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sexta-feira, 4 de junho de 2021

Cargo Cult Programming Rules: Quando um Programador COBOL Descobriu que Copiar Código na Matrix Era Como Tomar a Pílula Vermelha... Sem Entender o Que Ela Fazia

 

Bellacosa Mainframe e o cargo cult programming rules

☕ Um Café no Bellacosa Mainframe

Cargo Cult Programming Rules sem Mistérios

Quando um Programador COBOL Descobriu que Copiar Código na Matrix Era Como Tomar a Pílula Vermelha... Sem Entender o Que Ela Fazia

"Na Matrix, copiar um comando sem compreendê-lo é como repetir uma senha mágica esperando que o universo obedeça. Às vezes funciona. Quase sempre cobra um preço."


Prólogo — O Mistério da Linha que Ninguém Ousava Apagar

A Nebuchadnezzar acabara de retornar de mais uma missão.

No centro de Zion existia um enorme sistema responsável por controlar energia, comunicações e defesa.

Neo recebeu um chamado.

Apenas uma linha precisava ser alterada.

Parecia simples.

Ao abrir o código COBOL, encontrou algo curioso.

MOVE ZERO TO WS-CONTROLE.

Logo abaixo havia um comentário.

* NÃO REMOVER
* FUNCIONA ASSIM HÁ 23 ANOS

Neo perguntou:

— Morpheus, por que essa linha existe?

Morpheus respondeu:

— Ninguém sabe.

— Então por que ela continua aí?

— Porque um programador a copiou de outro programa.

Neo abriu outro módulo.

A mesma linha.

Depois outro.

Mais um.

Cinquenta programas.

A mesma instrução.

Ninguém sabia explicar.

O Oráculo apareceu silenciosamente.

— Bem-vindo ao Cargo Cult Programming.


O que é Cargo Cult Programming?

Cargo Cult Programming é um antipadrão onde desenvolvedores copiam código, configurações, comandos ou arquiteturas sem compreender por que aquilo existe ou qual problema realmente resolve.

Em outras palavras:

É repetir uma solução esperando obter o mesmo resultado, mesmo sem entender a lógica por trás dela.

É um comportamento extremamente comum.

Especialmente na era da Internet.


A verdadeira origem do termo

O nome não nasceu na computação.

Nasceu na antropologia.

Durante a Segunda Guerra Mundial, diversas ilhas do Pacífico receberam bases militares americanas.

Os aviões chegavam carregados de alimentos, remédios, roupas e equipamentos — o cargo.

Quando a guerra terminou, os militares partiram.

Os aviões deixaram de chegar.

Alguns habitantes observaram que:

  • havia pistas de pouso;

  • torres de controle;

  • soldados usando fones;

  • sinalizadores.

Sem compreender a logística, a indústria ou a tecnologia envolvidas, reconstruíram pistas de madeira, antenas de bambu e fones feitos de coco, acreditando que, ao reproduzir aqueles elementos, os aviões voltariam.

Os aviões nunca voltaram.

Eles copiaram a aparência.

Não compreenderam a causa.


Richard Feynman popularizou o conceito

Em 1974, o físico Richard Feynman, prêmio Nobel, utilizou essa história em seu famoso discurso:

Cargo Cult Science

Ele criticava pesquisas que imitavam a aparência da ciência, mas ignoravam seu método.

A Engenharia de Software adotou exatamente a mesma metáfora.


Matrix explica perfeitamente

Imagine que Neo vê Trinity digitando rapidamente.

Ela executa alguns comandos.

O sistema volta a funcionar.

Neo anota tudo.

Dias depois surge outro problema.

Sem entender absolutamente nada, ele digita exatamente os mesmos comandos.

Por sorte...

funciona.

Então conclui:

"Esse é o procedimento."

Na terceira vez...

o sistema inteiro para.

O problema nunca foi o comando.

Era o contexto.


