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quarta-feira, 6 de julho de 2022

Viagem ao Fundo do Banco — O Dia em que o Seaview Mergulhou no Db2 para Descobrir Quem Cobrou o Mesmo Pedido Duas Vezes

 

Bellacosa Mainframe analisando querys sob a otica de um QA

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Viagem ao Fundo do Banco — O Dia em que o Seaview Mergulhou no Db2 para Descobrir Quem Cobrou o Mesmo Pedido Duas Vezes

Ou: como SELECT, JOIN, GROUP BY, HAVING, Window Functions, timestamps, logs, APIs, retries, idempotência, observabilidade e um pouco de desconfiança transformam SQL de “consulta ao banco” em instrumento forense — e por que o Almirante Nelson jamais aceitaria “acho que tem dado duplicado” como relatório de missão

Imagine a cena.

O relógio marca 02:17 da madrugada.

No Centro de Processamento de Dados, alguém acabou de descobrir que clientes podem estar sendo cobrados duas vezes. O telefone do suporte toca. O monitor de produção pisca. O café da máquina já passou da classificação “bebida” para “reagente químico”.

E, estacionado metaforicamente no fundo do oceano de dados, encontra-se o Seaview, o submarino de Viagem ao Fundo do Mar.

O Almirante Nelson olha para o painel.

O Capitão Crane olha para Nelson.

Chip Morton olha para os instrumentos.

E Kowalski, que provavelmente teve a infelicidade de ficar com o plantão daquela madrugada, pergunta:

— Almirante, encontramos doze registros estranhos. Posso abrir o incidente?

Nelson responde:

— Encontrou doze registros ou descobriu o que aconteceu?

Silêncio no submarino.

E é exatamente aqui que começa nossa viagem.

Porque muita gente aprende SQL como se fosse apenas isto:

SELECT *
FROM CLIENTES;

Depois aprende:

WHERE
ORDER BY
GROUP BY
JOIN

faz algumas provas, ganha um certificado e conclui:

“Eu sei SQL.”

Mas saber SQL não é apenas conhecer sua gramática.

Da mesma maneira que conhecer COBOL não significa saber investigar um S0C7, conhecer SELECT não significa saber investigar produção.

A diferença aparece quando existe um incidente real.

E neste artigo vamos descer lentamente até o fundo desse oceano.



1. Primeiro mergulho — o chamado chegou da superfície

Nossa história começa com uma reclamação:

“Alguns clientes parecem ter sido cobrados duas vezes.”

Observe a palavra perigosa:

parecem.

Não temos ainda um bug.

Temos uma suspeita.

O primeiro erro de um investigador inexperiente é tentar provar imediatamente que sua primeira ideia está correta.

O investigador experiente faz algo diferente.

Ele transforma suspeitas em perguntas.

Por exemplo:

Existem realmente duas cobranças?

Quantos clientes foram afetados?

Quando aconteceu?

Os valores são iguais?

Os casos possuem algo em comum?

Houve deploy?

Houve timeout?

Houve retry?

A primeira cobrança já tinha sido processada quando o retry aconteceu?

Esse é o verdadeiro começo da investigação.

Não é SQL.

É pensamento investigativo.

SQL virá depois como sonar.



2. O QA Jr liga o sonar

Nosso primeiro tripulante executa:

SELECT *
FROM PEDIDOS
WHERE STATUS = 'ERROR';

Resultado:

12 linhas

E abre o ticket:

“Existem 12 pedidos com erro no banco.”

Isso está errado?

Não necessariamente.

É uma observação válida.

O problema é que ela praticamente não responde à reclamação original.

Pedidos com erro podem existir por dezenas de motivos:

endereço inválido
estoque indisponível
cartão recusado
timeout
cancelamento
erro de integração
falha de cadastro

E nenhum deles necessariamente implica cobrança duplicada.

O QA Jr encontrou peixes no oceano.

Ainda não encontrou o submarino desaparecido.


3. Um SELECT pode responder perfeitamente à pergunta errada

Esta é uma das lições mais importantes de SQL.

Imagine:

SELECT *
FROM PAGAMENTOS
WHERE STATUS = 'APROVADO';

O banco retorna:

427.816 linhas

Excelente.

Agora sabemos que existem pagamentos aprovados.

E daí?

Nada.

O fato de uma consulta retornar dados não significa que ela produziu evidência útil.

Um bom investigador aprende a perguntar:

Qual pergunta exatamente esta query está respondendo?

Se não conseguir responder em português simples, provavelmente ainda não sabe por que está executando aquela consulta.

Por exemplo:

SELECT *
FROM PAGAMENTOS
WHERE PEDIDO_ID = 9;

Agora temos uma pergunta clara:

“Quais pagamentos pertencem ao pedido 9?”

Resultado imaginário:

PAGAMENTO_ID   PEDIDO_ID   VALOR    STATUS      HORARIO

88341          9           999.99   APROVADO    14:32:08
88352          9           999.99   APROVADO    14:32:11

Interessante.

Agora temos dois pagamentos aprovados para o mesmo pedido.

O Seaview acabou de detectar algo grande no sonar.


4. O QA Pleno pergunta: isso aconteceu só uma vez?

Esta é a primeira grande mudança de mentalidade.

O iniciante normalmente encontra um caso.

O profissional mais experiente procura um padrão.

Em vez de investigar apenas o pedido 9:

SELECT
    PEDIDO_ID,
    COUNT(*) AS QTD
FROM PAGAMENTOS
WHERE STATUS = 'APROVADO'
GROUP BY PEDIDO_ID
HAVING COUNT(*) > 1;

Agora estamos dizendo ao banco:

“Agrupe os pagamentos por pedido e mostre apenas aqueles que possuem mais de uma ocorrência aprovada.”

E aparecem:

PEDIDO_ID    QTD

9            2
17           2
28           2
31           2
...

Doze pedidos.

Agora a história mudou.

Não parece mais um registro corrompido isolado.

Existe um padrão.

Mas cuidado.

O Almirante Nelson ainda não autorizaria tocar o alarme vermelho.


5. COUNT(*) > 1 não significa automaticamente bug

Este detalhe é importantíssimo.

Imagine um pedido de R$ 1.000.

O sistema pode permitir:

Cartão A: R$ 500
Cartão B: R$ 500

Duas transações aprovadas.

Perfeitamente legítimo.

Ou pode existir:

Autorização
Captura

duas operações associadas ao mesmo pedido.

Ou:

pagamento
estorno
nova cobrança

Portanto:

HAVING COUNT(*) > 1

não significa:

“Achei o bug!”

Significa:

“Encontrei algo que merece investigação.”

Esta diferença parece pequena, mas separa SQL mecânico de SQL investigativo.


6. Descendo mais fundo: precisamos conhecer a regra de negócio

Antes de perguntar ao banco se algo está errado, precisamos saber o que significa certo.

Suponha que a regra seja:

Para cada pedido, deve existir no máximo uma captura financeira aprovada no valor total do pedido.

Agora conseguimos escrever uma consulta melhor:

SELECT
    PEDIDO_ID,
    COUNT(*) AS QTD_CAPTURAS,
    SUM(VALOR) AS TOTAL_CAPTURADO
FROM PAGAMENTOS
WHERE STATUS = 'APROVADO'
  AND TIPO = 'CAPTURE'
GROUP BY PEDIDO_ID
HAVING COUNT(*) > 1;

Essa consulta já conhece mais do negócio.

Mas ainda podemos melhorar.


7. O verdadeiro problema talvez não seja duplicidade — seja dinheiro a mais

Imagine:

Pedido = R$ 999,99

Captura 1 = R$ 999,99
Captura 2 = R$ 999,99

Se executarmos:

SUM(VALOR)

obteremos:

R$ 1.999,98

Mas o prejuízo excedente não é R$ 1.999,98.

Uma cobrança era legítima.

O excedente é:

R$ 999,99

Então uma consulta mais inteligente seria:

SELECT
    P.ID AS PEDIDO_ID,
    P.VALOR_TOTAL,
    COUNT(PG.ID) AS QTD_CAPTURAS,
    SUM(PG.VALOR) AS TOTAL_CAPTURADO,
    SUM(PG.VALOR) - P.VALOR_TOTAL AS VALOR_EXCEDENTE
FROM PEDIDOS P
JOIN PAGAMENTOS PG
    ON PG.PEDIDO_ID = P.ID
WHERE PG.STATUS = 'APROVADO'
  AND PG.TIPO = 'CAPTURE'
GROUP BY
    P.ID,
    P.VALOR_TOTAL
HAVING SUM(PG.VALOR) > P.VALOR_TOTAL;

Agora a pergunta mudou novamente.

Não estamos procurando apenas:

“Quem possui dois pagamentos?”

