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domingo, 2 de fevereiro de 2020

DotCom: Capítulo II — A Corrida do Ouro Digital: Como Nasceu a Febre das Empresas ".com"

  

Bellacosa Mainframe e o estouro da bolha dotcom capitulo II

Capítulo II — A Corrida do Ouro Digital: Como Nasceu a Febre das Empresas ".com"

Quando Wall Street descobriu a Internet e acreditou que o lucro havia se tornado opcional

"Na história da humanidade, toda grande corrida do ouro começa com uma descoberta legítima. O problema começa quando as pessoas passam a vender pás em vez de procurar ouro."

Se no capítulo anterior vimos como a Internet saiu dos laboratórios e começou a conquistar o mundo, agora chegamos ao momento em que a tecnologia deixou de ser apenas uma ferramenta e passou a ser encarada como a promessa de uma nova civilização econômica.

Foi nesse instante que nasceu a famosa Era das Dot-Com.

Para um Padawan COBOL, esse é um dos capítulos mais importantes da história da computação, porque mostra como uma tecnologia revolucionária pode ser confundida com uma oportunidade de enriquecimento fácil. A Internet realmente mudaria o planeta. O erro foi acreditar que qualquer empresa ligada a ela se transformaria automaticamente em um império.

A tecnologia estava certa.

A lógica financeira, não.


O Significado de ".com"

Hoje digitamos endereços como algo absolutamente natural.

bellacosamainframe.com

ibm.com

openai.com

amazon.com

Mas poucos lembram que, na década de 1990, possuir um domínio ".com" era quase um símbolo de status.

O ".com" era originalmente apenas um domínio de primeiro nível destinado a empresas comerciais.

Nada mais.

Entretanto, o imaginário popular transformou essas quatro letras em sinônimo de modernidade, inovação e riqueza.

Era como se existissem dois mundos.

O mundo antigo.

E o mundo ".com".

Se uma empresa acrescentasse ".com" ao seu nome, muitos investidores imediatamente acreditavam que ela fazia parte da nova economia.

Hoje parece absurdo.

Na época, parecia inevitável.


A Internet Virou um Sonho Coletivo

O final dos anos 1990 foi marcado por um sentimento raro na história.

O mundo inteiro parecia acreditar que estava vivendo o nascimento de uma nova Revolução Industrial.

Todos os dias surgiam manchetes anunciando:

  • "A Internet vai acabar com as lojas físicas."

  • "Os bancos tradicionais desaparecerão."

  • "Os jornais impressos morrerão."

  • "Nunca mais será necessário sair de casa para fazer compras."

  • "O comércio eletrônico dominará o planeta."

Curiosamente...

Quase todas essas previsões acabaram se tornando verdadeiras.

O problema foi o prazo.

Os investidores imaginavam que isso aconteceria em dois ou três anos.

Na realidade, muitas dessas transformações levaram vinte ou trinta anos para amadurecer.

A tecnologia estava apenas adiantada em relação ao comportamento da sociedade.


O Surgimento da "Nova Economia"

Naquele período começou a surgir uma expressão extremamente popular:

The New Economy.

Segundo muitos economistas da época, as regras tradicionais deixariam de existir.

Lucro?

Não importava.

Fluxo de caixa?

Ultrapassado.

Patrimônio?

Irrelevante.

O importante era conquistar usuários.

Essa ideia parecia revolucionária.

E, em parte, realmente era.

Empresas digitais podiam crescer muito mais rapidamente do que empresas tradicionais.

Uma loja física precisava construir filiais.

Uma empresa na Internet precisava apenas de mais servidores.

Era uma mudança gigantesca na forma de escalar um negócio.

Mas alguém começou a confundir crescimento com sustentabilidade.

E foi aí que a história começou a tomar um rumo perigoso.


Wall Street Descobre a Internet

Até então, o mercado financeiro sempre havia analisado empresas utilizando critérios relativamente objetivos.

