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quarta-feira, 15 de dezembro de 2021

🥄 O Som dos Panelaços

 


🥄 O Som dos Panelaços

Por Vagner Bellacosa Mainframe

Havia silêncio demais em 2020.
As ruas vazias, os carros parados, o medo suspenso no ar como poeira de um mundo que de repente esqueceu de respirar.
E então, veio o som — o som metálico, áspero, ritmado: o barulho das panelas.

Era o som do homem comum.
Não o das elites, nem dos discursos;
era o som de quem perdeu o chão, o trabalho, o costume de abraçar.
De quem se trancou em casa e, pela primeira vez, percebeu o tamanho da própria solidão.
Os panelaços foram o desabafo coletivo de um país confinado, um grito dentro das janelas.

Cada bairro ecoava como uma tribo.
Em alguns, era protesto;
em outros, catarse.
Alguns batiam contra o governo;
outros batiam contra o destino.
Mas no fundo, todos batiam contra a mesma coisa:
a sensação de impotência.

Porque o homem moderno, acostumado a controlar tudo — o tempo, o corpo, o dinheiro —
descobriu que não controlava nada.
E então, restou-lhe o som.
A batida repetida de uma colher contra o metal.
Uma música primitiva, de raiva e medo, que atravessava a noite e subia pelos prédios como uma oração pagã.

As panelas eram o novo tambor tribal.
O novo Twitter das sacadas.
O eco do desespero travestido de cidadania.
Enquanto o vírus espalhava invisibilidade, o som trazia presença.
Era o “estamos vivos” de quem já não tinha o que dizer.

Houve quem chamasse de “ato político”, quem zombasse, quem ignorasse.
Mas, sob qualquer análise, aquele ruído era puro instinto social —
o barulho de um povo que ainda queria existir, ainda que à distância.
Porque o silêncio mata mais devagar que a doença, mas mata.

E, como tudo, passou.
As panelas se calaram.
Vieram as eleições, as crises, as novas pautas, os novos medos.
O som se perdeu, mas deixou rastro.
Talvez nunca mais voltemos a ouvir o país inteiro batendo panelas,
mas aquele eco — aquele som metálico de frustração e esperança —
ainda vive em cada brasileiro que, por alguns minutos,
sentiu-se parte de algo maior do que o próprio isolamento.

Os panelaços foram o retrato fiel de quem somos:
emocionais, desorganizados, passionais, ruidosos,
mas vivos — e ainda tentando se entender.

quinta-feira, 9 de dezembro de 2021

☕ Do “Curtir” ao Controle: A Metamorfose Sombria do Facebook

 

Bellacosa Mainframe e o curtir ao controle das redes sociais

☕ Do “Curtir” ao Controle: A Metamorfose Sombria do Facebook

Como a rede que prometeu conectar o mundo acabou dividindo a humanidade


🧩 Introdução — A utopia azul

Era uma ideia simples, quase inocente:
“E se pudéssemos reunir todas as pessoas do mundo em uma só rede?”

Assim nasceu o Facebook, em 2004, no dormitório de Harvard.
Um projeto universitário de um jovem introspectivo chamado Mark Zuckerberg, que queria aproximar pessoas, compartilhar memórias e criar uma nova forma de comunicação.

A ideia pegou fogo.
Em 10 anos, o mundo estava conectado — da aldeia mais remota da Ásia ao escritório mais moderno de Nova York.
Mas, como toda utopia humana, o sonho de conectar corações tropeçou na ganância de manipular mentes.


💰 1. O DNA do problema: o produto era você

Desde o início, o Facebook nasceu com um defeito ético embutido:
o usuário não era o cliente — era o produto.

A empresa precisava de uma fonte de receita.
A publicidade digital parecia inofensiva, até que se descobriu que, para vender anúncios, era preciso conhecer você — o que gosta, o que teme, o que odeia, com quem fala, o que lê, o que ignora.

Assim nasceu o capitalismo de vigilância, conceito brilhantemente descrito por Shoshana Zuboff em The Age of Surveillance Capitalism.
Segundo ela, as empresas de tecnologia começaram a coletar, prever e manipular o comportamento humano como se fosse matéria-prima industrial.

O resultado?
Cada curtida virou dado.
Cada reação, lucro.
Cada emoção, um ativo financeiro.


🧠 2. O algoritmo aprendeu o que somos — e o que tememos

O Facebook descobriu que a emoção é mais rentável que a informação.
Postagens neutras geram tédio.
Já o medo, a raiva e a indignação mantêm o dedo rolando — e o dinheiro circulando.

Então o algoritmo foi “treinado” para amplificar o que mais nos afeta.
O resultado foi um mundo emocionalmente inflamável:

  • As pessoas começaram a ver apenas o que confirma suas crenças;

  • As bolhas ideológicas se solidificaram;

  • E o diálogo foi substituído pelo embate.

Como observou o pesquisador Tristan Harris (ex-designer ético do Google):

“As redes sociais não estão competindo por seu dinheiro, mas por sua atenção — e a atenção humana é mais facilmente conquistada pelo medo.”


🏛️ 3. Da publicidade à manipulação política

Foi questão de tempo até que alguém percebesse:
se dá pra vender um tênis, dá pra vender um candidato.

Durante o Brexit (2016) e as eleições dos EUA (2016), o mundo viu o nascimento de uma nova arma: a engenharia social algorítmica.
A empresa Cambridge Analytica coletou ilegalmente dados de mais de 87 milhões de usuários para criar propagandas políticas personalizadas, explorando medos e emoções individuais.

As campanhas não convenciam — condicionavam.
O eleitor não pensava, reagia.
E, em uma ironia cruel, a rede que nasceu para unir democracias acabou corroendo a confiança nelas.


🧨 4. O pacto silencioso com o caos

O Facebook sabia.
Relatórios internos mostravam que o algoritmo estava radicalizando usuários, promovendo fake news e discursos de ódio.
Mas intervir significava reduzir engajamento — e, portanto, lucro.

Então a empresa escolheu o silêncio.
Como diria um analista da própria Meta em 2018:

“O que é tóxico para a sociedade é lucrativo para nós.”

Foi assim que o “Curtir” virou uma arma de manipulação emocional em massa.
A rede social transformou-se no maior experimento psicológico não autorizado da história.


🌍 5. O mundo fragmentado e a solidão conectada

Nunca estivemos tão conectados — e nunca fomos tão solitários.
Vivemos em um mundo digitalmente interligado, mas emocionalmente desintegrado.
As fronteiras físicas caíram, mas as ideológicas se ergueram.

Cada pessoa vive agora dentro de sua realidade personalizada, moldada por algoritmos invisíveis que decidem o que vemos, sentimos e acreditamos.
A verdade virou questão de opinião.
E a opinião virou produto.

O filósofo Byung-Chul Han define isso como a “sociedade da transparência”:

“Vivemos expostos, medidos, quantificados — e voluntariamente escravizados pelo prazer de sermos vistos.”


☕ Epílogo — O despertar digital

O Facebook não foi apenas uma empresa. Foi um espelho.
E, como todo espelho, refletiu o que somos: curiosos, carentes, ansiosos, contraditórios.

A guinada para o “lado negro da força” não foi apenas tecnológica — foi humana.
A tecnologia apenas deu escala àquilo que sempre existiu em nós:
a vaidade, o medo, o desejo de pertencer e a tentação de controlar.

A lição que fica é simples e amarga:

“A ferramenta não é má. Mas, quando a ética dorme, o algoritmo acorda.”

O desafio do século XXI não é desconectar-se,
é reaprender a usar a conexão com consciência, limite e empatia.


📚 Curiosidades Bellacosa

  • Cambridge Analytica foi fundada em 2013 e dissolvida em 2018, após o escândalo global de manipulação política.

  • Mark Zuckerberg depôs no Senado dos EUA em 2018, mas a empresa nunca perdeu relevância — apenas mudou de nome: Meta.

  • Em 2021, ex-funcionária Frances Haugen divulgou documentos internos mostrando que o Facebook sabia dos danos psicológicos do Instagram em adolescentes.

  • Estima-se que o Facebook detenha dados de mais de 3 bilhões de pessoas, mais do que qualquer governo da história humana.


🧭 Conclusão Bellacosa

O Facebook começou como uma rede de amigos.
Hoje é um espelho global das fragilidades humanas — um experimento sobre poder, emoção e controle.

A “força” sempre esteve lá, mas foi o lado humano que escolheu como usá-la.

