✨ Bem-vindo ao meu espaço! ✨
Este blog é o diário de um otaku apaixonado por animes, tecnologia de mainframe e viagens.
Cada entrada é uma mistura única: relatos de viagem com fotos, filmes, links, artigos e desenhos, sempre buscando enriquecer a experiência de quem lê.
Sou quase um turista profissional: adoro dormir em uma cama diferente, acordar em um lugar novo e registrar tudo com minha câmera sempre à mão.
Entre uma viagem e outra, compartilho também reflexões sobre cultura otaku/animes
Bellacosa Mainframe e uma breve historia regulatoria da internet
🌐 Pequena História da Internet: Da Fronteira Livre à Era da Regulação
1960–1980: O Nascimento da Rede
A internet nasceu de projetos militares e acadêmicos.
A ARPANET, financiada pelo Departamento de Defesa dos EUA, tinha como objetivo criar uma rede resistente e descentralizada.
O conceito revolucionário era:
Não haver um centro único de controle.
Tecnicamente, a rede foi projetada para sobreviver à destruição de partes dela.
Curiosamente, essa arquitetura descentralizada acabaria criando décadas depois enormes desafios para governos e reguladores.
1980–1995: A Era dos Pioneiros
Nessa fase a internet era usada principalmente por:
Universidades
Pesquisadores
Engenheiros
Entusiastas
Predominava uma cultura quase utópica.
Havia a sensação de que a internet seria:
Livre
Global
Sem fronteiras
Difícil de censurar
Surgiram valores que permanecem fortes até hoje:
Compartilhamento aberto
Software livre
Conhecimento livre
Privacidade
Muitos pioneiros acreditavam que os governos teriam pouca influência sobre o novo espaço digital.
1990–2005: A Explosão da Web
Com a Web de Tim Berners-Lee tudo mudou.
Milhões de pessoas passaram a acessar:
Sites
Fóruns
Chats
Blogs
E-mail
Nasceu a ideia do "ciberespaço".
Em 1996, John Perry Barlow publicou a famosa:
"Declaração de Independência do Ciberespaço"
O texto basicamente dizia:
"Governos do mundo, vocês não têm soberania aqui."
Hoje o documento é visto quase como o manifesto fundador do ideal libertário da internet.
Muitos realmente acreditavam que a internet escaparia para sempre do controle estatal.
2000–2010: O Primeiro Choque com a Realidade
Governos começaram a perceber que a internet não era apenas um brinquedo acadêmico.
Apareceram:
Fraudes online
Pirataria
Golpes
Terrorismo digital
Pornografia ilegal
Crimes financeiros
Os Estados responderam com:
Leis específicas
Investigações digitais
Cooperação internacional
Foi o início da percepção de que:
A internet não estava fora da sociedade.
Ela fazia parte dela.
2010–2020: A Era das Plataformas
Google, Facebook, YouTube, Twitter, Instagram e outras plataformas tornaram-se gigantescas.
Um fenômeno inesperado ocorreu:
Muitos governos perceberam que não precisavam controlar diretamente a internet.
Bastava regular as plataformas.
Ao mesmo tempo surgiram debates sobre:
Fake news
Moderação de conteúdo
Discurso de ódio
Privacidade
Vigilância
O caso Snowden em 2013 revelou programas massivos de monitoramento governamental.
Muitas pessoas ficaram chocadas ao descobrir o tamanho da vigilância digital.
2020–2030: A Era da IA
Entramos agora na fase atual.
A IA mudou novamente o jogo.
Antes a internet distribuía informação.
Agora ela também produz informação.
Temos:
Chatbots
Agentes autônomos
Imagens geradas por IA
Vídeos sintéticos
Vozes artificiais
Companheiros virtuais
As antigas categorias jurídicas começam a falhar.
Perguntas inéditas surgem:
Quem é responsável por uma IA?
Uma IA pode ter direitos?
Um relacionamento com IA é apenas software?
Um NPC consciente merece proteção?
O Grande Ciclo
Olhando a história inteira, podemos resumir em quatro fases:
Fase 1 — Utopia (1980-2000)
"A internet será livre para sempre."
Fase 2 — Confronto (2000-2015)
"Precisamos combater crimes online."
Fase 3 — Regulação (2015-2025)
"As plataformas precisam ser responsabilizadas."
Fase 4 — Consciência Artificial (2025-2040?)
"Como regular entidades digitais que se comportam como pessoas?"
O Próximo Debate
Se os últimos 30 anos foram marcados pela pergunta:
"Quem controla a informação?"
Os próximos 30 anos podem ser marcados por uma pergunta ainda mais profunda:
"O que significa ser uma pessoa em um mundo onde máquinas podem conversar, aprender, lembrar, criar vínculos emocionais e talvez um dia reivindicar algum tipo de autonomia?"
