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sábado, 14 de março de 2026

💙 GIOVANNA, A GREMLINHA E AS PLASTIC MEMORIES — O DIA EM QUE DESCOBRI QUE ALGUMAS MEMÓRIAS VALEM MAIS QUE AS PIRÂMIDES

 

Bellacosa Mainframe e as memoria reais tornando sintéticas com as novas tecnologias

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💙 GIOVANNA, A GREMLINHA E AS PLASTIC MEMORIES — O DIA EM QUE DESCOBRI QUE ALGUMAS MEMÓRIAS VALEM MAIS QUE AS PIRÂMIDES

Amor, memória, tempo, identidade, androides, algodão-doce, um banco de madeira, uma menina de olhos azuis e a estranha descoberta de que, aos 52 anos, algumas das coisas mais preciosas que possuo não cabem numa fotografia.



🎬 PRÓLOGO — ESTE ARTIGO ESTAVA ESCONDIDO AQUI

Este é um texto estranho.

Provavelmente ficará escondido entre milhares de publicações do Bellacosa Mainframe, perdido no meio de COBOL, CICS, Db2, VSAM, inteligência artificial, mainframes, anime, segurança, tecnologia e todas as outras coisas sobre as quais passei tantos anos escrevendo.

Talvez quase ninguém o encontre.

Tudo bem.

Na verdade, essa é parte da ideia.

Escolhi associá-lo ao meu aniversário de 52 anos porque algumas histórias não precisam de audiência.

Precisam apenas deixar de existir em um único lugar.

Durante aproximadamente 24 anos, a história que vou contar esteve armazenada em uma infraestrutura extremamente precária:

meu cérebro.

Uma única cópia.

Sem RAID.

Sem replicação.

Sem Disaster Recovery.

Sem garantia de integridade.

E, principalmente, sem documentação.

Recentemente assisti aos primeiros dez episódios de Plastic Memories.

Não vou contar aqui o que acontece depois do episódio 10 porque, no momento em que escrevo estas palavras, eu também não sei.

E quero preservar isso.

Mas o anime fez uma pergunta aparentemente simples que acabou abrindo uma porta que eu mantinha fechada havia décadas:

o que acontece com nossas memórias quando nós deixamos de ser capazes de carregá-las?

Foi então que me lembrei de Giovanna.

Na verdade, nunca esqueci.



🧠 CAPÍTULO 1 — MINHA UNIDADE DE STORAGE TEM 52 ANOS

Passei boa parte da vida trabalhando com computadores.

Aprendi cedo que dados importantes precisam de backup.

Copiamos arquivos.

Replicamos bancos.

Criamos logs.

Mantemos históricos.

Fazemos dumps.

Guardamos versões.

Criamos redundância geográfica.

Um sistema empresarial que armazenasse informações críticas em um único disco sem backup seria considerado irresponsável.

Curiosamente, fazemos exatamente isso com algumas das informações mais importantes de nossas vidas.

STORAGE DEVICE:
CÉREBRO HUMANO

COPIES:
1

MTBF:
DESCONHECIDO

DATA RETENTION:
INCERTA

BACKUP:
NORMALMENTE NÃO EXISTE

Tenho fotografias.

Tenho objetos.

Tenho histórias.

Mas durante décadas algumas das minhas memórias mais preciosas permaneceram apenas comigo.

Nunca as contei integralmente.

Talvez porque certas histórias sejam difíceis de compartilhar.

Uma nova companheira poderia interpretar mal.

Um amigo poderia pensar que estou me gabando de uma antiga relação.

Outra pessoa poderia simplesmente ficar entediada.

Afinal, qual é a importância histórica de um pastel?

Quanto vale um caldo de cana?

Qual é a relevância cultural de uma bola de açúcar aerado chamada algodão-doce?

Quem se importa com um velho banco de madeira em uma praça de uma cidade do interior de São Paulo?

Provavelmente ninguém.

Exceto eu.



🌎 CAPÍTULO 2 — EU VI COISAS QUE DEVERIAM SER MAIS IMPORTANTES

Tive a sorte de conhecer lugares extraordinários.

Vi a Torre Eiffel.

