| Bellacosa Mainframe e o estouro da bolha dotcom capitulo II |
Capítulo II — A Corrida do Ouro Digital: Como Nasceu a Febre das Empresas ".com"
Quando Wall Street descobriu a Internet e acreditou que o lucro havia se tornado opcional
"Na história da humanidade, toda grande corrida do ouro começa com uma descoberta legítima. O problema começa quando as pessoas passam a vender pás em vez de procurar ouro."
Se no capítulo anterior vimos como a Internet saiu dos laboratórios e começou a conquistar o mundo, agora chegamos ao momento em que a tecnologia deixou de ser apenas uma ferramenta e passou a ser encarada como a promessa de uma nova civilização econômica.
Foi nesse instante que nasceu a famosa Era das Dot-Com.
Para um Padawan COBOL, esse é um dos capítulos mais importantes da história da computação, porque mostra como uma tecnologia revolucionária pode ser confundida com uma oportunidade de enriquecimento fácil. A Internet realmente mudaria o planeta. O erro foi acreditar que qualquer empresa ligada a ela se transformaria automaticamente em um império.
A tecnologia estava certa.
A lógica financeira, não.
O Significado de ".com"
Hoje digitamos endereços como algo absolutamente natural.
bellacosamainframe.com
ibm.com
openai.com
amazon.com
Mas poucos lembram que, na década de 1990, possuir um domínio ".com" era quase um símbolo de status.
O ".com" era originalmente apenas um domínio de primeiro nível destinado a empresas comerciais.
Nada mais.
Entretanto, o imaginário popular transformou essas quatro letras em sinônimo de modernidade, inovação e riqueza.
Era como se existissem dois mundos.
O mundo antigo.
E o mundo ".com".
Se uma empresa acrescentasse ".com" ao seu nome, muitos investidores imediatamente acreditavam que ela fazia parte da nova economia.
Hoje parece absurdo.
Na época, parecia inevitável.
A Internet Virou um Sonho Coletivo
O final dos anos 1990 foi marcado por um sentimento raro na história.
O mundo inteiro parecia acreditar que estava vivendo o nascimento de uma nova Revolução Industrial.
Todos os dias surgiam manchetes anunciando:
"A Internet vai acabar com as lojas físicas."
"Os bancos tradicionais desaparecerão."
"Os jornais impressos morrerão."
"Nunca mais será necessário sair de casa para fazer compras."
"O comércio eletrônico dominará o planeta."
Curiosamente...
Quase todas essas previsões acabaram se tornando verdadeiras.
O problema foi o prazo.
Os investidores imaginavam que isso aconteceria em dois ou três anos.
Na realidade, muitas dessas transformações levaram vinte ou trinta anos para amadurecer.
A tecnologia estava apenas adiantada em relação ao comportamento da sociedade.
O Surgimento da "Nova Economia"
Naquele período começou a surgir uma expressão extremamente popular:
The New Economy.
Segundo muitos economistas da época, as regras tradicionais deixariam de existir.
Lucro?
Não importava.
Fluxo de caixa?
Ultrapassado.
Patrimônio?
Irrelevante.
O importante era conquistar usuários.
Essa ideia parecia revolucionária.
E, em parte, realmente era.
Empresas digitais podiam crescer muito mais rapidamente do que empresas tradicionais.
Uma loja física precisava construir filiais.
Uma empresa na Internet precisava apenas de mais servidores.
Era uma mudança gigantesca na forma de escalar um negócio.
Mas alguém começou a confundir crescimento com sustentabilidade.
E foi aí que a história começou a tomar um rumo perigoso.
Wall Street Descobre a Internet
Até então, o mercado financeiro sempre havia analisado empresas utilizando critérios relativamente objetivos.
Receita.
Lucro.
Margem.
Patrimônio.
Endividamento.
Capacidade de geração de caixa.
Com as empresas de Internet surgiu um novo raciocínio.
"Elas ainda não dão lucro porque estão crescendo."
