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quinta-feira, 5 de dezembro de 2019

Os Irmãos do Blues do Processamento de Dados Pequena historia dos profissionais de informatica no Brasil

 

Bellacosa Mainframe e a pequena historia do profissional de informatica no Brasil

☕ Um Café no Bellacosa Mainframe

Os Irmãos do Blues do Processamento de Dados

Quando os primeiros profissionais da informática brasileira receberam uma missão: atravessar calculadoras, telégrafos, cartões perfurados, mainframes e cinquenta anos de evolução sem deixar o processamento parar

Era noite.

Em algum lugar do Brasil industrial dos anos 1970, uma impressora de linha martelava milhares de caracteres por minuto. As unidades de fita giravam para frente e para trás como músicos esperando o momento exato de entrar na canção. Luzes piscavam no painel do computador. Um operador carregava um enorme disk pack com as duas mãos, quase como quem transportava um instrumento sagrado.

Do outro lado da parede de vidro, um programador examinava uma listagem contínua coberta de códigos, números de linha e mensagens do compilador.

O programa havia falhado.

Não existia Google.

Não existia Stack Overflow.

Não existia vídeo explicativo.

Não existia inteligência artificial para sugerir a correção.

Existiam apenas o manual, a experiência, o café, a lógica e uma equipe que sabia que precisava colocar aquele sistema novamente em funcionamento antes do amanhecer.

A missão era simples:

fazer o processamento rodar.

O prazo?

Antes que a empresa abrisse as portas.

Os recursos?

Poucos kilobytes de memória, cartões perfurados, fitas magnéticas e uma quantidade quase ilimitada de coragem.

Esta é a história da profissão de informático no Brasil. Uma história que começou muito antes do notebook, do computador pessoal e até mesmo do computador eletrônico. Ela nasceu entre calculadoras mecânicas, máquinas contábeis, telégrafos, ferrovias, fichários e departamentos Hollerith.

É também a história dos perfuradores, conferentes, operadores, programadores, analistas, técnicos de manutenção, administradores de dados e chefes de CPD que transformaram máquinas gigantescas em ferramentas essenciais para o funcionamento do país.

Eles usavam nomes diferentes.

Mas todos faziam parte da mesma banda.


1. Antes do computador, o Brasil já processava dados

Um programador COBOL iniciante pode imaginar que a história da informática começou quando alguém escreveu o primeiro IDENTIFICATION DIVISION.

Não começou.

Muito antes de existirem linguagens de programação, as empresas brasileiras já enfrentavam aquilo que hoje chamaríamos de um problema de escalabilidade.

Imagine uma grande ferrovia.

Ela precisava controlar:

  • milhares de empregados;

  • salários e benefícios;

  • locomotivas;

  • vagões;

  • horários;

  • cargas;

  • passagens;

  • oficinas;

  • ferramentas;

  • peças de reposição;

  • consumo de combustível;

  • manutenção;

  • acidentes;

  • receitas e despesas.

Enquanto uma empresa era pequena, livros contábeis e fichas manuais podiam resolver o problema. Entretanto, quando a organização crescia, o volume de informação tornava o processamento humano lento, caro e sujeito a erros.

O verdadeiro antepassado do profissional de informática não foi apenas o matemático.

Foi também o escriturário.

Era ele quem registrava, classificava, somava, conferia e arquivava informações. Em enormes salas administrativas, dezenas ou centenas de pessoas processavam dados manualmente.

O computador não surgiu primeiro para criar imagens, músicas ou mundos virtuais.

Ele surgiu para vencer filas de documentos.


2. Calculadoras mecânicas: a pré-história do processamento

Antes do computador eletrônico, existiram calculadoras mecânicas e eletromecânicas.

Elas realizavam somas, subtrações e, dependendo do modelo, multiplicações e divisões. Algumas funcionavam por manivelas. Outras utilizavam motores elétricos para movimentar engrenagens, rodas e registradores.

Não eram computadores de propósito geral, mas já introduziam uma ideia revolucionária:

Uma parte do trabalho intelectual poderia ser automatizada por uma máquina.

Para um jovem acostumado com processadores executando bilhões de operações por segundo, pode parecer pouco.

Mas considere o contexto.

Uma folha de pagamento com milhares de funcionários exigia inúmeros cálculos. Um erro poderia significar salário incorreto, imposto indevido ou total contábil incompatível.

A calculadora mecânica diminuía o esforço, mas ainda dependia intensamente do operador.

A pessoa digitava os valores.

A máquina calculava.

A pessoa anotava o resultado.

A informação precisava ser transportada manualmente de um documento para outro.

Era uma arquitetura com alto acoplamento humano.

O usuário funcionava como CPU, memória, barramento e interface.


3. O telégrafo e a primeira rede brasileira

Enquanto máquinas contábeis processavam números, o telégrafo conectava cidades, estações ferroviárias, portos e centros administrativos.

Ele foi uma das primeiras grandes infraestruturas de comunicação de dados.

Sim, caro padawan do COBOL: o telégrafo pode ser entendido como um ancestral distante das redes de computadores.

Uma mensagem era codificada.

Transmitida por um meio físico.

Recebida em outro ponto.

Decodificada.

Confirmada ou retransmitida.

Temos aí vários elementos conhecidos:

  • origem;

  • destino;

  • protocolo;

  • codificação;

  • transmissão;

  • recepção;

  • tratamento de erro;

  • operador.

Quando um telegrafista enviava uma mensagem para organizar a circulação de trens, ele participava de um sistema distribuído.

A diferença é que o middleware usava Código Morse e o operador humano fazia aquilo que hoje seria responsabilidade de um software de comunicação.

A ferrovia, portanto, não transportava apenas pessoas e mercadorias.

Transportava informações.


4. O Departamento Hollerith da Companhia Paulista

É nesse mundo de ferrovias, telégrafos, escrituração e mecanização administrativa que encontramos os departamentos Hollerith.

O nome vinha de Herman Hollerith, criador de sistemas de processamento baseados em cartões perfurados. Sua tecnologia ficou famosa pela utilização no censo norte-americano de 1890 e tornou-se a base de uma indústria de máquinas de tabulação.

No Brasil, grandes organizações passaram a empregar máquinas Hollerith para atividades administrativas. A Companhia Paulista de Estradas de Ferro está ligada a essa história de mecanização do processamento de informações ferroviárias.

O Departamento Hollerith era uma espécie de antepassado do CPD.

Não havia processador eletrônico central.

Havia um conjunto de máquinas especializadas.

Uma perfurava.

Outra conferia.

Outra classificava.

Outra intercalava.

Outra tabulava.

Outra imprimia.

O processamento era realizado como uma linha de montagem.

Observe como isso se aproxima de um pipeline:

Documento de origem
        ↓
Codificação dos dados
        ↓
Perfuração
        ↓
Conferência
        ↓
Classificação
        ↓
Tabulação
        ↓
Relatório

Hoje podemos substituir essas etapas por:

Formulário digital
        ↓
Validação
        ↓
API
        ↓
Fila
        ↓
Processamento
        ↓
Banco de dados
        ↓
Dashboard

A aparência mudou.

A lógica permaneceu.


5. O cartão perfurado: o banco de dados que cabia na mão

O cartão perfurado de 80 colunas tornou-se um dos maiores símbolos da informática corporativa.

Cada posição podia ser perfurada de acordo com um código. Letras, números e símbolos eram representados por combinações de furos.

Para um programador moderno, podemos imaginar um cartão como um registro físico.

Se o cartão representasse um funcionário, suas colunas poderiam ser organizadas assim:

01-06  Matrícula
07-36  Nome
37-44  Data de admissão
45-54  Salário
55-56  Código do departamento
57-80  Informações complementares

Isso é um arquivo de largura fixa.

Quem trabalha com COBOL reconhecerá imediatamente a filosofia.

01 REGISTRO-FUNCIONARIO.
   05 MATRICULA             PIC 9(06).
   05 NOME                  PIC X(30).
   05 DATA-ADMISSAO         PIC 9(08).
   05 SALARIO               PIC 9(08)V99.
   05 COD-DEPARTAMENTO      PIC 9(02).
   05 COMPLEMENTO           PIC X(24).

O cartão perfurado não era apenas mídia.

Ele também influenciou a própria estrutura das linguagens e dos programas.

O formato tradicional do COBOL foi organizado considerando cartões de 80 colunas:

  • colunas 1 a 6: sequência;

  • coluna 7: indicador;

  • colunas 8 a 11: Área A;

  • colunas 12 a 72: Área B;

  • colunas 73 a 80: identificação.

Nada disso nasceu por acaso.

O formato fixo do COBOL é uma lembrança fossilizada do cartão perfurado.

Easter egg desbloqueado: sempre que você encontra um programa COBOL antigo usando colunas rígidas, está olhando para a sombra digital de uma máquina de perfuração.


