma fantasia de rinoceronte.

Tem problemas com deadlines.

Escreve sobre um inglês confuso tentando compreender um universo incompreensível.

E morre cedo demais, aos 49 anos, em 11 de maio de 2001, em Santa Barbara, Califórnia. (Wikipedia)

Agora imagine que você encontrou essa descrição dentro de um romance de Douglas Adams.

Você acreditaria imediatamente.


📖 CAPÍTULO 23

O Salmão da Dúvida

Após sua morte surgiu:

The Salmon of Doubt

publicado em 2002.

A coletânea reuniu textos, ensaios e material relacionado ao romance que Adams deixou inacabado. (Wikipedia)

O título parece adequado.

Porque terminar tudo perfeitamente seria pouco característico.

Douglas deixou processos rodando.

Alguns nunca chegaram ao:

END-OF-JOB

Talvez isso também faça parte do encanto.


🧠 CAPÍTULO 24

O que um programador pode aprender com Douglas Adams

Muito.

Primeiro:

questione requisitos.

Deep Thought encontrou a resposta correta para uma pergunta que ninguém conhecia.

Segundo:

sistemas existem dentro de sistemas.

Dirk Gently aprovaria qualquer investigação séria de incidente.

Terceiro:

tecnologia também é cultura.

Adams percebeu isso cedo.

Quarto:

complexidade não significa inteligência.

Os Vogons possuem processos extremamente sofisticados.

Continuam sendo Vogons.

Quinto:

documentação importa.

Especialmente antes de demolir planetas.

Sexto:

nunca confunda sucesso técnico com sucesso real.

MAXCC=0

não significa:

PROBLEMA RESOLVIDO

Deep Thought provavelmente retornaria RC=0.

E ainda assim ninguém saberia a pergunta.


🚀 CAPÍTULO 25

E talvez esta seja sua maior obra

Douglas Adams escreveu sobre o espaço.

Mas seu assunto nunca foi realmente o espaço.

Escreveu sobre alienígenas.

Mas estava falando de humanos.

Escreveu sobre computadores.

Mas estava falando sobre nossa fé em respostas automáticas.

Escreveu sobre burocratas alienígenas.

Mas todos já encontramos Vogons.

Escreveu sobre Arthur Dent perdido no universo.

Mas Arthur somos nós.

Acordamos.

Tomamos café.

Abrimos o notebook.

Recebemos um ticket.

Descobrimos que alguém mudou alguma coisa durante a madrugada.

Perguntamos por quê.

Ninguém sabe.

Descobrimos que existe documentação.

Não temos acesso.

Encontramos o responsável.

Ele saiu da empresa.

Finalmente encontramos a resposta.

42.

Perguntamos qual era a pergunta.

E nesse instante, em algum lugar além do Restaurante no Fim do Universo, um inglês gigantesco provavelmente começa a rir.


☕ EPÍLOGO

DON'T PANIC

Talvez essa seja a melhor homenagem possível a Douglas Adams.

Não transformá-lo numa estátua.

Ele provavelmente acharia extremamente constrangedor.

Melhor imaginá-lo chegando ao CPD do Bellacosa Mainframe.

Observando um IBM Z.

Perguntando:

— Há quanto tempo isso está funcionando?

— Algumas aplicações, décadas.

Douglas olha para o operador.

— E vocês sabem exatamente tudo o que elas fazem?

Silêncio.

Ele observa os milhares de jobs.

Os programas COBOL.

As transações CICS.

Os datasets.

Os logs.

As interfaces.

As APIs.

As regras comerciais escritas por pessoas que talvez já tenham se aposentado.

Então sorri.

— Fascinante.

Pega sua toalha.

Abre o terminal.

E pergunta:

READY

LISTCAT

O sistema responde.

Douglas pensa alguns segundos.

— Bellacosa...

— Sim?

— Acho que finalmente descobri o computador que deveria calcular a pergunta.

E em algum lugar do JES2 aparece:

JOB DEEPTHOT SUBMITTED

$HASP373 DEEPTHOT STARTED

Estimativa de conclusão:

7.500.000 anos.

Prioridade:

NORMAL.

SLA:

segunda-feira.

E o operador, sem sequer levantar os olhos da tela, responde:

— Normal. É fechamento.

Douglas pega sua toalha.

Sorri.

E vai procurar o Restaurante no Fim do Universo.


🐬 Até mais, Douglas.

Obrigado pelos livros.

Obrigado pelos computadores.

Obrigado pelos rinocerontes.

Obrigado por Arthur, Ford, Marvin, Zaphod, Trillian e Dirk.

Obrigado por demonstrar que filosofia e besteirol podem compartilhar a mesma biblioteca.

Obrigado por ensinar que a resposta pode estar correta e ainda assim ser completamente inútil.

E, sobretudo...

obrigado por todos os peixes.

DON'T PANIC.

KNOW WHERE YOUR TOWEL IS.

E jamais aceite MAXCC=0 como resposta para a Vida, o Universo e Tudo Mais.


Para explorar a obra: site oficial de Douglas Adams

Outras maluquices











sexta-feira, 23 de agosto de 2019

📚 Honzuki no Gekokujou: Quando uma Bibliotecária Reinicializa uma Civilização — O Maior Upgrade de Conhecimento que um Isekai Já Executou

 

Bellacosa Mainframe e a adoravel bibliotecaria de honsuki no gekokujou

☕ Um Café no Bellacosa Mainframe

📚 Honzuki no Gekokujou (本好きの下剋上): Quando uma Bibliotecária Reinicializa uma Civilização — O Maior Upgrade de Conhecimento que um Isekai Já Executou

"Enquanto outros protagonistas chegam ao novo mundo procurando uma espada lendária, Myne procura... uma biblioteca. Parece uma missão pequena. Na verdade, é a maior revolução tecnológica já vista em um anime."