Receita.

Lucro.

Margem.

Patrimônio.

Endividamento.

Capacidade de geração de caixa.

Com as empresas de Internet surgiu um novo raciocínio.

"Elas ainda não dão lucro porque estão crescendo."

Inicialmente fazia sentido.

Afinal, muitas empresas realmente sacrificam lucro nos primeiros anos para ganhar mercado.

O problema foi quando isso deixou de ser uma fase e passou a ser um modelo de negócios.

Algumas companhias queimavam milhões de dólares por mês sem qualquer perspectiva concreta de rentabilidade.

Mesmo assim...

Recebiam novos investimentos.

Era como abastecer um carro sem motor.


O Primeiro IPO Virou um Espetáculo

Outro fator alimentou a euforia.

Os IPOs.

Initial Public Offering, ou Oferta Pública Inicial.

Empresas extremamente jovens chegavam à bolsa de valores e suas ações dobravam ou triplicavam de preço no primeiro dia de negociação.

Imagine abrir uma empresa hoje e, poucos anos depois, vê-la valer bilhões apenas porque investidores acreditam no seu potencial.

Foi exatamente isso que aconteceu.

Cada IPO bem-sucedido atraía novos investidores.

Cada novo investidor aumentava ainda mais os preços.

E o ciclo se retroalimentava.

Nascia um dos ingredientes clássicos de toda bolha especulativa.


Venture Capital: O Combustível da Explosão

Ao mesmo tempo, os fundos de Venture Capital passaram a desempenhar um papel decisivo.

Sua missão era investir em empresas extremamente inovadoras, assumindo riscos elevados em troca da possibilidade de retornos extraordinários.

Esse modelo continua existindo até hoje e é extremamente importante para a inovação.

O problema não era o Venture Capital em si.

O problema era o excesso de dinheiro procurando oportunidades.

Quando existe muito capital disponível, a disciplina tende a diminuir.

Projetos que normalmente seriam rejeitados começaram a receber milhões de dólares.

Muitas vezes bastava apresentar uma ideia interessante acompanhada por uma bela apresentação em PowerPoint.

O produto ainda nem existia.


O Fascínio das Startups

Foi nessa época que começou a nascer a cultura das startups como conhecemos atualmente.

Escritórios modernos.

Mesas de sinuca.

Videogames.

Pufes coloridos.

Ambientes descontraídos.

Horários flexíveis.

Jovens empreendedores usando camiseta e tênis apresentavam projetos para investidores acostumados a ternos e gravatas.

Era uma ruptura cultural.

Empresas centenárias pareciam lentas.

As startups representavam velocidade.

Coragem.

Criatividade.

Disrupção.

A palavra "disruptivo" virou praticamente um mantra.

Poucos paravam para perguntar:

"Como exatamente essa empresa pretende ganhar dinheiro?"


A Mídia Também Entrou na Festa

Revistas especializadas publicavam diariamente histórias de jovens milionários.

Empreendedores de vinte e poucos anos tornavam-se celebridades.

A imprensa tratava fundadores de startups quase como astros do rock.

As capas anunciavam:

"A empresa do futuro."

"O próximo bilionário."

"A nova Microsoft."

Criava-se um ambiente psicológico muito perigoso.

Quem não investisse em Internet parecia estar ficando para trás.

Esse fenômeno possui um nome bastante conhecido atualmente:

FOMO — Fear of Missing Out, o medo de perder uma oportunidade única.

É exatamente esse sentimento que costuma alimentar as grandes bolhas financeiras.


Quando o Marketing Passou a Valer Mais que o Produto

Durante a febre das Dot-Com ocorreu algo curioso.

Algumas empresas gastavam mais dinheiro anunciando seus serviços do que desenvolvendo seus próprios produtos.

Campanhas publicitárias milionárias apareciam na televisão.

Outdoor.

Revistas.

Eventos.

Patrocínios.