O futuro não depende do algoritmo, mas da consciência coletiva.
E talvez, um dia, consigamos fazer da tecnologia novamente um meio de aproximar almas — não de vendê-las.

quarta-feira, 8 de dezembro de 2021

🤖 NATHAN BATEMAN E A API QUE ACHAVA QUE ERA HUMANA

 

Bellacosa Mainframe e o teste de api

☕ Um Café no Bellacosa Mainframe

🤖 NATHAN BATEMAN E A API QUE ACHAVA QUE ERA HUMANA

HTTP, REST, JSON, Postman, OpenAPI, testes positivos e negativos, OAuth, RACF, Db2, CICS, COBOL, contratos, performance, segurança, CI/CD, observabilidade — e o dia em que um programador COBOL descobriu que receber 200 OK não provava absolutamente nada.

Sob a tutela de Nathan Bateman, de Ex Machina — porque, se existe alguém capaz de olhar para uma interface aparentemente perfeita e perguntar “mas o que realmente está acontecendo atrás dela?”, é Nathan.



🎬 PRÓLOGO — BEM-VINDO À CASA, PROGRAMADOR

A porta se fecha atrás de você.

Não existe maçaneta.

À sua frente há vidro, concreto, câmeras, servidores e uma quantidade desconfortável de tecnologia escondida nas paredes.

Nathan coloca uma cerveja sobre a mesa.

— Você programa COBOL?

— Sim.

— CICS?

— Sim.

— Db2?

— Também.

Ele sorri.

— Excelente. Então hoje você vai testar uma API.

Você olha para ele como se tivesse acabado de pedir para compilar Java usando um IBM 029.

API?

REST?

JSON?

Bearer Token?

OpenAPI?

Postman?

Você passou anos pensando em:

COBOL
JCL
CICS
Db2
VSAM
RACF
MQ

E agora aparece uma tela mostrando:

POST /api/v1/payments

Nathan aponta para o monitor.

{
  "account": "123456",
  "amount": 500.00
}

Depois surge:

HTTP/1.1 200 OK

Nathan pergunta:

— Funcionou?

Você responde imediatamente:

— Sim.

Ele sorri novamente.

Era uma armadilha.

Porque acabamos de cometer um dos erros mais perigosos em testes de APIs:

confundir uma resposta tecnicamente bem-sucedida com uma transação de negócio corretamente executada.

Bem-vindo ao laboratório.

Hoje não vamos apenas aprender API Testing.

Vamos descobrir o que existe atrás do vidro.



🧠 CAPÍTULO 1 — A API É AVA?

Em Ex Machina, Caleb inicialmente vê Ava através de uma interface.

Existe uma parede entre eles.

Ele conversa com ela.

Ela responde.

Pergunta:

Caleb
  ↓
interface
  ↓
Ava

Para Caleb, aquilo parece simples.

Mas por trás da interface existe uma quantidade enorme de tecnologia que ele não vê.

Uma API funciona de maneira parecida.

Imagine um aplicativo bancário.

O usuário toca:

CONSULTAR SALDO

O aplicativo envia:

GET /accounts/12345/balance

Recebe:

{
  "account": "12345",
  "balance": 7342.91
}

Para o celular, acabou.

Mas nós somos profissionais de mainframe.

Queremos abrir a parede.

Talvez exista:

APP MOBILE
    ↓
INTERNET
    ↓
API GATEWAY
    ↓
z/OS CONNECT
    ↓
CICS
    ↓
COBOL
    ↓
DB2

Ou:

API
 ↓
IMS
 ↓
COBOL
 ↓
IMS DB

Ou ainda:

API
 ↓
CICS
 ↓
COBOL
 ↓
MQ
 ↓
OUTRO SISTEMA

Essa é a primeira lição.

API não substitui necessariamente o mainframe. API pode simplesmente fornecer uma nova porta para chegar até ele.



🔌 CAPÍTULO 2 — API NÃO É MÁGICA

API significa Application Programming Interface.

Em termos simples, ela estabelece uma forma definida para dois softwares conversarem.

Temos:

CLIENTE
   |
 REQUEST
   ↓
  API
   |
 PROCESSAMENTO
   ↓
 RESPONSE
   |
   ↓
CLIENTE

Para quem vem do COBOL, isso não deveria parecer tão alienígena.

Pense numa COMMAREA.

Um programa recebe uma estrutura:

01 WS-REQUEST.
   05 WS-CUSTOMER-ID PIC 9(10).
   05 WS-OPERATION   PIC X(01).

Processa e devolve:

01 WS-RESPONSE.
   05 WS-RETURN-CODE PIC 9(04).
   05 WS-NAME        PIC X(40).
   05 WS-BALANCE     PIC S9(9)V99 COMP-3.

Uma API também recebe dados e devolve dados.

A representação mudou.

Podemos receber:

{
  "customerId": 123456
}

e responder:

{
  "name": "BELLACOSA",
  "balance": 317.00
}

O jovem programador olha para JSON e pensa:

— Moderníssimo!

O veterano COBOL olha e pensa:

— É um layout de dados usando chaves, colchetes e bastante marketing.

Nathan provavelmente aprovaria a segunda resposta.



🌐 CAPÍTULO 3 — HTTP: O PROTOCOLO QUE CARREGA A CONVERSA

Muitas APIs REST utilizam HTTP.

Uma requisição pode conter:

URL
METHOD
HEADERS
QUERY PARAMETERS
BODY

Exemplo:

POST /customers HTTP/1.1
Host: api.banco.com
Content-Type: application/json
Authorization: Bearer eyJ...

Body:

{
  "name": "Caleb",
  "age": 26
}

Observe as peças.

Endpoint é o endereço lógico do recurso:

/customers

Headers carregam informações adicionais:

Content-Type
Authorization
Accept
Correlation-ID

Body contém os dados enviados.

Isso nos leva aos verbos HTTP.



🛠️ CAPÍTULO 4 — GET, POST, PUT, PATCH E DELETE

Os cinco verbos mais importantes para nosso iniciante são:

GET     consultar
POST    criar/processar
PUT     substituir
PATCH   alterar parcialmente
DELETE  remover

Podemos construir uma analogia COBOL/Db2 apenas para aprendizado:

GET       ≈ SELECT
POST      ≈ INSERT/operação
PUT       ≈ UPDATE completo
PATCH     ≈ UPDATE parcial
DELETE    ≈ DELETE

Mas escreva em letras enormes no caderno:

ANALOGIA NÃO É EQUIVALÊNCIA.

Considere:

POST /payments

Ele talvez execute:

POST
 ↓
z/OS Connect
 ↓
CICS
 ↓
COBOL
 ├── SELECT DB2
 ├── UPDATE DB2
 ├── INSERT DB2
 ├── MQ PUT
 └── COMMIT

Portanto POST não significa necessariamente INSERT.

Ele significa que estamos solicitando determinada operação segundo o contrato daquela API.


🚦 CAPÍTULO 5 — STATUS CODE É O RETURN CODE DA INTERNET?

Mais uma analogia útil, mas imperfeita.

O mainframer conhece:

RC=0000
RC=0004
RC=0008
RC=0012
S0C7
S0C4

HTTP possui famílias de códigos:

1xx → informação
2xx → sucesso
3xx → redirecionamento
4xx → problema relacionado à requisição
5xx → falha do servidor

Alguns essenciais:

200 OK
201 Created
204 No Content

400 Bad Request
401 Unauthorized
403 Forbidden
404 Not Found
409 Conflict
429 Too Many Requests

500 Internal Server Error
503 Service Unavailable

Mas aqui Nathan interrompe a aula.

— Você recebeu 200. Então funcionou?

Não necessariamente.

Veja:

HTTP/1.1 200 OK
{
  "transaction": "FAILED",
  "reason": "INSUFFICIENT_FUNDS"
}

HTTP funcionou.

A API respondeu.

Mas a operação de negócio falhou.

Temos, portanto, pelo menos três perguntas diferentes:

TRANSPORTE
HTTP funcionou?
       ↓
CONTRATO
Resposta possui a estrutura correta?
       ↓
NEGÓCIO
A operação produziu o resultado correto?

Esse pequeno detalhe separa teste superficial de teste sério.


📜 CAPÍTULO 6 — OPENAPI: O COPYBOOK DO MUNDO REST?

Calma.

Não literalmente.

Mas para ensinar COBOL é uma analogia fantástica.

Um copybook pode definir:

01 CUSTOMER.
   05 CUSTOMER-ID     PIC 9(10).
   05 CUSTOMER-NAME   PIC X(40).
   05 CUSTOMER-STATUS PIC X(01).

Uma especificação OpenAPI pode descrever uma representação semelhante:

Customer:
  type: object
  required:
    - customerId
    - customerName
  properties:
    customerId:
      type: integer
    customerName:
      type: string
    status:
      type: string

Antes de testar uma API, leia sua documentação.