Estamos perguntando:

“Quais pedidos receberam mais dinheiro do que deveriam?”

Isso é muito mais próximo do problema real.


8. Easter egg Bellacosa nº 1 — SQL não é VARIG, mas também exige saber para onde você está indo

Um SELECT sem pergunta bem definida lembra aquele passageiro que chega ao aeroporto e diz:

“Quero viajar.”

Excelente.

Para onde?

Um banco de produção pode conter bilhões de registros.

Você precisa de destino.

tabela
período
cliente
endpoint
status
versão
produto
transação

Caso contrário, seu maravilhoso:

SELECT *

é praticamente um bilhete de volta para o DBA perguntar por que você resolveu fazer turismo pelo tablespace inteiro às 14:30.


9. O relógio do Seaview começa a revelar o assassino

Os doze pedidos duplicados possuem outro detalhe.

Veja:

Pedido 9

14:32:08 primeira cobrança
14:32:11 segunda cobrança

Pedido 17:

14:33:24
14:33:27

Pedido 28:

14:34:01
14:34:04

Estranho.

A diferença é quase sempre três segundos.

Esse tipo de repetição é extremamente valioso.

O investigador agora pergunta:

“Existe alguma configuração do sistema que também seja de três segundos?”

Resposta:

HTTP timeout = 3 segundos

O sonar começou a apitar com vontade.


10. Window Functions — quando SQL ganha uma máquina do tempo

Aqui entram funções que assustam iniciantes:

LAG()
LEAD()
ROW_NUMBER()
RANK()
SUM() OVER()

Mas elas são maravilhosas para investigação.

Imagine:

SELECT
    PEDIDO_ID,
    PAGAMENTO_ID,
    CRIADO_EM,
    LAG(CRIADO_EM) OVER (
        PARTITION BY PEDIDO_ID
        ORDER BY CRIADO_EM
    ) AS PAGAMENTO_ANTERIOR
FROM PAGAMENTOS
WHERE STATUS = 'APROVADO';

LAG() basicamente pergunta:

“Qual era o registro anterior dentro desse grupo?”

Para cada pedido, conseguimos olhar para trás.

Algo quase digno do Seaview atravessando uma fenda temporal.

Podemos encontrar:

Pedido 9
Pagamento 1001     14:32:08
Pagamento 1002     14:32:11

E então calcular o intervalo.

Se todos os incidentes apresentam aproximadamente:

3 segundos

temos uma assinatura.


11. Mas SQL ainda não provou a causa

Aqui devemos ser cuidadosos.

Encontramos:

duas cobranças
+
intervalo de 3 segundos
+
timeout configurado em 3 segundos

Isso é uma excelente hipótese.

Mas ainda não significa:

“Provado: retry sem idempotência.”

Para provar o mecanismo, precisamos subir do fundo do banco e consultar outros instrumentos.

Logs.

Tracing.

Histórico de deploy.

Configuração.

Código.

É aqui que uma investigação realmente Sênior começa a parecer uma sala de controle.


12. Logs são a caixa-preta do submarino

Imagine o log:

14:32:08.104
POST /checkout/payment
pedido_id=9
request_id=ABC123

14:32:11.107
TIMEOUT esperando resposta

14:32:11.110
RETRY POST /checkout/payment
pedido_id=9
request_id=DEF456

E o gateway financeiro registra:

14:32:08.350
payment_authorized
transaction=TX8811

14:32:11.340
payment_authorized
transaction=TX8819

Agora conseguimos reconstruir a sequência.

Aplicação
   |
   | cobrança
   v
Gateway
   |
   | aprova
   |
   v
Dinheiro capturado

Resposta demora

Aplicação
   |
   | timeout
   |
   | retry
   v
Gateway
   |
   | aprova novamente
   v
Segunda cobrança

O ponto decisivo é este:

timeout não significa necessariamente que a operação falhou.

Significa apenas:

“Não recebi a resposta no intervalo esperado.”

A operação remota pode ter funcionado perfeitamente.


13. Bem-vindo ao maravilhoso mundo dos sistemas distribuídos

Aqui está um conceito que programadores COBOL acostumados a processamento transacional precisam entender cada vez mais.

Imagine:

Sistema A envia mensagem para Sistema B.

Sistema B processa.

Sistema B responde.

A resposta se perde.

O Sistema A sabe que enviou.

Mas não sabe se B processou.

Então tenta novamente.

Esse é um problema clássico:

“at least once delivery”

ou seja:

a operação pode chegar mais de uma vez.

Se aquilo que será executado envolve dinheiro, estoque, emissão de nota ou alguma alteração irreversível, precisamos de proteção.


14. Entra em cena a idempotência

Uma operação idempotente pode ser repetida sem provocar efeitos adicionais depois da primeira aplicação.

Por exemplo:

PUT /cliente/123

Conteúdo:

{
  "cidade": "Itatiba"
}

Executar dez vezes continua resultando em:

cidade = Itatiba

Agora compare com:

POST /cobrar

Primeira execução:

cobra R$ 999,99

Segunda execução:

cobra mais R$ 999,99

Não é exatamente o tipo de repetição que queremos.


15. A chave mágica: Idempotency-Key

Uma API pode receber:

Idempotency-Key: PEDIDO-9-PAGAMENTO

Na primeira tentativa:

chave não existe
        ↓
processa
        ↓
grava resultado

No retry:

chave já existe
        ↓
não processa novamente
        ↓
retorna resultado anterior

Podemos ainda reforçar isso no banco:

CREATE UNIQUE INDEX UX_PAYMENT_IDEMPOTENCY
ON PAGAMENTOS (IDEMPOTENCY_KEY);

Agora temos duas camadas de defesa.

Aplicação.

Banco.

Se uma falhar, a outra pode impedir o desastre.


16. O mainframe olha para isso e pergunta: “vocês descobriram integridade?”

Quem trabalha com Db2, CICS e sistemas transacionais antigos provavelmente está sorrindo.

Muitos “novos problemas da computação distribuída” têm parentes bem velhos.

Integridade.

Commit.

Rollback.

Locks.

Uniqueness.

Recovery.

Auditoria.

Exatamente as coisas que o mundo mainframe vem discutindo há décadas.

A tecnologia muda.

A física da transação continua bastante teimosa.


17. O QA Sênior pergunta quando começou

Agora encontramos doze casos.

Hora de perguntar:

“Eles sempre existiram?”

Agrupamos por horário.

Exemplo PostgreSQL:

SELECT
    DATE_TRUNC('hour', CRIADO_EM) AS HORA,
    COUNT(*) AS QTD
FROM PAGAMENTOS
GROUP BY DATE_TRUNC('hour', CRIADO_EM)
ORDER BY HORA;

Resultado imaginário:

10h    normal
11h    normal
12h    normal
13h    normal
14h    12 duplicidades
15h    normal

Consultamos deploy:

14:21 nova versão entrou em produção

Primeira ocorrência:

14:32

O deploy entra imediatamente na lista de suspeitos.

Mas atenção.

Correlação temporal ainda não é causalidade.


18. “Depois do deploy” não significa necessariamente “por causa do deploy”

Talvez às 14:30 tenha acontecido:

degradação da rede
latência no gateway
falha no DNS
mudança de feature flag
fila congestionada
mudança de configuração

Portanto um profissional experiente escreve:

“O problema passou a ocorrer após o deploy.”

Em vez de:

“O deploy causou o problema.”

Até encontrar evidência.

Palavras importam.

Em incidentes, elas podem separar investigação de caça às bruxas.


19. Git entra no submarino

Então alguém compara o código.

E encontra:

for tentativa in range(2):
    try:
        return cobrar(pedido)
    except Timeout:
        continue

A intenção era boa.

Resiliência.

Mas existe uma pergunta fundamental:

“Podemos repetir cobrar(pedido) com segurança?”

Se não existir idempotência, o retry pode transformar uma falha de disponibilidade em problema financeiro.

E aqui aparece algo interessante.

O bug não é:

retry

O bug pode ser:

retry + operação não idempotente

Dois componentes perfeitamente razoáveis isoladamente criaram um problema juntos.


20. Causa raiz frequentemente é uma cadeia, não um ponto

Veja uma RCA mais completa:

Deploy muda uma consulta
        ↓
consulta fica mais lenta
        ↓
resposta ultrapassa 3 segundos
        ↓
timeout
        ↓
retry automático
        ↓
primeira chamada continua processando
        ↓
segunda chamada entra
        ↓
não existe idempotência
        ↓
duas capturas

Agora aparecem várias disciplinas:

SQL
performance
API
HTTP
resiliência
banco
observabilidade
arquitetura
negócio

É por isso que bugs interessantes raramente cabem dentro de uma única tecnologia.


