| Bellacosa Maifnrame e o exodo dos cobolzeiros |
☕ Um Café no Bellacosa Mainframe
O Êxodo dos COBOLzeiros: quando ganhar menos em outra carreira começa a parecer um ótimo negócio
🔴🔵 Matrix, mainframe e o paradoxo de uma indústria que reclama da falta de especialistas enquanto torna cada vez menos atraente continuar sendo um deles
Por Vagner Bellacosa
VAGA:
30 ANOS DE EXPERIÊNCIA
COBOL
CICS
DB2
JCL
VSAM
MQ
RACF
PRODUÇÃO
SISTEMA FINANCEIRO
PLANTÃO
INCIDENTES
AUDITORIA
COMPLIANCE
DEVOPS
APIs
CONTRATO: 12 MESES
RENOVAÇÃO: INCERTA
CARREIRA: N/A
ESTABILIDADE: N/A
SALÁRIO: "A COMBINAR"
Neo olha para a tela.
Lê novamente.
Trinta anos de experiência.
COBOL.
CICS.
Db2.
JCL.
VSAM.
MQ.
RACF.
Produção.
Incidentes.
Auditoria.
Compliance.
DevOps.
APIs.
Disponibilidade.
Responsabilidade.
Conhecimento de negócio.
Contrato de doze meses.
Ele permanece alguns segundos olhando para o monitor.
Depois fecha a vaga.
Abre outra janela.
Morpheus aparece atrás dele.
— Vai para onde?
Neo olha para a tela.
— Ainda não sei.
Faz uma pausa.
E responde:
Só descobri que não preciso continuar aqui.
Silêncio.
Morpheus sorri.
Pegue seu café.
Hoje não vamos falar sobre como trazer gente para o mainframe.
Vamos falar sobre uma pergunta talvez ainda mais importante:
Por que alguns dos que já estão aqui começam a querer ir embora?
💊 Temos novamente duas pílulas
🔵 A pílula azul diz:
Existe falta de profissionais COBOL porque a tecnologia é antiga, muitos especialistas estão se aposentando e poucas pessoas entraram durante determinadas décadas.
Existe bastante verdade nisso.
Agora Morpheus levanta a outra mão.
🔴 A pílula vermelha pergunta:
E quantos profissionais que poderiam continuar simplesmente decidiram que continuar deixou de valer a pena?
Essa pergunta muda completamente o diagnóstico.
Porque talvez tenhamos passado anos discutindo apenas:
COMO COLOCAR MAIS GENTE?
quando deveríamos também perguntar:
POR QUE GENTE EXPERIENTE ESTÁ SAINDO?
São problemas diferentes.
E exigem soluções completamente diferentes.
🧓 O COBOLzeiro não nasceu sênior
Existe algo curioso quando olhamos para um profissional com trinta anos de experiência.
Parece que ele sempre esteve ali.
Como um IBM Z.
Você entra no CPD e imagina que aquilo nasceu junto com o prédio.
🤣
Mas não.
Aquele profissional precisou ser construído.
Começou sem saber.
Aprendeu COBOL.
Depois JCL.
Depois arquivos.
Depois banco de dados.
Depois CICS.
Depois produção.
Depois negócio.
Depois descobriu que produção é uma universidade que oferece cursos intensivos às três da manhã.
CURSO:
DIAGNÓSTICO DE INCIDENTES I
HORÁRIO:
03:17
INSTRUTOR:
PRODUÇÃO PARADA
MATERIAL DIDÁTICO:
SYSLOG
AVALIAÇÃO:
CEO ESPERANDO
Essa disciplina costuma formar especialistas rapidamente.
📚 Trinta anos comprimidos em “Senior Developer”
O currículo diz:
Senior Mainframe Developer.
Cinco palavras.
Atrás delas existem décadas.
Primeiro abend.
Primeira implantação.
Primeira recuperação.
Primeiro incidente crítico.
Primeira madrugada.
Primeira decisão errada.
Primeira vez que alguém disse:
“Isso nunca aconteceu antes.”
E ele descobriu que essa frase significa:
“Boa sorte.”
