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quarta-feira, 23 de setembro de 2026

🐷 A FÁBULA DOS PORCOS ASSADOS NO MAINFRAME

 

Bellacosa Mainframe entre porcos e computadores visoes do sistema legado

☕ Um Café no Bellacosa Mainframe

🐷 A FÁBULA DOS PORCOS ASSADOS NO MAINFRAME

Ou: como uma empresa construiu 47 subsistemas, 312 jobs, 18 filas de MQ e uma War Room para continuar incendiando a floresta

Era uma vez uma enorme empresa que possuía um mainframe.

Ninguém sabia exatamente quando o primeiro programa havia entrado em produção.

Alguns diziam 1974.

Outros juravam ter encontrado um comentário COBOL contendo:

* ALTERADO EM 12/08/1969 - J.SILVA

Mas ninguém tinha coragem de investigar aquilo profundamente.

O importante era que o mainframe funcionava.

E dentro daquele mainframe existia o mais importante sistema corporativo da empresa:


🐷 O SISTEMA DE ASSAR PORCOS

A história começara décadas antes.

Certo dia, um incêndio acidental atingiu uma floresta próxima ao Data Center.

Havia porcos na floresta.

Quando o incêndio terminou, descobriram que os porcos haviam sido assados.

E estavam deliciosos.

Um programador teve então uma ideia:

— Quando precisarmos de porcos assados, podemos incendiar outra floresta.

Funcionou.

Foi criado o primeiro procedimento operacional:

PROC-PORCO-001 — Procedimento para Incêndio Controlado de Floresta para Produção de Porcos Assados.

Durante algum tempo, tudo correu maravilhosamente.

Quando alguém queria porco assado:

  1. colocavam os porcos na floresta;

  2. incendiavam a floresta;

  3. esperavam;

  4. recolhiam os porcos;

  5. serviam o jantar.

Era simples.

Até a empresa crescer.



🖥️ A INDUSTRIALIZAÇÃO DO PORCO

O número de clientes aumentou.

Agora não eram dez porcos.

Eram dez mil.

Foi necessário automatizar o processo.

Um programador COBOL escreveu:

PORC001

Outro criou:

PORC002

Depois vieram:

PORC003

PORC003A

PORC003B

PORC003B2

e finalmente:

PORC003B2N

Ninguém sabia onde estava PORC003B1.

Mas havia referências a ele em três copybooks.

Por segurança, ninguém mexia.

O processo passou a ser executado pelo JES2.

Às 22:00:

JOB PORCO01

selecionava os animais.

Às 22:30:

JOB FLOREST1

identificava uma floresta disponível.

Às 23:00:

JOB FIRE001

iniciava o incêndio.

À 01:00:

JOB ASSADO1

calculava o grau provável de cozimento.

Às 03:17, invariavelmente, alguma coisa dava errado.

Então começava a War Room.



🔥 O PRIMEIRO INCIDENTE

Certa madrugada, metade dos porcos saiu crua.

A outra metade virou carvão.

Foi declarado:

SEV1 — CRITICAL INCIDENT

Trinta e sete pessoas entraram na conferência.

— É COBOL?

— Não.

— É CICS?

— Não.

— Db2?

— Normal.

— MQ?

— Algumas filas estão crescendo.

— CPU?

— 43%.

— WLM?

— Dentro da política.

— Storage?

— Normal.

Finalmente alguém perguntou:

— E o fogo?

Silêncio.

Ninguém da reunião pertencia à equipe responsável pelo fogo.

Foi necessário abrir um chamado.

INC00473192

A equipe respondeu:

FIRE SYSTEM OPERATING AS DESIGNED.

O incidente foi encerrado como:

ROOT CAUSE UNKNOWN.



🐷 CRIA-SE A ENGENHARIA DE PORCOS

A direção decidiu que aquilo jamais poderia acontecer novamente.

Foi criado o departamento de:

Enterprise Pig Roasting Architecture — EPRA.

O departamento estabeleceu padrões.

Agora cada porco precisava possuir:

  • PIG-ID;

  • peso;

  • idade;

  • raça;

  • temperatura inicial;

  • floresta de destino;

  • horário de entrada;

  • previsão de cozimento;

  • classificação de criticidade.

Foi criado um banco Db2.

TB_PORCO
TB_FLORESTA
TB_INCENDIO
TB_ASSAMENTO
TB_TEMPERATURA
TB_PORCO_FLORESTA

Um arquiteto observou que TB_PORCO_FLORESTA possuía uma relação N:N problemática.

Foram necessárias seis reuniões.

Enquanto isso, os porcos continuavam queimando.


📊 OBSERVABILIDADE

Alguém afirmou:

— O problema é falta de observabilidade.

Todos concordaram.

Foram instalados sensores.

Dashboards.

Métricas.

Logs.

Tracing.

Alertas.

Agora era possível saber em tempo real:

PIGS_PER_SECOND

MEAN_TIME_TO_ROAST

FOREST_BURN_RATE

AVERAGE_PIG_TEMPERATURE

PIG_ERROR_RATE

CARBONIZED_PIG_PERCENTAGE

Um enorme monitor foi colocado no NOC.

Quando um porco queimava demais, uma linha ficava vermelha.

Os executivos ficaram impressionados.

— Agora temos visibilidade!

Os porcos continuavam queimando.

Mas agora isso podia ser acompanhado num dashboard.


☁️ A MODERNIZAÇÃO

Chegou então um consultor.

Depois de analisar a arquitetura durante três semanas, apresentou 186 slides.

O primeiro dizia:

DIGITAL PIG TRANSFORMATION

A conclusão era clara:

o problema estava no legado.

Era necessário modernizar.

O COBOL PORC001 foi encapsulado por uma API REST.

Agora era possível incendiar a floresta utilizando:

POST /api/v1/pigs/roast

Payload:

{
  "pigId": "0004711",
  "forest": "F023",
  "roastingLevel": "MEDIUM"
}

A API chamava z/OS Connect.

Que chamava CICS.

Que chamava COBOL.

Que gravava Db2.

Que publicava MQ.

Que finalmente executava:

INCENDIAR FLORESTA.

O CIO apresentou o projeto numa conferência:

“Transformamos nosso processo tradicional de produção de alimentos em uma plataforma API-first.”

Todos aplaudiram.

Os porcos continuavam sendo assados incendiando florestas.


☁️🐷 PORCOS NA CLOUD

Um novo estudo concluiu que o problema era outro.

A floresta estava on-premises.

Foi criado então:

Hybrid Cloud Pig Roasting Architecture.

O cadastro dos porcos foi para a cloud.

O sistema de incêndio permaneceu no mainframe.

Kafka transmitia eventos:

PIG_ENTERED_FOREST

FOREST_IGNITED

PIG_TEMPERATURE_CHANGED

PIG_ROASTED

PIG_OVERCOOKED

Um Data Lake armazenava vinte anos de telemetria de porcos queimados.

Machine Learning começou a prever quais porcos provavelmente seriam carbonizados.

A precisão chegou a 94%.

Um executivo perguntou:

— E conseguimos evitar que eles queimem?

O cientista de dados respondeu:

— Ainda não. Mas conseguimos prever com excelente precisão quais irão queimar.

O projeto recebeu um prêmio de inovação.


🤖 CHEGA A INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL

Em 2026 surgiu a grande esperança.

IA Generativa.

Foi criado:

PigGPT Enterprise Edition.

A IA recebeu documentação, runbooks, logs, dumps, métricas SMF e quarenta anos de incidentes.

Perguntaram:

— Como melhorar o sistema de assar porcos?

A IA respondeu:

“Talvez seja possível assar os porcos diretamente utilizando uma fonte controlada de calor, sem incendiar uma floresta inteira.”

A resposta foi classificada como:

LOW CONFIDENCE / REQUIRES HUMAN VALIDATION

Um comitê de governança de IA foi convocado.

Após oito reuniões decidiu-se que a sugestão representava risco arquitetural porque não respeitava o processo corporativo estabelecido.


👨‍💻 JOÃO BOM-SENSO ENTRA NO CPD

Foi então que apareceu João.

João era programador COBOL.

Não era Distinguished Engineer.

Não era Enterprise Architect.

Não possuía certificação em transformação digital de porcos.

Ele estava apenas acompanhando um incidente.

Olhou os diagramas.

Olhou os jobs.

Olhou os dashboards.

Olhou os milhares de linhas COBOL.

Olhou Kafka.

Olhou MQ.

Olhou Kubernetes.

Olhou o Data Lake.

Depois perguntou:

— Por que vocês incendeiam uma floresta inteira?

A sala ficou silenciosa.

Um arquiteto respondeu:

— Para assar os porcos.

