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Quanto Custa um Programador?
Salário, custo de oportunidade, conhecimento tácito e o valor invisível de 30 anos de carreira
🔴🔵 Matrix, COBOL e a estranha economia onde sabemos o preço da hora, mas quase nunca sabemos o valor do conhecimento
Por Vagner Bellacosa
Existe uma pergunta aparentemente simples que empresas fazem todos os dias:
Quanto custa esse programador?
RH responde.
Procurement responde.
A consultoria responde.
O gerente responde.
O Excel responde.
Todo mundo parece conhecer a resposta.
R$ 50 por hora.
R$ 80.
R$ 120.
R$ 200.
R$ 300.
Depende da tecnologia, senioridade, contrato, localização, especialização e de uma dúzia de outras variáveis.
Simples.
Ou talvez não.
Pegue seu café.
Hoje Morpheus está esperando no CPD.
Sobre a mesa estão novamente duas pílulas.
🔵 A pílula azul pergunta:
Quanto custa contratar um programador por uma hora?
🔴 A vermelha pergunta:
Quanto custou produzir o profissional capaz de entregar aquela hora?
Parece a mesma pergunta.
Não é.
E talvez exista uma Matrix inteira escondida entre as duas respostas.
💊 A primeira Matrix: preço não é valor
Imagine um profissional COBOL com trinta anos de carreira.
Alguém olha sua contratação e escreve:
RESOURCE: COBOL DEVELOPER
LEVEL: SENIOR
RATE: R$ 100/H
Pronto.
Transformamos três décadas de vida numa linha de planilha.
Existe algo errado?
Não necessariamente.
Empresas precisam transformar coisas complexas em números.
Orçamentos precisam existir.
Projetos precisam ser estimados.
Contratos precisam estabelecer preços.
Não conseguimos escrever no procurement:
VALOR: DEPENDE DA HISTÓRIA DE VIDA DO CARLOS
O problema começa quando esquecemos que o preço utilizado para contratar alguma coisa não necessariamente representa seu valor total.
Preço é uma informação.
Valor é outra.
E conhecimento possui uma característica particularmente desagradável para planilhas:
ele é invisível.
🧑💻 Quanto custa fabricar um programador?
Vamos fazer um experimento.
Precisamos de um especialista.
COBOL.
JCL.
Db2.
CICS.
VSAM.
MQ.
Batch.
TSO/ISPF.
Um pouco de RACF.
Conhecimento de produção.
Experiência com sistemas financeiros.
Capacidade de diagnosticar incidentes.
Precisamos dele segunda-feira.
Onde compramos?
Não existe fábrica.
Não existe:
AMAZON
↓
COBOL SENIOR
↓
ENTREGA PRIME
↓
AMANHÃ ATÉ 22H
Aquele profissional precisou ser construído.
E sua fabricação talvez tenha começado décadas atrás.
Primeiro curso.
Primeiro emprego.
Primeiro programa.
Primeiro erro.
Primeiro abend.
Primeira madrugada.
Primeiro sistema crítico.
Primeira alteração que deu errado.
Primeira alteração que deu certo por um motivo que ele ainda não compreendia completamente.
Primeiro incidente sério.
Primeiro:
"Não mexa nisso."
Depois:
"Por quê?"
E finalmente, anos depois:
"Agora entendi por que ninguém mexia nisso."
Isso também é formação.
📚 O curso de R$ 1.000 que custou muito mais
Imagine que determinado treinamento custe R$ 1.000.
É tentador registrar:
CUSTO DO CONHECIMENTO = R$ 1.000
Mas talvez o profissional tenha estudado cem horas.
À noite.
Depois do trabalho.
Nos sábados.
Nos domingos.
Enquanto outras pessoas estavam viajando.
Assistindo televisão.
Namorando.
Brincando com os filhos.
Dormindo.
Vivendo.
Essas cem horas possuem valor.
Economistas chamam isso de custo de oportunidade.
Toda escolha implica abrir mão de outra possibilidade.
Quando escolhemos estudar, não sacrificamos apenas dinheiro.
Sacrificamos alternativas.