21. Onde EXPLAIN ANALYZE entra na história?

Imagine que antes do deploy uma consulta levasse:

200 ms

Depois:

4.200 ms

E o timeout da aplicação seja:

3.000 ms

Podemos investigar o plano.

Em alguns bancos:

EXPLAIN ANALYZE
SELECT ...

Talvez encontremos:

antes:
Index Scan

depois:
Sequential Scan

ou um JOIN produzindo milhões de linhas intermediárias.

Então o aparente incidente:

“clientes cobrados duas vezes”

pode ter começado com:

“uma query perdeu um índice adequado.”

Bem-vindo à engenharia de produção.


22. Easter egg nº 2 — o monstro marinho talvez fosse um FULL TABLE SCAN

No seriado, vez ou outra surgia alguma coisa enorme pela janela do submarino.

Se Viagem ao Fundo do Mar fosse produzido dentro de um CPD, provavelmente a tripulação gritaria:

— Almirante! Há algo gigantesco vindo em nossa direção!

Nelson olharia o monitor:

TABLESPACE SCAN
2.4 bilhões de linhas

— Fechem as comportas e chamem o DBA.


23. O Sênior mede o raio de explosão

Encontrar o bug ainda não basta.

Precisamos saber:

“Quantos foram afetados?”

Suponha:

12 pedidos duplicados

Parece muito?

Pouco?

Não sabemos.

Se existiram:

4.000 pedidos no período

então:

12 / 4000 = 0,003

ou:

0,3%

Isso é o chamado blast radius.

Mas percentual sozinho também engana.

0,3% de usuários pode representar:

R$ 500

ou:

R$ 5 milhões

Por isso precisamos combinar quantidade e impacto.


24. SQL deve calcular impacto com semântica, não só matemática

Um erro muito comum é executar:

SUM(VALOR)

e chamar aquilo de prejuízo.

Nem sempre.

Imagine:

cobrança legítima    R$ 100
cobrança duplicada   R$ 100

SUM:

R$ 200

Impacto excedente:

R$ 100

Agora adicione:

estorno
chargeback
taxas
parcelamento
moeda
captura parcial

e ficará ainda mais delicado.

Dados financeiros exigem entendimento de negócio.


25. Window Functions são excelentes para reconstruir eventos

Vamos usar ROW_NUMBER():

SELECT
    PEDIDO_ID,
    PAGAMENTO_ID,
    CRIADO_EM,
    ROW_NUMBER() OVER (
        PARTITION BY PEDIDO_ID
        ORDER BY CRIADO_EM
    ) AS ORDEM
FROM PAGAMENTOS
WHERE STATUS = 'APROVADO';

Temos:

Pedido 9     Pagamento A     ordem 1
Pedido 9     Pagamento B     ordem 2

Então podemos procurar:

ORDEM > 1

Ou seja:

pagamentos posteriores ao primeiro.

Isso é bastante útil para auditoria.


26. LAG() também pode revelar estados impossíveis

Imagine uma tabela histórica de pedidos:

PEDIDO_ID
STATUS
DATA_EVENTO

Fluxo esperado:

CRIADO
   ↓
PAGO
   ↓
SEPARADO
   ↓
ENVIADO

Agora aparece:

CANCELADO
   ↓
ENVIADO

Opa.

Ou:

CANCELADO
   ↓
PAGO

Podemos usar funções analíticas para enxergar transições.

O SQL deixa de ser apenas fotografia.

Passa a reconstruir filme.


27. Aqui nasce outro conceito poderoso: invariantes

Uma invariante é algo que deveria permanecer verdadeiro.

Exemplo:

estoque não pode ficar negativo.

Consulta:

SELECT *
FROM ESTOQUE
WHERE QUANTIDADE < 0;

Resultado esperado:

0 linhas

Outra:

pedido cancelado não deve receber captura posterior.

SELECT
    P.ID
FROM PEDIDOS P
JOIN PAGAMENTOS PG
    ON PG.PEDIDO_ID = P.ID
WHERE P.STATUS = 'CANCELADO'
  AND PG.STATUS = 'APROVADO'
  AND PG.CRIADO_EM > P.CANCELADO_EM;

Esperado:

0 linhas

Agora SQL tornou-se uma ferramenta de validação de regras.


28. Procure também aquilo que deveria existir e não existe

LEFT JOIN é maravilhoso para isso.

Pagamentos órfãos:

SELECT PG.*
FROM PAGAMENTOS PG
LEFT JOIN PEDIDOS P
       ON P.ID = PG.PEDIDO_ID
WHERE P.ID IS NULL;

Tradução:

“Mostre pagamentos cujo pedido correspondente não existe.”

Pedidos sem pagamento:

SELECT P.*
FROM PEDIDOS P
LEFT JOIN PAGAMENTOS PG
       ON PG.PEDIDO_ID = P.ID
WHERE PG.ID IS NULL;

Isso muda a pergunta.

Você não procura apenas dados estranhos.

Procura ausências estranhas.


29. Cardinalidade: o recife onde muita query naufraga

Existe um problema traiçoeiro.

Suponha:

Pedido
 ├── 2 pagamentos
 └── 5 itens

Faça:

PEDIDOS
JOIN PAGAMENTOS
JOIN ITENS

Pode resultar em:

2 × 5 = 10 linhas

Então você executa:

SUM(PAGAMENTOS.VALOR)

e multiplica dinheiro sem perceber.

Parabéns.

Você acaba de descobrir uma nova modalidade de inflação.

😄

Por isso é fundamental conhecer cardinalidade:

1:1
1:N
N:N

Antes de agregar.

Muitas vezes devemos agregar previamente:

WITH PAGAMENTOS_AGG AS (
    SELECT
        PEDIDO_ID,
        SUM(VALOR) AS TOTAL
    FROM PAGAMENTOS
    GROUP BY PEDIDO_ID
)
SELECT ...

Isso evita explosões causadas pelos JOINs.


30. Uma query pode estar sintaticamente perfeita e semanticamente errada

Este é um conceito que vale guardar.

O banco pode dizer:

SQLCODE = 0

E você ainda assim estar completamente errado.

O SQL executou.

A pergunta estava errada.

No Db2, Oracle, PostgreSQL ou qualquer outro banco, sucesso de execução não significa sucesso de raciocínio.

Um resultado pode ser:

matematicamente correto

e:

conceitualmente inútil

ao mesmo tempo.


31. O QA Sênior procura características discriminantes

Suponha que os doze casos tenham algo em comum:

endpoint = /checkout/payment

Ótimo.

Vamos verificar outro atributo.

gateway = XPTO

Todos os doze.

Outro:

versão = 4.12.7

Todos.

Outro:

retry_count = 1

Todos.

Agora reduzimos enormemente o espaço de busca.

Começamos:

4.000 pedidos

Depois:

12 duplicados

Depois:

1 endpoint

Depois:

1 gateway

Depois:

1 versão

Depois:

retry

Depois:

sem idempotency key

Esse é um método poderoso.

Você está fechando o cerco.


32. Mas agora vem a pergunta que separa investigação de confirmação de viés

Se todos os bugs têm retry, talvez retry seja a causa.

Certo?

Calma.

Pergunte:

Quantos retries ocorreram sem duplicidade?

Isso é importantíssimo.

Imagine:

40.000 retries
12 duplicidades

Então retry sozinho claramente não explica tudo.

Talvez a condição seja:

retry
+
versão X
+
endpoint Y
+
gateway Z
+
ausência de idempotência

O investigador bom não procura somente evidência que confirma sua hipótese.

Ele procura evidência capaz de destruí-la.

Isso é ciência aplicada.


33. Uma curiosidade: correlação pode nos enganar lindamente

Imagine que todos os doze clientes afetados usam Chrome.

Ticket:

“Bug ocorre no Chrome.”

Então alguém consulta a população normal:

98% dos clientes usam Chrome.

Bem...

O Chrome acabou de deixar de ser um suspeito particularmente interessante.

Esse tipo de comparação é essencial.

Pergunte não apenas:

“Os casos ruins possuem X?”

Pergunte também:

“Quantos casos bons possuem X?”


34. O passo a passo de uma investigação madura

Em vez de decorar cinquenta comandos, pense assim.

Comece confirmando existência.

Depois quantifique.

Depois encontre período.

Depois segmente.

Depois procure diferenças entre casos afetados e normais.

Depois correlacione com deploy, configuração e eventos externos.

Depois use logs e tracing para reconstruir sequência.

Depois verifique código.

Depois tente reproduzir.

Depois calcule impacto.

Por fim, valide a correção e crie defesa contra recorrência.

Este é o ciclo completo.


35. O ticket muda completamente

Um ticket inicial pode dizer:

“Há pedidos duplicados.”

Um melhor:

“Encontramos 12 pedidos com duas capturas aprovadas entre 14:32 e 14:57.”