6. A perfuradora não era uma simples digitadora

Uma das profissões fundamentais daquela época era a de perfurador ou perfuradora.

O programador escrevia o código em folhas de codificação.

Essas folhas eram encaminhadas ao setor de perfuração.

O profissional lia cada linha e a transferia para cartões.

A operação exigia velocidade, atenção e precisão.

Um furo errado poderia transformar:

ADD VALOR-VENDA TO TOTAL-VENDAS

em uma instrução inválida.

Pior: dependendo do erro, o programa poderia ser compilado e produzir um resultado incorreto.

Depois da perfuração vinha a conferência.

Em muitas instalações, outro profissional digitava novamente o conteúdo em uma máquina verificadora. Se a sequência digitada não correspondesse aos furos existentes, a máquina indicava divergência.

Era uma forma humana e mecânica de dupla validação.

Hoje chamamos isso de controle de qualidade.

Naquela época, chamava-se sobrevivência operacional.


7. Quando deixar cair um programa era literalmente possível

Um programa podia ser formado por centenas ou milhares de cartões.

Cada cartão representava uma linha.

Os cartões precisavam permanecer em ordem.

Se a pilha caísse no chão, o programa também caía.

Literalmente.

Por isso as colunas iniciais frequentemente continham números de sequência.

Caso o desastre acontecesse, os cartões poderiam ser classificados novamente por uma máquina sorter.

Essa é uma bela lição para o programador iniciante:

Numeração de sequência não era decoração. Era recuperação de desastre.

Hoje você usa Git.

Naquela época, usava-se disciplina, numeração e caixas de cartão.

A frase “meu código quebrou” tinha outra dimensão.


8. Os primeiros computadores desembarcam no Brasil

A chegada dos computadores eletrônicos ao Brasil ocorreu durante a década de 1950.

Um marco frequentemente citado é a instalação, em 1957, de um computador Univac para o governo do Estado de São Paulo. Pouco depois, em 1959, a Anderson Clayton adquiriu um IBM 305 RAMAC, apontado como o primeiro computador eletrônico instalado no setor privado brasileiro. (Din UEM)

O RAMAC era impressionante porque utilizava armazenamento em disco de acesso aleatório. Sua unidade IBM 350 empregava cinquenta discos magnéticos de grandes dimensões e armazenava poucos megabytes — capacidade minúscula hoje, mas revolucionária naquele contexto. (Wikipédia)

Não pense nesses computadores como PCs enormes.

Eles pertenciam a outro universo operacional.

A empresa não “comprava um computador” como quem compra uma estação de trabalho.

Ela implantava uma infraestrutura.

Era necessário preparar:

  • sala especial;

  • alimentação elétrica;

  • climatização;

  • piso;

  • cabeamento;

  • procedimentos;

  • operadores;

  • técnicos;

  • programadores;

  • métodos de segurança;

  • rotinas de backup.

A chegada do computador criava um novo departamento e uma nova cultura.


9. O CPD entra no palco

O Centro de Processamento de Dados, o famoso CPD, tornou-se o coração informacional das organizações.

Ali ficavam:

  • a unidade central;

  • leitoras de cartões;

  • perfuradoras;

  • impressoras de linha;

  • unidades de fita;

  • discos removíveis;

  • consoles;

  • painéis;

  • formulários contínuos;

  • armários de documentação.

O CPD era cercado por respeito e mistério.

Possuía acesso controlado.

Em muitos ambientes havia paredes de vidro separando os visitantes das máquinas.

O ar-condicionado era intenso.

Os operadores usavam roupas adequadas ao ambiente e, em algumas empresas, jalecos.

As máquinas produziam uma trilha sonora própria:

clac-clac-clac dos cartões,

vrummm das fitas,

trrrrrrrrr das impressoras,

bip do console.

Era rhythm and blues em código binário.

Uma banda inteira tocando para fechar a folha de pagamento.


10. IBM System/360: a grande banda entra em cena

Em 1964, a IBM anunciou a família System/360.

O nome representava a ambição de cobrir uma ampla variedade de aplicações: negócios, ciência, indústria e governo.

O conceito de família compatível foi revolucionário.

Antes disso, migrar para uma máquina maior frequentemente exigia reescrever programas. Com o System/360, a IBM buscava permitir que clientes evoluíssem dentro de uma arquitetura comum.

No Brasil, sistemas dessa família chegaram a bancos, indústrias, siderúrgicas, universidades e órgãos públicos.

Para empresas como a Mannesmann, o mainframe tornou-se parte da infraestrutura industrial.

Ele processava:

  • produção;

  • estoques;

  • custos;

  • materiais;

  • compras;

  • folha de pagamento;

  • contabilidade;

  • faturamento;

  • manutenção.

O computador deixava de ser uma curiosidade tecnológica.

Tornava-se sistema nervoso corporativo.


11. Uma carteira de trabalho assinada em 1975

Quando alguém olha para uma carteira de trabalho assinada em 1975 com uma função relacionada a processamento de dados, não está vendo apenas um registro profissional.

Está vendo um documento arqueológico da informática brasileira.

A pessoa que ingressava em um CPD naquela época encontrava um mundo sem interfaces amigáveis.

Aprender significava:

  1. observar profissionais experientes;

  2. estudar manuais;

  3. decorar códigos;

  4. entender formulários;

  5. acompanhar operações;

  6. interpretar mensagens;

  7. registrar procedimentos;

  8. errar com cuidado;

  9. nunca repetir o mesmo erro;

  10. respeitar a produção.

No CPD da Mannesmann, diante de um IBM System/360, as limitações de memória não eram uma abstração acadêmica.

Eram parte de cada decisão.

Uma tabela muito grande podia não caber.

Um programa mal estruturado podia consumir recursos preciosos.

Um excesso de operações de entrada e saída podia aumentar o tempo de execução.

Um erro na definição de arquivo podia interromper toda uma cadeia de processamento.

Essa escola criava um tipo específico de profissional:

alguém que pensava antes de executar.


12. O programador não começava programando

O caminho profissional podia começar em várias funções:

Auxiliar administrativo
        ↓
Perfurador
        ↓
Conferente
        ↓
Operador
        ↓
Programador trainee
        ↓
Programador júnior
        ↓
Programador pleno
        ↓
Programador sênior
        ↓
Analista de sistemas

Nem todas as carreiras seguiam exatamente essa ordem, mas era comum o conhecimento ser adquirido dentro da empresa.

O profissional conhecia primeiro a operação.

Depois aprendia a lógica.

Depois recebia pequenas alterações.

Mais tarde criava programas completos.

Isso tinha uma vantagem enorme: muitos programadores entendiam profundamente como o sistema era executado.

Eles sabiam o que acontecia antes e depois de seu código.

Sabiam quem montava a fita.

Sabiam onde o relatório era entregue.

Sabiam qual departamento dependia do processamento.

Hoje um desenvolvedor pode executar uma aplicação sem conhecer a infraestrutura.

Naquela época, software e operação viviam quase grudados.

Era DevOps antes do nome DevOps.


13. A folha de codificação: programar antes de digitar

O programa começava no papel.

O analista descrevia o problema.

Criava fluxogramas.

Definia arquivos.

Desenhava relatórios.

Especificava validações.

O programador recebia essas informações e escrevia o código em folhas de codificação.

Cada linha era planejada.

Depois a folha seguia para perfuração.

Esse processo podia levar horas ou dias até a primeira compilação.

Portanto, escrever código sem pensar era muito caro.

Considere um ciclo típico:

Especificação
     ↓
Fluxograma
     ↓
Teste de mesa
     ↓
Folha de codificação
     ↓
Perfuração
     ↓
Conferência
     ↓
Montagem do deck
     ↓
Submissão
     ↓
Compilação
     ↓
Listagem
     ↓
Correção

Hoje o compilador responde em segundos.

Naquela época, o programador podia entregar o job e aguardar uma janela de processamento.

O erro voltava impresso.

A depuração era feita examinando papel.


14. O teste de mesa: o debugger dentro da cabeça

Antes de submeter o programa, o profissional realizava o teste de mesa.

Ele simulava manualmente a execução.

Suponha o seguinte trecho:

MOVE 0 TO TOTAL-GERAL

PERFORM UNTIL FIM-ARQUIVO = 'S'
    READ ARQUIVO-VENDAS
        AT END
            MOVE 'S' TO FIM-ARQUIVO
        NOT AT END
            ADD VALOR-VENDA TO TOTAL-GERAL
    END-READ
END-PERFORM

No teste de mesa, o programador criava uma pequena tabela:

Registro   Valor   Fim?   Total
1          100     N      100
2          250     N      350
3           50     N      400
EOF        ---     S      400

Ele verificava cada mudança de variável.

Isso revelava loops infinitos, totais incorretos, condições erradas e registros processados duas vezes.