Agora multiplique isso por trinta anos.
Quantas noites?
Quantos finais de semana?
Quantos livros?
Quantos laboratórios?
Quantos cursos?
Quantas certificações?
Quantos experimentos?
Quantos programas escritos apenas para entender alguma coisa?
Quantos:
"Só mais meia hora..."
que viraram duas da manhã?
Existe uma linha que nunca aparece no currículo:
TEMPO INVESTIDO PARA ME TORNAR QUEM SOU: ????? HORAS
Talvez seja a linha mais cara de todas.
🧪 Você é seu próprio laboratório de P&D
Empresas investem em pesquisa e desenvolvimento.
Testam produtos.
Experimentam tecnologias.
Algumas dão certo.
Outras fracassam.
O profissional de tecnologia faz exatamente a mesma coisa consigo próprio.
Aprende uma linguagem.
Aprende um framework.
Compra um livro.
Monta um laboratório.
Estuda uma certificação.
Experimenta uma ferramenta.
Só que existe um pequeno detalhe.
Ele não sabe se aquele investimento dará retorno.
Em 1998 alguém diz:
"Aprenda X. É o futuro."
Você aprende.
Em 2001:
"Esqueça X. Agora todo mundo quer Y."
Você aprende Y.
Em 2008:
"Y morreu. O futuro é Z."
Lá vamos nós novamente.
Quem absorveu o custo das tecnologias que você estudou e nunca utilizou?
Você.
Quem pagou pelas noites?
Você.
Quem assumiu o risco de obsolescência?
Você.
Portanto, quando alguém diz que apenas a empresa assume risco, talvez devêssemos acrescentar uma pequena observação:
existem diferentes tipos de risco.
A empresa assume risco empresarial.
O profissional assume risco de carreira.
E carreira não possui UNDO.
⏳ Trinta anos não cabem em um currículo de duas páginas
Aqui começa algo fascinante.
Depois de algumas décadas, o profissional já não sabe apenas aquilo que consegue explicar.
Ele sabe coisas que simplesmente reconhece.
Olha um log.
Alguma coisa incomoda.
Olha uma sequência de jobs.
— Tem algo errado aqui.
O júnior pergunta:
— Onde?
O veterano responde:
— Ainda não sei.
Isso parece magia.
Não é.
É experiência acumulada.
Centenas de incidentes anteriores construíram padrões mentais.
O cérebro compara aquilo que está vendo com milhares de situações armazenadas.
É conhecimento tácito.
🧠 Conhecimento tácito: o arquivo que não está no SharePoint
Existe conhecimento explícito.
Manual.
Runbook.
Documentação.
Wiki.
Fluxograma.
JCL comentado.
Diagrama.
E existe conhecimento tácito.
É aquilo que alguém sabe porque viveu.
Por exemplo:
"Esse job pode atrasar vinte minutos normalmente. Se atrasar depois das 03:40, aí temos problema."
Onde está documentado?
Talvez em lugar nenhum.
"Esse campo parece inútil, mas o sistema da contabilidade ainda lê."
Documentado?
Talvez.
Atualizado?
Boa sorte.
"Nunca reinicie essa etapa sem verificar aquele arquivo."
Por quê?
— Em 2007 fizemos isso.
O que aconteceu?
— Melhor não repetir.
😂
Isso é conhecimento organizacional.
E frequentemente está armazenado na pior mídia de backup possível:
HUMAN BRAIN
SINGLE COPY
NO MIRROR
NO REPLICATION
NO DISASTER RECOVERY
Quando o profissional sai:
DELETE USER
REVOKE ACCESS
REMOVE EMAIL
RETURN NOTEBOOK
Perfeito.
Só esqueceram:
BACKUP EXPERIENCE
Comando inexistente.
💰 Então quanto custa aquela hora?
Agora podemos voltar ao nosso profissional.
O cliente paga hipoteticamente R$ 200/h.
Depois das camadas contratuais, o profissional talvez receba R$ 55/h.
Os números são ilustrativos.
Não estamos acusando ninguém.
Consultorias possuem custos.
