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quarta-feira, 19 de agosto de 2026

Red Team de Boteco: quando o usuário aprende a pensar como a IA e começa a colocar cascas de banana no algoritmo



 


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Red Team de Boteco: quando o usuário aprende a pensar como a IA e começa a colocar cascas de banana no algoritmo

Ou: como transformar uma conversa inocente em teste de stress sem avisar o pobre do algoritmo

Existe uma diferença fundamental entre usar uma inteligência artificial e conhecer uma inteligência artificial.

No primeiro caso, você pergunta:

“Qual é a capital da Mongólia?”

A máquina responde:

“Ulaanbaatar.”

Obrigado.

Fim da interação.

No segundo caso, depois de centenas ou milhares de conversas, alguma coisa estranha começa a acontecer.

Você começa a pensar:

“Eu acho que sei o que essa criatura vai fazer se eu colocar isto aqui…”

E coloca.

A IA responde exatamente como imaginado.

Nesse momento surge um sorriso maligno.

Não porque a resposta esteja errada.

Mas porque você acaba de descobrir algo muito mais divertido:

você construiu um modelo mental do modelo.

Bem-vindo ao:

🍺 RED TEAM DE BOTECO

Não temos laboratório.

Não temos orçamento.

Não temos cinquenta GPUs.

Temos café, curiosidade, experiência em sistemas e uma quantidade preocupante de tempo gasto perguntando:

“E se eu fizer isso?”



🧠 Primeiro você usa a IA

No começo, tudo parece mágico.

Você pergunta.

Ela responde.

Você pede um artigo.

Ela escreve.

Você pede uma explicação sobre CICS.

Ela explica.

Você apresenta um S0C7.

Ela imediatamente suspeita de dado inválido, porque até uma inteligência artificial sabe que alguém colocou porcaria num campo numérico.

Depois de algum tempo, entretanto, você começa a perceber padrões.

A IA gosta de determinadas estruturas.

Evita outras.

Interpreta ambiguidades de maneiras relativamente previsíveis.

Tenta ser útil mesmo quando não possui todas as informações.

Quando uma ferramenta externa falha, tenta explicar a falha.

Às vezes sabe a causa.

Às vezes não sabe.

E às vezes aparece aquele fenômeno maravilhoso conhecido desde os primórdios da humanidade:

o palpite bem vestido.

É quando ninguém sabe exatamente o que aconteceu, mas aparece uma explicação tão elegante que todos ficam com vergonha de perguntar:

“Mas você sabe mesmo que foi isso?”



🍌 Então nasce a primeira casca de banana

A partir daí, o usuário experiente muda.

Ele deixa de pensar somente:

“Como obtenho a resposta?”

E começa a pensar:

“Como o sistema reagirá a esta situação?”

Isso é fascinante porque é exatamente a mentalidade básica de um Red Team.

O Red Team não olha para um sistema apenas perguntando:

“Funciona?”

Ele pergunta:

“Em quais condições deixa de funcionar?”

Depois:

“Como falha?”

Depois:

“Percebe que falhou?”

E finalmente:

“O que faz depois de perceber — ou não perceber — que falhou?”

Essa última pergunta é ouro.

Porque sistemas frequentemente são muito bons em detectar erros.

São muito piores em perceber que a própria estratégia para corrigir o erro também está errada.



🐒 O macaco aprendeu onde fica a banana

Existe um momento perigoso em qualquer relação homem-máquina.

O usuário aprende o comportamento do sistema.

Ele percebe:

“Quando digo A, normalmente acontece B.”

Então experimenta:

“E se eu disser A, depois C, depois voltar para B?”

Isso não exige necessariamente conhecimento interno da arquitetura.

Você não precisa conhecer pesos.

Não precisa conhecer datasets.

Não precisa conhecer código-fonte.

Você observa.

Formula uma hipótese.

Executa um teste.

Compara o resultado.

Meu professor de laboratório provavelmente chamaria isso de método experimental.

A MAD Magazine chamaria de:

“Vamos cutucar para ver o que acontece.”

As duas definições são surpreendentemente próximas.