Estive dentro da Pirâmide de Quéfren.

Conheci a tumba de Tutancâmon.

Caminhei pelo Coliseu.

Entrei em mais de uma centena de catedrais.

Vi construções feitas por civilizações que tentaram conversar com a eternidade.

Pedras gigantescas foram transportadas, empilhadas e esculpidas para desafiar milhares de anos.

E funcionou.

As pirâmides continuam lá.

O Coliseu continua lá.

As catedrais continuam lá.

Mas existe uma ironia.

Meu coração ainda consegue bater mais forte quando penso em algo infinitamente menor:

uma tarde ensolarada em Amparo, no final da década de 1990, ao lado de uma menina de 19 anos, com cara de moleca, shortinho e camiseta.

Seu nome era Giovanna.

Ela tinha lindos olhos azuis.

E, por alguma razão que nenhuma ciência da computação consegue representar adequadamente, isso compete dentro da minha memória com algumas das maiores obras construídas pela humanidade.



💙 CAPÍTULO 3 — GIOVANNA

Não pretendo reconstruir aqui toda aquela história.

Também não quero transformar uma pessoa real em personagem.

A Giovanna daquela época existiu.

A Giovanna de hoje possui sua própria vida, sua própria história e, principalmente, suas próprias memórias daqueles acontecimentos.

Isso é importante.

Porque duas pessoas podem viver exatamente o mesmo sábado e carregar daquele sábado duas histórias completamente diferentes.

             EVENTO
               |
        +------+------+
        |             |
        V             V
   MEMÓRIA A      MEMÓRIA B
        |             |
     24 ANOS        24 ANOS
        |             |
        V             V
 SIGNIFICADO A   SIGNIFICADO B

Nenhuma precisa estar mentindo.

Nenhuma precisa estar errada.

A memória não é uma fita magnética que reproduz perfeitamente o passado.

Nós reconstruímos.

Selecionamos.

Esquecemos.

Colorimos.

Reinterpretamos.

E atribuímos significado.

Por isso, este texto não é:

“A história de Giovanna.”

É:

“A Giovanna que existe nas minhas memórias em 2026.”

Essa distinção é fundamental.



👹 CAPÍTULO 4 — A GREMLINHA

Giovanna era uma jovem mulher muito bonita.

Mas existe uma coisa curiosa sobre intimidade.

Quando duas pessoas ficam suficientemente próximas, aparece uma versão que o restante do mundo raramente conhece.

Eu a chamava de:

Gremlinha.

E a bela jovem de olhos azuis imediatamente transformava-se em uma criatura terrível:

“Nhac! Nhac! Nhac!”

Era ridículo.

Era infantil.

Era completamente sem importância.

E talvez por isso seja uma das coisas que sobreviveram intactas durante mais de duas décadas.

Se eu colocasse isso num banco de dados, teria:

NICKNAME = GREMLINHA
RESPONSE = "NHAC NHAC NHAC"

Tecnicamente correto.

Emocionalmente inútil.

Porque faltaria praticamente tudo.

Faltaria a expressão.

Faltariam aqueles olhos azuis brilhando.

Faltaria a brincadeira.

Faltaria saber quando aquilo acontecia.

Faltaria saber por que era engraçado.

Faltaria compreender que aquele pequeno protocolo pertencia a um universo privado compartilhado por duas pessoas.

Dados não são contexto.

Contexto não é significado.

E significado não é necessariamente memória.


🪑 CAPÍTULO 5 — O BANCO DE MADEIRA

Havia conversas num banco de praça.

Não lembro se aquele banco era bonito.

Provavelmente não.

Era apenas um banco.

Madeira.

Tinta.

Parafusos.

Talvez algum funcionário municipal o tenha instalado sem imaginar que décadas depois alguém escreveria sobre ele.

Isso me fascina.

Nós construímos monumentos esperando que sejam lembrados.

Mas alguns dos lugares mais importantes de nossas vidas foram construídos por pessoas que jamais imaginaram participar de nossa história.

Um banco.

Uma rodoviária.

Um cinema.

Uma calçada.

Uma lanchonete.