Tudo isso vira:
EXPERIENCE: 30 YEARS
É uma compressão extraordinária.
Mas existe um problema.
Esses trinta anos precisam continuar fazendo sentido economicamente para quem os carregou.
💰 O prêmio da complexidade
Toda profissão difícil precisa oferecer algum motivo para as pessoas continuarem nela.
Pode ser:
dinheiro,
estabilidade,
autonomia,
prestígio,
carreira,
benefícios,
aprendizado,
flexibilidade,
qualidade de vida,
propósito.
Normalmente é uma combinação.
Vamos chamar isso de:
Prêmio da Complexidade
Quanto mais difícil, arriscada, especializada ou desgastante uma atividade, maior precisa ser alguma forma de compensação.
Não necessariamente apenas salário.
Imagine:
ALTA RESPONSABILIDADE
+
ALTA ESPECIALIZAÇÃO
+
ALTA PRESSÃO
+
ALTA REGULAÇÃO
+
ALTA DISPONIBILIDADE
+
ALTO CUSTO DE FORMAÇÃO
+
ALTA CONSEQUÊNCIA DO ERRO
=
PRECISA EXISTIR ALGUMA
COMPENSAÇÃO ATRAENTE
Se ela desaparece, surge uma pergunta inevitável:
Por que continuar?
🏦 Software financeiro não é CRUD da padaria
Nada contra a padaria.
Aliás, adoro padaria.
Mas determinados sistemas financeiros carregam características particulares.
Um erro pode afetar:
milhares de clientes,
milhões de transações,
pagamentos,
cartões,
contabilidade,
investimentos,
crédito,
liquidação,
regulação,
reputação.
Portanto existe enorme quantidade de controle.
E corretamente.
Auditoria.
Segurança.
Segregação de funções.
Change management.
Homologação.
Compliance.
Arquitetura.
Gestão de risco.
Aprovações.
Revisões.
Evidências.
Nada disso existe apenas para irritar o programador.
São sistemas críticos.
Precisam de controle.
A pílula azul está correta.
🔴 Mas existe o outro lado
O profissional pode viver algo assim:
AUTONOMIA ............... ↓
BUROCRACIA .............. ↑
RESPONSABILIDADE ........ ↑
PRESSÃO ................. ↑
RISCO ................... ↑
CONTROLE ................ ↑
ESTABILIDADE ............ ↓
PRÊMIO SALARIAL ......... ↓
Então chega um momento em que ele olha para a equação e pergunta:
“Ainda vale?”
Não:
“O salário é bom?”
Essa é outra pergunta.
Ainda vale?
💵 R$ 15 mil pode ser muito e pouco ao mesmo tempo
Essa discussão exige cuidado.
Uma remuneração considerada alta em relação ao conjunto do mercado de trabalho pode ser percebida como insuficiente para determinada combinação de senioridade, especialização, pressão, risco, disponibilidade e instabilidade.
As duas coisas podem ser verdade.
O profissional não compara apenas:
MEU SALÁRIO
versus
SALÁRIO MÉDIO
Ele também compara:
MINHA REMUNERAÇÃO
versus
TUDO QUE PRECISO ENTREGAR
PARA RECEBÊ-LA
Essa segunda conta pode produzir resultados surpreendentes.
🧮 O ROI da própria carreira
Depois de décadas, o profissional começa a fazer algo que talvez não fizesse aos vinte anos.
Calcula o retorno da carreira.
ROI DA CARREIRA =
DINHEIRO
+ ESTABILIDADE
+ AUTONOMIA
+ RECONHECIMENTO
+ APRENDIZADO
+ QUALIDADE DE VIDA
-
PRESSÃO
- INCERTEZA
- TEMPO
- RESPONSABILIDADE
- ATUALIZAÇÃO
- BUROCRACIA
- PLANTÕES
- ESTRESSE
Obviamente isso não é uma equação financeira real.
É uma forma de pensar.
E então acontece algo fascinante.
Outra profissão pode pagar menos...
e apresentar ROI pessoal maior.
🚪 A porta lateral da Matrix
Imagine duas oportunidades.