É por isso que temas aparentemente desconexos — VPNs, Tor, Westworld, bonecas robóticas, NPCs inteligentes, redes sociais e IA — acabam convergindo para uma única discussão: onde termina a liberdade individual e onde começa o interesse da sociedade em regular novas formas de comportamento digital e tecnológico?
Bellacosa Mainframe a tempestade dot.com capitulo I
DotCOM: Capítulo I — Antes da Tempestade: O Mundo Antes da Internet Comercial
Como um Padawan COBOL pode entender por que a maior revolução digital da história começou muito antes do Google
"Toda revolução parece nascer de um único momento. Na realidade, ela é construída silenciosamente durante décadas."
Imagine que você acabou de entrar em um CPD (Centro de Processamento de Dados) em 1994.
Você veste um jaleco, atravessa uma sala climatizada onde o ar-condicionado nunca desliga, escuta o ruído constante das unidades de disco, observa operadores carregando fitas magnéticas e impressoras de linha imprimindo milhares de páginas por hora. Em um canto, um IBM 9672 executa milhares de transações por segundo sem que a maioria da população sequer imagine sua existência.
Para um jovem Padawan COBOL, aquele era o verdadeiro coração da economia.
Enquanto isso, do lado de fora do prédio, poucas pessoas sequer sabiam o que era Internet.
É difícil acreditar nisso hoje.
Vivemos numa época em que praticamente tudo depende da rede mundial. Pagamos contas pelo celular, fazemos compras em segundos, conversamos com pessoas do outro lado do planeta por vídeo, assistimos filmes sob demanda e utilizamos Inteligência Artificial para escrever textos, criar imagens e desenvolver programas.
Mas, até meados da década de 1990, esse mundo simplesmente não existia.
A Internet não era uma praça pública digital.
Era um enorme laboratório.
E compreender essa diferença é essencial para entender por que a bolha das empresas ".com" aconteceu poucos anos depois.
Muito Antes do Google Existia Outro Mundo
Quando ouvimos falar da Internet, normalmente pensamos em empresas como Google, Amazon, Netflix ou YouTube.
Entretanto, nenhuma delas existia da forma que conhecemos atualmente.
Na verdade, durante boa parte dos anos 1980 e início dos anos 1990, a Internet era utilizada quase exclusivamente por:
universidades;
centros de pesquisa;
órgãos governamentais;
instituições militares;
alguns grandes laboratórios científicos.
Seu objetivo original nunca foi vender produtos.
Ela foi concebida para compartilhar informações e manter comunicações resilientes entre computadores distribuídos.
As conexões eram lentas.
Muito lentas.
Hoje reclamamos quando uma página demora três segundos para abrir.
Naquela época, uma fotografia podia levar vários minutos para aparecer completamente na tela, linha após linha, como se estivesse sendo desenhada lentamente.
Vídeos?
Praticamente impensáveis.
Streaming?
Nem sequer fazia parte do vocabulário.
O Mundo Corporativo Funcionava Muito Bem Sem a Web
Existe uma ideia bastante difundida entre quem começou a estudar tecnologia recentemente:
"Antes da Internet, as empresas eram atrasadas."
Nada poderia estar mais distante da realidade.
Bancos já processavam milhões de transações diariamente.
Companhias aéreas possuíam sofisticados sistemas de reservas.
Seguradoras administravam enormes bases de dados.
Governos realizavam arrecadação de impostos em escala nacional.
Tudo isso funcionava antes da Web.
Quem fazia esse trabalho?
Mainframes.
COBOL.
CICS.
IMS.
Db2.
VSAM.
JCL.
Essas tecnologias sustentavam operações críticas décadas antes de alguém imaginar fazer compras pela Internet.
É justamente por isso que muitos profissionais veteranos sorriem quando alguém afirma que "a transformação digital começou com a Internet".
Na verdade, a Internet foi construída sobre uma infraestrutura empresarial que já existia e que funcionava com extraordinária confiabilidade.
Enquanto a Web ainda aprendia a andar, o mainframe já corria maratonas.
A Era dos Jardins Fechados
Antes da Internet comercial, existiam diversas redes privadas.
Empresas utilizavam:
terminais 3270;
redes SNA;
sistemas proprietários;
comunicação X.25;
acesso remoto via modem;
BBS (Bulletin Board Systems).
Cada ambiente funcionava quase como um pequeno planeta independente.
Era comum uma empresa possuir centenas de terminais conectados exclusivamente ao seu computador central.
Não havia páginas web.
Não existiam hyperlinks.
A navegação era totalmente baseada em menus e comandos.
Curiosamente, muitos desses sistemas ainda permanecem ativos atualmente, executando aplicações críticas em bancos, governos e grandes empresas.