— Sim. Mas por que não fazemos uma pequena fogueira e colocamos o porco sobre ela?

Silêncio.

Alguém desligou o microfone.

Outro escreveu no chat privado:

“Quem convidou esse cara?”


🧪 A PROVA DE CONCEITO

João pegou um porco.

Algumas brasas.

Uma grelha.

Esperou.

O porco ficou perfeitamente assado.

Nenhuma floresta foi incendiada.

Nenhum batch foi executado.

Nenhuma mensagem MQ.

Nenhuma chamada REST.

Nenhum evento Kafka.

Nenhum Data Lake.

Nenhum SEV1.

Custo operacional:

quase zero.

O resultado foi apresentado à direção.

Por alguns segundos João acreditou que seria promovido.

Então começaram as perguntas.

— E o departamento de Engenharia de Incêndios?

— Não precisaria mais existir dessa forma.

— E nossos especialistas certificados em Propagação Florestal?

— Também não.

— E os 312 jobs?

— Poderíamos desativá-los.

— E nosso contrato de observabilidade?

— Grande parte deixaria de ser necessária.

— E o Data Lake?

— Continuaria existindo para outras coisas.

— E os vinte anos de dados históricos de incêndios?

— Seriam históricos.

— E nossa API?

— Provavelmente desnecessária para isso.

— E Kafka?

— Para assar um porco?

João começou a perceber o problema.

Ele não estava propondo apenas uma grelha.

Estava propondo destruir um ecossistema.


🏢 O SISTEMA NÃO ERA MAIS O SISTEMA

Durante cinquenta anos a empresa construíra organizações inteiras ao redor do método de incendiar florestas.

Existiam:

engenheiros de incêndio;

analistas de capacidade de incêndio;

DBAs especializados em tabelas de porcos;

operadores de batch;

especialistas em temperatura;

arquitetos de integração;

consultores;

auditores;

fornecedores;

contratos;

KPIs;

SLAs;

certificações;

procedimentos;

comitês;

diretorias.

O objetivo original havia sido:

assar porcos.

Mas lentamente o objetivo transformara-se em:

operar eficientemente o Sistema Corporativo de Incêndio de Florestas.

Essa diferença parecia pequena.

Não era.

Era gigantesca.


🧠 O DIRETOR EXPLICA A REALIDADE

O diretor chamou João.

— Sua ideia é interessante.

João sorriu.

— Obrigado.

— Mas você não compreende toda a complexidade.

João parou de sorrir.

O diretor mostrou o organograma.

Centenas de pessoas dependiam daquele processo.

Havia contratos plurianuais.

Depreciação de ativos.

Compliance.

Auditoria.

Treinamentos.

Orçamento.

Fornecedores.

Roadmaps.

Projetos estratégicos.

— Você está olhando apenas para o problema técnico — explicou o diretor.

João respondeu:

— Eu estou olhando para o porco.

O diretor respirou fundo.

— Exatamente. Esse é o problema.


🐷 O PORCO ESQUECIDO

Naquela noite João caminhou pelo Data Center.

Passou pelos enormes computadores.

Viu os painéis.

Os dashboards.

As luzes.

Os gráficos.

Tudo extraordinariamente sofisticado.

Então percebeu algo.

A organização sabia medir praticamente tudo.

Sabia quantas árvores queimavam.

Quanto combustível utilizava.

Quanto tempo levava.

Quantos processadores consumia.

Quantas mensagens trafegavam.

Quantos incidentes aconteciam.

Quanto custava cada floresta.

Mas havia uma pergunta que quase ninguém fazia:

“Ainda precisamos fazer isso dessa maneira?”

Essa pergunta não aparecia no SMF.

Não estava no RMF.

Não aparecia no Splunk.

Não existia no Grafana.

Não estava no Jira.

Não havia campo para ela no ServiceNow.

Porque nenhum sistema de observabilidade consegue detectar sozinho que o próprio processo observado deixou de fazer sentido.


☕ EPÍLOGO — O VERDADEIRO LEGADO

E aqui está a armadilha.

Legado não é COBOL.

Legado não é mainframe.

Legado não é VSAM.

Legado não é CICS.

Um programa COBOL com cinquenta anos que executa perfeitamente uma função necessária pode ser uma extraordinária peça de engenharia.

Enquanto isso, um microsserviço escrito ontem pode nascer legado se automatizar brilhantemente uma coisa que ninguém deveria continuar fazendo.

Modernização verdadeira não significa trocar:

COBOL → Java

ou:

MAINFRAME → CLOUD

ou:

BATCH → KAFKA

A pergunta anterior é muito mais importante:

POR QUE ESTE PROCESSO EXISTE?

Depois:

QUAL PROBLEMA ELE RESOLVE?

Depois:

AINDA PRECISAMOS RESOLVÊ-LO?

E somente então:

QUAL É A MELHOR TECNOLOGIA?

Porque você pode colocar uma API REST na frente do incêndio.

Pode publicar o incêndio no Kafka.

Pode executar o controle do incêndio em containers.

Pode armazenar os incêndios num Data Lake.

Pode usar IA para prever incêndios.

Pode criar dashboards espetaculares mostrando incêndios em tempo real.

E pode chamar tudo isso de transformação digital.

Mas...

se para conseguir um simples porco assado você ainda precisa incendiar uma floresta inteira,

talvez o problema nunca tenha sido o COBOL.

Talvez o problema seja que, em algum momento dos últimos cinquenta anos,

todo mundo começou a cuidar do SISTEMA e ninguém mais perguntou pelo porco.


🥚 EASTER EGG DO OPERADOR

Dizem que até hoje, exatamente às 03:17, existe um job desconhecido no scheduler:

JOB PORK999

Ninguém sabe quem o criou.

Ele executa apenas:

IF FLORESTA-EM-CHAMAS
    DISPLAY 'MAS POR QUE?'
END-IF.

O programa possui somente um comentário:

*> J.BOM-SENSO - NAO REMOVER.

Ninguém remove.

Afinal...

é legado.

Inspirado em fabula dos porcos Juício a La Escuela Cirigliano, Forcade Tilich Editorial Editorial Humanitas – Buenos Aires, 1974

segunda-feira, 7 de setembro de 2026

Guilherme de Baskerville Entra no CPD — O Nome dos Pedreiros na Catedral de 80 Colunas

 

☕ Um Café no Bellacosa Mainframe

Guilherme de Baskerville Entra no CPD — O Nome dos Pedreiros na Catedral de 80 Colunas

Ou: como cartões perfurados, datasets de 80 bytes, COBOL, PL/I, Assembler, Natural, XML, JSON, APIs e décadas de retrocompatibilidade transformaram programas legados em catedrais construídas por gerações de artesãos quase anônimos





Prólogo — O nome estava na pedra

Guilherme de Baskerville não começou examinando o código.

Isso surpreendeu o jovem programador.

Havia milhares de linhas COBOL diante deles, algumas tão antigas que ninguém presente no CPD sabia explicar completamente sua origem. O programa havia sobrevivido a reorganizações, mudanças de hardware, novos compiladores, novas moedas, novas legislações e incontáveis projetos de modernização.

— Mestre, não deveríamos procurar primeiro a PROCEDURE DIVISION?

Guilherme aproximou-se do terminal.

No alto do fonte havia algo aparentemente banal:

*****************************************************************
* J. PEREIRA
* 17/08/1983
* ALTERADA ROTINA DE FATURAMENTO
*****************************************************************
* M. SANTOS
* 04/02/1987
* INCLUIDO NOVO TIPO DE MOVIMENTO
*****************************************************************
* R. ALMEIDA
* 22/09/1994
* ADEQUACAO NOVA REGRA MONETARIA
*****************************************************************

Continuava.

Uma tela.

Duas.

Dez.

Dezenas de nomes.

Guilherme permaneceu em silêncio.

— O que procura? — perguntou o aprendiz.

— Não procuro — respondeu ele. — Estou prestando homenagem.



1. O programa legado possui uma memória

Quando encontramos um programa COBOL, PL/I, Natural ou Assembler com décadas de existência, frequentemente encontramos também algo que os manuais tratam simplesmente como change history.

Nome ou USER-ID.

Data.

Descrição da alteração.

Três ou quatro linhas cercadas por asteriscos.

*****************************************************************
* JCARLOS
* 14/06/1988
* CORRECAO CALCULO DE JUROS
*****************************************************************

Tecnicamente, aquilo é documentação.

Mas depois de quarenta anos transforma-se em algo diferente.

É memória institucional.

Talvez ninguém saiba mais quem foi JCARLOS.

Seu USER-ID provavelmente desapareceu há décadas.

O sistema de chamados usado naquela alteração talvez nem exista.

A documentação funcional pode ter sido perdida.

