| Bellacosa Mainframe estuda o IBM BOB |
☕ O Holocron do IBM Bob
Como um Padawan COBOL Pode Aprender a Trabalhar com um Companheiro de IA Criado pela IBM sem Abandonar o IBM Z, o JCL e sua Caneca de Café
"O medo de perder conhecimento leva ao caos. O caos leva à reescrita em Java. A reescrita em Java leva ao sofrimento."
— Mestre Sysprog Yoda, Sala de Operações do JES2, aproximadamente 03:17 da manhã.
Existe um momento na jornada de todo Padawan COBOL...
Existe um momento na jornada de todo Padawan COBOL em que ele percebe uma verdade desconfortável.
A aplicação que ele acabou de receber para manutenção possui mais de trinta anos.
Não existe documentação.
O analista funcional aposentou-se em 2014.
O arquiteto virou diretor.
O programador original mora em alguma praia do Nordeste e provavelmente desligou seu pager em 1998.
Os diagramas UML nunca existiram.
Os requisitos estão enterrados em milhares de linhas de COBOL, dezenas de PROCs catalogadas, JCLs obscuros, COPYBOOKS compartilhados por cinquenta programas diferentes, packages DB2 esquecidos, mapas BMS, tabelas VSAM, MQs espalhadas pela infraestrutura e algum código assembler que ninguém ousa tocar.
Você abre o primeiro programa.
São apenas 18 mil linhas.
Respira aliviado.
Até descobrir que ele faz PERFORM em outros vinte programas.
E então surge a pergunta inevitável.
"Será que existe alguma IA capaz de entender tudo isso?"
Talvez.
E talvez ela tenha um nome curioso.
IBM Bob.
Hoje vamos abrir mais um Holocron do Bellacosa Mainframe e conversar sobre aquilo que talvez seja uma das iniciativas mais interessantes da IBM para os próximos anos.
O que é o IBM Bob?
IBM Bob é apresentado como um assistente inteligente para desenvolvimento de software baseado em Inteligência Artificial.
Mas chamá-lo apenas de um gerador de código é diminuir bastante sua ambição.
Na prática, Bob parece querer ocupar um espaço muito maior.
Ele deseja ser:
Desenvolvedor auxiliar;
Revisor de código;
Especialista em documentação;
Tutor técnico;
Ferramenta de onboarding;
Auditor de segurança;
Agente de produtividade;
Companheiro corporativo de engenharia.
Talvez a melhor definição seja:
IBM Bob é uma tentativa da IBM de construir um "engenheiro de software virtual" especializado em ambientes empresariais.
IBM já tentou isso antes
A ideia não é nova.
IBM possui uma longa tradição em criar ferramentas para aumentar a produtividade.
| Década | Ferramenta |
|---|---|
| 1960 | FORTRAN Compiler |
| 1970 | ISPF |
| 1980 | CSP |
| 1990 | VisualAge |
| 2000 | Rational Rose |
| 2010 | Bluemix |
| 2020 | Watson |
| 2025 | watsonx |
| 2026 | IBM Bob |
Existe uma espécie de evolução natural.
Antigamente tínhamos compiladores.
Depois IDEs.
Posteriormente ALM.
Mais tarde plataformas cloud.
Agora temos companheiros cognitivos.
Bob pode ser visto como uma mistura de:
GitHub Copilot
Rational Assistant
Watsonx
ChatGPT
Knowledge Assistant
Tudo isso embalado para empresas.
O problema que IBM está tentando resolver
Existe uma crise silenciosa acontecendo.
E ela não é tecnológica.
Ela é humana.
Estamos perdendo especialistas.
Todos os dias.
Pessoas que conhecem:
CICS
IMS
PL/I
COBOL
Natural
IDMS
JCL
Netview
SA z/OS
RACF
DB2
MQ
GDPS
SMP/E
RMF
SMF
SAF
VTAM
estão se aposentando.
E conhecimento não documentado possui meia vida curta.
Quando o especialista sai, o sistema continua.
Mas o entendimento desaparece.
Bob parece ser uma tentativa de capturar parte dessa inteligência institucional.
O maior erro do artigo original
O artigo que motivou esta discussão é bastante interessante.
Mas possui uma lacuna gigantesca.
Praticamente ignora o Mainframe.
E justamente aí está talvez a maior oportunidade do IBM Bob.
IBM possui bilhões de linhas COBOL instaladas.
Bilhões.
Sistemas que movimentam:
Cartões.
PIX.
Seguros.
Bolsas.
Impostos.
Benefícios sociais.
Compensação bancária.
Passagens aéreas.
Energia elétrica.
Telecomunicações.
Saúde.
Previdência.
Esses sistemas não vão desaparecer.
Eles precisam ser compreendidos.
E compreendê-los custa caro.
Muito caro.
Imagine conversar com um sistema legado
Imagine abrir um chat.
Perguntar:
Explique PROGCBL1.
Bob responde.
Sistema responsável pela liquidação diária.
Arquivos utilizados:
CLIENTES.KSDS
MOVTO.PS
Dependências:
DB2
MQ
CICS
Programas chamados:
CBL100
CBL200
CBL991
Pontos críticos:
Falta tratamento SQLCODE +100.
Possível deadlock.
Campo SALDO alterado em três locais.
Pronto.
Dias de investigação reduzidos para minutos.
O Holocron dos COPYBOOKS Perdidos
Todo Padawan COBOL conhece esse momento.
Você encontra:
COPY CLI0001
COPY BAN0007
COPY FIS9999
COPY SEG1234
Pergunta:
"Onde estão?"