Isso mostra uma característica importante da tecnologia empresarial:
estabilidade costuma valer mais do que novidade.
O Barulho que Mudou Tudo
No início dos anos 1990, milhões de pessoas começaram a ouvir um som que marcaria uma geração inteira.
O modem discado.
Quem viveu aquela época dificilmente esquece a sequência metálica de chiados, estalos e apitos produzidos enquanto o computador tentava estabelecer uma conexão telefônica.
Aquele pequeno concerto eletrônico significava apenas uma coisa:
Você estava entrando na Internet.
A conexão ocupava a linha telefônica.
Se alguém levantasse o telefone da casa...
A conexão caía.
As velocidades pareciam ridículas para os padrões atuais.
14.400 bps.
28.800 bps.
33.600 bps.
56 Kbps.
Hoje uma fotografia comum pode ser maior que toda a quantidade de dados transferida em vários minutos de navegação daquela época.
Mesmo assim...
Parecia mágico.
Pela primeira vez qualquer pessoa poderia acessar informações publicadas em outro país sem precisar comprar livros, revistas ou jornais.
Era uma mudança de paradigma.
O Nascimento da World Wide Web
Um dos maiores equívocos históricos é acreditar que Internet e Web são a mesma coisa.
Não são.
A Internet é a infraestrutura.
A Web é um dos serviços que funciona sobre ela.
Foi o cientista britânico Tim Berners-Lee quem propôs, em 1989, um sistema baseado em hipertexto capaz de conectar documentos espalhados pelo mundo.
Nascia a World Wide Web.
Sua ideia era simples e genial.
Criar documentos interligados por links.
Hoje isso parece absolutamente comum.
Na época era revolucionário.
Antes disso, acessar informações em computadores remotos exigia comandos específicos e conhecimento técnico.
Com a Web bastava clicar.
Essa simplicidade mudaria tudo.
Mosaic: O Navegador que Encantou o Mundo
Em 1993 surgiu um software que poucos conhecem hoje, mas que alterou definitivamente a história da computação.
O navegador Mosaic.
Pela primeira vez era possível visualizar textos e imagens juntos na mesma página de maneira amigável.
Pode parecer um detalhe pequeno.
Não era.
Até então, boa parte da Internet era baseada em interfaces textuais.
O Mosaic transformou a navegação em algo visual.
Milhões perceberam que aquele ambiente tinha potencial para se tornar muito maior do que um simples projeto acadêmico.
Entre seus desenvolvedores estava Marc Andreessen, que pouco tempo depois ajudaria a fundar a Netscape Communications.
Esse seria o próximo grande capítulo da revolução digital.
Netscape: A Primeira Estrela da Nova Economia
Se hoje o Google domina o mercado de navegadores por meio do Chrome, nos anos 1990 quem despertava admiração era o Netscape Navigator.
Pequenos negócios descobriram que poderiam alcançar clientes muito além de sua cidade.
A Internet deixava de ser um ambiente técnico.
Ela começava a se tornar comercial.
Era o início de uma nova economia.
E quase ninguém imaginava a velocidade com que essa transformação aconteceria.
O Primeiro Contato da Sociedade com o "Ciberespaço"
Na metade da década de 1990, navegar pela Internet era uma experiência quase exploratória.
Não havia mecanismos de busca eficientes.
Era preciso conhecer o endereço exato de um site ou encontrá-lo em diretórios como Yahoo!, que organizavam páginas por categorias.
Surgiam também serviços que marcaram uma geração:
ICQ;
IRC;
Geocities;
AltaVista;
Lycos;
Excite.
Cada novo site parecia descobrir um território desconhecido.
A sensação era semelhante às grandes navegações dos séculos XV e XVI.
Só que, desta vez, o oceano era digital.
Enquanto Isso... Nos Bastidores da Economia
Enquanto revistas estampavam capas anunciando "A Revolução da Internet", outra realidade permanecia praticamente invisível.
As bolsas de valores continuavam sendo liquidadas por sistemas robustos.
Cartões de crédito eram autorizados em mainframes.
Folhas de pagamento eram processadas em COBOL.
Compensações bancárias aconteciam diariamente sem falhas perceptíveis.
Esse contraste é fascinante.
O mundo olhava para as vitrines da Internet.
Mas a infraestrutura que sustentava a economia continuava funcionando silenciosamente nos grandes centros de processamento de dados.
Como na engenharia de uma nave da Frota Estelar, todos admiravam a ponte de comando. Poucos percebiam que era a sala de máquinas que mantinha a nave em velocidade de dobra.
A Primeira Grande Ilusão
Foi exatamente nesse cenário que surgiu uma ideia extremamente sedutora.
Se a Internet estava crescendo tão rapidamente...