O departamento pode ter mudado de nome cinco vezes.

JCARLOS pode estar aposentado.

Pode morar do outro lado do mundo.

Pode ter falecido.

Mas alguma coisa permaneceu:

* JCARLOS
* 14/06/1988
* CORRECAO CALCULO DE JUROS

O programa lembra.



2. As assinaturas dos pedreiros

Nas antigas construções europeias podemos encontrar marcas deixadas por pedreiros e artesãos.

Isso oferece uma metáfora extraordinária para software legado.

Imagine uma catedral.

Um homem trabalha numa pedra.

Ele não projetou o edifício inteiro.

Não escolheu necessariamente onde ficaria a torre.

Não decidiu a doutrina representada nos vitrais.

Seu nome provavelmente nunca aparecerá num livro de história.

Mas aquela pedra passou pelas mãos dele.

Então deixa uma marca.

Séculos depois alguém a encontra.

No mainframe fazemos algo assustadoramente parecido:

*****************************************************************
* MFERREIRA
* 11/03/1991
* INCLUIDA VALIDACAO DO MOVIMENTO 07
*****************************************************************

Não significa:

Eu construí este sistema.

Significa:

Esta pedra passou pelas minhas mãos.

E isso muda completamente nossa maneira de olhar um fonte antigo.



3. Nenhum programador construiu a catedral

Um dos grandes erros quando falamos de software é imaginar um programa como criação de uma única pessoa.

Em sistemas corporativos longevos isso frequentemente não existe.

O programa pode ter nascido assim:

1981  JOAO
      criação

Depois:

1984  MARIA
      nova modalidade

Depois:

1987  CARLOS
      novo processamento

Depois:

1994  ANA
      mudança monetária

Depois:

1999  ROBERTO
      adequação Y2K

E continua:

2004
2008
2012
2017
2020
2026

Quando chegamos ao programa em 2026, não estamos diante do trabalho de João.

Estamos diante de:

João + Maria + Carlos + Ana + Roberto + dezenas ou centenas de pessoas.

A criatura nasceu, cresceu e foi modificada.

Algumas partes desapareceram.

Outras sobreviveram.

Outras foram reconstruídas.

O programa tornou-se uma obra coletiva.

Exatamente como uma catedral que atravessou gerações.



4. Guilherme faz a primeira pergunta

O jovem programador apontou para uma rotina.

— Isto está horrível. Podemos remover?

Guilherme respondeu:

— Por que ela existe?

— Não sei.

— Então ainda não sabemos se podemos removê-la.

Essa talvez seja uma das regras mais importantes para quem começa a trabalhar com legado.

Código estranho não significa automaticamente código inútil.

Às vezes é lixo.

Às vezes é dívida técnica.

Às vezes é uma gambiarra histórica.

Mas às vezes é a última manifestação de uma regra de negócio que ninguém mais documentou.

Você encontra:

IF WS-TIPO = 7
   PERFORM 8000-TRATA-ESPECIAL
END-IF

E pensa:

Que porcaria é essa?

Procura no cabeçalho:

*****************************************************************
* MROCHA
* 18/09/1989
* CORRECAO PROCESSAMENTO MOVIMENTO TIPO 7
*****************************************************************

Agora existe uma pista.

Não temos a resposta.

Temos uma evidência.

Guilherme de Baskerville certamente aprovaria a diferença.


5. O programa também possui camadas arqueológicas

Programas legados podem carregar algo ainda mais interessante.

Eles registram a própria evolução da informática.

Imagine um sistema criado no começo dos anos 1980.

Sua primeira versão pode ter sido essencialmente:

arquivo
   |
COBOL
   |
arquivo

Depois apareceu VSAM.

Depois Db2.

Depois CICS.

Depois MQ.

Então alguém precisou conectá-lo ao mundo distribuído.

Chegaram HTML e aplicações Web.

Depois XML.

SOAP.

Java.

JSON.

REST.

APIs.

Cloud.

Containers.

Eventos.

De repente temos:

                    MOBILE
                       |
                    HTTPS
                       |
                 API GATEWAY
                       |
                     JSON
                       |
                     REST
                       |
                z/OS CONNECT
                       |
                     CICS
                       |
                     COBOL
                  /    |    \
                Db2   VSAM   MQ
                              |
                         SISTEMA CLOUD

E em algum lugar no centro dessa arquitetura ainda existe:

       PERFORM 300-CALCULAR-JUROS

escrito originalmente quando ninguém possuía um smartphone.

Frankenstein?

Talvez.

Mas existe uma interpretação mais interessante.

Estratigrafia computacional.


6. Frankenstein entra na catedral

Chamamos esses sistemas de Frankenstein porque encontramos tecnologias de épocas completamente diferentes costuradas umas às outras.

Assembler.

COBOL.

PL/I.

Natural.

JCL.

VSAM.

IMS.

Db2.

CICS.

MQ.

HTML.

XML.

SOAP.

Java.

JSON.

REST.

Cloud.

Mas uma catedral construída durante séculos também pode apresentar estilos diferentes.

Uma parte pertence a determinada época.

Outra foi reconstruída.

Uma capela apareceu posteriormente.

Um órgão foi substituído.

Um vitral é muito mais recente.

Uma restauração contemporânea introduziu outra marca.

O historiador não olha imediatamente para aquilo e diz:

Que arquitetura inconsistente!

Ele pergunta:

O que aconteceu aqui?

Essa é a diferença entre simplesmente programar e fazer arqueologia de software.


7. O astronauta na catedral

Existe um caso delicioso na Catedral Nova de Salamanca.

Durante uma restauração realizada em 1992, foi acrescentada à ornamentação uma figura de astronauta.

A catedral começou a ser construída séculos antes da exploração espacial.

Mas ali está ele.

Um astronauta na pedra.

Não é medieval.

Não tenta fingir que é.

Ele registra a época da intervenção.

E nossos programas fazem exatamente isso.

Imagine:

*****************************************************************
* JPEREIRA
* 1983
* CRIACAO
*****************************************************************

*****************************************************************
* MROCHA
* 1995
* INTEGRACAO DB2
*****************************************************************

*****************************************************************
* CSOUZA
* 2003
* INTERFACE XML
*****************************************************************

*****************************************************************
* AFERREIRA
* 2018
* RETORNO JSON
*****************************************************************

*****************************************************************
* VBELLACOSA
* 2026
* INTEGRACAO API REST
*****************************************************************

REST é o astronauta esculpido na catedral COBOL.

Ele não precisa destruir aquilo que veio antes.

Ele demonstra que a construção chegou viva até outra época.


8. O mistério das 80 colunas

Então Guilherme encontrou outra pista.

RECFM=FB
LRECL=80

O jovem programador riu.

— Outra velharia.

Guilherme olhou para ele.

— Oitenta por quê?

Silêncio.

É exatamente aqui que muita gente conhece apenas um terço da história.

O cartão perfurado IBM que se tornou um símbolo da computação possuía 80 colunas. A própria IBM registra que o cartão de 80 colunas foi introduzido em 1928 e tornou-se extremamente disseminado no processamento de informações.

Depois olhamos para o formato tradicional do fonte COBOL:

1 - 6    Sequence Number Area
7        Indicator Area
8 - 11   Area A
12 - 72  Area B
73 - 80  Comment/Identification Area

A documentação atual da IBM ainda descreve explicitamente uma linha fonte COBOL de 80 caracteres, dividida nessas áreas.

Isso significa que aquele número aparentemente arbitrário possui ancestralidade.


9. O cartão desapareceu; sua sombra permaneceu

Essa é uma das coisas mais fascinantes da computação.

Uma limitação física pode transformar-se em convenção.

A convenção transforma-se em padrão.

O padrão influencia software.

O software cria dependências.

As dependências exigem compatibilidade.

Décadas depois a causa física desapareceu, mas seus descendentes permanecem.

Podemos representar assim:

CARTAO PERFURADO
       |
       v
  80 COLUNAS
       |
       v
FORMATO DE FONTE
       |
       v
 FERRAMENTAS
       |
       v
 DATASETS
       |
       v
 COMPATIBILIDADE
       |
       v
     2026

Inclusive documentação atual de ferramentas IBM continua reconhecendo áreas de numeração nas colunas 1–6 e 73–80 para fontes COBOL.

O cartão morreu.

A geometria sobreviveu.


10. O dataset de 80 bytes é uma rua romana

Imagine caminhar por uma cidade europeia.

Existe uma rua estranhamente curva.

Para um urbanista moderno, aquela curva parece irracional.

Até alguém explicar:

A estrada romana passava aqui.

A cidade desapareceu.

Impérios desapareceram.

Veículos mudaram.

Mas a rua continuou obedecendo a uma decisão tomada dois mil anos antes.