Vendemm.
Recrutam.
Administram.
Gerenciam.
Assumem riscos.
Possuem impostos.
Mantêm estruturas.
Podem responder contratualmente pela entrega.
Tudo isso possui valor.
Mas nossa pergunta permanece:
Quanto dos R$ 200 representa acesso ao conhecimento acumulado do profissional e quanto desse valor chega a quem acumulou esse conhecimento?
Talvez a resposta seja perfeitamente razoável.
Talvez não.
Mas seria interessante conhecê-la.
Chamamos anteriormente essa diferença de:
Spread do Conhecimento
O cliente conhece quanto paga.
Cada intermediário conhece sua margem.
O profissional conhece quanto recebe.
Pouquíssimas pessoas conhecem a cadeia inteira.
CLIENTE
│
│ R$ 200/h
▼
CONSULTORIA
│
▼
SUBCONTRATADA
│
▼
FORNECEDOR
│
│ R$ 55/h
▼
PROFISSIONAL
Agora coloque atrás desse profissional:
30 ANOS DE EXPERIÊNCIA
MILHARES DE HORAS DE ESTUDO
DEZENAS DE PROJETOS
CENTENAS DE INCIDENTES
ERROS
ACERTOS
MADRUGADAS
CONHECIMENTO DE NEGÓCIO
CONHECIMENTO TÁCITO
R$ 55 continua sendo apenas preço.
A discussão sobre valor ficou bem mais complicada.
🏛️ E existe mais um participante na Matrix
Também precisamos lembrar do Estado.
CLT.
Contribuições.
Imposto de renda.
Previdência.
Tributos.
Benefícios.
Proteções.
Direitos.
Tudo isso faz parte da equação.
Novamente, duas pílulas.
🔵 A azul lembra corretamente:
direitos trabalhistas, previdência e proteção social possuem custos e benefícios reais.
🔴 A vermelha pergunta:
quanto da segurança futura de um trabalhador deveria depender de regras que podem mudar várias vezes durante uma carreira de quarenta ou cinquenta anos?
Não existe resposta simples.
A demografia muda.
A expectativa de vida muda.
A quantidade de contribuintes muda.
As contas públicas precisam fechar.
Reformas tornam-se necessárias.
Mas existe também a perspectiva humana.
A pessoa começou a trabalhar acreditando em determinada linha de chegada.
Décadas depois, pode encontrar outra regra.
É como executar:
PERFORM TRABALHAR
UNTIL APOSENTADORIA.
e descobrir no meio da execução:
*** PROGRAM UPDATED ***
*** NEW CONDITIONS APPLIED ***
O sistema precisa sobreviver.
Mas o trabalhador também.
⌛ O ativo que ninguém consegue devolver
Dinheiro perdido pode ser recuperado.
Emprego perdido pode ser substituído.
Servidor quebrado pode ser trocado.
Dataset pode ser restaurado.
Programa pode voltar de backup.
Existe apenas um ativo sem restore:
TIME
Não existe:
RESTORE MY-LIFE
FROM BACKUP
WHERE YEAR BETWEEN 1995 AND 2010.
Os melhores anos profissionais também são anos de vida.
E frequentemente construímos uma promessa silenciosa:
"Depois eu faço."
Depois eu viajo.
Depois escrevo.
Depois estudo aquilo por prazer.
Depois vou conhecer aquele lugar.
Depois descanso.
Depois aproveito.
Depois da aposentadoria.
Talvez dê certo.
Tomara que dê.
Mas ninguém possui SLA sobre o futuro.
Essa talvez seja uma das pílulas vermelhas mais desconfortáveis de todas.
🕯️ O Sr. Dornelles e o valor que não aparece no extrato
E aqui preciso fazer uma pausa.
Não para falar de uma multinacional.
Nem de um CEO.
Nem de algum bilionário da tecnologia.
Quero falar simplesmente do Sr. Dornelles.
Durante muitos anos, uma página dedicada ao COBOL tornou-se parte da memória afetiva e técnica de muita gente da comunidade.
CADCOBOL.