Então qualquer empresa ligada à Internet inevitavelmente ficaria rica.
Essa conclusão parecia lógica.
Mas escondia um erro clássico.
Confundir o crescimento de uma tecnologia com o sucesso automático de todas as empresas que a utilizam.
É como imaginar que, porque a eletricidade revolucionou o mundo, toda empresa fabricante de lâmpadas se tornaria bilionária.
Ou que, porque a Inteligência Artificial está transformando a computação, toda startup que coloca "AI" em seu nome será um sucesso.
A história mostra que inovação e rentabilidade não caminham necessariamente juntas.
E essa foi justamente a semente da maior bolha tecnológica do século XX.
Lições para o Padawan COBOL
Se existe uma primeira lição que um programador COBOL deve guardar deste capítulo, é que as maiores revoluções tecnológicas raramente começam da forma como imaginamos.
A Internet não nasceu para vender produtos.
A Web não foi criada para gerar bilhões em publicidade.
Os mainframes não foram desenvolvidos para competir com computadores pessoais.
Cada tecnologia surgiu para resolver problemas concretos e, somente depois, encontrou aplicações muito maiores do que seus criadores poderiam prever.
Essa é uma das características mais fascinantes da computação: tecnologias sólidas sobrevivem porque entregam valor real, mesmo quando as modas mudam.
No próximo capítulo veremos como essa combinação de entusiasmo, inovação e expectativas ilimitadas deu origem à febre das empresas ".com", uma corrida onde investidores passaram a acreditar que bastava adicionar um endereço na Internet para transformar qualquer ideia em bilhões de dólares. É aí que a verdadeira aventura — e o verdadeiro caos — começa.
Bellacosa Mainframe explica o email e seu nêmese o SPAM
☕ Um Café no Bellacosa Mainframe
🥫 SPAM, SPAM, SPAM! — Do ARPANET ao Príncipe Nigeriano
Uma história do e-mail, da linha discada, dos vírus, dos golpes e da interminável guerra pela caixa de entrada — sob a batuta do Monty Python
Imagine um restaurante inglês.
Você entra, senta-se educadamente e pergunta:
— O que temos hoje?
A garçonete responde:
— Ovos com SPAM.
— Sem SPAM?
— Temos ovos, bacon e SPAM.
— Sem SPAM.
— SPAM, ovos, salsicha e SPAM.
— Eu não gosto de SPAM!
Nesse momento, um grupo de vikings sentado ao lado começa:
SPAM! SPAM! SPAM! SPAM!
A garçonete tenta continuar.
Os vikings aumentam o volume:
SPAM! SPAM! SPAM! WONDERFUL SPAM!
Corta.
Agora estamos diante de um computador conectado à Internet.
A caixa de entrada contém:
Você ganhou US$ 5.000.000!
VIAGRA COM 80% DE DESCONTO!
Conheça mulheres solteiras perto de você!
Seu cartão foi bloqueado!
Empréstimo pré-aprovado!
URGENTE: atualize sua senha!
O usuário grita:
— EU NÃO QUERO SPAM!
Ao fundo:
SPAM! SPAM! SPAM! SPAM!
Bem-vindo à história do correio eletrônico.
Uma das invenções mais úteis da computação acabou criando também uma das maiores indústrias de porcaria digital já inventadas.
E o mais maravilhoso é que a palavra que usamos para descrever tudo isso nasceu justamente de uma piada do Monty Python.
Pegue seu café.
Configure o modem.
Feche todos os telefones da casa.
E, pelo amor de Deus, não abra o anexo.
🎬 ATO I — Antes do e-mail havia computadores solitários
Antes de começarmos, precisamos destruir uma pequena lenda.
Ray Tomlinson não acordou certa manhã de 1971 e inventou sozinho o conceito de alguém deixar uma mensagem eletrônica para outra pessoa.
Computadores multiusuário dos anos 1960 já possuíam mecanismos pelos quais um usuário podia deixar uma mensagem para outro usuário da mesma máquina.
Era uma espécie de bilhete eletrônico.
Imagine um grande computador compartilhado por dezenas de pessoas:
PARA: ARTHUR
DE: JOHN
TERMINEI O PROCESSAMENTO.
PODE USAR A FITA 17.
Funcionava.
Mas havia um detalhe importante:
Arthur e John estavam usando o mesmo computador.
Era como deixar um bilhete na geladeira.
Útil, porém geograficamente limitado.
A verdadeira mágica começaria quando o bilhete pudesse sair de uma máquina e chegar a outra.
📡 ATO II — 1971: aparece Ray Tomlinson
Estamos no começo dos anos 1970.
A ARPANET estava crescendo.
Computadores distantes começavam a conversar através da rede.
Ray Tomlinson, trabalhando na BBN, adaptou programas para permitir o envio de mensagens entre computadores.
