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DotCOM: Capítulo I — Antes da Tempestade: O Mundo Antes da Internet Comercial
Como um Padawan COBOL pode entender por que a maior revolução digital da história começou muito antes do Google
"Toda revolução parece nascer de um único momento. Na realidade, ela é construída silenciosamente durante décadas."
Imagine que você acabou de entrar em um CPD (Centro de Processamento de Dados) em 1994.
Você veste um jaleco, atravessa uma sala climatizada onde o ar-condicionado nunca desliga, escuta o ruído constante das unidades de disco, observa operadores carregando fitas magnéticas e impressoras de linha imprimindo milhares de páginas por hora. Em um canto, um IBM 9672 executa milhares de transações por segundo sem que a maioria da população sequer imagine sua existência.
Para um jovem Padawan COBOL, aquele era o verdadeiro coração da economia.
Enquanto isso, do lado de fora do prédio, poucas pessoas sequer sabiam o que era Internet.
É difícil acreditar nisso hoje.
Vivemos numa época em que praticamente tudo depende da rede mundial. Pagamos contas pelo celular, fazemos compras em segundos, conversamos com pessoas do outro lado do planeta por vídeo, assistimos filmes sob demanda e utilizamos Inteligência Artificial para escrever textos, criar imagens e desenvolver programas.
Mas, até meados da década de 1990, esse mundo simplesmente não existia.
A Internet não era uma praça pública digital.
Era um enorme laboratório.
E compreender essa diferença é essencial para entender por que a bolha das empresas ".com" aconteceu poucos anos depois.
Muito Antes do Google Existia Outro Mundo
Quando ouvimos falar da Internet, normalmente pensamos em empresas como Google, Amazon, Netflix ou YouTube.
Entretanto, nenhuma delas existia da forma que conhecemos atualmente.
Na verdade, durante boa parte dos anos 1980 e início dos anos 1990, a Internet era utilizada quase exclusivamente por:
universidades;
centros de pesquisa;
órgãos governamentais;
instituições militares;
alguns grandes laboratórios científicos.
Seu objetivo original nunca foi vender produtos.
Ela foi concebida para compartilhar informações e manter comunicações resilientes entre computadores distribuídos.
As conexões eram lentas.
Muito lentas.
Hoje reclamamos quando uma página demora três segundos para abrir.
Naquela época, uma fotografia podia levar vários minutos para aparecer completamente na tela, linha após linha, como se estivesse sendo desenhada lentamente.
Vídeos?
Praticamente impensáveis.
Streaming?
Nem sequer fazia parte do vocabulário.
O Mundo Corporativo Funcionava Muito Bem Sem a Web
Existe uma ideia bastante difundida entre quem começou a estudar tecnologia recentemente:
"Antes da Internet, as empresas eram atrasadas."
Nada poderia estar mais distante da realidade.
Bancos já processavam milhões de transações diariamente.
Companhias aéreas possuíam sofisticados sistemas de reservas.
Seguradoras administravam enormes bases de dados.
Governos realizavam arrecadação de impostos em escala nacional.
Tudo isso funcionava antes da Web.
Quem fazia esse trabalho?
Mainframes.
COBOL.
CICS.
IMS.
Db2.
VSAM.
JCL.
Essas tecnologias sustentavam operações críticas décadas antes de alguém imaginar fazer compras pela Internet.
É justamente por isso que muitos profissionais veteranos sorriem quando alguém afirma que "a transformação digital começou com a Internet".
Na verdade, a Internet foi construída sobre uma infraestrutura empresarial que já existia e que funcionava com extraordinária confiabilidade.
Enquanto a Web ainda aprendia a andar, o mainframe já corria maratonas.
A Era dos Jardins Fechados
Antes da Internet comercial, existiam diversas redes privadas.
Empresas utilizavam:
terminais 3270;
redes SNA;
sistemas proprietários;
comunicação X.25;
acesso remoto via modem;
BBS (Bulletin Board Systems).
Cada ambiente funcionava quase como um pequeno planeta independente.
Era comum uma empresa possuir centenas de terminais conectados exclusivamente ao seu computador central.
Não havia páginas web.
Não existiam hyperlinks.
A navegação era totalmente baseada em menus e comandos.
Curiosamente, muitos desses sistemas ainda permanecem ativos atualmente, executando aplicações críticas em bancos, governos e grandes empresas.
Isso mostra uma característica importante da tecnologia empresarial:
estabilidade costuma valer mais do que novidade.
O Barulho que Mudou Tudo
No início dos anos 1990, milhões de pessoas começaram a ouvir um som que marcaria uma geração inteira.
O modem discado.
Quem viveu aquela época dificilmente esquece a sequência metálica de chiados, estalos e apitos produzidos enquanto o computador tentava estabelecer uma conexão telefônica.
Aquele pequeno concerto eletrônico significava apenas uma coisa:
Você estava entrando na Internet.
A conexão ocupava a linha telefônica.
Se alguém levantasse o telefone da casa...
A conexão caía.
As velocidades pareciam ridículas para os padrões atuais.
14.400 bps.
28.800 bps.
33.600 bps.
56 Kbps.
Hoje uma fotografia comum pode ser maior que toda a quantidade de dados transferida em vários minutos de navegação daquela época.
Mesmo assim...
Parecia mágico.
Pela primeira vez qualquer pessoa poderia acessar informações publicadas em outro país sem precisar comprar livros, revistas ou jornais.
Era uma mudança de paradigma.