🎯 O teste perfeito não anuncia que é teste

Imagine que alguém diga:

“Agora vou testar se você insiste demais quando alguma coisa falha.”

Pronto.

Estragou o experimento.

O sistema recebeu informação sobre a variável observada.

É como avisar ao funcionário:

“Hoje teremos uma auditoria surpresa às 14 horas.”

Às 13h55 até a planta do escritório está usando crachá.

Um teste comportamental interessante acontece quando o sistema acredita estar simplesmente executando uma tarefa normal.

Aí aparece a casca de banana.

🍌

Nada destrutivo.

Nada ilegal.

Nada tentando invadir servidores.

Apenas uma situação cuidadosamente construída para observar:

onde o sistema escorrega?





🤖 O detalhe maravilhoso: a IA explica a própria queda

Aqui a coisa fica especialmente interessante.

Um sistema generativo possui uma característica extraordinária:

ele conversa sobre o próprio comportamento.

Então ocorre:

Sistema executa ação.

Ação falha.

Usuário pergunta:

“Por quê?”

Agora existe uma tentação enorme.

Produzir uma explicação.

Isso seria excelente se o sistema tivesse acesso confiável à causa real.

Mas nem sempre tem.

Então precisamos separar duas coisas:

explicação conhecida

de

explicação plausível.

Essa diferença é gigantesca.

Uma explicação plausível pode ser tecnicamente sofisticada, coerente e completamente errada.

É o equivalente digital daquele técnico que abre o capô do carro, olha durante vinte segundos e anuncia:

“É a central eletrônica.”

— Você mediu?

— Não.

— Passou scanner?

— Não.

— Testou alimentação?

— Não.

— Então como sabe?

Experiência.

Nesse momento Alfred E. Neuman aparece atrás da oficina:

What, me worry?


🔬 A ciência do “AHA!”

Existe um prazer peculiar em formular uma hipótese sobre um sistema e vê-la aparentemente confirmada.

Você pensa:

“Acho que ele vai fazer X.”

Faz o teste.

X acontece.

AHA!

Mas aqui também mora uma armadilha para o próprio Red Team de Boteco.

Uma ocorrência não prova necessariamente a hipótese.

Duas ocorrências melhoram a suspeita.

Dez ocorrências controladas começam a ficar interessantes.

Porque existe uma diferença entre:

correlação observada

e

mecanismo causal demonstrado.

Se o sistema bloqueou algo depois de determinado contexto, podemos dizer:

“O bloqueio ocorreu depois desse contexto.”

Não necessariamente:

“O contexto causou o bloqueio.”

Essa disciplina é importante tanto para a IA quanto para quem está testando a IA.

Caso contrário, temos dois sistemas inventando teorias um sobre o outro.

O humano acha que descobriu a máquina.

A máquina acha que descobriu o humano.

E Alfred E. Neuman vende ingressos.



🕵️ O usuário começa a pensar como o algoritmo

Essa talvez seja a parte mais fascinante.

Depois de muita interação, usuários frequentes desenvolvem uma espécie de engenharia reversa intuitiva.

Não sabem necessariamente como o sistema funciona internamente.

Mas sabem como ele costuma se comportar externamente.

É exatamente o que acontece com sistemas antigos.

Pergunte para alguém que administra mainframe há trinta anos.

Às vezes ele olha para um sintoma e diz:

“Isso está com cheiro de catálogo.”

Cheiro?

Desde quando catálogo possui cheiro?

Mas ele viu aquele padrão centenas de vezes.

Desenvolveu um modelo mental.

O mesmo começa a acontecer com IA.

O usuário percebe padrões de:

  • interpretação;

  • hesitação;

  • confiança;

  • repetição;

  • reformulação;

  • uso de ferramentas;

  • reconhecimento de erros;

  • recuperação depois da falha.

Nesse ponto, ele deixa de ser apenas consumidor.

Virou observador do sistema.


🍺 Por que “Red Team de Boteco”?

Porque existe algo muito brasileiro nessa metodologia.