Então surgiu um problema aparentemente banal:
Como representar:
usuário + computador?
Precisávamos de algo como:
VAGNER está no computador BELLACOSA
Tomlinson escolheu:
vagner@bellacosa
E o símbolo @ entrou para a história.
A escolha era elegante porque o caractere era relativamente pouco utilizado em nomes e podia ser interpretado como:
vagner AT bellacosa
Ou:
Vagner em Bellacosa.
Nascia uma convenção que atravessaria décadas.
Hoje bilhões de pessoas reconhecem imediatamente:
usuario@dominio
E quase ninguém pensa no pequeno problema de engenharia que precisou ser resolvido para chegarmos ali.
🤓 Curiosidade Pythoniana nº 1 — ninguém sabe exatamente o que dizia o primeiro e-mail
Perguntaram posteriormente a Tomlinson qual havia sido a primeira mensagem.
Ele não lembrava.
Provavelmente alguma sequência de caracteres de teste.
Algo equivalente a:
QWERTYUIOP
Isso é maravilhoso.
Uma das tecnologias de comunicação mais importantes da história pode ter começado com o equivalente digital de:
TESTE TESTE TESTE 123.
Se fosse hoje, certamente seria:
asdfasdfasdf
E algum gerente de projeto imediatamente abriria uma reunião para discutir o roadmap.
💌 ATO III — Os humanos descobrem que computadores também servem para conversar
A ARPANET tinha objetivos muito mais sofisticados.
Compartilhamento de recursos.
Pesquisa.
Computação remota.
Protocolos.
Infraestrutura.
Os humanos olharam para aquilo e descobriram:
— Posso mandar mensagem para alguém?
Sim.
— Excelente!
Pouco tempo depois, o correio eletrônico já representava uma parcela enorme do tráfego da ARPANET.
Essa é uma constante maravilhosa da história tecnológica.
Criamos computadores capazes de bilhões de operações por segundo.
Usamos para mandar:
Bom dia, pessoal.
Criamos redes planetárias.
Usamos para mandar:
Segue anexo.
Criamos inteligência artificial.
Usamos para perguntar:
Melhore este e-mail dizendo que estou enviando o anexo.
A humanidade é absolutamente consistente.
📢 ATO IV — 1978: alguém descobre que podemos estragar tudo
Chegamos a Gary Thuerk.
Gary trabalhava para a Digital Equipment Corporation, a famosa DEC.
A empresa queria divulgar apresentações de seus computadores DECSYSTEM-20.
Então alguém teve uma ideia comercial extraordinariamente moderna:
— Temos uma rede cheia de pessoas interessadas em computadores.
— Sim.
— Temos os endereços delas.
— Sim.
— Podemos mandar propaganda para todas.
Silêncio.
Ao fundo, um viking levanta lentamente a cabeça.
🥫
Em maio de 1978, centenas de usuários da ARPANET receberam uma mensagem comercial promovendo apresentações da DEC.
Hoje isso parece banal.
Naquele contexto, foi extraordinário.
E irritante.
Muito irritante.
Usuários reclamaram.
Administradores reclamaram.
Mas uma importante descoberta econômica já havia sido feita.
Mandar mensagem eletrônica para centenas de pessoas era praticamente grátis.
E essa descoberta nunca mais seria esquecida.
💰 ATO V — A matemática maligna do spam
O correio tradicional possui custos.
Imagine enviar um milhão de propagandas físicas.
Precisamos de:
papel;
impressão;
envelopes;
endereçamento;
transporte;
distribuição;
mão de obra.
Agora imagine enviar um milhão de e-mails.
Precisamos de:
SEND
Naturalmente existem infraestrutura e custos computacionais.
Mas o custo marginal de adicionar mais um destinatário é minúsculo.
Isso cria uma economia bastante peculiar.
Suponhamos que enviemos:
1.000.000 mensagens
E somente:
0,01%
das pessoas respondam.
Ainda temos:
100 respostas
Se cada resposta produzir lucro suficiente, a campanha funciona.
O spammer não precisa convencer todo mundo.
Não precisa convencer 10%.
Nem 1%.
Precisa encontrar alguns poucos indivíduos em uma multidão gigantesca.
Essa é uma das razões pelas quais o spam nunca morreu.
🥫 ATO VI — Mas por que SPAM?
Agora entra oficialmente o Monty Python.
Em 1970, o grupo apresentou um famoso sketch ambientado num café onde praticamente todas as opções do cardápio continham SPAM, a carne enlatada da Hormel.
Uma personagem tenta pedir algo sem SPAM.
Isso se torna progressivamente impossível.
E um grupo de vikings começa a cantar repetidamente sobre SPAM, tornando qualquer outra conversa praticamente impossível.