Um ticket realmente útil:

Entre 14:32 e 14:57 foram identificados 12 pedidos com duas capturas financeiras aprovadas, correspondendo a 0,3% dos pedidos do período e R$ 12.430 de cobrança excedente. Todos foram processados pelo endpoint /checkout/payment após o deploy X. As segundas chamadas ocorreram aproximadamente três segundos após as primeiras, valor compatível com o timeout configurado. Os logs mostram retry após timeout enquanto a primeira captura já havia sido concluída pelo gateway. As requisições não apresentavam mecanismo de idempotência. O comportamento foi reproduzido em ambiente controlado.

Isto já não é:

“Tem algo estranho.”

É praticamente um relatório de investigação.


36. Mas nem o Sênior deveria escrever “provei sozinho com SQL”

Esse é um detalhe importante.

SQL é excelente para provar:

existência
quantidade
padrão
período
impacto

Mas causa raiz frequentemente exige:

logs
traces
configuração
código
deploy
reprodução

Portanto, em vez de:

“SQL provou que retry causou o problema.”

Melhor:

“SQL demonstrou o padrão e o impacto; logs e tracing demonstraram o mecanismo de retry; código e reprodução confirmaram a ausência de idempotência.”

Muito mais preciso.


37. O melhor investigador mantém humildade epistemológica

Palavra grande.

Ideia simples.

Não diga:

“Tenho certeza porque minha query voltou 12 linhas.”

Diga:

“Os dados atualmente sustentam esta hipótese.”

Isso permite que uma nova evidência mude sua conclusão.

Produção adora humilhar excesso de confiança.

Ela tem talento para isso.


38. SQL investigativo também precisa respeitar produção

Aqui entra outra lição essencial.

Você está investigando um incidente.

Não deve criar outro.

Evite executar sem necessidade:

SELECT *
FROM PAGAMENTOS;

sobre bilhões de linhas.

Prefira filtros:

WHERE CRIADO_EM BETWEEN ...

Escolha colunas.

Conheça índices.

Use ambiente read-only quando disponível.

Tenha cuidado com dados pessoais.

E nunca confunda:

investigar

com:

“já que estou aqui vou dar um UPDATE rapidinho...”

É assim que nasce a segunda temporada do incidente.


39. No mainframe, RACF estaria observando

Em um ambiente z/OS bem administrado, acesso não deveria significar:

“Faça qualquer coisa.”

Existem permissões.

Auditoria.

Perfis.

Separação de funções.

O equivalente moderno continua sendo:

least privilege
read-only
audit trail
mascaramento
roles
timeouts
resource limits

Um QA não precisa necessariamente possuir poderes para alterar produção.

Ele precisa de visibilidade suficiente para investigar com segurança.


40. Timestamps — as correntes marítimas invisíveis

Outro assassino de investigações:

timezone

Imagine:

Banco: America/Sao_Paulo
API: UTC
Observabilidade: UTC
Deploy: horário local

Banco:

14:32

Log:

17:32

Alguém conclui:

“Não corresponde.”

Mas é o mesmo instante.

Por isso qualquer investigação temporal deve entender:

timezone
precisão
sincronização de relógio
formato

Caso contrário você pode passar três horas procurando um fantasma.


41. Consistência também importa

Banco de produção está vivo.

Você roda:

SELECT COUNT(*)

Às 14:00:00.

Depois:

SELECT SUM(VALOR)

Às 14:01:00.

Enquanto isso, milhares de transações aconteceram.

Talvez você esteja comparando dois universos diferentes.

Dependendo do banco e da investigação, conceitos como:

READ COMMITTED
REPEATABLE READ
SNAPSHOT
MVCC

podem importar.

Até um SELECT tem contexto transacional.


42. Do SQL para Db2 for z/OS

Agora chegamos ao nosso CPD.

Um programador COBOL pode encontrar algo muito parecido em Db2.

Por exemplo:

SELECT PEDIDO_ID,
       COUNT(*) AS QTD
FROM PAGAMENTO
WHERE STATUS = 'A'
GROUP BY PEDIDO_ID
HAVING COUNT(*) > 1;

Nada conceitualmente diferente.

Você pode executar consultas por ferramentas autorizadas como SPUFI ou outras interfaces corporativas.

Depois correlacionar com:

CICS
Db2
MQ
JES
SMF
logs da aplicação
APIs

Imagine um programa COBOL/CICS emitindo uma solicitação.

Depois MQ entrega.

Depois uma API externa processa.

Depois ocorre timeout.

Depois há nova mensagem.

Você pode ter criado no século XXI um problema cuja solução exige disciplina transacional conhecida desde os dinossauros do CPD.


43. Easter egg nº 3 — o Seaview encontrou um SQLCODE

Alarmes.

Luzes vermelhas.

Kowalski:

— Capitão! SQLCODE negativo!

Crane:

— Qual?

-811, senhor!

Nelson entra correndo.

— Então a query que esperava uma linha encontrou várias. Finalmente o banco resolveu colaborar com a investigação.

Quem trabalha com Db2 conhece o drama.

Uma aplicação espera unicidade.

O banco entrega duas linhas.

De repente uma regra implícita se materializa em erro.

Às vezes o bug esteve ali durante anos, esperando os dados certos para aparecer.


44. O SQL da investigação pode virar teste

Isto é belíssimo.

Você encontra o incidente com:

SELECT PEDIDO_ID
FROM PAGAMENTOS
WHERE STATUS = 'APROVADO'
GROUP BY PEDIDO_ID
HAVING COUNT(*) > 1;

Depois da correção, essa mesma consulta pode se tornar parte de uma validação.

Esperado:

0 rows

Teste:

envia requisição
simula timeout
executa retry

Nova consulta:

0 rows

Excelente.

O incidente se tornou teste de regressão.


45. Melhor ainda: a query pode virar monitoramento

Agora execute periodicamente uma consulta equivalente.

Se:

resultado = 0

normal.

Se:

resultado > 0

alerta.

O fluxo mudou de:

cliente reclama
        ↓
investigamos

para:

sistema detecta
        ↓
investigamos antes de dezenas de clientes reclamarem

Isso é evolução operacional.


46. Sanity check pós-deploy

Antes do deploy você conhece certos números normais:

duplicidades = 0
erros = 0,02%
aprovação = 98,7%
pedidos órfãos = 0

Depois do deploy executa verificações equivalentes.

Se aparece:

erro = 4,8%

não espere o telefone tocar.

Esta é uma aplicação prática excelente de SQL para QA.

SQL deixa de ser apenas “consulta durante defeito”.

Vira instrumento de observabilidade.


47. Migrations também merecem investigação

Imagine:

ALTER TABLE PEDIDOS
ADD COLUMN STATUS_V2 VARCHAR(20);

QA iniciante verifica:

“A coluna existe.”

Bom começo.

QA mais maduro verifica:

SELECT COUNT(*)
FROM PEDIDOS
WHERE STATUS_V2 IS NULL;

Depois:

SELECT
    STATUS,
    STATUS_V2,
    COUNT(*)
FROM PEDIDOS
GROUP BY STATUS, STATUS_V2;

Agora estamos verificando:

estrutura
+
conteúdo
+
coerência

Uma migration pode funcionar tecnicamente e falhar semanticamente.


48. Jr, Pleno e Sênior não são comandos SQL diferentes

Existe uma caricatura comum:

Jr sabe SELECT

Pleno sabe JOIN

Sênior sabe Window Function

Não.

Um Jr pode dominar Window Functions.

Um Sênior pode solucionar um incidente inteiro usando:

COUNT(*)

A diferença é mais interessante.

O Jr pergunta:

“O que existe?”

O Pleno pergunta:

“Que padrão existe?”

O Sênior pergunta:

“Que mecanismo produziria exatamente esse padrão e como posso provar que minha hipótese está errada?”

Isto é maturidade investigativa.


49. E depois do Sênior existe outra pergunta

Imagine alguém no nível Staff, Principal ou arquitetura.

Ele olha para toda a investigação e pergunta:

“Por que nosso sistema permitiu que isso acontecesse?”

Não:

“Quem escreveu esse retry?”

Mas:

Por que uma API financeira não exigia idempotência?

Por que o banco permitia a duplicidade?

Por que não havia alerta?

Por que não existia teste de timeout?

Por que o gateway não possuía reconciliação?

Por que o deploy não tinha sanity check?

Por que demoramos para detectar?

Agora estamos corrigindo o sistema, não apenas o código.


50. Defesa em profundidade — ou quantas comportas possui o Seaview?

Uma arquitetura madura pode colocar várias barreiras:

cliente
   ↓
idempotency key
   ↓
API
   ↓
controle de duplicidade
   ↓
serviço
   ↓
regra de negócio
   ↓
banco
   ↓
unique constraint
   ↓
gateway
   ↓
reconciliação
   ↓
monitoramento

Se uma proteção falhar, outra ainda pode ajudar.