No mainframe:

LRECL=80

pode desempenhar papel semelhante.

Não significa que todo dataset de 80 bytes exista porque era cartão perfurado — seria uma simplificação histórica perigosa.

Significa que 80 tornou-se um número estruturalmente importante em um ecossistema profundamente influenciado pelo cartão e pelos formatos derivados dele.

Essa nuance importa.

O arqueólogo não inventa explicações.

Ele procura evidências.


11. A retrocompatibilidade é a argamassa

Agora chegamos à característica que permitiu que nossa catedral continuasse crescendo:

retrocompatibilidade.

A IBM fez algo extraordinariamente difícil ao longo da evolução do mainframe: preservar caminhos de continuidade enquanto hardware e software avançavam.

A própria IBM descreve os sistemas IBM Z atuais como descendentes diretos da linhagem System/360 e System/370 e afirma que muitas aplicações antigas puderam continuar funcionando em sistemas posteriores.

Isso não significa:

Qualquer programa de 1964 roda magicamente e sem qualquer consideração num z17 de 2026.

Seria falso.

Existem releases suportados, requisitos, PTFs, produtos, dependências, mudanças arquiteturais e processos de migração.

Por exemplo, a matriz atual do z17 estabelece explicitamente quais versões de z/OS são suportadas e quais exigem manutenção apropriada.

Retrocompatibilidade não é magia.

É engenharia.


12. A decisão caríssima de não demolir a cidade

Imagine se toda evolução tecnológica significasse:

NOVO HARDWARE
      |
      v
JOGUE FORA O SOFTWARE
      |
      v
REESCREVA TUDO

Para uma pequena aplicação talvez seja possível.

Agora imagine um banco.

Uma seguradora.

Uma companhia aérea.

Um governo.

Uma indústria.

Décadas de:

  • regras de negócio;

  • cálculos;

  • exceções;

  • layouts;

  • integrações;

  • arquivos;

  • programas;

  • transações;

  • conhecimento operacional.

A retrocompatibilidade protege algo muito maior que o executável.

Ela ajuda a preservar investimento e conhecimento acumulado.

A IBM inclusive descreve historicamente ciclos longos de hardware e caminhos de upgrade entre famílias como mecanismos de proteção do investimento e extensão da vida dos ativos.

Isso explica parte da longevidade dessas catedrais.


13. Manutenção também é construção

Existe uma injustiça profissional curiosa.

Quem cria algo novo é chamado de construtor.

Quem mantém algo antigo frequentemente é tratado como alguém que apenas “faz manutenção”.

Uma catedral demonstra o absurdo dessa distinção.

Sem manutenção:

o telhado infiltra.

A madeira apodrece.

A pedra racha.

O vitral quebra.

A torre fica instável.

Depois de séculos, não existe mais catedral.

Portanto, o restaurador também participa da construção da longevidade.

No software acontece o mesmo.

Quem resolveu o problema em 1991 ajudou o programa a chegar a 1992.

Quem resolveu Y2K ajudou-o a chegar a 2000.

Quem migrou o compilador ajudou-o a continuar.

Quem abriu uma API em 2026 talvez permita que a regra de negócio sobreviva por outra década.

Manter também é construir.


14. Modernização não precisa significar demolição

Aqui mora outra lição importante para o programador COBOL iniciante.

Modernizar não significa necessariamente:

DELETE COBOL.

Pode significar:

                APLICACAO MODERNA
                       |
                     REST
                       |
                     JSON
                       |
                  INTEGRACAO
                       |
                     CICS
                       |
                     COBOL
                       |
                      Db2

Uma parte continua.

Outra é substituída.

Uma interface nasce.

Uma rotina é refatorada.

Uma dependência desaparece.

Outra surge.

A catedral continua em funcionamento durante a reforma.

Isso é muito diferente de demolir o edifício e prometer que construiremos outro antes do próximo fechamento contábil.


15. Mas não transforme história em religião

Guilherme levantaria o dedo aqui.

Respeitar o legado não significa venerar todo código antigo.

Existe código ruim.

Existe redundância.

Existe rotina morta.

Existe tecnologia cujo custo de manutenção deixou de fazer sentido.

Existe vulnerabilidade.

Existe dívida técnica.

Existe arquitetura que precisa desaparecer.

A arqueologia serve justamente para evitar dois extremos:

Tudo antigo é lixo.

e:

Tudo antigo deve ser preservado.

O restaurador competente pergunta:

O que isto sustenta?

Por que existe?

Quem depende disso?

Qual risco existe em removê-lo?

Existe alternativa melhor?

Como provar que o comportamento continuará correto?

Só então pega o martelo.


16. O comentário pode ser a última testemunha

Agora imagine isto:

       IF WS-CODIGO = 47
          MOVE 'S' TO WS-TRATAMENTO
       END-IF

Ninguém sabe explicar.

Git?

O programa é décadas anterior à adoção de Git pela organização.

Ticket?

Desapareceu.

Documento?

Não encontrado.

Analista funcional?

Aposentou-se em 2007.

Então você sobe até o cabeçalho:

*****************************************************************
* ACOSTA
* 23/05/1993
* TRATAMENTO ESPECIAL CLIENTES CONVENIO 47
*****************************************************************

Não solucionamos o mistério.

Mas encontramos uma testemunha.

E talvez seja a última.

Por isso apagar comentários históricos indiscriminadamente durante uma “limpeza” pode equivaler a restaurar uma catedral lixando as inscrições das pedras.


17. O Frankenstein contém conhecimento

Voltemos ao nosso monstro:

Assembler
   |
COBOL
   |
CICS
   |
Db2
   |
MQ
   |
XML
   |
SOAP
   |
Java
   |
JSON
   |
REST
   |
Cloud

Parece absurdo.

Mas cada camada pode representar uma pergunta que a organização precisou responder:

Como processaremos isto?

Como armazenaremos isto?

Como permitiremos transações online?

Como integraremos sistemas?

Como falaremos com aplicações Web?

Como exporemos serviços?

Como integraremos cloud e mainframe?

O Frankenstein deixa então de ser apenas um acidente.

Transforma-se num mapa das necessidades empresariais através do tempo.


18. Easter egg — o sino toca RC=0000

Guilherme terminou sua investigação.

O JOB foi submetido.

O jovem programador observava SDSF.

Esperaram.

Então surgiu:

COND CODE 0000

— Mestre, terminou.

Guilherme sorriu.

— Não. Apenas tocou o sino.

— Sino?

— Toda catedral possui um.

E desde então o aprendiz nunca mais viu um RC=0000 da mesma maneira.


19. O dia em que a catedral fechar

Existe ainda uma cena que raramente imaginamos.

Algum dia um desses programas executará pela última vez.

Talvez depois de quarenta anos.

Talvez cinquenta.

O scheduler deixará de chamá-lo.

O dataset será arquivado.

O load module desaparecerá da biblioteca de produção.

Outro sistema assumirá sua função.

E finalmente teremos:

LAST EXECUTION
RC=0000

Nesse momento seria justo abrir o fonte uma última vez.

Subir até o início.

E ler.

*****************************************************************
* JOAO
* 1981
*****************************************************************

*****************************************************************
* MARIA
* 1985
*****************************************************************

*****************************************************************
* CARLOS
* 1992
*****************************************************************

...

*****************************************************************
* ULTIMO PROGRAMADOR
* 20XX
*****************************************************************

Talvez existam cem nomes.

Talvez duzentos.

Nenhum deles construiu sozinho aquela catedral.

Mas sem eles ela não teria chegado ao último processamento.


20. O programador iniciante precisa aprender a ler pedras

Quando você começar a trabalhar num programa legado, resista à tentação de ir imediatamente para:

PROCEDURE DIVISION.

Leia o cabeçalho.

Leia os comentários.

Observe datas.

Procure padrões.

Veja quando determinadas rotinas apareceram.

Pergunte por que existe determinado layout.

Investigue aquele LRECL=80.

Observe os copybooks.

Descubra quem produz os arquivos.

Descubra quem os consome.

Veja JCL.

Procure dependências CICS, Db2, MQ, VSAM.

Leia antes de julgar.

O primeiro dever do arqueólogo não é cavar.

É compreender o terreno.


Epílogo — O próximo nome

Antes de sair do CPD, Guilherme voltou ao início do programa.

Havia espaço para uma nova inscrição.

O jovem havia terminado sua primeira manutenção importante.

Digitou:

*****************************************************************
* NOVO PROGRAMADOR
* 07/09/2026
* ADEQUACAO DA INTERFACE PARA NOVO SERVICO
*****************************************************************

Ficou olhando.

Acima dele havia nomes de pessoas que trabalharam naquele programa antes mesmo de ele nascer.