Inicialmente fazia sentido.
Afinal, muitas empresas realmente sacrificam lucro nos primeiros anos para ganhar mercado.
O problema foi quando isso deixou de ser uma fase e passou a ser um modelo de negócios.
Algumas companhias queimavam milhões de dólares por mês sem qualquer perspectiva concreta de rentabilidade.
Mesmo assim...
Recebiam novos investimentos.
Era como abastecer um carro sem motor.
O Primeiro IPO Virou um Espetáculo
Outro fator alimentou a euforia.
Os IPOs.
Initial Public Offering, ou Oferta Pública Inicial.
Empresas extremamente jovens chegavam à bolsa de valores e suas ações dobravam ou triplicavam de preço no primeiro dia de negociação.
Imagine abrir uma empresa hoje e, poucos anos depois, vê-la valer bilhões apenas porque investidores acreditam no seu potencial.
Foi exatamente isso que aconteceu.
Cada IPO bem-sucedido atraía novos investidores.
Cada novo investidor aumentava ainda mais os preços.
E o ciclo se retroalimentava.
Nascia um dos ingredientes clássicos de toda bolha especulativa.
Venture Capital: O Combustível da Explosão
Ao mesmo tempo, os fundos de Venture Capital passaram a desempenhar um papel decisivo.
Sua missão era investir em empresas extremamente inovadoras, assumindo riscos elevados em troca da possibilidade de retornos extraordinários.
Esse modelo continua existindo até hoje e é extremamente importante para a inovação.
O problema não era o Venture Capital em si.
O problema era o excesso de dinheiro procurando oportunidades.
Quando existe muito capital disponível, a disciplina tende a diminuir.
Projetos que normalmente seriam rejeitados começaram a receber milhões de dólares.
Muitas vezes bastava apresentar uma ideia interessante acompanhada por uma bela apresentação em PowerPoint.
O produto ainda nem existia.
O Fascínio das Startups
Foi nessa época que começou a nascer a cultura das startups como conhecemos atualmente.
Escritórios modernos.
Mesas de sinuca.
Videogames.
Pufes coloridos.
Ambientes descontraídos.
Horários flexíveis.
Jovens empreendedores usando camiseta e tênis apresentavam projetos para investidores acostumados a ternos e gravatas.
Era uma ruptura cultural.
Empresas centenárias pareciam lentas.
As startups representavam velocidade.
Coragem.
Criatividade.
Disrupção.
A palavra "disruptivo" virou praticamente um mantra.
Poucos paravam para perguntar:
"Como exatamente essa empresa pretende ganhar dinheiro?"
A Mídia Também Entrou na Festa
Revistas especializadas publicavam diariamente histórias de jovens milionários.
Empreendedores de vinte e poucos anos tornavam-se celebridades.
A imprensa tratava fundadores de startups quase como astros do rock.
As capas anunciavam:
"A empresa do futuro."
"O próximo bilionário."
"A nova Microsoft."
Criava-se um ambiente psicológico muito perigoso.
Quem não investisse em Internet parecia estar ficando para trás.
Esse fenômeno possui um nome bastante conhecido atualmente:
FOMO — Fear of Missing Out, o medo de perder uma oportunidade única.
É exatamente esse sentimento que costuma alimentar as grandes bolhas financeiras.
Quando o Marketing Passou a Valer Mais que o Produto
Durante a febre das Dot-Com ocorreu algo curioso.
Algumas empresas gastavam mais dinheiro anunciando seus serviços do que desenvolvendo seus próprios produtos.
Campanhas publicitárias milionárias apareciam na televisão.
Outdoor.
Revistas.
Eventos.
Patrocínios.
Enquanto isso...
Os sistemas internos ainda apresentavam falhas.
Os processos logísticos não funcionavam.
O atendimento era precário.
Era como pintar uma nave espacial antes mesmo de instalar os motores.
Bonita por fora.
Incapaz de completar a missão.