Procure:

endpoints
métodos
parâmetros
headers
schemas
autenticação
exemplos
responses
erros

Não comece clicando freneticamente em Send no Postman.

Primeiro descubra qual deveria ser o comportamento.

Teste sem requisito vira adivinhação automatizada.


🧪 CAPÍTULO 7 — POSTMAN: O TERMINAL 3270 DO EXPLORADOR DE APIs

Imagine esta evolução:

3270
 ↓
CICS
 ↓
COBOL

Agora:

Postman
 ↓
HTTP
 ↓
API
 ↓
z/OS Connect
 ↓
CICS
 ↓
COBOL

O Postman permite montar requisições, headers, parâmetros, autenticação e body, além de examinar respostas e organizar chamadas em collections.

Comece simples.

Faça:

GET /customers/123

Clique em Send.

Não comemore ainda.

Inspecione:

status code
headers
body
schema
response time
business rules

Uma resposta não deve ser considerada correta simplesmente porque apareceu alguma coisa na tela.


😊 CAPÍTULO 8 — HAPPY PATH: PRIMEIRO PROVE QUE AVA CONSEGUE CONVERSAR

O teste positivo verifica comportamento esperado com entradas válidas.

Exemplo:

POST /customers
{
  "name": "Nathan Bateman",
  "type": "PREMIUM"
}

Esperamos talvez:

201 Created

e:

{
  "customerId": 12345,
  "name": "Nathan Bateman",
  "type": "PREMIUM"
}

Validamos:

dados válidos
fluxo correto
permissão adequada
resultado esperado
persistência correta

Ótimo.

Mas isso prova apenas que o sistema funciona quando todos se comportam.

Produção não possui essa delicadeza.


😈 CAPÍTULO 9 — O TESTE COMEÇA QUANDO AS COISAS DÃO ERRADO

Agora Nathan fica interessado.

Envie:

{
  "amount": -500
}

Depois:

{
  "amount": "CINCO REAIS"
}

Depois:

{}

Depois:

{
  "amount": null
}

Teste:

  • campos ausentes;

  • tipos inválidos;

  • limites;

  • JSON malformado;

  • dados duplicados;

  • métodos não suportados;

  • valores negativos;

  • valores enormes;

  • strings vazias;

  • recursos inexistentes;

  • credenciais inválidas.

O sistema bom não é aquele que apenas sabe funcionar.

É aquele que sabe falhar corretamente.


💣 CAPÍTULO 10 — PIC 9(7)V99 ENCONTRA JSON

Aqui aparece um problema particularmente interessante para mainframers.

COBOL:

05 WS-AMOUNT PIC 9(7)V99.

API:

{
  "amount": 999999999999999999.99
}

Quem impede isso?

Gateway?

Schema?

z/OS Connect?

Programa intermediário?

COBOL?

Db2?

E se ninguém impedir?

Esse é um maravilhoso teste de boundary.

Teste:

0
0.01
9999999.99
10000000.00
-0.01
NULL
"ABC"

A fronteira é justamente onde muitos defeitos ficam escondidos.


🔐 CAPÍTULO 11 — "QUEM É VOCÊ?" NÃO É "O QUE VOCÊ PODE FAZER?"

Autenticação:

Quem é você?

Autorização:

O que você pode acessar?

Essa distinção é vital.

No IBM Z podemos encontrar uma cadeia como:

OAuth/OIDC
    ↓
API Gateway
    ↓
token
    ↓
z/OS
    ↓
SAF
    ↓
RACF

Mas autenticar alguém não significa permitir qualquer operação.

Teste:

sem token
token inválido
token expirado
token correto
scope incorreto
usuário sem privilégio
usuário privilegiado
recurso de outro usuário

Um 401 e um 403 não significam exatamente a mesma coisa.

E existe uma pergunta ainda mais interessante:

Um usuário autorizado para consultar seus dados consegue trocar /123 por /124 e consultar dados de outra pessoa?

Isso testa autorização no nível do objeto, não apenas login.


🧬 CAPÍTULO 12 — TEST DATA: NÃO USE PRODUÇÃO COMO PARQUINHO

Dados de teste precisam ser:

controlados
repetíveis
realistas
seguros
isolados
limpáveis

No mainframe isso pode ser particularmente delicado.

Existem ambientes com dados acumulados durante décadas.

Você encontrará:

EBCDIC
COMP
COMP-3
campos redefinidos
datas históricas
códigos descontinuados
valores especiais
copybooks antigos
registros migrados

E existe ainda segurança e privacidade.

Mascarar dados sensíveis é fundamental quando dados semelhantes aos de produção precisam alimentar testes.

E nunca coloque senha, token ou segredo dentro do script:

PASSWORD=SUPERSECRET123

Nathan certamente encontraria.

O auditor também.


🗄️ CAPÍTULO 13 — DATABASE VALIDATION: OLHE ATRÁS DO VIDRO

Agora chegamos ao coração do problema.

Você envia:

POST /transfers
{
  "from": "100001",
  "to": "200002",
  "amount": 500.00
}

Recebe:

200 OK

Fim?

Não.

Precisamos descobrir o efeito.

Antes:

A = 2000
B = 1000

Depois:

A = 1500
B = 1500

Precisamos validar:

débito correto
crédito correto
nenhum registro duplicado
histórico criado
mensagem MQ correta
audit trail
commit

Agora provoque uma falha depois do débito e antes do crédito.

O resultado correto provavelmente deverá envolver:

ROLLBACK

e não:

A = 1500
B = 1000

Essa é a diferença entre testar uma tela JSON e testar uma transação.


🔄 CAPÍTULO 14 — COMMIT, ROLLBACK E A UNIT OF WORK

Mainframe conhece esse problema há décadas.

Uma API pode iniciar uma cadeia:

REQUEST
 ↓
CICS
 ↓
COBOL
 ↓
DB2
 ↓
MQ

Agora surgem perguntas realmente interessantes:

O que pertence à mesma unidade de trabalho?

Quando ocorre COMMIT?

O que acontece se MQ falhar?

E se Db2 estiver indisponível?

E se a API sofrer timeout?

E se o cliente repetir a chamada?

Chegamos à palavra que deveria estar colada no monitor de qualquer desenvolvedor de pagamentos:

IDEMPOTÊNCIA

Imagine:

03:16:55 pagamento enviado

03:17:00 processamento iniciado

03:17:10 timeout

O aplicativo não sabe se funcionou.

Então repete.

Se o backend executar novamente:

R$500
R$500

acabamos de cobrar duas vezes.

Uma estratégia pode envolver uma chave de idempotência:

Idempotency-Key: PAY-ABC-123

O backend reconhece a repetição.

E sim: 03:17 apareceu por acaso.

Quem acompanha o Bellacosa Mainframe sabe que acidentes temporais desse tipo costumam ser cuidadosamente planejados. ☕


📐 CAPÍTULO 15 — CONTRACT TESTING: AVA MUDOU A LINGUAGEM

Hoje:

{
  "customerId": 123,
  "status": "ACTIVE"
}

Amanhã alguém decide "modernizar":

{
  "customerNumber": 123,
  "customerStatus": "ACTIVE"
}

O serviço continua funcionando.

Mas dez consumidores quebram.

É o equivalente moderno do sujeito que altera um copybook compartilhado sem estudar impacto e depois pergunta por que metade da madrugada está em conference call.

Contract testing procura detectar mudanças incompatíveis antes que cheguem aos consumidores.

Aqui o mainframer possui uma vantagem cultural enorme.

Ele já conhece o medo saudável de:

"Quem mais usa isso?"


🏎️ CAPÍTULO 16 — PERFORMANCE: 120 MILISSEGUNDOS NÃO CONTAM TODA A HISTÓRIA

Uma API responde em:

120 ms

Excelente.

Com um usuário.

Agora tente 100.

1.000.

10.000.

50.000.

Precisamos observar:

latency — tempo de resposta;

throughput — quantidade processada;

error rate — percentual de falhas;

concurrency — usuários/operações simultâneos.

Existem ainda quatro cenários clássicos:

LOAD
carga normal esperada

SPIKE
explosão repentina

STRESS
além do limite normal

SOAK
carga sustentada durante longo período

No IBM Z, não pare no tempo HTTP.

Investigue:

API Gateway
     ↓
z/OS Connect
     ↓
CICS
     ↓
COBOL
     ↓
Db2
     ↓
CPU / I/O / LOCKS

Pode ser que HTTP esteja apenas mostrando o sintoma.