Dica Bellacosa para o iniciante:

Quando um programa COBOL parecer misterioso, execute cinco registros no papel. O papel não mente e não esconde estado.


15. O operador: maestro da sala de máquinas

O operador não era alguém que apenas apertava ENTER.

Ele controlava a execução física e lógica do ambiente.

Suas tarefas podiam incluir:

  • iniciar equipamentos;

  • carregar o sistema;

  • montar fitas;

  • instalar disk packs;

  • alimentar leitoras;

  • retirar listagens;

  • controlar filas;

  • responder a mensagens;

  • registrar falhas;

  • reiniciar jobs;

  • comunicar incidentes;

  • executar rotinas de backup.

Imagine um job solicitando:

MOUNT TAPE PAYR01 ON UNIT 480

Alguém precisava localizar a fita correta, conferir sua etiqueta, montá-la na unidade e responder ao sistema.

A automação dependia de mãos humanas.

O operador era parte do fluxo de execução.

Se ele montasse a fita errada, o sistema poderia ler informações incorretas.

Por isso existiam procedimentos rigorosos.

O CPD ensinou cedo uma lição que a nuvem às vezes faz esquecer:

Infraestrutura abstrata continua sendo infraestrutura real em algum lugar.


16. Disk packs: o disco removível com peso de responsabilidade

Antes dos pequenos discos rígidos modernos, eram comuns conjuntos removíveis de discos magnéticos.

Os disk packs possuíam múltiplos pratos.

O operador os transportava em recipientes protetores e os instalava em unidades específicas.

Cada superfície podia armazenar dados.

Uma poeira, um impacto ou uma instalação inadequada podia causar danos.

A troca de um volume não era um clique.

Era uma operação física.

Hoje montamos um volume em cloud computing usando uma instrução ou console.

Naquela época, “montar o volume” significava literalmente pegar o volume com as mãos.

Outro easter egg tecnológico:

O verbo mount, usado até hoje em sistemas operacionais, preserva a memória de uma época em que mídias precisavam ser fisicamente montadas.


17. Fitas magnéticas e o pensamento sequencial

As fitas magnéticas foram fundamentais.

Elas ofereciam boa capacidade para a época e eram úteis para:

  • arquivos históricos;

  • backups;

  • processamento em lote;

  • transferência;

  • entrada e saída de grandes volumes.

Mas a fita era sequencial.

Para chegar ao registro desejado, era necessário percorrer os anteriores.

Esse comportamento influenciou profundamente os programas COBOL.

Muitos sistemas eram desenhados para ler dois arquivos ordenados e realizar casamento de registros.

Exemplo:

Arquivo de clientes
+ 
Arquivo de pagamentos
=
Relatório de clientes pagos e inadimplentes

O algoritmo caminhava pelos dois arquivos em ordem de chave.

Essa técnica continua valiosa.

Ela ensina que a melhor solução depende das características do armazenamento.

Não existe algoritmo isolado da infraestrutura.


18. O analista de sistemas: tradutor entre dois mundos

Com o crescimento dos sistemas, tornou-se necessário separar responsabilidades.

O analista conversava com as áreas de negócio.

Ele precisava compreender:

  • como a empresa funcionava;

  • quais documentos existiam;

  • quais regras eram aplicadas;

  • onde ocorriam erros;

  • quais relatórios eram necessários;

  • quais arquivos deveriam ser criados;

  • quais controles seriam obrigatórios.

Depois transformava isso em especificação técnica.

O analista era um tradutor.

De um lado, o usuário dizia:

“Preciso impedir o faturamento de clientes bloqueados.”

Do outro, o programador precisava receber algo como:

Se o código de situação do cliente for diferente de 01,
rejeitar a transação, registrar ocorrência e emitir mensagem 145.

Boa análise elimina ambiguidade.

Esse princípio continua absolutamente atual.

Um requisito ruim em 1975 gerava um programa errado.

Um requisito ruim em 2026 gera um microsserviço errado muito mais rapidamente.


19. Os primeiros cursos e a formação prática

Durante os primeiros anos, a indústria formava grande parte de seus profissionais.

Fabricantes ofereciam treinamento.

Empresas criavam programas internos.

Manuais técnicos circulavam entre equipes.

Os primeiros cursos superiores brasileiros voltados especificamente à computação surgiram no final da década de 1960. Estudos históricos apontam a criação, em 1969, de cursos de graduação plena na Unicamp e na Universidade Federal da Bahia. (HCTE UFRJ)

Até que essa formação se difundisse, os profissionais pioneiros precisavam vir de outras áreas:

  • engenharia;

  • matemática;

  • administração;

  • contabilidade;

  • estatística;

  • operação de máquinas;

  • funções administrativas.

A informática brasileira foi construída por uma tripulação heterogênea.

Não havia uma estrada pronta.

Eles desenharam a estrada enquanto dirigiam.


20. Uma correção histórica importante sobre 1985

Aqui precisamos ajustar uma informação frequentemente repetida.

O Decreto nº 91.250, de 17 de maio de 1985, não regulamentou de forma ampla e definitiva o exercício das profissões de informática no setor privado brasileiro.

Ele alterou dispositivos do Decreto nº 83.989, de 1979, relacionados a categorias funcionais e requisitos de ingresso no serviço público federal. Entre as alterações, incluiu o curso de Tecnólogo em Processamento de Dados entre as formações aceitas para a categoria funcional de Analista de Sistemas. (Presidência da República)

Portanto, a interpretação mais precisa é:

O decreto contribuiu para organizar e reconhecer cargos de informática dentro da estrutura funcional federal, mas não criou uma regulamentação geral da profissão de programador ou analista para todo o mercado brasileiro.

A regulamentação ampla das profissões de informática continuou sendo objeto de debates e projetos legislativos posteriores. (Legis Senador)

Isso não diminui a importância histórica de 1985.

Pelo contrário.

Mostra como o Estado precisou adaptar suas estruturas administrativas ao crescimento de uma atividade que já existia havia décadas.

A profissão surgiu primeiro.

A legislação tentou alcançá-la depois.


21. O veterano sem diploma específico não era improvisado

Quando se fala em reconhecer experiência profissional, é preciso evitar um erro comum.

O pioneiro que não possuía diploma de Ciência da Computação não era necessariamente alguém sem formação.

Muitos eram engenheiros, matemáticos, administradores, contadores ou técnicos altamente especializados.

Outros haviam aprendido integralmente dentro das empresas.

Eles acumulavam milhares de horas de prática.

Conheciam máquinas que exigiam domínio simultâneo de:

  • lógica;

  • hardware;

  • armazenamento;

  • operação;

  • linguagem;

  • negócio;

  • contingência;

  • documentação.

O mercado não podia simplesmente declarar:

“Agora existe um curso; tudo o que veio antes deixou de valer.”

Seria como construir uma ponte e depois informar aos engenheiros que fizeram a obra que sua experiência não conta.

O reconhecimento da experiência preservava a memória técnica das organizações.


22. A reserva de mercado e a informática nacional

Durante parte das décadas de 1970 e 1980, o Brasil adotou políticas de proteção à indústria nacional de informática.

A intenção era reduzir dependência externa e desenvolver capacidade tecnológica local.

Esse movimento ajudou a estimular empresas, pesquisas e projetos nacionais, mas também limitou o acesso a certos equipamentos estrangeiros, aumentou custos e criou diferenças tecnológicas em relação aos principais mercados mundiais.

Foi uma história cheia de contradições.

De um lado:

  • formação de engenheiros;

  • criação de empresas nacionais;

  • desenvolvimento de hardware;

  • pesquisa universitária;

  • domínio local de tecnologias.

Do outro:

  • equipamentos caros;

  • atraso em determinados segmentos;

  • restrições de importação;

  • compatibilidades problemáticas;

  • mercado paralelo.

Em 1972, o Patinho Feio, desenvolvido na Universidade de São Paulo, tornou-se um símbolo do esforço brasileiro de projetar computadores. O projeto nasceu no ambiente acadêmico da Escola Politécnica da USP e deixou um legado importante para ensino e indústria. (Revista Pesquisa Fapesp)

A informática nacional não foi apenas uma tentativa de copiar máquinas.

Foi também um laboratório de formação humana.


23. A grande migração: do cartão para o terminal

Com a popularização dos terminais, especialmente famílias como o IBM 3270, a relação entre o programador e o computador mudou.

Antes:

Papel → perfuração → cartão → leitora → compilação → listagem

Depois:

Terminal → editor → submissão → spool → correção

O ciclo encurtou.

Ferramentas como TSO e ISPF transformaram o desenvolvimento em mainframe.

O código passou a ser editado diretamente em datasets.

O programador podia consultar a saída no spool.

Alterar uma linha tornou-se muito mais rápido.