— Estranho — disse. — Parece que meu nome não deveria estar junto dos deles.

Guilherme respondeu:

— Agora compreendeu.

— O quê?

— A catedral nunca foi deles.

O jovem esperou.

— Tampouco é sua.

E então veio a lição final:

Você apenas recebeu a chave por algum tempo.

Talvez seja essa a melhor definição de trabalhar com sistemas legados.

Não somos proprietários absolutos deles.

Somos seus guardiões temporários.

Recebemos programas construídos por pessoas que não conhecemos.

Encontramos suas assinaturas entre asteriscos.

Descobrimos decisões tomadas quando computadores, empresas e o próprio mundo eram diferentes.

Preservamos o que ainda possui valor.

Corrigimos aquilo que envelheceu.

Retiramos aquilo que se tornou perigoso.

E acrescentamos as tecnologias da nossa época.

O pedreiro deixou sua marca.

O escultor deixou sua criatura fantástica.

O restaurador deixou um astronauta.

O programador de 1983 deixou COBOL.

O de 2003 deixou XML.

O de 2026 deixou JSON e uma API.

Algum outro, no futuro, acrescentará algo cujo nome ainda nem conhecemos.

E talvez, antes de modificar o programa, ele suba algumas páginas e encontre:

*****************************************************************
* V. BELLACOSA
* 2026
* ...
*****************************************************************

Não saberá exatamente quem foi aquele homem.

Talvez procure.

Talvez não.

Mas durante alguns segundos saberá uma coisa:

outro artesão trabalhou naquela pedra antes dele.

E é isso que torna o legado tão diferente de simplesmente possuir código antigo.

O legado não é aquilo que ficou velho.

Legado é aquilo que alguém construiu bem o bastante para chegar até nós — e que nós cuidamos bem o bastante para entregar ao próximo.

Os cartões desapareceram.

As perfuradoras silenciaram.

Os terminais mudaram.

As máquinas foram substituídas.

As linguagens ganharam companheiras.

Vieram bancos relacionais, mensagens, Web, XML, JSON, APIs, cloud e IA.

Mas em algum dataset ainda encontramos:

RECFM=FB
LRECL=80

E em algum fonte ainda encontramos:

*****************************************************************
* NOME
* DATA
* O QUE FOI FEITO
*****************************************************************

São duas inscrições da mesma civilização.

Uma conta como construíamos.

A outra conta quem construiu.

E enquanto aquela catedral continuar processando transações, calculando valores, movimentando negócios e terminando suas madrugadas com:

RC=0000

o sino continuará tocando.

Para os usuários, será apenas mais um processamento concluído.

Para quem aprendeu a ler as pedras, porém, haverá ali algo muito maior:

cinquenta anos de engenheiros, analistas, operadores e programadores dizendo silenciosamente através do código:

Nós estivemos aqui.



terça-feira, 11 de agosto de 2026

O Êxodo dos COBOLzeiros: quando ganhar menos em outra carreira começa a parecer um ótimo negócio

Bellacosa Maifnrame e o exodo dos cobolzeiros

☕ Um Café no Bellacosa Mainframe

O Êxodo dos COBOLzeiros: quando ganhar menos em outra carreira começa a parecer um ótimo negócio

🔴🔵 Matrix, mainframe e o paradoxo de uma indústria que reclama da falta de especialistas enquanto torna cada vez menos atraente continuar sendo um deles

Por Vagner Bellacosa


VAGA:

30 ANOS DE EXPERIÊNCIA
COBOL
CICS
DB2
JCL
VSAM
MQ
RACF
PRODUÇÃO
SISTEMA FINANCEIRO
PLANTÃO
INCIDENTES
AUDITORIA
COMPLIANCE
DEVOPS
APIs

CONTRATO: 12 MESES
RENOVAÇÃO: INCERTA
CARREIRA: N/A
ESTABILIDADE: N/A

SALÁRIO: "A COMBINAR"

Neo olha para a tela.

Lê novamente.

Trinta anos de experiência.

COBOL.

CICS.

Db2.

JCL.

VSAM.

MQ.

RACF.

Produção.

Incidentes.

Auditoria.

Compliance.

DevOps.

APIs.

Disponibilidade.

Responsabilidade.

Conhecimento de negócio.

Contrato de doze meses.

Ele permanece alguns segundos olhando para o monitor.

Depois fecha a vaga.

Abre outra janela.

Morpheus aparece atrás dele.

— Vai para onde?

Neo olha para a tela.

— Ainda não sei.

Faz uma pausa.

E responde:

Só descobri que não preciso continuar aqui.

Silêncio.

Morpheus sorri.

Pegue seu café.

Hoje não vamos falar sobre como trazer gente para o mainframe.

Vamos falar sobre uma pergunta talvez ainda mais importante:

Por que alguns dos que já estão aqui começam a querer ir embora?


💊 Temos novamente duas pílulas

🔵 A pílula azul diz:

Existe falta de profissionais COBOL porque a tecnologia é antiga, muitos especialistas estão se aposentando e poucas pessoas entraram durante determinadas décadas.

Existe bastante verdade nisso.

Agora Morpheus levanta a outra mão.

🔴 A pílula vermelha pergunta:

E quantos profissionais que poderiam continuar simplesmente decidiram que continuar deixou de valer a pena?

Essa pergunta muda completamente o diagnóstico.

Porque talvez tenhamos passado anos discutindo apenas:

COMO COLOCAR MAIS GENTE?

quando deveríamos também perguntar:

POR QUE GENTE EXPERIENTE ESTÁ SAINDO?

São problemas diferentes.

E exigem soluções completamente diferentes.


🧓 O COBOLzeiro não nasceu sênior

Existe algo curioso quando olhamos para um profissional com trinta anos de experiência.

Parece que ele sempre esteve ali.

Como um IBM Z.

Você entra no CPD e imagina que aquilo nasceu junto com o prédio.

🤣

Mas não.

Aquele profissional precisou ser construído.

Começou sem saber.

Aprendeu COBOL.

Depois JCL.

Depois arquivos.

Depois banco de dados.

Depois CICS.

Depois produção.

Depois negócio.

Depois descobriu que produção é uma universidade que oferece cursos intensivos às três da manhã.

CURSO:
DIAGNÓSTICO DE INCIDENTES I

HORÁRIO:
03:17

INSTRUTOR:
PRODUÇÃO PARADA

MATERIAL DIDÁTICO:
SYSLOG

AVALIAÇÃO:
CEO ESPERANDO

Essa disciplina costuma formar especialistas rapidamente.


📚 Trinta anos comprimidos em “Senior Developer”

O currículo diz:

Senior Mainframe Developer.

Cinco palavras.

Atrás delas existem décadas.

Primeiro abend.

Primeira implantação.

Primeira recuperação.

Primeiro incidente crítico.

Primeira madrugada.

Primeira decisão errada.

Primeira vez que alguém disse:

“Isso nunca aconteceu antes.”

E ele descobriu que essa frase significa:

“Boa sorte.”

Tudo isso vira:

EXPERIENCE: 30 YEARS

É uma compressão extraordinária.

Mas existe um problema.

Esses trinta anos precisam continuar fazendo sentido economicamente para quem os carregou.


💰 O prêmio da complexidade

Toda profissão difícil precisa oferecer algum motivo para as pessoas continuarem nela.

Pode ser:

dinheiro,

estabilidade,

autonomia,

prestígio,

carreira,

benefícios,

aprendizado,

flexibilidade,

qualidade de vida,

propósito.

Normalmente é uma combinação.

Vamos chamar isso de:

Prêmio da Complexidade

Quanto mais difícil, arriscada, especializada ou desgastante uma atividade, maior precisa ser alguma forma de compensação.

Não necessariamente apenas salário.

Imagine:

ALTA RESPONSABILIDADE
+
ALTA ESPECIALIZAÇÃO
+
ALTA PRESSÃO
+
ALTA REGULAÇÃO
+
ALTA DISPONIBILIDADE
+
ALTO CUSTO DE FORMAÇÃO
+
ALTA CONSEQUÊNCIA DO ERRO

=

PRECISA EXISTIR ALGUMA
COMPENSAÇÃO ATRAENTE

Se ela desaparece, surge uma pergunta inevitável:

Por que continuar?


🏦 Software financeiro não é CRUD da padaria

Nada contra a padaria.

Aliás, adoro padaria.

Mas determinados sistemas financeiros carregam características particulares.

Um erro pode afetar:

milhares de clientes,

milhões de transações,

pagamentos,

cartões,

contabilidade,

investimentos,

crédito,

liquidação,

regulação,

reputação.

Portanto existe enorme quantidade de controle.

E corretamente.

Auditoria.

Segurança.