É a mesma filosofia de compartimentos estanques de um submarino.

Uma seção pode sofrer danos sem afundar a embarcação inteira.


51. O verdadeiro papel do SQL

Depois de toda esta viagem, chegamos ao fundo do oceano.

SQL não é apenas:

SELECT
INSERT
UPDATE
DELETE

Para um investigador, SQL permite perguntar:

Onde a realidade deixou de obedecer ao modelo que construímos?

Uma query de QA pode dizer:

mostre pedidos impossíveis
mostre transições inválidas
mostre valores inconsistentes
mostre relacionamentos quebrados
mostre duplicidades
mostre ausências
mostre anomalias temporais

Isso é extraordinariamente poderoso.


52. Uma regra Bellacosa para levar para casa

Antes de executar uma consulta durante um incidente, pergunte:

“Que hipótese estou tentando testar?”

Depois da consulta:

“Este resultado poderia ter outra explicação?”

Depois de encontrar um padrão:

“Os casos normais também possuem esse padrão?”

Depois de encontrar correlação:

“Consigo demonstrar o mecanismo?”

Depois de encontrar a causa:

“Como impedimos que volte?”

Se você incorporar apenas isso à sua maneira de trabalhar, seu SQL ficará muito melhor sem aprender um único comando novo.


Epílogo — Emergindo do fundo do banco

O Seaview finalmente volta à superfície.

Missão concluída.

No relatório inicial havia:

“Acho que tem cobrança duplicada.”

No relatório final temos:

12 pedidos afetados
0,3% da população do período
R$ 12.430 de cobrança excedente
mesmo endpoint
mesmo intervalo
mesma versão
segunda requisição ~3 segundos depois
timeout configurado em 3 segundos
retry confirmado pelos logs
primeira captura já havia sido concluída
ausência de idempotência
problema reproduzido
correção aplicada
constraint adicionada
teste de regressão criado
monitoramento implementado

Almirante Nelson fecha a pasta.

Crane pergunta:

— Então SQL resolveu o caso?

Nelson olha pela janela do submarino.

— Não. SQL nos mostrou onde procurar e quanto dano havia. Logs mostraram a sequência. Tracing mostrou o caminho. Código explicou o mecanismo. O teste provou que conseguimos reproduzir. E a arquitetura nos ensinou por que aquilo jamais deveria ter sido permitido.

No fundo da sala alguém executa:

SELECT COUNT(*)
FROM PAGAMENTOS_DUPLICADOS;

Resultado:

0

Nelson sorri.

Até que Kowalski aparece correndo:

— Almirante...

— O que foi agora?

— Encontramos um pedido cancelado que foi enviado três horas depois.

Nelson olha para Crane.

Crane olha para o café.

O Seaview começa a mergulhar novamente.

Porque em produção, meu caro programador COBOL, todo fundo do mar possui outro fundo logo abaixo.

E talvez essa seja a verdadeira lição da nossa viagem:

o profissional iniciante usa SQL para encontrar registros; o profissional experiente usa SQL para testar hipóteses; o profissional Sênior combina dados, logs, arquitetura e conhecimento de negócio até transformar suspeita em evidência.

Não é o SELECT complicado que encerra o caso.

É a pergunta certa.

E, como diria qualquer veterano do CPD diante de um incidente às duas da madrugada:

antes de culpar o programa, consulte os dados. Antes de culpar os dados, confira o JOIN. Antes de culpar o JOIN, olhe o timestamp. E antes de executar um UPDATE em produção... chame o DBA.

Um Café no Bellacosa Mainframe

Onde às vezes descemos ao fundo do oceano apenas para descobrir que o monstro marinho era um retry de três segundos sem Idempotency-Key.

quarta-feira, 13 de novembro de 2019

O Caso do Return Code que Decidiu Quem Viveria no Batch

 

Bellacosa Maifnrame e o caso do return code que decidiu quem viveria no batch

☕ Um Café no Bellacosa Mainframe

O Caso do Return Code que Decidiu Quem Viveria no Batch

JCL IF/THEN/ELSE: o detetive invisível que interroga programas, examina falhas e escolhe o próximo passo

A chuva caía sobre o data center como uma sequência interminável de registros gravados em fita.

Do lado de fora, a cidade dormia. Dentro da sala de operações, milhares de luzes piscavam em silêncio, enquanto o z/OS processava folhas de pagamento, transferências bancárias, seguros, cartões de crédito, estoques, relatórios fiscais e uma quantidade de dinheiro que faria qualquer contador perder o sono.

Eram duas horas e dezessete da madrugada quando o telefone tocou.

— Bellacosa, temos um problema.

Do outro lado da linha, um jovem programador COBOL parecia nervoso.

— O relatório não foi enviado. O programa de geração terminou, mas o passo seguinte não executou. No spool aparece uma coisa chamada IF/THEN/ELSE. Acho que o JCL decidiu ignorar meu programa.

Acendi o abajur, empurrei para o lado uma velha revista de mistério dos anos 1950 e observei o copo de café frio sobre a mesa.

O rapaz ainda não sabia, mas havia acabado de encontrar uma das figuras mais discretas e poderosas do mundo batch.

O JCL não era apenas uma lista de programas.

Ele também podia tomar decisões.

E, em algum lugar daquele JOB, uma condição havia interrogado um Return Code, analisado as evidências e decidido que determinado passo não merecia executar.

O nome do suspeito?

IF / THEN / ELSE

Esta é a história de como o JCL aprendeu a escolher caminhos.


1. O JCL não é apenas um carregador de programas

Para um programador COBOL iniciante, o JCL costuma parecer uma espécie de porteiro do mainframe.

Ele informa:

  • qual programa será executado;

  • quais arquivos serão utilizados;

  • onde os relatórios serão gravados;

  • quais parâmetros serão enviados;

  • quais recursos o JOB precisará.

Um exemplo simples poderia ser:

//RELATOR  JOB (1234),'BELLACOSA',CLASS=A,MSGCLASS=X
//STEP01   EXEC PGM=GERAREL
//ENTRADA  DD DSN=EMPRESA.VENDAS.DIARIO,DISP=SHR
//SAIDA    DD SYSOUT=*
//SYSOUT   DD SYSOUT=*
//SYSPRINT DD SYSOUT=*

Nesse caso, o JCL solicita ao sistema que execute o programa GERAREL.

Durante algum tempo, o iniciante imagina que o JCL faz apenas isso: chama programas e associa arquivos.

Mas existe um nível mais profundo.

Um JOB pode conter vários passos:

//STEP01 EXEC PGM=VALIDA
//STEP02 EXEC PGM=ATUALIZA
//STEP03 EXEC PGM=RELATOR
//STEP04 EXEC PGM=ENVIA

Agora surge uma pergunta crítica:

todos os passos devem executar mesmo quando um dos anteriores falhar?

Naturalmente, não.

Se o programa de validação descobrir que o arquivo de entrada está inválido, não faz sentido atualizar o banco de dados.

Se a atualização não for concluída, não é seguro gerar um relatório afirmando que tudo terminou corretamente.

Se o relatório não existir, não há motivo para tentar enviá-lo.

Foi para controlar decisões como essas que o JCL recebeu estruturas condicionais.


2. O que é IF/THEN/ELSE no JCL?

O IF/THEN/ELSE permite que o JOB escolha quais passos deverão executar com base no resultado de passos anteriores.

A ideia fundamental é a mesma encontrada no COBOL.

Em COBOL, podemos escrever:

IF WS-SALDO > 0
    DISPLAY 'CONTA POSITIVA'
ELSE
    DISPLAY 'CONTA SEM SALDO'
END-IF

O programa examina uma condição e escolhe uma ação.

No JCL, entretanto, a decisão é maior.

O JCL não escolhe apenas uma instrução.

Ele pode decidir se um programa inteiro será ou não executado.

Veja o exemplo básico:

//STEP01   EXEC PGM=PROGA
//TESTE01  IF (STEP01.RC = 0) THEN
//STEP02   EXEC PGM=PROGB
//         ELSE
//STEP03   EXEC PGM=PROGC
//         ENDIF

O fluxo é o seguinte:

  1. STEP01 executa o programa PROGA.

  2. O sistema registra o Return Code produzido por esse passo.

  3. O JCL avalia a condição STEP01.RC = 0.

  4. Se a condição for verdadeira, executa STEP02.

  5. Caso contrário, executa STEP03.

  6. Ao encontrar ENDIF, o fluxo condicional termina.

Visualmente:

                 STEP01
                   |
          STEP01.RC é igual a 0?
              /             \
           SIM               NÃO
            |                  |
         STEP02             STEP03
            \                  /
                 CONTINUA

É uma bifurcação na estrada do batch.