Mas os hábitos do cartão continuaram presentes:

  • colunas;

  • largura fixa;

  • sequência;

  • datasets;

  • jobs;

  • relatórios;

  • processamento batch.

A nova tecnologia não apagou a anterior.

Construiu sobre ela.


24. Cinquenta anos de armazenamento

Uma pessoa que iniciou a carreira em 1975 pôde testemunhar uma das maiores transformações materiais da história.

Ela atravessou:

Cartão perfurado
      ↓
Fita magnética
      ↓
Disk pack
      ↓
Disquete
      ↓
Disco rígido
      ↓
RAID
      ↓
Storage corporativo
      ↓
SAN
      ↓
SSD
      ↓
NVMe
      ↓
Object storage
      ↓
Cloud computing

No cartão, o dado era visível como um furo.

Na fita, era uma sequência magnética.

No disco, ocupava trilhas e setores.

Na nuvem, parece não possuir localização física.

Mas ainda está armazenado em algum dispositivo.

A nuvem não eliminou o hardware.

Apenas colocou o hardware atrás de uma API.


25. O que o programador COBOL iniciante deve aprender com os pioneiros

Passo 1 — Entenda o negócio

Não comece apenas pela sintaxe.

Descubra:

  • quem usa o programa;

  • qual processo ele atende;

  • quais dados recebe;

  • qual resultado produz;

  • o que acontece quando falha.

Passo 2 — Leia o layout do arquivo

Em COBOL, dados são arquitetura.

Analise:

  • PIC;

  • tamanho;

  • sinal;

  • casas decimais;

  • campos redefinidos;

  • níveis;

  • campos de controle.

Passo 3 — Faça um teste de mesa

Pegue poucos registros.

Simule:

  • entrada;

  • condições;

  • cálculos;

  • saída;

  • fim de arquivo.

Passo 4 — Conheça o JCL

O programa não vive sozinho.

O JCL informa:

  • qual programa executar;

  • quais arquivos utilizar;

  • onde estão os dados;

  • o que fazer com a saída;

  • quais recursos serão necessários.

Passo 5 — Leia o spool

Não procure apenas a última mensagem.

Examine:

  • etapas executadas;

  • códigos de retorno;

  • mensagens;

  • alocações;

  • estatísticas;

  • dumps.

Passo 6 — Respeite a produção

Nunca trate uma alteração como “apenas uma linha”.

Uma linha pode afetar:

  • milhões de registros;

  • milhares de clientes;

  • fechamento contábil;

  • pagamento;

  • faturamento;

  • obrigação legal.

Passo 7 — Documente

O profissional seguinte talvez seja você mesmo seis meses depois.

Escreva para que ele entenda.


26. Curiosidades da estrada mainframe

O formulário contínuo tinha personalidade

Impressoras de linha utilizavam papel contínuo com furos laterais. Relatórios gigantes podiam ocupar caixas inteiras.

O erro podia chegar de carrinho

Listagens volumosas eram transportadas em carrinhos dentro de grandes CPDs.

O som ajudava no diagnóstico

Operadores experientes reconheciam anormalidades pelo ruído das unidades e impressoras.

A mídia tinha biblioteca

Fitas e discos eram armazenados, catalogados, emprestados e devolvidos como livros.

Backup era uma operação física

Copiar dados significava usar dispositivos, mídias, tempo de máquina e procedimentos formais.

O café era um componente crítico

Não aparece no diagrama da arquitetura, mas sustentou muitas janelas batch.


27. Easter egg: estamos em uma missão de Deus?

Os protagonistas de uma famosa comédia musical de 1980 cruzam estradas, reúnem antigos companheiros e enfrentam obstáculos absurdos para salvar aquilo em que acreditam.

A geração pioneira da informática brasileira também recebeu uma missão.

Não usava um automóvel preto atravessando Chicago.

Usava ônibus, trem, fusca, crachá e relógio de ponto.

Não precisava reunir uma banda.

Precisava reunir:

  • o analista;

  • o programador;

  • o perfurador;

  • o conferente;

  • o operador;

  • o técnico;

  • o usuário;

  • o chefe do CPD.

Quando todos trabalhavam em harmonia, o processamento entrava no ritmo.

Quando um deles saía do compasso, aparecia o ABEND.

A diferença entre uma banda e um CPD talvez seja menor do que parece.

Ambos exigem sincronização.

Ambos dependem de disciplina.

Ambos possuem bastidores invisíveis.

E ambos podem ser destruídos por alguém que entra no momento errado.


28. O verdadeiro mainframe sempre foi humano

É tentador contar a história da informática como uma sequência de máquinas.

Hollerith.

UNIVAC.

RAMAC.

System/360.

System/370.

308X.

ES/9000.

S/390.

IBM Z.

Mas máquinas não escrevem sua própria história.

Foram pessoas que decidiram como utilizá-las.

Pessoas perfuraram cartões.

Pessoas carregaram discos.

Pessoas interpretaram dumps.

Pessoas enfrentaram madrugadas.

Pessoas explicaram sistemas.

Pessoas ensinaram colegas.

Pessoas preservaram programas.

Pessoas migraram dados.

Pessoas impediram que décadas de conhecimento fossem perdidas.

O profissional que começou em 1975 e chegou à computação em nuvem não atravessou apenas mudanças de equipamento.

Atravessou diferentes maneiras de imaginar o que é informação.

Primeiro, a informação era um documento.

Depois, um furo.

Depois, um campo magnético.

Depois, um registro.

Depois, uma tabela.

Depois, um objeto.

Depois, um evento distribuído.

Mas, em todas as épocas, alguém precisou responder às mesmas perguntas:

  • O dado está correto?

  • O processamento terminou?

  • O resultado pode ser confiado?

  • Existe recuperação?

  • Quem será afetado?

  • O que faremos se falhar?


Conclusão: todos fazem parte da mesma banda

A história da profissão de informático no Brasil não começa no Vale do Silício.

Começa também nas ferrovias, nos escritórios, nos bancos, nas siderúrgicas, nas repartições públicas, nas universidades e nos departamentos Hollerith.

Começa com pessoas que mecanizaram cálculos.

Continua com perfuradores que transformaram papel em dados.

Avança com operadores que comandaram salas cheias de máquinas.

Ganha lógica com programadores que escreveram sistemas em Assembler, COBOL, FORTRAN e RPG.

Ganha visão com analistas que converteram processos empresariais em especificações.

Ganha escala com os grandes mainframes.

Ganha alcance com redes e terminais.

Ganha velocidade com discos e servidores.

Ganha abstração com virtualização e nuvem.

E chega ao presente com ambientes distribuídos, inteligência artificial e armazenamento aparentemente infinito.

Entretanto, a essência permanece.

Informática continua sendo a arte de transformar uma necessidade humana em uma sequência confiável de operações.

Por isso, olhar para uma carteira de trabalho assinada em 1975 não é praticar nostalgia vazia.

É reconhecer um documento de fundação.

Aquela assinatura pertence a uma geração que entrou em CPDs quando o conhecimento ainda precisava ser descoberto, traduzido e transmitido de pessoa para pessoa.

Uma geração que programava na raça.

Que respeitava cada byte.

Que sabia o peso de um disco.

Que conhecia o valor de uma fita.

Que entendia o silêncio de uma máquina parada.

Que não precisava chamar tudo de “missão crítica”, porque sabia que, se o processamento não terminasse, alguém não receberia, uma fábrica não faturaria ou um banco não fecharia.

A nova geração precisa conhecer essa história não para repetir suas limitações, mas para herdar suas virtudes:

disciplina,

curiosidade,

responsabilidade,

capacidade de análise,

respeito aos dados,

e coragem para enfrentar sistemas que parecem impossíveis.

Portanto, coloque os óculos escuros.

Ajuste o chapéu.

Confira o JCL.

Monte a fita.

Não derrube os cartões.

Temos memória limitada, uma janela batch fechando, centenas de quilômetros de história pela frente e um sistema inteiro esperando para ser processado.

Estamos em uma missão.

Fazer o conhecimento dos pioneiros continuar rodando.

Conheça um pouco sobre o Cobol

 https://eljefemidnightlunch.blogspot.com/2009/04/cobol-uma-odisseia-de-1959-ao-ibm-z.html

terça-feira, 3 de dezembro de 2019

🔥 PUDDING JAPONÊS — O “flan supremo” dos animes,



🔥 PUDDING JAPONÊS — O “flan supremo” dos animes, explicado ao estilo Bellacosa Mainframe para o blog El Jefe Midnight Lunch 🔥
(em primeira pessoa, porque memória boa a gente serve quentinha)


Sabe quando você está maratonando anime — aquele slice of life gostosinho, ou mesmo um shounen pancadaria — e do nada aparece um potinho transparente com um flan tremelicando perigosamente? Aquele dourado brilhante, coberto por uma caldinha marrom que parece ter 99% de açúcar e 1% de magia? Pois é, meus otakus padawans… aquilo é o lendário Pudding Japonês.