Enquanto isso...

Os sistemas internos ainda apresentavam falhas.

Os processos logísticos não funcionavam.

O atendimento era precário.

Era como pintar uma nave espacial antes mesmo de instalar os motores.

Bonita por fora.

Incapaz de completar a missão.


Pets.com: O Símbolo do Exagero

Nenhuma empresa representa melhor aquele período do que a Pets.com.

Sua proposta parecia excelente.

Vender produtos para animais de estimação pela Internet.

Hoje isso parece absolutamente comum.

Na época também parecia uma ótima ideia.

O problema não era a ideia.

Era a matemática.

Transportar sacos de ração pesados para clientes espalhados pelo país custava muito mais do que a empresa conseguia cobrar.

Mesmo assim, a Pets.com gastou milhões em publicidade, criou um mascote famoso e abriu capital na bolsa.

Menos de um ano depois do IPO, encerrou suas atividades.

Seu fantoche de cachorro tornou-se um dos símbolos mais conhecidos da bolha da Internet.

A ideia sobreviveu.

A empresa, não.


Nem Todas Eram Fraudes

É importante desfazer um mito.

A maioria das empresas Dot-Com não nasceu para enganar investidores.

Pelo contrário.

Muitas possuíam profissionais brilhantes.

Ideias genuinamente inovadoras.

Tecnologia avançada.

O problema era outro.

Elas chegaram cedo demais.

O mercado ainda não estava preparado.

A infraestrutura de Internet era limitada.

Os meios de pagamento online eram pouco confiáveis.

A logística ainda era cara.

O consumidor ainda desconfiava das compras virtuais.

Ou seja...

A visão estava correta.

O momento histórico, não.


Enquanto Isso... Nos Bastidores dos Mainframes

Enquanto jornais anunciavam diariamente a "Nova Economia", os computadores centrais continuavam executando silenciosamente suas rotinas.

Os bancos processavam bilhões em transferências.

As bolsas de valores liquidavam operações.

As seguradoras calculavam riscos.

Os governos arrecadavam impostos.

Curiosamente, muitas startups utilizavam justamente esses sistemas tradicionais para realizar pagamentos, processar cartões de crédito e registrar transações financeiras.

A fachada era moderna.

A infraestrutura continuava clássica.

Essa é uma das grandes ironias da história da computação.

A revolução digital avançava apoiada em tecnologias que muitos diziam estar ultrapassadas.


O Erro que Ninguém Percebeu

A Internet realmente mudaria o mundo.

Esse diagnóstico estava absolutamente correto.

O erro foi imaginar que crescimento infinito poderia substituir fundamentos econômicos.

Receita ainda importava.

Lucro continuava importante.

Fluxo de caixa permanecia essencial.

Clientes precisavam pagar contas.

Funcionários precisavam receber salários.

Empresas precisavam sobreviver até que o futuro chegasse.

E foi justamente aí que muitas fracassaram.

Elas apostaram que o amanhã chegaria antes que o dinheiro acabasse.


Lições para o Padawan COBOL

Para um desenvolvedor de sistemas, existe uma lição valiosa escondida na febre das Dot-Com.

Uma boa ideia é apenas o início da jornada.

Entre uma apresentação inspiradora e um sistema funcionando em produção existe um oceano de desafios:

  • arquitetura;

  • infraestrutura;

  • segurança;

  • escalabilidade;

  • manutenção;

  • suporte;

  • integração;

  • continuidade do negócio.

É exatamente por isso que profissionais de mainframe costumam enxergar a tecnologia de maneira diferente.

Eles sabem que um sistema não é medido apenas pelo entusiasmo que desperta no lançamento, mas pela capacidade de continuar operando com segurança cinco, dez ou vinte anos depois.

No universo da Frota Estelar, qualquer engenheiro consegue desenhar uma nave impressionante no holodeck. O verdadeiro desafio é construir uma nave capaz de atravessar uma tempestade de plasma, cumprir a missão e retornar com toda a tripulação em segurança.