Um caminho será percorrido.

O outro ficará registrado no spool como um passo não executado por causa da lógica condicional.


3. O Return Code: a testemunha principal

O coração dessa história não é o IF.

É o Return Code.

O Return Code, geralmente abreviado como RC, é um valor devolvido por um programa ao terminar.

Ele comunica ao sistema o resultado da execução.

Uma convenção comum é:

Return CodeSignificado habitual
0Processamento concluído com sucesso
4Sucesso com advertência
8Erro de processamento
12Erro grave
16Falha severa

Mas existe uma regra fundamental:

O significado do Return Code pertence ao programa ou ao utilitário que o produziu.

Não existe uma lei universal determinando que RC=4 seja sempre aceitável ou que RC=8 represente exatamente o mesmo erro em todos os programas.

No IDCAMS, no DFSORT, em programas COBOL internos ou em produtos de terceiros, os significados podem variar.

Por isso, o programador deve conhecer o contrato de retorno do programa executado.

Imagine um programa de validação de clientes:

RC=0   Todos os registros são válidos
RC=4   Existem registros com advertências
RC=8   Existem registros rejeitados
RC=12  O arquivo não pôde ser processado

Nesse caso, talvez seja permitido continuar com RC=4.

A condição poderia ser:

//CHKVALID IF (STEP01.RC <= 4) THEN
//STEP02   EXEC PGM=ATUALIZA
//         ELSE
//STEPERRO EXEC PGM=TRATAERR
//         ENDIF

Agora o JOB aceita retorno zero ou quatro.

Isso demonstra por que o teste simplista RC = 0 nem sempre é suficiente.


4. Como um programa COBOL define o Return Code?

Em COBOL, o programa pode atribuir um valor ao registrador especial RETURN-CODE.

Exemplo:

       IDENTIFICATION DIVISION.
       PROGRAM-ID. VALIDA01.

       DATA DIVISION.
       WORKING-STORAGE SECTION.

       01  WS-QTD-ERROS       PIC 9(05) VALUE ZERO.

       PROCEDURE DIVISION.

           PERFORM PROCESSAR-ARQUIVO

           IF WS-QTD-ERROS = ZERO
               MOVE 0 TO RETURN-CODE
           ELSE
               MOVE 8 TO RETURN-CODE
           END-IF

           GOBACK.

Quando o programa termina com:

MOVE 0 TO RETURN-CODE

o passo pode aparecer no spool com retorno zero.

Quando termina com:

MOVE 8 TO RETURN-CODE

o JCL poderá testar esse valor em um passo posterior.

Essa comunicação é extremamente importante.

O programa COBOL conhece o resultado funcional do processamento.

O JCL conhece o fluxo completo do JOB.

O Return Code é a ponte entre os dois.

É como se o programa deixasse um bilhete sobre a mesa:

“Terminei. Este é o estado do caso.”

O JCL lê o bilhete e decide o que fazer.


5. A anatomia correta de uma estrutura condicional

Observe este exemplo mais completo:

//FECHAMEN JOB (ACCT),'FECHAMENTO',CLASS=A,MSGCLASS=X
//*
//VALIDA   EXEC PGM=PGMVALID
//ARQENT   DD DSN=EMPRESA.MOVIMENTO.DIA,DISP=SHR
//RELERR   DD SYSOUT=*
//*
//IFVALID  IF (VALIDA.RC <= 4) THEN
//*
//ATUALIZA EXEC PGM=PGMATU
//ARQENT   DD DSN=EMPRESA.MOVIMENTO.DIA,DISP=SHR
//CADASTRO DD DSN=EMPRESA.CLIENTES.MASTER,DISP=OLD
//*
//IFATU    IF (ATUALIZA.RC = 0) THEN
//RELATOR  EXEC PGM=PGMREL
//SAIDA    DD SYSOUT=*
//         ELSE
//ERROATU  EXEC PGM=PGMERRO
//         ENDIF
//*
//         ELSE
//ERROVAL  EXEC PGM=PGMERRO
//         ENDIF

Temos dois níveis de decisão.

Primeiro:

IF (VALIDA.RC <= 4) THEN

Se a validação for aceitável, o JOB executa ATUALIZA.

Depois:

IF (ATUALIZA.RC = 0) THEN

Se a atualização terminar com sucesso, o relatório será gerado.

Caso contrário, ERROATU será executado.

Se a validação inicial falhar, o JOB nem chega à atualização. Ele segue diretamente para ERROVAL.

Esse é um exemplo de IF aninhado.

Funciona bem, mas exige disciplina.

Quanto mais níveis de aninhamento existirem, mais difícil será compreender o JOB.

Um JCL com sete ou oito IFs dentro de outros IFs pode se transformar em uma mansão noir cheia de corredores, portas falsas e quartos onde ninguém se lembra de ter entrado.


6. Operadores de comparação

O JCL permite comparar Return Codes de diferentes maneiras.

Igualdade

//TESTE IF (STEP01.RC = 0) THEN

Também pode ser encontrada a forma mnemônica:

//TESTE IF (STEP01.RC EQ 0) THEN

Diferente

//TESTE IF (STEP01.RC NE 0) THEN

Dependendo do ambiente e da codificação disponível, símbolos como ¬= podem aparecer, mas as formas mnemônicas são frequentemente mais claras e evitam problemas de caracteres.

Maior que

//TESTE IF (STEP01.RC GT 4) THEN

Menor que

//TESTE IF (STEP01.RC LT 8) THEN

Maior ou igual

//TESTE IF (STEP01.RC GE 8) THEN

Menor ou igual

//TESTE IF (STEP01.RC LE 4) THEN

As formas mnemônicas são:

OperadorSignificado
EQIgual
NEDiferente
GTMaior que
LTMenor que
GEMaior ou igual
LEMenor ou igual

7. Condições compostas com AND e OR

O JCL pode analisar mais de uma evidência.

Utilizando AND

//TESTE IF (STEP01.RC = 0 & STEP02.RC = 0) THEN

Ou, conforme a forma adotada:

//TESTE IF (STEP01.RC EQ 0 AND STEP02.RC EQ 0) THEN

A condição será verdadeira somente se os dois passos terminarem com retorno zero.

Exemplo prático:

  • STEP01 valida o arquivo de clientes;

  • STEP02 valida o arquivo de contratos;

  • STEP03 executa apenas quando os dois arquivos são válidos.

//IFOK     IF (STEP01.RC EQ 0 AND STEP02.RC EQ 0) THEN
//STEP03   EXEC PGM=ATUALIZA
//         ENDIF

Utilizando OR

//IFERRO   IF (STEP01.RC GE 8 OR STEP02.RC GE 8) THEN
//TRATAERR EXEC PGM=ERROGER
//         ENDIF

Aqui, o tratamento será executado se qualquer um dos passos retornar oito ou mais.

A importância dos parênteses

Em condições complexas, use parênteses para deixar a intenção visível:

//TESTE IF ((STEP01.RC LE 4) AND
//          (STEP02.RC EQ 0)) THEN

O JOB não é lugar para jogos de adivinhação.

Um programador pode compreender uma expressão hoje e esquecê-la seis meses depois. Um colega chamado às três da madrugada terá ainda menos paciência.

Escreva para a manutenção, não apenas para o interpretador.


8. RC não é a mesma coisa que ABEND

Essa é uma das distinções mais importantes para um iniciante.

Um Return Code significa que o programa chegou a uma conclusão normal e devolveu um resultado.

Um ABEND significa que ocorreu uma terminação anormal.

Exemplos de ABEND:

S0C7
S0C4
S806
U4038

Um S0C7, por exemplo, frequentemente está relacionado a uma operação numérica inválida, como tentar tratar conteúdo não numérico como número.

Um S806 pode indicar que o programa não foi encontrado em uma biblioteca de carga acessível.

Nesses casos, não estamos simplesmente diante de um RC=8.

O programa sofreu uma interrupção anormal.

O JCL permite testar situações de ABEND.

Exemplo:

//STEP01   EXEC PGM=PROGA
//IFABEND  IF (STEP01.ABEND) THEN
//DUMP     EXEC PGM=GERADUMP
//         ENDIF

Também é possível testar se um passo executou normalmente:

//IFNORMAL IF (STEP01.RUN AND NOT STEP01.ABEND) THEN
//STEP02   EXEC PGM=PROGB
//         ENDIF

A disponibilidade e a forma exata dos testes devem ser verificadas de acordo com os padrões do ambiente e a documentação utilizada pela instalação, mas o conceito central permanece:

  • RC trata o resultado de uma conclusão normal;

  • ABEND trata uma terminação anormal;

  • um passo pode não executar por causa de uma condição anterior;

  • um passo não executado não deve ser confundido com um programa que executou e retornou erro.