Ou, como dizem por lá: プリン (Purin).
Sim, “purin” — porque o Japão tem o superpoder de pegar palavras ocidentais e transformá-las em fofura.




🥮 O QUE DIABOS É O PURIN?

Pensa no nosso pudim brasileiro?
Pois tire o leite condensado, tire o furo no meio, reduza 50% da alma brasileira e adicione:

  • consistência mais firme, porém tremelicante;

  • muito ovo (mas com sabor suave);

  • calda de caramelo mais líquida;

  • formato individual;

  • e aquele brilho que parece que ele foi renderizado com Ray Tracing.

Ele está mais para uma fusão entre flan francês + geleia firme + magia das obachan.


🧪 ORIGEM — ou como o Japão fez do pudim um evento cultural

O purin chegou ao Japão no período Meiji (lá por 1870), quando o país abriu as portas para as influências ocidentais. Os japoneses, meticulosos como bons “engenheiros do sabor”, ajustaram a receita para ficar:

  • mais suave,

  • mais firme,

  • mais fácil de industrializar,

  • e perfeita para aparecer em 10.000 animes por ano.

Nas décadas de 1950–60, com o boom dos konbini (lojinhas de conveniência), ele se tornou o lanche portátil número 1. Assim como o cartão perfurado no mainframe, o pudim virou onipresente.


📺 PUDDING NOS ANIMES — onde ele brilhou

Esse glorioso flan animado é praticamente um NPC recorrente do Japão. Alguns momentos clássicos:

🍮 Purin do Shin-Chan

Shin-chan vive roubando o pudim do pai. Clássico supremo da cultura otaku.

🍮 Purin no Pokémon

Jigglypuff é chamado de Purin no original (isso mesmo!).
O nome é literalmente “PU-DIM”.
Coincidência? Eu acho é que o bicho foi modelado num flan 3D.

🍮 Sailor Moon

Usagi, sempre faminta, devorava purin como se fosse XP.

🍮 Anya de Spy x Family

Só falta fazer contrato JCL pra garantir o estoque de pudim daquela criança.
Purin é praticamente moeda de troca emocional da Anya.

🍮 Cardcaptor Sakura

Tomoyo sempre aparecia com lanches sofisticados. Claro que o pudim desfilava lá no meio.

🍮 Animes escolares

Em 99,99% deles, sempre tem:

  • o pudim do konbini,

  • o pudim caseiro da mãe amorosa,

  • ou o pudim roubado pelo protagonista bobão.


🧐 CURIOSIDADES, BUGS E EASTER EGGS OTÁKICOS

💡 1. O purin aparece como símbolo de “doçura infantil”
Se o anime quer mostrar inocência, conforto ou algo “fofinho”, prepara que o pudim vem.

💡 2. Existe “Purin Gigante”
No Japão tem versões MONSTRUOSAS, do tamanho de um volume 327 do manual do RACF.
Anime que é anime sempre mostra um desses.

💡 3. O purin virou meme de “item de cura”
Em jogos e animes, comer purin recupera energia.
Se fosse no mainframe, recuperaria MIPS.

💡 4. Purin é usado como punição
Sabe quando alguém come o pudim do outro da geladeira?
No Japão isso é TRETA nível CICS degradando recurso.
É sério. Rola briga familiar por causa disso.

💡 5. Tem purin “premium premium”
Feitos com ovos especiais, leite Hokkaido, calda artesanal…
O Japão conseguiu transformar pudim em artigo de luxo.


🍮 COMO SABOREAR COMO UM VERDADEIRO OTAKU

✔ Coma geladinho, de colherinha pequena
✔ Comece pela borda para soltar aquela tremidinha hipnotizante
✔ Não misture tudo — é pecado
✔ Se der pra comer no konbini, sentado na calçada… XP aumenta +10


🔧 DICAS BELLACOSA MAINFRAME

Se pudim fosse job JCL seria:

//PUDIM EXEC FLANPROC //OVOS DD DISP=SHR //ACUCAR DD DISP=SHR //LEITE DD DISP=SHR //TEMPO DD DLY=’00:45’ //SAIDA DD SYSOUT=P

E sempre teria um abend chamado:
S0P1 – Someone ate your pudding before you.


❤️ FECHANDO O POST — MEMÓRIA AFETIVA MODE ON

Eu sempre falo que comida boa vira checkpoint da vida.
E o purin japonês virou, para nós otakus, aquele dump de memória afetiva que aparece do nada e traz um sorriso instantâneo.

Toda vez que vejo um potinho tremendo num anime, lembro que:

  • a vida precisa de doçura,

  • de pausas

  • e de pequenos prazeres simples…

…até porque não dá pra viver só de manuais de 300 páginas, CICS, JCL e dumps infernais.

Às vezes, tudo que a gente precisa é um purin geladinho na noite de sábado, como nos velhos animes da juventude.


segunda-feira, 2 de dezembro de 2019

☕💥 A Jornada do Padawan COBOL – Parte 12 Desvendando o Universo dos CALLs no Mainframe

 

Bellacosa Mainframe e o call em cobol parte xii

☕💥 A Jornada do Padawan COBOL – Parte 12

Desvendando o Universo dos CALLs no Mainframe

PSA, CVT, ASCB, TCB, RB, ACEE, CSA, ECSA, LSQA, SQA e os Mistérios dos Control Blocks que Sustentam o z/OS

Ou como descobrir que existe um universo inteiro escondido em endereços hexadecimais que praticamente nenhum desenvolvedor COBOL vê

Por Vagner Bellacosa – Bellacosa Mainframe


O Dia em que o Padawan Descobre o Lado Oculto do z/OS

Depois de onze capítulos, o Padawan já acredita compreender bastante coisa.

Conhece:

✅ CALL

✅ LE

✅ CICS

✅ JES2

✅ GRS

✅ VVDS

✅ RMF

✅ SMF

✅ Telum

Até que um Sysprog abre IPCS.

Digita:

IP XDATA

E aparece:

PSA
CVT
TCB
ASCB
ACEE
RB

Padawan:

— O que é isso?

Veterano:

— O esqueleto do z/OS.


O Grande Segredo

No Mainframe tudo é Control Block.

Tudo.

Usuário.

Job.

CPU.

Storage.

Segurança.

Dataset.

Task.

Transação.

Tudo.


Visualmente


Programa COBOL

↓

TCB

↓

ASCB

↓

CVT

↓

PSA

↓

Hardware


PSA

Processor Storage Area


O primeiro bloco.

O mais importante.


Endereço:

00000000

Existe uma PSA.

Por processador.


Contém:

PSW

Interrupções

TCB Atual

Old PSW

New PSW

Save Areas


O PSW

Program Status Word


Coração da CPU.


Possui:

Endereço instrução

Modo

Máscaras

Estado


Exemplo

078D1000 80000000

Veteranos gostam.

Muito.


CVT

Communications Vector Table


O GPS do z/OS.


Tudo aponta.

Para CVT.


CVT aponta.

Para:

SMCA

JES

TCB

ASVT

Catalog

LPDB

CSA


Como encontrar

Assembler

L R1,CVTPID

IPCS também.


ASCB

Address Space Control Block


Representa.

Address Space.


Exemplo

TSO

DBM1

CICSA

JES2


Cada um.

Tem.

ASCB.


Contém

Nome

ASID

Usuário

TCBs

Storage


TCB

Já vimos.

Mas agora.

Internamente.


Task Control Block


Representa.

Thread.

Execução.

Task.


Contém.

Registradores.

Prioridade.

PSW.

RB.


RB

Request Block


Histórico.

Execução.


CALL.

Empilha RB.

Retorno.

Desempilha.


Visualmente


MAIN

↓

RB

↓

CALL A

↓

RB

↓

CALL B

↓

RB


ACEE

Accessor Environment Element


Favorito do RACF.


Representa.

Usuário.


Possui:

Userid

Groups

Permissões

Security Label


Quando faz:

TSO LOGON

ACEE nasce.


CSA

Common Storage Area


Memória compartilhada.


Todos acessam.


Perigosa.


Corrupção.

Pode derrubar sistema.


ECSA

Extended CSA


Versão ampliada.


Maior.

Melhor.


SQA

System Queue Area


Storage crítico.


Kernel usa.


Pouco espaço.

Muito importante.


LSQA

Local System Queue Area


Privada.

Por Address Space.


Subpools

Veteranos gostam.

Muito.


Exemplo

229

230

241


Storage.

Especializado.


Save Area

Assembler clássico.


72 bytes.


Exemplo

STM 14,12,12(13)

Salva.

Contexto.


IPCS

Melhor amigo.

Do Sysprog.