Segregação de funções.

Change management.

Homologação.

Compliance.

Arquitetura.

Gestão de risco.

Aprovações.

Revisões.

Evidências.

Nada disso existe apenas para irritar o programador.

São sistemas críticos.

Precisam de controle.

A pílula azul está correta.


🔴 Mas existe o outro lado

O profissional pode viver algo assim:

AUTONOMIA ............... ↓
BUROCRACIA .............. ↑
RESPONSABILIDADE ........ ↑
PRESSÃO ................. ↑
RISCO ................... ↑
CONTROLE ................ ↑
ESTABILIDADE ............ ↓
PRÊMIO SALARIAL ......... ↓

Então chega um momento em que ele olha para a equação e pergunta:

“Ainda vale?”

Não:

“O salário é bom?”

Essa é outra pergunta.

Ainda vale?


💵 R$ 15 mil pode ser muito e pouco ao mesmo tempo

Essa discussão exige cuidado.

Uma remuneração considerada alta em relação ao conjunto do mercado de trabalho pode ser percebida como insuficiente para determinada combinação de senioridade, especialização, pressão, risco, disponibilidade e instabilidade.

As duas coisas podem ser verdade.

O profissional não compara apenas:

MEU SALÁRIO
versus
SALÁRIO MÉDIO

Ele também compara:

MINHA REMUNERAÇÃO

versus

TUDO QUE PRECISO ENTREGAR
PARA RECEBÊ-LA

Essa segunda conta pode produzir resultados surpreendentes.


🧮 O ROI da própria carreira

Depois de décadas, o profissional começa a fazer algo que talvez não fizesse aos vinte anos.

Calcula o retorno da carreira.

ROI DA CARREIRA =

DINHEIRO
+ ESTABILIDADE
+ AUTONOMIA
+ RECONHECIMENTO
+ APRENDIZADO
+ QUALIDADE DE VIDA

-

PRESSÃO
- INCERTEZA
- TEMPO
- RESPONSABILIDADE
- ATUALIZAÇÃO
- BUROCRACIA
- PLANTÕES
- ESTRESSE

Obviamente isso não é uma equação financeira real.

É uma forma de pensar.

E então acontece algo fascinante.

Outra profissão pode pagar menos...

e apresentar ROI pessoal maior.


🚪 A porta lateral da Matrix

Imagine duas oportunidades.

Trabalho A

RENDA ............... 15
PRESSÃO .............. 9
INSTABILIDADE ........ 8
BUROCRACIA ........... 9
RESPONSABILIDADE ..... 10
AUTONOMIA ............ 3

Trabalho B

RENDA ............... 11
PRESSÃO .............. 4
INSTABILIDADE ........ 3
BUROCRACIA ........... 4
RESPONSABILIDADE ..... 6
AUTONOMIA ............ 7

Durante muito tempo imaginamos que A venceria automaticamente.

Porque:

15 > 11.

Mas seres humanos não executam apenas:

IF SALARY-A > SALARY-B
   MOVE 'A' TO CAREER.

Existe vida em volta da variável.


☕ Quanto custa sua paz?

Essa talvez seja uma das perguntas mais interessantes que aparecem depois de décadas trabalhando.

Aos vinte anos:

Quanto consigo ganhar?

Depois:

Quanto consigo crescer?

Depois:

Quanto consigo acumular?

E talvez um dia:

Quanto estão me pagando para comprar minha paz?

Essa mudança altera tudo.

Quatro mil reais adicionais podem parecer extraordinários.

Até você descobrir que eles compram:

noites,

finais de semana,

plantões,

incerteza,

reuniões,

pressão,

deslocamento,

responsabilidade,

sono.

Então talvez alguém diga:

“Prefiro ganhar menos.”

Quem olha apenas para salário responde:

— Ficou maluco?

Quem olha para a função completa talvez responda:

— Interessante.


🏃 O profissional que saiu de TI

Existe uma narrativa comum:

“Fulano abandonou tecnologia.”

Como se tivesse fracassado.

Talvez não.

Talvez Fulano tenha feito uma sofisticada realocação de capital humano.

Ele descobriu que consegue produzir renda suficiente em outra atividade com:

menos pressão,

mais previsibilidade,

mais autonomia,

menos burocracia,

mais continuidade,

mais tempo.

Economicamente pode ser perfeitamente racional.

Ele não necessariamente desistiu.

Recalculou.


🏷️ O elo mais distante

Agora retornamos ao terceirizado e ao quarteirizado.

Imagine:

CLIENTE
   ↓
CONSULTORIA
   ↓
SUBCONTRATADA
   ↓
FORNECEDOR
   ↓
PROFISSIONAL

Quanto mais distante do contratante principal, menor pode ser seu poder sobre as decisões comerciais.

Mas sua proximidade com o risco técnico pode continuar enorme.

Ele não decide:

orçamento,

fornecedor,

contrato,

estratégia,

prazo comercial,

modelo de contratação.

Mas pode ser ele quem altera:

PROGRAMA DE PAGAMENTOS

Olha a assimetria:

PODER ORGANIZACIONAL ........ BAIXO

IMPACTO POTENCIAL
DE UM ERRO .................. ALTÍSSIMO

Isso deveria despertar alguma curiosidade.


👑 Muito cacique, pouco índio

Ambientes grandes inevitavelmente possuem hierarquias.

Gerente.

Coordenador.

Arquiteto.

Segurança.

Compliance.

Auditoria.

Produto.

Scrum Master.

Project Manager.

Change Manager.

Release Manager.

Fornecedor.

Subfornecedor.

Todos podem possuir funções legítimas.

O problema aparece quando quem efetivamente altera o sistema começa a perceber:

PESSOAS DIZENDO
COMO FAZER ................. 17

PESSOAS FAZENDO ............ 3

🤣

A burocracia deixa de parecer proteção e começa a parecer atrito.

E atrito também possui custo.


🔥 Pressão sem autonomia

Essa combinação merece atenção.

Alta responsabilidade com alta autonomia pode ser estimulante.

Baixa responsabilidade com baixa autonomia pode ser confortável.

Mas:

ALTA RESPONSABILIDADE
+
BAIXA AUTONOMIA

pode ser extremamente desgastante.

Você responde pelo resultado.

Mas não controla:

prazo,

ferramenta,

processo,

arquitetura,

fornecedor,

prioridade,

ambiente.

É como ser piloto de avião enquanto quinze pessoas seguram partes diferentes do manche.

E no final perguntam:

“Por que você não pousou melhor?”


📉 O prêmio salarial costumava silenciar muita coisa

Historicamente, determinadas carreiras técnicas conseguiam compensar ambientes difíceis oferecendo remuneração suficientemente atraente.

O profissional pensava:

É complicado.

É estressante.

Tem plantão.

Tem burocracia.

Mas paga muito bem.

Esse último item resolvia bastante coisa.

Não eliminava o problema.

Comprava tolerância ao problema.

Se o prêmio relativo diminui enquanto a complexidade permanece — ou aumenta — a equação muda.

ANTES:

COMPLEXIDADE = 10
COMPENSAÇÃO = 10

ACEITÁVEL

Depois:

COMPLEXIDADE = 12
COMPENSAÇÃO = 7

HUM...

Morpheus começa a aparecer novamente.


🧓 O veterano possui uma vantagem perigosa

Ele sabe que existem outras coisas.

Já viu empresas nascerem.

Empresas morrerem.

Tecnologias aparecerem.

Tecnologias desaparecerem.

Projetos terminarem.

Chefes mudarem.

Metodologias passarem.

Consultorias trocarem.

Ele descobre uma coisa libertadora:

Nenhum projeto é eterno.

Então começa a perder o medo de sair.

Esse é um momento importante.

Porque muitas relações de trabalho são sustentadas parcialmente pela percepção:

“Não existe alternativa.”

Quando o profissional percebe que existe...

a Matrix treme um pouquinho.


♻️ E ainda existe o leilão reverso

No capítulo anterior vimos algo particularmente estranho.

O profissional passa um ano aprendendo.

Agora sabe mais.

O contrato é renovado com outro fornecedor.

E recebe proposta menor para continuar.

EXPERIÊNCIA ........ +1 ANO
CONHECIMENTO ........ +1 ANO
PRODUTIVIDADE ....... ↑

SALÁRIO ............. ↓

Ele aceita.

Talvez.

Por causa dos boletos.

Mas alguma coisa mudou.

OPEN_TO_WORK = Y

A organização comemora retenção.

Tecnicamente ele ficou.

Humanamente talvez já tenha começado a sair.


🚨 Retenção física não é retenção emocional

Essa diferença é enorme.

O profissional está sentado na cadeira.

Logo:

“Retivemos.”