Trabalho A
RENDA ............... 15
PRESSÃO .............. 9
INSTABILIDADE ........ 8
BUROCRACIA ........... 9
RESPONSABILIDADE ..... 10
AUTONOMIA ............ 3
Trabalho B
RENDA ............... 11
PRESSÃO .............. 4
INSTABILIDADE ........ 3
BUROCRACIA ........... 4
RESPONSABILIDADE ..... 6
AUTONOMIA ............ 7
Durante muito tempo imaginamos que A venceria automaticamente.
Porque:
15 > 11.
Mas seres humanos não executam apenas:
IF SALARY-A > SALARY-B
MOVE 'A' TO CAREER.
Existe vida em volta da variável.
☕ Quanto custa sua paz?
Essa talvez seja uma das perguntas mais interessantes que aparecem depois de décadas trabalhando.
Aos vinte anos:
Quanto consigo ganhar?
Depois:
Quanto consigo crescer?
Depois:
Quanto consigo acumular?
E talvez um dia:
Quanto estão me pagando para comprar minha paz?
Essa mudança altera tudo.
Quatro mil reais adicionais podem parecer extraordinários.
Até você descobrir que eles compram:
noites,
finais de semana,
plantões,
incerteza,
reuniões,
pressão,
deslocamento,
responsabilidade,
sono.
Então talvez alguém diga:
“Prefiro ganhar menos.”
Quem olha apenas para salário responde:
— Ficou maluco?
Quem olha para a função completa talvez responda:
— Interessante.
🏃 O profissional que saiu de TI
Existe uma narrativa comum:
“Fulano abandonou tecnologia.”
Como se tivesse fracassado.
Talvez não.
Talvez Fulano tenha feito uma sofisticada realocação de capital humano.
Ele descobriu que consegue produzir renda suficiente em outra atividade com:
menos pressão,
mais previsibilidade,
mais autonomia,
menos burocracia,
mais continuidade,
mais tempo.
Economicamente pode ser perfeitamente racional.
Ele não necessariamente desistiu.
Recalculou.
🏷️ O elo mais distante
Agora retornamos ao terceirizado e ao quarteirizado.
Imagine:
CLIENTE
↓
CONSULTORIA
↓
SUBCONTRATADA
↓
FORNECEDOR
↓
PROFISSIONAL
Quanto mais distante do contratante principal, menor pode ser seu poder sobre as decisões comerciais.
Mas sua proximidade com o risco técnico pode continuar enorme.
Ele não decide:
orçamento,
fornecedor,
contrato,
estratégia,
prazo comercial,
modelo de contratação.
Mas pode ser ele quem altera:
PROGRAMA DE PAGAMENTOS
Olha a assimetria:
PODER ORGANIZACIONAL ........ BAIXO
IMPACTO POTENCIAL
DE UM ERRO .................. ALTÍSSIMO
Isso deveria despertar alguma curiosidade.
👑 Muito cacique, pouco índio
Ambientes grandes inevitavelmente possuem hierarquias.
Gerente.
Coordenador.
Arquiteto.
Segurança.
Compliance.
Auditoria.
Produto.
Scrum Master.
Project Manager.
Change Manager.
Release Manager.
Fornecedor.
Subfornecedor.
Todos podem possuir funções legítimas.
O problema aparece quando quem efetivamente altera o sistema começa a perceber:
PESSOAS DIZENDO
COMO FAZER ................. 17
PESSOAS FAZENDO ............ 3
🤣
A burocracia deixa de parecer proteção e começa a parecer atrito.
E atrito também possui custo.
🔥 Pressão sem autonomia
Essa combinação merece atenção.
Alta responsabilidade com alta autonomia pode ser estimulante.
Baixa responsabilidade com baixa autonomia pode ser confortável.
Mas:
ALTA RESPONSABILIDADE
+
BAIXA AUTONOMIA
pode ser extremamente desgastante.
Você responde pelo resultado.
Mas não controla:
prazo,
ferramenta,
processo,
arquitetura,
fornecedor,
prioridade,
ambiente.
É como ser piloto de avião enquanto quinze pessoas seguram partes diferentes do manche.
E no final perguntam:
“Por que você não pousou melhor?”