Pode mostrar.

PSA

TCB

ASCB

RB

ACEE


Exemplo

IP MTRACE

CEEDUMP

Também ajuda.


Mostra.

Stack.

Call chain.

Offsets.


O caminho de um CALL

Padawan escreve:

CALL 'PAGTO'

Internamente.

Pode ocorrer.


COBOL

↓

LE

↓

TCB

↓

RB

↓

PSW

↓

CPU

↓

RETURN



Tudo.

Em microssegundos.


O grande erro

Padawan pensa.

CALL é simples.

Veterano pensa.

CALL cria.

RB.

Storage.

Stack.

TCB Activity.

LE.

Heap.

PSW Update.


Ferramentas Jedi

IPCS

AMBLIST

CEEDUMP

RMF

SMF

VERBX

TRACE


Easter Egg Mainframe

Existe um grupo.

Capaz de olhar.

Isto.

TCB

RB

ACEE

PSA

CVT

ASCB

E dizer.

Em cinco minutos.

Quem é usuário.

Qual programa.

Onde caiu.

Quanto storage.

Qual PSW.

Qual registrador.


São conhecidos.

Como.

Os Senhores dos Control Blocks


Checklist Jedi

✅ Entender PSA

✅ Conhecer CVT

✅ Aprender ASCB

✅ Estudar TCB

✅ Entender RB

✅ Conhecer ACEE

✅ Respeitar CSA

✅ Estudar LSQA

✅ Explorar IPCS

✅ Ler CEEDUMP

✅ Conhecer Subpools


Filosofia Jedi – Parte 12

O Padawan acredita:

z/OS executa programas.

O Desenvolvedor experiente pensa:

z/OS gerencia recursos.

O Sysprog compreende:

z/OS é uma gigantesca coleção de Control Blocks conversando entre si.

E o Arquiteto IBM Z sabe que, por trás de um simples:

CALL 'SUBPGM'

existe um universo de PSA, CVT, TCB, RB, ACEE, Save Areas, registradores, PSWs e estruturas de controle que sustentam alguns dos sistemas mais importantes do planeta.




sábado, 30 de novembro de 2019

Shinchou Yuusha: Kono Yuusha ga Ore Tsueee Kuse ni Shinchou Sugiru

 

Bellacosa Mainframe apresenta o anime Shinchou Yuusha

☕ Um Café no Bellacosa Mainframe

Shinchou Yuusha: Kono Yuusha ga Ore Tsueee Kuse ni Shinchou Sugiru

Quando a Prudência Vale Mais que o Poder

O Guia Definitivo para o Programador COBOL Padawan Entender que Nem Todo Herói Corre para Produção sem Testar

"A pressa é inimiga da perfeição. No mainframe, ela também pode ser inimiga da produção."


Ficha Técnica

Título original:
慎重勇者 ~この勇者が俺TUEEEくせに慎重すぎる~

Romanização:
Shinchou Yuusha: Kono Yuusha ga Ore Tsueee Kuse ni Shinchou Sugiru

Título internacional:
Cautious Hero: The Hero Is Overpowered but Overly Cautious

Autor da Light Novel
Light Tuchihi

Ilustrações
Saori Toyota

Publicação da Light Novel
2017

Anime

  • Estúdio: White Fox

  • Diretor: Masayuki Sakoi

  • Roteiro: Kenta Ihara

  • Música: Yoshiaki Fujisawa

  • Exibição:
    2 de outubro de 2019 a 27 de dezembro de 2019

  • Episódios: 12

  • Duração média: 24 minutos

  • Classificação indicativa: aproximadamente 12+ / TV-14, dependendo da região. (infoanime.com.br)


Gênero

Mistura diversos estilos:

  • Isekai

  • Fantasia

  • Comédia

  • Aventura

  • Paródia

  • RPG

  • Ação

Mas limitar Shinchou Yuusha a "mais um isekai" seria um enorme erro.

Na verdade ele é uma crítica inteligente ao próprio gênero.


Sinopse

A deusa Ristarte recebe a missão de salvar o mundo de Gaeabrande.

Como o mundo possui dificuldade "S", ela decide convocar um herói extremamente poderoso.

Ela encontra Seiya.

Status absurdamente elevados.

Força gigantesca.

Magia devastadora.

Tudo perfeito...

...até descobrir um pequeno detalhe.

Ele é absurdamente paranoico.


Antes de enfrentar um simples slime ele prefere:

  • treinar durante dias;

  • comprar três armaduras iguais;

  • derrotar o inimigo usando magia máxima;

  • verificar se morreu;

  • lançar outra magia;

  • conferir novamente.

A princípio tudo parece apenas uma grande piada.

Mas existe uma razão muito mais profunda para isso.


A História

A narrativa é construída em duas camadas.

Primeira camada

Uma comédia.

O anime faz o espectador rir o tempo inteiro.

Toda situação clássica dos RPGs é invertida.

Enquanto outros protagonistas dizem:

"Vamos!"

Seiya responde:

"Ainda não."


Segunda camada

Uma história sobre:

  • trauma

  • responsabilidade

  • fracasso

  • culpa

  • perda

Sem revelar spoilers importantes, percebe-se no final que toda a personalidade de Seiya possui uma origem emocional.

E isso muda completamente nossa visão do anime.


O que torna este anime diferente?

Aqui está sua maior genialidade.

Em praticamente todos os isekais:

Herói → aventura → luta → vitória

Em Shinchou Yuusha:

Herói

Treina

Treina novamente

Treina mais

Compra equipamentos

Treina outra vez

Simula o combate

Só então enfrenta o inimigo.

A piada funciona porque é exatamente assim que um bom engenheiro trabalha.


Os Personagens

Seiya Ryuuguuin

O protagonista.

Extremamente poderoso.

Mas não confia em absolutamente nada.

Sua lógica lembra muito um excelente arquiteto de software.

Nunca assume.

Sempre valida.

Sempre confirma.

Sempre cria redundância.


Ristarte

A deusa da cura.

É praticamente o oposto de Seiya.

Impulsiva.

Emotiva.

Espontânea.

Ela representa o espectador.

Cada reação exagerada dela reforça a comédia da série.


Ariadoa

Talvez a personagem mais importante do ponto de vista filosófico.

Ela compreende Seiya melhor do que qualquer outro.

Sem explicar demais...

...ela entende de onde vem tanta prudência.


A Grande Temática

O anime fala sobre algo extremamente moderno.

Hoje existe uma cultura de:

"Faça rápido."

"Lance logo."

"Move fast."

Shinchou Yuusha responde:

"Não."

Ele mostra que velocidade sem preparação pode gerar desastre.


Bellacosa Mainframe explica

Imagine um desenvolvedor COBOL.

Recebe uma alteração crítica.

Existem dois tipos.

Herói comum

Compila.

Executa.

Entrega.

Produção explode.


Seiya

Compila.

Executa Unit Test.

Executa Integration Test.

Executa Regression Test.

Executa Performance Test.

Revisa SQL.

Confere índices.

Confere VSAM.

Valida CICS.

Reexecuta.

Confere novamente.

Executa em QA.

Executa em Homologação.

Só então sobe para Produção.

Esse é literalmente o comportamento de Seiya.


O Mainframe sempre foi "Cautious Hero"

Esta talvez seja a maior mensagem escondida.

O IBM Z nunca foi rápido para mudar.

Mas sempre foi extremamente seguro.

Existem dezenas de verificações antes de alterar produção.

Por isso bancos funcionam.

Cartões funcionam.

PIX funciona.

Seguradoras funcionam.

Não porque alguém foi rápido.

Mas porque alguém foi cuidadoso.


Mensagens Ocultas

1. Poder sem disciplina é inútil

Ser forte não basta.

É necessário saber quando agir.


2. Experiência gera prudência

Quanto mais experiente alguém é...

menos impulsivo costuma ser.


3. O trauma muda pessoas

Uma das maiores revelações do anime.

Aquilo que parece covardia...

na verdade pode ser experiência.


4. Confiança excessiva mata

Vários vilões são derrotados justamente porque acreditam ser invencíveis.


5. O planejamento vence a improvisação

Mensagem extremamente ligada ao desenvolvimento de software.


As Aventuras

Cada arco representa uma etapa diferente.

Primeiros monstros.

Primeiros generais.

Novos equipamentos.

Treinamentos com divindades.

Desafios impossíveis.

Tudo isso sempre acompanhado da paranoia de Seiya.

E justamente essa paranoia salva o grupo diversas vezes.


O Estúdio White Fox

A White Fox tornou-se conhecida por adaptar obras que misturam humor, fantasia e drama psicológico. Entre seus trabalhos mais famosos estão Steins;Gate, Re:Zero e Akame ga Kill!. Em Shinchou Yuusha, o estúdio equilibra muito bem a comédia visual com momentos dramáticos, usando expressões exageradas, bom ritmo e cenas de ação consistentes. (Wikipedia)


Qualidade da Animação

Muito acima da média.