Pets.com: O Símbolo do Exagero
Nenhuma empresa representa melhor aquele período do que a Pets.com.
Sua proposta parecia excelente.
Vender produtos para animais de estimação pela Internet.
Hoje isso parece absolutamente comum.
Na época também parecia uma ótima ideia.
O problema não era a ideia.
Era a matemática.
Transportar sacos de ração pesados para clientes espalhados pelo país custava muito mais do que a empresa conseguia cobrar.
Mesmo assim, a Pets.com gastou milhões em publicidade, criou um mascote famoso e abriu capital na bolsa.
Menos de um ano depois do IPO, encerrou suas atividades.
Seu fantoche de cachorro tornou-se um dos símbolos mais conhecidos da bolha da Internet.
A ideia sobreviveu.
A empresa, não.
Nem Todas Eram Fraudes
É importante desfazer um mito.
A maioria das empresas Dot-Com não nasceu para enganar investidores.
Pelo contrário.
Muitas possuíam profissionais brilhantes.
Ideias genuinamente inovadoras.
Tecnologia avançada.
O problema era outro.
Elas chegaram cedo demais.
O mercado ainda não estava preparado.
A infraestrutura de Internet era limitada.
Os meios de pagamento online eram pouco confiáveis.
A logística ainda era cara.
O consumidor ainda desconfiava das compras virtuais.
Ou seja...
A visão estava correta.
O momento histórico, não.
Enquanto Isso... Nos Bastidores dos Mainframes
Enquanto jornais anunciavam diariamente a "Nova Economia", os computadores centrais continuavam executando silenciosamente suas rotinas.
Os bancos processavam bilhões em transferências.
As bolsas de valores liquidavam operações.
As seguradoras calculavam riscos.
Os governos arrecadavam impostos.
Curiosamente, muitas startups utilizavam justamente esses sistemas tradicionais para realizar pagamentos, processar cartões de crédito e registrar transações financeiras.
A fachada era moderna.
A infraestrutura continuava clássica.
Essa é uma das grandes ironias da história da computação.
A revolução digital avançava apoiada em tecnologias que muitos diziam estar ultrapassadas.
O Erro que Ninguém Percebeu
A Internet realmente mudaria o mundo.
Esse diagnóstico estava absolutamente correto.
O erro foi imaginar que crescimento infinito poderia substituir fundamentos econômicos.
Receita ainda importava.
Lucro continuava importante.
Fluxo de caixa permanecia essencial.
Clientes precisavam pagar contas.
Funcionários precisavam receber salários.
Empresas precisavam sobreviver até que o futuro chegasse.
E foi justamente aí que muitas fracassaram.
Elas apostaram que o amanhã chegaria antes que o dinheiro acabasse.
Lições para o Padawan COBOL
Para um desenvolvedor de sistemas, existe uma lição valiosa escondida na febre das Dot-Com.
Uma boa ideia é apenas o início da jornada.
Entre uma apresentação inspiradora e um sistema funcionando em produção existe um oceano de desafios:
arquitetura;
infraestrutura;
segurança;
escalabilidade;
manutenção;
suporte;
integração;
continuidade do negócio.
É exatamente por isso que profissionais de mainframe costumam enxergar a tecnologia de maneira diferente.
Eles sabem que um sistema não é medido apenas pelo entusiasmo que desperta no lançamento, mas pela capacidade de continuar operando com segurança cinco, dez ou vinte anos depois.
No universo da Frota Estelar, qualquer engenheiro consegue desenhar uma nave impressionante no holodeck. O verdadeiro desafio é construir uma nave capaz de atravessar uma tempestade de plasma, cumprir a missão e retornar com toda a tripulação em segurança.
No próximo capítulo veremos como essa corrida desenfreada por crescimento criou uma cultura conhecida como "queimar caixa" (Burn Rate), onde gastar milhões de dólares deixou de ser um problema e passou a ser considerado uma estratégia de negócios. Foi nesse momento que a bolha começou, silenciosamente, a preparar sua própria explosão.
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