O Cargo Cult no mundo COBOL

Esse comportamento existe desde os cartões perfurados.

Imagine um programador iniciante.

Ele encontra um programa funcionando perfeitamente.

Então pensa:

"Vou copiar este trecho."

Sem entender:

  • por que existe;

  • quais premissas ele assume;

  • quais dados espera receber;

  • quais efeitos colaterais produz.

O código passa a viver uma segunda vida.

Depois uma terceira.

Depois dezenas.


Um exemplo clássico

Imagine este trecho.

IF SQLCODE NOT = ZERO
    GO TO ERRO.
END-IF

O iniciante copia para outro programa.

Mas naquele programa:

  • SQLCODE nunca foi inicializado.

  • Não existe EXEC SQL.

  • Nem mesmo há acesso ao Db2.

O teste permanece.

Não faz sentido.

Mas ninguém percebe.


Outro exemplo

Durante anos muitos programadores copiavam:

REGION=0M

Pergunta.

Era realmente necessário?

Muitos não sabiam.

Apenas copiaram.


Mais um exemplo

Encontramos frequentemente programas contendo:

MOVE SPACES TO WS-TABELA.

Logo depois:

INITIALIZE WS-TABELA.

O segundo comando já faz o trabalho.

Mas alguém copiou de outro programa.

E assim permanece há vinte anos.


Como nasce o Cargo Cult?

Normalmente acontece em quatro etapas.

Etapa 1

Existe uma solução correta.


Etapa 2

Alguém copia.


Etapa 3

Outras pessoas copiam a cópia.


Etapa 4

Ninguém mais conhece o motivo original.


Matrix Reloaded

O Arquiteto mostra milhares de versões anteriores da Matrix.

Cada versão acumulou decisões antigas.

Algumas ainda existiam.

Mas ninguém lembrava por quê.

Isso é exatamente o que acontece em sistemas legados.


O efeito psicológico

Existe uma explicação interessante.

Nosso cérebro prefere:

imitar

antes de

compreender.

É assim que aprendemos a falar.

A andar.

A escrever.

Na programação isso também acontece.

O problema é parar na imitação.


O Programador COBOL Padawan

Todo Padawan faz isso.

E isso não é necessariamente ruim.

Copiar exemplos é uma excelente forma de aprender.

O erro começa quando:

copiar

substitui

entender.


O Agente Smith adora isso

Porque cada linha copiada sem entendimento cria:

mais complexidade.

Mais dependência.

Mais bugs.

Mais medo.


Um exemplo inspirado na Matrix

Neo encontra um procedimento.

PASSO 1

Executar JOB LIMPA01

PASSO 2

Executar SORT02

PASSO 3

Executar FIX03

Pergunta.

Por quê?

Resposta.

"Nunca perguntamos."

Esse é o verdadeiro problema.


Cargo Cult e Inteligência Artificial

Este assunto ficou ainda mais importante.

Hoje muitos desenvolvedores fazem:

Pergunta ao ChatGPT.

Recebe código.

Copia.

Compila.

Entrega.

Sem compreender.

Isso também pode ser Cargo Cult Programming.

A IA acelera muito o desenvolvimento.

Mas não substitui entendimento.

Ela entrega possibilidades.

O engenheiro decide.


Como evitar isso?

Leia antes de copiar

Entenda cada linha.


Pergunte

Por que isso existe?


Faça experimentos

Remova.

Teste.

Observe.


Leia documentação

Ela normalmente explica o motivo.


Use Debug

Ver código executando ensina mais que copiar.


Atenção!

Existe uma enorme diferença entre:

Reutilização

e

Cargo Cult.

Reutilização

Entende.

Valida.

Adapta.

Documenta.


Cargo Cult

Copia.

Compila.

Espera funcionar.


O custo invisível

Código copiado gera:

duplicação.

Bugs.

Regras inconsistentes.

Arquitetura confusa.

Dependências desnecessárias.