Introdução

Se existe um anime capaz de explicar, ao mesmo tempo, transformação digital, gestão do conhecimento, inovação tecnológica, engenharia de processos, economia, logística, impressão, educação e liderança, esse anime é Honzuki no Gekokujou.

Poucos isekais são tão inteligentes.

Mais raro ainda é encontrar um que praticamente não utilize batalhas durante boa parte da história.

Enquanto dezenas de protagonistas derrotam dragões utilizando poderes absurdos, Myne tenta algo muito mais difícil:

convencer uma sociedade medieval de que livros deveriam existir para todos.

Para quem trabalha com IBM Mainframe, a analogia aparece rapidamente.

Conhecimento é o ativo mais valioso de qualquer organização.

Quem controla o conhecimento controla o sistema.


Ficha Técnica

Título original

本好きの下剋上 ~司書になるためには手段を選んでいられません~

(Honzuki no Gekokujou: Shisho ni Naru Tame ni wa Shudan wo Erandeiraremasen)

Título internacional:

Ascendance of a Bookworm

Autor:

Miya Kazuki

Ilustrações (light novel):

You Shiina

Publicação da Light Novel:

2015

Web Novel:

2013

Mangá:

2015

Anime:

Primeira temporada em 2019


Estúdio

Ajia-do Animation Works

É um estúdio conhecido por priorizar:

  • narrativa

  • personagens

  • direção emocional

  • ritmo constante

Não é famoso por animações extremamente extravagantes.

Seu foco sempre foi contar boas histórias.

Neste anime isso funciona perfeitamente.


Direção

Mitsuru Hongo

A direção privilegia detalhes do cotidiano.

A câmera frequentemente permanece observando pequenos gestos.

Nada parece apressado.

O espectador aprende aquele mundo junto com Myne.


Classificação

Fantasia

Isekai

Slice of Life

Drama

Comédia

Economia

Política

Tecnologia Medieval


Faixa indicativa

Aproximadamente 12 anos.

Não existe violência excessiva.

Entretanto diversos temas sociais aparecem:

  • pobreza

  • desigualdade

  • doenças

  • exploração

  • corrupção

  • diferenças entre classes


Episódios

Temporada 1

14 episódios

Temporada 2

12 episódios

Temporada 3

10 episódios

Total:

36 episódios


Sinopse

Urano Motosu finalmente realiza seu sonho de trabalhar cercada por livros.

Poucos dias depois morre durante um terremoto, esmagada por sua própria coleção.

Ela desperta em outro mundo.

Agora chama-se Myne.

Existe apenas um problema.

Ela nasceu em uma família extremamente pobre.

Livros praticamente não existem.

E quando existem, pertencem exclusivamente à nobreza.

Uma pessoa comum jamais poderá tocar em um.

Então ela toma uma decisão simples.

Vai fabricar seus próprios livros.


O verdadeiro enredo

Muitos resumem Honzuki como:

"Uma garota faz livros."

Isso seria como resumir o IBM Z dizendo:

"É um computador."

Na verdade, estamos diante de uma história sobre o nascimento de toda uma infraestrutura de conhecimento.


O Mainframe da Idade Média

Imagine um datacenter.

Agora imagine que:

  • apenas reis possuem computadores;

  • ninguém sabe escrever programas;

  • documentação praticamente inexiste;

  • treinamento não existe;

  • backup é feito à mão.

Esse é o mundo de Myne.

Os livros representam exatamente aquilo que representamos hoje com:

  • documentação técnica

  • Wikis

  • GitHub

  • Stack Overflow

  • IBM Knowledge Center

  • Manuais do z/OS

Sem conhecimento registrado, cada geração precisa começar praticamente do zero.


A protagonista mais improvável dos isekais

Myne é extremamente diferente dos protagonistas tradicionais.

Ela não é:

  • guerreira

  • arqueira

  • maga poderosa

  • assassina

  • heroína escolhida

Ela é uma bibliotecária.

Seu poder é lembrar.

Seu talento é conectar conhecimentos.

Sua habilidade especial é engenharia reversa da civilização.


O verdadeiro sistema mágico

No início parece que magia será importante.

Mas não.

O verdadeiro sistema mágico chama-se:

Conhecimento acumulado.

Myne sabe produzir:

  • papel

  • tinta

  • shampoo

  • cosméticos

  • doces

  • métodos de impressão

  • técnicas comerciais

Cada invenção altera completamente a economia daquele mundo.

É exatamente o que acontece quando uma empresa implanta uma nova tecnologia que muda todo o fluxo operacional.


Ferdinand: o Arquiteto de Sistemas

Ferdinand talvez seja um dos personagens mais interessantes da obra.

Ele é o equivalente ao:

Arquiteto IBM Z

Sempre alguns passos à frente.

Analítico.

Extremamente competente.

Desconfia de tudo.

Quando percebe o potencial de Myne, entende rapidamente que ela poderá alterar o equilíbrio político inteiro.

Ele não protege Myne apenas por carinho.

Protege porque reconhece um ativo estratégico.


Lutz: o DevOps da História

Lutz transforma ideias em realidade.

Enquanto Myne cria projetos.

Lutz executa.

Toda empresa precisa desse equilíbrio.

Visionários criam.

Executores entregam.


A verdadeira aventura

Ao contrário dos isekais tradicionais, a aventura aqui não consiste em derrotar monstros.