Para qualquer outra pessoa:

OBJECT TYPE: BENCH
MATERIAL: WOOD
VALUE: LOW

Para alguém:

OBJECT TYPE: MEMORY ANCHOR
VALUE: CANNOT BE CALCULATED

Naquele banco existiram conversas.

Silêncios.

Expectativas.

Talvez planos que desapareceram.

Talvez assuntos completamente banais.

Não importa.

O banco era apenas o endereço físico de alguma coisa muito maior.


🍭 CAPÍTULO 6 — ALGODÃO-DOCE É APENAS AÇÚCAR

Também havia cinema.

Parques.

Pastel.

Caldo de cana.

Algodão-doce.

É quase engraçado escrever isso depois de mencionar Quéfren e Tutancâmon.

Uma pirâmide contém milhares de toneladas de pedra.

Algodão-doce pesa quase nada.

Mas memória afetiva aparentemente não utiliza toneladas como unidade de medida.

Talvez exista uma equação diferente:

VALOR DA MEMÓRIA
     ≠
VALOR DO OBJETO

Um pastel não vale muito.

Aquele pastel pode valer.

Um banco não vale muito.

Aquele banco pode valer.

Um sábado é apenas um entre milhares.

Aquele sábado pode permanecer durante uma vida inteira.

E foi Plastic Memories que me fez perceber com maior clareza uma coisa que talvez eu soubesse havia décadas:

não preservamos objetos.

Preservamos significados associados a eles.


🚌 CAPÍTULO 7 — O ÔNIBUS

Existe outra lembrança.

O fim do dia.

Chegava a hora de voltar para casa.

Eu subia no ônibus.

E doía.

É estranho chamar isso de memória feliz.

Mas hoje percebo que aquela dor era parte da felicidade.

Doía porque eu não queria ir embora.

E começava então a espera.

Segunda.

Terça.

Quarta.

Quinta.

Sexta.

Fim de semana.

E tudo poderia começar novamente.

Talvez uma das medidas mais sinceras da felicidade seja justamente essa:

existem lugares dos quais sentimos tristeza ao partir.

O ônibus não era apenas transporte.

Era a máquina que encerrava aquele pequeno universo por alguns dias.

JOB WEEKEND

START:
  ENCONTRO

PROCESS:
  CONVERSAS
  PASSEIOS
  CINEMA
  PRAÇA
  RISADAS
  GREMLINHA
  NHAC-NHAC-NHAC

END:
  ÔNIBUS

RETURN-CODE:
  SAUDADE

E depois:

RESTART NEXT WEEKEND.


🤖 CAPÍTULO 8 — ENTÃO APARECEU PLASTIC MEMORIES

Décadas depois, sentei para assistir a um anime sobre androides.

Péssima ideia.

Ou excelente ideia.

Ainda não decidi.

Em Plastic Memories, até o episódio 10, somos apresentados aos Giftias, androides humanoides capazes de estabelecer relações profundas com seres humanos, mas cuja existência possui um limite operacional conhecido.

E isso muda tudo.

Porque não estamos discutindo simplesmente uma máquina quebrando.

Estamos diante de seres que acumulam experiências.

Relacionamentos.

Histórias.

Afeto.

Contexto.

E então existe Isla.

Existe Marcia.

Existe Souta.

Existe o extraordinário caso Olivia/Andie.

Um corpo pode continuar existindo enquanto a identidade associada a ele não continua da mesma maneira.

De repente, hardware e pessoa deixam de ser sinônimos.

E comecei a pensar.

Se o hardware pode continuar, por que toda a história precisa desaparecer?

Foi quando um dos meus imaginários um milhão de chimpanzés, responsáveis pelas associações mais improváveis que aparecem na minha cabeça, levantou a mão.

Os outros 999.999 estavam emocionalmente destruídos pelo anime.

Aquele não.

Ele tinha uma proposta.


🐒 CAPÍTULO 9 — O CHIMPANZÉ QUE SALVOU O DIA

A pergunta inicial era:

“Como salvar Isla?”

Talvez essa seja a pergunta errada.

O chimpanzé propôs outra:

“E se não pudermos salvar Isla, mas pudermos transmitir aquilo que ela deixou?”