No spool, essas diferenças contam a história real do JOB.


9. O que acontece quando não existe ELSE?

O ELSE é opcional.

Podemos escrever:

//STEP01   EXEC PGM=PROGA
//SEOK     IF (STEP01.RC EQ 0) THEN
//STEP02   EXEC PGM=PROGB
//         ENDIF

Se STEP01.RC for zero, STEP02 executará.

Caso contrário, o bloco será ignorado e o JOB continuará depois do ENDIF.

Isso é útil quando existe uma ação necessária apenas em uma situação específica.

Exemplo:

//AVISO IF (VALIDA.RC EQ 4) THEN
//EMAIL EXEC PGM=ENVIAAV
//      ENDIF

O e-mail será enviado somente quando houver advertências.


10. Vários passos dentro do THEN e do ELSE

Um erro comum é imaginar que cada bloco pode conter apenas um EXEC.

Na verdade, vários passos podem ser agrupados.

//STEP01   EXEC PGM=VALIDA
//FLUXOOK  IF (STEP01.RC LE 4) THEN
//STEP02   EXEC PGM=ATUALIZA
//STEP03   EXEC PGM=RELATOR
//STEP04   EXEC PGM=ENVIA
//         ELSE
//STEP90   EXEC PGM=LOGERRO
//STEP91   EXEC PGM=NOTIFICA
//         ENDIF

Se a validação for aceitável, três programas serão executados.

Se não for, dois programas de tratamento serão acionados.

Esse tipo de construção aparece com frequência em ambientes de produção.


11. Exemplo realista: fechamento de vendas

Considere o seguinte processo noturno:

  1. Receber arquivo de vendas.

  2. Validar estrutura.

  3. Atualizar banco de dados.

  4. Gerar relatório.

  5. Enviar relatório.

  6. Em caso de erro, registrar ocorrência e notificar o suporte.

O JCL poderia ser:

//VENDAS   JOB (FIN),'FECHAMENTO',CLASS=A,MSGCLASS=X
//*
//VALIDA   EXEC PGM=VALVEND
//ARQVEN   DD DSN=LOJA.VENDAS.DIARIA,DISP=SHR
//RELERR   DD SYSOUT=*
//*
//IFVAL    IF (VALIDA.RC LE 4) THEN
//*
//ATUALIZA EXEC PGM=ATUVEND
//ARQVEN   DD DSN=LOJA.VENDAS.DIARIA,DISP=SHR
//BASEVEN  DD DSN=LOJA.VENDAS.MASTER,DISP=OLD
//*
//IFATU    IF (ATUALIZA.RC EQ 0) THEN
//RELATOR  EXEC PGM=RELVEND
//RELATORI DD DSN=LOJA.RELATORIO.DIARIO,
//            DISP=(NEW,CATLG,DELETE),
//            SPACE=(CYL,(5,2)),
//            DCB=(RECFM=FB,LRECL=133,BLKSIZE=0)
//*
//ENVIA    EXEC PGM=MAILBAT
//ARQMAIL  DD DSN=LOJA.RELATORIO.DIARIO,DISP=SHR
//         ELSE
//LOGATU   EXEC PGM=LOGERRO
//AVISAATU EXEC PGM=AVISOPS
//         ENDIF
//*
//         ELSE
//LOGVAL   EXEC PGM=LOGERRO
//AVISAVAL EXEC PGM=AVISOPS
//         ENDIF

Agora examine a lógica.

Cenário 1: validação retorna zero

O arquivo está correto.

O JOB entra no primeiro THEN.

Cenário 2: validação retorna quatro

O arquivo contém advertências permitidas.

Como a condição é LE 4, o processamento continua.

Cenário 3: validação retorna oito

O JOB ignora atualização, relatório e envio.

Executa LOGVAL e AVISAVAL.

Cenário 4: atualização retorna oito

A validação foi aceita, mas a atualização falhou.

O relatório e o envio não executam.

O JOB chama LOGATU e AVISAATU.

Esse desenho impede que um relatório aparentemente correto seja enviado após uma atualização malsucedida.

É assim que uma estrutura condicional protege a integridade operacional.


12. IF/THEN/ELSE versus COND

Antes da popularização das estruturas condicionais explícitas, muitos JOBs utilizavam intensamente o parâmetro COND.

Exemplo:

//STEP02 EXEC PGM=PROGB,COND=(0,NE,STEP01)

O problema é que COND trabalha com uma lógica que muitos iniciantes consideram invertida.

O parâmetro indica uma condição para ignorar o passo.

Em outras palavras, quando a condição do COND é verdadeira, o passo não executa.

Isso exige atenção.

No exemplo:

COND=(0,NE,STEP01)

a interpretação é aproximadamente:

Ignore STEP02 se o Return Code de STEP01 for diferente de zero.

Portanto, STEP02 executa apenas quando STEP01.RC é zero.

O equivalente com IF é mais legível:

//TESTE IF (STEP01.RC EQ 0) THEN
//STEP02 EXEC PGM=PROGB
//      ENDIF

Compare:

COND=(0,NE,STEP01)

com:

IF (STEP01.RC EQ 0) THEN

A segunda forma parece uma frase.

Por isso, em fluxos complexos, o IF/THEN/ELSE geralmente facilita a leitura e a manutenção.

Isso não significa que COND esteja morto.

Muitos JOBs antigos e novos ainda o utilizam.

Um profissional de mainframe precisa compreender os dois.

Mas deve evitar misturar COND e estruturas IF sem necessidade, pois a combinação pode criar comportamentos difíceis de analisar.


13. Passo a passo para investigar um JOB condicional

Quando você encontrar um JCL grande, não tente compreender tudo ao mesmo tempo.

Use o método Bellacosa de investigação batch.

Passo 1 — Localize todos os EXEC

Anote cada step:

VALIDA
ATUALIZA
RELATOR
ENVIA
LOGERRO
AVISOPS

Isso revela os atores da história.

Passo 2 — Localize todos os IF

Procure:

IF
ELSE
ENDIF

Marque o início e o fim de cada bloco.

Passo 3 — Descubra qual step está sendo testado

Exemplo:

IF (VALIDA.RC LE 4) THEN

O suspeito interrogado é VALIDA.

Passo 4 — Consulte o significado dos Return Codes

Descubra o contrato do programa.

Talvez:

0 = sucesso
4 = aviso
8 = arquivo inválido
12 = falha de abertura

Sem essa informação, a condição é apenas um número sem contexto.

Passo 5 — Desenhe o fluxo

Use papel, quadro ou editor de texto:

VALIDA
  |
RC <= 4?
 /      \
SIM      NÃO
 |        |
ATUALIZA  LOGERRO
 |
RC = 0?
 /      \
SIM      NÃO
 |        |
RELATOR  AVISOPS
ENVIA

Passo 6 — Compare com o spool

Verifique:

  • quais passos realmente executaram;

  • quais foram ignorados;

  • quais retornaram código;

  • se houve ABEND;

  • qual foi o maior Return Code do JOB;

  • se alguma condição alterou o fluxo.

O spool é a cena do crime.

Não confie apenas no que o desenvolvedor acredita que aconteceu.

Leia as evidências.


14. Erros comuns de iniciantes

Considerar qualquer valor diferente de zero como desastre

Nem sempre RC=4 representa falha.

Pode ser apenas uma advertência.

O contrato do programa deve definir isso.

Testar o step errado

IF (STEP02.RC EQ 0) THEN

não funciona como esperado se STEP02 não executou ou se a intenção era testar STEP01.

Nomes claros reduzem esse risco.

Esquecer o ENDIF

Cada estrutura precisa ser encerrada corretamente.

Em fluxos aninhados, identação e comentários ajudam muito.

Criar condições excessivamente complexas

Uma expressão com muitos AND, OR, NOT e parênteses pode funcionar, mas se tornar impossível de manter.

Às vezes, dividir o processamento em mais de um bloco é melhor.

Confundir step ignorado com erro

Um passo dentro de um ramo não escolhido pode aparecer como não executado.

Isso não significa que seu programa falhou.

Significa que o JCL decidiu não chamá-lo.

Tratar ABEND como Return Code comum

Um S0C7 não é simplesmente RC=7.

ABENDs possuem outra natureza e exigem tratamento apropriado.

Não documentar Return Codes funcionais

Um programa COBOL que retorna RC=6, RC=20 ou RC=32 sem documentação está deixando uma bomba-relógio para a equipe de produção.


15. Boas práticas para JCL de produção

Use nomes significativos

Evite:

//STEP1
//STEP2
//STEP3

Prefira:

//VALIDA
//ATUALIZA
//GERAREL
//ENVIA

O nome do step deve ajudar a contar a história do JOB.