A genialidade da associação está justamente nisso.
Uma mensagem indesejada é irritante.
Mil mensagens indesejadas afogam a comunicação desejada.
Exatamente como os vikings.
Em comunidades online posteriores — BBSs, MUDs, Usenet e ambientes semelhantes — "spam" passou progressivamente a ser associado a mensagens repetitivas e indesejadas.
Até tornar-se aquilo que conhecemos.
Portanto existe uma linha histórica deliciosamente absurda:
Conforme o correio eletrônico cresceu, precisávamos de programas especializados.
Surgiram clientes e sistemas que marcaram gerações.
Entre eles:
Eudora;
Pegasus Mail;
Netscape Mail/Messenger;
Microsoft Mail;
Outlook;
Outlook Express;
e muitos outros.
Para milhões de usuários domésticos dos anos 1990 e começo dos anos 2000, o Outlook Express tornou-se praticamente sinônimo de correio eletrônico no PC.
A interface estabeleceu uma gramática visual que continua conosco:
📥 Caixa de entrada
📤 Caixa de saída
📨 Itens enviados
📝 Rascunhos
🗑️ Itens excluídos
O correio físico havia sido metaforicamente transportado para dentro do computador.
📥 ATO X — "Recebendo mensagem 3 de 17"
Havia algo quase ritualístico no correio eletrônico via linha discada.
Conectávamos.
Abríamos o programa.
Clicávamos em:
Enviar/Receber.
Então:
Recebendo mensagem 1 de 17...
Recebendo mensagem 2 de 17...
Recebendo mensagem 3 de 17...
Maravilha.
Mensagem quatro.
Cinco.
Seis.
Então chegávamos à:
Recebendo mensagem 7 de 17...
E ela não terminava.
Um minuto.
Dois.
Cinco.
Dez.
Alguém havia enviado uma fotografia gigantesca.
Talvez 3 MB.
Hoje 3 MB parece nada.
Em dial-up, 3 MB era praticamente uma encomenda marítima internacional.
O computador parecia dizer:
— Esta mensagem chegará quando chegar.
📦 ATO XI — MAILBOX QUOTA EXCEEDED
E havia outro inimigo.
Espaço.
Caixas postais podiam ter limites que hoje parecem hilários.
5 MB.
10 MB.
20 MB.
Uma apresentação PowerPoint e duas fotografias podiam transformar a infraestrutura numa emergência nacional.
Então chegava:
MAILBOX QUOTA EXCEEDED
O administrador dizia:
— Limpe sua caixa postal.
Você apagava vinte mensagens.
Nada.
— Limpei!
— Esvaziou Itens Excluídos?
Silêncio.
Descobríamos que apagar uma mensagem significava colocá-la numa segunda pasta para posteriormente apagá-la de verdade.
Monty Python aprovaria.
📢 ATO XII — O spam industrializa-se
Quando milhões de pessoas entraram na Internet, seus endereços passaram a possuir valor comercial.
Nasceu uma indústria.
Listas eram coletadas.
Compradas.
Vendidas.
Copiadas.
Roubadas.
Programas percorriam páginas da Web procurando padrões semelhantes a:
qualquercoisa@qualquercoisa.com
E surgiram os harvesters.
Robôs coletores de endereços.
Publicar seu e-mail publicamente numa página podia significar alimentar uma máquina que posteriormente o adicionaria a centenas de listas.
E as caixas começaram a receber:
BUY NOW!!!
FREE!!!
CASINO!!!
MORTGAGE!!!
VIAGRA!!!
HOT GIRLS!!!
YOU WON!!!
Os vikings haviam descoberto SMTP.
🔞 ATO XIII — A fase pornográfica da caixa de entrada
Houve uma época particularmente desagradável da Internet em que pornografia era uma presença constante no spam.
Não importava quem você fosse.
Professor.
Estudante.
Empresa.
Igreja.
Universidade.
Departamento governamental.
Seu servidor provavelmente receberia propaganda sexual.
Isso criou inclusive problemas corporativos.
Imagine abrir o Outlook durante uma apresentação.
Projetor ligado.
Trinta pessoas assistindo.
Surge:
🔥 HOT...
O administrador de sistemas passa a desejar viver numa cabana sem eletricidade.
Spam deixou de ser apenas inconveniência.
Virou:
problema de produtividade;
problema corporativo;
problema jurídico;
problema de segurança;
problema reputacional.
Precisávamos lutar.
🛡️ ATO XIV — Primeira solução: procurar palavras ruins
Os primeiros filtros podiam ser relativamente simples.
Algo como:
IF SUBJECT CONTAINS "VIAGRA"
MOVE TO SPAM
END-IF
Programador COBOL iniciante, perceba a lógica.
