| Bellacosa Mainframe e o low-code para o mundo mainframe |
☕ Um Café no Bellacosa Mainframe
Low-Code: O Que Todo Programador COBOL Precisa Saber
Você Não Está Sendo Substituído. Está Ganhando Mais uma Ferramenta para Construir Soluções.
"Toda geração acredita que encontrou a tecnologia que acabará com o desenvolvimento tradicional. Até descobrir que software continua sendo engenharia."
Introdução
Durante décadas ouvimos promessas parecidas.
Primeiro foi o CASE.
Depois vieram os geradores automáticos.
Em seguida os Frameworks.
Logo apareceram os CMS.
Depois os ERPs prometendo eliminar programação.
Mais tarde surgiram as plataformas BPM.
Então veio o No-Code.
Agora o assunto da vez é o Low-Code.
Sempre aparece alguém dizendo:
"Agora ninguém mais precisará programar."
O curioso é que o número de desenvolvedores no mundo nunca foi tão grande.
Por quê?
Porque a demanda por software cresce mais rápido do que qualquer tecnologia consegue simplificar.
Para quem trabalha com IBM Z, COBOL, CICS, DB2 e z/OS, entender Low-Code não significa abandonar décadas de experiência.
Significa entender onde essa tecnologia realmente funciona.
E onde ela não funciona.
O que é Low-Code?
Low-Code é uma abordagem de desenvolvimento baseada em componentes visuais.
Em vez de escrever milhares de linhas de código manualmente, o desenvolvedor monta aplicações através de:
componentes prontos
fluxos visuais
formulários
regras de negócio
integrações
conectores
workflows
A plataforma gera automaticamente boa parte do código.
Isso não significa ausência de programação.
Normalmente existe código.
Muito código.
Só que parte dele é gerado automaticamente.
Por isso o nome:
Low-Code
e não
No-Code.
A diferença entre Low-Code e No-Code
Embora muita gente use como sinônimos, são conceitos diferentes.
No-Code
Destinado para usuários de negócio.
Exemplos:
RH
Marketing
Financeiro
Comercial
O objetivo é permitir criar aplicações sem escrever código.
Low-Code
Voltado para desenvolvedores.
Permite:
escrever código quando necessário
criar componentes próprios
consumir APIs
acessar bancos
integrar sistemas
customizar regras
Ou seja:
continua sendo engenharia de software.
Como surgiu o Low-Code?
Na verdade, a ideia é muito mais antiga do que parece.
Se voltarmos aos anos 80 veremos ferramentas como:
PowerBuilder
Delphi
Visual Basic
Oracle Forms
IBM VisualAge
Gupta SQLWindows
Todas possuíam:
drag-and-drop
componentes visuais
geração automática de código
Hoje chamaríamos isso de Low-Code.
A diferença é que atualmente as plataformas são orientadas para:
Cloud
APIs
Mobile
Microsserviços
Containers
IA
Ou seja,
o conceito é antigo.
A infraestrutura mudou.
Linha do tempo
Década de 1980
Programação visual.
CASE.
Geradores de código.
RAD (Rapid Application Development).
Década de 1990
Visual Basic.
Delphi.
PowerBuilder.
Oracle Forms.
Lotus Notes.
Década de 2000
SOA.
BPM.
Workflow.
Ferramentas corporativas.
Década de 2010
Cloud.
Mobile.
APIs REST.
Low-Code moderno.
Década de 2020
IA Generativa.
Copilots.
Modelagem automática.
Assistentes inteligentes.
Low-Code + IA.
O objetivo nunca foi eliminar programadores
Essa é talvez a maior confusão.
Imagine um arquiteto.
Hoje existem softwares que desenham plantas automaticamente.
Isso eliminou arquitetos?
Não.
Apenas aumentou sua produtividade.
O mesmo ocorre aqui.
Low-Code automatiza tarefas repetitivas.
Quem continua decidindo arquitetura é o desenvolvedor.
Como funciona internamente?
Quase todas as plataformas seguem a mesma arquitetura.
Usuário
↓
Designer Visual
↓
Modelo da Aplicação
↓
Gerador de Código
↓
Compilação
↓
Banco
↓
Servidor
↓
Aplicação Executando
O desenvolvedor manipula um modelo.
A plataforma transforma esse modelo em código.
Quais problemas o Low-Code resolve?
Principalmente:
desenvolvimento lento
escassez de desenvolvedores
excesso de sistemas internos
necessidade de digitalização
automação de processos
criação rápida de protótipos
Imagine um departamento de RH precisando aprovar férias.
Não faz sentido iniciar um projeto de 8 meses.
Uma plataforma Low-Code resolve isso em dias.
Onde o Low-Code é excelente?
Sistemas internos
RH
Compras
Financeiro
Aprovação
Dashboards
Indicadores.
KPIs.
Relatórios.
Formulários
Cadastro.
Pesquisa.
Solicitações.
Workflow
Fluxos de aprovação.
Aplicativos móveis
Aplicações simples.
Portais
Intranet.
Extranet.