Cada arco apresenta um problema completamente diferente.

Primeiro:

Como fabricar papel?

Depois:

Como vender?

Depois:

Como convencer artesãos?

Depois:

Como negociar com comerciantes?

Depois:

Como lidar com monopólios?

Depois:

Como enfrentar a aristocracia?

Depois:

Como sobreviver à política dos nobres?

A escala cresce naturalmente.


O anime é sobre inovação

Quase toda temporada segue um ciclo semelhante.

Observação.

Pesquisa.

Experimentos.

Fracassos.

Melhoria.

Produção.

Escala.

Mudança social.

Isso lembra muito um pipeline DevOps.


A engenharia do conhecimento

Myne não entrega produtos.

Ela entrega processos.

Primeiro cria o papel.

Depois cria fornecedores.

Depois treinamento.

Depois qualidade.

Depois logística.

Depois impressão.

Depois alfabetização.

Depois bibliotecas.

É exatamente assim que grandes plataformas corporativas evoluem.


As mensagens ocultas

Conhecimento democratiza poder

Enquanto apenas a elite possui livros, ela controla toda a sociedade.

Quando livros se tornam acessíveis, o equilíbrio muda.

A mensagem é extremamente atual.


Educação é infraestrutura

Estradas ligam cidades.

Livros ligam gerações.


Tecnologia nunca é neutra

Cada nova invenção altera:

  • economia

  • religião

  • política

  • cultura

A obra mostra isso continuamente.


Inovação gera resistência

Praticamente todas as invenções de Myne enfrentam oposição.

Isso ocorre porque inovação ameaça interesses estabelecidos.

Toda empresa conhece essa realidade.


Informação vale mais que ouro

A obra inteira demonstra que uma ideia pode produzir mais riqueza que um tesouro.


O que torna Honzuki único?

Praticamente todos os isekais seguem este roteiro:

Caminhão.

Reencarnação.

Sistema.

Magia.

Harém.

Rei Demônio.

Final feliz.

Honzuki faz exatamente o contrário.

Caminhão?

Nem existe.

Sistema?

Não.

Harém?

Não.

Espadas?

Quase irrelevantes.

A protagonista cresce por mérito intelectual.


O ritmo lento é proposital

Algumas pessoas reclamam.

"Demora para acontecer."

Mas isso é intencional.

O anime constrói confiança.

Cada amizade.

Cada negócio.

Cada fornecedor.

Cada invenção.

Tudo precisa parecer plausível.

É quase um estudo de administração.


O impacto cultural

No Japão, Honzuki no Gekokujou conquistou uma base extremamente fiel de leitores. As light novels venderam milhões de cópias e a franquia expandiu-se para mangás, CDs dramáticos, fanbooks e diversos produtos licenciados. A série também ganhou destaque por mostrar que um isekai pode fazer sucesso sem depender de batalhas constantes ou fanservice.

No Ocidente, tornou-se uma das principais recomendações entre fãs de histórias de construção de mundo ("worldbuilding"), frequentemente sendo comparada a obras como Spice and Wolf e The Apothecary Diaries pelo foco em economia, política e desenvolvimento gradual dos personagens.


Houve censura?

Não houve uma censura relevante ou polêmica envolvendo o anime. A adaptação para TV preservou os principais temas da obra original.

O que ocorreu foi uma compressão narrativa: muitos diálogos, detalhes sobre a economia, a política, a religião e o funcionamento da sociedade foram reduzidos para caber no formato televisivo. Fãs das light novels costumam destacar que elas aprofundam muito mais o universo e as motivações dos personagens do que o anime.


Bellacosa Mainframe Score

ItemNota
História⭐⭐⭐⭐⭐ (10/10)
Construção de Mundo⭐⭐⭐⭐⭐ (10/10)
Desenvolvimento de Personagens⭐⭐⭐⭐⭐ (9,9/10)
Originalidade⭐⭐⭐⭐⭐ (10/10)
Ritmo⭐⭐⭐⭐☆ (9,0/10)
Trilha Sonora⭐⭐⭐⭐☆ (9,0/10)
Animação⭐⭐⭐⭐☆ (8,8/10)
Valor Educacional⭐⭐⭐⭐⭐ (10/10)
Reassistir⭐⭐⭐⭐⭐

Conclusão

Honzuki no Gekokujou demonstra que a maior transformação em uma sociedade não acontece quando surge um herói invencível, mas quando o conhecimento deixa de ser privilégio de poucos e passa a circular entre muitos. Myne não conquista reinos pela força; ela altera estruturas econômicas, sociais e culturais ao introduzir processos, registrar informações e formar pessoas.

Sob a ótica do Bellacosa Mainframe, essa é a história de uma arquiteta de sistemas antes mesmo da existência dos computadores. Ela identifica gargalos, documenta processos, cria uma cadeia produtiva, estabelece padrões, forma uma rede de colaboradores e escala uma solução que muda toda a organização. É o equivalente a implantar um grande ambiente IBM Z em uma empresa que ainda depende de procedimentos manuais e conhecimento exclusivamente oral.