Destaques:

  • excelentes expressões faciais;

  • timing perfeito da comédia;

  • boas lutas;

  • ótima direção.

Grande parte das piadas funciona justamente por causa da animação.


Trilha Sonora

A abertura "TIT FOR TAT", de MYTH & ROID, transmite um clima épico que combina com um herói lendário, enquanto o encerramento contrasta com um tom mais leve. A trilha de Yoshiaki Fujisawa acompanha bem tanto os momentos cômicos quanto os dramáticos. (Isekai Wiki)


Impacto Cultural

Apesar de possuir apenas uma temporada, tornou-se um dos isekais de comédia mais lembrados de 2019.

Os maiores motivos:

  • inúmeras cenas transformadas em memes;

  • expressões faciais de Ristarte;

  • protagonista totalmente diferente do padrão;

  • excelente final.

Muitos fãs chegaram esperando apenas humor.

Saíram emocionados.


Curiosidades

  • O anime é baseado em uma light novel iniciada em 2016 na plataforma Kakuyomu antes de ser publicada pela Kadokawa em 2017. (Wikipedia)

  • Dois episódios sofreram pequenos atrasos durante a exibição devido ao cronograma de produção. (Isekai Wiki)

  • Personagens da série participaram posteriormente do crossover Isekai Quartet. (Isekai Wiki)


Easter Egg Bellacosa Mainframe 🥚

Seiya provavelmente seria o melhor programador COBOL de uma instituição financeira.

Seu checklist antes do deploy seria algo como:

✔ Código revisado

✔ SQL otimizado

✔ RUNSTATS atualizado

✔ EXPLAIN executado

✔ Índices conferidos

✔ Teste Unitário

✔ Teste Integrado

✔ Teste de Volume

✔ Teste de Performance

✔ Plano de Rollback

✔ Backup confirmado

✔ Aprovação CAB

✔ JCL validado

✔ RACF conferido

✔ "Executar em produção?"

Ainda não. Vamos revisar mais uma vez.

No universo Bellacosa Mainframe, Seiya certamente seria aquele desenvolvedor veterano que todos acham exagerado... até o dia em que um erro crítico é evitado graças à sua insistência em validar tudo. Assim como no IBM Z, onde disponibilidade e confiabilidade valem mais do que velocidade, Shinchou Yuusha ensina que o verdadeiro herói não é quem corre primeiro para a batalha, mas quem garante que todos voltarão vivos dela. Essa é uma lição que atravessa mundos de fantasia, salas de servidores e décadas de desenvolvimento corporativo.


sexta-feira, 29 de novembro de 2019

Hanakotoba (花言葉): A Linguagem das Flores no Japão — O Sistema Operacional Invisível dos Sentimentos

 

Bellacosa Mainframe e a linguagem secreta das flores

☕ Um Café no Bellacosa Mainframe

Hanakotoba (花言葉): A Linguagem das Flores no Japão — O Sistema Operacional Invisível dos Sentimentos

"Em um datacenter IBM Z, um único bit pode alterar o significado de milhões de registros. No Japão, uma única flor pode transmitir sentimentos que palavras jamais conseguiriam expressar."


Introdução

Imagine entrar em uma sala de reuniões de um grande banco.

O gerente não diz uma palavra.

Ele apenas coloca um relatório sobre a mesa.

Você entende imediatamente a mensagem.

No Japão acontece algo semelhante.

Mas, em vez de relatórios, utilizam flores.

O Ocidente costuma enxergar as flores como simples elementos decorativos.

São bonitas.

Perfumadas.

Coloridas.

Mas, para a cultura japonesa, elas podem representar um idioma completo.

Existe um vocabulário.

Existe uma gramática.

Existe contexto.

Existe intenção.

E existe uma tradição que atravessa séculos.

Essa linguagem recebe o nome de Hanakotoba (花言葉), literalmente:

"As Palavras das Flores."

Quem assiste animes, lê mangás ou joga visual novels provavelmente já viu personagens oferecendo flores específicas sem perceber que aquela cena escondia uma mensagem inteira.

Não era apenas um buquê.

Era uma carta.

Sem tinta.

Sem papel.

Sem voz.


O Japão e a Comunicação Indireta

Para compreender o Hanakotoba, primeiro é necessário entender uma característica marcante da sociedade japonesa.

Enquanto culturas ocidentais valorizam a comunicação direta, o Japão desenvolveu uma tradição baseada na sutileza.

Nem tudo precisa ser dito.

Na verdade...

Muitas vezes o mais importante é justamente aquilo que permanece implícito.

Essa forma de comunicação aparece em praticamente todos os aspectos da vida japonesa:

  • cerimônia do chá;

  • caligrafia (Shodō);

  • poesia (Haiku);

  • teatro Nō;

  • jardins zen;

  • arquitetura;

  • ikebana (arranjos florais);

  • mangás e animes.

O silêncio também comunica.

As cores comunicam.

As estações do ano comunicam.

As flores comunicam.


O Nascimento do Hanakotoba

Embora diversas culturas tenham associado flores a significados simbólicos, o Hanakotoba ganhou identidade própria durante o Período Edo (1603–1868).

Nessa época, o Japão vivia um longo período de relativa paz sob o xogunato Tokugawa. A sociedade desenvolveu uma rica cultura urbana, na qual poesia, teatro, pintura e jardinagem floresceram. Influências chinesas, tradições budistas e o apreço xintoísta pela natureza se combinaram para transformar as flores em um verdadeiro vocabulário emocional.

Cada espécie passou a carregar significados específicos.

Cada cor modificava a mensagem.

Cada ocasião exigia uma escolha cuidadosa.

Era possível transmitir:

  • amor;

  • gratidão;

  • respeito;

  • despedida;

  • arrependimento;

  • fidelidade;

  • esperança.

Tudo sem escrever uma única linha.


A Natureza Nunca Foi Apenas Paisagem

No pensamento japonês, a natureza não é apenas cenário.

Ela participa da vida.

As quatro estações moldam a cultura.

Os festivais acompanham a floração das árvores.

Os poemas registram mudanças das folhas.

Os jardins reproduzem montanhas e rios em miniatura.

As flores representam estados emocionais porque o ser humano é visto como parte do mesmo ciclo da natureza.

Florescem.

Amadurecem.

Murcham.

Renascem.

Essa visão dialoga profundamente com conceitos budistas como a impermanência (mujō), segundo os quais tudo está em constante transformação.


Algumas Flores e Seus Significados

🌸 Sakura (Flor de Cerejeira)

Talvez nenhuma flor simbolize tanto o Japão quanto a sakura.

Ela representa:

  • beleza efêmera;

  • juventude;

  • renovação;

  • aceitação da impermanência.

Ela floresce intensamente por poucos dias e logo suas pétalas caem ao vento.

Essa imagem ensina que justamente por ser breve, a vida se torna preciosa.


🌺 Hortênsia (Ajisai)

As hortênsias são famosas por mudarem de cor conforme a acidez do solo.

No Hanakotoba podem representar:

  • mudança de sentimentos;

  • emoções complexas;

  • arrependimento;

  • gratidão;

  • perseverança.

Em Sankarea, elas refletem perfeitamente a transformação de Rea: a mesma pessoa, mas profundamente alterada pelas circunstâncias.


🌻 Girassol

Representa:

  • admiração;

  • energia;

  • sinceridade;

  • esperança.

Nos animes costuma acompanhar personagens otimistas.


🌹 Rosa

Embora seja uma flor de origem ocidental, ganhou interpretações próprias.

A cor muda completamente o significado:

  • vermelha → amor apaixonado;

  • branca → pureza;

  • amarela → amizade ou ciúme, dependendo do contexto;

  • rosa → carinho.


🌼 Crisântemo (Kiku)

Símbolo da Família Imperial.

Representa:

  • longevidade;

  • nobreza;

  • honra;

  • perfeição.

O Selo Imperial Japonês utiliza justamente um crisântemo estilizado de dezesseis pétalas.


🌸 Lírio (Yuri)

Associado à pureza, elegância e feminilidade.

É comum aparecer em histórias que enfatizam crescimento interior e nobreza de caráter.


🌺 Camélia (Tsubaki)

Representa dignidade e elegância.

Sua flor costuma cair inteira, e não pétala por pétala. Antigamente, isso levou alguns samurais a evitá-la por lembrar uma cabeça sendo decapitada. Ainda assim, ela também simboliza beleza refinada e resistência.


Hanakotoba nos Animes

Depois que conhecemos essa linguagem, muitos detalhes passam a fazer sentido.

Em Sankarea, as hortênsias acompanham a transformação emocional de Rea.

Em Your Lie in April, as flores reforçam o contraste entre vida, música e despedida.