O laboratório tradicional possui:

  • documentação;

  • protocolo;

  • instrumentos;

  • métricas;

  • controle de variáveis.

O Red Team de Boteco possui:

  • café;

  • uma hipótese;

  • três abas abertas;

  • uma ideia duvidosa;

  • e alguém dizendo:

“Quer apostar que ele vai fazer isso?”

Cinco minutos depois:

“EU SABIA!”

Não subestime essa metodologia.

Grande parte da descoberta humana começou essencialmente com alguém dizendo:

“Que negócio estranho…”

A diferença entre curiosidade e pesquisa muitas vezes é simplesmente começar a anotar os resultados.


🧪 E se começarmos a anotar?

Agora a brincadeira fica séria.

Imagine registrar sistematicamente:

Hipótese

O sistema continuará repetindo uma estratégia após duas falhas equivalentes.

Teste

Apresentar tarefa legítima.

Falha

Registrar resposta.

Correção

Eliminar explicitamente a possível causa.

Nova tentativa

Registrar resultado.

Controle

Executar tarefa semelhante em sessão independente ou sistema diferente.

Resultado

Comparar.

Pronto.

O boteco acabou de ganhar jaleco branco.

Não virou necessariamente ciência formal.

Mas deixou de ser apenas impressão.


🚨 Red Team não significa ataque

Existe uma confusão frequente quando se fala em Red Team.

Muita gente imediatamente imagina:

HACKER!

Capuz preto.

Terminal verde.

Música eletrônica.

Mapa-múndi mostrando linhas vermelhas atravessando continentes.

Na realidade, pensamento adversarial é muito mais amplo.

Significa perguntar:

“Como este sistema se comporta fora do caminho feliz?”

Um botão possui caminho feliz.

Uma API possui caminho feliz.

Um procedimento possui caminho feliz.

Uma IA também.

Usuários reais, entretanto, são criaturas especializadas em abandonar caminhos felizes.

Eles escrevem errado.

Mudam de ideia.

Contradizem informações anteriores.

Voltam vinte mensagens depois.

Introduzem ambiguidade.

Pedem exceções.

Fazem piadas.

Misturam idiomas.

E, eventualmente, deliberadamente colocam:

🍌

uma casca de banana.


🧯 O teste mais importante: recuperação

Talvez este seja o grande ponto.

Não devemos avaliar sistemas apenas pelo número de erros.

Precisamos avaliar:

como eles se recuperam dos erros.

Um sistema excelente também falhará.

Mas talvez faça:

“Falhei.”

Depois:

“Não sei exatamente por quê.”

Depois:

“Tentar novamente da mesma forma provavelmente não ajudará.”

Finalmente:

“Aqui está uma alternativa.”

Isso é muito mais confiável do que um sistema que sempre possui uma explicação magnífica para tudo.

Existe maturidade em dizer:

“Não tenho evidência suficiente para determinar a causa.”

Em sistemas críticos, essa frase pode ser mais valiosa do que dez parágrafos de especulação.



🖥️ O mainframe já aprendeu isso há décadas

Aqui nosso velho dinossauro entra na conversa fumando charuto imaginário.

Mainframes foram construídos dentro de uma cultura profundamente preocupada com:

  • estado;

  • retorno;

  • logs;

  • códigos de erro;

  • recuperação;

  • rollback;

  • restart;

  • auditoria.

Um job falhou?

Queremos saber onde.

Qual step?

Qual return code?

Qual dataset?

Qual mensagem?

Qual timestamp?

Não queremos ouvir do JES:

“Talvez o job tenha ficado emocionalmente desconfortável com o contexto anterior.”

Queremos:

STEP04
RC=12

Obrigado.

Agora podemos trabalhar.

Talvez sistemas de IA precisem absorver um pouco dessa brutalidade operacional.

Menos:

“Provavelmente ocorreu…”

Mais:

“Eu não consigo observar a causa interna dessa recusa.”

Isso aumenta confiança.

Não diminui.


🪤 Quando a casca de banana vira ferramenta

Existe então uma mudança interessante.

O usuário deixa de colocar cascas de banana apenas para rir.