Talvez seja por isso que a obra seja tão marcante. Em vez de dizer que "conhecimento é poder", ela mostra como esse poder nasce: pela curiosidade, pela persistência e pela capacidade de transformar informação em infraestrutura para toda uma civilização. É um isekai que troca a espada por um livro e prova, de forma convincente, que uma biblioteca pode ser tão revolucionária quanto qualquer arma lendária.


segunda-feira, 8 de abril de 2019

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quarta-feira, 9 de julho de 2014

O Livro que Passou pelo Firewall: de Andersen a William Minerva, como histórias infantis carregam ideias perigosas escondidas à vista de todos

 

Bellacosa Mainframe e o livro que passou pelo firewall

☕ Um Café no Bellacosa Mainframe

O Livro que Passou pelo Firewall: de Andersen a William Minerva, como histórias infantis carregam ideias perigosas escondidas à vista de todos

📚 Reis nus, corujas em código Morse, crianças inconvenientes, tricksters, censores e o estranho bug dos sistemas autoritários: eles conseguem controlar a biblioteca, mas nunca sabem exatamente o que uma criança vai entender quando abrir o livro.

📚 São Paulo, biblioteca escolar localizada na EMPG Marechal Juares Tavora, Vila Rio Brano no ano de 1982

O incidente começou com uma falha aparentemente insignificante no sistema de segurança.

Permitiram que uma criança escolhesse um livro.

Eu tinha oito anos.

Era aluno da segunda série.

A tarefa parecia perfeitamente inocente:

escolher um livro disponível na estante;

ler;

fazer um pequeno resumo;

e depois contar a história diante da classe.

Nada particularmente perigoso.

Nenhum manifesto revolucionário.

Nenhum tratado político.

Nenhum documento secreto.

Nenhuma publicação clandestina.

Era apenas literatura infantil.

O firewall analisou o pacote:

OBJECT TYPE:
BOOK

TARGET AUDIENCE:
CHILDREN

CONTENT:
FAIRY TALE

THREAT LEVEL:
LOW

ACCESS:
GRANTED

Foi o primeiro erro.

Porque o livro escolhido pelo pequeno Vagner contava uma história muito perigosa.

Um rei.

Dois trapaceiros.

Uma roupa inexistente.

Uma corte inteira incapaz de admitir o óbvio.

E uma criança que finalmente diz aquilo que todo mundo consegue enxergar.

Era A Roupa Nova do Imperador, de Hans Christian Andersen.

E eu achei aquilo absolutamente maravilhoso.


😂 O menino encontrou o exploit

Preciso confessar uma coisa.

Minha primeira reação não foi uma profunda reflexão sobre estruturas de poder.

Eu não pensei:

“Extraordinária representação dos mecanismos de conformidade social existentes em organizações hierarquizadas.”

Eu tinha oito anos.

Minha reação foi aproximadamente:

HAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHA!

Dois pilantras tinham conseguido enganar o homem mais importante do reino.

Não apenas isso.

Convenceram o sujeito de que ele possuía uma roupa maravilhosa que somente determinadas pessoas seriam capazes de enxergar.

O rei não via nada.

Mas admitir isso significaria reconhecer alguma deficiência.

Então fingiu.

Os ministros também não enxergavam.

Fingiram.

Os cortesãos fingiram.

As pessoas fingiram.

E finalmente o homem mais poderoso daquele universo saiu desfilando pelas ruas praticamente nu.

Aquilo era genial.

Eu ria até saírem lágrimas.

KING.EXE

AUTHORITY = MAXIMUM
VANITY    = MAXIMUM
CLOTHING  = NULL

STATUS:
PARADING

🤣

Eu havia encontrado uma coisa extraordinária.

Livros podiam ser engraçados.


🏫 Então chegou a apresentação

Algum tempo depois chegou minha vez de falar diante da classe.

Lá estava o pequeno Vagner.

Orgulhoso da descoberta.

Provavelmente ainda achando graça.

Comecei a contar minha versão resumida da história.

Os vigaristas.

O rei.

A roupa que não existia.

A enganação.

O desfile.

O absurdo.

E então...

a professora interrompeu.

Não era daquela maneira.

A história possuía um ensinamento.

Existia uma interpretação.

Havia algo que eu deveria ter percebido.

Vieram explicações.

Vieram correções.

Vieram palavras que quarenta e quatro anos depois já não consigo reproduzir literalmente.

Mas consigo lembrar da sensação.

Eu estava diante da classe.

Fiquei vermelho.

Os outros alunos permaneceram olhando.

E a professora continuou explicando por que minha leitura não era aquela que deveria ser apresentada.

Para uma criança de oito anos, não existe seminário acadêmico sobre multiplicidade interpretativa.

Existe apenas:

EU LI.

EU GOSTEI.

EU RI.

EU CONTEI.

E...

EU ESTAVA ERRADO?

🤔 Mas eu estava errado?

Quarenta e quatro anos depois, essa pergunta fica muito mais interessante.

Porque naturalmente A Roupa Nova do Imperador permite discutir vaidade, mentira, conformidade, medo do julgamento, autoridade e coragem para dizer aquilo que todos estão evitando admitir.

Mas existe um detalhe fundamental:

a história também é engraçada.

O ridículo faz parte de sua força.

O poderoso é transformado em objeto de riso.

Os impostores exploram a vaidade.

Os cortesãos comportam-se absurdamente.

E o mecanismo inteiro só funciona porque ninguém deseja ser a pessoa que contradiz aquilo que todos aparentemente acreditam.

O pequeno Vagner não tinha vocabulário para explicar isso.

Não conhecia:

GROUPTHINK

AUTHORITY BIAS

INFORMATION CASCADE

CONFORMITY

PLURALISTIC IGNORANCE

Ele conhecia:

“HAHAHAHA! ENGANARAM O REI!”

E talvez fosse suficiente.


👑 O verdadeiro perigo do rei nu

Existe uma ideia profundamente perturbadora escondida naquele conto infantil:

autoridade não produz verdade.

O rei pode estar errado.

O ministro pode estar errado.