No próximo capítulo veremos como essa corrida desenfreada por crescimento criou uma cultura conhecida como "queimar caixa" (Burn Rate), onde gastar milhões de dólares deixou de ser um problema e passou a ser considerado uma estratégia de negócios. Foi nesse momento que a bolha começou, silenciosamente, a preparar sua própria explosão.


segunda-feira, 27 de janeiro de 2020

DotCom : Capítulo I — Antes da Tempestade: O Mundo Antes da Internet Comercial

 

 

Bellacosa Mainframe a tempestade dot.com capitulo I


DotCOM: Capítulo I — Antes da Tempestade: O Mundo Antes da Internet Comercial

Como um Padawan COBOL pode entender por que a maior revolução digital da história começou muito antes do Google

"Toda revolução parece nascer de um único momento. Na realidade, ela é construída silenciosamente durante décadas."

Imagine que você acabou de entrar em um CPD (Centro de Processamento de Dados) em 1994.

Você veste um jaleco, atravessa uma sala climatizada onde o ar-condicionado nunca desliga, escuta o ruído constante das unidades de disco, observa operadores carregando fitas magnéticas e impressoras de linha imprimindo milhares de páginas por hora. Em um canto, um IBM 9672 executa milhares de transações por segundo sem que a maioria da população sequer imagine sua existência.

Para um jovem Padawan COBOL, aquele era o verdadeiro coração da economia.

Enquanto isso, do lado de fora do prédio, poucas pessoas sequer sabiam o que era Internet.

É difícil acreditar nisso hoje.

Vivemos numa época em que praticamente tudo depende da rede mundial. Pagamos contas pelo celular, fazemos compras em segundos, conversamos com pessoas do outro lado do planeta por vídeo, assistimos filmes sob demanda e utilizamos Inteligência Artificial para escrever textos, criar imagens e desenvolver programas.

Mas, até meados da década de 1990, esse mundo simplesmente não existia.

A Internet não era uma praça pública digital.

Era um enorme laboratório.

E compreender essa diferença é essencial para entender por que a bolha das empresas ".com" aconteceu poucos anos depois.


Muito Antes do Google Existia Outro Mundo

Quando ouvimos falar da Internet, normalmente pensamos em empresas como Google, Amazon, Netflix ou YouTube.

Entretanto, nenhuma delas existia da forma que conhecemos atualmente.

Na verdade, durante boa parte dos anos 1980 e início dos anos 1990, a Internet era utilizada quase exclusivamente por:

  • universidades;

  • centros de pesquisa;

  • órgãos governamentais;

  • instituições militares;

  • alguns grandes laboratórios científicos.

Seu objetivo original nunca foi vender produtos.

Ela foi concebida para compartilhar informações e manter comunicações resilientes entre computadores distribuídos.

As conexões eram lentas.

Muito lentas.

Hoje reclamamos quando uma página demora três segundos para abrir.

Naquela época, uma fotografia podia levar vários minutos para aparecer completamente na tela, linha após linha, como se estivesse sendo desenhada lentamente.

Vídeos?

Praticamente impensáveis.

Streaming?

Nem sequer fazia parte do vocabulário.


O Mundo Corporativo Funcionava Muito Bem Sem a Web

Existe uma ideia bastante difundida entre quem começou a estudar tecnologia recentemente:

"Antes da Internet, as empresas eram atrasadas."

Nada poderia estar mais distante da realidade.

Bancos já processavam milhões de transações diariamente.

Companhias aéreas possuíam sofisticados sistemas de reservas.

Seguradoras administravam enormes bases de dados.

Governos realizavam arrecadação de impostos em escala nacional.

Tudo isso funcionava antes da Web.

Quem fazia esse trabalho?

Mainframes.

COBOL.

CICS.

IMS.

Db2.

VSAM.

JCL.