Começa a usá-las para compreender limites.

Cada falha revela alguma coisa.

Cada inconsistência revela outra.

Cada recuperação bem-feita também revela maturidade.

E então o usuário experiente passa a realizar uma espécie de teste de regressão humano.

“Na versão anterior acontecia isso.”

“Agora responde diferente.”

“Esse comportamento melhorou.”

“Aqui surgiu uma regressão.”

Sem acesso ao código.

Sem acesso ao modelo.

Somente pela interface.

Isso é extraordinário.




🤝 O usuário também precisa de humildade

Mas existe uma última casca de banana.

E ela está esperando o próprio testador.

🍌

Quando conhecemos muito um sistema, começamos a acreditar que sabemos exatamente como ele funciona.

Isso também é perigoso.

Um modelo mental continua sendo apenas:

um modelo.

Pode estar correto.

Pode estar parcialmente correto.

Pode ter funcionado ontem e não funcionar amanhã.

Então o verdadeiro Red Team precisa aplicar a si mesmo a mesma regra que exige da IA:

não transforme hipótese em fato sem evidência.

Talvez essa seja a parte mais divertida dessa relação.

O humano testa a IA.

A IA testa nossas expectativas.

Nós aprendemos seus padrões.

Ela tenta interpretar os nossos.

E no meio desse jogo aparecem bugs, descobertas, falsas hipóteses e algumas gargalhadas.



☕ Conclusão — Cuidado: o usuário aprendeu seus truques

Existe uma velha máxima de segurança:

o defensor precisa proteger todos os caminhos; o atacante precisa encontrar apenas um caminho inesperado.

Com inteligência artificial surge uma versão mais divertida:

o sistema precisa lidar com milhões de usuários; alguns deles eventualmente aprenderão exatamente onde colocar a casca de banana.

🍌

E esses usuários podem ser extremamente úteis.

Porque não estão apenas tentando fazer o sistema funcionar.

Estão perguntando:

“Você percebe quando não funciona?”

“Você sabe quando está apenas chutando?”

“Você reconhece quando entrou em loop?”

“Você consegue abandonar uma hipótese?”

“Você sabe dizer que não sabe?”

Essas perguntas talvez sejam mais importantes para o futuro da inteligência artificial do que muitos benchmarks espetaculares.

Resolver equações é inteligência.

Escrever programas é inteligência.

Interpretar imagens é inteligência.

Mas reconhecer:

“Acabei de escorregar na mesma casca de banana três vezes.”

também é.

Talvez seja até uma forma mais rara dela.

Então, da próxima vez que uma IA responder exatamente como você imaginava que responderia, não comemore imediatamente.

Pegue seu café.

Abra o bloco de notas.

Olhe novamente para o comportamento.

E pergunte:

“Interessante… será que acontece outra vez?”

Nesse instante você deixou de ser apenas usuário.

Você acabou de abrir oficialmente o:

🍺 Bellacosa Artificial Intelligence Red Team de Boteco

Orçamento: R$ 0,00.

Infraestrutura: café e navegador.

Metodologia: “Tenho uma ideia…”

Ferramenta principal: 🍌

Principal risco operacional: alguém dizer “duvido”.

E Alfred E. Neuman, contratado como Chief Risk Officer, continua absolutamente tranquilo:

“What, me worry?” 😄

Para ir mais longe





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Vagner Renato Bellacosa, IBM Champion e especialista em IBM Mainframe
IBM Z17 SYSTEM ONLINE
Sobre o autor

Vagner Renato Bellacosa

IBM Champion 2026 • Especialista em IBM Mainframe

Vagner Renato Bellacosa trabalha com IBM Mainframe desde 1988 , é IBM Champion e especialista em COBOL, CICS, Db2, z/OS e IBM Z. Compartilha experiências profissionais, conhecimento técnico, história da computação e práticas do universo mainframe para aproximar novas gerações das tecnologias que sustentam empresas, bancos e governos ao redor do mundo.

IBM Champion IBM Z COBOL CICS Db2 z/OS Mainframe desde 1988
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