Nomeie os blocos condicionais

//IFVALID IF (VALIDA.RC LE 4) THEN

Isso facilita localizar mensagens e interpretar o fluxo.

Comente decisões incomuns

//* RC=4 INDICA REGISTROS REJEITADOS, MAS PROCESSAMENTO PODE CONTINUAR

Um bom comentário economiza horas de investigação.

Padronize Return Codes

A equipe deve saber o que cada faixa representa.

Por exemplo:

0      Sucesso
4      Advertência
8      Erro funcional
12     Erro técnico
16+    Falha severa

Evite aninhamento profundo

Se o JOB parecer uma boneca russa de IFs, talvez seja hora de redesenhar o fluxo.

Sempre pense no tratamento de erro

Não basta impedir a execução de passos posteriores.

Pergunte:

  • quem será notificado?

  • onde o erro será registrado?

  • o arquivo será preservado?

  • será necessário restart?

  • o operador saberá qual ação tomar?

  • o scheduler interpretará o resultado corretamente?

Um bom IF não apenas impede problemas.

Ele orienta a recuperação.


16. Curiosidades do mundo batch

O JOB pode terminar “bem”, mas o negócio ter falhado

Tecnicamente, um programa pode terminar com RC=0 mesmo quando não processou nada útil.

Por exemplo, o arquivo estava vazio, mas o programa considerou isso normal.

O sistema operacional vê sucesso.

O negócio talvez veja um desastre.

Por isso, Return Codes devem representar estados relevantes para a operação.

O maior RC costuma chamar atenção

Ferramentas de operação e schedulers frequentemente analisam o maior Return Code encontrado no JOB.

Mas o comportamento exato depende das regras da instalação e da automação utilizada.

Schedulers também tomam decisões

Produtos como IBM Workload Scheduler, Control-M e outras soluções podem avaliar status de JOBs, Return Codes, dependências, horários e recursos.

Nesse cenário, existe uma cadeia de inteligência:

Programa COBOL
      ↓
Return Code
      ↓
JCL IF/THEN/ELSE
      ↓
Resultado do JOB
      ↓
Scheduler
      ↓
Próximo processamento

Um pequeno número devolvido por um programa pode impedir a execução de uma cadeia inteira de processamento corporativo.

Um RC mal definido pode custar caro

Imagine um programa que detecta inconsistência financeira, grava uma mensagem no relatório, mas termina com RC=0.

O JCL entende que tudo ocorreu corretamente.

O relatório é enviado.

O scheduler libera os próximos JOBs.

Horas depois, alguém descobre que os dados estavam errados.

O problema não foi apenas técnico.

Foi uma falha de comunicação entre programa e operação.


17. O exemplo definitivo para um Padawan COBOL

Vamos construir um fluxo simples e completo.

O objetivo é:

  1. validar um arquivo;

  2. processá-lo se estiver correto;

  3. gerar relatório se o processamento terminar bem;

  4. executar tratamento se algo falhar.

//PEDIDOS  JOB (1234),'PEDIDOS',CLASS=A,MSGCLASS=X
//*
//VALIDA   EXEC PGM=VALPED
//ARQPED   DD DSN=EMPRESA.PEDIDOS.ENTRADA,DISP=SHR
//SYSOUT   DD SYSOUT=*
//*
//IFVAL    IF (VALIDA.RC LE 4) THEN
//*
//PROCESSA EXEC PGM=PROCPED
//ARQPED   DD DSN=EMPRESA.PEDIDOS.ENTRADA,DISP=SHR
//CADPED   DD DSN=EMPRESA.PEDIDOS.MASTER,DISP=OLD
//SYSOUT   DD SYSOUT=*
//*
//IFPROC   IF (PROCESSA.RC EQ 0) THEN
//RELATOR  EXEC PGM=RELPED
//RELATORI DD SYSOUT=*
//         ELSE
//ERROPROC EXEC PGM=TRATPED
//MOTIVO   DD *
FALHA NO PROCESSAMENTO DE PEDIDOS
/*
//         ENDIF
//*
//         ELSE
//ERROVAL  EXEC PGM=TRATPED
//MOTIVO   DD *
ARQUIVO DE PEDIDOS REPROVADO NA VALIDACAO
/*
//         ENDIF

O raciocínio é:

VALIDA
  |
  +-- RC 0 ou 4?
        |
        +-- SIM → PROCESSA
        |            |
        |            +-- RC 0?
        |                  |
        |                  +-- SIM → RELATOR
        |                  |
        |                  +-- NÃO → ERROPROC
        |
        +-- NÃO → ERROVAL

O iniciante que aprende a desenhar esse fluxo já está deixando de apenas “ler JCL”.

Ele começa a pensar como alguém de produção.


18. O easter egg do velho operador

Dizem que, em um data center antigo, havia um operador chamado Moretti.

Ninguém sabia sua idade. Alguns juravam que ele já trabalhava ali quando os discos ainda pareciam máquinas de lavar.

Moretti tinha um ritual.

Sempre que um JOB terminava, ele não olhava primeiro para o programa, para o consumo de CPU ou para o horário.

Ele procurava o Return Code.

Certa madrugada, um novato perguntou:

— Por que o senhor olha primeiro para um número tão pequeno?

Moretti respondeu:

— Porque os programas falam muito nos relatórios, mas dizem a verdade no retorno.

Anos depois, quando Moretti se aposentou, encontraram um cartão perfurado em sua gaveta.

Nele havia apenas uma frase:

RC=0 NÃO SIGNIFICA QUE O UNIVERSO ESTÁ CORRETO.
SIGNIFICA APENAS QUE O PROGRAMA DISSE QUE ESTÁ.

Ninguém sabe se a história é verdadeira.

Mas todo programador mainframe deveria guardar a frase.


19. A conclusão do caso

Naquela madrugada, o jovem programador voltou ao telefone.

— Bellacosa, encontrei o problema. O primeiro programa terminou com RC=4. O IF estava testando apenas RC=0. Por isso o passo de envio não executou.

— E o que significa RC=4 nesse programa?

Houve silêncio.

Depois, ouvi o som de páginas sendo folheadas.

— Significa que o relatório foi gerado, mas alguns registros foram ignorados. Ainda é permitido enviá-lo.

— Então o erro não estava no programa.

— Estava na condição.

Exatamente.

O programa havia feito seu trabalho.

O JCL também.

O problema era que alguém havia escrito uma regra incompleta.

A condição dizia:

IF (STEP01.RC EQ 0) THEN

Mas a regra de negócio deveria aceitar zero e quatro:

IF (STEP01.RC LE 4) THEN

Uma pequena diferença.

Dois caracteres.

Uma decisão completamente diferente.

No mainframe, muitas catástrofes não começam com explosões, fumaça ou mensagens dramáticas.

Elas começam com detalhes.

Um dataset com o DISP errado.

Um campo numérico mal inicializado.

Uma biblioteca ausente no STEPLIB.

Um Return Code não documentado.

Ou um IF que pergunta a coisa errada.

O IF/THEN/ELSE transforma o JCL em algo muito maior do que uma sequência estática de comandos. Ele permite que o JOB observe resultados, escolha caminhos, evite processamentos inúteis, proteja dados, acione tratamentos e automatize decisões operacionais.

Para quem trabalha com COBOL, produção, suporte, operações ou sistemas, dominar esse recurso não é opcional.

É parte da alfabetização batch.

Quando você compreender o Return Code, começará a entender o programa.

Quando compreender o IF, começará a entender o JOB.

E quando conseguir seguir o fluxo inteiro pelo spool, examinando cada passo, cada retorno, cada desvio e cada programa ignorado...

Bem...

Nesse momento, jovem Padawan, você já não estará apenas executando JCL.

Estará investigando o mainframe.

E em uma madrugada chuvosa, quando um JOB de milhões de reais parar sem explicação aparente, talvez alguém ligue para você.

Na tela, uma única linha estará esperando:

//MISTERIO IF (STEP01.RC GT 4) THEN

O café estará frio.

A sala estará escura.

E o caso será seu.

Vagner Renato Bellacosa, IBM Champion e especialista em IBM Mainframe
IBM Z17 SYSTEM ONLINE
Sobre o autor

Vagner Renato Bellacosa

IBM Champion 2026 • Especialista em IBM Mainframe

Vagner Renato Bellacosa trabalha com IBM Mainframe desde 1988 , é IBM Champion e especialista em COBOL, CICS, Db2, z/OS e IBM Z. Compartilha experiências profissionais, conhecimento técnico, história da computação e práticas do universo mainframe para aproximar novas gerações das tecnologias que sustentam empresas, bancos e governos ao redor do mundo.

IBM Champion IBM Z COBOL CICS Db2 z/OS Mainframe desde 1988
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