Atendimento.
Onde ele não é indicado?
Nem tudo deve ser feito em Low-Code.
Exemplos:
motores bancários
processamento de cartões
compensação financeira
sistemas de bolsa
processamento em massa
compiladores
sistemas operacionais
bancos de dados
kernels
Nesses casos,
o controle fino importa.
Performance
Uma pergunta comum.
Low-Code é lento?
Resposta:
Depende.
Um formulário simples?
Praticamente igual.
Um workflow?
Excelente.
Mas aplicações extremamente críticas normalmente exigem código especializado.
Por quê?
Porque uma plataforma genérica precisa atender milhares de cenários.
Código manual pode ser otimizado especificamente.
O impacto na arquitetura
Antes:
Cliente
↓
Aplicação
↓
Banco
Hoje:
Cliente
↓
Portal Low-Code
↓
API
↓
Microsserviços
↓
Mainframe
↓
DB2
Perceba algo importante.
O Mainframe continua existindo.
Ele apenas deixa de conversar diretamente com o usuário.
Low-Code e APIs
Aqui está o ponto de encontro com IBM Z.
O Low-Code praticamente vive de APIs.
Quem fornece essas APIs?
Frequentemente:
COBOL
CICS
IMS
DB2
MQ
z/OS Connect
Ou seja,
o Mainframe passa a ser o motor.
O Low-Code apenas cria a interface.
O papel do COBOL muda?
Sim.
Mas não desaparece.
Antes:
COBOL fazia:
tela
regra
banco
Hoje:
COBOL concentra-se em:
regra de negócio
segurança
consistência
transações
Enquanto o Low-Code faz:
telas
formulários
dashboards
workflow
É uma separação saudável.
Principais vantagens
Desenvolvimento rápido
Dias em vez de meses.
Menos código repetitivo
CRUD praticamente automático.
Padronização
Todas as aplicações seguem o mesmo modelo.
Facilidade de manutenção
Mudanças visuais são simples.
Integração
APIs.
SOAP.
REST.
MQ.
SQL.
LDAP.
OAuth.
Reutilização
Componentes podem ser usados diversas vezes.
Os riscos
Nem tudo são flores.
Vendor Lock-in
Talvez seja o maior problema.
Sua aplicação depende da plataforma.
Trocar depois pode ser caro.
Código gerado
Nem sempre é elegante.
Às vezes gera excesso de processamento.
Limitações
Quando surge algo muito específico,
a plataforma pode não suportar.
Licenciamento
Grandes plataformas costumam ser caras.
Performance
Em aplicações extremamente críticas,
código especializado costuma vencer.
As boas práticas
Modele antes
Não saia criando telas.
Desenhe processos.
Use APIs
Nunca acesse diretamente sistemas legados.
Centralize regras
A regra deve permanecer no backend.
Nunca na interface.
Versione
Mesmo sendo visual.
Use Git.
Automatize testes
Aplicações visuais também precisam de testes.
Documente integrações
Principalmente contratos REST.
Passo a passo para criar uma aplicação Low-Code
1. Entenda o processo
Mapeie:
entradas
saídas
aprovações
2. Modele dados
Clientes.
Pedidos.
Produtos.
Usuários.
3. Crie formulários
Cadastro.
Consulta.
Pesquisa.
4. Configure regras
Quem pode aprovar?
Quem pode editar?
5. Integre APIs
REST.
SOAP.
MQ.
Banco.
6. Teste
Validação.
Carga.
Segurança.
7. Publique
Cloud.
On-premises.
Containers.
8. Monitore
Logs.
Performance.
Auditoria.
Principais metodologias utilizadas
Agile
Scrum.
Kanban.
Sprints curtas.
DevOps
CI/CD.
Deploy automático.
Domain Driven Design
Separação por domínio.
BPM
Modelagem de processos.
BPMN
Fluxos de negócio.
Design Thinking
Descoberta do problema.
UX
Experiência do usuário.
API First
Tudo começa pela API.
As principais plataformas Low-Code
O mercado amadureceu muito nos últimos anos e hoje existem dezenas de plataformas. Algumas são focadas em pequenas empresas; outras suportam ambientes corporativos gigantescos, incluindo integração com IBM Z.
Microsoft Power Apps
Talvez seja a plataforma mais conhecida atualmente.
Pontos fortes:
integração com Microsoft 365
SharePoint
Dynamics
Azure
Power Automate
Dataverse
Muito usada em departamentos internos.
Mendix
Uma das líderes mundiais.
Hoje pertence à Siemens.
Muito forte em aplicações corporativas complexas.
Possui excelentes recursos para integração com APIs REST e SOAP.
OutSystems
Bastante conhecida entre bancos, seguradoras e grandes empresas.
Possui:
desenvolvimento web
mobile
DevOps integrado
monitoramento
escalabilidade
É uma das plataformas mais maduras do mercado.
Appian
Extremamente forte em:
BPM
Workflow
Automação
Processos empresariais
Muito utilizada em governos e instituições financeiras.