O Mainframe sofre com isso?

Muito.

Imagine um banco.

Existem:

4.000 programas COBOL.

Um tratamento de erro foi copiado.

Depois outro.

Depois outro.

Após vinte anos.

Existem:

327 versões diferentes.

Todas parecidas.

Nenhuma igual.


Um exemplo de SQL

Encontramos frequentemente:

SELECT *

Pergunta.

Era necessário?

Talvez.

Talvez não.

Mas foi copiado.


Outro exemplo

Tratamentos como:

IF WS-FLAG = "S"

Pergunta.

Por que "S"?

Ninguém sabe.

Talvez fosse:

Sim.

Seguro.

Sucesso.

Saldo.

Supervisor.

Sistema.

Ninguém documentou.


Os perigos

Segurança

Código copiado pode conter vulnerabilidades.


Performance

Soluções antigas permanecem.


Bugs

Premissas diferentes.


Arquitetura

Perde consistência.


Manutenção

Ninguém entende.


Curiosidade

Grandes incidentes de software já ocorreram porque equipes copiaram configurações de produção para homologação — ou vice-versa — sem compreender as diferenças de ambiente.


O papel da documentação

Documentação explica:

o quê

e principalmente:

por quê.

Sem esse "por quê", o próximo programador pode transformar uma boa prática em um ritual vazio.


O papel do mentor

Um bom mentor nunca responde apenas:

"Faça assim."

Ele responde:

"Faça assim porque..."

Essa segunda parte é a que forma arquitetos.


Matrix e a Pílula Vermelha

Tomar a pílula vermelha não era repetir um ritual.

Era compreender a realidade.

Na Engenharia de Software acontece igual.

Copiar código é a pílula azul.

Entender arquitetura é a vermelha.


Curiosidades

Empresas maduras incentivam:

  • Code Review.

  • Pair Programming.

  • Arquitetura documentada.

  • ADRs.

  • Design Reviews.

  • Sessões técnicas.

O objetivo é justamente reduzir Cargo Cult.


Aplicabilidade

Esse antipadrão aparece em:

  • COBOL.

  • Java.

  • Python.

  • C.

  • C++.

  • JavaScript.

  • SQL.

  • Kubernetes.

  • Docker.

  • Terraform.

  • Cloud.

  • DevOps.

Nenhuma linguagem escapa.


Erros clássicos

  • Copiar código do Stack Overflow sem análise.

  • Copiar parâmetros de compilação sem conhecer seus efeitos.

  • Duplicar JCLs sem revisar DDNAMEs.

  • Repetir SQL sem avaliar índices.

  • Usar frameworks apenas porque "todo mundo usa".

  • Copiar prompts de IA sem verificar o resultado.


Boas práticas

  • Entenda antes de reutilizar.

  • Faça perguntas constantemente.

  • Documente decisões importantes.

  • Prefira bibliotecas reutilizáveis a copiar blocos inteiros.

  • Escreva testes que validem o comportamento.

  • Revise código em equipe.


O ensinamento do Oráculo

O Oráculo entrega um pequeno espelho para Neo.

Ele olha.

Não vê código.

Vê perguntas.

"Por que essa linha existe?"

"Quem escreveu isso?"

"Qual problema ela resolve?"

"Ainda faz sentido?"

Essas quatro perguntas eliminam metade do Cargo Cult existente em qualquer empresa.


Lições para um Programador COBOL Padawan

Durante sua carreira você encontrará programas escritos há trinta ou quarenta anos. Muitos conterão soluções brilhantes. Outros carregarão decisões que fizeram sentido em um hardware específico, em uma versão antiga do compilador ou diante de uma regra de negócio que já não existe.

Não assuma que tudo deve ser preservado nem que tudo deve ser removido. Investigue. Leia os comentários, converse com especialistas, depure o código, consulte a documentação e compreenda o contexto.