🕵️ CAPÍTULO 17 — SEGURANÇA: NATHAN NÃO CONFIA NA INTERFACE

API Security Testing precisa procurar problemas como:

autenticação
autorização
input validation
rate limiting
exposição de dados
configurações inseguras

No mainframe adicionamos outra camada:

SAF
RACF
TLS
AT-TLS
certificados
SMF
proteção CICS
privilégios Db2
permissões USS
segregação de funções
auditoria

Um erro particularmente perigoso é retornar informação demais.

Exemplo:

{
  "name": "USER",
  "balance": 500,
  "internalRacfUser": "ABC123",
  "databaseHost": "PRODDB2",
  "debugMessage": "SQLCODE -..."
}

Talvez três desses campos jamais devessem sair dali.

Erro também é dado.

Log também é dado.

Stack trace também é dado.

Portanto teste o que o sistema revela quando falha.


🤖 CAPÍTULO 18 — AUTOMATIZE, MAS NÃO AUTOMATIZE BURRICE

Depois dos testes manuais estáveis, automatizamos.

Ferramentas possíveis incluem:

Postman/Newman
REST Assured
Playwright API
SuperTest

Um framework saudável separa:

config/
api-clients/
test-data/
tests/
reports/

Isso evita aquele script de 4.000 linhas onde URL, senha, payload, teste, relatório e provavelmente o CPF do desenvolvedor estão todos misturados.

Automação boa precisa ser:

repetível
independente
legível
determinística
diagnosticável
manutenível

Automatizar um teste ruim produz um teste ruim que roda mais rápido.


🏭 CAPÍTULO 19 — CI/CD: O COBOL ENTRA NA ESTEIRA

Agora o teste deixa de depender de alguém clicar em Send.

Podemos ter:

COMMIT
   ↓
BUILD
   ↓
UNIT TEST
   ↓
API TEST
   ↓
CONTRACT TEST
   ↓
SECURITY CHECK
   ↓
DEPLOY DEV
   ↓
INTEGRATION TEST
   ↓
QUALITY GATE
   ↓
PROMOTION

Isso também é DevOps no mainframe.

COBOL não precisa deixar de ser COBOL.

CICS não precisa fingir que é Kubernetes.

Db2 não precisa colocar boné para trás.

O objetivo é introduzir práticas modernas de engenharia em torno das plataformas adequadas.


🔭 CAPÍTULO 20 — OBSERVABILIDADE: AVA RESPONDEU, MAS O QUE ELA ESTAVA FAZENDO?

Chegamos ao estágio mais interessante.

Testes dizem:

"Sob estas condições, obtive este resultado."

Observabilidade pergunta:

"O que o sistema está realmente fazendo?"

Precisamos de evidências.

logs
metrics
traces
request IDs
test reports
artifacts

No IBM Z temos uma riqueza enorme de telemetria:

SMF
RMF
CICS statistics
Db2 accounting
Db2 statistics
MQ statistics
WLM
logs
network telemetry

Imagine colocar:

X-Request-ID: CALEB-0317

e acompanhar:

CALEB-0317
    ↓
API Gateway
    ↓
z/OS Connect
    ↓
CICS
    ↓
COBOL
    ↓
Db2

De repente não temos apenas:

"A API demorou 4 segundos."

Temos:

"A requisição chegou ao z/OS, entrou na transação CICS, esperou determinado recurso e a maior parte do tempo foi consumida naquela etapa."

Isso muda completamente a investigação.


🧪 CAPÍTULO 21 — O LABORATÓRIO FINAL DE NATHAN

Sua missão é testar:

POST /accounts/transfer

Payload:

{
  "from": "100001",
  "to": "200002",
  "amount": 500.00
}

Arquitetura:

CLIENT
  ↓
HTTPS
  ↓
API GATEWAY
  ↓
z/OS CONNECT
  ↓
CICS
  ↓
COBOL
  ↓
DB2
  ↓
MQ

Comece pelo happy path.

Depois execute:

conta origem inexistente
conta destino inexistente
saldo insuficiente
amount = 0
amount negativo
amount máximo
amount acima do máximo
amount como texto
campo ausente
JSON quebrado
token ausente
token expirado
scope incorreto
usuário sem autorização
requisição duplicada
timeout
Db2 indisponível
MQ indisponível
100 requests simultâneos
1.000 requests
spike
soak

Depois de cada cenário, pergunte:

HTTP correto?
JSON correto?
Schema correto?
Regra de negócio correta?
Db2 correto?
MQ correto?
Commit correto?
Rollback correto?
RACF correto?
Logs corretos?
SMF mostra o esperado?
Performance aceitável?
Dados sensíveis protegidos?

Agora você não está mais testando simplesmente uma API.

Está testando um serviço de negócio distribuído de ponta a ponta.


🧠 CAPÍTULO 22 — O TESTE DE TURING DO MAINFRAME

Nathan volta à sala.

Na tela aparecem duas respostas:

{
  "status": "SUCCESS"
}

e:

{
  "status": "SUCCESS"
}

São idênticas.

Nathan pergunta:

— Qual delas está correta?

Você não responde.

Abre o Db2.

Verifica a transação CICS.

Consulta evidências.

Confere MQ.

Verifica autorização.

Procura duplicidades.

Analisa logs.

Correlaciona Request ID.

Observa métricas.

Confere o contrato.

Finalmente responde:

— A primeira.

Nathan pergunta:

— Como sabe?

E aí está toda a diferença:

— Porque eu não confiei na interface. Eu validei o sistema.


☕ EPÍLOGO — A API NÃO PRECISAVA SER HUMANA

Existe uma deliciosa ironia nessa história.

Muitos conceitos vendidos como absolutamente modernos são problemas que o mundo mainframe enfrenta há décadas.

Hoje dizemos:

schema

O mainframer lembra de layouts e copybooks.

Hoje:

transaction consistency

Ele pensa em unit of work, commit e rollback.

Hoje:

authorization

Ele pensa em SAF/RACF e também nas regras de autorização da aplicação.

Hoje:

observability

Ele pergunta:

— Quais registros SMF temos?

Hoje:

high availability

Ele sorri.

Hoje:

backward compatibility

Agora ele começa a rir.

Isso não significa que REST, OpenAPI, OAuth, CI/CD ou observabilidade moderna sejam apenas nomes novos para tecnologias antigas. Não são.

Significa algo mais interessante.

Os problemas fundamentais da computação permanecem surpreendentemente constantes:

Quem pediu?

Pode pedir?

Os dados são válidos?

O processamento aconteceu?

A informação foi persistida?

A transação terminou inteira?

Se falhou, voltou ao estado consistente?

Se repetiu, duplicou?

Quanto demorou?

Quantas conseguimos processar?

Quem consegue observar isso?

Quem consegue alterar isso?

Conseguimos provar depois o que aconteceu?

E aqui está talvez a maior lição para o programador COBOL iniciante.

Não tenha medo quando alguém colocar na sua frente:

REST
JSON
OAuth
OpenAPI
Postman
CI/CD
Observability

Você não está abandonando tudo o que aprendeu.

Está aumentando seu campo de visão.

Ontem você enxergava:

3270
 ↓
CICS
 ↓
COBOL
 ↓
DB2

Hoje precisa enxergar:

                    INTERNET
                       │
                       ▼
                  API GATEWAY
                       │
                       ▼
                 z/OS CONNECT
                       │
              ┌────────┴────────┐
              ▼                 ▼
            CICS               IMS
              │                 │
              └───────┬─────────┘
                      ▼
                    COBOL
                      │
          ┌───────────┼───────────┐
          ▼           ▼           ▼
         DB2         VSAM         MQ
          │           │           │
          └───────────┼───────────┘
                      ▼
                COMMIT/ROLLBACK
                      │
                      ▼
               RESPONSE JSON

E ao redor de tudo isso:

        SECURITY
            │
            ▼
   ┌───────────────────┐
   │                   │
RACF/SAF            OAuth
   │                   │
   └─────────┬─────────┘
             │
             ▼
          AUDIT
             │
             ▼
       OBSERVABILITY
             │
     ┌───────┼────────┐
     ▼       ▼        ▼
    SMF     LOGS    METRICS

Essa é a arquitetura que o teste precisa enxergar.

A API é apenas o vidro.

Atrás dela existe uma máquina inteira.


🥚 EASTER EGG — 03:17

Às 03:17, todas as luzes do laboratório apagam.

O programador COBOL continua sentado.

Nathan pergunta:

— Você não está preocupado?