Essas tecnologias sustentavam operações críticas décadas antes de alguém imaginar fazer compras pela Internet.

É justamente por isso que muitos profissionais veteranos sorriem quando alguém afirma que "a transformação digital começou com a Internet".

Na verdade, a Internet foi construída sobre uma infraestrutura empresarial que já existia e que funcionava com extraordinária confiabilidade.

Enquanto a Web ainda aprendia a andar, o mainframe já corria maratonas.


A Era dos Jardins Fechados

Antes da Internet comercial, existiam diversas redes privadas.

Empresas utilizavam:

  • terminais 3270;

  • redes SNA;

  • sistemas proprietários;

  • comunicação X.25;

  • acesso remoto via modem;

  • BBS (Bulletin Board Systems).

Cada ambiente funcionava quase como um pequeno planeta independente.

Era comum uma empresa possuir centenas de terminais conectados exclusivamente ao seu computador central.

Não havia páginas web.

Não existiam hyperlinks.

A navegação era totalmente baseada em menus e comandos.

Curiosamente, muitos desses sistemas ainda permanecem ativos atualmente, executando aplicações críticas em bancos, governos e grandes empresas.

Isso mostra uma característica importante da tecnologia empresarial:

estabilidade costuma valer mais do que novidade.


O Barulho que Mudou Tudo

No início dos anos 1990, milhões de pessoas começaram a ouvir um som que marcaria uma geração inteira.

O modem discado.

Quem viveu aquela época dificilmente esquece a sequência metálica de chiados, estalos e apitos produzidos enquanto o computador tentava estabelecer uma conexão telefônica.

Aquele pequeno concerto eletrônico significava apenas uma coisa:

Você estava entrando na Internet.

A conexão ocupava a linha telefônica.

Se alguém levantasse o telefone da casa...

A conexão caía.

As velocidades pareciam ridículas para os padrões atuais.

14.400 bps.

28.800 bps.

33.600 bps.

56 Kbps.

Hoje uma fotografia comum pode ser maior que toda a quantidade de dados transferida em vários minutos de navegação daquela época.

Mesmo assim...

Parecia mágico.

Pela primeira vez qualquer pessoa poderia acessar informações publicadas em outro país sem precisar comprar livros, revistas ou jornais.

Era uma mudança de paradigma.


O Nascimento da World Wide Web

Um dos maiores equívocos históricos é acreditar que Internet e Web são a mesma coisa.

Não são.

A Internet é a infraestrutura.

A Web é um dos serviços que funciona sobre ela.

Foi o cientista britânico Tim Berners-Lee quem propôs, em 1989, um sistema baseado em hipertexto capaz de conectar documentos espalhados pelo mundo.

Nascia a World Wide Web.

Sua ideia era simples e genial.

Criar documentos interligados por links.

Hoje isso parece absolutamente comum.

Na época era revolucionário.

Antes disso, acessar informações em computadores remotos exigia comandos específicos e conhecimento técnico.

Com a Web bastava clicar.

Essa simplicidade mudaria tudo.


Mosaic: O Navegador que Encantou o Mundo

Em 1993 surgiu um software que poucos conhecem hoje, mas que alterou definitivamente a história da computação.

O navegador Mosaic.

Pela primeira vez era possível visualizar textos e imagens juntos na mesma página de maneira amigável.

Pode parecer um detalhe pequeno.

Não era.

Até então, boa parte da Internet era baseada em interfaces textuais.

O Mosaic transformou a navegação em algo visual.

Milhões perceberam que aquele ambiente tinha potencial para se tornar muito maior do que um simples projeto acadêmico.

Entre seus desenvolvedores estava Marc Andreessen, que pouco tempo depois ajudaria a fundar a Netscape Communications.

Esse seria o próximo grande capítulo da revolução digital.


Netscape: A Primeira Estrela da Nova Economia

Se hoje o Google domina o mercado de navegadores por meio do Chrome, nos anos 1990 quem despertava admiração era o Netscape Navigator.