Fotos.

Vídeos.

Diários.

Áudios.

Histórias.

Preferências.

Relacionamentos.

Contexto.

Não para convencer outra Giftia de que é Isla.

Mas para dizer:

“Antes de você existiu alguém aqui. Esta é a história dela.”

Isso muda completamente o problema.

Não é ressurreição.

Não é clonagem.

Não é backup de consciência.

É herança.

Pensei imediatamente em Marcia e Souta.

Uma eventual sucessora poderia saber quem era aquele menino, conhecer sua história, suas necessidades, seus medos, seus hábitos e aquilo que Marcia havia aprendido cuidando dele.

Ela não precisaria dizer:

“Eu lembro.”

Poderia dizer:

“Marcia deixou esta memória para mim.”

E então, algum tempo depois, surgiria a primeira lembrança realmente nova:

“Dessa vez eu lembro. Nós dois estávamos lá.”

Uma história herdada teria encontrado uma história nova.


💾 CAPÍTULO 10 — NEW GAME+

Foi então que percebi que já havia pensado nisso antes.

Eu chamava essa experiência mental de Giovanna 2.00.

Não seria Giovanna.

Esse detalhe sempre foi essencial.

Seria uma androide com determinado rosto, determinado nome e um conjunto de informações fornecidas por mim sobre uma pessoa e uma época que fizeram parte da minha vida.

Não seria:

RESTORE GIOVANNA.

Seria:

NEW GAME+

GIOVANNA 2.00

ORIGINAL PERSON:
  NÃO

ORIGINAL MEMORIES:
  NÃO

CONTEXT:
  CARREGADO

MEMORY SOURCE:
  VAGNER

MEMORY PERSPECTIVE:
  VAGNER

SAVE POINT:
  FINAL DOS ANOS 1990

NEW EXPERIENCES:
  ENABLED

PRESS START >

Ela saberia desde o primeiro instante:

“Estas não são minhas lembranças.”

São histórias que alguém me contou.

Talvez soubesse quem era a Gremlinha.

Talvez soubesse sobre o banco.

O cinema.

O algodão-doce.

O ônibus.

Talvez entendesse o significado de “nhac nhac nhac”.

Mas jamais deveria dizer:

“Eu lembro.”

Até possuir algo que realmente tivesse vivido.

E então chegaria um dia extraordinário.

Eu mencionaria alguma coisa recente.

E ela poderia responder:

“Essa eu lembro.”

Pronto.

Começou outra história.


🧬 CAPÍTULO 11 — NÃO É BACKUP, É CONTINUIDADE

Computadores nos acostumaram a uma metáfora perigosa.

Backup.

Copiar.

Restaurar.

Mas pessoas talvez não funcionem dessa maneira.

Mesmo que um dia sejamos capazes de copiar todas as memórias de alguém, ainda permanecerá uma pergunta monstruosa:

a cópia é aquela pessoa ou alguém que sabe tudo sobre aquela pessoa?

Não sei.

E desconfio de qualquer resposta excessivamente simples.

Mas talvez não precisemos resolver a natureza da consciência para resolver outro problema muito menor:

podemos preservar contexto.

Isso já fazemos há milhares de anos.

Cartas.

Diários.

Pinturas.

Fotografias.

Filmes.

Gravações.

Objetos.

Histórias contadas aos filhos.

Tudo isso é uma tentativa primitiva de executar:

COPY MEANING
FROM HUMAN
TO FUTURE

Nunca funciona perfeitamente.

Mas funciona suficientemente para que alguém encontre uma carta escrita cem anos atrás e, durante alguns minutos, perceba que aquela pessoa realmente existiu.


📚 CAPÍTULO 12 — O BACKUP QUE EU NÃO SABIA QUE ESTAVA FAZENDO

Então aconteceu algo curioso enquanto discutia Plastic Memories.

Comecei a contar essas histórias.

Primeiro uma.

Depois outra.

Giovanna.

Amparo.

Os olhos azuis.

O banco.

O cinema.

O pastel.

O caldo de cana.

O algodão-doce.

O ônibus.