Quem viveu determinadas épocas da Internet técnica brasileira sabe exatamente o que significavam páginas assim.
Não existia necessariamente uma grande equipe editorial.
Não havia uma máquina gigantesca de marketing.
Existia alguém compartilhando conhecimento.
Exemplos.
Explicações.
Material técnico.
COBOL.
Experiência.
E do outro lado existiam estudantes e profissionais procurando respostas.
ALGUÉM TEM UMA DÚVIDA
↓
PESQUISA
↓
ENCONTRA CADCOBOL
↓
LÊ
↓
ENTENDE
↓
RESOLVE
↓
SEGUE A VIDA
Talvez consiga emprego.
Talvez resolva um incidente.
Talvez ensine outra pessoa.
Talvez aquele conhecimento entre num programa.
Talvez esse programa permaneça anos em produção.
Uma pequena pedra cai no lago.
As ondas continuam muito depois de perdermos a pedra de vista.
🌊 Quanto vale uma página que ensinou milhares?
Essa pergunta é quase impossível.
Imagine milhares de acessos.
Cada pessoa economizando dez minutos.
Uma hora.
Um dia.
Imagine alguém conseguindo compreender COBOL graças a um exemplo.
Imagine alguém usando aquele aprendizado numa entrevista.
Imagine outro professor utilizando a explicação para preparar uma aula.
Outro profissional compartilhando o link.
Outro resolvendo um problema de produção.
Qual foi o valor econômico total?
Não sabemos.
Provavelmente jamais saberemos.
Mas sabemos uma coisa:
não foi zero.
Agora vem o paradoxo.
Para quem acessou:
CUSTO DO CONTEÚDO = R$ 0,00
Mas para quem produziu:
TEMPO
CONHECIMENTO
HOSPEDAGEM
DOMÍNIO
MANUTENÇÃO
ESTUDO
VIDA
Gratuito nunca significou sem custo.
Significava apenas que alguém do outro lado estava pagando a conta.
❤️ Quando a seta muda de direção
Durante anos:
SR. DORNELLES
↓
CADCOBOL
↓
COMUNIDADE
Conhecimento saindo.
Compartilhamento.
Ajuda.
Memória.
Experiência.
Então chega um momento difícil da vida.
E aquela seta precisa inverter:
SR. DORNELLES
↑
COMUNIDADE
A comunidade ajuda.
Pessoas anônimas ajudam.
Colegas ajudam.
Isso é extraordinariamente bonito.
É humanidade funcionando.
Mas também deveria nos fazer pensar.
Não sobre uma pessoa específica.
Sobre nosso modelo de valorização do conhecimento.
Como alguém pode produzir durante décadas algo útil para milhares de pessoas e esse valor social acumulado não necessariamente se transformar em proteção econômica para seu próprio criador?
Não estou dizendo que alguém lhe devia royalties.
Não estou dizendo que cada pessoa que consultou uma página deveria ter pago.
Não estou procurando culpados.
Estou fazendo uma pergunta.
Morpheus também fazia perguntas.
🔴 A pílula vermelha do conhecimento gratuito
Nós adoramos conhecimento gratuito.
Eu adoro.
Você provavelmente também.
Software livre.
Documentação.
Blogs.
Vídeos.
Tutoriais.
Fóruns.
Stack Overflow.
GitHub.
Listas de discussão.
Páginas pessoais.
Quantas vezes nossa carreira foi salva por alguém que resolveu publicar gratuitamente aquilo que sabia?
Talvez centenas.
Mas raramente pensamos:
quem está pagando para esse conhecimento continuar existindo?
Existe uma economia invisível sustentando a Internet técnica.
Milhares de pessoas entregaram milhões de horas sem receber diretamente por elas.
E a sociedade tecnológica ficou extraordinariamente mais rica.
Só que os autores não ficaram necessariamente mais ricos junto com ela.
Essa é uma gigantesca externalidade positiva.
O conhecimento escapa.
Espalha-se.
Multiplica-se.
Produz valor em lugares que seu criador jamais conhecerá.
É maravilhoso.
E economicamente estranho.