Não necessariamente.

Você reteve presença.

Talvez tenha perdido pertencimento.

Ele entrega.

Cumpre horários.

Resolve chamados.

Mas parou de:

sugerir,

experimentar,

ensinar espontaneamente,

ficar dez minutos extras,

defender a organização,

pensar no longo prazo.

Não porque virou mau profissional.

Ele apenas recalibrou a relação.


🚪 “É uma porta de entrada”

E então aparece:

“Aceite um pouco menos. Pense como uma porta de entrada.”

Entrada para onde?

Essa pergunta deveria ser automática.

Existe carreira?

Existem níveis?

Existem promoções?

Existe treinamento?

Existe realocação?

Existe bench?

Existe investimento?

Existe orçamento?

Ou existe apenas:

CLIENTE
   ↓
PROJETO
   ↓
12 MESES
   ↓
???

Promessa sem mecanismo não é plano de carreira.

É possibilidade.

Possibilidades podem acontecer.

Mas não deveriam ser vendidas como garantias.


🧬 O problema da não capitalização

Uma organização pode tratar conhecimento de duas maneiras.

Modelo 1 — Capital

CONTRATA
   ↓
TREINA
   ↓
DESENVOLVE
   ↓
CERTIFICA
   ↓
PROMOVE
   ↓
RETÉM

Ela acredita:

Essa pessoa será mais valiosa daqui a cinco anos.

Modelo 2 — Capacidade

PRECISO AGORA
   ↓
CONTRATO
   ↓
UTILIZO
   ↓
PROJETO TERMINA
   ↓
LIBERO

Nenhum dos modelos é automaticamente imoral.

O problema é querer obter do Modelo 2 o comportamento emocional do Modelo 1.


❤️ “Vista a camisa”

O profissional responde:

— De qual empresa?

🤣

Essa pergunta fica especialmente divertida quando existem quatro camadas contratuais.

CLIENTE
  ↓
CONSULTORIA A
  ↓
CONSULTORIA B
  ↓
EMPRESA C
  ↓
NEO

Qual camisa?

Quem oferece carreira?

Quem oferece estabilidade?

Quem investe?

Quem recebe lealdade?

Relacionamentos humanos precisam de alguma reciprocidade.


🧠 O Memory Leak humano

Agora chegamos ao ponto central.

A indústria diz:

“Estamos com falta de profissionais COBOL.”

Então criamos:

bootcamps,

cursos,

universidades,

programas de formação,

academias,

treinamentos.

Excelente.

Precisamos disso.

Mas imagine:

ENTRADA:

100 NOVOS PROFISSIONAIS
         ↓
      SISTEMA
         ↓
SAÍDA:

30 MUDARAM DE TECNOLOGIA
20 MUDARAM DE CARREIRA
15 SE APOSENTARAM
10 SAÍRAM DO SETOR
25 CONTINUARAM

Talvez o problema não esteja apenas no INPUT.

Existe vazamento no OUTPUT.


💾 MEMORY LEAK DETECTED

Programadores conhecem esse problema.

Você continua alocando memória.

Mas não controla adequadamente o ciclo de vida.

Depois reclama:

“Onde foi parar toda a memória?”

No mercado de trabalho podemos fazer algo parecido.

ALLOCATE JUNIOR
ALLOCATE JUNIOR
ALLOCATE JUNIOR
ALLOCATE JUNIOR

FREE SENIOR
FREE SENIOR
FREE SENIOR

Depois:

ERROR:
SENIOR RESOURCE NOT AVAILABLE

🤣

Talvez não seja surpresa.


🔍 Shortage ou retention failure?

Essa distinção é fundamental.

Problema A

Não existem profissionais suficientes.

Solução:

TRAIN MORE

Problema B

Existem profissionais, mas muitos não querem continuar.

Solução:

MAKE STAYING WORTHWHILE

Se diagnosticarmos B como A, podemos passar décadas treinando gente para alimentar uma esteira que continua perdendo pessoas do outro lado.


🏚️ A casa com a porta dos fundos aberta

Imagine uma casa.

Pessoas entram pela frente.

BOOTCAMP
UNIVERSIDADE
CURSO
TREINAMENTO

Enquanto isso, atrás:

SÊNIOR
VETERANO
ESPECIALISTA

estão saindo.

A administração olha para a fila da frente:

Precisamos aumentar recrutamento!

Talvez.

Mas alguém deveria verificar a porta dos fundos.


💰 Retenção também é economia

Existe uma ironia nisso.

Reter alguém parece caro.

Aumento salarial.

Benefício.

Treinamento.

Carreira.

Flexibilidade.

Mas substituir também custa.

Recrutamento.

Onboarding.

Treinamento.

Curva de aprendizado.

Erros.

Produtividade menor.

Conhecimento perdido.

Mentoria.

Risco operacional.

Talvez:

CUSTO DE RETER
<
CUSTO DE SUBSTITUIR

Mas o primeiro aparece claramente na planilha.

O segundo está espalhado por quinze centros de custo.

E aquilo que está espalhado é muito mais fácil de ignorar.


🕯️ Conhecimento não sai sozinho

Quando um veterano vai embora, não perdemos apenas:

HEADCOUNT = -1

Podemos perder:

história,

contexto,

atalhos,

memória de incidentes,

relações,

conhecimento tácito,

capacidade de diagnóstico,

mentoria,

decisões que nunca foram documentadas.

Um profissional pode ser substituído administrativamente em quinze dias.

Sua experiência talvez leve quinze anos.


🤖 “IA vai resolver”

Talvez ajude enormemente.

IA pode:

explicar COBOL,

documentar código,

ajudar novos profissionais,

buscar conhecimento,

gerar testes,

resumir sistemas,

auxiliar modernização.

Fantástico.

Mas existe uma armadilha.

Se usarmos IA apenas para concluir:

“Agora posso pagar ainda menos porque a máquina ajuda.”

talvez estejamos repetindo exatamente o problema.

Tecnologia deveria aumentar produtividade.

A pergunta econômica continua:

Quem captura esse ganho?

A empresa?

O profissional?

O cliente?

Todos?

Se cada salto de produtividade apenas comprime a remuneração de quem permaneceu, o incentivo para permanecer continua diminuindo.


🧑‍🏫 O veterano como multiplicador

Talvez estejamos calculando errado o valor do sênior.

Ele não produz apenas aquilo que faz.

Produz aquilo que permite outros fazerem.

VETERANO
  │
  ├── resolve problemas
  ├── evita erros
  ├── ensina juniores
  ├── preserva contexto
  ├── acelera diagnóstico
  └── transmite cultura técnica

Sua produtividade real é multiplicativa.

Quando ele sai, talvez não percamos uma unidade.

Perdemos parte da eficiência de outras dez.

Boa sorte colocando isso no Excel.


🔴 A verdadeira escassez

Talvez a escassez mais perigosa não seja:

“Pouca gente sabe COBOL.”

Talvez seja:

“Pouca gente que sabe COBOL ainda acha interessante continuar fazendo COBOL nas condições oferecidas.”

Essa frase muda tudo.

Porque conhecimento pode existir.

O profissional pode existir.

A vaga pode existir.

O salário pode parecer bom.

E mesmo assim:

MATCH = FALSE

O mercado chama isso de falta de talento.

O profissional chama de:

“Não vale a pena.”


🧭 O dinheiro não precisa vencer tudo

Esse talvez seja o grande aprendizado.

Durante muito tempo algumas profissões conseguiam comprar tolerância.

O ambiente era difícil.

Mas o salário dizia:

Aguente.

Quando essa diferença diminui, outras variáveis começam a falar mais alto.

Tempo.

Família.

Sono.

Autonomia.

Continuidade.

Saúde.

Liberdade.

Projetos pessoais.

Curiosidade.

Paz.

E então ganhar menos pode realmente começar a parecer um excelente negócio.


🕶️ Wake up, Neo

Voltamos àquela vaga.

COBOL
CICS
DB2
JCL
VSAM
MQ
RACF
30 ANOS
PRODUÇÃO
PLANTÃO
COMPLIANCE
AUDITORIA
APIs
DEVOPS

CONTRATO: 12 MESES

Neo olha.

Durante trinta anos pensou:

Preciso encontrar o próximo projeto.

Desta vez surge outra pergunta:

Preciso?

Talvez possa ensinar.

Talvez possa empreender.

Talvez possa trabalhar com outra tecnologia.

Talvez possa aceitar uma atividade que pague menos.

Talvez possa transformar conhecimento em conteúdo.

Talvez possa fazer consultoria própria.

Talvez possa simplesmente escolher uma vida menos complicada.

O importante não é qual alternativa escolherá.

É perceber que existem alternativas.