Quando utilizar exemplos da Internet, de colegas ou até de uma Inteligência Artificial, faça o mesmo. O objetivo não é apenas produzir código que compile, mas construir soluções que você consiga explicar para outra pessoa.


Conclusão — O Código Não é Magia, É Conhecimento

No final da trilogia Matrix, Neo percebe que a realidade não é governada por feitiços, mas por regras que podem ser compreendidas.

Na Engenharia de Software, o Cargo Cult Programming nasce quando tratamos código como se fosse um feitiço:

"Copie esta função."

"Cole este comando."

"Use esse parâmetro."

"Nunca remova essa linha."

Sem compreender os motivos.

Para um Programador COBOL, essa armadilha é especialmente perigosa. Sistemas legados concentram décadas de conhecimento de negócio, integrações complexas e otimizações específicas. Copiar trechos sem entender seu propósito pode introduzir erros silenciosos, aumentar a dívida técnica e dificultar futuras manutenções.

No universo Bellacosa Mainframe existe uma máxima que todo Padawan deveria levar consigo:

"Um código copiado resolve um problema por alguns minutos. Um código compreendido resolve problemas por toda a carreira."

E essa é a verdadeira diferença entre alguém que apenas sobrevive dentro da Matrix e alguém que realmente aprende a enxergar o código que existe por trás dela.

segunda-feira, 7 de dezembro de 2020

Os Rankings das Linguagens : Quando um Programador Descobre que o GitHub Não Enxerga o Mainframe... e Percebe que a Economia Mundial Funciona Graças ao Lado Invisível da Computação

Bellacosa Mainframe e os rankings das linguagens de programaçao mito ou realidade


☕ Um Café no Bellacosa Mainframe

Os Rankings das Linguagens sem Mistérios para Programadores COBOL

Quando um Programador Descobre que o GitHub Não Enxerga o Mainframe... e Percebe que a Economia Mundial Funciona Graças ao Lado Invisível da Computação

"Gentlemen, you can't fight in here! This is the War Room!"
— Dr. Strangelove (1964)

Imagine a cena.

Você acaba de entrar na famosa Sala de Guerra do Pentágono.

No centro da mesa existe um enorme painel luminoso mostrando o ranking mundial das linguagens de programação.

Python em primeiro.

C em segundo.

C++ em terceiro.

Java logo atrás.

JavaScript subindo.

Rust fazendo propaganda de si mesmo.

Enquanto isso...

Lá no canto inferior da tela...

COBOL aparece discretamente na posição 19.

Os jovens desenvolvedores olham para a tela e concluem:

"Pronto. Está morto."

Nesse momento, um general entra correndo na sala.

— Senhor!

— Sim?

— O sistema que processa a folha salarial das Forças Armadas parou.

— Em que linguagem ele foi escrito?

Silêncio.

Outro oficial responde:

— COBOL.

Cinco segundos depois...

Todos na sala percebem que talvez aquele ranking não estivesse contando exatamente toda a história.

E é exatamente sobre isso que vamos conversar hoje.

Prepare seu café.

Hoje vamos descobrir por que popularidade não é sinônimo de importância, por que o COBOL pode ser considerado uma espécie de Matéria Escura da Computação, e por que muitos rankings enxergam apenas a superfície do iceberg tecnológico.


Capítulo 1 — O Grande Mapa-Múndi das Linguagens

Todo ano surgem dezenas de rankings.

TIOBE.

RedMonk.

GitHub Octoverse.

Stack Overflow.

PYPL.

IEEE Spectrum.

Todos prometem responder à pergunta:

"Qual é a linguagem mais importante do mundo?"

Parece simples.

Mas existe um pequeno problema.

Nenhum deles mede exatamente a mesma coisa.

É como perguntar:

Qual é o melhor veículo?

E misturar numa mesma pesquisa:

  • quantidade de bicicletas vendidas;

  • número de aviões em operação;

  • caminhões registrados;

  • navios cargueiros;

  • foguetes lançados.