📉 O prêmio salarial costumava silenciar muita coisa
Historicamente, determinadas carreiras técnicas conseguiam compensar ambientes difíceis oferecendo remuneração suficientemente atraente.
O profissional pensava:
É complicado.
É estressante.
Tem plantão.
Tem burocracia.
Mas paga muito bem.
Esse último item resolvia bastante coisa.
Não eliminava o problema.
Comprava tolerância ao problema.
Se o prêmio relativo diminui enquanto a complexidade permanece — ou aumenta — a equação muda.
ANTES:
COMPLEXIDADE = 10
COMPENSAÇÃO = 10
ACEITÁVEL
Depois:
COMPLEXIDADE = 12
COMPENSAÇÃO = 7
HUM...
Morpheus começa a aparecer novamente.
🧓 O veterano possui uma vantagem perigosa
Ele sabe que existem outras coisas.
Já viu empresas nascerem.
Empresas morrerem.
Tecnologias aparecerem.
Tecnologias desaparecerem.
Projetos terminarem.
Chefes mudarem.
Metodologias passarem.
Consultorias trocarem.
Ele descobre uma coisa libertadora:
Nenhum projeto é eterno.
Então começa a perder o medo de sair.
Esse é um momento importante.
Porque muitas relações de trabalho são sustentadas parcialmente pela percepção:
“Não existe alternativa.”
Quando o profissional percebe que existe...
a Matrix treme um pouquinho.
♻️ E ainda existe o leilão reverso
No capítulo anterior vimos algo particularmente estranho.
O profissional passa um ano aprendendo.
Agora sabe mais.
O contrato é renovado com outro fornecedor.
E recebe proposta menor para continuar.
EXPERIÊNCIA ........ +1 ANO
CONHECIMENTO ........ +1 ANO
PRODUTIVIDADE ....... ↑
SALÁRIO ............. ↓
Ele aceita.
Talvez.
Por causa dos boletos.
Mas alguma coisa mudou.
OPEN_TO_WORK = Y
A organização comemora retenção.
Tecnicamente ele ficou.
Humanamente talvez já tenha começado a sair.
🚨 Retenção física não é retenção emocional
Essa diferença é enorme.
O profissional está sentado na cadeira.
Logo:
“Retivemos.”
Não necessariamente.
Você reteve presença.
Talvez tenha perdido pertencimento.
Ele entrega.
Cumpre horários.
Resolve chamados.
Mas parou de:
sugerir,
experimentar,
ensinar espontaneamente,
ficar dez minutos extras,
defender a organização,
pensar no longo prazo.
Não porque virou mau profissional.
Ele apenas recalibrou a relação.
🚪 “É uma porta de entrada”
E então aparece:
“Aceite um pouco menos. Pense como uma porta de entrada.”
Entrada para onde?
Essa pergunta deveria ser automática.
Existe carreira?
Existem níveis?
Existem promoções?
Existe treinamento?
Existe realocação?
Existe bench?
Existe investimento?
Existe orçamento?
Ou existe apenas:
CLIENTE
↓
PROJETO
↓
12 MESES
↓
???
Promessa sem mecanismo não é plano de carreira.
É possibilidade.
Possibilidades podem acontecer.
Mas não deveriam ser vendidas como garantias.
🧬 O problema da não capitalização
Uma organização pode tratar conhecimento de duas maneiras.
Modelo 1 — Capital
CONTRATA
↓
TREINA
↓
DESENVOLVE
↓
CERTIFICA
↓
PROMOVE
↓
RETÉM
Ela acredita:
Essa pessoa será mais valiosa daqui a cinco anos.
Modelo 2 — Capacidade
PRECISO AGORA
↓
CONTRATO
↓
UTILIZO
↓
PROJETO TERMINA
↓
LIBERO
Nenhum dos modelos é automaticamente imoral.
O problema é querer obter do Modelo 2 o comportamento emocional do Modelo 1.
❤️ “Vista a camisa”
O profissional responde:
— De qual empresa?
🤣
Essa pergunta fica especialmente divertida quando existem quatro camadas contratuais.