O especialista pode estar errado.

A multidão pode estar errada.

Pior:

todos podem saber que alguma coisa está errada e ainda assim continuar representando coletivamente que está certa.

Isso é muito mais perigoso que simplesmente ensinar:

“Não seja vaidoso.”

Porque introduz uma pergunta:

E se todo mundo estiver fingindo?

Agora imagine entregar essa pergunta para uma criança.

🤣

INPUT:
"Todos dizem que é verdade."

CHILD:
"Mas é?"

SYSTEM:
⚠️ UNEXPECTED QUERY

🇧🇷 E estávamos em 1982

Existe ainda um contexto histórico impossível de ignorar.

O Brasil de 1982 ainda vivia sob a ditadura militar.

O governo de João Figueiredo estava no período de abertura política. A Anistia havia ocorrido em 1979. Naquele próprio ano de 1982 aconteceriam importantes eleições diretas para governos estaduais.

O regime terminaria somente em 1985.

Portanto aquela sala não estava olhando retrospectivamente para a ditadura.

Ela existia dentro daquele período.

Isso não significa que a reação da minha professora tenha ocorrido por apoio ao regime ou por qualquer motivação política consciente.

Não tenho como saber.

Seria transformar memória em acusação.

Além disso, o autoritarismo escolar brasileiro é muito anterior a 1964.

Mas o ambiente social importa.

Professor era autoridade.

Diretor era autoridade.

Pai era autoridade.

Policial era autoridade.

Governo era autoridade.

Existia uma forte cultura de respeito hierárquico.

E no meio daquele ambiente aparece um pirralho gargalhando porque...

a autoridade máxima do reino tinha sido feita de trouxa.

🤣


👹 A guardiã do portal

Na minha memória infantil, a professora Maria ficou associada justamente a esse episódio.

É tentador transformá-la, quarenta anos depois, numa personagem.

A Oni da Biblioteca.

👹

A criatura que guarda a entrada do portal.

Mas seria injusto transformar uma pessoa real numa caricatura absoluta baseada apenas numa lembrança infantil.

Talvez ela acreditasse sinceramente que estava ensinando interpretação de texto.

Talvez estivesse seguindo a pedagogia disponível.

Talvez simplesmente tivesse conduzido mal aquele momento.

O que posso afirmar é aquilo que aconteceu comigo:

senti vergonha.

E uma atividade que deveria aproximar uma criança dos livros produziu momentaneamente o efeito contrário.


💥 Porque havia acontecido algo precioso antes

Esse é o ponto que mais me incomoda quando lembro daquela história.

Antes da repreensão, o exercício havia sido um sucesso extraordinário.

A criança:

escolheu espontaneamente;

leu;

compreendeu a trama;

riu;

emocionou-se;

lembrou;

conseguiu recontar;

quis compartilhar com outras crianças.

Meu Deus.

Se existisse Google Analytics pedagógico:

ENGAGEMENT:       100%
READ COMPLETION:  100%
EMOTIONAL IMPACT: 100%
RETENTION:        44 YEARS+

🤣

O professor tinha ouro nas mãos.

Bastava perguntar:

“Por que você achou tão engraçado?”

Talvez a conversa continuasse:

— Porque enganaram o rei.

— Por que conseguiram enganá-lo?

— Porque ele não queria dizer que não enxergava.

— E os ministros?

— Também ficaram com medo.

— E quem contou a verdade?

— Uma criança.

Pronto.

A moral teria surgido.

Não como resposta fornecida pela autoridade.

Como descoberta.


🧒 Crianças são perigosas

E aí entramos num problema muito antigo.

Crianças fazem uma pergunta devastadora:

“Por quê?”

Adultos aprendem lentamente que existem momentos nos quais essa pergunta possui custo social.

Na reunião:

“Por que estamos fazendo assim?”

Porque o diretor decidiu.

“Mas funciona?”

Silêncio.

Na política:

“Por que essa pessoa está certa?”

Porque é autoridade.

“Mas onde está a evidência?”

Silêncio.

Na religião, na família, na escola, no trabalho, nas organizações...

crianças ainda não instalaram completamente determinados filtros sociais.

ADULT.EXE

IF AUTHORITY > MY_POSITION
   THEN CONSIDER_SILENCE
END-IF


CHILD.EXE

IF THING = OBVIOUSLY_STUPID
   THEN SAY "ISSO É BESTA"
END-IF

🤣

É por isso que crianças funcionam tão bem em histórias sobre autoridade.


🦊 Antes delas vieram os tricksters

Mas existe outra linhagem ainda mais antiga.

O trickster.

O trapaceiro.

O malandro.

A criatura que não derrota o poderoso pela força.

Derrota explorando uma fraqueza.

Loki.

Anansi.

Coyote.

Hermes em determinadas tradições.

Nasreddin.

Pedro Malasartes.

João Grilo.

Saci.

Esses personagens possuem implementações culturais diferentes, mas compartilham uma característica fascinante:

encontram bugs nas regras.

SYSTEM:
KINGDOM

ADMIN:
KING

EXPLOIT:
VANITY

ATTACK VECTOR:
INVISIBLE CLOTH

RESULT:
PRIVILEGED USER COMPROMISED

Os vigaristas de Andersen realizam um verdadeiro teste de penetração social.

E o rei falha espetacularmente.


😂 O riso também é uma arma

É por isso que regimes, instituições e pessoas poderosas frequentemente possuem uma relação complicada com sátira.

Uma crítica pode ser respondida.

Um argumento pode ser contestado.

Uma tese pode receber outra tese.