Salesforce Platform
Voltada para aplicações em torno do ecossistema Salesforce.
Excelente quando toda a empresa já utiliza CRM Salesforce.
ServiceNow
Originalmente voltada para ITSM.
Hoje permite desenvolver inúmeras aplicações corporativas.
Oracle APEX
Muito respeitada entre desenvolvedores Oracle.
Rápida.
Estável.
Excelente para aplicações baseadas em banco Oracle.
IBM Business Automation Workflow
A IBM também investe nesse segmento.
Especialmente para processos corporativos.
Integra naturalmente com:
IBM MQ
CICS
DB2
IBM Z
Low-Code e Inteligência Artificial
A IA acelerou ainda mais esse mercado.
Hoje diversas plataformas conseguem:
criar formulários automaticamente
gerar consultas SQL
sugerir telas
criar APIs
escrever validações
documentar aplicações
Mas existe um detalhe.
A IA produz software.
Quem produz arquitetura continua sendo o engenheiro.
O impacto no ambiente Mainframe
Agora chegamos ao ponto mais importante para quem trabalha com COBOL.
Existe um mito recorrente:
"Se a empresa adotar Low-Code, o Mainframe desaparecerá."
Na prática acontece exatamente o contrário.
Quanto mais empresas investem em transformação digital, mais precisam acessar os sistemas que realmente armazenam os dados de negócio. Em bancos, seguradoras, operadoras de saúde, companhias aéreas e órgãos públicos, esses dados continuam majoritariamente em aplicações COBOL executando no IBM Z.
O Low-Code normalmente não substitui esse núcleo. Ele cria uma camada de experiência para o usuário.
Uma arquitetura moderna costuma seguir este fluxo:
Aplicativo Web ou Mobile
│
▼
Plataforma Low-Code
│
▼
API Gateway
│
▼
z/OS Connect / API REST
│
▼
CICS / IMS / MQ
│
▼
Programas COBOL
│
▼
DB2 / VSAM / IMS DB
Nesse cenário, o COBOL deixa de cuidar da interface gráfica e concentra seus esforços onde ele sempre foi excepcional:
regras de negócio;
integridade transacional;
processamento de alto volume;
consistência de dados;
disponibilidade contínua.
Enquanto isso, a plataforma Low-Code entrega:
formulários modernos;
portais web;
aplicativos móveis;
dashboards;
fluxos de aprovação;
integrações com serviços externos.
Essa separação de responsabilidades reduz o acoplamento e facilita a evolução dos sistemas.
Novas responsabilidades para o desenvolvedor COBOL
O profissional de Mainframe tende a atuar menos como "programador de telas" e mais como especialista em serviços.
Isso significa dominar conceitos como:
APIs REST;
JSON;
OpenAPI/Swagger;
OAuth e autenticação;
mensageria com IBM MQ;
integração via z/OS Connect;
versionamento de contratos;
observabilidade e monitoramento.
O conhecimento do negócio continua sendo o maior diferencial. Uma plataforma Low-Code pode gerar uma interface em minutos, mas não conhece as regras de crédito, tributação, previdência, seguros ou compensação bancária que estão consolidadas em décadas de código COBOL.
Oportunidades profissionais
Para quem trabalha com IBM Z, o crescimento do Low-Code abre novas possibilidades:
atuar como arquiteto de integração;
expor aplicações COBOL como APIs;
modernizar sistemas legados sem reescrevê-los;
integrar Mainframe com nuvem e aplicações móveis;
liderar iniciativas de transformação digital.
Em vez de competir com o Low-Code, o desenvolvedor COBOL pode tornar-se a peça central que conecta o legado confiável às novas interfaces de negócio.
Conclusão
Low-Code não é uma moda passageira nem a solução para todos os problemas. É mais uma etapa da evolução da engenharia de software.
Assim como o Delphi acelerou o desenvolvimento desktop, o Visual Basic simplificou aplicações Windows e os frameworks web reduziram código repetitivo, as plataformas Low-Code automatizam tarefas de baixo valor para que os desenvolvedores concentrem seu tempo naquilo que realmente importa: arquitetura, regras de negócio, segurança, integração e desempenho.
Para o profissional de Mainframe, a mensagem é especialmente positiva. O IBM Z continua sendo o ambiente onde executam algumas das aplicações mais críticas do planeta. O que muda é a forma como essas aplicações são consumidas. Em vez de telas verdes acessadas diretamente, elas passam a atender portais, aplicativos móveis e plataformas Low-Code por meio de APIs e serviços.
O futuro não será de COBOL ou Low-Code.
Será de COBOL com Low-Code, APIs, IA, DevOps e integração em nuvem, formando um ecossistema onde cada tecnologia desempenha o papel para o qual foi projetada.
No fim, a tecnologia muda, as interfaces evoluem e as ferramentas se renovam. Mas um princípio permanece inalterado desde os primeiros dias da computação: software crítico continua dependendo de boa engenharia. E essa continua sendo a principal especialidade de quem desenvolve soluções para o IBM Z.
Sem comentários:
Enviar um comentário