— Não.

— Por quê?

Ele aponta para o monitor.

HTTP 200

Nathan sorri.

O programador responde:

— Também não confio nisso.

Abre outra janela.

CICS: OK
DB2 : COMMIT
MQ  : MESSAGE PUT
RACF: AUTHORIZED
SMF : RECORDED

Então pega o café.

— Agora sim.

Porque no Bellacosa Mainframe existe uma regra que Nathan Bateman aprenderia rapidamente:

Não importa o quão bonita seja a interface, o quão perfeito seja o JSON ou quantos 200 OK apareçam na tela. Em sistemas de missão crítica, confiança não vem da aparência da resposta. Vem da evidência de que toda a cadeia fez exatamente aquilo que deveria fazer.

E talvez esse seja o verdadeiro Teste de Turing de uma API mainframe:

não descobrir se ela consegue parecer inteligente,

mas provar que, quando ninguém está olhando, ela continua sendo correta, segura, consistente, observável e confiável.

☕ Um Café no Bellacosa Mainframe

Onde até Ava teria que apresentar evidência de COMMIT antes de receber acesso à produção.

sexta-feira, 3 de dezembro de 2021

🎌🌈 Por que tantos fãs de anime são LGBT+?

 🎌🌈 Por que tantos fãs de anime são LGBT+?



Uma reflexão Bellacosa sobre identidade, espelhos e liberdade na cultura otaku.


🎭 O Espelho das Emoções

Existe uma coisa mágica no anime: ele fala com o coração antes de falar com a lógica.
E é justamente por isso que tantos fãs LGBT+ se sentem acolhidos — porque o anime reflete sentimentos de diferença, transformação e autoaceitação que muitas pessoas vivem por dentro.

Séries como Revolutionary Girl Utena, Wandering Son ou Given não têm medo de tocar em temas de gênero, amor e identidade.
São histórias que dizem, sem precisar gritar:

“Tudo bem ser diferente. Tudo bem ser você.”


🌐 O Fandom como Refúgio

Durante anos, comunidades de anime foram refúgios digitais para quem se sentia deslocado.
No Tumblr, fóruns ou Discord, jovens encontraram espaço para desenhar, escrever e sonhar — sem julgamento.
Muitos descobriram ali que eram gays, bi, trans ou não-binários, assistindo a personagens que quebravam regras invisíveis da sociedade.

💬 “Percebi que era trans vendo Ranma mudar de corpo.”
💬 “Me senti visto pela primeira vez em Yuri on Ice.”

Essas frases não são coincidência — são a tradução emocional de um fenômeno cultural.


🎨 Estética e Liberdade

A cultura visual japonesa adora desafiar fronteiras:
bishounen (rapazes belos e andróginos), magical girls, personagens gender bender e visuais que misturam força e delicadeza.
Essa fluidez estética abre espaço para quem não cabe nas caixinhas do “menino ou menina”, “hétero ou gay”.

💡 Exemplos icônicos:

  • Howl (O Castelo Animado) — beleza livre e fluida.

  • Astolfo (Fate/Apocrypha) — charme andrógino que conquistou o fandom.

  • Sailor Uranus e Neptune — casal que inspirou gerações antes mesmo de o tema ser aceito na TV ocidental.


📊 O Que Dizem as Tendências

Pesquisas em convenções e redes sociais mostram que a comunidade LGBT+ é majoritária em muitos fandoms de anime.
Mas isso não quer dizer que anime “torne” ninguém LGBT+.
O que acontece é que o anime acolhe, representa e inspira — e por isso tanta gente encontra ali um espelho do que sente.


🧩 Filosofia Bellacosa

O anime é um laboratório da alma.
Ele permite experimentar identidades, amores e mundos onde ser diferente não é um problema, mas uma força.

No fim das contas, a correlação entre anime e LGBT+ não é biológica — é emocional e simbólica.
O anime não muda quem você é; ele te ajuda a enxergar quem você sempre foi.


☕ Bellacosa Conclui:
Anime é arte da empatia, e empatia é a linguagem universal da liberdade.
Por isso, onde há um coração otaku, quase sempre há também um arco-íris de possibilidades.

quinta-feira, 2 de dezembro de 2021

🧪 RICK SANCHEZ E O JENKINSFILE DA DIMENSÃO C-137

Bellacosa Mainframe apresenta o jenkins

☕ Um Café no Bellacosa Mainframe

🧪 RICK SANCHEZ E O JENKINSFILE DA DIMENSÃO C-137

Jenkins Pipelines, Git, agentes, artefatos, containers, quality gates, rollback, observabilidade — e o dia em que Rick descobriu que o verdadeiro monstro da produção não era um alienígena, mas um deploy manual de sexta-feira.

Nota de estilo: este artigo usa Rick Sanchez como lente humorística e paródica. A explicação técnica, porém, é bem terrestre — e perigosamente aplicável à produção.



🎬 PRÓLOGO — MORTY, QUEM FEZ DEPLOY DIRETO EM PRODUÇÃO?

Imagine a cena.

03:17 da madrugada.

O celular toca.

Produção caiu.

CICS está respondendo.

Db2 está de pé.

MQ aparentemente está normal.

CPU está em 34%.

Nenhum LPAR está pegando fogo.

Mesmo assim, clientes não conseguem concluir transações.

Rick olha para Morty.

— Morty... o que você mudou?

— Nada, Rick!

— Morty, todo programador que diz "nada" às 03:17 acabou de alterar alguma coisa.

Cinco minutos depois descobrimos:

Mudança emergencial
      ↓
Compilação manual
      ↓
Load module copiado manualmente
      ↓
Produção
      ↓
"Funcionou aqui"

Rick pega a portal gun.

Não para fugir.

Para mandar o responsável para uma dimensão na qual toda implantação precisa ser feita manualmente pelo resto da eternidade.

E aqui começa nossa história.

Porque Jenkins Pipeline não é simplesmente uma ferramenta para "automatizar compilação".

Estamos falando de algo conceitualmente muito maior:

SOURCE
   ↓
BUILD
   ↓
TEST
   ↓
QUALITY
   ↓
SECURITY
   ↓
PACKAGE
   ↓
APPROVAL
   ↓
DEPLOY
   ↓
VERIFY
   ↓
OBSERVE

O Jenkins ajuda a transformar o processo de entrega do software em software.

A própria documentação do Jenkins define Pipeline como uma maneira de modelar o processo de entrega como código; um Jenkinsfile pode ficar junto ao código-fonte, permitindo revisão, histórico de auditoria e uma fonte comum da definição da pipeline. (Jenkins)

E para quem passou décadas no mainframe existe algo deliciosamente familiar nisso tudo.



🧪 CAPÍTULO 1 — RICK DESCOBRE QUE O JENKINS NÃO FAZ QUASE NADA

Esse é um dos primeiros conceitos que eu ensinaria para alguém começando em DevOps:

Jenkins não é a fábrica. Jenkins é o maestro da fábrica.

O Jenkins não precisa ser o compilador.

Não precisa ser o scanner de vulnerabilidades.

Não precisa ser o repositório Git.

Não precisa ser o repositório de artefatos.

Não precisa ser Kubernetes.

Ele coordena ferramentas que executam essas funções.

Pense:

                    ┌─────────────┐
                    │   JENKINS   │
                    │ ORCHESTRATOR│
                    └──────┬──────┘
                           │
        ┌──────────────────┼──────────────────┐
        ↓                  ↓                  ↓
       Git              Compiler          Tests
        │                  │                  │
        └──────────┬───────┴─────────┬────────┘
                   ↓                 ↓
             Security Scan      Artifact Repo
                   │                 │
                   └────────┬────────┘
                            ↓
                         Deploy
                            ↓
                       Production

Rick provavelmente resumiria:

"Morty, Jenkins não constrói a nave. Ele manda cada idiota da garagem fazer sua parte na ordem certa."

E isso é importante porque muita arquitetura ruim nasce quando Jenkins vira uma espécie de Deus DevOps.

Jenkins chama Docker.

Docker constrói uma imagem.

Jenkins publica a imagem em um registry.

Uma ferramenta de deployment ou Kubernetes executa essa imagem.

São responsabilidades diferentes.



🧠 CAPÍTULO 2 — O JENKINSFILE É O JCL DO DEVOPS?

Calma.

Antes que alguém arremesse um manual do JES2 na minha cabeça:

não tecnicamente.

Mas pedagogicamente a comparação é excelente.