🤖 Então chegou a IA
Agora a pergunta ficou ainda maior.
Durante décadas nós colocamos conhecimento na Internet.
Código.
Tutoriais.
Artigos.
Perguntas.
Respostas.
Livros.
Documentação.
Fóruns.
Repositórios.
Hoje construímos sistemas capazes de trabalhar sobre quantidades gigantescas de conhecimento humano.
Isso abre discussões jurídicas e econômicas enormes.
Mas existe uma pergunta filosófica anterior:
quanto da inteligência digital moderna nasceu de pessoas que simplesmente decidiram compartilhar aquilo que sabiam?
Não existe IA moderna sem uma história anterior de produção humana de conhecimento.
Não existe programador moderno isolado de tudo aquilo que outros programadores escreveram.
Somos todos, de alguma maneira, nós de uma enorme rede.
O conhecimento que recebi ontem entra naquilo que ensino amanhã.
🧓 Quanto vale um profissional de 30 anos?
Agora podemos finalmente responder à pergunta do título.
Quanto custa um programador com trinta anos de experiência?
Resposta:
não sabemos.
Sabemos quanto custa contratá-lo.
Isso é diferente.
Podemos calcular seu salário.
Sua hora.
Encargos.
Benefícios.
Margem.
Contrato.
Mas como colocamos preço em:
30 anos de decisões?
30 anos de erros?
30 anos de padrões reconhecidos?
30 anos de contatos profissionais?
30 anos de sistemas conhecidos?
30 anos de regras de negócio?
30 anos sabendo o que não fazer?
Essa última talvez seja uma das coisas mais valiosas.
O júnior sabe fazer.
O sênior sabe fazer melhor.
O veterano frequentemente sabe:
quando não fazer.
E evitar um erro pode valer muito mais do que escrever mil linhas de código.
🚨 O profissional de R$ 55 que vale R$ 50.000 às 03:17
Produção cai.
03:17.
War Room.
Executivos.
Operação.
DBA.
Sysprog.
Desenvolvimento.
Ninguém encontra a causa.
Até alguém perguntar:
— Quem conhecia isso?
Silêncio.
— O antigo analista.
— Chamem ele.
— O contrato acabou.
— Quando?
— Há dois anos.
Nesse momento ocorre uma transformação fascinante.
O mesmo conhecimento que procurement classificava como:
RATE = R$ 55/H
pode subitamente valer:
PRODUÇÃO PARADA = R$ ??????/MINUTO
Nada mudou na cabeça daquele profissional.
Mudou nossa percepção.
Talvez valor sempre estivesse ali.
Apenas não aparecia no Excel.
🕶️ Wake up, Neo
Talvez Thomas Anderson nunca tenha sido apenas um programador preso numa realidade simulada.
Talvez ele seja uma metáfora perfeita para o profissional moderno.
Durante o dia:
EMPLOYEE_ID
SALARY
JOB_TITLE
RATE
COST_CENTER
A organização sabe exatamente quanto Anderson custa.
Mas Neo começa a fazer outra pergunta:
Quanto vale aquilo que Anderson sabe?
Essa é a verdadeira pílula vermelha.
Não significa pedir demissão.
Não significa odiar empresas.
Não significa atacar bancos.
Não significa demonizar consultorias.
Não significa abandonar a CLT.
Não significa rejeitar previdência.
Não significa cobrar por cada tutorial que você publicou.
Significa apenas:
entender a arquitetura.
🔴🔵 As duas pílulas continuam sobre a mesa
🔵 Pílula azul
Seu salário é o preço acordado pelo seu trabalho.
Empresas assumem riscos.
Consultorias adicionam serviços.
Intermediários possuem custos.
O Estado oferece proteção e cobra por ela.
Contratos existem porque organizações precisam funcionar.
Tudo isso é verdade.
🔴 Pílula vermelha
Seu salário não mede necessariamente todo o valor do seu conhecimento.
Sua formação possui custos invisíveis.
Seu tempo possui custo de oportunidade.
Sua carreira contém risco.
Seu conhecimento tácito pode desaparecer quando você sair.
As regras podem mudar durante décadas.