Todos são veículos.

Mas cumprem funções completamente diferentes.


Capítulo 2 — O Python é realmente o Rei?

Sim.

Mas depende da pergunta.

Python domina praticamente todos os indicadores modernos.

Por quê?

Porque está presente em:

  • Inteligência Artificial;

  • Machine Learning;

  • Ciência de Dados;

  • Automação;

  • DevOps;

  • Cloud Computing;

  • Segurança;

  • Ensino universitário.

Se milhões de estudantes aprendem Python todos os anos...

Os rankings naturalmente irão refletir isso.

Isso não é manipulação.

É estatística.


Capítulo 3 — O Primeiro Grande Erro

A maioria das pessoas interpreta rankings assim:

Popularidade = Importância

Só que isso é falso.

Vamos imaginar dois programas.

Programa A

Um aplicativo que troca a cor de um botão.

Escrito em JavaScript.

Possui:

  • 120.000 estrelas no GitHub

  • milhares de forks

  • vídeos no YouTube

  • milhares de perguntas no Stack Overflow


Programa B

Sistema nacional de aposentadorias.

Escrito em COBOL.

Possui:

  • zero estrelas;

  • zero forks;

  • zero vídeos;

  • zero repositórios públicos.

Mas movimenta bilhões todos os meses.

Qual deles é mais importante?

A resposta é óbvia.


Capítulo 4 — A Grande Pegadinha Estatística

Vamos analisar cada ranking.

GitHub Octoverse

Mede:

  • commits

  • pull requests

  • forks

  • repositórios públicos

Percebe o problema?

Quase nenhum banco publica seu Core Banking no GitHub.

Imagine o Itaú.

Imagine o Banco do Brasil.

Imagine o Bradesco.

Imagine a Caixa.

Imagine o Federal Reserve.

Imagine o Banco Central Europeu.

Agora imagine todos colocando seus programas COBOL em um repositório público.

Seria uma péssima ideia.


Capítulo 5 — Stack Overflow

Outro caso curioso.

Ele mede perguntas.

Mas pense no seguinte.

Quem pergunta mais?

Um iniciante.

Ou um profissional com trinta anos de experiência?

Normalmente o iniciante.

Logo...

Linguagens maduras geram menos perguntas.

COBOL sofre exatamente desse efeito.


Capítulo 6 — PYPL

Esse ranking mede buscas por tutoriais.

Quanto mais pessoas digitam:

How to learn Python

mais Python sobe.

Isso significa que Python seja mais importante economicamente?

Não.

Significa apenas que mais pessoas estão querendo aprender Python.


Capítulo 7 — O Caso TIOBE

Talvez seja o ranking mais famoso.

Também é um dos mais discutidos.

Ele mistura:

  • pesquisas;

  • livros;

  • documentação;

  • páginas na internet;

  • cursos.

Ou seja...

Ele mede interesse.

Não mede produção.


Capítulo 8 — IEEE Spectrum

Talvez seja o mais equilibrado.

Mistura:

  • mercado;

  • vagas;

  • pesquisas;

  • GitHub;

  • tendências.

Mesmo assim...

Continua dependendo de informações públicas.

E é aí que mora o problema.


Capítulo 9 — O Universo Invisível

Agora chegamos ao ponto principal.

Imagine um iceberg.

A parte visível representa:

  • GitHub;

  • Reddit;

  • Stack Overflow;

  • Hacker News;

  • LinkedIn;

  • Medium.

É um universo enorme.

Mas ainda é apenas a ponta.

A parte submersa contém:

  • bancos;

  • seguradoras;

  • bolsas de valores;

  • previdência;

  • governo;

  • defesa;

  • companhias aéreas;

  • telecomunicações;

  • energia.

É aqui que vivem linguagens como:

  • COBOL;

  • PL/I;

  • Natural;

  • RPG;

  • Assembly;

  • MUMPS.