Mas existe algo devastador em alguém simplesmente apontar e...

rir.

O riso remove solenidade.

O uniforme continua existindo.

O palácio continua existindo.

O cargo continua existindo.

Mas durante alguns segundos o poderoso deixa de parecer inevitável.

Torna-se humano.

E às vezes ridículo.

Andersen não precisa escrever:

“Questionem estruturas hierárquicas.”

Ele coloca o imperador nu na rua.

Muito mais eficiente.


📚 O contrabando perfeito

E aqui chegamos ao nosso firewall.

Imagine um censor procurando literatura perigosa.

Ele procura:

manifestos;

panfletos;

jornais;

discursos;

tratados políticos.

Encontra:

livro infantil.

Reis.

Princesas.

Animais.

Florestas.

Fadas.

Crianças.

Aparentemente inofensivo.

ALLOW.

Só que histórias são containers maravilhosos.

Dentro delas cabem ideias.

OUTER PACKAGE:

"CONTO INFANTIL"


INNER PAYLOAD:

autoridade pode errar
maioria pode mentir
poder pode ser ridículo
regras podem ser injustas
adultos podem ser enganados
crianças podem perceber primeiro

Firewall bypass successful.


🐷 Orwell sabia disso

Séculos depois das fábulas antigas e mais de cem anos depois de Andersen, George Orwell faria algo estruturalmente semelhante em Animal Farm.

Animais.

Uma fazenda.

Uma história aparentemente simples.

Só que por baixo existe uma alegoria política poderosíssima.

O mecanismo é antigo.

Você desloca o conflito.

Em vez de escrever diretamente sobre determinado sistema político, escreve sobre:

porcos.

A metáfora cria distância.

E essa distância permite enxergar coisas que às vezes ficam invisíveis quando estamos emocionalmente presos ao objeto real.


🐺 Esopo já executava esse código

Muito antes disso, fábulas atribuídas à tradição de Esopo já colocavam comportamentos humanos em animais.

Raposa.

Corvo.

Leão.

Tartaruga.

Lebre.

O animal pode representar:

vaidade;

ganância;

poder;

esperteza;

arrogância.

E ninguém precisa apontar diretamente para o rei sentado na primeira fila.

🤣

AUTHOR:
"É sobre um leão."

KING:
"Hmmm."

AUDIENCE:
😏

A alegoria possui plausible deniability.


🦉 E então chegamos a William Minerva

Décadas depois daquele episódio em Taubaté, encontro uma ideia extraordinariamente parecida dentro de um anime japonês:

Yakusoku no Neverland — The Promised Neverland.

No universo de Grace Field, crianças vivem dentro de uma realidade cuidadosamente controlada.

Existe uma versão oficial do mundo.

Existem adultos responsáveis pela manutenção dessa realidade.

Existem informações que as crianças não deveriam possuir.

Mas existe também...

uma biblioteca.

E alguns livros associados ao misterioso William Minerva carregam pistas através do símbolo da coruja e de mensagens codificadas usando Morse.

Os livros possuem duas funções.

A primeira é óbvia:

READ BOOK

A segunda:

DECODE BOOK

Isso é maravilhoso.


📖 O livro possui duas camadas

Para quem controla o sistema:

é um livro.

Para quem sabe observar:

é um canal de comunicação.

LAYER 1:
STORY

LAYER 2:
MESSAGE

LAYER 3:
DOUBT

LAYER 4:
ESCAPE

O objeto autorizado pelo sistema transporta informação capaz de ajudar alguém a questionar o próprio sistema.

Meu Deus.

Isso é praticamente esteganografia narrativa.


🦉 A coruja passou pelo firewall

Imagine a análise de segurança de Grace Field:

OBJECT:
BOOK

AUTHOR:
APPROVED

CONTENT:
APPROVED

OWL STAMP:
DECORATIVE

THREAT:
NONE

ALLOW.

Emma e seus companheiros:

“Espera aí...”

🤣

Todo sistema de controle possui um problema fundamental.

Ele precisa interpretar aquilo que controla.

E interpretação nunca é perfeita.


👑 Andersen e Minerva encontram-se

Agora podemos colocar as duas obras lado a lado.

ANDERSEN                     WILLIAM MINERVA

Reino                        Grace Field
  ↓                              ↓
realidade social             realidade controlada
  ↓                              ↓
adultos sustentam            adultos administram
uma ficção                   uma ficção
  ↓                              ↓
criança percebe              crianças investigam
  ↓                              ↓
"ELE ESTÁ NU"                "HÁ ALGO ERRADO"
  ↓                              ↓
      QUESTIONAR A REALIDADE

As histórias são completamente diferentes.

Contextos diferentes.

Épocas diferentes.

Objetivos diferentes.

Mas existe uma conexão temática deliciosa:

não aceite uma realidade apenas porque o sistema inteiro foi organizado para fazê-la parecer verdadeira.


🔏 Livros também podem transportar mensagens reais

E aqui saímos da ficção.

Ao longo da história, pessoas utilizaram livros, cartas, jornais e outros objetos aparentemente comuns para transportar mensagens escondidas.

Cifras.

Códigos.

Tintas invisíveis.

Acrosticos.

Microfilmes em períodos posteriores.

Marcas.

Esteganografia.

Mensagens incorporadas a textos aparentemente inocentes.

A ideia fundamental é sempre semelhante:

MESSAGE EXISTS

BUT

MESSAGE DOES NOT LOOK
LIKE MESSAGE

Esse é o sonho de qualquer informação tentando atravessar um controle.