Para um programador COBOL entrando em Jenkins, podemos imaginar:

Mundo mainframeJenkins/DevOps
JOBPipeline
STEPStage/Step
EXECexecução de ferramenta
RCexit status
SYSOUTlogs
load moduleartifact
PROCLIBlógica reutilizável/shared library
schedulerparte da orquestração

Não são equivalências arquitetônicas 1:1.

São pontes mentais.

Veja um JCL:

//BELLACOS JOB ...
//COMPILE EXEC PGM=IGYCRCTL
//LINK    EXEC PGM=IEWL
//TEST    EXEC PGM=TESTPGM

Agora uma pipeline extremamente simplificada:

pipeline {
    agent any

    stages {
        stage('Compile') {
            steps {
                sh './compile.sh'
            }
        }

        stage('Test') {
            steps {
                sh './test.sh'
            }
        }

        stage('Package') {
            steps {
                sh './package.sh'
            }
        }
    }
}

Um mainframer olha isso e pensa:

"Vocês inventaram STEP de novo."

😂

Mas existe uma evolução importantíssima.

O Jenkinsfile pode estar dentro do mesmo repositório Git da aplicação.

Portanto:

programa mudou
pipeline mudou
teste mudou
configuração mudou

Tudo isso pode passar pelo mesmo mecanismo de versionamento e revisão.

O Jenkins recomenda manter o Jenkinsfile no source control, justamente por benefícios como revisão, auditabilidade e uma fonte comum da definição da pipeline. (Jenkins)



🛸 CAPÍTULO 3 — CONTROLLER E AGENTS: RICK NÃO FAZ O TRABALHO PESADO

Imagine Rick administrando cem Mortys.

Rick recebe os pedidos.

Decide prioridades.

Escolhe quem executará cada tarefa.

Coordena tudo.

Mas seria absurdo Rick pessoalmente pegar cada programa, compilar, testar, empacotar e instalar.

No Jenkins existe uma ideia semelhante:

             JENKINS CONTROLLER
                    │
       ┌────────────┼────────────┐
       ↓            ↓            ↓
   AGENT-01     AGENT-02     AGENT-03
    Linux        z/OS         Docker

O controller administra a coordenação.

Os agents fornecem ambientes onde o trabalho efetivamente é executado.

Um agent poderia possuir:

Java
Maven
Git
Docker
Python
Node.js

Outro poderia possuir ferramentas específicas.

No universo IBM Z, podemos ter integração com ferramentas e processos executados no próprio z/OS.

E novamente surge uma analogia útil com mainframe.

JES2 recebe trabalho, gerencia filas e participa da seleção/execução conforme recursos e classes.

Não significa que Jenkins seja "um JES moderno".

Não é.

Mas o conceito de separar orquestração do trabalho de execução do trabalho certamente não provoca choque cultural em quem conhece mainframe.



🧬 CAPÍTULO 4 — O PIPELINE DE PRODUÇÃO NÃO É BUILD → DEPLOY

Essa simplificação é perigosa:

BUILD → DEPLOY

Uma pipeline de produção madura se parece muito mais com:

COMMIT
   ↓
CHECKOUT
   ↓
DEPENDENCY ANALYSIS
   ↓
BUILD
   ↓
UNIT TEST
   ↓
STATIC ANALYSIS
   ↓
SECURITY SCAN
   ↓
QUALITY GATE
   ↓
PACKAGE
   ↓
PUBLISH ARTIFACT
   ↓
DEPLOY DEV
   ↓
INTEGRATION TEST
   ↓
DEPLOY SIT
   ↓
DEPLOY UAT
   ↓
APPROVAL
   ↓
DEPLOY PROD
   ↓
VERIFY
   ↓
OBSERVE

Cada estágio deveria responder a uma pergunta.

Build: conseguimos construir?

Test: o comportamento conhecido continua correto?

Security: introduzimos riscos conhecidos?

Quality Gate: atingimos os critérios mínimos?

Deploy: conseguimos instalar?

Verify: o software realmente iniciou e responde?

Observe: continua saudável sob tráfego real?

É aí que aparece uma das frases mais importantes deste artigo:

🚨 DEPLOY SUCCESS ≠ SYSTEM HEALTHY

Morty vê isto:

DEPLOY ........ SUCCESS

e comemora.

Rick pergunta:

"E as transações?"

Silêncio.


💳 CAPÍTULO 5 — O SISTEMA ESTÁ VERDE, MAS O NEGÓCIO ESTÁ MORTO

Vamos trazer isso para Cards & Payments.

Imagine um programa COBOL:

AUTHORIZATION

Antes do deploy:

Approval Rate: 87%
CICS Response: 120 ms
CPU: 32%
Db2: NORMAL
MQ: NORMAL

Depois:

Approval Rate: 41%
CICS Response: 118 ms
CPU: 31%
Db2: NORMAL
MQ: NORMAL

Dashboard de infraestrutura:

🟢 CPU

🟢 Memória

🟢 CICS

🟢 Db2

🟢 MQ

Dashboard do negócio:

🔥🔥🔥🔥🔥🔥🔥

A aplicação está respondendo perfeitamente...

e recusando clientes perfeitamente.

Isso nos conduz a uma evolução importantíssima de observabilidade:

TECHNICAL HEALTH
        +
BUSINESS HEALTH
        =
PRODUCTION HEALTH

Para uma autorização de cartões poderíamos acompanhar:

approval rate
decline rate
timeout rate
reversal rate
duplicate transactions
average authorization latency
transactions/minute

Isso é infinitamente mais poderoso do que perguntar apenas:

"A JVM está viva?"

Ou:

"O CICS está UP?"


🧪 CAPÍTULO 6 — QUALITY GATES: RICK PROÍBE MORTY DE APERTAR O BOTÃO

Imagine:

Compile       OK
Unit Tests    OK
Coverage      42%
Security      CRITICAL
Quality       FAILED

Morty pergunta:

— Posso mandar para produção?

Rick:

— Claro. E depois podemos testar se respirar no espaço sem capacete realmente mata.

Quality Gates transformam regras organizacionais em controles executáveis.

Podemos determinar:

IF compilation failed
    STOP

IF mandatory tests failed
    STOP

IF critical vulnerability exists
    STOP

IF artifact is invalid
    STOP

Isso é fail fast.

Descobriu cedo?

Pare cedo.

Porque existe uma matemática cruel:

erro descoberto no desenvolvimento
        ↓
barato

erro descoberto no teste
        ↓
mais caro

erro descoberto em produção
        ↓
War Room + pizza + café + 03:17

🔐 CAPÍTULO 7 — MORTY COLOCOU A SENHA NO JENKINSFILE

Rick abre o repositório:

environment {
    USER = "PRODADMIN"
    PASSWORD = "Morty123"
}

Silêncio.

Rick olha para Morty.

Morty olha para Rick.

Rick abre o portal.

😂

Segredos não devem ser hardcoded no código da pipeline.

Jenkins oferece mecanismos de credentials que permitem trabalhar com diferentes tipos de segredo e vinculá-los durante a execução. A documentação também alerta para os cuidados necessários com interpolação e exposição acidental em logs. (Jenkins)

Mas existe uma pegadinha.

Mascarar uma senha no log não transforma uma arquitetura insegura em arquitetura segura.

Precisamos combinar:

Secure storage
      +
Least privilege
      +
Credential scope
      +
Log hygiene
      +
Rotation
      +
Access control

Outra distinção importante:

ENVIRONMENT VARIABLE ≠ SECRET

Uma variável de ambiente pode conter um segredo.

Mas isso não significa que qualquer environment variable seja um mecanismo seguro para armazenamento de segredo.


📦 CAPÍTULO 8 — BUILD ONCE, PROMOTE MANY

Aqui aparece uma ideia maravilhosa.

Imagine:

DEV
 ↓
build A

TEST
 ↓
build B

UAT
 ↓
build C

PROD
 ↓
build D

Rick imediatamente perguntaria:

"Então exatamente o que vocês testaram?"

Essa pergunta destrói a arquitetura.

Porque se eu reconstruí o software entre ambientes, existe a possibilidade de diferenças em:

compiler
dependencies
configuration
timestamps
build environment
scripts
libraries

O modelo muito mais forte é:

SOURCE
   ↓
BUILD
   ↓
ARTIFACT X
   ↓
DEV
   ↓
TEST
   ↓
UAT
   ↓
PROD

O mesmo artefato vai sendo promovido.

A documentação atual da IBM para CI/CD em z/OS descreve explicitamente o artifact repository como peça que desacopla SCM dos ambientes de runtime e possibilita a prática de "Build once, deploy many". (IBM)

Agora conseguimos dizer:

APP       AUTHORIZATION
VERSION   4.7.2
COMMIT    a73fc91
BUILD     1842
ARTIFACT  auth-4.7.2-1842

Isso é rastreabilidade.