CLIENTE
↓
CONSULTORIA A
↓
CONSULTORIA B
↓
EMPRESA C
↓
NEO
Qual camisa?
Quem oferece carreira?
Quem oferece estabilidade?
Quem investe?
Quem recebe lealdade?
Relacionamentos humanos precisam de alguma reciprocidade.
🧠 O Memory Leak humano
Agora chegamos ao ponto central.
A indústria diz:
“Estamos com falta de profissionais COBOL.”
Então criamos:
bootcamps,
cursos,
universidades,
programas de formação,
academias,
treinamentos.
Excelente.
Precisamos disso.
Mas imagine:
ENTRADA:
100 NOVOS PROFISSIONAIS
↓
SISTEMA
↓
SAÍDA:
30 MUDARAM DE TECNOLOGIA
20 MUDARAM DE CARREIRA
15 SE APOSENTARAM
10 SAÍRAM DO SETOR
25 CONTINUARAM
Talvez o problema não esteja apenas no INPUT.
Existe vazamento no OUTPUT.
💾 MEMORY LEAK DETECTED
Programadores conhecem esse problema.
Você continua alocando memória.
Mas não controla adequadamente o ciclo de vida.
Depois reclama:
“Onde foi parar toda a memória?”
No mercado de trabalho podemos fazer algo parecido.
ALLOCATE JUNIOR
ALLOCATE JUNIOR
ALLOCATE JUNIOR
ALLOCATE JUNIOR
FREE SENIOR
FREE SENIOR
FREE SENIOR
Depois:
ERROR:
SENIOR RESOURCE NOT AVAILABLE
🤣
Talvez não seja surpresa.
🔍 Shortage ou retention failure?
Essa distinção é fundamental.
Problema A
Não existem profissionais suficientes.
Solução:
TRAIN MORE
Problema B
Existem profissionais, mas muitos não querem continuar.
Solução:
MAKE STAYING WORTHWHILE
Se diagnosticarmos B como A, podemos passar décadas treinando gente para alimentar uma esteira que continua perdendo pessoas do outro lado.
🏚️ A casa com a porta dos fundos aberta
Imagine uma casa.
Pessoas entram pela frente.
BOOTCAMP
UNIVERSIDADE
CURSO
TREINAMENTO
Enquanto isso, atrás:
SÊNIOR
VETERANO
ESPECIALISTA
estão saindo.
A administração olha para a fila da frente:
Precisamos aumentar recrutamento!
Talvez.
Mas alguém deveria verificar a porta dos fundos.
💰 Retenção também é economia
Existe uma ironia nisso.
Reter alguém parece caro.
Aumento salarial.
Benefício.
Treinamento.
Carreira.
Flexibilidade.
Mas substituir também custa.
Recrutamento.
Onboarding.
Treinamento.
Curva de aprendizado.
Erros.
Produtividade menor.
Conhecimento perdido.
Mentoria.
Risco operacional.
Talvez:
CUSTO DE RETER
<
CUSTO DE SUBSTITUIR
Mas o primeiro aparece claramente na planilha.
O segundo está espalhado por quinze centros de custo.
E aquilo que está espalhado é muito mais fácil de ignorar.
🕯️ Conhecimento não sai sozinho
Quando um veterano vai embora, não perdemos apenas:
HEADCOUNT = -1
Podemos perder:
história,
contexto,
atalhos,
memória de incidentes,
relações,
conhecimento tácito,
capacidade de diagnóstico,
mentoria,
decisões que nunca foram documentadas.
Um profissional pode ser substituído administrativamente em quinze dias.
Sua experiência talvez leve quinze anos.
🤖 “IA vai resolver”
Talvez ajude enormemente.
IA pode:
explicar COBOL,
documentar código,
ajudar novos profissionais,
buscar conhecimento,
gerar testes,
resumir sistemas,
auxiliar modernização.
Fantástico.
Mas existe uma armadilha.
Se usarmos IA apenas para concluir:
“Agora posso pagar ainda menos porque a máquina ajuda.”
talvez estejamos repetindo exatamente o problema.
Tecnologia deveria aumentar produtividade.