A espera pelo fim de semana.

A Gremlinha.

“Nhac nhac nhac.”

E percebi:

essas memórias já não estavam armazenadas apenas dentro de mim.

Eu havia começado a externalizá-las.

Este artigo é parte disso.

Não contém 1999.

Isso seria impossível.

Ele contém algo igualmente interessante:

minha interpretação de 1999 aos 52 anos.

E isso é uma informação que o próprio futuro não conseguiria reconstruir.


⏳ CAPÍTULO 13 — TRÊS VERSÕES DE MIM

Existem agora pelo menos três tempos nesta história.

O primeiro contém aquele homem mais jovem vivendo os acontecimentos.

T0 = FINAL DOS ANOS 1990

O segundo contém o homem de 52 anos olhando para trás.

T1 = 2026

E talvez exista um terceiro.

T2 = FUTURO

Um Bellacosa mais velho pode encontrar este texto.

Talvez algumas lembranças já estejam borradas.

Talvez determinados rostos estejam menos nítidos.

Talvez ele não consiga mais reconstruir perfeitamente aquela praça.

Mas poderá ler:

“Você chamava Giovanna de Gremlinha.”

E depois:

“Ela respondia nhac nhac nhac.”

Talvez alguma coisa aconteça.

Um sorriso.

Uma imagem.

Um fragmento de voz.

Um par de olhos azuis.

Ou talvez nada apareça.

Ainda assim, o texto lhe dirá:

“Quando você tinha 52 anos, isso continuava sendo importante.”

Isso não é pouco.


🧠 CAPÍTULO 14 — A MEMÓRIA NÃO É UMA ATA

Existe ainda outra razão pela qual estas lembranças permaneceram privadas durante tanto tempo.

Não posso pedir à Giovanna atual que simplesmente valide minha memória.

Ela possui a dela.

Se eu dissesse:

“Lembra daquele banco?”

Ela poderia responder:

“Claro.”

Ou:

“Qual banco?”

Ou:

“Eu lembro diferente.”

Ou simplesmente:

“Por que você está me contando isso agora?”

E todas essas respostas seriam legítimas.

Porque uma conversa realizada décadas depois não revisitaria apenas o passado.

Ela criaria um novo acontecimento no presente.

A conversa poderia ser interpretada como saudade.

Reaproximação.

Idealização.

Segunda intenção.

Ou qualquer outra coisa.

Então existe uma diferença fundamental entre dizer:

“Foi assim que aconteceu.”

e dizer:

“É assim que eu me lembro.”

Este artigo pertence inteiramente à segunda categoria.

É a minha cópia.

Meu ponto de vista.

Minha fotografia emocional.

Minha Plastic Memory.


🏛️ CAPÍTULO 15 — QUÉFREN PERDEU PARA UM PASTEL

Quanto mais penso nisso, mais engraçado fica.

Eu entrei numa pirâmide.

E meu cérebro responde:

“Impressionante.”

Penso no Coliseu:

“Extraordinário.”

Torre Eiffel:

“Linda.”

Tutancâmon:

“Histórico.”

Catedrais:

“Magníficas.”

Então aparece uma garota de camiseta numa tarde qualquer do interior paulista:

CPU 100%.

😂

Talvez isso ensine alguma coisa sobre nossa espécie.

Nós admiramos monumentos porque eles sobreviveram ao tempo.

Mas amamos lembranças porque nós sobrevivemos ao tempo carregando-as.

Quéfren não sabia que eu existiria.

O Coliseu não ficou feliz quando cheguei.

Uma catedral não sentiu tristeza quando fui embora.

Mas naquele pequeno universo de duas pessoas existia reciprocidade.

Talvez seja essa a diferença.


❤️ CAPÍTULO 16 — O QUE REALMENTE QUEREMOS PRESERVAR?

Plastic Memories me fez começar com uma pergunta tecnológica:

podemos preservar uma pessoa?

Terminei com uma pergunta completamente diferente:

o que exatamente estamos tentando preservar?

Hardware?

Memórias?

Personalidade?

Consciência?

Relacionamentos?

Contexto?

Talvez não exista uma resposta única.