Em Violet Evergarden, arranjos florais ajudam a expressar sentimentos difíceis de colocar em palavras.

Em The Garden of Words, a vegetação e a chuva dialogam continuamente com o estado emocional dos protagonistas.

Em diversas obras, um buquê nunca é apenas um buquê.

É uma mensagem silenciosa.


Ikebana: Quando Organizar Flores é Contar uma História

O Hanakotoba se conecta à arte do Ikebana, o arranjo floral japonês.

Ao contrário dos arranjos ocidentais, que frequentemente priorizam abundância, o Ikebana valoriza:

  • espaço vazio;

  • equilíbrio;

  • assimetria;

  • direção;

  • proporção;

  • diálogo entre flores, galhos e folhas.

Cada elemento tem uma função.

Nada é colocado por acaso.

É uma composição que convida à contemplação.


Bellacosa Mainframe

Hanakotoba é o JCL das Emoções

Quem trabalha com IBM Z sabe que um arquivo JCL parece simples à primeira vista.

São apenas comandos.

Poucas linhas.

Muito texto.

Mas cada parâmetro altera o comportamento do sistema.

Uma alteração em DISP, SPACE, UNIT ou COND pode determinar o sucesso ou o fracasso de um processamento inteiro.

O Hanakotoba funciona de maneira semelhante.

A flor é o "JOB".

A cor é o parâmetro.

A ocasião é o ambiente de execução.

A pessoa que recebe é o programa consumidor.

A interpretação correta depende de conhecer toda a arquitetura cultural.


As Cores São Como Parâmetros

Imagine um PROC reutilizável.

O código permanece o mesmo.

Mas os parâmetros mudam a execução.

As flores também.

Uma rosa branca.

Uma rosa vermelha.

Uma rosa amarela.

Fisicamente são semelhantes.

Mas semanticamente executam "processamentos" completamente diferentes.

É quase como alterar um único PARM em um JOB e obter resultados distintos.


A Engenharia da Delicadeza

Na computação moderna fala-se muito sobre protocolos.

Os protocolos definem como máquinas trocam informações de forma precisa.

No Japão existe um protocolo social igualmente sofisticado.

As flores fazem parte desse protocolo.

Elas evitam ambiguidades quando usadas por quem conhece seus significados e, ao mesmo tempo, preservam a elegância de uma comunicação indireta.


O Banco de Dados das Emoções

Se fôssemos modelar o Hanakotoba em Db2 para z/OS, poderíamos imaginar algo assim:

  • TABELA_FLOR

  • TABELA_COR

  • TABELA_ESTACAO

  • TABELA_OCASIAO

  • TABELA_SIGNIFICADO

A consulta não seria simples.

Seria um verdadeiro JOIN cultural.

Uma hortênsia azul oferecida durante a estação das chuvas, por exemplo, produziria um significado diferente da mesma flor em outro contexto.

Assim como em um banco de dados corporativo, o contexto é tão importante quanto o registro.


O Princípio do Menor Ruído

Os melhores sistemas distribuídos evitam tráfego desnecessário.

O Hanakotoba faz o mesmo.

Em vez de longos discursos, uma única flor pode sintetizar uma emoção complexa.

É uma comunicação de alta densidade semântica.

Poucos "bytes".

Muito significado.


Por Que Isso Fascina Tanto os Criadores de Anime?

Porque permite construir narrativas em camadas.

O espectador iniciante aprecia a beleza da cena.

O espectador atento percebe que há uma metáfora.

Quem conhece Hanakotoba entende que existe uma conversa inteira acontecendo sem uma única fala.

É uma recompensa para quem observa os detalhes.


A Grande Lição

No mundo moderno estamos cercados por notificações, mensagens instantâneas e redes sociais. Comunicamos cada vez mais, mas nem sempre nos compreendemos melhor.

O Hanakotoba lembra que comunicação não depende apenas da quantidade de palavras.

Depende da intenção.

Do contexto.

Da sensibilidade.

Uma flor pode dizer "obrigado".

Pode dizer "sinto muito".

Pode dizer "eu estarei esperando".

Pode até dizer "adeus".

Sem emitir um único som.


Conclusão

Assim como um operador de mainframe aprende que um simples código de retorno pode revelar o estado de todo um processamento, a cultura japonesa ensina que uma única flor pode revelar o estado de uma alma.

Talvez seja por isso que tantos animes utilizem flores como elementos narrativos.

Elas não são apenas parte do cenário.

São variáveis de um programa emocional cuidadosamente escrito pelos autores.

E, quando aprendemos a ler esse "código-fonte" da natureza, percebemos que cada jardim é um painel de monitoramento dos sentimentos humanos.

No universo Bellacosa Mainframe, o Hanakotoba é um protocolo de comunicação de altíssima confiabilidade: elegante, discreto e rico em significado. Um sistema legado que continua funcionando perfeitamente há séculos porque foi construído sobre algo que nenhuma tecnologia consegue substituir — a capacidade humana de atribuir sentido aos pequenos gestos.

Como em um ambiente IBM Z, onde estabilidade, precisão e contexto fazem toda a diferença, as flores japonesas nos lembram que a mensagem mais importante nem sempre é a mais longa. Muitas vezes, ela está escondida em um detalhe aparentemente simples, esperando apenas que alguém saiba interpretá-lo.


quinta-feira, 28 de novembro de 2019

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segunda-feira, 25 de novembro de 2019

☕ Bellacosa Mainframe Café – Edição Especial: “Por que os filmes de hoje não prendem?”

 


Bellacosa Mainframe Café – Edição Especial

🎬 Seção Especial – Cinema Contemporâneo: O Ruído da Tela

“Por que os filmes de hoje não prendem?”

Você não está sozinho nesse sentimento. Muitos perceberam que o cinema contemporâneo frequentemente não emociona como antes — e há razões concretas para isso:


⚡ 1. O excesso de fórmula e previsibilidade

Estúdios modernos dependem de dados, pesquisas e algoritmos para prever o que gera lucro:

  • Franquias e universos compartilhados (Marvel, DC) dominam a produção.

  • Sequências e reboots são garantias de público.

  • Test screenings e focus groups moldam roteiros até o último detalhe.

Resultado: filmes seguros, previsíveis e sem risco — emoção quase zero, porque a narrativa já é conhecida antes de ser contada.


🌀 2. Ruído digital e atenção fragmentada

A atenção do público mudou: notificações, redes sociais e TikTok fragmentam o foco.
Estúdios respondem com filmes de ação rápida, cortes constantes e estímulos visuais exagerados.
O efeito: cansaço mental e sensação de superficialidade, especialmente para quem cresceu com cinema clássico ou histórias mais contemplativas.


💡 3. Cinema antigo: ritmo, imersão e complexidade

Filmes do século XX tinham:

  • Ritmo contemplativo — espaço para sentir e refletir.

  • Desenvolvimento profundo de personagens.

  • Uso magistral de enquadramento, luz, som e silêncio.

Essa combinação criava imersão emocional, algo que muitos blockbusters modernos sacrificam em prol do impacto imediato.


⚖️ 4. Não é nostalgia, é diferença de expectativa

A insatisfação não é falha sua. Você percebe mudanças de linguagem e percepção: o cinema atual é feito para atenção rápida, não para envolvimento profundo.
Seu gosto por narrativa e atmosfera mostra sensibilidade e refinamento, não defeito.


🌹 5. Sobrevivendo ao cinema moderno

  • Busque cineastas independentes ou de autor fora do mainstream.

  • Experimente cinema estrangeiro; eles frequentemente fogem da fórmula.

  • Retorne aos clássicos do século XX sem culpa.

  • Desligue distrações digitais: o cinema pede presença.


☕ Conexão Bellacosa

O cinema moderno, assim como redes sociais e relacionamentos, é muitas vezes ruído para nossos sentidos, projetado para manter atenção, não alma.
O antídoto? Escolher com cuidado o que consome, respeitar seu ritmo interno e manter espaço para experiência emocional genuína.

Porque, no fundo, a arte nunca perdeu valor — apenas mudou o canal de transmissão.


Vagner Renato Bellacosa, IBM Champion e especialista em IBM Mainframe
IBM Z17 SYSTEM ONLINE
Sobre o autor

Vagner Renato Bellacosa

IBM Champion 2026 • Especialista em IBM Mainframe

Vagner Renato Bellacosa trabalha com IBM Mainframe desde 1988 , é IBM Champion e especialista em COBOL, CICS, Db2, z/OS e IBM Z. Compartilha experiências profissionais, conhecimento técnico, história da computação e práticas do universo mainframe para aproximar novas gerações das tecnologias que sustentam empresas, bancos e governos ao redor do mundo.

IBM Champion IBM Z COBOL CICS Db2 z/OS Mainframe desde 1988
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