A pergunta econômica continua:
Quem captura esse ganho?
A empresa?
O profissional?
O cliente?
Todos?
Se cada salto de produtividade apenas comprime a remuneração de quem permaneceu, o incentivo para permanecer continua diminuindo.
🧑🏫 O veterano como multiplicador
Talvez estejamos calculando errado o valor do sênior.
Ele não produz apenas aquilo que faz.
Produz aquilo que permite outros fazerem.
VETERANO
│
├── resolve problemas
├── evita erros
├── ensina juniores
├── preserva contexto
├── acelera diagnóstico
└── transmite cultura técnica
Sua produtividade real é multiplicativa.
Quando ele sai, talvez não percamos uma unidade.
Perdemos parte da eficiência de outras dez.
Boa sorte colocando isso no Excel.
🔴 A verdadeira escassez
Talvez a escassez mais perigosa não seja:
“Pouca gente sabe COBOL.”
Talvez seja:
“Pouca gente que sabe COBOL ainda acha interessante continuar fazendo COBOL nas condições oferecidas.”
Essa frase muda tudo.
Porque conhecimento pode existir.
O profissional pode existir.
A vaga pode existir.
O salário pode parecer bom.
E mesmo assim:
MATCH = FALSE
O mercado chama isso de falta de talento.
O profissional chama de:
“Não vale a pena.”
🧭 O dinheiro não precisa vencer tudo
Esse talvez seja o grande aprendizado.
Durante muito tempo algumas profissões conseguiam comprar tolerância.
O ambiente era difícil.
Mas o salário dizia:
Aguente.
Quando essa diferença diminui, outras variáveis começam a falar mais alto.
Tempo.
Família.
Sono.
Autonomia.
Continuidade.
Saúde.
Liberdade.
Projetos pessoais.
Curiosidade.
Paz.
E então ganhar menos pode realmente começar a parecer um excelente negócio.
🕶️ Wake up, Neo
Voltamos àquela vaga.
COBOL
CICS
DB2
JCL
VSAM
MQ
RACF
30 ANOS
PRODUÇÃO
PLANTÃO
COMPLIANCE
AUDITORIA
APIs
DEVOPS
CONTRATO: 12 MESES
Neo olha.
Durante trinta anos pensou:
Preciso encontrar o próximo projeto.
Desta vez surge outra pergunta:
Preciso?
Talvez possa ensinar.
Talvez possa empreender.
Talvez possa trabalhar com outra tecnologia.
Talvez possa aceitar uma atividade que pague menos.
Talvez possa transformar conhecimento em conteúdo.
Talvez possa fazer consultoria própria.
Talvez possa simplesmente escolher uma vida menos complicada.
O importante não é qual alternativa escolherá.
É perceber que existem alternativas.
🔵 A pílula azul
Mainframe continua processando alguns dos sistemas mais importantes do planeta.
COBOL continua possuindo enorme relevância em sistemas críticos.
Existem excelentes empresas.
Excelentes carreiras.
Excelentes salários.
Excelentes projetos.
Existem organizações que valorizam veteranos.
Treinam novos profissionais.
Constroem sucessão.
Investem em conhecimento.
Criam ambientes onde pessoas querem permanecer.
Não existe inevitavelmente um êxodo universal.
E transformar a discussão em “mainframe é uma carreira ruim” seria intelectualmente preguiçoso.
Não é isso.
🔴 A pílula vermelha
A tecnologia pode continuar excelente enquanto determinadas relações econômicas se tornam pouco atraentes.
Uma plataforma pode ser estratégica enquanto o profissional que a mantém se sente commodity.
Uma empresa pode reclamar da escassez enquanto contribui para a rotatividade.
Um salário pode ser alto e ainda assim não pagar adequadamente o pacote de pressão, risco e instabilidade exigido.
E uma indústria pode investir milhões formando profissionais enquanto economiza milhares de reais de maneira que incentiva veteranos a sair.
As duas realidades podem coexistir.
☕ Cambio final, Torre de Controle
Talvez estejamos fazendo a pergunta errada.
Perguntamos:
Onde encontraremos os próximos COBOLzeiros?
Boa pergunta.