O Nascimento da World Wide Web
Um dos maiores equívocos históricos é acreditar que Internet e Web são a mesma coisa.
Não são.
A Internet é a infraestrutura.
A Web é um dos serviços que funciona sobre ela.
Foi o cientista britânico Tim Berners-Lee quem propôs, em 1989, um sistema baseado em hipertexto capaz de conectar documentos espalhados pelo mundo.
Nascia a World Wide Web.
Sua ideia era simples e genial.
Criar documentos interligados por links.
Hoje isso parece absolutamente comum.
Na época era revolucionário.
Antes disso, acessar informações em computadores remotos exigia comandos específicos e conhecimento técnico.
Com a Web bastava clicar.
Essa simplicidade mudaria tudo.
Mosaic: O Navegador que Encantou o Mundo
Em 1993 surgiu um software que poucos conhecem hoje, mas que alterou definitivamente a história da computação.
O navegador Mosaic.
Pela primeira vez era possível visualizar textos e imagens juntos na mesma página de maneira amigável.
Pode parecer um detalhe pequeno.
Não era.
Até então, boa parte da Internet era baseada em interfaces textuais.
O Mosaic transformou a navegação em algo visual.
Milhões perceberam que aquele ambiente tinha potencial para se tornar muito maior do que um simples projeto acadêmico.
Entre seus desenvolvedores estava Marc Andreessen, que pouco tempo depois ajudaria a fundar a Netscape Communications.
Esse seria o próximo grande capítulo da revolução digital.
Netscape: A Primeira Estrela da Nova Economia
Se hoje o Google domina o mercado de navegadores por meio do Chrome, nos anos 1990 quem despertava admiração era o Netscape Navigator.
Ele era rápido.
Bonito.
Fácil de usar.
Empresas passaram a criar seus primeiros sites.
Jornais começaram a publicar notícias online.
Universidades disponibilizaram conteúdos digitais.
Pequenos negócios descobriram que poderiam alcançar clientes muito além de sua cidade.
A Internet deixava de ser um ambiente técnico.
Ela começava a se tornar comercial.
Era o início de uma nova economia.
E quase ninguém imaginava a velocidade com que essa transformação aconteceria.
O Primeiro Contato da Sociedade com o "Ciberespaço"
Na metade da década de 1990, navegar pela Internet era uma experiência quase exploratória.
Não havia mecanismos de busca eficientes.
Era preciso conhecer o endereço exato de um site ou encontrá-lo em diretórios como Yahoo!, que organizavam páginas por categorias.
Surgiam também serviços que marcaram uma geração:
ICQ;
IRC;
Geocities;
AltaVista;
Lycos;
Excite.
Cada novo site parecia descobrir um território desconhecido.
A sensação era semelhante às grandes navegações dos séculos XV e XVI.
Só que, desta vez, o oceano era digital.
Enquanto Isso... Nos Bastidores da Economia
Enquanto revistas estampavam capas anunciando "A Revolução da Internet", outra realidade permanecia praticamente invisível.
As bolsas de valores continuavam sendo liquidadas por sistemas robustos.
Cartões de crédito eram autorizados em mainframes.
Folhas de pagamento eram processadas em COBOL.
Compensações bancárias aconteciam diariamente sem falhas perceptíveis.
Esse contraste é fascinante.
O mundo olhava para as vitrines da Internet.
Mas a infraestrutura que sustentava a economia continuava funcionando silenciosamente nos grandes centros de processamento de dados.
Como na engenharia de uma nave da Frota Estelar, todos admiravam a ponte de comando. Poucos percebiam que era a sala de máquinas que mantinha a nave em velocidade de dobra.
A Primeira Grande Ilusão
Foi exatamente nesse cenário que surgiu uma ideia extremamente sedutora.
Se a Internet estava crescendo tão rapidamente...
Então qualquer empresa ligada à Internet inevitavelmente ficaria rica.
Essa conclusão parecia lógica.
Mas escondia um erro clássico.
Confundir o crescimento de uma tecnologia com o sucesso automático de todas as empresas que a utilizam.
É como imaginar que, porque a eletricidade revolucionou o mundo, toda empresa fabricante de lâmpadas se tornaria bilionária.
Ou que, porque a Inteligência Artificial está transformando a computação, toda startup que coloca "AI" em seu nome será um sucesso.
A história mostra que inovação e rentabilidade não caminham necessariamente juntas.
E essa foi justamente a semente da maior bolha tecnológica do século XX.
Lições para o Padawan COBOL
Se existe uma primeira lição que um programador COBOL deve guardar deste capítulo, é que as maiores revoluções tecnológicas raramente começam da forma como imaginamos.
A Internet não nasceu para vender produtos.
A Web não foi criada para gerar bilhões em publicidade.
Os mainframes não foram desenvolvidos para competir com computadores pessoais.
Cada tecnologia surgiu para resolver problemas concretos e, somente depois, encontrou aplicações muito maiores do que seus criadores poderiam prever.
Essa é uma das características mais fascinantes da computação: tecnologias sólidas sobrevivem porque entregam valor real, mesmo quando as modas mudam.
No próximo capítulo veremos como essa combinação de entusiasmo, inovação e expectativas ilimitadas deu origem à febre das empresas ".com", uma corrida onde investidores passaram a acreditar que bastava adicionar um endereço na Internet para transformar qualquer ideia em bilhões de dólares. É aí que a verdadeira aventura — e o verdadeiro caos — começa.
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