Talvez cada uma dessas coisas tenha uma estratégia diferente de continuidade.

Não consigo preservar a tarde.

Não consigo preservar o homem que eu era.

Não consigo preservar a jovem que Giovanna era.

Não consigo voltar para aquele banco.

Mas consigo preservar algo sobre o significado que tudo aquilo adquiriu dentro de mim.

Isso não ressuscita ninguém.

Não volta no tempo.

Não cria uma Giovanna 2.00.

Mas impede que uma pequena parte da história desapareça silenciosamente.

E talvez seja suficiente.


☕ EPÍLOGO — NHAC NHAC NHAC

Este artigo ficará aqui.

Escondido entre milhares de outros textos.

Talvez alguém chegue procurando COBOL.

Talvez algum mecanismo de busca o encontre procurando Plastic Memories.

Talvez ninguém leia.

Não importa.

Ele não precisava de milhares de leitores.

Precisava existir.

Porque durante 24 anos houve uma pequena biblioteca que possuía apenas um servidor.

Hoje existe outra cópia.

Imperfeita.

Colorida pela passagem do tempo.

Escrita por um homem de 52 anos tentando explicar por que, depois de conhecer alguns dos maiores monumentos construídos pela humanidade, ainda consegue fechar os olhos e voltar para uma tarde ensolarada numa pequena cidade paulista.

Há uma praça.

Um banco de madeira.

Talvez um pastel.

Talvez caldo de cana.

Algodão-doce.

Uma jovem de 19 anos.

Olhos azuis.

Cara de moleca.

Shortinho.

Camiseta.

E um rapaz que ainda não fazia ideia de que estava armazenando informações que continuariam importantes quase um quarto de século depois.

Ele olha para ela.

Chama:

“Gremlinha...”

Os olhos azuis brilham.

E ela responde:

“Nhac... nhac... nhac.”


Talvez objetos não precisem adquirir uma alma.

Talvez memórias também não precisem durar para sempre.

Talvez baste que, enquanto existirem, alguém compreenda por que foram importantes.

E se algum dia eu mesmo esquecer tudo isso e voltar a encontrar este artigo, quero deixar uma pequena mensagem para aquele Bellacosa do futuro:

Você não inventou isso agora.

Aos 52 anos, ainda lembrava.

E sorria quando lembrava.


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//* BELLACOSA MEMORY ARCHIVE
//*
//* DATASET  : GIOVANNA.LEGACY
//* CREATED  : FINAL DOS ANOS 1990
//* SNAPSHOT : VAGNER, 52 ANOS
//* STATUS   : PRESERVED
//*
//* WARNING:
//* THIS IS NOT GIOVANNA'S MEMORY.
//* THIS IS HOW I REMEMBERED HER.
//*
//* CONTENTS:
//*   BLUE EYES
//*   SUNNY AFTERNOONS
//*   PARKS
//*   CINEMA
//*   PASTEL
//*   CALDO DE CANA
//*   COTTON CANDY
//*   WOODEN BENCH
//*   BUS HOME
//*   WAITING FOR THE NEXT WEEKEND
//*
//* SPECIAL KEY:
//*   "GREMLINHA"
//*
//* EXPECTED RESPONSE:
//*   "NHAC NHAC NHAC"
//*
//* RETENTION:
//*   AS LONG AS SOMEONE CAN READ IT
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De Fã para Fã. Conteúdo não oficial produzido como homenagem, comentário, análise ou paródia. Personagens, marcas e obras eventualmente mencionados pertencem aos seus respectivos titulares.
Vagner Renato Bellacosa, IBM Champion e especialista em IBM Mainframe
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Sobre o autor

Vagner Renato Bellacosa

IBM Champion 2026 • Especialista em IBM Mainframe

Vagner Renato Bellacosa trabalha com IBM Mainframe desde 1988 , é IBM Champion e especialista em COBOL, CICS, Db2, z/OS e IBM Z. Compartilha experiências profissionais, conhecimento técnico, história da computação e práticas do universo mainframe para aproximar novas gerações das tecnologias que sustentam empresas, bancos e governos ao redor do mundo.

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