Esse mundo raramente aparece nos rankings.


Easter Egg nº 1

No filme Dr. Strangelove, o mundo quase acaba porque diferentes pessoas possuem apenas uma parte da informação.

Na computação acontece algo semelhante.

O desenvolvedor Front-End conhece React.

O arquiteto conhece Java.

O DBA conhece Db2.

O Sysprog conhece z/OS.

O operador conhece JES2.

Mas pouquíssimas pessoas enxergam o sistema inteiro.


Capítulo 10 — O Conceito de Deep Language

Não existe uma definição acadêmica oficial para "Deep Language", mas a expressão ajuda a visualizar um fenômeno real.

Podemos pensar em linguagens "profundas" como aquelas que:

  • sustentam sistemas críticos;

  • vivem em ambientes fechados;

  • são pouco visíveis ao público;

  • possuem décadas de evolução;

  • armazenam regras de negócio acumuladas ao longo do tempo.

São linguagens que operam nas camadas mais profundas da infraestrutura digital.


Capítulo 11 — O Cofre Invisível

Imagine um enorme cofre.

Dentro dele existem:

  • cinquenta milhões de linhas COBOL;

  • vinte milhões PL/I;

  • milhares de programas Assembly;

  • regras bancárias acumuladas durante cinquenta anos.

Nenhum mecanismo de busca consegue enxergar isso.

Nenhum ranking consegue contar essas linhas.

É literalmente um universo invisível.


Curiosidade Bellacosa

Muitos sistemas corporativos nem sequer usam Git.

Você encontrará ferramentas como:

  • Endevor;

  • ISPW;

  • ChangeMan;

  • Panvalet;

  • Librarian.

Ou seja...

Mesmo que você fosse contar commits...

Eles simplesmente não existem no GitHub.


Capítulo 12 — O Peso Econômico

Uma linha COBOL vale o mesmo que uma linha JavaScript?

Claro que não.

Imagine:

if (button == red)

Agora compare com:

CALCULAR-JUROS-COMPOSTOS
VALIDAR-LIMITE-CREDITO
PROCESSAR-PAGAMENTO
AUTORIZAR-PIX

As consequências de um erro são completamente diferentes.


Easter Egg nº 2

No universo de Dr. Strangelove existe a famosa "Máquina do Juízo Final".

No mundo financeiro também existe uma espécie de máquina invisível.

Ela não lança bombas.

Ela lança:

  • salários;

  • aposentadorias;

  • dividendos;

  • seguros;

  • financiamentos.

E boa parte dessa máquina ainda conversa fluentemente em COBOL.


Capítulo 13 — O Iceberg Tecnológico

Visualize:

              PYTHON
            JAVASCRIPT
               JAVA
             TYPESCRIPT
             GO
             RUST
------------------------------
          COBOL
          PL/I
         NATURAL
            RPG
        ASSEMBLY

A parte superior muda rapidamente.

A inferior muda lentamente.

E justamente por isso continua funcionando há décadas.


Capítulo 14 — O Paradoxo da Invisibilidade

Existe um fenômeno curioso.

Quanto mais crítico um sistema...

Menos as pessoas falam dele.

Você nunca vê manchetes dizendo:

"Sistema bancário processou corretamente mais 40 bilhões de transações hoje."

Porque isso é o esperado.

As notícias aparecem apenas quando algo falha.

O silêncio operacional é um dos maiores indicadores de sucesso em ambientes críticos.


Capítulo 15 — Como Interpretar um Ranking Corretamente

Sempre faça quatro perguntas:

1. O que está sendo medido?

Commits?

Pesquisas?

Cursos?

Perguntas?

Livros?


2. Quem ficou de fora?

Empresas privadas?

Governos?

Mainframes?

Sistemas militares?


3. O que não pode ser divulgado?

Arquiteturas bancárias.

Código-fonte.

Volumes de transações.

Regras internas.