🧬 CAPÍTULO 9 — MAS COBOL TEM DEPENDÊNCIAS, RICK!

Exatamente.

Imagine:

COPY CARDREC.
COPY AUTHRESP.

O desenvolvedor altera:

CARDREC

Quem precisa ser recompilado?

É justamente aqui que o problema fica interessante no mainframe.

A IBM descreve o Dependency Based Build como solução para aplicações tradicionais z/OS, incluindo COBOL e PL/I, capaz de rastrear dependências e realizar builds integrados a workflows Git e ferramentas como Jenkins. (IBM)

Assim podemos imaginar:

Git commit
     ↓
Jenkins
     ↓
DBB
     ↓
Dependency Analysis
     ↓
Programs impacted
     ↓
Compile
     ↓
Link-edit
     ↓
Test

Em vez de:

"Alterou COPYBOOK? Compila tudo e reza."

A documentação IBM para DevOps em z/OS inclui no conceito de build justamente dependências, compilação, link-edit e testes unitários; ela posiciona DBB como ferramenta principal para essa parte específica do fluxo z/OS. (IBM)


🧙 CAPÍTULO 10 — O PIPELINE COBOL DA DIMENSÃO C-137

Agora podemos construir mentalmente algo muito interessante:

             DEVELOPER
                 │
                 ↓
                Git
                 │
              Webhook
                 │
                 ↓
              Jenkins
                 │
                 ↓
        Dependency Analysis
                 │
                 ↓
             IBM DBB
                 │
       ┌─────────┼─────────┐
       ↓         ↓         ↓
     COBOL      PL/I    Copybooks
       │
       ↓
    Compile
       │
       ↓
   Link-edit
       │
       ↓
   Unit Tests
       │
       ↓
 Static Analysis
       │
       ↓
 Security Gate
       │
       ↓
 Artifact Repository
       │
       ↓
       SIT
       │
       ↓
       UAT
       │
       ↓
 Approval Gate
       │
       ↓
  PRODUCTION
       │
       ↓
 Verification
       │
       ↓
 Observability

Isso não é "tirar o mainframe do passado".

É justamente o contrário.

É integrar IBM Z ao processo corporativo moderno.

A própria orientação IBM sobre DevOps para Z apresenta uma pipeline CI/CD baseada em componentes como serviço Git e DBB, buscando alinhar ferramentas, práticas e resultados com as demais plataformas da empresa. (IBM)


🛑 CAPÍTULO 11 — O BOTÃO VERMELHO CHAMADO APPROVAL

Automação não significa:

ninguém controla nada

Esse é outro mito.

Uma pipeline pode chegar até:

Deploy Production

e parar:

╔══════════════════════════════════════╗
║       PRODUCTION APPROVAL           ║
║                                    ║
║ Tests.................... PASSED    ║
║ Security................. PASSED    ║
║ Quality.................. PASSED    ║
║ Artifact................. SIGNED    ║
║ Change Ticket............ VALID     ║
║                                    ║
║       [ APPROVE ] [ REJECT ]        ║
╚══════════════════════════════════════╝

Isso é especialmente relevante em ambientes regulados.

Governança não precisa significar:

planilha
+
e-mail
+
telefonema
+
reunião
+
"quem tem a senha?"

Governança também pode virar código e evidência.


🚀 CAPÍTULO 12 — ROLLING, BLUE-GREEN E CANARY

Agora Rick abre três portais.

Rolling

Temos:

V1 V1 V1 V1

Vamos substituindo gradualmente:

V2 V1 V1 V1
V2 V2 V1 V1
V2 V2 V2 V1
V2 V2 V2 V2

Útil quando a arquitetura suporta substituição gradual.

Blue-Green

Temos dois ambientes:

BLUE  → V1 → ACTIVE

GREEN → V2 → READY

Testamos Green.

Depois:

TRAFFIC
   ↓
 GREEN

Se houver problema e as condições permitirem retorno:

TRAFFIC
   ↓
 BLUE

Canary

Liberamos V2 para pequena parcela:

95% → V1
 5% → V2

Observamos.

Depois:

75% → V1
25% → V2

Depois:

50 / 50

até eventualmente:

100% → V2

No mainframe, não devemos copiar esses modelos cegamente como se CICS fosse Kubernetes.

Mas princípios semelhantes podem ser implementados, dependendo da arquitetura, usando regiões, roteamento, APIs, gateways, feature flags, LPARs ou segmentação de tráfego.


💥 CAPÍTULO 13 — ROLLBACK NÃO É CTRL+Z

Aqui mora um monstro.

Aplicamos:

PROGRAM V1
       ↓
PROGRAM V2

Deu problema.

Então:

PROGRAM V1

Resolvido?

Talvez.

Agora imagine que V2 também mudou:

COPYBOOK
DB2 SCHEMA
MQ MESSAGE
CONFIGURATION
API CONTRACT
DATA

O programa antigo pode não entender mais o estado atual.

Por exemplo:

V1:
01 CUSTOMER.
   05 ID      PIC 9(08).
   05 STATUS  PIC X.

V2:

01 CUSTOMER.
   05 ID      PIC 9(08).
   05 STATUS  PIC X.
   05 RISK    PIC 9(03).

Dependendo de onde e como esse contrato é utilizado, voltar somente o executável pode criar outro problema.

Portanto:

Rollback é propriedade da arquitetura, não apenas comando da ferramenta de deployment.

Precisamos pensar em:

Code rollback
Data rollback
Schema rollback
Configuration rollback
Infrastructure rollback
Contract compatibility

Rick não inventaria o plano de fuga depois que a dimensão começasse a explodir.

Nós também não deveríamos.


🔥 CAPÍTULO 14 — RETRY NÃO É CURA UNIVERSAL

Pipeline falhou?

Alguém imediatamente propõe:

retry(5)

Rick pergunta:

"Por quê?"

Excelente pergunta.

Retry pode fazer sentido para uma falha transitória:

network timeout
temporary API failure
registry temporarily unavailable

Mas imagine:

COBOL COMPILATION ERROR

Retry.

Erro.

Retry.

Erro.

Retry.

Erro.

Você não criou resiliência.

Criou um computador extremamente persistente em provar cinco vezes que seu código está errado.

😂

Podemos pensar:

TRANSIENT FAILURE
      ↓
    RETRY

DETERMINISTIC FAILURE
      ↓
    INVESTIGATE

🕵️ CAPÍTULO 15 — RICK SANCHEZ VIRA ANALISTA DE ABEND

Pipeline:

FAILED

Isso é praticamente inútil sozinho.

Precisamos perguntar:

Onde?
Quando?
Qual stage?
Qual command?
Qual return code?
Qual agent?
Qual commit?
Qual artifact?
Qual dependency?

É exatamente a disciplina que o mainframer já conhece.

Imagine:

JOB FAILED

Tá.

E daí?

Queremos:

JOB
 ↓
STEP
 ↓
ABEND
 ↓
S0C7
 ↓
PROGRAM
 ↓
OFFSET
 ↓
FIELD
 ↓
RECORD
 ↓
ORIGIN

Ou seja:

SYMPTOM ≠ ROOT CAUSE

Um pipeline maduro precisa fornecer evidência suficiente para transformar:

"deu pau"

em:

Security stage failed
      ↓
dependency scan
      ↓
library X
      ↓
critical vulnerability
      ↓
version Y
      ↓
introduced by commit Z

Isso é investigação.


📊 CAPÍTULO 16 — OBSERVE A PRÓPRIA PIPELINE

Aqui existe um nível acima.

Não monitoramos apenas a aplicação.

Monitoramos a fábrica que produz a aplicação.

Podemos acompanhar:

Pipeline Success Rate
Build Duration
Queue Waiting Time
Deployment Frequency
Failure Rate
Rollback Rate
Mean Recovery Time
Flaky Tests
Agent Utilization
Approval Waiting Time

Imagine:

Checkout .......... 1 min
Build ............. 8 min
Tests ............ 14 min
Security .......... 5 min
Package ........... 2 min
Approval ..........32 min
Deploy ............ 7 min
Verify ............ 5 min

Tempo total:

74 minutos

Qual é o gargalo?

Compilador?

Não.

Jenkins?

Não.

Mainframe?

Não.

32 minutos esperando alguém aprovar.

Agora DevOps deixa de ser conversa sobre ferramenta e começa a revelar problemas do fluxo organizacional.

Isso é poderoso.