🚫 O problema eterno do censor

O censor gostaria de implementar:

IF IDEA = DANGEROUS
   DELETE IDEA
END-IF

Mas ideias não possuem extensão .DANGEROUS.

Podem estar num romance.

Numa piada.

Numa música.

Num desenho.

Num conto infantil.

Num personagem.

Numa metáfora.

Num código Morse escondido numa coruja.

Ou simplesmente...

na interpretação do leitor.

E aí o problema torna-se insolúvel.


🧠 Porque o payload final é executado no cérebro

Essa talvez seja a vulnerabilidade definitiva.

O autor escreve uma coisa.

O leitor recebe.

Mas o leitor não é armazenamento passivo.

Ele interpreta.

Relaciona.

Compara.

Lembra.

Discorda.

Ri.

Fica com raiva.

Conecta com outra experiência.

BOOK
  ↓
READER
  ↓
INTERPRETATION
  ↓
UNPREDICTABLE OUTPUT

O firewall pode controlar o livro.

Não controla completamente o OUTPUT.

Foi exatamente isso que aconteceu comigo em 1982.


😂 O firewall esperava moral

Entrada:

A Roupa Nova do Imperador.

Resultado esperado:

“Devemos ser honestos e não ser vaidosos.”

Resultado produzido pelo Vagner 8.0:

“HAHAHAHAHAHA! ENGANARAM O REI E ELE SAIU PELADO!”

🤣

UNEXPECTED OUTPUT.

E essa saída não estava escrita literalmente numa ficha pedagógica.

Foi produzida pela interação entre:

livro + criança.


🕵️ E agora entra minha liberdade poética

Às vezes gosto de imaginar o que aconteceu depois.

Repito:

imaginar.

Não tenho qualquer evidência de que isso tenha ocorrido.

Mas a versão Bellacosa Mainframe da história é muito melhor.

Na manhã seguinte, alguém entra na biblioteca.

Olha para A Roupa Nova do Imperador.

Pensa:

“Esse negócio está causando problemas.”

Retira o volume.

BOOK STATUS:

TITLE:
A ROUPA NOVA DO IMPERADOR

PREVIOUS STATUS:
AVAILABLE

NEW STATUS:
WITHDRAWN

REASON:
UNAUTHORIZED INTERPRETATION

INCIDENT:
VAGUINHO-1982

🤣🤣🤣

O livro desaparece misteriosamente da estante.

Não porque contém palavrões.

Não porque contém violência.

Não porque contém propaganda política.

Mas porque foi descoberto um exploit crítico:

crianças conseguem rir da autoridade.


🚨 CVE-1837-ANDERSEN

Vamos registrar corretamente a vulnerabilidade.

CVE-1837-ANDERSEN

Severity:
CRITICAL

Affected Systems:
- monarchies
- bureaucracies
- corporations
- schools
- political organizations
- consulting projects
- management meetings

Attack Vector:
storytelling

Exploit Complexity:
LOW

Privileges Required:
NONE

User Interaction:
READ BOOK

Impact:
UNAUTHORIZED DOUBT

Patch disponível?

Não.

🤣


🏢 Porque o rei mudou de emprego

Quarenta e quatro anos depois, continuo encontrando aquele sujeito.

Ele apenas parou de usar coroa.

Agora usa crachá.

CEO:
"O projeto está ótimo."

DIRETOR:
"Excelente."

GERENTE:
"Tudo verde."

CONSULTORIA:
"Best practice."

PMO:
"100% concluído."

POWERPOINT:
██████████ 100%

PRODUÇÃO:
🔥🔥🔥🔥🔥

COBOLZEIRO:
"Senhores..."

SILÊNCIO.

COBOLZEIRO:
"O rei está nu."

🤣

E é por isso que uso aquela história em aulas de COBOL.


💻 O mainframe não respeita autoridade

Computadores possuem uma característica profundamente inconveniente:

não ficam constrangidos diante do diretor.

O diretor pode afirmar:

“Isso está correto.”

O processador responde:

S0C7.

O gerente pode dizer:

“Sempre funcionou.”

O sistema responde:

DATA EXCEPTION.

A consultoria pode apresentar cinquenta slides verdes.

O job responde:

RC=12.

Produção possui uma brutalidade epistemológica maravilhosa.

TITLE != TRUTH
AUTHORITY != EVIDENCE
POWERPOINT != PRODUCTION

O dump não sabe quem é vice-presidente.

Ele simplesmente registra aquilo que aconteceu.


🧒 Precisamos da criança na War Room

Toda organização precisa de alguém capaz de fazer aquilo que a criança de Andersen fez.

Não necessariamente de maneira rude.

Não para desafiar autoridade por esporte.

Mas para dizer:

“Os dados não mostram isso.”

“O teste não passou.”

“Essa premissa está errada.”

“Não sabemos.”

“Precisamos verificar.”

Essas frases parecem banais.

Em determinadas organizações, são atos de coragem.


🧙 O sysprog como criança inconveniente

Um veterano de produção frequentemente desenvolve esse comportamento.

Alguém apresenta uma arquitetura maravilhosa.

Ele pergunta:

“E se o link cair?”

Explicam uma automação perfeita.

“E se executar duas vezes?”

Apresentam migração sem downtime.

“Como vocês testaram rollback?”

Mostram dashboard verde.

“Cadê o SMF?”

🤣

Esse profissional parece pessimista.

Às vezes é apenas a criança apontando para o imperador.


📊 Dados são crianças inconvenientes

Observabilidade desempenha função semelhante.

Logs.

Traces.

Métricas.

SMF.

RMF.

Dumps.

Mensagens.