Mas existe outra antes dela:
O que estamos fazendo para que os COBOLzeiros atuais queiram continuar sendo COBOLzeiros?
Porque não basta formar.
É preciso reter.
Não basta contratar.
É preciso tornar a permanência racional.
Não basta dizer:
“Você é estratégico.”
Se o contrato diz:
12 MESES
Não basta dizer:
“Seu conhecimento é crítico.”
Se a remuneração diz:
COMMODITY
Não basta dizer:
“Temos dificuldade em encontrar profissionais.”
se toda renovação pergunta:
CONSEGUE FAZER MAIS BARATO?
Em algum momento o profissional também fará sua própria concorrência.
Só que os fornecedores serão:
CARREIRA A
CARREIRA B
CONSULTORIA PRÓPRIA
ENSINO
EMPREENDER
OUTRA TECNOLOGIA
TRABALHAR MENOS
VIVER MAIS
E talvez mainframe não apresente a proposta vencedora.
Neo fecha a vaga.
Morpheus pergunta:
— Você vai aceitar ganhar menos?
Neo responde:
— Talvez.
— Isso não é um retrocesso?
Neo sorri.
— Depende daquilo que estou comprando com a diferença.
Morpheus permanece em silêncio.
Neo continua:
Talvez eu esteja comprando tempo.
Talvez esteja comprando previsibilidade.
Talvez esteja comprando autonomia.
Talvez esteja comprando paz.
Talvez eu finalmente tenha percebido que salário não é a única moeda da Matrix.
Na tela:
CAREER OPTIONS
SALARY .............. -20%
PRESSURE ............ -60%
INSTABILITY ......... -70%
BUREAUCRACY ......... -50%
AUTONOMY ............ +40%
FREE TIME ........... +50%
CONTINUE? Y/N
Neo digita:
Y
ENTER.
E talvez, meses depois, alguém abra uma reunião executiva.
Slide número 27.
Título:
MAINFRAME SKILLS SHORTAGE
Um executivo pergunta:
— Por que está tão difícil encontrar especialistas?
A sala fica em silêncio.
Alguém sugere:
— Precisamos formar mais gente.
Boa ideia.
Mais bootcamps.
Mais cursos.
Mais academias.
Mais programas de capacitação.
Mas ninguém pergunta:
Onde foram parar aqueles que já tínhamos?
Essa pergunta não estava no PowerPoint.
Talvez devesse estar.
IDENTIFICATION DIVISION.
PROGRAM-ID. SKILLS-SHORTAGE.
DATA DIVISION.
WORKING-STORAGE SECTION.
01 WS-NEW-TALENT PIC 9(05).
01 WS-SENIORS-LEFT PIC 9(05).
01 WS-RETENTION PIC 9(03)V99.
01 WS-WILLINGNESS PIC 9(03)V99.
PROCEDURE DIVISION.
PERFORM TRAIN-NEW-PEOPLE.
IF WS-SENIORS-LEFT > 0
DISPLAY
'WARNING: CHECK THE BACK DOOR'
END-IF.
IF WS-WILLINGNESS < ACCEPTABLE
DISPLAY
'SHORTAGE MAY NOT BE
A TRAINING PROBLEM'
END-IF.
DISPLAY
'MAKE STAYING WORTHWHILE'.
STOP RUN.
🔴🔵
Wake up, Neo.
Talvez não estejam faltando apenas COBOLzeiros.
Talvez alguns simplesmente tenham descoberto que existe vida fora da Matrix.
E quando um profissional altamente especializado percebe que pode ganhar um pouco menos em troca de muito mais continuidade, autonomia, previsibilidade e paz...
o problema deixa de ser recrutamento.
Passa a ser proposta de valor da carreira.
Porque salário não remunera apenas trabalho.
Em profissões difíceis, ele também precisa remunerar:
a vontade de continuar fazendo aquele trabalho.
E quando essa conta deixa de fechar...
não existe PROCUREMENT, BOOTCAMP, POWERPOINT ou OPEN POSITION capaz de obrigar Neo a tomar novamente a pílula azul.
☕ Cambio final, Torre de Controle.
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