🧠 CAPÍTULO 17 — O QUE ESTAMOS REALMENTE VERSIONANDO?

Nos velhos tempos poderíamos pensar:

SOURCE CODE

Hoje estamos caminhando para algo muito maior:

Source Code
+
Build Definition
+
Tests
+
Infrastructure
+
Security Policies
+
Deployment Rules
+
Observability

Ou seja:

Não estamos versionando apenas o programa. Estamos tentando versionar o processo pelo qual esse programa nasce, é validado, autorizado, implantado e observado.

Esse é um dos aspectos mais interessantes de Pipeline as Code.

A documentação Jenkins trata o Jenkinsfile justamente como parte versionável do projeto, enquanto a IBM descreve pipelines z/OS combinando Git, DBB e outros componentes de CI/CD. (Jenkins)


🧓 CAPÍTULO 18 — O MAINFRAMER DE 1985 ENTRA NA GARAGEM DO RICK

Agora vem meu Easter Egg favorito.

Coloque um mainframer veterano diante destas expressões:

Pipeline as Code
Infrastructure as Code
Policy as Code
Immutable Artifact
Return Code
Dependency Management
Automated Scheduling
Audit Trail
Separation of Duties
Repeatable Build

Ele talvez fique alguns segundos em silêncio.

Tome um gole de café.

Olhe para Rick.

E diga:

"Então vocês passaram quarenta anos distribuindo tudo para finalmente descobrir que processos declarativos, controlados, auditáveis, repetíveis e cheios de return codes eram uma boa ideia?"

Rick olha para Morty.

Morty olha para Rick.

E ninguém responde.

☕😂

Naturalmente, mainframe tradicional e DevOps moderno são arquiteturas e ecossistemas profundamente diferentes.

Mas existe uma continuidade filosófica fascinante:

REPETIBILIDADE
CONTROLE
AUTOMAÇÃO
RASTREABILIDADE
EVIDÊNCIA

Isso sempre teve enorme valor em sistemas críticos.


🧪 EPÍLOGO — A PIPELINE NÃO TERMINA NO DEPLOY

Aqui está o erro que eu mais gostaria que um Junior Engineer evitasse.

Pensar:

DEPLOY SUCCESS

          FIM

Não.

Eu redesenharia mentalmente a última página do notebook assim:

                 SOURCE
                    ↓
                   GIT
                    ↓
                 JENKINS
                    ↓
             BUILD + TEST
                    ↓
                SECURITY
                    ↓
              QUALITY GATE
                    ↓
                ARTIFACT
                    ↓
              ENVIRONMENTS
                    ↓
                APPROVAL
                    ↓
               PRODUCTION
                    ↓
                 VERIFY
                    ↓
              OBSERVABILITY
                    ↓
          ┌───────────────────┐
          │ SYSTEM HEALTHY ?  │
          └─────────┬─────────┘
              YES   │   NO
               ↓    │    ↓
             DONE   │ RECOVERY
                    │    ↓
                    │ INVESTIGATION
                    │    ↓
                    │ ROOT CAUSE
                    │    ↓
                    └──→ FIX

Porque entregar software não significa apenas copiar um binário.

Significa conseguir demonstrar:

qual código foi utilizado, qual versão foi construída, quais testes foram executados, quais controles foram satisfeitos, qual artefato foi promovido, quem autorizou a mudança, onde ele foi implantado e o que aconteceu depois que usuários reais começaram a utilizá-lo.

É aí que Jenkins deixa de ser "aquele negócio que roda script".

Torna-se parte de uma cadeia de engenharia.

E quando trazemos isso para IBM Z, COBOL, CICS, Db2, MQ e sistemas de pagamentos, percebemos algo ainda mais interessante: não precisamos jogar fora décadas de disciplina operacional para adotar DevOps.

Podemos fazer justamente o contrário.

Podemos combinar:

DISCIPLINA DO MAINFRAME
          +
AUTOMAÇÃO DEVOPS
          +
PIPELINE AS CODE
          +
OBSERVABILIDADE
          =
ENTREGA MODERNA DE SISTEMAS CRÍTICOS

A documentação IBM atual recomenda uma abordagem CI/CD para z/OS que integra SCM baseado em Git, DBB e ferramentas corporativas de pipeline; DBB, inclusive, integra-se a Jenkins por CLI e suporta aplicações tradicionais COBOL e PL/I. (IBM)

E essa talvez seja a grande lição que Rick deixaria antes de desaparecer pelo portal:

"Morty, qualquer idiota consegue automatizar um deploy. Engenharia é automatizar as evidências de que aquilo deveria ter sido implantado — e saber exatamente como reagir quando não deveria."

☕🧪

No Bellacosa Mainframe, eu resumiria em uma frase ainda mais simples:

A PIPELINE NÃO TERMINA QUANDO O DEPLOY TERMINA.

Ela termina quando temos evidências suficientes de que a versão correta foi construída, testada, autorizada, implantada e continua funcionando corretamente em produção.

E se alguém discordar...

Rick já está carregando a portal gun. 🛸

quarta-feira, 1 de dezembro de 2021

A Comunidade LGBT+ e os animes

 


🎭 1. Representação e Identificação

Muitos animes — especialmente os gêneros shoujo, yaoi (BL), yuri (GL), isekai gender-bender, ou slice of life alternativo — exploram temas de identidade, aceitação e transformação, coisas com as quais pessoas LGBT+ frequentemente se identificam.
💡 Exemplo:

  • “Revolutionary Girl Utena” (1997) trata de papéis de gênero e amor fora dos padrões.

  • “Wandering Son (Hourou Musuko)” fala sobre disforia e identidade de gênero.

  • “Given” e “Yuri on Ice” tratam relacionamentos homoafetivos de forma sensível e natural.

Essas obras oferecem espelhos emocionais que nem sempre estão disponíveis em mídias ocidentais.


🧠 2. Espaço Seguro e Comunidade Online

O fandom de anime cresceu em comunidades digitais acolhedoras, especialmente nos anos 2000-2010 (Tumblr, DeviantArt, Twitter, Discord).
Ali, pessoas LGBT+ encontraram um espaço para expressar identidade e criatividade (fanarts, fanfics, cosplay) sem o mesmo julgamento que enfrentavam no mundo real.

💬 É comum ouvir:

“Descobri que era gay enquanto assistia Yuri on Ice.”
“Percebi que era trans porque me identifiquei com Ranma.”


🌈 3. Estética, Liberdade e Androginias

A cultura visual japonesa brinca muito mais com gênero e aparência.
Personagens andróginos, visual kei, bishounen, magical girls, crossplay, tudo isso expande os limites da masculinidade e feminilidade.

💡 Exemplo:

  • Howl, de O Castelo Animado, é um ícone de beleza fluida.

  • Astolfo, de Fate/Apocrypha, virou símbolo de charme andrógino moderno.

Essa fluidez atrai quem se sente fora das caixinhas tradicionais de gênero e orientação.


🎬 4. Dados e Tendências

Pesquisas informais (como enquetes no Reddit, Twitter, e conventions de anime) mostram que a proporção de pessoas LGBT+ em comunidades otaku é bem acima da média populacional.
Mas isso reflete acolhimento e afinidade, não causalidade.


💡 5. Curiosidade Sociológica

Alguns pesquisadores de cultura pop japonesa apontam que:

  • A ficção japonesa permite experimentação identitária num ambiente seguro e simbólico.

  • O Japão, embora ainda conservador em leis LGBT+, produz narrativas que testam limites de gênero muito mais do que o Ocidente fazia até pouco tempo.


☕ Conclusão Bellacosa:

O anime não “cria” LGBT+, mas cria um espelho onde muita gente finalmente se reconhece.

É um espaço de imaginação, empatia e liberdade estética — terreno fértil para quem busca entender e expressar quem é.
Por isso, a conexão entre anime e a comunidade LGBT+ é emocional, simbólica e culturalmente poderosa, não biológica.

Vagner Renato Bellacosa, IBM Champion e especialista em IBM Mainframe
IBM Z17 SYSTEM ONLINE
Sobre o autor

Vagner Renato Bellacosa

IBM Champion 2026 • Especialista em IBM Mainframe

Vagner Renato Bellacosa trabalha com IBM Mainframe desde 1988 , é IBM Champion e especialista em COBOL, CICS, Db2, z/OS e IBM Z. Compartilha experiências profissionais, conhecimento técnico, história da computação e práticas do universo mainframe para aproximar novas gerações das tecnologias que sustentam empresas, bancos e governos ao redor do mundo.

IBM Champion IBM Z COBOL CICS Db2 z/OS Mainframe desde 1988
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