Ninguém sabe.
Bob poderia consultar:
Git
Endevor
Changeman
Panvalet
Librarian
PDS
PDSE
e responder.
COPY SEG1234
Localização:
CORP.COBOL.COPYLIB
Última alteração:
15/03/2024
Responsável:
Equipe Seguros
Campos utilizados:
CPF
SALDO
RISCO
TIPO_APOLICE
Você acabou de economizar duas horas.
O poder do entendimento semântico
Talvez a maior revolução seja essa.
Não escrever código.
Entender sistemas.
Pergunta:
Quem atualiza SALDO_DISPONIVEL?
Resposta:
PROG010
PROG200
TRN991
JOBNIGHT
Impacto:
17 programas.
Possíveis efeitos colaterais:
Extrato.
PIX.
TED.
Internet Banking.
Isso é engenharia reversa inteligente.
Bob poderia ser o arqueólogo corporativo
Hoje fazemos arqueologia manual.
ISPF.
3.14.
3.4.
SUPERC.
FILEAID.
SPUFI.
SDSF.
JES2.
TSO.
Bob poderia atuar como um arqueólogo digital.
Encontrando relações invisíveis.
O sonho do Sysprog
Imagine perguntar.
Explique este JCL.
Resposta:
Job diário.
Executa às 23h.
Consome 4 CPUs.
Lê VSAM.
Executa DFSORT.
Atualiza DB2.
Publica mensagem MQ.
Gera SMF.
Último ABEND:
S806.
Ocorrências:
Ou então.
Por que ocorreu este ABEND?
S0C7
Campo NUMERO-CONTA possui dados inválidos.
Registro 145783.
Programa:
COBLIQ01
Parágrafo:
3000-PROCESSA
Isso seria quase magia.
Mas magia suficientemente avançada é indistinguível da tecnologia.
O problema dos LLMs
Nem tudo são flores.
Existe um problema sério.
LLMs alucinam.
E sistemas corporativos não aceitam alucinações.
Bob não pode inventar.
Não pode responder.
"Talvez."
Em bancos.
Talvez custa milhões.
Portanto provavelmente Bob utilizará RAG.
Retrieval Augmented Generation.
Consultando:
Catálogos.
DB2 Catalog.
Git.
Endevor.
SMF.
SDSF.
WLM.
RMF.
Copybooks.
Documentação interna.
Tickets Jira.
Confluence.
Runbooks.
Segurança
Este é provavelmente o aspecto mais importante.
Um banco não pode enviar CPF para um LLM público.
Nem dados médicos.
Nem cartões.
Nem chaves PIX.
Bob precisa viver próximo dos dados.
Talvez em:
LinuxONE.
OpenShift.
Cloud privada.
IBM Z.
Com recursos de:
LGPD.
PCI DSS.
SOX.
Mascaramento.
Auditoria.
Guardrails.
Zero Trust.
O verdadeiro diferencial
Acredito que Bob cometeria um erro enorme tentando competir diretamente com Copilot.
Copilot escreve código.
Bob deveria compreender empresas.
Ele deveria ser especialista em:
CICS.
IMS.
MQ.
COBOL.
JCL.
DB2.
VSAM.
RACF.
SA z/OS.
Netview.
GDPS.
WLM.
DFSMS.
SMP/E.
Prompt:
Crie API REST para este COBOL.
Resposta:
OpenAPI.
JSON.
COBOL parser.
z/OS Connect.
Swagger.
JCL Deploy.
Tudo documentado.
O Holocron Vivo da Empresa
Talvez seja essa a visão mais bonita.
Bob não substituirá desenvolvedores.
Ele preservará memória.
Será um Holocron corporativo.
Um aprendiz conversa.
Pergunta.
Aprende.
Entende.
Documenta.
Compartilha.
E a empresa deixa de depender exclusivamente da memória de poucas pessoas.
O futuro pertence aos desenvolvedores que sabem conversar com IA
Muitos têm medo.
"IA vai substituir programadores."
Talvez substitua quem apenas copia código.
Mas dificilmente substituirá quem entende negócio.
Quem entende processamento batch.
Quem entende compensação bancária.
Quem conhece JES2.
Quem domina CICS.
Quem compreende RACF.
Quem sabe porque um catálogo ICF ficou inconsistente às três da manhã.
Esses profissionais continuarão valiosos.
Talvez ainda mais.
Porque agora terão um novo aliado.
Um companheiro.
Um assistente.
Um aprendiz digital.
Um pequeno droide azul corporativo.
Um Bob.
Considerações Finais
Existe uma frase muito conhecida na comunidade de tecnologia:
"Todo sistema legado é apenas um sistema que continua pagando as contas."
IBM conhece essa realidade melhor do que ninguém.
E talvez o IBM Bob seja uma das primeiras tentativas realmente sérias de transformar cinquenta anos de conhecimento corporativo em algo conversável, pesquisável e ensinável.
Se conseguir compreender verdadeiramente COBOL, JCL, CICS, IMS, DB2, VSAM e os inúmeros segredos escondidos nos data centers do planeta, Bob poderá se tornar muito mais do que um assistente de programação.
Ele poderá tornar-se o primeiro grande Holocron do Mainframe Moderno.
E para nós, Padawans COBOL, isso significa algo extraordinário.
Pela primeira vez em décadas, talvez seja possível sentar diante de um sistema com quarenta anos de idade, tomar uma caneca de café, fazer uma pergunta simples e ouvir uma resposta compreensível.
E convenhamos...
Isso parece muito mais próximo da Força do que da simples Inteligência Artificial.
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