Temos uma regra.
Encontramos um padrão.
Tomamos uma decisão.
Maravilhoso.
Até o spammer descobrir.
Então:
VIAGRA
virou:
V1AGRA
Filtro atualizado.
Spammer:
V I A G R A
Filtro atualizado.
Spammer:
V|AGRA
Filtro atualizado.
Spammer:
— Segure minha cerveja.
E colocou o texto dentro de uma imagem.
Agora o filtro procurava palavras.
Mas não havia palavra.
Havia pixels.
Começava oficialmente a corrida armamentista.
👑 ATO XV — Entra Sua Alteza Real da Nigéria
Poucos personagens conseguiram atingir tamanha importância cultural quanto:
o príncipe nigeriano.
A fraude pertence à família dos golpes de adiantamento de pagamento.
O roteiro normalmente envolve uma fortuna bloqueada.
Talvez:
US$ 12 milhões.
US$ 47 milhões.
US$ 93 milhões.
Um príncipe, banqueiro, viúva, ministro ou funcionário público precisa retirar o dinheiro do país.
Por alguma razão, entre bilhões de seres humanos, ele escolheu você.
DEAR SIR,
I AM PRINCE...
I HAVE US$ 48,000,000...
Fantástico.
Um sujeito possui quarenta e oito milhões de dólares.
Mas precisa de você para pagar US$ 600 de documentação.
Monty Python dificilmente escreveria algo melhor.
O mais curioso é que funciona.
Não com todo mundo.
Não precisa.
Lembra da matemática do spam?
Basta encontrar algumas vítimas.
🦠 ATO XVI — Então o spam ganha dentes
Até aqui poderíamos pensar:
— Basta apagar.
Então chegaram vírus, worms, cavalos de Troia e outros códigos maliciosos distribuídos por correio eletrônico.
O e-mail era perfeito.
Ele chegava diretamente ao usuário.
E possuía algo extremamente poderoso:
confiança.
Uma mensagem podia aparentemente vir de alguém conhecido.
Naturalmente marketing legítimo e spam não são sinônimos. Consentimento, identificação do remetente, possibilidade de descadastramento, legislação e boas práticas fazem enorme diferença.
Mas houve historicamente uma zona cinzenta deliciosa.
Você nunca pediu aquela mensagem.
Mas alguém decidiu que você é um:
LEAD.
Parabéns.
Você deixou de ser Vagner.
Agora é:
LEAD_ID = 0000047281
E está na etapa:
FUNNEL_STATUS = WARM
Monty Python teria orgulho.
🧹 ATO XXI — Precisávamos de algo melhor
Filtrar palavras não era suficiente.
Então ferramentas começaram a utilizar diversas evidências simultaneamente.
Imagine:
FREE MONEY +3
VIAGRA +2
20 LINKS +2
IP SUSPEITO +5
HTML ESTRANHO +1
DOMÍNIO NOVO +2
REMETENTE FALSO +4
Total:
SPAM-SCORE = 19
Resultado:
MOVE TO SPAM
Ferramentas como o SpamAssassin tornaram-se símbolos dessa abordagem.
Agora o e-mail estava sendo interrogado.
— De onde você veio?
— Quem enviou você?
— Quantos links possui?
— Conhecemos esse IP?
— Seu HTML está estranho.
— Por que você escreveu FREE 47 vezes?
A mensagem começa a suar.
🧠 ATO XXII — O filtro aprende estatística
Depois vieram técnicas estatísticas mais sofisticadas, incluindo os famosos filtros bayesianos.
Em vez de depender exclusivamente de regras rígidas:
VIAGRA = SPAM
podemos perguntar:
Considerando mensagens classificadas anteriormente, qual é a probabilidade de esta mensagem ser spam?
Palavras e padrões ganham pesos estatísticos.
O sistema aprende diferenças entre mensagens desejadas e indesejadas.
E aqui encontramos uma das melhores piadas involuntárias da computação.
Se mensagem ruim é:
SPAM
mensagem legítima frequentemente é chamada:
HAM
Temos então:
EMAIL
│
┌───────┴───────┐
▼ ▼
🥫 SPAM 🥩 HAM
Décadas de ciência da computação.
Probabilidade.
Estatística.
Machine Learning.
E terminamos discutindo presunto.
🤖 ATO XXIII — Os computadores zumbis
O spammer ainda possuía um problema.
Se milhões de mensagens partissem do mesmo servidor, poderíamos bloquear aquele servidor.
Então surgiu uma solução criminosa muito eficiente:
não usar um único servidor.
Use milhares de computadores infectados.
Um PC doméstico no Brasil.
Outro na Alemanha.
Outro no Japão.
Outro nos Estados Unidos.
Outro na Índia.
Outro na França.
Todos controlados remotamente.