4. Qual o objetivo?

Aprender?

Contratar?

Investir?

Escolher uma linguagem?

Ou entender a infraestrutura mundial?

Cada objetivo exige uma interpretação diferente.


Dicas para o Programador COBOL Iniciante

Se você está começando agora, não caia em dois extremos.

O primeiro é acreditar que "só existe COBOL". O segundo é imaginar que "COBOL morreu porque aparece em 19º lugar". A realidade é muito mais interessante.

Algumas recomendações práticas:

  1. Aprenda COBOL profundamente, entendendo arquivos VSAM, Db2, JCL e CICS. É isso que transforma um iniciante em alguém capaz de navegar em sistemas corporativos reais.

  2. Estude também linguagens modernas, como Python ou Java. Elas são excelentes para automação, testes, integração e APIs. Hoje, muitos projetos conectam aplicações modernas a sistemas COBOL por meio de REST, mensageria e microsserviços.

  3. Aprenda a interpretar métricas. Um gráfico bonito não substitui o entendimento de como ele foi construído.

  4. Entenda o negócio, não apenas a sintaxe. Em bancos, seguradoras e órgãos públicos, as regras de negócio costumam valer mais do que a escolha da linguagem.


Curiosidade Histórica

Nos anos 1960 e 1970, praticamente ninguém se preocupava com "rankings de linguagens". A preocupação era outra:

  • o programa compila?

  • processa corretamente?

  • entrega a folha de pagamento?

  • fecha o balanço do banco?

  • a fita magnética pode ser lida amanhã?

Décadas depois, muitos desses programas continuam executando suas funções com impressionante confiabilidade.


Conclusão — Aprendendo a Amar o Iceberg

No final de Dr. Strangelove, a obsessão por indicadores, estratégias e cálculos leva os personagens a perderem a visão do todo.

Com os rankings de linguagens pode acontecer algo parecido.

É fácil olhar para uma tabela e concluir que uma linguagem "venceu" e outra "morreu". Mas tabelas contam apenas a parte visível da história. Elas mostram onde há mais repositórios públicos, mais buscas, mais cursos e mais conversas.

O que elas não mostram é o universo silencioso que sustenta bancos, governos, seguradoras, bolsas de valores e grandes empresas.

O COBOL raramente aparece nas manchetes porque sua missão nunca foi ser popular. Sua missão foi — e continua sendo — manter sistemas críticos funcionando de forma previsível, dia após dia, ano após ano.

Talvez essa seja a maior lição para um futuro Mestre Jedi do Mainframe: não confunda visibilidade com relevância. As tecnologias mais importantes nem sempre são as que fazem mais barulho. Muitas vezes, são justamente aquelas que trabalham em silêncio, escondidas nas profundezas do iceberg digital, onde cada linha de código carrega décadas de conhecimento, bilhões de transações e a confiança de toda uma economia.

No fim das contas, os rankings nos dizem muito sobre o entusiasmo do mercado. Já os mainframes nos lembram de algo ainda mais valioso: quando o assunto é infraestrutura crítica, a verdadeira grandeza costuma estar escondida nas camadas que quase ninguém vê — mas das quais praticamente todo o mundo depende.

 

Vagner Renato Bellacosa, IBM Champion e especialista em IBM Mainframe
IBM Z17 SYSTEM ONLINE
Sobre o autor

Vagner Renato Bellacosa

IBM Champion 2026 • Especialista em IBM Mainframe

Vagner Renato Bellacosa trabalha com IBM Mainframe desde 1988 , é IBM Champion e especialista em COBOL, CICS, Db2, z/OS e IBM Z. Compartilha experiências profissionais, conhecimento técnico, história da computação e práticas do universo mainframe para aproximar novas gerações das tecnologias que sustentam empresas, bancos e governos ao redor do mundo.

IBM Champion IBM Z COBOL CICS Db2 z/OS Mainframe desde 1988
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