Eles possuem uma qualidade maravilhosa:

podem contradizer a narrativa.

NARRATIVE:
"SISTEMA ESTÁ NORMAL."

RMF:
CPU 99%

NARRATIVE:
"NÃO HOUVE IMPACTO."

SMF:
TRANSACTIONS FAILED = 18342

NARRATIVE:
"MIGRAÇÃO CONCLUÍDA."

RECONCILIATION:
MISSING RECORDS = 274991

O rei pode continuar marchando.

Mas agora temos fotografia.


🧠 A verdadeira alfabetização talvez seja aprender a duvidar

Não estou falando de transformar toda criança num cínico que acredita que tudo é mentira.

Isso seria outro problema.

Pensamento crítico não significa:

“Nada é verdade.”

Significa:

“Como sabemos que isso é verdade?”

Essa diferença é gigantesca.

CINISMO:
"NÃO ACREDITO EM NADA."

PENSAMENTO CRÍTICO:
"QUAL É A EVIDÊNCIA?"

A primeira postura fecha portas.

A segunda abre.


📚 E então voltamos à biblioteca

Muito antes da biblioteca da CESP, houve para mim outro portal.

A biblioteca de Taubaté.

Ali livros começaram a abrir mundos.

Depois vieram outras bibliotecas.

Malba Tahan.

Mil Histórias sem Fim.

Satíricon.

História.

Maçonaria brasileira.

Administração.

E milhares de outras páginas.

Mas aquele pequeno livro de Andersen permaneceu.

Talvez justamente porque houve duas explosões emocionais associadas a ele.

A primeira:

gargalhada.

A segunda:

vergonha.

Duas âncoras poderosas.


🧬 Quarenta e quatro anos de retenção

Em 1982 eu não sabia o que era COBOL profissionalmente.

Não conhecia mainframe.

Não sabia o que era groupthink.

Não conhecia viés de autoridade.

Não conhecia segurança da informação.

Não conhecia código Morse além do que eventualmente pudesse aparecer no universo infantil.

Não conhecia The Promised Neverland.

Mas o registro ficou.

WRITE MEMORY
FROM ANDERSEN
TO VAGNER-LONG-TERM-STORAGE

RETENTION:
44 YEARS+

STATUS:
ACTIVE

E décadas depois outros nós começaram a conectar-se.


🕸️ O grafo finalmente aparece

TAUBATÉ
   ↓
BIBLIOTECA
   ↓
ANDERSEN
   ↓
REI NU
   ↓
AUTORIDADE
   ↓
CONFORMIDADE
   ↓
PROFESSORA
   ↓
VERGONHA
   ↓
LEITURA
   ↓
CURIOSIDADE
   ↓
MALBA TAHAN
   ↓
MIL HISTÓRIAS SEM FIM
   ↓
TECNOLOGIA
   ↓
COBOL
   ↓
INCIDENTES
   ↓
GROUPTHINK
   ↓
ANIME
   ↓
YAKUSOKU NO NEVERLAND
   ↓
WILLIAM MINERVA
   ↓
CORUJA
   ↓
MORSE
   ↓
MENSAGEM ESCONDIDA
   ↓
CENSURA
   ↓
FIREWALL
   ↓
ANDERSEN

O grafo fechou.

Quarenta e quatro anos depois.


☕ O último café

Talvez seja impossível construir um firewall perfeito contra ideias.

Você pode controlar editoras.

Pode controlar bibliotecas.

Pode proibir livros.

Pode censurar jornais.

Pode bloquear páginas.

Pode vigiar redes.

Pode estabelecer currículos.

Pode determinar interpretações oficiais.

Mas existe um componente extremamente difícil de controlar:

o leitor.

Porque alguém pode entregar a uma criança uma história perfeitamente inocente sobre um rei e esperar que ela aprenda uma pequena lição moral.

E a criança pode descobrir outra coisa.

Pode perceber que o rei é ridículo.

Pode perceber que todos estão mentindo.

Pode perceber que autoridade não produz realidade.

Pode rir.

Pode lembrar.

Pode carregar aquilo durante quarenta e quatro anos.

Pode virar programador.

Pode trabalhar com mainframes.

Pode tornar-se professor.

E um dia, diante de uma turma de COBOL, pode recuperar aquele mesmo pacote armazenado desde 1982 e dizer:

“Senhores, vou explicar por que ninguém percebeu que esse projeto estava condenado.”

Abre Andersen.

O firewall olha para o pacote.

CHILDREN'S BOOK.

SAFE.

ALLOW.

O livro atravessa.

Dentro dele continua a mesma vulnerabilidade publicada em 1837.

Uma criança olha.

Uma multidão permanece silenciosa.

O poderoso continua marchando.

E alguém finalmente diz:

“Mas ele está nu.”

FIREWALL BYPASSED.

MESSAGE DELIVERED.

RETURN CODE = 0000.

☕📚🦉👑

Vagner Renato Bellacosa, IBM Champion e especialista em IBM Mainframe
IBM Z17 SYSTEM ONLINE
Sobre o autor

Vagner Renato Bellacosa

IBM Champion 2026 • Especialista em IBM Mainframe

Vagner Renato Bellacosa trabalha com IBM Mainframe desde 1988 , é IBM Champion e especialista em COBOL, CICS, Db2, z/OS e IBM Z. Compartilha experiências profissionais, conhecimento técnico, história da computação e práticas do universo mainframe para aproximar novas gerações das tecnologias que sustentam empresas, bancos e governos ao redor do mundo.

IBM Champion IBM Z COBOL CICS Db2 z/OS Mainframe desde 1988
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