Conhecimento gratuito possui custo.
E talvez aquilo que você sabe seja economicamente muito mais valioso do que aquilo que aparece no seu contracheque.
Isso também pode ser verdade.
As pílulas não precisam destruir uma à outra.
Talvez maturidade seja conseguir enxergar as duas.
☕ Cambio final, Torre de Controle
Depois de trinta anos, talvez a pergunta errada seja:
"Quanto ganha um programador?"
A pergunta interessante é:
"Quanto custou construir aquele programador?"
Cursos.
Livros.
Computadores.
Certificações.
Horas.
Noites.
Sábados.
Domingos.
Projetos.
Fracassos.
Sucessos.
Abends.
Produção.
Incidentes.
Amigos.
Mentores.
Professores.
Páginas como CADCOBOL.
Pessoas como o Sr. Dornelles.
Milhares de pequenos fragmentos de conhecimento emprestados por pessoas que vieram antes.
Tudo isso está sentado naquela cadeira.
Então alguém abre uma planilha.
Olha para o profissional.
E escreve:
RESOURCE COST = R$ 55/H
Talvez esteja correto.
Como preço.
Mas nunca confunda isso com a resposta para:
VALUE OF KNOWLEDGE = ?
Essa variável continua sem PIC.
Talvez seja grande demais.
E se algum dia você encontrar uma página antiga, um tutorial esquecido, um vídeo com poucas visualizações ou um veterano explicando gratuitamente algo que levou trinta anos para aprender...
pare um instante.
Leia.
Aprenda.
Compartilhe.
Agradeça.
Se puder, ajude a preservar.
Porque talvez você esteja diante de uma coisa que nossa Matrix ainda não aprendeu a contabilizar:
patrimônio humano.
E patrimônio humano possui uma característica curiosa.
Quando uma máquina antiga desaparece, podemos procurar outra no museu.
Quando um manual desaparece, talvez exista uma cópia.
Quando um dataset desaparece, talvez exista backup.
Quando uma pessoa que carregava décadas de conhecimento desaparece...
IEC999I KNOWLEDGE NOT FOUND
BACKUP DATASET DOES NOT EXIST
RETURN CODE = 12
Não existe restore.
Não existe rollback.
Não existe UNDO.
Só resta aquilo que ela conseguiu transmitir.
Por isso talvez nossa maior responsabilidade como comunidade não seja apenas aprender.
É preservar quem ensina, reconhecer quem compartilha e transmitir adiante aquilo que recebemos.
Sr. Dornelles:
esta xícara é para o senhor.
☕
Não como caridade.
Não como dívida.
Mas como reconhecimento.
Porque em algum ponto da carreira de milhares de profissionais existe uma linha invisível de código que talvez tenha começado numa página chamada CADCOBOL.
E nenhuma folha de pagamento jamais será capaz de calcular completamente o valor disso.
IDENTIFICATION DIVISION.
PROGRAM-ID. KNOWLEDGE-VALUE.
DATA DIVISION.
WORKING-STORAGE SECTION.
01 WS-SALARY PIC 9(09)V99.
01 WS-HOURLY-RATE PIC 9(07)V99.
01 WS-KNOWLEDGE-VALUE PIC X(30)
VALUE 'IMPOSSIBLE TO CALCULATE'.
PROCEDURE DIVISION.
DISPLAY 'PRICE CAN BE MEASURED'.
DISPLAY 'KNOWLEDGE CANNOT.'.
DISPLAY 'REMEMBER WHO TAUGHT YOU.'.
DISPLAY 'TEACH THE NEXT GENERATION.'.
STOP RUN.
🔴🔵
Wake up, Neo.
Seu crachá sabe quanto você custa.
Seu contracheque sabe quanto você recebe.
O procurement sabe quanto sua hora custa.
A consultoria sabe sua margem.
O Estado sabe quanto você deve.
Os boletos sabem exatamente onde encontrá-lo.
Mas talvez ninguém saiba realmente...
quanto vale tudo aquilo que existe entre suas orelhas.
☕ Cambio final, Torre de Controle.
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