🔵 A pílula azul

Mainframe continua processando alguns dos sistemas mais importantes do planeta.

COBOL continua possuindo enorme relevância em sistemas críticos.

Existem excelentes empresas.

Excelentes carreiras.

Excelentes salários.

Excelentes projetos.

Existem organizações que valorizam veteranos.

Treinam novos profissionais.

Constroem sucessão.

Investem em conhecimento.

Criam ambientes onde pessoas querem permanecer.

Não existe inevitavelmente um êxodo universal.

E transformar a discussão em “mainframe é uma carreira ruim” seria intelectualmente preguiçoso.

Não é isso.


🔴 A pílula vermelha

A tecnologia pode continuar excelente enquanto determinadas relações econômicas se tornam pouco atraentes.

Uma plataforma pode ser estratégica enquanto o profissional que a mantém se sente commodity.

Uma empresa pode reclamar da escassez enquanto contribui para a rotatividade.

Um salário pode ser alto e ainda assim não pagar adequadamente o pacote de pressão, risco e instabilidade exigido.

E uma indústria pode investir milhões formando profissionais enquanto economiza milhares de reais de maneira que incentiva veteranos a sair.

As duas realidades podem coexistir.


☕ Cambio final, Torre de Controle

Talvez estejamos fazendo a pergunta errada.

Perguntamos:

Onde encontraremos os próximos COBOLzeiros?

Boa pergunta.

Mas existe outra antes dela:

O que estamos fazendo para que os COBOLzeiros atuais queiram continuar sendo COBOLzeiros?

Porque não basta formar.

É preciso reter.

Não basta contratar.

É preciso tornar a permanência racional.

Não basta dizer:

“Você é estratégico.”

Se o contrato diz:

12 MESES

Não basta dizer:

“Seu conhecimento é crítico.”

Se a remuneração diz:

COMMODITY

Não basta dizer:

“Temos dificuldade em encontrar profissionais.”

se toda renovação pergunta:

CONSEGUE FAZER MAIS BARATO?

Em algum momento o profissional também fará sua própria concorrência.

Só que os fornecedores serão:

CARREIRA A
CARREIRA B
CONSULTORIA PRÓPRIA
ENSINO
EMPREENDER
OUTRA TECNOLOGIA
TRABALHAR MENOS
VIVER MAIS

E talvez mainframe não apresente a proposta vencedora.


Neo fecha a vaga.

Morpheus pergunta:

— Você vai aceitar ganhar menos?

Neo responde:

— Talvez.

— Isso não é um retrocesso?

Neo sorri.

— Depende daquilo que estou comprando com a diferença.

Morpheus permanece em silêncio.

Neo continua:

Talvez eu esteja comprando tempo.

Talvez esteja comprando previsibilidade.

Talvez esteja comprando autonomia.

Talvez esteja comprando paz.

Talvez eu finalmente tenha percebido que salário não é a única moeda da Matrix.

Na tela:

CAREER OPTIONS

SALARY .............. -20%
PRESSURE ............ -60%
INSTABILITY ......... -70%
BUREAUCRACY ......... -50%
AUTONOMY ............ +40%
FREE TIME ........... +50%

CONTINUE? Y/N

Neo digita:

Y

ENTER.


E talvez, meses depois, alguém abra uma reunião executiva.

Slide número 27.

Título:

MAINFRAME SKILLS SHORTAGE

Um executivo pergunta:

— Por que está tão difícil encontrar especialistas?

A sala fica em silêncio.

Alguém sugere:

— Precisamos formar mais gente.

Boa ideia.

Mais bootcamps.

Mais cursos.

Mais academias.

Mais programas de capacitação.

Mas ninguém pergunta:

Onde foram parar aqueles que já tínhamos?

Essa pergunta não estava no PowerPoint.

Talvez devesse estar.

       IDENTIFICATION DIVISION.
       PROGRAM-ID. SKILLS-SHORTAGE.

       DATA DIVISION.
       WORKING-STORAGE SECTION.

       01 WS-NEW-TALENT        PIC 9(05).
       01 WS-SENIORS-LEFT      PIC 9(05).
       01 WS-RETENTION         PIC 9(03)V99.
       01 WS-WILLINGNESS       PIC 9(03)V99.

       PROCEDURE DIVISION.

           PERFORM TRAIN-NEW-PEOPLE.

           IF WS-SENIORS-LEFT > 0
               DISPLAY
               'WARNING: CHECK THE BACK DOOR'
           END-IF.

           IF WS-WILLINGNESS < ACCEPTABLE
               DISPLAY
               'SHORTAGE MAY NOT BE
                A TRAINING PROBLEM'
           END-IF.

           DISPLAY
              'MAKE STAYING WORTHWHILE'.

           STOP RUN.

🔴🔵

Wake up, Neo.

Talvez não estejam faltando apenas COBOLzeiros.

Talvez alguns simplesmente tenham descoberto que existe vida fora da Matrix.

E quando um profissional altamente especializado percebe que pode ganhar um pouco menos em troca de muito mais continuidade, autonomia, previsibilidade e paz...

o problema deixa de ser recrutamento.

Passa a ser proposta de valor da carreira.

Porque salário não remunera apenas trabalho.

Em profissões difíceis, ele também precisa remunerar:

a vontade de continuar fazendo aquele trabalho.

E quando essa conta deixa de fechar...

não existe PROCUREMENT, BOOTCAMP, POWERPOINT ou OPEN POSITION capaz de obrigar Neo a tomar novamente a pílula azul.

☕ Cambio final, Torre de Controle.

☕ Um Café no Bellacosa Mainframe // IT JOB MARKET RADAR

Mercado de Trabalho em TI: Quando Conhecimento Vira Commodity, Poder e Risco

Cinco leituras sobre salário, memória técnica, conhecimento legado, leilão reverso de profissionais e o êxodo de especialistas COBOL. Um pequeno mapa de um mercado em que experiência vale muito — até alguém tentar transformá-la em desconto.

> ANALYZE IT_WORKFORCE
STATUS=KNOWLEDGE_CRITICAL
SALARY_PRESSURE=HIGH
LEGACY_SKILLS=SCARCE
CORPORATE_MEMORY=VOLATILE
ACTION=READ_THE_EVIDENCE
01

O Spread do Conhecimento: Matrix, COBOL e o Valor do Saber

Quando conhecimento raro deixa de ser apenas competência técnica e passa a funcionar como ativo econômico dentro das organizações.

Knowledge Economics
02

Quanto Custa um Programador? Salário, Valor e Mercado

O preço de um profissional de tecnologia não é simplesmente salário: envolve experiência, escassez, produtividade, conhecimento acumulado e risco operacional.

Salary Economics
03

DELETE USER Não Apaga Memória: O Conhecimento que Sai da Empresa

Demitir ou perder um especialista é simples no RH. Recuperar décadas de contexto operacional depois pode ser impossível.

Corporate Memory
04

O Leilão Reverso do Conhecimento

Quando empresas tentam comprar cada vez mais experiência por cada vez menos dinheiro, o mercado pode transformar contratação em um leilão reverso de conhecimento.

Reverse Auction
05

O Êxodo dos COBOLzeiros

O que acontece quando profissionais que conhecem sistemas críticos descobrem que permanecer onde estão pode valer menos do que sair?

COBOL Exodus

🧠 O problema não é COBOL. É economia do conhecimento.

Empresas costumam tratar conhecimento técnico como se fosse um recurso facilmente substituível. Entretanto, sistemas corporativos acumulam décadas de regras de negócio, exceções, interfaces, decisões históricas e conhecimento informal que raramente aparece integralmente na documentação.

Quando o profissional sai, o USERID pode ser apagado imediatamente. O contexto que ele carregava não possui um comando equivalente.

01 Pressão salarial
02 Saída do especialista
03 Perda de contexto
04 Incidente
05 Consultoria cara

📚 Leituras sobre mercado de trabalho, COBOL e conhecimento em TI

BELLACOSA MAINFRAME // KNOWLEDGE IS NOT A REPLACEABLE RESOURCE
Vagner Renato Bellacosa, IBM Champion e especialista em IBM Mainframe
IBM Z17 SYSTEM ONLINE
Sobre o autor

Vagner Renato Bellacosa

IBM Champion 2026 • Especialista em IBM Mainframe

Vagner Renato Bellacosa trabalha com IBM Mainframe desde 1988 , é IBM Champion e especialista em COBOL, CICS, Db2, z/OS e IBM Z. Compartilha experiências profissionais, conhecimento técnico, história da computação e práticas do universo mainframe para aproximar novas gerações das tecnologias que sustentam empresas, bancos e governos ao redor do mundo.

IBM Champion IBM Z COBOL CICS Db2 z/OS Mainframe desde 1988
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