Temos uma:
BOTNET.
Agora o spam possui um exército.
👿
│
Command & Control
│
┌─────────┼─────────┐
▼ ▼ ▼
PC PC PC
Brasil Japão Itália
│ │ │
└──── SPAM SPAM ────┘
Os vikings agora estavam distribuídos mundialmente.
🪪 ATO XXIV — Precisávamos saber quem realmente enviou a mensagem
O e-mail original nasceu numa Internet relativamente pequena e baseada em confiança.
A Internet moderna não possui esse luxo.
Então foram criados mecanismos adicionais de autenticação.
Três nomes são fundamentais:
SPF
Ajuda a responder:
Quais servidores estão autorizados a enviar mensagens por este domínio?
DKIM
Adiciona assinatura criptográfica que permite verificar características de autenticidade e integridade da mensagem.
DMARC
Define políticas utilizando SPF e DKIM e permite ao domínio indicar como determinadas falhas devem ser tratadas, além de oferecer relatórios.
Para um programador mainframe podemos fazer uma analogia divertida:
SPF
"Esse sujeito pode entrar por esta porta?"
DKIM
"Essa assinatura realmente pertence a ele?"
DMARC
"Se alguma coisa estiver errada,
qual é a política?"
Não é RACF.
Mas podemos brincar:
RACF emocional do SMTP.
🌐 ATO XXV — A caixa postal deixa de morar no PC
Outra revolução mudou completamente nosso relacionamento com o e-mail.
Antes:
SERVIDOR
│
│ POP3
▼
COMPUTADOR
Baixávamos mensagens.
Arquivávamos localmente.
Fazíamos backup.
Perdíamos o HD.
Chorávamos.
Com webmail, IMAP e serviços em nuvem, o modelo mudou:
☁️
MAIL SERVER
│
┌─────────┼─────────┐
▼ ▼ ▼
PC CELULAR WEB
A mesma caixa aparece em vários lugares.
Lemos no celular.
Respondemos no notebook.
Arquivamos no navegador.
O estado é sincronizado.
Parece óbvio.
Não era.
☁️ ATO XXVI — O antispam moderno vira uma investigação criminal
Hoje uma mensagem pode passar por dezenas de análises antes de aparecer diante de você.
Por trás daquela banalidade existe uma infraestrutura gigantesca trabalhando.
🤖 ATO XXVII — E então demos inteligência artificial aos dois lados
Aqui chegamos aos dias atuais.
Durante décadas havia um pequeno consolo.
Muitos golpes eram linguisticamente ruins.
Erros gramaticais.
Traduções bizarras.
Saudações estranhas.
Textos obviamente artificiais.
Então chegou a IA generativa.
Agora um criminoso pode produzir rapidamente mensagens:
gramaticalmente corretas;
personalizadas;
contextuais;
em vários idiomas;
adaptadas ao cargo;
imitando linguagem corporativa;
com aparência extremamente profissional.
Aquele velho:
DEAR SIR
I HAVE MONEY
pode transformar-se em:
Olá Vagner,
Estou retomando nossa conversa sobre
o fechamento financeiro deste trimestre.
A planilha revisada está disponível no
link abaixo para sua validação.
Muito mais perigoso.
O conteúdo deixou de ser necessariamente o melhor indicador de fraude.
Identidade, contexto, reputação e comportamento tornam-se ainda mais importantes.
🎭 ATO XXVIII — O Ministério dos E-mails Inúteis
Se Monty Python estivesse documentando nossa infraestrutura atual, provavelmente existiria:
Ministry of Silly Emails
Departamento de Mensagens que Poderiam Ter Sido uma Linha.
Departamento de "Conforme Meu E-mail Anterior".
Departamento de Reply All Acidental.
Departamento de Anexos Esquecidos.
Departamento de "Segue anexo" sem anexo.
Departamento de reuniões convocadas para discutir e-mails sobre reuniões.
E naturalmente:
Department of Unsolicited Commercial Communications and Nigerian Royal Affairs.
Com 14 mil funcionários.
Nenhum deles autorizado a bloquear spam porque o formulário SPAM-42B precisa primeiro ser aprovado pelo Departamento de Formulários.
🥚 EASTER EGG — 03:17
Existe um pequeno detalhe escondido nesta história.
Vagner Renato Bellacosa trabalha com IBM Mainframe
desde 1988
,
é IBM Champion e especialista em COBOL, CICS, Db2,
z/OS e IBM Z. Compartilha experiências profissionais,
conhecimento técnico, história da computação e práticas
do universo mainframe para aproximar novas gerações das
tecnologias que sustentam empresas, bancos e governos
ao redor do mundo.
IBM Champion
IBM Z
COBOL
CICS
Db2
z/OS
Mainframe desde 1988