Ele era rápido.

Bonito.

Fácil de usar.

Empresas passaram a criar seus primeiros sites.

Jornais começaram a publicar notícias online.

Universidades disponibilizaram conteúdos digitais.

Pequenos negócios descobriram que poderiam alcançar clientes muito além de sua cidade.

A Internet deixava de ser um ambiente técnico.

Ela começava a se tornar comercial.

Era o início de uma nova economia.

E quase ninguém imaginava a velocidade com que essa transformação aconteceria.


O Primeiro Contato da Sociedade com o "Ciberespaço"

Na metade da década de 1990, navegar pela Internet era uma experiência quase exploratória.

Não havia mecanismos de busca eficientes.

Era preciso conhecer o endereço exato de um site ou encontrá-lo em diretórios como Yahoo!, que organizavam páginas por categorias.

Surgiam também serviços que marcaram uma geração:

  • ICQ;

  • IRC;

  • Geocities;

  • AltaVista;

  • Lycos;

  • Excite.

Cada novo site parecia descobrir um território desconhecido.

A sensação era semelhante às grandes navegações dos séculos XV e XVI.

Só que, desta vez, o oceano era digital.


Enquanto Isso... Nos Bastidores da Economia

Enquanto revistas estampavam capas anunciando "A Revolução da Internet", outra realidade permanecia praticamente invisível.

As bolsas de valores continuavam sendo liquidadas por sistemas robustos.

Cartões de crédito eram autorizados em mainframes.

Folhas de pagamento eram processadas em COBOL.

Compensações bancárias aconteciam diariamente sem falhas perceptíveis.

Esse contraste é fascinante.

O mundo olhava para as vitrines da Internet.

Mas a infraestrutura que sustentava a economia continuava funcionando silenciosamente nos grandes centros de processamento de dados.

Como na engenharia de uma nave da Frota Estelar, todos admiravam a ponte de comando. Poucos percebiam que era a sala de máquinas que mantinha a nave em velocidade de dobra.


A Primeira Grande Ilusão

Foi exatamente nesse cenário que surgiu uma ideia extremamente sedutora.

Se a Internet estava crescendo tão rapidamente...

Então qualquer empresa ligada à Internet inevitavelmente ficaria rica.

Essa conclusão parecia lógica.

Mas escondia um erro clássico.

Confundir o crescimento de uma tecnologia com o sucesso automático de todas as empresas que a utilizam.

É como imaginar que, porque a eletricidade revolucionou o mundo, toda empresa fabricante de lâmpadas se tornaria bilionária.

Ou que, porque a Inteligência Artificial está transformando a computação, toda startup que coloca "AI" em seu nome será um sucesso.

A história mostra que inovação e rentabilidade não caminham necessariamente juntas.

E essa foi justamente a semente da maior bolha tecnológica do século XX.


Lições para o Padawan COBOL

Se existe uma primeira lição que um programador COBOL deve guardar deste capítulo, é que as maiores revoluções tecnológicas raramente começam da forma como imaginamos.

A Internet não nasceu para vender produtos.

A Web não foi criada para gerar bilhões em publicidade.

Os mainframes não foram desenvolvidos para competir com computadores pessoais.

Cada tecnologia surgiu para resolver problemas concretos e, somente depois, encontrou aplicações muito maiores do que seus criadores poderiam prever.

Essa é uma das características mais fascinantes da computação: tecnologias sólidas sobrevivem porque entregam valor real, mesmo quando as modas mudam.

No próximo capítulo veremos como essa combinação de entusiasmo, inovação e expectativas ilimitadas deu origem à febre das empresas ".com", uma corrida onde investidores passaram a acreditar que bastava adicionar um endereço na Internet para transformar qualquer ideia em bilhões de dólares. É aí que a verdadeira aventura — e o verdadeiro caos — começa.